Viver o evangelho é extremamente arriscado

Publicado: 08/02/2016 em Confiança inabalável, Espiritualidade, , Felicidade, Graça, Medo, Paz, Pessoal
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arrisque-se 1Fui almoçar com a família em um restaurante de Cabo Frio (RJ). Enquanto esperávamos a chegada da comida, o chefe dos cozinheiros passou pelo salão e minha filha começou a apontá-lo, divertida, por causa do característico chapéu de mestre cuca que ele usava. Chef Dé reparou e, bem-humorado, se aproximou de nossa mesa. Começamos a conversar e ele puxou muito papo com minha bebê. Foi quando virou-se para ela e disse:

Você sabe por que eu quis ser cozinheiro? 

Intrigada, ela fez que “não” com a cabeça. Então ele completou: 

É que não importa a crise, não importa onde, não importa quando, você sempre terá emprego. Porque as pessoas nunca deixarão de comer, mesmo que estejam passando dificuldades. Assim você vive sem correr riscos, pois estará sempre empregado. Aprenda essa lição!

arrisque-seIsso me fez pensar. Pelo que ele mesmo disse, Chef Dé tinha escolhido sua profissão não por missão ou vocação, mas porque ela lhe garantia uma vida segura, sempre com possibilidades de trabalho, tranquilidade. Não tive como não pensar em mim: eu, por outro lado, sou escritor e editor de livros. Teoricamente, um ser humano pode atravessar sua vida inteira sem ler um único livro. Tenho pessoas próximas a mim que não têm o hábito da leitura e vão levando a vida, dia após dia. Pelo pensamento do Chef Dé, minha escolha é extremamente arriscada, pois, em teoria, o que faço pode me levar ao desemprego a qualquer momento, visto que não produzo um gênero de primeira necessidade para a sobrevivência humana. Em outras palavras, sou um profissional do supérfluo e, portanto, o que faço seria descartável, desnecessário. Será que escolhi errado? Será que corro riscos à toa?

Refleti bastante sobre isso. E a conclusão a que cheguei é que se não corrermos riscos como o que eu decidi correr viveremos em um mundo de pessoas vazias, sem conhecimento, sem crescimento e, no caso específico do tipo de livros que escrevo e edito, sem aprofundamento na sua intimidade com Deus. Uma vida oca. E isso não vale só para o que eu faço. Há muitas escolhas de vida que servem não para manter corpos vivos por estarem bem alimentados, mas para manter mentes vivas e espíritos desenvolvidos. Sim, é um risco que vale a pena ser corrido. Mais ainda: é um risco que precisa urgentemente ser corrido. 

Jesus falou ao povo de Israel sobre a necessidade de correr esse tipo de risco: “[Deus] te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8.3). Não vivemos só do alimento para o corpo, precisamos desesperadamente de outros tipos de alimento: para a alma, para a mente, para o espírito, para o coração. 

amorExistem atividades que parecem secundárias aos olhos de muitos. Mas precisamos enxergá-las pela perspectiva do reino de Deus e não pela perspectiva humana. Cuidar de refugiados, estar com crianças nos orfanatos, visitar as viúvas e os doentes e tantas outras iniciativas como essas podem parecer secundárias e até desnecessárias. Talvez tarefas para os outros, “mas não para mim”. Só que essa não é, nem de longe, uma verdade à luz do evangelho. “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1.27). 

De igual modo, ações como dedicar-se a missões e escrever livros cristãos podem parecer menos importantes à sobrevivência, mas não quando lemos na Escritura: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2Tm 4.2). “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.17-18). 

Chef Dé há de me perdoar, mas a lição que ele ensinou não deve ser aprendida, nem por minha filha, nem por ninguém. Afinal, o evangelho nos ensina algo diferente: que o conforto na busca por comida (metaforicamente) não deve ser prioridade em nossa vida: “Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.31-33). 

arrisque-se 3Você tem uma escolha. Pode dedicar sua vida a fazer só aquilo que te dará dinheiro, bens materiais, status, fama, carro do ano e outras coisas semelhantes ou pode devotar seus dias a algo que a sociedade como um todo não considera prioritário, mas que está intimamente conectada ao reino de Deus e a sua justiça, como ações de filantropia, práticas de caridade, escrever o que edifica e aproxima as pessoas de Cristo, pregar o evangelho, fazer missões. Se optar pela segunda alternativa, estará de fato se arriscando, pois pode ser que não ganhe muito dinheiro, viva sempre apertado, seja socialmente desprezado, torne-se alguém desconhecido e sem celebridade e outras coisas do gênero. Mas pode dormir descansado, com a certeza de que optou pelo caminho mais excelente. 

Que caminho é esse? O arriscado caminho que nos leva a acumular tesouros não para esta vida, mas para a eternidade. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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comentários
  1. Eduardo Araujo disse:

    Oi, muito inspirador pois a mesma lógica do Chef está em muitas igrejas por aí e claro todos nós temos um pouco dele dentro de nós …. abçs

  2. Rosana Navarro disse:

    Olá Maurício

    Já faz um bom tempo que não faço comentários no Apenas,porém ao receber as mensagens te garanto que as leio e medito.
    De fato você está no lugar certo,no tempo certo e por incrível que pareça,você é como um anjo que trás as respostas de Deus para os meus questionamentos.
    Sempre,sempre mesmo.
    Não se mova,rsrs no bom sentido, permaneça cumprindo o propósito para o qual Deus te criou.
    Um grande abraço.

    • Oi, Rosana, tudo bem?
      .
      Fico feliz por, de algum modo, poder ser útil para a tua vida. Obrigado pelo carinho de suas palavras, são muito preciosas.
      .
      Abraço fraterno, no amor de Cristo,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  3. Cris do Diney disse:

    Maurício… como seu texto tocou meu coração em um momento de escolha. Fazer o que nosso coração deseja é preciso e chegaremos ao fim da jornada com a sensação de missão cumprida é inevitável. Continue em sua missão… neste caminho arriscado e sendo incrivelmente usado por Deus em seus textos. Deus o abençoe!!!! Você é um instrumento de Deus! Obrigado. A paz do Senhor esteja com você também.
    Cris do Diney

  4. Luiz disse:

    Irmão Zágari.

    Em primeiro lugar: obrigado pelos textos que produz. Indico teu blog para “todo mundo” =P.

    Direto ao ponto:
    Reconheço o saber teológico, o conhecimento bíblico (intelectual), sobre este assunto.
    Intelectualmente entendo tudo o que escrevesse.

    A grande pergunta: como viver isso?
    Explico: Como conciliar, viver, aplicar, um texto como esse (e. g. Mt 6.) na vida de um “concurseiro”? Alguém que, não esforçando-se ao máximo, não irá passar?

    Carrego esse conflito há um bom tempo. Estudo para concursos há 2 anos, +-, e conflituo com esse assunto em meu coração.
    Paralelamente “aos concursos”, há uma vida, ministério, participar da comunhão na igreja. Ok! Faço isso, mas sabe quando permanece aquela sensação errônea de que o serviço público será “secular” e o entregar-se a vida ministerial é “sacro”?

    Isso é extremamente inquietante na mente e no coração, pois nutro um “sonho” de ainda fazer seminário. Entretanto, novamente, vem a antinomia da minha vida: como vou conseguir desenvolver minha vida (constituir uma família, etc.) sem antes ter uma renda? E, obviamente, não vou procurar entregar-me a uma vida ministerial (seminário) com a finalidade de renda. Eis a contradição viva.

    De um lado, Eclesiastes 9.10. De outro, Mt 6. E aí?

    São muitas variáveis e, sinceramente, confesso que não sei viver por fé nesse sentido.
    Nem 1% sequer. E isso martiriza. O pecado da falta de fé, de não agradar a Deus, martiriza.

    Em Cristo, Forte Abraço.

    • Oi, Luiz,
      .
      eu que agradeço pelo carinho, peço a Deus que aqueles a quem você indicar sejam edificados por este blog.
      .
      Mano, você está sofrendo porque faz separação entre “sacro” e “secular; ou, em termos mais teológicos, “sagrado” e “profano”. Essa separação não existe. Seu trabalho “secular” é um ambiente “sacro” a partir do momento em que você, como cristão, está nele. A questão aqui não é ser um ambiente eclesiástico ou não, mas, sim, é uma questão de motivação. O que te motiva a fazer concursos? É SÓ dinheiro? Se for, algo está errado. Se você vê essa oportunidade como um meio de edificação do reino e de conformidade sua à imagem de Cristo, é a motivação certa.
      .
      Lutar pelo sustento não é errado. O errado é fazer dessa a sua luta de vida, deixando de lado a luta de Cristo. É a isso que Jesus se refere no monte: depositar a fé em que Deus cuida de nós e nos dedicarmos às coisas do reino. Eu fiz meus dois seminários teológicos enquanto trabalhava: o primeiro, à noite; o segundo, nos fins de semana. E um não atrapalhou o outro, embora exigisse, claro, esforço e dedicação.
      .
      Lembre-se que o reino se faz presente onde os embaixadores do Rei estão. Seu concurso é uma ação do reino. É sacro. Não separe o que Deus não separa. Só não vire o rosto a Deus e mergulhe no materialismo e na deificação do dinheiro, do trabalho, dos bens – pois, aí, você seria um idólatra.
      .
      Ajudei?
      .
      Abraço fraterno, no amor de Deus,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  5. Muito bom, Maurício. Sempre tenho um sentimento ruim quando algum conhecido meu, cristão, diz “quero algo que dê dinheiro”, “amo o dinheiro”, entre outras coisas, eu penso e digo exatamente o que você disse no post “o que isso vai acrescentar ao reino?” ou simplesmente “você não vai levar nada desse mundo” e sei que tenho fama de ser chata por isso. Se dependesse de mim, todos os meus amigos – principalmente e$$e$ que mencionei – leriam esse texto e parariam pra pensar, só que, como mencionou, muitas pessoas não têm hábito de leitura, e a maioria pararia no primeiro parágrafo e ainda aprenderia a lição errada, rs.

    Que Deus continue te abençoando.

    • Oi, Natasha, tudo bem?
      .
      Oremos pelos seus amigos, mana. Que saibam pôr o dinheiro no seu devido lugar, nem para mais, nem para menos.
      .
      Abraço fraterno, no amor que nos une,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  6. […] Fonte: Viver o evangelho é extremamente arriscado […]

  7. Naiara disse:

    Bom dia, Zagari!

    Faz dias que quero comentar este post e me faltava oportunidade, aliás, muitos outros acabo não comentando, mesmo tendo me edificado muito e também aqueles com quem compartilho, razão pelo a qual glorifico a Deus por sua sabedoria e dedicação ao seu semelhante.

    O seu texto me contemplou, porque muitas vezes me pego analisando o que a sociedade e seus modelos de vida exigem ou querem exigir de nós, nos moldando, rotulando, querendo nos apontar direções e nos trazendo críticas no discurso de muitas pessoas que nos rodeiam. Vejo que muito além de apenas a segurança financeira, que muitos de nós buscamos, essa realidade engloba todos os aspectos da nossa vida: espiritual, material, social, intelectual…

    Se pararmos para pensar: que segurança nós temos? Não temos conhecimento do futuro, não podemos controlar as coisas, não sabemos o que irá nos advir. Podemos viver, sim, com fé e crentes de que Deus cuida de nós e continuarmos nossa existência para a glória dEle. Isso é até algo que você tratou em um dos seus textos no livro “o fim do sofrimento”.

    Pensei tanta coisa lendo o seu texto, talvez o meu comentário dê mostra do quanto, mas acima de tudo que Deus nos chama a viver com coragem, autenticidade, fé. Temos liberdade e Cristo jesus para viver ” O arriscado caminho que nos leva a acumular tesouros não para esta vida, mas para a eternidade”.

    Deus CONTINUE te abençoado! Abraços.

    • Oi, Naiara, tudo bem?
      .
      fico feliz que o texto que escrevi falou ao teu coração e tocou tua alma. Reflexões como a sua são essenciais para nosso crescimento e louvo a Deus que o que escrevi te conduziu a isso. Obrigado pelo carinho de suas palavras.
      .
      Abraço fraterno, no amor de Deus,
      mz

  8. Vanda disse:

    Bom dia, Maurício, a paz do Senhor Jesus!
    Obrigada pelo seu texto, foi muito edificante, tem toda a razão e eu concordo. É essencial termos emprego. Muito melhor ainda, quando este nos permita contribuir para o crescimento do reino do nosso amado Jesus Cristo.
    É claro que é saudável termos emprego também como sustento para nos alimentarmos e vestirmos. Mas muito mais gratificante quando, através desse trabalho, estamos a contribuir para vidas serem salvas e edificá-las.
    Não encaro o trabalho como meio só de sobrevivência, mas como uma oportunidade de nos sentirmos uteis para com os outros.
    Como profissional e cristã faço os possíveis para conciliar as duas coisas. Trabalho sempre com a perspectiva de dar um bom testemunho e ser um exemplo de Jesus.
    No princípio da minha carreira, falava sobre Jesus aos meus colegas e utentes no local de trabalho. Confesso que até exagerei, parecia uma fanática. A partir de uma certa altura comecei a ser gozada. Os meus colegas faziam piadinhas nas minhas costas e comecei a aperceber-me, sentindo-me assim excluída. Foi duro e cheguei a pensar que não adiantava nada falar. Depois comecei a agir no silêncio, por em pratica o amor cristão, os frutos do Espírito Santo. através da caridade, alegria paz, paciência, gentileza, longanimidade, bondade, mansidão, domínio próprio. Não há duvida que é bastante eficaz. Evito assim contendas e discussões, como dantes acontecia sempre que era confrontada pela minha fé em Jesus.
    Quando começam a meter-se comigo opto por estar calada. Às vezes é duro, mas seguro-me com mais calma e paciência as humilhações. As pessoas acabam por desistir e como nos observam, acabam por depois nos respeitar porque também as respeitamos e amamos.

    Um grande abraço fraterno,
    V

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