baiacu1Muitos animais têm um mecanismo de defesa interessante quando se sentem ameaçados por predadores ou se veem em alguma situação de risco: eles tentam parecer maiores do que são. Você já deve ter visto em documentários da televisão, por exemplo, cenas de sapos que incham diante de uma serpente, baiacus que inflam quando dão de cara com uma moreia, cobras naja que abrem uma espécie de capuz de pele diante de inimigos ameaçadores ou ursos que se erguem sobre as patas traseiras quando atacados por outros machos da espécie. É uma estratégia instintiva desses bichos, uma forma de autopreservação, como se quisessem se proteger parecendo maiores do que de fato são. Em outras palavras, é uma reação ao medo. Essa é uma atitude que muitos de nós, seres humanos, também tomamos, embora num contexto diferente, como já veremos.

Claro que, ao contrário dessas outras espécies, não possuímos a capacidade de nos agigantarmos fisicamente. Não temos como inflar o tórax até ficarmos com as dimensões de um elefante, tampouco nosso cabelo se arrepia para se assemelhar ao pelo eriçado de um gato selvagem. Deus simplesmente não nos concedeu a habilidade de alterarmos nossa compleição física para crescermos diante de uma ameaça. Mesmo assim, inconscientemente (ou não), em nosso dia a dia tomamos uma série de atitudes que nos fazem tentar “crescer” aos olhos dos demais. Só que, ao contrário dos animais, o que nos faz querer ser maiores do que os outros não é o medo ou o instinto de defesa: é a vaidade.

baiacu4Por que você acha, por exemplo, que homens se preocupam tanto com o carro ou a moto que compram? Só porque é o mais econômico da praça? Ou porque o status que ter aquela máquina proporciona o faz sentir-se maior do que as demais pessoas? O mais capaz, o mais bem-sucedido, o alfa do bando? E não só veículos, isso vale para smartphones, roupas, bolsas, relógios, videogames, imóveis, quantidade de seguidores nas redes sociais… a lista de elementos usados como artifício para dizer, sem palavras, “eu sou melhor que você” é inumerável. Outro exemplo são os títulos. Se eu e você saímos nus do ventre de nossa mãe e chegamos absolutamente equiparados a este mundo, o que fará você se sobressair a mim? Fácil: comendas, honrarias, títulos, pós-ultra-PhD-doutorado, cargos pomposos. Se você parar para pensar, o prazer que um indivíduo ostenta por ter adjetivos e predicados à frente de seu nome nada mais é do que um meio de tentar se agigantar diante dos demais. É como se dissesse: “Veja como sou maior ou mais importante do que você, afinal sou um conde, um visconde, um barão!”. Por que você acha que durante tantos séculos os títulos de nobreza custaram tão caro e foram tão cobiçados? Simplesmente porque tê-los era uma maneira de tentar sobressair.

Em nossos dias, até mesmo os jogos de futebol revelam com clareza esse fenômeno. Sejamos sinceros: não basta nosso time ganhar, temos de pegar no pé dos amigos que torcem para a equipe que perdeu. A troça futebolística faz parte da nossa cultura de querer ser superior aos outros. E por aí vai, em tudo aquilo que fazemos. A realidade é que todo ser humano busca, inconscientemente, destacar-se dos demais. Eu sou assim, você é assim, todos somos assim. Queremos fama. Queremos notoriedade. Queremos o lugar mais alto do pódio. Esqueça o Barão de Coubertin: o importante é ser o maioral e ganhar, sim, senhor.

Mas, então…

Então chega Jesus e diz “aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus” (Mt 18.4). Ouvimos isso e, se queremos ser como Cristo ensina, nos vemos obrigados a desinflar o peito, abaixar a crista, nos posicionar de cabeça baixa; assumir a postura submissa de um cordeiro. Pôr nosso ego nas dimensões de uma criancinha. Diminuirmos para que ele cresça. Considerarmos os outros maiores em honra.

baiacu3A aproximação de Cristo nos distancia da nossa realidade animal e nos atrai para a espiritual. Nosso animal, nossa carne, quer buscar glórias, fama, títulos, cargos na igreja, o lugar de maior destaque, a roupa mais pomposa, elogios, adjetivos, comendas, honrarias, o pináculo do templo. Tudo isso nos infla como um baiacu. Nossa humanidade quer desesperadamente nos agigantar. No entanto, Jesus vem e nos desestrutura: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.3). E, se ainda resta alguma dúvida, Paulo dá o ultimato: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3). Em outras palavras: abaixe a crista. Deixe o outro sobressair. Difícil? Sim, mas cristão.

Vaidade sob controle não é pecado. Mas quando ela passa a ditar seus valores, a maneira como se comporta, as suas decisões e, especialmente, o modo como trata as pessoas, cuidado: você pode não estar sendo muito melhor do que um baiacu. E Deus sabe que você vale muito mais do que um peixe amedrontado.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari

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comentários
  1. José disse:

    Bom dia, Maurício.
    😄
    José.

  2. Nadia Malta disse:

    Querido Pai Celestial, livra-nos da tendencia “baiacu”! Fura nossos balões inflados com a ponta de tua espada afiada. Que só tenhamos licença para nos encher do Teu Espírito Santo! Que Ele encha nossos espaços para a glória de Papai! Deus te abençoe hoje e sempre meu irmão!

  3. Ruan disse:

    Excelente! Que Deus nos ajude…
    Parabéns Zágari. Obrigado por nos edificar!

  4. Ediná disse:

    😄

  5. Amanda Campos disse:

    Zágari, leiga que sou, não consegui compreender a afirmação “Vaidade sob controle não é pecado.” Então existe o lado positivo e bom da vaidade?
    Ah, Sábias Palavras!
    Abraços, mano
    🙂

  6. Tremendo! Estava pensando nisto, ontem. Confirmando meus pensamentos. Que Papai endireite as nossas veredas, nos refaça conforme o Seu caráter. Por mais que nos seja preciso sentar no “cantinho do pensamento” algumas vezes (rs) e que isso nos faça chorar, murchar nosso orgulho.

    Eu quero murchar para que Papai resplandeça em mim e me faça revigorar com a Sua beleza. Mesmo sabendo que a beleza dele é totalmente contrária aos padrões de tudo que é belo neste mundo!

    Se esvaziar da “carne” não é fácil, mas vamos lá, não é, meu amado irmão?

    Fiquem na Paz!
    Até a próxima!

  7. Greize disse:

    Interessante, lembrei-me do Filme Advogado do Diabo, no qual no final o diabo, interpretado pelo ator Al Pacino diz:.“Vaidade: definitivamente, o meu pecado favorito”.

    Na época eu não concordei, pensei tem vários pecados piores, só agora com mais um “tiquim” de sabedoria, e revi o filme há pouco tempo atrás entendi, nosso Ego, nos leva a cometer os piores pecados.

    Espero que esteja Renovado na Esperança, falo isso devido ao último post.Que o Senhor o renove sempre e sua família!
    Abraço

  8. Ediná disse:

    Boa noite Mauricio.
    Como vai, tá tudo bem?
    Que Deus nos perdoe pelo pecado da vaidade, e que aproveitemos o tempo que nos resta para fazermos diferente.
    Como disse Fernando Pessoa: “O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação.”

    Deus abençoe você e sua família!

  9. Fabio Cardoso disse:

    Olá Maurício !

    Na parábola do Bom Samaritano, Jesus nos ensina que títulos e posições pouco valem.
    O samaritano considerado um judeu inferior na cultura da época, agradou a vontade de Deus, enquanto os bem posicionados da alta liderança não.

    Não ocupo altas posições, mas confesso que o poder nos cega e uma profunda sondagem pelo espírito é fundamental na caminhada.

    Abraço ! Maurício !

    • Oi, Fábio,
      .
      eis porque precisamos estar sempre atentos e vigilantes. O pecado está à espreita e não podemos baixar a guarda.
      .
      Abraço fraterno, no amor de Deus,
      mz

  10. roberto disse:

    Mauricio este seu texto me fez me lembrar do filme O advogado do Diabo com Keanu Reaves e Al Pacino, ele usa da vaidade pra mexer com a cabeça do advogado vivido por Keanu Reaves aliás um otimo filme pra quem quiser ver, alias o diabo ele nao forçou o advogado a nada, ele somente utilizou de sutilezas em que o outro foi caindo nela aos poucos, que no final estava tao envolvido que nao tinha mais saida.
    Alias Al Pacino no papel do diabo ele termina o filme usando a seguinte frase ” Vaidade meu pecado favorito ” e sorri para a camera.

    Um forte abraço pra voce e a todos daqui.

  11. julymontiel disse:

    Olá Maurício, tudo bem? Não é novidade que o texto está ótimo.
    Obrigada pela excelente reflexão! Compartilhei! Deus abençoe!

    http://montieljuly.wordpress.com/2014/10/07/o-cristao-e-o-baiacu/

  12. Walber disse:

    Obrigado Mauricio.

    Deus te guarde nessa jornada.

  13. abrahao cipriano da silva. disse:

    ontem eu estava orando quando o Espirito Santo ministrou ao meu coração sobre o crente baiacu,achei interessante e fui procurar na net quando me deparei com este lindo texto,parabéns que o Eterno Deus continue iluminando sua vida.

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