post apenasFui convidado a pregar em uma igreja, no Rio de Janeiro, onde compartilhei uma mensagem acerca da urgência de perdoar e se perdoar, como venho fazendo em muitas igrejas desde o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar”. Ao final do culto, estava planejado um momento para confraternizar com os irmãos e escrever dedicatórias a quem tivesse adquirido a obra na livraria do local. E assim aconteceu: ministrei a palavra, o culto terminou e me sentei a uma mesa, onde haviam posto exemplares do livro. Ela ficava localizada junto a uma janela que dava para a rua. Foi quando tive a experiência que me levou a esta reflexão. Eu estava trocando ideias com os irmãos e escrevendo dedicatórias nos livros quando reparei em uma senhora que estava parada na calçada, debaixo de chuva fina, do lado de fora da igreja. Ela me chamou especial atenção pelo seu jeito: solitária, séria, meio deslocada, olhando atenta para dentro do prédio, com uma atitude nitidamente diferente da dos irmãos e irmãs que conversavam animadamente à porta… algo nela captou meu olhar. Na foto que abre este post você pode vê-la, de óculos, atrás de uma esquadria preta da janela. Senti um impulso muito forte de conversar com aquela senhora, por isso levantei-me da mesa, pedi licença aos manos que estavam ao meu redor e caminhei para a rua. Parei ao lado dela e comecei a puxar papo.

Assim que ela falou a primeira palavra, notei de cara que estava bastante alcoolizada. O cheiro de cerveja era bem forte e sua fala estava arrastada, com palavras mal articuladas. Ainda assim, consegui entabular uma conversa. Comecei perguntando seu nome [que manterei em sigilo, vou chamá-la apenas de Maria]. Eu, então, me apresentei e indaguei se ela tinha acompanhado o culto, mesmo ali da rua. Ela me respondeu que estava no bar que fica exatamente ao lado da igreja, imersa em cerveja, quando começou a escutar a mensagem, o que a fez se levantar e ficar do lado de fora, mas sem coragem de atravessar a porta. Dali, não conseguia escutar muito bem a pregação. Que pena. Perguntei por que ela não tinha entrado e Maria respondeu que “não se sentia digna” de entrar no santuário. A meu pedido, aquela senhora passou a me relatar sua vida. Ela tinha sido membro justamente de uma das igrejas da denominação em que congrego. Por desavenças com pessoas da igreja e conflitos dentro da congregação que frequentava, acabou se afastando da comunidade de fé, desistindo de ir aos cultos e  se entregando a uma vida de pecados. Em resumo, ela tornou-se a típica “desviada”.

Confesso que meu coração sangrou ao ouvir sua história. Vi aquela preciosa vida ali, entregue às futilidades da existência, machucada por filhos de Deus, ouvindo o chamado do Pai, mas… sentindo-se indigna de entrar no santuário. Comecei, então, a lhe falar do amor de Cristo e da paz que só ele pode dar, do perdão e de tudo o que a entrega de uma vida a Deus realiza. Ela escutou atentamente. Ao final, perguntei se não gostaria de restabelecer os vínculos com Jesus, mas ela deu uma resposta que é muito comum ouvirmos:

– Primeiro eu preciso ficar limpinha… minha vida tá toda errada…  eu estou imunda…

sujeiraAquelas palavras foram como um soco no meu estômago. Tentei argumentar, explicando que Deus é quem limpa e purifica, mas ela fincou pé. Por saber que não é o homem quem convence do pecado, da justiça e do juízo, mas o Espírito Santo, perguntei, então, se não gostaria que orasse por ela. Mas Maria mostrou-se refratária. Parecia que estava se sentindo tão suja na alma que qualquer coisa relacionada à pureza divina a fazia se sentir indigna. Diante de sua recusa, compartilhei algumas palavras mais sobre Cristo e terminei dizendo que ele a estava esperando de braços abertos, independente de ela não estar “limpinha”. Ao me despedir, ela olhou fundo em meus olhos e segurou minha mão. Não disse palavra alguma. Apenas ficou ali, me olhando por longos segundos. Depois virou-se e foi sentar-se à mesa do bar. Eu retornei para a igreja e continuei com as dedicatórias nos livros.

Quando chegou a hora de ir embora, minha esposa foi pegar-me de carro. Abracei os irmãos e entrei no banco do carona. Foi quando olhei para o bar e vi que Maria permanecia sentada e olhava para mim pela janela do veículo com um olhar fixo. Partimos e fomos embora, mas notei que aquele par de olhos me seguiu enquanto o automóvel se afastava. Eu sei que, na verdade, aquela senhora não estava olhando para mim, mas para o que eu representei naquela noite: palavras de pureza, em Cristo.

sujeira 2Maria é uma em meio a uma incontável multidão. Você encontra milhões de marias pelas ruas, pelos shoppings, na escola, na faculdade, no trabalho, na sua família. Maria convive conosco, diariamente, e, muitas vezes, não a enxergamos. É invisível à nossa insensibilidade espiritual. Em todo o planeta há pessoas que se encontram distantes de Cristo e, por isso, buscam paz e felicidade em montes de coisas que não preenchem. Mortos na putrefação dos delitos e na imundice do pecado, sabem que precisam de algo, que não entendem bem o que seja; algo que sopre vida em suas almas e encha seus lábios mortos de sorrisos de alegria. Algo que as purifique e as faça ficar “limpinhas”. Nós sabemos que esse algo, na verdade, é alguém. E que ele não espera que vão ao seu encontro pessoas “limpinhas”: quem ele mais busca abraçar são as imundas.

Maria não quis o abraço de Cristo aquela noite. Eu fiz o meu papel: proclamei a salvação, a paz, o caminho, a verdade, a vida. Ela não quis receber nada daquilo naquele momento, embora estivesse absurdamente sedenta de tudo o que lhe apresentei. Sua alma, suja e malcheirosa pelo pecado, berrava, clamando por socorro, limpeza e purificação. No entanto, o sentimento de inadequação foi mais forte. Isso ocorre muito e é um alerta para nós: precisamos mostrar aos filhos pródigos que a casa do pai não os aguarda com castigos e recriminação, mas com festa, um anel no dedo e roupas novas e limpas. Temos de incluir em nossa proclamação das verdades sagradas que o evangelho é para os bêbados, os depravados, os assassinos, os ladrões, os corruptos, os indignos. Cristo não busca os purificados; ele purifica os que busca.

Sabe… Jesus veio à terra acostumado à imundície. Um aspecto interessante do Natal é que, geralmente, ao vermos presépios, o que encontramos são representações de estrebarias como lugares bonitinhos, com uma estrelinha no topo e bichinhos fofinhos rodeando um menino Jesus limpinho. Só que não foi assim o primeiro Natal. Um bebê nasce sujo dos líquidos corporais da mãe. Para ser limpo, imagino que Jesus deva ter sido lavado com a água destinada a ser bebida pelos animais (que outra água há numa estrebaria?). E o ambiente não era nada fofo: se você já visitou estábulos em hotéis-fazenda ou outros lugares similares, sabe que cheiram mal, têm fedor de estrume, xixi de vaca e muitas moscas. Então entenda: Jesus veio ao mundo num local imundo, indigno, insalubre. Os primeiros cheiros que nosso Deus sentiu na vida terrena foram de excremento e urina de animais. Insetos devem ter pousado em seu rostinho com as patas salpicadas daquilo em que eles gostam de pousar. Meu irmão, minha irmã, Cristo sabe o que é sujeira. Ele viveu desde o nascimento em contato direto com a sujeira. Ele conhece o cheiro de podridão. E entende o que é o fedor da miséria humana.

sujeira 3A boa notícia é que, ao subir aos céus, Jesus ascendeu com um corpo glorificado, incólume, sem sujeira ou mancha alguma. Puro. Digno. Limpo. Em paz. E isso é um sinal para nós. Neste Natal, busque as marias que você conhece, do jeito que elas estiverem, sujas e malcheirosas pelo fedor do pecado, e diga-lhes que, se elas não se sentem “limpinhas”, Deus tem para elas uma glória maior do que tudo o que se pode supor e imaginar. O Pai tem para elas pureza. Dignidade. Limpeza. E paz.

Faça isso e o Natal ganhará um significado totalmente novo em sua vida. E, mais ainda, na das milhões de marias que estão por aí, apenas esperando que alguém como você as conduza à fonte purificadora da água da vida. “Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida” (Ap 22.17).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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comentários
  1. Mateus disse:

    Também conheço pessoas com essa frase: “Primeiro tenho que me limpar, me purificar, pra depois ir a Jesus”. Não compreendem que é Ele que limpa, que tem o “sabão do lavandeiro”, que é ele quem recebe o sujo de braços abertos e após isso põe um anel em seus dedos.
    É uma pena, Maurício.

  2. Feliz Natal para você e sua família, Maurício! Paz e Graça da parte do nosso amado Jesus!

  3. Esse texto é muito lindo, senti a presença de Deus ao ler, ele é muito doce e amargo ao mesmo tempo, é muito leve e pesado em seu contexto.
    Senti o Senhorio de Deus a medida em que fui lendo, como se Ele fosse um professor ditando as palavras e o escritor escutando e apenas obedecendo, tamborilando os dedos ao teclado… É obediência, é canal de Deus!!!
    Me trouxe muita comoção e emoção… Chorei…

  4. Celso Chagas disse:

    Que texto foi esse.. só li verdades.
    Primeira vez que visito seu blog Maurício, melhor, primeira vez que leio seu nome e algo que você escreve e não me arrependi de ter gasto uns 10 ou 15 minutos lendo essa experiência retratada no blog, que serve para nos abrir os olhos espirituais. Deus te abençoe.. continuarei a ler suas postagens. Paz.

    • Olá, Celso, a paz de Cristo,
      .
      permita-me perguntar: você é o Bispo Celso Chagas, da ICNV? Se for, receba meu abraço, prezo muito o irmão.
      .
      Espero que as visitas ao blog sejam edificantes para sua vida, que tragam edificação, exortação e consolo ao seu coração. Obrigado pela honra de sua leitura.
      .
      Um abraço fraterno, um Natal cheio da maravilhosa graça de Deus e um 2015 de muitas alegrias e paz,
      mz

  5. solange vieira disse:

    Oi Mauricio !!
    Tempo de refletir , sabemos existir Marias dentro de nossas próprias igrejas, já as portas para sair do santuário, querendo atenção, ou um simples sorriso, digo isso pq este post me fez lembrar de uma irmã ,há 2meses chego bem antes do culto as quarta-feira ,gosto falar,meditar e ficar quietinha no meu canto, nestes tempos pra cá,mal acabo de falar com o Pai, e ela vem meio sem jeito,senta ao meu lado e discorre sobre seu dia a dia,familia, e a ouço com atenção e carinho, no final ela me abraça,me faz um afago e sempre diz, desculpe ter te atrapalhado,isto minutos antes do culto começar, dou um sorriso,um abraço e lá vai ela toda feliz, talvez por haver achado alguém que lhe ouça e se importa com ela,mesmo eu não me achando digna , simplesmente não notamos quem esta do nosso lado e assim elas vão saindo…saindo…..sem ao menos ser notadas….isso é muito sério…precisamos ser irmãos aos de fora e aos de dentro.
    Existem os limpinhos demais para se juntar aos que se acham sujos ou com manchas na alma.
    Que Deus tenha misericórdia de nos, e desperte esse amor

    • Olá, Solange,
      .
      Igreja é pertencer. A igreja que não compreende isso acaba se desviando dos trilhos. Infelizmente “Existem os limpinhos demais para se juntar aos que se acham sujos ou com manchas na alma” é uma realidade extraordinariamente verdadeira. Triste. Antibíblica. E real. Choremos pela igreja dos que não percebem isso.
      .
      Feliz Natal, Solange, obrigado por compartilhar da jornada virtual do mano aqui. Abraço, na paz de Cristo,
      mz

  6. Henrique.M.Santos disse:

    ai Mauricio pura verdade;Cristo veio para os doentes,para aquele que esta preso no pecado,Jesus nosso libertador aleluia feliz natal pra vc e sua familia mano!

    • Oi, Henrique,
      .
      creio que se tivermos essa percepção sempre nos tornaremos muito mais amorosos com os de fora. Desejo o mesmo para você e os seus, mano.
      .
      Grande abraço, na paz de Deus,
      mz

  7. Nadia Malta disse:

    Que possamos ter sensibilidade para para sentir o cheiro, enxergar e nos aproximar das inúmeras Marias que perambulam à margem da verdadeira Vida. Que Deus te abençoe irmão!

  8. Ediná disse:

    Boa noite, Mauricio.
    Estou no meio do livro “Perdão Total”. Só agora percebi que sou preconceituosa em relação a pessoas que tem comportamento errado. Quão ignorante tenho sido!
    Quero te agradecer por ter escrito sobre o assunto mais importante que existe: Perdão.
    Presenteei algumas pessoas com seu livro. Infelizmente a maioria das pessoas que conheço não gosta de ler. Não sabem o quanto de conhecimento estão perdendo.

    Feliz Natal para você e sua família!

    PS: Fiquei sabendo que a data do Natal tem origem pagã, e isso gerou polêmica em minha casa. O que você sabe sobre isso?

    • Oi, Ediná,
      .
      fico feliz que o “Perdao Total” te levou a essa reflexão. Louvo a Deus por isso.
      .
      Sobre a data do Natal, minha pergunta é: o que você celebra? É o nascimento de Jesus, o Filho de Deus, Salvador da humanidade? Então tudo o que tem de pagão não tem a menor importância. Celebre o Natal, celebre a encarnação do Verbo, celebre o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O resto é resto.
      .
      Feliz Natal, Jesus te abençoe hoje e nos outros 364 dias do ano, pois todos foram criados por ele, para ele. Abraço fraterno,
      mz

  9. anobre77 disse:

    Apenas uma frase: “Eu sou muitas vezes Maria também”.
    Obrigado por me mostrar que tantas vezes sou sujo e que preciso ir à fonte para me limpar.
    Um abraço!!!

  10. Valderi disse:

    Irmão estou meio atrasado, mas gostaria de refletir sobre uma frase acerca dessa senhora: “Por desavenças com pessoas da igreja e conflitos dentro da congregação”. Olha, eu passei por muita coisa dentro das congregações. A minha esposa também. De semelhante forma Paulo e João também passaram em suas épocas, como se vê em Gálatas e 3ª Carta de João. Esses fatos nos desviaram? Desviaram os primeiros cristãos, que sabemos que também passaram por maus bocados? Há pessoas fracas e muito sensíveis que qualquer coisa é motivo de abandonar o barco, quanto mais se não está alicerçado na Fé. Acho que, é claro, não é todos, o conflito e desavença eram apenas o que era necessário para saírem de nosso meio. Igreja perfeita só existirá no céu.

    • Olá, Valderi,
      .
      naturalmente há pessoas que reagem de formas diferentes a conflitos e desavenças. Na Igreja primitiva houve sim muitos que afastaram-se, os chamados “lapsi”, do mesmo modo que hoje ocorre. Apenas não creio que isso justifique considerarmos normal pessoas deixarem nosso meio por isso (Jesus não manda deixar as 99 para buscar a 1 perdida?). Do ponto de vista ultracalvinista, isso é apenas um meio de “purgar” a Igreja real da visível. Do meu ponto de vista, é nos conformarmos com aquilo que não agrada Deus (basta ver a lista das obras da carne de Gl 5). Creio que o amor nos impede de nos conformarmos com pessoas que deixam a congregação devido a problemas que surgem entre nós. Eu, pelo menos, não me conformo. Seria muito pouco cristão de minha parte, penso eu.
      .
      De qualquer modo, respeito opiniões diferentes.
      .
      Um abraço, meu irmão, Jesus seja com você,
      mz

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