mancha1Tenho uma mancha nas costas. Embora seja uma ligeira pigmentação na pele, não é uma mancha pequena, tem aproximadamente o tamanho de um gomo de tangerina. Por isso, ela não passa despercebido facilmente. Mas, acredite, eu só descobri que tinha essa marca de nascença quando já era adulto. Parece estranho? E é mesmo, mas tem uma explicação: ela fica localizada em um local das costas que não se vê facilmente no espelho, por isso eu nunca a tinha percebido antes (e ficar espiando minhas costas não é algo que eu costume fazer com frequência). Mas o que mais me chamou a atenção quando descobri que a mancha existia é que ninguém nunca havia me dito antes que eu a tinha. Quem comentou comigo pela primeira vez sobre ela foi um médico, já quando eu tinha uns 24 anos. Ele questionou há quanto tempo ela estava ali e eu, intrigado, respondi: “Mancha? Que mancha?”. Fui perguntar a meus pais, que, então, me disseram que eu nasci com ela. Fiquei chocado. Como era possível que em mais de vinte anos de vida eu nunca tivesse tomado conhecimento de que havia uma mancha nas minhas costas? Bem, a verdade é que ninguém jamais se preocupou em me falar nada sobre aquela penetra indesejável – talvez por desinteresse, talvez por constrangimento – por isso ela ficou ali, escondida de meus olhos, habitando minha vida sem meu conhecimento, por anos e anos. Pensando sobre isso, vejo como é importante haver por perto pessoas que tenham a liberdade de apontar as manchas que temos não só no corpo, mas, principalmente, na alma. Em outras palavras: críticos.

Uma das maneiras mais eficientes de errarmos em nossas atitudes e decisões é estabelecermos uma barreira que impeça críticas. No dia em que você não estiver aberto a ouvir dos outros o que eles veem de errado em você pode ter certeza de que aí é que as coisas começarão a dar errado mesmo. Afinal, é muito fácil não nos enxergarmos com clareza. Já reparou que a sua mão esquerda torna-se a direita no reflexo do espelho? Isso também acontece quando olhamos para nós mesmos: não costumamos ter uma visão precisa de quem somos e de quão corretas são nossas escolhas e atitudes. Podem ser muitas as razões para isso: egocentrismo, amor-próprio exacerbado, egoísmo, arrogância, autossuficiência e muitos outros pecados. Sim, isso mesmo: pecados. Pois considerar-se acima de erros é uma forma de idolatria. E não são poucas as pessoas que idolatram as próprias opiniões e atitudes, tornando-se aversas a qualquer tipo de crítica.

mancha2Eu tenho muitas manchas que não estão na minha pele, mas dentro de mim. São valores distorcidos, conceitos mal trabalhados, opiniões equivocadas, pecados, atitudes injustas, pensamentos incorretos, maus sentimentos e uma enormidade de outras marcas que interferem na pureza de minha alma. Muitas e muitas vezes esses problemas se escondem em lugares para mim difíceis de enxergar, cantos escuros do meu senso crítico, espaços sombrios do meu ego, regiões pouco iluminadas da minha autocrítica. São regiões que não consigo ver com clareza, o que possibilita que muitas dessas falhas de caráter ou imperfeições fiquem escondidas por períodos de tempo enormes sem que eu me dê conta de que estão ali.

mancha3Nessas horas, é fundamental que haja pessoas de confiança a quem possamos dar a liberdade de nos dizer que há manchas em nós e na nossa vida. Felizes são aqueles que escutam esses alertas com humildade e conseguem perceber que precisam fazer algo a respeito. Quem ouve críticas, exortações e toques legítimos e reage com indignação em vez de gratidão está sendo insensato. É muito comum vermos reações não muito amáveis a quem nos critica, a ponto de chegarmos a pensar: “Eu é que sou o dono do meu nariz!”. É verdade, mas… faça uma experiência. Tente olhar para o seu nariz, sem ser no espelho. Você o enxerga com nitidez? Será que alguém que está à sua frente não o vê melhor do que você? Assim é com relação à nossa vida: muitas vezes acreditamos saber o que é o melhor e, por isso, ignoramos a visão de quem está próximo, quando, muitas vezes, outros estão vendo a situação com muito mais clareza do que nós mesmos.

A paixão cega, logo, não seria melhor ouvir o conselho de alguém de fora sobre aquele namorado? Muitas pessoas reclamam de você, logo, será que não há algo em que esteja errando? Suas atitudes geram montes de críticas, logo, será que algumas delas não estão corretas? Ninguém do seu grupo apoia o que está fazendo, logo, será que não é hora de reconsiderar? O pastor já chamou a sua atenção sobre o que a Bíblia diz a respeito de algo que você vem fazendo, logo, será que não seria bom lhe dar ouvidos? Em resumo, devemos estar abertos para perguntas que sugerem a existência de manchas em nossa alma: “Será que realmente estou certo?”. “Será que errei?”. “Será que estou pecando?”. “Será?”.

Saul é um exemplo de alguém que não deixou os outros lhe apontarem as próprias manchas. Roboão também ignorou o conselho de quem apontava problemas em suas decisões. Sansão preferiu seguir suas próprias vontades a ouvir a sabedoria dos que o amavam. Assim como eles, vemos na Bíblia muitos que fecharam os ouvidos à percepção alheia – em outras palavras, que repudiaram a crítica – e que tiveram de colher frutos amargos dessa atitude. Peço a Deus que não cometamos o mesmo erro.

mancha4Há, porém, duas precauções que você deve tomar. Primeiro, analise como chega a crítica. Paulo deu a fórmula: “Pois vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata seus filhos, exortando, consolando e dando testemunho, para que vocês vivam de maneira digna de Deus, que os chamou para o seu Reino e glória” (1Ts 2.11-12). Assim, vemos que a exortação deve vir sempre junto com consolo e testemunho, não apenas com um dedo na cara e palavras de ataque. A exortação que vem envolta em amor e suavidade é a chamada “critica construtiva” e deve receber toda a nossa atenção; já a que vem meramente com acusações é fruto do Acusador – e deve ser ignorada. Segundo, pondere o que exatamente está sendo dito: embora suas pupilas sejam uma mancha negra no meio de seus olhos, não representam um problema. Do mesmo modo, nem toda exortação ou crítica faz sentido. “E o que fazer, então?”, você poderia perguntar. A resposta: é preciso ter conhecimento de Deus e discernimento.

Tudo o que chega até nós e que configura uma exortação, uma crítica, um olhar sobre manchas que carregamos em nossa alma deve ser confrontado com a Bíblia. É pela comparação entre o que nos é dito por quem aponta nossas manchas e o que Deus diz em sua Palavra que vamos ver se a crítica faz sentido. Assim, em tudo devemos buscar o conselho do justo e onisciente Juiz. Junto a isso, precisamos ter discernimento para saber se o que nos é dito tem por objetivo nosso bem ou não. E discernimento só se obtém mediante intimidade com o Espírito Santo, o único que conhece as intenções do coração.  Portanto, se você quer blindar-se contra as críticas nocivas sem se fechar às construtivas, o caminho é conhecer os pensamentos do Senhor revelados nas Escrituras e viver em intimidade com ele por meio de oração e outras disciplinas espirituais.

mancha5Algumas manchas em nossa pele são inofensivas; outras são tumores malignos, capazes de nos levar à morte. Eu não sei discernir umas de outras, por isso preciso de gente de fora que me diga aquilo que não tenho capacidade de ver sozinho. Também preciso de humildade para ouvir o que me disserem e entendimento para saber o que fazer a partir do momento em que ficar a par da realidade. Quando tomei conhecimento de que havia uma mancha em minhas costas, recorri ao dermatologista, que me disse que aquilo não era nada de mais e não oferecia qualquer risco. Mas pode ter certeza de que, se ele tivesse dito que se tratava de algo nocivo, eu teria procurado extirpar aquela mancha o mais rápido possível. E ai de mim se não tivesse dado ouvidos àquele médico – talvez eu não estivesse aqui hoje para contar a história.

E você? Como tem reagido quando alguém aponta as manchas da sua alma?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

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comentários
  1. Mateus disse:

    Mano, creio que a pessoa que não se deixa ser criticada de forma construtiva é porque se acha sábia aos próprios olhos. E Deus diz: “Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema ao Senhor e evite o mal” (Pv 3:7). Reconhecer a nossa pequenez é tão fundamental…

  2. Oi, meu querido!

    Sabe, eu já mostrei algumas manchas que estavam despercebidas aos meus queridos e não fui nada, nada bem tratada. Mesmo assim continuo a mostrar algumas manchas estranhas que percebo, muito embora outras me acovardo em mostrar, morrendo de medo das guerras que poderão ser travadas. Que PAPAI me perdoe a covardia, pois não foi assim que ELE me ensinou. E, a bem da verdade, também não curto muito que me mostrem algumas das minhas manchas, mas, lá na frente, eu sempre posso desfrutar das transformações que cada mancha extirpada me proporcionou.

    Eu te agradeço muitíssimo por todas as manchas que nosso PAI tem te ajudado a me mostrar, viu? Pode ter certeza que venho tentando extirpar cada uma delas, embora muitas sejam terríveis de arrancar… 😦

    Que PAPAI nos dê um pouco da SUA soberana sabedoria para poder lidar com nossas marcas e com todos os marcados à nossa volta.

    Um abraço enorme, Maurício!

    • Oi, Francilúsia,
      .
      todos nós estamos nessa jornada de erros e acertos. Não se culpe por ainda estar no meio do caminho, o que importa é você estar com o olho fico no objetivo e que suas pernas estejam se mexendo.
      .
      Obrigado pelas palavras gentis, espero estar abençoando.
      .
      Abração para ti e toda sua família, no amor de Deus,
      mz

  3. ISABELLE disse:

    Bom dia
    Zágari

    Tudo bem ? Graça e Paz da parte do nosso Senhor !

    Eu concordo plenamente contigo e confesso que assumi isso na minha vida; não me esqueço de um pastor que me disse muitos anos atrás que eu era uma pessoa ensinável, até então não tinha entendido bem o que isso significava, mas logo entendi a diferença que isso faz na vida. Aceitando a crítica você sofre menos e aprende mais.

    Porém, há um detalhe onde eu ajo de forma que talvez não seria o certo. Em relação as críticas do Acusador, eu não as ignoro, mas pondero nelas também e verifico se mesmo na crítica destrutiva não há algo que posso ser aproveitado ali, ou alguma verdade perdida ali no meio da ofensa. Seja por bem ou por mal as pessoas sempre gostam de apontar os nossos defeitos. Os mais amadurecidos, contudo, no amor, tendem à preceder as qualidades.

    Seus textos são sempre muito edificantes.

    Um grande abraço

    Deus o abençoe mais e mais.

    • Oi, Isabelle, tudo joia, obrigado.
      .
      Fico feliz que você tenha esse perfil, certamente é uma característica que te conduzirá cada vez mais perto do Pai.
      .
      Entendo o que você diz. Minha ponderação é que as criticas do Acusador não têm como finalidade nossa edificação, mas sim nosso mal-estar, nossa destruição. Se o que ele lança em nossa mente não nos faz crescer, nos arrepender, melhorar, nos santificar… é melhor fechar os ouvidos a ele. Espero ter-me feito compreender melhor agora.
      .
      Abraço pra ti, que o Senhor siga te abençoando, com graça e paz,
      mz

  4. TATIANA BRITO DOS REIS disse:

    Maurício, parabéns, vc esplana com muita clareza vários assuntos. Muito bem colocadas suas palavras! Amo seu blog!!!

    Enviado pelo meu Windows Phone ________________________________

    • Oi, Tatiana,
      .
      fico feliz por poder conduzir sua reflexão e forma agradável e eficaz. Se consigo fazer isso ganhei o dia. Muito obrigado pelo incentivo.
      .
      Deus te abençoe muito, abraço pra ti,
      mz

  5. Nadia Malta disse:

    Que tenhamos tempo de remover as manchas malignas antes que elas nos mate e que possamos aprender a conviver com as manchas inofensivas as quais nascemos com elas para nos diferenciar de alguma forma. Palavra com,o sempre, oportuna!

  6. Ana Paula disse:

    Caro irmão Maurício, o título desse post me faz lembrar um tipo de crítica que existe entre católicos e evangélicos. Eu encontrei um site católico e vi um artigo que me chamou a atenção que dizia: razões porque retornei a “única igreja de Jesus Cristo”.
    Os católicos insistem que a igreja deles é a única verdadeira e desprezam as outras . Então eu comentei lá no artigo tudo que está errado naquela igreja de uma maneira sem ofender a eles. Comentei várias coisas baseadas no artigo que li lá. O autor do site atenciosamente me disse que iria responder o comentário em forma de artigo. Ele então postou o artigo me respondendo. Logicamente várias coisas que ele disse eu não concordei mas, quando ele falou dos erros de algumas igrejas evangélicas, eu não tive como não concordar pois ele citou heresias que realmente existem. Fiquei triste, pois, a imagem que muitos evangélicos passam a eles é essa que ele disse. O problema é eles acharem que todos os evangélicos são errados. Eles veem nisso um motivo para se apegarem ainda mais à igreja deles que orgulhosamente acham que é a única verdadeira. Triste.
    Vou deixar o link do artigo para que se você quiser, possa ler:
    http://www.ofielcatolico.com.br/2002/03/as-igrejas-evangelicas-sagrada.html

    Grande abraço Maurício, Deus continue te abençoando sempre!

    • Olá, Ana,
      .
      temos de reconhecer nossos erros. Mas é bom lembrar que a ICAR tem muitas divisões internas, não é uma instituição tão hegemônica quanto desejariam. Há a Renovação Carismática, os adeptos da Teologia da Libertação, a Opus Dei, as muitas ordens monásticas… é um corpo como qualquer outro, bem dividido. Muitos discordam, inclusive, do papa. De qualquer modo, devemos tratar todos com carinho e afeto, a despeito das discordâncias.
      .
      Li o texto do Sr. Henrique e tudo o que ele faz é defender aquilo em que crê, inclusive atribuindo a Deus o fato de ter deixado a Igreja evangélica e ido para a ICAR. Que ele creia nisso. Essas discussões são centenárias e não virá nenhum argumento novo neste momento. Ficar debatendo essas questões é estressar-se com mais do mesmo. Quem convence é o Espirito Santo. Triste ver que ele configura apenas a instituição que venera como “a Casa do Deus Vivo”, quando a Igreja verdadeira é invisível e não institucional. Ore por ele e siga com sua fé.
      .
      Abraço carinhoso, na paz de Deus,
      mz

  7. Paz, querido Maurício!
    Acredito que o primeiro passo para eliminar as manchas da alma é ouvir àqueles que nos amam e aprender a aceitar as críticas, assim inicia-se o processo de “limpeza das manchas na alma”.
    Muito obrigada pela porção de sabedoria em suas palavras, como sempre edificante!
    Deus abençoe!

    • Oi, Juliana,
      .
      sem dúvida, a abertura para que nos chamem a atenção com ouvidos bem atentos é a porta para evoluirmos. Não tem o que agradecer, é um privilégio poder servir os irmãos.
      .
      Abraço pra ti, bênçãos em dobro,
      mz

  8. Ediná Oliveira disse:

    Mauricio, respondendo sua pergunta: depende. Se a crítica tiver base e partir de alguém que eu sei que gosta de mim, e que só quer ajudar, eu procuro mudar de comportamento. Se for o contrário, eu analiso bem para ver se tem fundamento.
    Mas sempre e sempre meu parâmetro é o meu Deus. É Ele quem fala através da minha consciência me ensinando a ter discernimento e temor a Ele.

    Abraço fraterno!

  9. Luiz Fernando disse:

    Obrigado, Jesus! Obrigado por nos mostrar esse excelente caminho.

    Deus te abençoe mais e mais, meu mano.
    Na paz, querido.

  10. Fabio Cardoso disse:

    Oi Maurício,

    O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica.

    Que sejamos sóbrios. Deus nos abençoe.

    Abraço,

  11. marcojuric disse:

    Boa tarde Zágari!!

    Muito bom rapaz!!!! Preciso praticar mais…
    Abração mano!!

    MJ

  12. JosuEmerick disse:

    Muito, muito feliz o seu texto, foi uma bênção para o início do meu dia e da minha semana. Que o Senhor lhe recompense, acrescentando sabedoria e graça a cada dia mais. Me fez lembrar o que escreveu Tiago a respeito da Palavra, comparando-a com um espelho, que é : 1 – fiel à verdade (não aceita retoques como o retrato) ; 2 – dinâmico (portanto retrata o que é atual, não como o retrato que mostra o passado) e 3 – prático (depende apenas da luz – a revelação do Espírito Santo – para funcionar). Abraço fraterno.

  13. Erica Moreira disse:

    Querido irmão,

    Lendo seu texto, lembrei-me do livro “Ponha ordem em seu mundo interior”, de Gordon Macdonald, que lemos ano passado no Clube do Livro da nossa igreja, especialmente na parte em que ele fala sobre como começou a lidar com as críticas. Ele diz que qualquer que seja a crítica que recebe, ele a leva ao Senhor em oração e pede que Deus revele o que há de verdade no que foi dito.
    Tenho tentado colocar em prática… mas não é fácil…
    Que Deus nos ajude a sermos ensináveis e tratáveis, tanto ao termos nossas manchas apontadas, quanto ao apontar as manchas dos outros.

    Abraço fraterno,

    • Oi, Erica, tudo bem?
      .
      Penso que a percepção de Gordon é a melhor que se pode haver. Levar tudo a Deus nos livra de nosso senso de autonomia e nos põe no devido lugar. Que aprendamos sempre a viver em humildade e dependência.
      .
      Abraço carinhoso pra ti, no amor de Deus,
      mz

  14. Sarah Ferraz disse:

    Você realmente é uma benção!

    Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, fazendo isso, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem.

    1 Timóteo 4:16

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