Teremos eleições este ano. A população brasileira já está, há um bom tempo, pensando sobre isso, escolhendo seu candidato, refletindo sobre as mudanças (ou não) que deseja para o nosso país. E nós, cristãos, não estamos de fora dessa situação: como cidadãos brasileiros, participamos do processo eleitoral, conversamos sobre política, gostamos de uns candidatos e não gostamos de outros. Até aí, tudo bem, faz parte. Porém, tenho visto – e, possivelmente, você também – debates entre cristãos sobre a política nacional serem realizados de maneira nada cristã. Isso me fez refletir sobre se existe um modo bíblico de discutir política, em especial, neste ano de fortes emoções eleitorais. Gostaria de refletir com você sobre essa questão. E, de saída, deixe-me frisar: esta não é uma reflexão política, mas sobre valores do evangelho e da nossa coerência em vivê-los quando pisamos no gelo fino de nossas paixões humanas.

Atualmente, poucos assuntos fazem cristãos se comportarem como se não fossem cristãos tanto quanto a política brasileira. Eu falo muito pouco sobre o assunto aqui no blog e nas redes sociais, justamente para evitar que as pessoas explodam em suas paixões ideológicas devido a algo que eu vier a escrever. Infelizmente, nas poucas vezes em que comentei algo sobre política, deparei com reações que me assustaram. Explosões, ofensas, desqualificações, ataques pessoais – tudo, como consequência de comentários naturais e da exposição de opiniões.

A triste realidade é que existem pessoas cujas paixões por políticos, partidos e ideologias mostram ser maiores do que seu amor por Cristo e pelo próximo. São cristãos, frequentam cultos, leem a Bíblia, cantam louvores, postam versículos nas redes sociais e se parecem com qualquer outro cristão. Mas, isso, só até alguém incomodá-los em suas paixões políticas e ideológicas. Quando isso acontece, eles explodem em ataques e posicionamentos bastante carnais e mundanos.

Para que você entenda de modo prático sobre o que estou falando, deixe-me dar dois exemplos que aconteceram comigo. No início do ano, publiquei uma foto no meu facebook que tirei junto a um dos candidatos à presidência deste ano, a quem encontrei em Brasília. No texto, eu não disse nada sobre se votaria ou não nessa pessoa, apenas falei que era interessante ouvir o que tal indivíduo tinha a dizer sobre certos assuntos. Mesmo assim, tive de ler comentários de pessoas que me acompanham há anos dizendo coisas escabrosas sobre a pessoa, sobre mim e sobre a foto. Mas tudo bem, coisas da vida, vamos em frente.

Há duas semanas, postei, também no facebook, um comentário sobre o fato de o desembargador petista ter tentado libertar o ex-presidente Lula da prisão – em minha opinião, uma manobra visivelmente parcial do magistrado, um homem que construiu sua história profissional como militante do partido do ex-presidente. Posso estar errado, mas é minha opinião. Bem, para que fiz a postagem? Logo, dois irmãos em Cristo me ofenderam nos comentários. Um deles escreveu: “Maurício, escreve uma nota de repúdio contra o ministro do supremo Alexandre do PSDB e PMDB, ao arquivar todas as denúncias contra Aécio Neves e seus pares. Deixa de ser parcial! [Você] é bem melhor escrevendo os livros de ‘autoajuda’ que seus comentários políticos”.

Meu queixo caiu. Pisquei algumas vezes. Custei a acreditar no que estava lendo. Aquele irmão em Cristo, aluno de seminário teológico, membro de uma denominação que carrego em meu coração, atacou-me pessoalmente e chamou o que escrevo, depreciativamente, de “autoajuda” simplesmente porque a minha opinião divergia da dele em questões políticas. Na verdade, minha divergência nem era política, mas sobre a correta aplicação da justiça. Era bíblica. Porque Deus criticou muitas vezes, por meio de profetas como Amós e Oseias, o fato de juízes de Israel e Judá se corromperem e legislarem em prol de seus interesses e não de acordo com o que é correto. Portanto, quem ama a Bíblia e quem toma para si os valores que Deus deixou claros deve amar a justiça e sua correta aplicação pelos membros do poder judiciário. Doa a quem doer.

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Percebi que qualquer respeito que aquele meu “amigo” do facebook tinha por mim acabou em um segundo simplesmente porque divergimos em opiniões relacionadas ao cumprimento da justiça. Pior: essa divergência o levou a atacar não as minhas opiniões, mas a minha pessoa e aquilo que faço, chamando-me de parcial e chamando a literatura que escrevo de “autoajuda”. Doeu. E doeu ainda mais porque foi uma atitude de um irmão em Cristo. É isso que Jesus nos ensinou a fazer com pessoas que discordam de nós?

Esse episódio levou-me a muitos pensamentos. O que está acontecendo com a Igreja? O que está acontecendo com os cristãos? Desde quando, o evangelho de Cristo nos dá carta branca para tratarmos de maneira depreciativa pessoas que discordam de nós em algumas questões da vida? O que, afinal, o evangelho nos ensina sobre o posicionamento correto em meio a discordâncias?

Meu irmão, minha irmã, ao longo deste ano, você verá muitos debates político-eleitorais. Possivelmente, será atraído para participar de alguns, em especial nas redes sociais. Muita gente do seu círculo de relacionamentos se posicionará discordando de um monte de coisas em que você acredita. A questão é: o fato de ser um debate político lhe dá direito de colocar seu cristianismo de lado? O fato de alguém gostar daquele político ou daquele partido de que você não gosta lhe dá o direito de agir como um mundano, ofendendo, desmerecendo e desqualificando – e, no domingo, ir à igreja cantar, levantar as mãos e saudar com “a paz do Senhor” como se nada tivesse acontecido?

Creio que você sabe a resposta.

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O fato de você votar em Bolsonaro, Marina, Ciro ou qualquer outro candidato não me dá o mínimo direito, aos olhos de Deus, para destratar você ou enxergar em você menos dignidade do que Deus lhe confere. Você segue sendo filho ou filha, criado à imagem e semelhança do Senhor. Quem sou eu para tratá-lo de modo ultrajante simplesmente porque você tem visões ideológicas ou políticas diferentes das minhas? Eu seria um louco se fizesse isso, à luz do evangelho. Jesus nos alertou:

“Vocês ouviram o que foi dito a seus antepassados: ‘Não mate. Se cometer homicídio, estará sujeito a julgamento’.a Eu, porém, lhes digo que basta irar-se contra alguém para estar sujeito a julgamento. Quem xingar alguém de estúpido, corre o risco de ser levado ao tribunal. Quem chamar alguém de louco, corre o risco de ir para o inferno de fogo. Portanto, se você estiver apresentando uma oferta no altar do templo e se lembrar de que alguém tem algo contra você, deixe sua oferta ali no altar. Vá, reconcilie-se com a pessoa e então volte e apresente sua oferta. Quando você e seu adversário estiverem a caminho do tribunal, acertem logo suas diferenças. Do contrário, pode ser que o acusador o entregue ao juiz, e o juiz, a um oficial, e você seja lançado na prisão. Eu lhe digo a verdade: você não será solto enquanto não tiver pago até o último centavo” (Mt 5.21-26).

Não sei como você enxerga essas palavras de Jesus. Eu as enxergo com um monumental senso de temor e horror. São advertências gravíssimas, às quais multidões não dão nenhuma atenção. Acham legal e bonito Jesus ter dito isso, mas, na prática, basta alguém tocar no político ou no partido político de que são tietes para fazerem tudo ao contrário do que Jesus está dizendo aqui. Isso é grave – muito, muito grave. É um alerta que deveria nos lançar de joelhos, clamando por misericórdia, pelo nosso tão frequente pecado sem arrependimento nem confissão e, muito menos, abandono.

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Você quer saber o jeito bíblico de discutir política em ano de eleição? É simples. Com amor. Com alegria. Com paz. Com paciência. Com amabilidade. Com bondade. Com fidelidade. Com mansidão. Com domínio próprio. Isto é, manifestando em nossas palavras e em nossos posicionamentos nas discussões sobre política as virtudes que o Espírito Santo manifesta naqueles que verdadeiramente são nascidos de novo pela graça da cruz e, por isso, se tornaram seu local especial de habitação. Se você vir um cristão participando de debates neste ano eleitoral sem manifestar essas virtudes, desconfie. Pois um verdadeiro Filho de Deus não porá de lado o fruto do Espírito porque alguém criticou seu candidato, seu partido ou a ideologia em que acredita. O evangelho está acima disso.

Essas eleições, aliás, são uma excelente ocasião para se testar a fidelidade de fé dos cristãos brasileiros. Vamos ver quem ama mais Lula do que Cristo. Quem ama mais Marina do que o irmão da igreja. Quem ama mais Bolsonaro do que o amigo do facebook. Quem ama mais a direita ou a esquerda do que o próximo e, logo, o reino de Deus. Vamos ver quem sabe falar com mansidão para com todos, como Paulo nos orientou. Quem não deixa o sol se pôr sobre a própria ira. Quem é um pacificador e quem é um incitador. Quem ama o próximo como a si mesmo. Quem ama o inimigo, como Jesus ordenou. Será um ano de grandes revelações.

Se esta reflexão chegou até você, é porque Deus quer falar com você sobre isso. Não com seu vizinho: com você. Medite sobre como tem agido nos debates sobre política. Pense em como tem se comportado quando fazem piadas de seu candidato ou debocham do partido de que você gosta. Lembre-se de algo: no dia em que você der o passo derradeiro para fora desta vida, tudo isso ficará para trás. Mas o jeito como você se relacionou com o próximo nesta vida – inclusive o próximo que discorda de você e, até, o ofende – ecoará por toda a eternidade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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comentários
  1. MARIA LUCIA disse:

    É verdade Mauricio, infelizmente vemos muitos cristãos compactuando com politicos comprovadamente envolvidos com corrupção, com coisas erradas que desagradam a Deus e vão contra a Sua Palavra, somente pelo fato de simpatizarem com este individuo e por um dia, láaaaa atrás ter sido uma pessoa com boas ideologias. É muito triste, e mais ainda por estarem tão cegas que outra pessoa não pode fazer um comentário, dar uma opinião para que já se levante em contenda, cheia de razão e de direito. Enquanto isso o direito do outro pensar e opinar não poderá existir. E este ano, como você falou, ano de eleição… e as coisas se complicando, se afunilando mais… É tempo de pedir discernimento a Deus, para que oriente o nosso voto. Sabemos pela Bíblia, que as autoridades são constituídas por Deus, mas cabe a cada um de nós pedir a direção dEle para podermos constituirmos estas autoridades para que não venhamos a sofrer as consequencias de uma escolha errada.
    Excelente a sua colocação. Que Deus abençoe a nós e a nossa nação.

    Fica na paz.

  2. GUILHERMINA CORREIA disse:

    Olá irmão Maurício !!!

    Li a sua Mensagem com toda a atenção.
    Estou em TOTAL ACORDO CONSIGO.
    Está escrito em I TIMÓTEO 2, que devemos orar por todos os Homens que estão em
    Autoridade, para que tenhamos Paz e Segurança.
    E praticar os Frutos do Espírito. Gálatas 5.
    Quem somos nós para Julgar ???
    DEUS ama a TODOS de igual modo. AMÉN.
    Abraço. DEUS O ABENÇOE.

    Irmã em CRISTO – Guilhermina Correia – Lisboa – Portugal

  3. Bruno de Oliveira disse:

    Parabéns Maurício.

    O que precisamos hoje em dia é de equilíbrio. Realmente, o posicionamento de alguns irmãos em Cristo em relação a política está complicado.

    Uns que se intitulam conservadores e transpõem o amor ao próximo, querem até pena de morte.
    Outros ditos de esquerda que demonstram paixão por Lula, mesmo preso após todo um processo judicial. Querendo a prisão de um Juíz, que abandonam o culto enquanto o irmão Deltan Dallagnol ministrava a palavra.

    Precisamos de equilíbrio. Como sempre sugeriu o Pastor John Stott, C.S. Lewis e outros cristãos sóbrios, ao tratarem da fé pública, da participação social do cristão.

    Sejamos este sal temperado em uma terra sem sabor e doente.

    Deus lhe abençoe!

  4. JONATHAS MARTINS disse:

    Postagem muito oportuna, prezado Zágari! Que ela chegue a mais corações! A paz do Senhor!

  5. Fabio disse:

    Olá Maurício,
    Não se decepcione porque infelizmente há muitos cristãos bebês mimados que adoram uma chupetinha rsrsrs ………. oremos por maturidade.

    Abraço !!

  6. Natanael C. Silva disse:

    Boa e oportuna palavra. Como é difícil expor opiniões sobre alguns assuntos: politica, futebol, religião, costumes, etc. Parece que a gente ter opinião própria e diferente sobre determinado assunto, é ofensivo para algumas pessoas. Como vc diz: distrata o irmão, ofende, se exaspera, e depois se apresenta na igreja como se fosse a coisa mais normal do mundo, participa da ceia, entrega o dízimo, sorri pra todos. De fato, o pecado parece não incomodar mais a ninguém. Muitos lideres e pastores deixaram até de falar no assunto. Que cristianismo raso e oco estamos vivendo. Que Deus tenha piedade de nós.

  7. Greize disse:

    Que texto fantástico.Como eu não tenho candidatos para nenhum cargo. E confesso estou muito desanimada com as eleições.Não estou entrando no assunto de política com ninguém. Mas uma coisa já resolvi.Aliás duas. Não dou meu voto a pastores. Me decepcionei uma vez e hj não creio que seja lugar deles.
    A segunda coisa é ficar longe das redes sociais quando começar a campanha eleitoral. Ficará mais insuportável do que já está.
    E será uma péssima influência.

    Melhor será observar os candidatos, pesquisar e tirar cada um sua própria conclusão.
    Parabéns pelo texto.

  8. Julio disse:

    Vivemos em período histórico de total falta de equilíbrio por parte das pessoas. Somos constantemente forçados a tomar partido político/ideológico como se isso refletisse o nosso caráter de forma plena. Parece tudo muito simples e “preto e branco”: se busco justiça social sou um comunista satânico; se creio em um padrão moral absoluto e não relativo sou um conservador falso moralista e hipócrita. Quanto mais estudo as escrituras mais me convenço que o que Cristo/Deus quer de nós vai muito além de um rotulo político. E quando passamos por um processo genuíno de regeneração por meio do espírito santo a postura bíblica que devemos realmente ter em qualquer área de nossas vidas acaba naturalmente se evidenciando.
    Portanto é sempre bom lembrar que diante do esgoto moral do nosso Congresso não existe NENHUM político que mereça de fato nosso apoio, principalmente os “evangélicos” (Esses são verdadeiras vergonhas para o Evangelho Genuíno e são piores do que os outros pois o seu compromisso deveria ser muito maior).
    Por fim, sempre que alguém que eu amo tem posições políticas diferentes da minha eu sempre tento pensar que o meu amor por ela é muito maior do que a minha discordância.

  9. Debora Senra disse:

    Excelente reflexao. Parabens! Falou muito comigo!

  10. EDINA OLIVEIRA disse:

    Bom dia Mauricio, a Paz de Cristo!

    Meus parabéns, meu irmão! “Bem aventurados os Pacificadores, porque deles é o Reino dos céus.”
    Você é um grande exemplo de como dever ser um Cristão, pois está claro que você é um Pacificador.
    Gosto muito do que você escreve, suas palavras são como um bálsamo, pois elas vem do coração de Deus para o seu coração. Deus te abençoe!

    PS. Onde posso ter acesso aos livros da Bíblia que foram dublados por você? Quero baixar e salvar em um Pen drive para ser ouvido em um radinho de mão por um velhinho do asilo de idosos que não enxerga.

    • Olá, Edina,
      .
      muito obrigado pelo carinho das suas palavras. Somos apenas esforçados.
      .
      Querida, o YouTube por alguma razão bloqueou todos aqueles áudios e, por essa razão, infelizmente não estão mais acessíveis.
      .
      Abraço fraterno,
      mz
      (facebook.com/mauriciozagariescritor)

  11. Muito bom, mas interessante notar que passados quase um mês nenhum comentário! Desde 2013 sinto que o brasileiro, cristão ou não, está mais agressivo nas discussões políticas, triste.

    • Olá, Misael,
      .
      desculpe, a demora nos comentários na realidade é culpa minha. Estive um mês fora do Brasil e não acessei o blog nesse período. Hoje estou pondo as tarefas em dia e moderando os comentários. Grato por comentar!
      .
      Abraço fraterno,
      mz
      (facebook.com/mauriciozagariescritor)

  12. Bruno Vilela disse:

    Lembrei de um artigo que li aqui mesmo… se chamava “O que é mais importante: ter razão ou ter graça?” (pois é, sou um leitor antigo 🙂

    Obrigado pela reflexão Maurício, é sempre um prazer ler seus escritos

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