broken-glassesDepois que ultrapassei os 40 anos, comecei a enxergar mal. O diagnóstico: vista cansada. Pronto, a partir daí passei a depender de óculos para ler, usar o computador ou realizar tarefas que exijam maior acuidade visual de perto. Como leio e escrevo muito, você pode imaginar como minha relação com os óculos de leitura se tornou de extrema dependência. Por isso, dá para supor o que senti quando minha filha de 4 anos quebrou meus óculos, entortando totalmente as hastes e lançando longe uma das lentes. O pior de tudo é que isso  aconteceu como um resultado amargo da desobediência. Vou te contar a história. Eu tinha terminado o expediente do dia e deixei meus óculos apoiados na mesa de trabalho, que fica ao lado de minha cama. Minha filha chegou da escola e começamos a fazer coisas juntos. Havia algumas pilhas de roupa sobre a cama, pois tinha sido dia de passadeira. Resolvi guardar as roupas no armário e, como a filhota gosta muito de me ajudar, pediu para me entregar pilha por pilha, que eu pegava e botava no armário. Só estabeleci  uma única regra:
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– Bebê, não saia da cama, pois você está descalça e o chão está muito frio – falei.
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tombo-queda-homem-caindoFoi quando ela teve a brilhante ideia de me desobedecer. Não sei o que deu na cabeça dela, mas a pequena resolveu pular, com um monte de roupas nas mãos, da cama para a minha cadeira de trabalho – que tem rodinhas. O resultado: assim que deu o salto, a cadeira correu, minha filha se desequilibrou e caiu para trás. Não sei como consegui, mas, no reflexo, dei um pulo e a agarrei por um braço, impedindo que batesse com a cabeça no chão. Naquilo que despencou, ela também abriu os braços, tentando agarrar o ar para não cair, mas o que conseguiu foi dar um tapa com uma das mãos na minha mesa. As roupas voaram para todos os lados, se esparramando pelo chão. Mas, na hora em que ela bateu com a mão na mesa, acertou em cheio meus óculos, que desmontaram e se entortaram todos.
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Corri, agarrei minha filha e a abracei. Depois de me certificar de que estava tudo bem com ela, que tinha sido apenas um susto e que ela não havia sofrido nenhum machucado, me virei para os óculos. Ou o que sobrou deles. Destruídos. Naquele instante, passou pela minha cabeça todo o transtorno que aquilo provocaria: prejudicaria meu trabalho, a criação de textos para o APENAS, a escrita do novo livro em que estou trabalhando e uma série de outras coisas que a falta daquele objeto provocaria. Por isso, do susto, meus sentimentos naquela hora se tornaram ira. Dei uma bronca em minha filha.
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– Por que você me desobedeceu e saiu da cama?! Que ideia é essa de pular da cama para uma cadeira com rodas?! Quer me matar do coração?! E, agora, olha só o que você fez com meus óculos!!! Como é que o papai vai conseguir escrever agora?!
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Minha esposa ouviu o barulho e correu para ver o que tinha acontecido. Terminada a bronca, eu estava tão irritado que saí do quarto e fui para a sala, a fim de bufar e tentar me acalmar. E assim eu fiz. Fiquei ali por longos minutos, até que meu coração desacelerou. Me acalmei. Respirei fundo. E foi  quando minha esposa apareceu, e disse:
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– Mauricio, ela está com uma carinha… tadinha…
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beijoEu entendi a mensagem. Minha esposa estava intercedendo pela pequena transgressora. E, embora eu tivesse ciência de que tudo o que aconteceu foi fruto de desobediência, sabia que minha filha era pó, era humana, e sujeita à força do pecado. Por isso respirei fundo novamente. Me acalmei. E voltei para o quarto. Minha filha estava deitada na cama, com um olhar de culpa e muito quietinha. Quando me viu, percebi que já se preparou para ouvir mais bronca. Mas, então, me aproximei, deitei ao seu lado e a chamei para repousar a cabeça no meu peito. Ela veio, em silêncio, e me abraçou. Conversei com ela mansamente e expliquei que papai não dava ordens à toa, que todas as regras que eu estabelecia eram para o bem dela. Também a lembrei de uma série de ocasiões passadas em que ela tinha desobedecido e algo ruim acontecera, e procurei mostrar que, se ela obedecesse ao papai, a probabilidade de ocorrer algum problema ou de ela se machucar era muito menor. E terminei:
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– Você entendeu, bebê?
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Ela fez que sim com a cabeça e falou baixinho, com uma vozinha doce:
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– Entendi, papai. Desculpe.
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E teve uma atitude inesperada: começou a me encher de beijos, no rosto, nos braços, no peito e até nas pernas e nos pés. Daqui a pouco estávamos brincando, rindo e nos divertindo.
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Os mandamentos de Deus não existem para nos tolher, oprimir ou chatear. O Senhor não nos dá ordens à toa, cada um dos seus preceitos tem uma razão de ser e, por exprimir a vontade do ser perfeito, eles servem para o nosso bem. O Pai sabe que a transgressão nos afasta dele e conhece a destruição que o pecado provoca. Sabe, também, que corremos o sério risco de nos machucarmos e de destruirmos muitos óculos caso optemos pelo caminho do mal. Por isso, estabelece limites, que servem, entre outras coisas, para nos proteger de nós mesmos.
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amorAcho curioso quando ouço pessoas dizerem que o cristianismo serve pra ficar dizendo “pode, não pode, pode, não pode”. Não entendem que os mandamentos de Deus são bons e nos mostram um caminho mais excelente. Um caminho de paz. Um caminho de amor, como Jesus mesmo disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15); “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço” (Jo 15.10). Acredite: Deus não estabelece normas e regras a troco de nada. Ele tem os melhores motivos para isso. E quem colhe os bons frutos da santidade somos nós mesmos. Deus se agrada tanto do amor demostrado por meio da obediência que tem promessas lindas para quem abraça seus mandamentos: “faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Dt 5.10).
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Minha filha aprendeu que desobedecer aos mandamentos do pai é correr o risco de se machucar muito. E, mesmo que o pai consiga segurá-la com mão forte, por amor e por graça, isso não impede que sua transgressão tenha consequências desastrosas – como roupas passadas espalhadas pelo chão e óculos quebrados. Por mais que Deus nos guarde diante do nosso pecado, sempre sofreremos algum prejuízo. Felizmente, nosso Pai é graça, perdão e restauração. Ele nos abraça, nos chama para o colo e nos corrige, fazendo-nos ver as consequências da transgressão. A partir daí, temos dois caminhos: nos rebelar ou reconhecer nosso erro e enchermos o Senhor de beijos, em reconhecimento por seu amor e seu cuidado disciplinador. “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te” (Ap 3.19).
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cicatrizPara minha surpresa, enquanto eu conversava com minha filha, minha esposa pegou em silêncio os óculos quebrados e, com muito cuidado, conseguiu endireitar as hastes. Encaixou a lente de novo no lugar. E, quando vi, ela se aproximou e os entregou a mim, restaurados e aptos para o uso. Experimentei. Estavam largos e um pouco fora de esquadro, mas não perdidos para sempre, como eu imaginara. Cristo também faz isso. Quando pecamos e nossa desobediência gera resultados desastrosos, ele pode consertar a situação e aprumar as coisas. Mas sempre ficará algum resultado do erro, seja em forma de feridas, mágoas, más lembranças, culpa ou o que for. Por isso, acredite: pecar conscientemente por saber que Deus perdoa e restaura nunca é a melhor opção, pois sempre ficarão cicatrizes do mal cometido. 

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Busque a santidade, meu irmão, minha irmã. Sem ela, ninguém verá a Deus. Saiba que a mão do Senhor está sempre estendida para nos guardar e que, se erramos e caímos, temos um advogado junto ao Pai. Mas, pode acreditar, o melhor é nunca ter de passar pela disciplina de Deus, pois sempre teremos de lidar com um gosto amargo na boca em decorrência do mal que causamos. Você está em pecado? Mude isso hoje. Não pague pra ver. 
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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comentários
  1. Anônimo disse:

    Que texto incrível! Desde criança sempre aprendi melhor quando o ensinamento vinha acompanhado de um exemplo. E o paralelo que você fez me ajudou a entender mais um pouco sobre minhas motivações para o erro, as consequências que eu provoco em mim e nos outros e a melhor parte, como o meu Deus se sente quando meu coração fica aflito pelo mal que cometi. E como esquecer da intercessão do Senhor Jesus?

    Obrigado, Deus o abençoe.

    André Belarmino

    Date: Tue, 4 Aug 2015 10:02:17 +0000 To: andrebelarminope@hotmail.com

    • Olá, André,
      .
      fico feliz por ter alcançado teu coração e te levado à reflexão por meio do texto, mano.
      .
      Deus te abençoe muito,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  2. Jacy disse:

    Estava com saudades de novas postagens no Apenas! rsrs.

    Que linda mensagem! Quão maravilhosa é a disciplina do Senhor, pois revela seu amor por nós, tal como um pai ao seu filho por quem zela!
    Maurício, fico tão alegre em você fazer-nos conhecer essas situações tão significativas pelas quais você passa e transforma-las em lições preciosíssimas e oportunas. É a graça de Deus em sua vida e em nossas vidas, mano.
    Agradeço a Deus por Sua bondade infinita.
    Ajude-nos Pai a desviar de todo pecado por amor a ti.

    Abraços fraternos em ti e sua família.

    P.s. “O fim do Sofrimento” é uma dádiva. Hoje, se Deus quiser, o livro chegará nas mãos de uma amiga muito querida que está passando por momentos difíceis e a quem, eu creio, o Senhor quer trazer bálsamo. Ore para que seja bênção e que as verdades ali contidas alcancem seu coração.

    • Oi, Jacy, tudo bem?
      .
      Fico feliz que você tenha sido tocada pelo “O Fim do Sofrimento” e que pessoas que você ama podem ser abençoadas por intermédio do livro. Obrigado com o carinho com a postagem, peço a Deus que continue me iluminando, para que eu possa edificar vidas.
      .
      Abraço carinhoso, no amor de Cristo,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  3. pv disse:

    Olá, mz,

    Um grande amigo casado, possui dois filhos, me confessou em prantos que estava em adultério e não tinha confiança a recorrer a algum líder espiritual. Estamos orando e conversando muito. Estou tentando mostrar a ele o que a Bíblia diz sobre o pecado e como podemos ser justificados através de Cristo e sua graça. Disse a ele também que é importante se reconciliar com a família. Pelo que me disse ele tem descoberto o caminho de volta para casa: o processo de paz com o Espírito Santo e de restauração está acontecendo.

    Porém, tenho dúvidas. Os responsáveis pela assembleia em que ele congrega precisa saber do seu pecado? Estou acobertando algum pecado e agindo errado, não relatando sobre o caso? Ele precisa ser disciplinado e repreendido pela congregação? A assembleia deve julgar o pecado? Posso invadir sua privacidade e dizer sem sua autorização?

    Li o que diz 1Co 5, a disciplina aplicada ao homem por causa do pecado moral, e sua exclução da comunhão. Há muitas compreensões distintas e divergente que me deixaram com dificuldade.

    Entendo que não gosta de emitir opiniões sobre casos pessoais, o que também concordo. É função dos líderes. Mas, se puder ao menos explicar como você acha que se aplicaria a passagem bíblica, independentemente do caso específico, ajudaria bastante?

    Paz do nosso amado Cristo seja com você.

    • Olá, PV,
      .
      seu amigo não precisa se expor. A restauração acontece quando ele se arrepende, confessa o pecado a Deus e o abandona. Quanto menos gente souber do problema, melhor, pois o que Deus quer é a restauração, não a estigmatização. Muitas vezes, é importante, sim, conversar com o pastor, mas para ser tratado, não para ser disciplinado. A disciplina ocorre quando o pecador não deseja abandonar o pecado, mantém-se irredutível e, nesse caso, pelo próprio bem dele, ocorre a disciplina.
      .
      Eu recomendaria com ênfase que ele lesse um livro que escrevi, chamado “Perdão total”, que trata exatamente disso. Tudo o que você me perguntou está no livro, em profundidade bíblica. Acredito que será muito útil para ele.
      .
      Espero ter ajudado. Abraço para você e seu amigo, na paz de Deus,
      mz

  4. Luiz Fernando disse:

    Graça e paz, Maurício.

    É verdade. Estamos tão acostumados em ouvir falar de um Deus tirano que só manda, manda e manda. Que gosta de dar ordens. Esquecemos que Deus é pai, é amor, e todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam. Tudo que Deus faz é por amor aos seus escolhidos. E o Espírito que habita em nós tem ciúme, ou seja, zelo, um cuidado especial que não admite que sejamos destruídos, por isso Paulo mesmo diz que tudo provém de Deus, a fé, a perseverança, o ânimo, o amor, a alegria, pois sabe de nossa incapacidade e nos capacita para tudo com muito amor. Mas por alguma razão, endurecemos o nosso coração em certas ocasiões e desobedecemos o Pai. Mas o que me chama atenção que o filho gerado de Deus mesmo, sempre reconhece e ferido, arrependido volta aos braços do Pai.

    Deus continue te iluminando com sabedoria e graça.

  5. Mariana Dias disse:

    Olá Mauricio, a paz!
    Que reflexão bonita. Essa semana mesmo eu estava pensando que quando nos arrependemos do pecado, Deus nos perdoa, mas infelizmente as consequências vem. Esses dias uma amiga me disse que quando Deus nos convida a sermos santos, ELE apenas quer que sejamos felizes. E é verdade, quando obedecemos a Deus, aos seus decretos temos uma vida muito mais abundante.
    Deus abençoe!!

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