imagePassei os primeiros dias das férias deste ano em Cabo Frio (RJ), cidade que frequento há muitos anos por ter a praia que considero a melhor do planeta, a Praia das Dunas. Se dependesse de mim, chegava ali todo dia às cinco da manhã e ia embora após o sol se pôr, com a alma lavada e as forças renovadas. A água é maravilhosa, as ondas são na medida certa, a areia é fina e gostosa, as dunas são deliciosas, a paisagem é idílica, as temperaturas são irretocáveis, o céu é belíssimo… enfim, para mim não precisaria haver outra praia no mundo, essa me bastaria. Só que, como nada nem ninguém é perfeito, ela tem uma característica interessante: em determinados dias, nela venta muito. Mas muito. Entenda: não é um vento forte qualquer, é um vendaval daqueles que roubam chapéus da cabeça, levam cangas embora, fazem a areia correr acelerada rente ao chão e açoitar quem estiver deitado e – o ponto em que desejo focar as atenções – arrancam as barracas de praia da areia e as fazem sair quicando, rolando e rodopiando a dezenas de metros de distância. Nessas últimas férias, houve um dia desses, no qual observei muitas situações de pessoas ao meu redor que tiveram suas barracas sequestradas pelo vento e precisaram sair correndo atrás delas – pagando aquele mico – enquanto suas barracas davam mil cambalhotas e, na rota de fuga, acertavam pessoas, quebravam hastes, derrubavam outras barracas… Cenas de filmes de Jerry Lewis.

Percebi que, em geral, as pessoas cujas barracas lhes causavam essas situações constrangedoras vinham de cidades e estados em que não há praia (percebe-se pelo sotaque). Ou seja, elas não estavam habituadas àquele tipo de lugar e a tudo o que envolve a atividade de ir à praia. Por isso, naturalmente, não tinham as manhas nem conheciam os macetes para evitar a fuga das barracas. Como já faz mais de quinze anos que frequento a Praia das Dunas pelo menos algumas vezes por ano, aprendi as lições (depois de ter a minha própria barraca levada pelo vento em algumas ocasiões, claro). Falemos um pouco sobre como evitar que essa tragicomédia ocorra.

A primeira coisa a fazer é cavar um buraco muito fundo na areia, para inserir o pau da barraca o mais profundamente possível. Assim, será mais difícil que a dita cuja saia voando, uma vez que estará bem alicerçada no chão. Reparei que algumas vítimas do roubo eólico de barracas fincavam o suporte apenas alguns centímetros na areia. Com isso, assim que o vento batia, a barraca era levada rápida e facilmente.

Outra medida é pôr a barraca bastante inclinada na direção contrária ao vento. Se ele sopra rumo à direção oeste, por exemplo, você deve pôr a barraca bem inclinada em direção ao leste. Porque, meu irmão, minha irmã, se você não fizer dessa maneira, pode dizer adeus à sua proteção contra o sol. Vi algumas pessoas fincarem o pau da barraca de forma perpendicular ao solo, o que invariavelmente facilitava bastante as artimanhas furtivas do vento. Pôr a barraca na vertical não é uma decisão nem um pouco sábia em dias de vento.

Mas a coisa não para por aí. Muitos perdem suas barracas não porque elas são arrancadas da areia, mas porque quebram naquele lugar em que a parte de cima se encaixa na de baixo. Pois ali é um local frágil, propenso a rachar, entortar, amassar, soltar. É o ponto fraco da barraca. Uma medida simples e que ajuda muito é pegar uma toalha, camisa ou mesmo o saco em que se transporta a barraca e amarar ali, atando as pontas em alguma cadeira (como se fosse uma tipoia). Com isso, você reforça o ponto mais vulnerável, diminui o treme-treme da barraca (e, com isso, o movimento de vai-e-vem que acaba facilitando a quebra) e estabiliza toda a estrutura.

Por fim, algo óbvio mas que muita gente não pensa em fazer: encostar uma das cadeiras no pau da barraca. Isso evita que o vento balance o suporte, mantendo-o firme no lugar e menos propenso a oscilar furiosamente (o que, normalmente, amplia o diâmetro do buraco na areia e abre espaço para a barraca sair voando).

Se você tomar essas medidas simples e eficientes em dias de vento forte, aumenta enormemente a probabilidade de que terá momentos agradáveis na praia sem se preocupar se a sua barraca sairá rolando em disparada pela areia. Do mesmo modo, se observarmos alguns cuidados elementares em nossa vida espiritual, teremos a certeza de que a nossa caminhada no dia a dia sujeito a vendavais e tempestades será muito mais tranquila e segura.

Assim como muitos dos que têm suas barracas levadas pelo vento passam por isso por não conhecer muito bem as manhas e os macetes da praia, a maioria daqueles que enfrentam situações adversas no dia a dia sofrem sem saber o que fazer por desconhecer as verdades espirituais. E não existe outro modo de descobrir realidades que nos dão esperança e segurança por meio de Cristo sem conhecer e entender as Escrituras sagradas. Estudar a Bíblia é se familiarizar com as causas e os efeitos da existência humana e ganhar intimidade com o Deus que pode nos sustentar nos momentos ruins e iluminar o caminho nas horas de escuridão. Portanto, ter conhecimento bíblico amplo é algo indispensável para suportar os vendavais do dia a dia. Se você ainda não tem, corra atrás de conhecimento. Leia a Bíblia. Leia bons livros cristãos. Leia bons livros não cristãos. Faça cursos. Debata com amigos. Estude. Cresça em conhecimento.

Vamos além. Vimos que cavar buracos profundos onde fixar o suporte mantém a barraca firme no lugar. Do mesmo modo, um cristão precisa ter profundidade em sua vida espiritual para ter firmeza e solidez no cotidiano. Isso significa pegar o conhecimento bíblico sobre o qual falamos no parágrafo anterior e levá-lo a patamares mais profundos de vivência. Ou seja, não basta conhecer e entender a Bíblia, é preciso viver profundamente as verdades que ela ensina. Por exemplo, mais do que saber que é preciso amar o próximo, é necessário pôr em prática ações rotineiras que demonstrem esse amor. Ou, então, mais do que apenas saber que não se deve pagar mal com mal, é indispensável saber sofrer quando aperta o calo e deixar a cargo de Deus a vingança (Rm 12). E por aí vai. Entenda: viver a fé em profundidade não tem absolutamente nada a ver com fazer mestrados ou doutorados em teologia, isso é apenas aquisição de conhecimento. Profundidade, no que se refere ao evangelho, refere-se a viver intensamente o conhecimento que se adquiriu. Cristãos superintelectuais que não praticam o que estudaram são o tipo de cristão mais raso que há.

Também vimos que inclinar a barraca na direção contrária ao vento é importante para mantê-la em pé. De igual modo, o cristão deve estar sempre firme em sua oposição a tudo aquilo que contraria a Palavra de Deus. Querer seguir a favor dos ventos do mundo é pedir para a barraca ir embora. Deixe para lá o que diz o politicamente correto, os valores pregados pela televisão, as práticas de quem desconhece Cristo. Oponha-se a tudo o que desvirtua a Palavra de Deus. Nade contra a correnteza. Firme-se contra o vento.

A ventania também leva embora muitas barracas porque elas quebram em seus pontos fracos. O cristão precisa reconhecer seus pontos fracos e tomar medidas para não ceder onde é mais suscetível. Cada um sabe quais são suas fraquezas, as tentações que mais o levam a pecar. Você certamente conhece as suas. Então, se não quiser sucumbir às tentações e acabar imerso num mar de pecado, tome antecipadamente as providências cabíveis. Cerque-se de cuidados. Vigie. E, assim, terá mais segurança de que não quebrará quando a força das tentações soprar além do que seus pontos fracos parecem ser capazes de aguentar.

Por fim, do mesmo modo que escorar o pau da barraca em uma cadeira ajuda a mantê-la no lugar, não tente encarar os ventos da vida sozinho. Conte com o apoio de bons irmãos em Cristo, que o ampararão na hora da crise. Ninguém basta a si mesmo, meu irmão, minha irmã, todos precisamos de quem nos apóie, socorra, ampare, escute, aconselhe, exorte, console. Procure ter bons amigos cristãos, que não o abandonarão ao conhecer suas dificuldades ou falhas, mas que, justamente nas piores horas, permanecerão ao seu lado. Também é essencial que você congregue em uma igreja que tenha bons pastores, homens realmente vocacionados e que sangram por você; e não aproveitadores, animadores de auditório, traidores de seus segredos ou pessoas ambiciosas ou arrogantes: você precisa de pastores de verdade e não apenas de líderes. Em resumo: caminhe ao lado de irmãos em Cristo que estejam dispostos a escorá-lo quando vier o vendaval.

Conhecimento bíblico, vivência em profundidade desse conhecimento, oposição firme aos valores do mundo, precaução no que se refere aos seus pontos fracos e o apoio de outros cristãos com quem você possa contar na adversidade: se você tiver esses elementos presentes no dia a dia, garanto que estará muito mais preparado para enfrentar os grandes vendavais da vida. E se perceber que algum desses elementos falta, corra atrás dele. Ou você acabará tendo de correr atrás da barraca.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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comentários
  1. Beth disse:

    Excelente Texto, Maurício. Deus o abençôe!

  2. Olá, Maurício!
    Me diverti muito lendo seu texto. Que habilidade você tem de pegar circunstâncias do seu dia a dia e transformá-las em belas metáforas carregadas de belas lições. Parabéns!
    Eu havia acabado de me convencer disso, sobre o conhecimento e vivência profunda da palavra de Deus, ao passar por uma situação angustiante em que não sabia o que fazer. Antes mesmo de ter uma resposta às minhas orações, percebi que não teria passado por tal situação se eu tivesse mais entendimento da palavra de Deus. A leitura do seu texto “Como eu sei os planos de Deus para minha vida? ” também me ajudou muito nessa reflexão.
    Hoje, percebo que Deus me proporcionou ainda mais esse entendimento, não hesitarei mais em cumpri-lo.
    Abraço.

    • Oi, Amanda,
      .
      obrigado pelo carinho de suas palavras, louvo a Deus por poder compartilhar as reflexões que Deus põe em meu coração. Fico feliz que você alcançou esses entendimentos, muito bom.
      .
      Abraço afetuoso, na paz do nosso Mestre,
      mz

  3. Mario Augusto D'Amore disse:

    Caro Mauricio, bom dia!
    Como é bom caminhar com caras como você, que nos falam diretamente, com simplicidade e ainda “brincam” com fatos cotidianos e os trazem em parceria com a Palavra de Deus. Eu já disse isso em um comentário sobre um outro texto, mas repito: eu não te conheço pessoalmente, mas parece que você é meu amigo de longa data só pela maneira como escreve.
    Lembrei muito de uma família de amigos que mora em Indaiatuba (SP) e que passa parte do verão em Cabo Frio por ter parentes no Rio.
    Cara, só passei aqui para te agradecer, mais uma vez, por nos presentear com esse texto e desejar a você e família um grande 2015, cheio de avanços e cheio de textos (rsrs).
    Abração,
    Mario Augusto D’Amore

    • Oi, Mario,
      .
      não tem o que agradecer, querido, é uma alegria e uma honra poder abençoar. Você é muito gentil em suas palavras, agradeço o incentivo e o carinho.
      .
      Abraço, mano, Jesus te abençoe muito,
      mz

  4. Nadia Malta disse:

    Bênção, como sempre! Roguemos ao Pai que nos mande bons “escoradores de barracas” e que também sejamos esses instrumentos de escora para outros! Deus te abençoe meu irmão!

  5. Teresa Mesquita disse:

    Graça e paz, Maurício.

    Maravilhosa reflexão. Benção de Deus. Que o Senhor continue te usando para abençoar as pessoas, que como eu, tenta ser um pouquinho melhor cada dia. Estou lendo Perdão Total e sendo impactada pelas suas palavras. Entendendo que o perdão vai muito além do que pensamos. É algo realmente forte. Exige muita força para nos libertarmos do orgulho e autoconfiança. Aiai..Só Jesus mesmo, viu?

    Fica na paz meu irmão. abraço.

    • Oi, Teresa,
      .
      que bom que o “Perdão Total” esteja te levando à reflexão e a um crescimento. Louvo a Deus por isso.
      .
      Me alegro também que o texto a tenha edificado. Jesus é bom.
      .
      Abraço carinhoso pra ti, Jesus te abençoe sempre,
      mz

  6. Noeme disse:

    Como sempre Maurício, mto bom! obrigada

  7. anobre77 disse:

    Paz meu irmão!
    Praia … há quanto tempo não vou em uma … porém, as armadilhas que nos são apresentadas no percurso da vida espiritual, nessas eu caí várias vezes … e é assim mesmo, identificar aqui e acolá essas armadilhas faz toda a diferença. Um abraço mano!!! Deus abençoe!!

  8. […] Publicado: 13/01/2015 em Espiritualidade, Evangélicos, Graça, Igreja dos nossos dias, Pecado,Perdão, Pessoal Tags:Bíblia, Blog Apenas, comunhão, congregação, Cristo, Cruz, deus, Espírito Santo, Igreja,Jesus, Maurício Zágari, Pastor, Pastores, Pecado, Profundidade, Tentação, ventania, ventos,vigiai e orai, vigiar 14 […]

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