Arquivo de janeiro, 2014

Sexo1Quantos tipos de pecados existem? Serão dezenas, centenas, milhares, milhões? Confesso que não sei ao certo, mas uma certeza tenho: são muitos. Muitos mesmo. Isso é curioso, porque, embora existam tantas e tantas e tantas formas de desobedecer a vontade de Deus, parece que concentramos nossa atenção em um pequeno punhado delas. Veja se estou errado: o que escandaliza a esmagadora maioria de nós são atitudes como embriaguez, fumo, consumo de drogas, envolvimento em programações consideradas pecaminosas (boate, bailes, carnaval, shows etc.) e aquilo que pomos no pináculo dos pecados: práticas sexuais ilícitas. Tudo o que é pecado é pecado, logo, não podemos ignorar o quanto qualquer uma dessas atitudes pecaminosas é tóxica para nossa alma nem diminuir a gravidade de qualquer uma delas. Mas o que me chama a atenção é como desenvolvemos o hábito de pôr no paredão apenas um pequeno grupo de transgressões – em especial, os pecados sexuais, considerados por muitos como piores do que a blasfêmia contra o Espírito Santo – quando existem dezenas, centenas, milhares ou milhões. Será que a eleição do sexo ilícito no imaginário popular como a pior de todas as transgressões tem alguma implicação? Tem sim, e são implicações sérias.

Sexo2Acabei de ler um livro em que, em síntese, o autor expõe sua visão do que faz um sacerdote ser bem-sucedido, ou seja, o que seria sucesso no ministério. É uma obra bem interessante e que tem o seu valor, mas algo chamou minha atenção. Percorri com interesse suas páginas, até que cheguei ao capítulo que fala sobre santidade. Quando vi o tema, imaginei que ele discorreria sobre diferentes questões, como bom uso do dinheiro da igreja, relacionamento saudável com a família, cuidados com a vaidade excessiva, sexualidade sadia, humildade no uso do poder, justiça ao lidar com as ovelhas, a importância de ser manso no trato com os diferentes, a necessidade de não se corromper para obter facilidades, amar o próximo como a si mesmo, e uma série de outros tópicos que, a meu ver, são indissociáveis do tema santidade do ministro. Só que, para minha surpresa, o autor começa o capítulo falando sobre sexo, prossegue falando sobre sexo e o termina falando sobre… sexo. Cheguei ao final desse trecho pensando: “Tá certo, concordo, mas… sexo?!”.

É absolutamente inquestionável que uma sexualidade santa é fundamental para a vida pessoal e ministerial de um indivíduo, devemos estar em constante vigilância para não cometer transgressões sexuais e, caso pequemos, sempre buscar o arrependimento sincero e a mudança de atitude. Mas, do jeito que o autor desse livro e muitos irmãos e irmãs tratam a questão, a sensação que tenho é que ser santo é apenas ser sexualmente santo. A pergunta é: e o resto? E as outras dezenas ou centenas, os outros milhares ou milhões de pecados, que fim levaram?

A conclusão a que chego é que nós criamos um ranking de pecados. E, no alto do pódio, triunfando como os piores pecados de todos, estão os de cunho sexual. Uma distinção que, é importante lembrar, a Bíblia não faz.

Revista UltimatoA revista Ultimato publicou na sua mais recente edição (número 346, pg. 42) um artigo não assinado em que aponta a negligência de grande parcela dos cristãos no que tange aos pecados ligados à injustiça social. Diz o texto: “A maior parte dos pregadores tem chamado a minha atenção para os pecados do sexo – o amor livre, a prostituição, o adultério, a pornografia, o homossexualismo – indicando a conduta certa nesta área. Agradeço a Deus por isso, mas lamento muito o silêncio, a falta de clareza e de ênfase na outra pregação, não menos importante que a anterior (…) Por falta de profetas nesta área, demorei muito tempo a compreender que é pecado tanto trair o cônjuge como deixar o irmão de estômago vazio”. Creio que o autor teve 101% de clareza em sua afirmação, pois conseguiu enxergar o quanto a “ditadura do sexo” está desviando as nossas preocupações de muitos outros tipos de pecados.

Não quero ser mal compreendido, então preciso enfatizar algo: pecado sexuais são graves. Nunca vou dizer o contrário nem vou passar a mão na cabeça deles. São horríveis e ponto. Toda prática sexual ilícita é destrutiva e só gera problemas, dor, morte e devastação. Sofro com um gosto amargo na boca só de pensar nos erros que cometi nessa área (e se você está praticando algo do gênero recomendo, por amor a sua vida e a sua alma, que pare imediatamente, já – de preferência, ontem). Mas o grande mal de se resumir os pecados graves a sexo é que todos os outros pecados graves começam a ser praticados sem que se dê o devido peso a eles.

Sexo3E vou te contar um segredo: todo pecado é grave. Não existe “pecado não grave” ou “pecado menos grave”. Poderíamos nos perder em discussões eternas sobre “pecadinho e pecadão”, “pecados para a morte” ou mesmo o conceito católico romano de “pecado mortal e pecado venial”. Conheço a teologia de tudo isso e a grande conclusão, em última análise, é uma só: pecado é pecado. Desobediência é desobediência. Morte espiritual é morte espiritual. Não existe morte que mate mais do que outra morte. Quem morre de queda de avião morre tanto quanto quem morre de pneumonia. Quem morre numa explosão nuclear morre tanto quanto quem morre de dengue. Tirando a imperdoável blasfêmia contra o Espírito Santo (que é atribuir atos divinos ao Diabo), os demais pecados estão todos no mesmo saco: representam morte espiritual e carecem de arrependimento, confissão e abandono.

Se um ministro do evangelho comete um pecado sexual, ele imediatamente é afastado de seu cargo. E isso é correto, pois essa alma preciosa e valiosa está doente e necessita ser tratada, cuidada, pastoreada, sarada e, só então, reconduzida às suas atividades ministeriais. Mas não deveria ser assim também com um ministro que peca pela inveja? Pela ganância? Pela arrogância? Pela soberba? Pela corrupção? Falta de amor? Vaidade? Maledicência? Dissensões? Partidarismos? Egoísmo? Egocentrismo? Hipocrisia? Abuso de poder? Favorecimentos ilícitos? Violência verbal? Injustiça? Traições? Quebra da ética pastoral? Mau uso do dinheiro da igreja? Etc., etc., etc? Confesso que não consigo me lembrar de quase nenhum caso de um ministro que tenha sido afastado do cargo por qualquer um desses pecados. Graves, diga-se. Hediondos. Um pastor soberbo, agressivo, corrupto ou vaidoso é uma anomalia espiritual. Precisa de tratamento tanto quanto um viciado em pornografia na internet.

Sexo4E não estou nem de longe falando apenas de ministros do evangelho. O mesmo se aplica a cada um de nós. Em um culto recente em minha igreja, um de meus pastores iniciou a celebração convidando a congregação a confessar seus pecados a Deus. Claro que me lembrei de meus pecado sexuais. Mas também me lembrei de muitos e muitos e muitos outros tipos de pecados, a ponto de a oração terminar e eu ter de interromper meu ato de contrição sem ter tido tempo de conversar com o Senhor sobre todos. Poucas vezes nos derramamos em lágrimas por termos sido, por exemplo, invejosos, iracundos, gananciosos, espertalhões, abusados ou por termos usado o “jeitinho brasileiro” (que é pecado, diga-se de passagem). Praticamos essas transgressões contra Deus sem nenhum drama de consciência, enquanto legiões de irmãos se deprimem por estarem, por exemplo, escravizados ao vício em pornografia. Por ser uma situação tão inexistente, chega a soar engraçado imaginar um líder ir a público dizer:

– Meus irmãos, preciso me licenciar do ministério pois não honro meu pai e minha mãe e tenho de me tratar espiritualmente.

Ou um membro de igreja que procure auxílio em gabinete pastoral afirmando:

– Pastor, preciso de libertação porque sou muito invejoso.

Inferno de DanteVocê já viu alguém ser disciplinado na igreja por ter praticado a glutonaria? Eu nunca. Na verdade, em todos os meus anos de convertido nunca ouvi uma única pregação, escutei uma música gospel ou li um livro cristão sequer que fosse sobre esse pecado. Parece engraçado eu estar dizendo isso? Não quando lemos na Bíblia que “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.21). Meu irmã, minha irmã, isso é extremamente sério! Essa passagem, por exemplo, me mostra que a glutonaria é tão grave e tem consequências tão severas como a fornicação, por exemplo, e outros pecados sexuais. E aqui reside o perigo, o xis da questão: se eu te perguntar quantas vezes você adulterou na vida, pode ser que me responda, indignado e ofendido: “Nunca!”; mas, sinceramente, quantas vezes você foi glutão? Umas 50? 100? 200? 300? E será que ao menos se arrependeu e pediu perdão a Deus por isso? Ainda: será que ter pecado pela glutonaria sem arrependimento faz de você menos culpado diante do Senhor do que se tivesse fornicado mas se arrependesse e pedisse perdão com toda sinceridade?

A mesma passagem que mostra a gravidade da obra da carne glutonaria a inclui no mesmo grupo que “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (Gl 19-21). Atravessamos a vida com nossa santidade sexual intocada mas cultivamos inimizades, sentimos ciúmes, promovemos discórdias, estimulamos facções, sentimos inveja e por aí vai – sem que nos arrependamos ou peçamos perdão ao Senhor. Será mesmo que estamos tão melhores assim na fita?

Todo pecado é grave. Mas existe um tipo de pecado que, sim, é mais grave do que os outros: o pecado não confessado. Enquanto ficarmos pondo corretamente o dedo na cara dos pecados sexuais mas passando incorretamente a mão na cabeça dos demais tipos de pecados, estaremos deixando de pregar contra eles, continuaremos a praticá-los sem arrependimento, não os confessaremos a Deus e, com tudo isso, seremos engolidos por atos hediondos para o Senhor mas a que não damos tanta atenção porque, para nós, não são tão hediondos assim.

Eis o grande mal da ditadura do sexo: deixamos de confessar nossos outros pecados, igualmente perniciosos.

Pecados sexuaisPode ser que você tenha se casado virgem, nunca tenha se masturbado, viva uma vida livre de adultérios e jamais tenha espiado pornografia na internet, entre outras atitudes sexuais biblicamente ilícitas. Se esse é o seu caso, ótimo – mas cuidado: sua sexualidade pode não te afastar de Deus, porém, de repente, sua língua, seus olhos, seu coração, seu ego ou suas atitudes o estão mantendo a anos-luz de distância do Senhor.

Quais são os pecados que você comete habitualmente mas aos quais não dá muita importância? Lembre-se de Provérbios 28.13: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”. Examine-se, pois, o homem a si mesmo… e alcance a misericórdia do Pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

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Habito1Nunca dei muita atenção a algo a que uma grande quantidade de pessoas dedica boa parte de suas preocupações: a cor da pele. No Rio de Janeiro, em especial no verão é bem comum ver muita gente em busca daquela corzinha bronzeada. Para obter esse resultado estético vale tudo: bronzeamento artificial, bronzeamento por spray e, em especial, horas e horas sob o sol na praia ou na piscina. Para mim, no entanto, nada disso nunca fez parte das minhas preocupações. Esse desinteresse me garante um constante tom de pele alvo-mais-que-a-neve. E confesso que em minhas idas à praia uso um filtro solar fator 98 (sim, isso existe), para me livrar da ardência do sol. Consequentemente, sempre que pego um solzinho continuo com a mesma cor de leite de antes. Nas minhas últimas férias, porém, como relatei no último post do APENAS passei quase vinte dias indo diariamente à praia. E aí não há filtro solar que resolva: você acaba com a pele muito, mas muito mais morena do que antes. Só que isso traz também outro resultado: você descasca. Se você já passou por isso, sabe que seu braço pode ficar todo escamoso, com pelezinhas que se soltarão ao longo de alguns dias. Observando meus braços descascados ao final da minha temporada sob o sol, acabei sendo levado a uma reflexão sobre a importância da mudança de hábitos.

Quando o sol queima nossa pele, o que ocorre é que a camada superior de células literalmente morre. Com isso, ficamos com milhões e milhões de células inúteis presas ao nosso corpo. Curiosamente, antes de morrer, esse tecido foi encharcado por uma enorme quantidade de melanina, o pigmento que nosso organismo produz como uma barreira contra os raios ultravioletas do sol e que é justamente o que nos confere aquele tom bronzeado. Assim, se essa pele morta e dourada permanecesse em nós, teria apenas função estética, uma vez que suas atribuições funcionais estariam todas perdidas. E, cá entre nós, nosso corpo não está muito preocupado com nossa estética, por isso procura se livrar o mais rápido possível daquele material morto. O resultado é a decepção que experimentamos quando vemos nosso lindo bronzeado de praia se perder a cada pedaço de pele que descola.

Esse simples fenômeno da natureza nos remete a uma grande lei do cosmos: a necessidade de renovação. Tudo o que morre ou torna-se inútil precisa ser renovado, transformado, reciclado. Isso ocorre com tudo no universo: animais morrem e são decompostos, plantas morrem e viram adubo, dinossauros morreram e viraram petróleo, energia elétrica se transforma em luz e calor, gás carbônico vira oxigênio… enfim, tudo chega a um fim e se torna algo novo. Espiritualmente a coisa não é diferente.

Paulo escreveu: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). Esse simples versículo tem muito a nos ensinar. Primeiro: a renovação da nossa mente ocorre a partir do inconformismo: “…não vos conformeis…”. Se nos acomodamos e ficamos confortáveis onde estamos e com o que estamos fazendo e não nos questionamos acerca daquilo que nos cerca, não experimentaremos a vontade divina. Segundo: essa renovação acontece a partir de uma iniciativa nossa, como o apóstolo diz, “transformai-vos”, ou seja, “ajam no sentido de promover mudança em vocês mesmos”. Assim, vemos que temos de sair do conforto e agir para mudar.

Nossa mente é muito ligada a aquilo que é um hábito em nossa vida. Hábitos nos trazem conforto, paz, tranquilidade. Rotinas nos dão segurança. Elas não nos desafiam, não geram instabilidade, não exigem esforço. Por isso, mudar um hábito é uma das tarefas mais difíceis que há. É raro encontrar alguém que goste de mudar uma prática que já se consolidou, que faz parte do dia a dia, que nos obriga a reformular, repensar, renovar.

Habito3Por exemplo: você está acostumado a seguir para o trabalho, a escola ou a faculdade sempre pelo mesmo itinerário. Num certo dia descobre que a prefeitura mudou a mão de várias ruas e interditou outras, o que te obriga a mudar totalmente sua forma de chegar ao destino. Confesse: isso te incomoda ou não? Na realidade, não haveria nenhum mal nisso, mas você é obrigado a reconstruir algo que já estava solidificado, estabelecido… e isso traz desconforto. Vamos supor outra situação: você está acostumado a certa estrutura na igreja, gosta dos pastores e da forma como as coisas acontecem e tudo segue na mais calma paz. Em certo domingo, recebe a informação que os pastores vão mudar e vai haver alterações na liturgia, no estilo de louvores, nas lideranças dos departamentos e por aí vai. Se você já viveu isso sabe que fica sempre atrás da orelha aquela pulga cochichando “poxa, estava tudo tão bom, por que tinha de mudar?”. Na verdade, o que te incomoda é a alteração de hábitos que, juntos, tornavam a situação confortável.

Sim, ninguém gosta de mudar aquilo a que já está habituado. O problema é que, muitas vezes, nossos hábitos se tornam como células mortas na pele e, se não forem descartados e trocados por outros, vamos sofrer as consequências. Por isso, precisamos constantemente buscar a renovação. E isso segue um caminho, em geral, parecido: primeiro, devemos nos examinar, pondo nossos hábitos sob a luz das Escrituras. Se percebermos que algo precisa mudar, não dá para nos acomodarmos: temos de nos inconformar.  E, mediante o inconformismo, é preciso agir no sentido de promover de fato a transformação.

Habito2Quais são as células mortas da sua vida? Você está preso a antigos hábitos sexuais pecaminosos? Pois isso é pele podre agarrada a sua alma, é preciso se inconformar e mudar. Ou será que ainda vive na prática do “jeitinho”, arrumando modos de sonegar impostos ou escorregando umas propinas de vez em quando? Enquanto não perceber que isso são células apodrecidas presas a você, viverá debaixo de podridão espiritual. De repente você não tem questões na área sexual nem pratica corrupção, mas ainda não conseguiu se livrar do hábito de falar mal dos outros. Pele morta. Talvez você seja um marido abusivo ou uma esposa insubmissa. Pele morta. Vai ver ainda não conseguiu se livrar de certas formas de entretenimento que ferem a sua santidade. Pele morta.  Pode ser que faça articulações dentro da igreja para obter poder pessoal. Pele morta. Ou, então, a sua vaidade siga tão pomposa e pecaminosa como antigamente. Pele morta. Pode ser que seu espírito continue tão altivo como quando estava no mundo. Pele morta. Há ainda a chance de seu amor pelo dinheiro alimentar uma ganância que não coaduna com o padrão bíblico. Pele morta. Será que seu temperamento segue tão explosivo como antes? Pele morta. É possível que pratique o favorecimento de pessoas próximas a você por interesse. Pele morta.

E por aí vai…

Há muitos e muitos hábitos que as pessoas trazem do mundo e que permanecem após a conversão. Ou mesmo cristãos de berço que adquiriram hábitos perniciosos que não conseguiram abandonar. Mascarados por justificativas como “não tem nada de mais”, “sou autêntico”, “não consigo deixar”, “é mais forte do que eu”, “sempre foi feito dessa forma” e tantas outras, esses hábitos permanecem na sua vida, agarrados de forma tóxica a sua alma, mortos e apodrecidos. Você, conformado, não consegue ou nem mesmo tenta se livrar deles. E, por isso, eles ali ficam, enchendo sua vida de decrepitude espiritual.

Você não pode se conformar com esses velhos hábitos, meu irmão, minha irmã. Seja sincero diante de Deus. Se vê que ainda há hábitos que pratica mas que configuram pele morta, mude. Aja. Parta para a ação. Você consegue – pois, antes que você queira a renovação, Deus já queria. E, se ele quer, ele vai te ajudar, fortalecer, capacitar. Que hábito em sua vida é pele espiritualmente morta? Se você sabe, não se conforme. A hora de mudar é já.

Ah, a propósito: meus braços ficaram com aquele descascado feio por alguns dias. Mas, assim que toda a pele morta se soltou e caiu, uma pele nova nasceu por baixo. Não tão morena. Não tão na moda. Mas incomparavelmente mais saudável.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Pai1Já relatei em alguns posts do APENAS como minha experiência como pai me fez (e faz) enxergar de maneira muito mais profunda as realidades do relacionamento de Deus conosco, seus filhos. Se você é pai ou mãe certamente entende o que estou dizendo. Parece que cada episódio de nossa vida paterna é uma pregação. Cada dia com nossos filhos, um culto. Cada noite, uma vigília. A voz do Senhor e suas verdades tornam-se muito mais concretas diante daquilo que vivemos com nossos pequenos. Permita-me trazer mais uma reflexão sobre nossa fé a partir de algo que aconteceu comigo e minha filha de 3 anos.

Moro no Rio, cidade de praias. Naturalmente, levo minha pequena desde bebê para desfrutar desse playground natural. Ela sempre amou se esbaldar na areia e na água. Bem… nem sempre, na verdade. Quando completou 2 anos, um episódio teve grande impacto sobre ela. Sempre fui extremamente cuidadoso, pois sei os riscos que um segundo de distração paterna pode causar quando um filho está na água. Um dia, porém, estávamos na praia do Leblon, que tem uma arrebentação muito perto da beira, e um erro meu custou caro. De mãos dadas, eu a fazia pular por cima de cada onda que arrebentava, com aqueles gritinhos de “uúu!” que as crianças tanto amam. Ela estava eufórica, gargalhava e gritava “de novo!”. Mas, então, cometi um descuido. Eu me distraí com alguma coisa e não vi quando uma onda maior se aproximou e estourou em cima de nós. Resultado: a água entrou pelo nariz, os ouvidos, a boca e a alma da minha filhinha.

Entre engasgos e olhares assustados, ela se atracou ao meu pescoço, num gesto de desespero. Eu havia falhado e, por causa de um segundo de desatenção, a pequena parecia ter ficado traumatizada. Daquele momento em diante, nunca mais ela quis entrar na água do mar. Embora ame as aulas de natação e nade boas distâncias em uma piscina sem que ninguém a segure, daquele dia em diante ela começou a demonstrar pânico do mar. Ir à praia com ela passou a significar fincar âncora na areia e nem sonhar em chegar à beirinha da água.

Tentei muitas vezes. Cheguei mesmo a forçar a barra, entrando com ela no meu colo em águas calmas. Em vão: minha filha cravava as unhas no meu pescoço, escalava minha cabeça e, como um macaquinho que foge de um tsunami subindo ao ponto mais alto de uma árvore, ela se instalava no ponto mais alto dos ombros e da cabeça de seu papai, em pânico. Os fracassos sucessivos, durante meses, quase me convenceram de que não tinha mais jeito, o negócio era aceitar que ela tinha se tornado uma pessoa traumatizada e que nunca mais entraria no mar.

Mas um pai amoroso nunca desiste de seus filhos.

Pai2Decidimos passar as férias desse fim de ano em Cabo Frio, uma cidade essencialmente praiana. Como conheço bem a rotina do lugar, sei que ficar na cidade significa, em resumo, acordar, ir à praia, comer, ir à praia e dormir. Por um lado já estava antevendo a dor de cabeça que seria passar 20 dias na praia com uma filha que tem pavor de mar. Mas, por outro, decidi que aquela situação tinha de acabar. Então, em vez de simplesmente aparecer com ela diante do mar e tentar empurrá-la para dentro da água, desde que decidimos passar as férias em Cabo Frio resolvi trabalhar a ideia na mente dela. Decidi… pregar.

Comecei pedindo-lhe perdão por tê-la deixado se assustar uma vez e garanti que eu estaria sempre presente, extremamente atento a sua segurança. Deixei claro que o papai iria protegê-la e faria disso prioridade. Verbalizei tudo o que era possível para deixá-la totalmente segura naquela situação. E fiz isso por um longo tempo e muitas vezes. A fim de torná-la ciente do que vinha pela frente, passei a dizer rotineiramente que iríamos a um lugar de praia e que passaríamos muito tempo lá. Junto a isso, comecei a explicar repetidamente e frequentemente como é o mar, propositadamente iniciei uma série de preleções sobre as águas do oceano, explicando como funcionam as ondas, o que fazer para evitar que elas sejam incômodas e outros aspectos relacionados ao seu grande medo. Preguei, preguei e preguei.

Enfim chegou o dia.

Creio que eu estava muito mais ansioso do que ela. Chegamos a Cabo Frio, nos instalamos e logo fomos à praia. Assim que pisamos na areia, minha filhinha disse algo surpreendente:

– Eu adoro o mar!

Sorri, surpreso com aquela afirmação inesperada. Montamos a barraca e ela começou:

– Vamos, papai, vamos para a água!

Pai3Seria possível? Segurei minha pequenininha pela mão e caminhamos rumo às ondas. Para meu espanto, ela não hesitou um segundo sequer: saiu invadindo a água. Pulou, mergulhou, se jogou em cima de mim. Daqui a pouco pediu para que eu soltasse sua mão, pois queria nadar sozinha. Eu, temeroso, permiti que aquele pingo de gente se esbaldasse, mas minha atenção ficou focada em cada onda que vinha. Sempre que uma maiorzinha despontava, eu a suspendia no ar, livrando minha filha de tomar água na cabeça. Aprendi com meu deslize. E cumpri minha promessa.

Durante todas as nossas férias, fui acordado por aquele pingo de gente me sacudindo e dizendo “vamos para a praia, papai?”. Quando chegávamos, antes que eu começasse a montar a barraca ela perguntava umas trinta vezes “vamos para a água, papai?”. Conclusão: foi difícil manter minha filhinha longe do mar. Ela pedia, destemida, para ir até o fundo; queria nadar, pular, fazer tudo o que pudesse, excitadíssima com a diversão. Quando vinha uma onda maior, por iniciativa própria corria para os braços do pai. Se entrava água em seu nariz ou sua boca, dava ouvidos ao pai e assoava ou cuspia. Creio que ela amadureceu, a partir dos problemas do passado, das palavras de esclarecimento e segurança que ouviu com constância e pela confiança que desenvolveu de que nunca seria desamparada ou abandonada pelo papai (e pela mamãe), sua fonte de segurança e conforto. O conhecimento e a confiança em que estaria segura a permitiram viver momentos de extrema felicidade.

Agora pense:

Infant Grabbing Man's FingerDeus é um Pai muito melhor do que eu. Ele nunca nos desampara. Ao contrário de mim, nunca fica desatento, jamais se distrai. Nada passa despercebido diante de seus olhos. Sua atenção conosco é constante, focada e dedicada. Ele jamais é pego de surpresa por qualquer onda, mas muitas vezes deixa que uma ou outra nos atinja, pelas razões mais diversas. Doenças, desemprego, luto, perdas, dificuldades, problemas, vales, desertos, dores, seja o que for: quando esses males chegam, parece que estamos nos afogando, perdemos o fôlego, ficamos espantados. O Pai permite que isso aconteça não para que percamos a fé ou fiquemos com medo diante da vida, mas para que amadureçamos, tenhamos experiências, cresçamos, subamos a patamares mais elevados em nossa espiritualidade. O problema ocorre quando, em vez de aproveitarmos essas circunstâncias para evoluir, deixamos que nos afetem de modo negativo, o que nos leva a questionar o cuidado de Deus.

Será que ele me abandonou? Será que não ouve minha oração? Será que cometi algum pecado que fez Deus virar-me as costas? Será que o Senhor desistiu de mim? Nossa fé é abalada. A confiança no Pai é minada. Passamos a temer. Os desafios da vida se tornam monstros apavorantes. Escalamos a árvore até o galho mais alto, pois a segurança de que Deus cuidará de nós a cada segundo foi posta de lado. Temores. Medo. Ansiedade. Trauma. Depressão. Tristeza. Sensação de abandono.

– Pai, as ondas estão fortes demais, não consigo!

Mas o Aba, nosso protetor celestial, aquele que nos ama com amor incompreensível, em momento algum se ausentou. Ele tentou numerosas vezes nos fazer ver que estava nos segurando pela mão ou nos carregando no colo, mas os traumas com as dores e os sofrimentos do passado fizeram nossa fé totalmente infrutífera. É o fim? Nem de longe, pois Deus é seu Pai.

E um pai amoroso nunca desiste de seus filhos.

Pai5Então, por saber que muito virá pela frente, o Senhor começa o processo de cura de nossa alma. Para isso, Deus começa a falar conosco. Leituras da Palavra nos dão explicações e esclarecimentos. Pregações iluminadas pelo Espírito Santo nos revelam como funcionam as coisas, como o Senhor age, por que certos sofrimentos ocorrem, o que fazer quando chegam as tribulações. Livros escritos por irmãos e irmãs movidos pelo Divino abrem os olhos para realidades profundas da ação do Pai. Aos poucos, o poder das verdades celestes vai transformando nossos medos em paz, nossa dor em esperança, nossos traumas em aprendizado. Amadurecemos. Vemos a vida e Deus de maneira diferente e com muito mais transparência. Entendemos que ele nunca nos abandonou nem nunca nos abandonará. Torna-se clara a certeza de que, em meio a toda aflição, o Senhor não soltou nossa mão, mas deixou as ondas nos atingirem sem causar um dano permanente – e os propósitos do alto diante daquela situação ficam patentes.

Passamos a compreender. Somos fortalecidos na fé. Galgamos novos patamares em nossa intimidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Conhecemos Deus, então, não mais por ouvir falar, mas por vê-lo com nossos próprios olhos espirituais. Com isso, ganhamos total confiança nele. E quando novas ondas despontam no horizonte, ameaçando nos afundar, afogar e machucar, dizemos com destemor:

– Vamos, papai, vamos para a água!

Pai6Passamos a encarar os problemas com segurança. Os momentos de trevas não nos apavoram mais. Sabemos que os vales virão, mas nosso Pai está e estará sempre ali, a nos proteger, guardar, escoltar, sustentar, salvar. Ele é Emanuel: Deus conosco. Conosco, nunca longe de nós (Mt 1.23). Ele está com você todos os dias, até a consumação do século (Mt 28.20). E temos a certeza de que “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá” (Sl 139.8-10). Tudo o que temos de fazer, então, é entregar nosso caminho ao Senhor, confiar nele e saber que o mais ele fará (Sl 37.5). E se, em algum momento, sua fé vacilar e você acreditar na mentira de que teu Pai não ajudará a te sustentar, “Confia os teus cuidados ao SENHOR, e ele te susterá” (Sl 55.22).

Meu irmão, minha irmã, as ondas certamente virão, pois ninguém atravessa o mar da vida sem ser açoitado por elas. Mas tenha esta certeza: o teu Pai, que jamais se distrai ou se descuida, te susterá. Palavra de pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Sombra0Sombras são nossas companheiras inseparáveis. Qualquer homem ou mulher pode nos abandonar: pai, mãe, marido, esposa, filhos, irmão, colegas, amigos. Mas sombras não: elas sempre estarão ali, fieis, leais. Presentes na alegria e na tristeza, nossa sombra nunca desgruda de nós – silenciosa, soturna, com um certo ar de mistério; mas está ali, firme, constante. Temos poucas certezas na vida, mas a convicção da presença perene de nossa sombra é uma garantia inquestionável.

É interessante notar que a sombra é algo que não é. Ou seja, ela não subsiste por si só: denuncia, na verdade, a presença de luz. Não existe sombra no escuro. Ela é como um oco que se forma num espaço vazio, que a luminosidade não ocupou. Mas, embora uma sombra não exista em si, ela revela necessariamente a presença de dois elementos: o objeto que lhe deu seu formato e uma fonte de luz. Ou seja, se há ao meu lado uma sombra com o perfil de uma cadeira, isso prova que estou na presença de uma cadeira e, também, de um foco de luz.

Curioso é que, apesar da sua presença tão constante, não temos o hábito de dar muita atenção a ela. Estamos tão acostumados à sua permanência que acabamos pensando pouco ou quase nada sobre nossa leal sombra, reservamos um tempo quase nulo para refletir sobre ela e a relegamos a um papel secundário (para não dizer inexistente) em nossa vida. A verdade é que não valorizamos muito as sombras.

Exceto no calor abrasador.

Sombra5Pense bem: você chega à praia, o sol está escaldante; a areia, pelando; e a sola do seu pé começa a queimar. Seu primeiro impulso é sair correndo para…? Isso mesmo: para a primeira sombra que aparecer. Nessa hora, você põe a sombra como prioridade máxima em sua vida. O mesmo ocorre num dia de verão bem quente e abafado, quando você está na rua, morrendo de calor, atravessando uma enorme praça que precisa ser cruzada para chegar ao outro lado, enquanto o suor escorre por dentro de sua roupa. Ao seu lado há um muro que projeta um corredor sombreado ao longo do caminho. Por onde você procura andar: pelo meio da praça ou junto ao muro, pela sombrinha? Pensemos em uma terceira situação: você chegou a um estacionamento a céu aberto naquele dia de rachar. Há muitas vagas ao sol e apenas uma junto a uma árvore solitária, com aquela sombrinha preciosa. Onde você procura parar o carro? Em geral, buscamos instintivamente o alívio proporcionado por aquele pedacinho de área fresca. Essas realidades revelam que, quando estamos debaixo de um calor abrasador, a sombra, normalmente relegada a um plano de pouca ou nenhuma importância, recebe papel de primazia.

Salmos 91 fala sobre a sombra de Deus. Claro que é uma metáfora, ou seja, algo dito em linguagem figurada, pois o Altíssimo, por ser espírito, não tem sombra, além do que Ele é a própria fonte de luz. Ele é o sol. Ele é a luz do mundo. No mundo espiritual, só projeta sombra quem sobre si recebe a luminosidade que vem do Divino; já quem está longe do Senhor vive em trevas: não projeta sombra porque a luz não o alcança e, portanto, vive circundado de escuridão.

Sombra3Mas quando o salmista usa a imagem metafórica da sombra de Deus, nos remete a uma realidade muito parecida com as que mencionei nos exemplos da praia, da praça e do estacionamento. Porque o Onipotente está sempre conosco, constantemente disposto a nos proteger e a dar alívio. Nos momentos de maior tribulação e sofrimento, o fato de a sombra do Todo-poderoso estar por perto denuncia que Ele não nos abandonou. Onde está a sombra de Deus certamente nosso Pai está. Nossa vida pode estar sufocante, podemos estar vivendo agonias que parecem não ter fim, o chão sob nossos pés queima ante a quentura das circunstâncias, não há muro que nos dê alento debaixo do calor da insegurança e parece não haver nenhum lugar onde estacionar sem que torremos debaixo das temperaturas elevadas de um dia a dia que não dá tréguas. Sufocamos. Queimamos. Suamos. Agonizamos. Não há repouso nem paz na vida.

Mas, então… a suave voz de Deus nos aponta um caminho: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente…” (Sl 91.1). Sim, existe a sombra do Onipotente, um refúgio seguro onde buscar descanso, onde refazer as forças para a jornada da vida, um local de segurança e alívio. Estar ao lado desse Ser que nos esconde, protege, fortalece e guarda dos ambientes hostis da luta diária é a saída para todos os males que podem nos atingir.

Sombra2E a promessa do descanso ofertado para quem se achegar à sombra do Onipotente vai além daquilo que uma sombrinha comum pode proporcionar. É uma promessa de proteção, confiança, livramento, segurança, saúde, paz, tranquilidade, vida, preservação e justiça. Veja: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao SENHOR: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio. Pois ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa. Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro; a sua verdade é pavês e escudo. Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de dia, nem da peste que se propaga nas trevas, nem da mortandade que assola ao meio-dia. Caiam mil ao teu lado, e dez mil, à tua direita; tu não serás atingido. Somente com os teus olhos contemplarás e verás o castigo dos ímpios. Pois disseste: O SENHOR é o meu refúgio. Fizeste do Altíssimo a tua morada. Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra. Pisarás o leão e a áspide, calcarás aos pés o leãozinho e a serpente…” (Sl 91.1-13).

Lindas promessas, não? Mas aí você pode se perguntar: e o que é preciso para eu viver essas promessas em minha vida? Simples. Vamos continuar ouvindo a voz do Senhor: “…porque a mim se apegou com amor, eu o livrarei; pô-lo-ei a salvo, porque conhece o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; na sua angústia eu estarei com ele, livrá-lo-ei e o glorificarei. Saciá-lo-ei com longevidade e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 91 14-16). Eis o segredo:

1. Apegue-se com amor a Deus.

2. Busque-o, saiba quem Ele é, aprofunde-se no conhecimento do Senhor, isto é, “conheça o seu nome”.

Basta conhecer Jesus e amá-lo. Não é difícil. Com isso, ele responderá tuas orações, te acompanhará em tuas angústias, te livrará de todo mal e concederá longevidade. E, de tudo, aquilo que mais nos enche de júbilo, esperança e alegria eterna: mediante teu amor e busca, o Onipotente te dará salvação e te glorificará, junto com Ele, pelos séculos dos séculos.

Paz a todos vocês que descansam à sombra do Onipotente,
Maurício

susto1Sabe quando algo ou alguém te dá um susto e você age por reflexo, dando um salto para o lado, abaixando a cabeça ou levantando as mãos para se proteger? Isso ocorre porque todo ser humano é condicionado a ter reflexos instantâneos e instintivos, de acordo com cada situação que se apresenta inesperadamente em seu caminho. Todos agimos por reflexo, adestrados que somos a tomar certas atitudes diante de circunstâncias específicas. O resultado é que, como somos fruto do meio em que vivemos, mesmo sendo cristãos não é raro fazermos escolhas mundanas – por puro reflexo. É nesse momento que entra em cena o Espírito Santo. Ele nos faz parar, pensar e ver que aquilo que fizemos não foi nada bonito. Ou seja, depois do reflexo vem a reflexão. Sob o poder de Deus, a reflexão acerca de reflexos equivocados pode nos levar a ter reflexos acertados no futuro. Para exemplificar o que estou dizendo, permita-me relatar um episódio que me aconteceu recentemente.

Entrei em uma loja de conveniências para sacar dinheiro. No exato momento em que estava no caixa automático, fui abordado por um adolescente, visivelmente muito humilde, sujo e mal vestido, que carregava uma caixa de engraxate.

– Tio, compra alguma coisa pra eu comer?

Você sabe como é: quando estamos digitando nossa senha, não gostamos de ter gente estranha por perto. Então eu, por reflexo, cobri o teclado com a mão e, sem nem ao menos olhar para o rapaz, por reflexo balbuciei qualquer coisa parecida com um “agora não”. Ele recuou e continuei a operação, torcendo que desistisse de mim e fosse abordar outra pessoa. Só que, no que terminei, me virei e dei de cara com ele, me esperando. Para piorar, vi que o jovem estava acompanhado de um menininho, possivelmente seu irmão. Tive apenas um segundo para decidir o que fazer. Você pode imaginar que, obviamente, como sou um bom cristão e escrevo sobre a fé num blog e em livros, eu agi da forma mais bíblica possível, amparando aquelas vidas e dando de comer a quem tinha fome, certo?

Errado.

Naquele segundo decisivo, agi por puro reflexo mundano. O Maurício cristão parecia ter evaporado. Em vez de abrir mão de mim, comprar alimentos para os dois e agir segundo a graça, a compaixão e o amor, eu, por reflexo, virei a cara, dei as costas e saí pela porta, deixando para trás aqueles dois seres humanos famintos.

susto2Eu poderia me justificar, usando o reflexo como desculpa para dizer que não tive oportunidade de consertar o erro – afinal, agi segundo um impulso condicionado e não havia como voltar atrás. Mas seria uma mentira. Pois, assim que saí da loja, tive de parar para atravessar a rua, uma vez que o sinal estava vermelho para os pedestres. E, naquele momento, não houve reflexo algum. Fiquei ali por, no mínimo, um minuto, parado. Na minha cabeça, uma sirene tocava, dizendo algo como “volte lá, seu egoísta sem compaixão, dê de comer a quem tem fome, seu cristão de meia tigela, avarento e servo de Mamom!”. Sim, eu tive tempo de sobra de girar sobre os calcanhares, voltar para a loja e comprar algo para aquelas duas vidas matarem a fome. Mas a verdade é que fiquei ali, estagnado. O sinal abriu e segui meu caminho.

Esse episódio aconteceu há quase dois meses, mas até hoje não sai da minha cabeça. De lá pra cá me peguei pensando muitas vezes: por que eu tomei aquela decisão? Por que não fiz o que Jesus nos disse para fazer? Por que não amei o meu próximo? Por que não dei de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede? Por que virei as costas para Cristo quando ele se apresentou para mim na forma de dois meninos carentes?

Creio que o mundano que habita em mim naquele momento falou mais alto do que o cristão que habita em mim. Eu reagi como o mundo reage, por reflexo. Agi segundo meus próprios interesses egoístas. E, depois, quando parei para pensar e tive tempo de reformular meus atos, não consertei meu erro, simplesmente segui a correnteza de acordo com o pensamento do mundo. Naquele momento, meu coração não estava em Cristo. Como Paulo explicou muito bem: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19).

Eu e você vivemos isso muitas vezes. Como estamos no mundo, somos contaminados pelos valores e os padrões do mundo. E, quando somos pegos de surpresa, despreparados, se não estivermos encharcados do evangelho, vamos agir por reflexo – e reflexo mundano. Porque é fácil ser cristão ao final do culto, no ambiente eclesiástico, após passar duas horas vivendo a realidade da presença divina. Mas, no dia a dia, depois de ficar longos períodos com a mente apenas nas coisas deste século, corremos o sério risco de agir como cidadãos do mundo. Por isso é essencial imergirmos nas coisas de Deus todos os dias, seja pela oração, seja pelo estudo da Palavra, seja pelo jejum ou as demais disciplinas espirituais. Temos de estar em Cristo diariamente, a todo momento, ininterruptamente, sem trégua.

susto3Em certa ocasião, Jesus disse: “Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele” (Mc 10.15). Já ouvi muitas interpretações acerca do que o Mestre quis dizer com isso. Entendo que uma criança ainda não teve tempo suficiente de ser influenciada pelo seu entorno. Meninos e meninas, embora carreguem o pecado dentro de si, ainda não foram condicionados a agir desta ou daquela maneira. Seus reflexos mundanos não estão estabelecidos. São diamantes brutos, puros. Nós, adultos, não: estamos altamente contaminados com maneiras de agir que nos ensinaram por aí. No caso específico, já ouvi tantas vezes que devemos ignorar os pedintes, reter esmolas e fugir de estranhos que pedem dinheiro que simplesmente me deixei levar por essas filosofias. Só que são filosofias humanas e não divinas. Deus manda amar, estender a mão, ajudar o necessitado, cuidar do pobre, amparar o desamparado. Não vejo na Bíblia Jesus dizer o que já ouvi incontáveis vezes, de diferentes pessoas: que não devemos dar esmolas porque, se o fizermos, estaremos estimulando a mendicância. O que o Senhor disse foi: “Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber…” (Mt 25.41-43).

Minha filha acabou de completar 3 anos. Minha esposa, que é infinitamente mais generosa do que eu, propôs que era hora de ela dar parte de seus muitos brinquedos a crianças carentes. Chamamos a pequena, lhe explicamos a ideia e minha filhinha, sem pestanejar, separou alegremente para doarmos muitos de seus bens, de bonecas ao seu velocípede. Confesso que, ao ver a bondade do coração da minha filha, me lembrei do episódio da loja de conveniências e senti vergonha de mim. “Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele”… Tenho buscado aprender mais sobre o reino de Cristo observando minha pequenininha. Em especial, tentando reagir mais como Jesus reagiria e não como o mundo me ensinou. Mudar meus reflexos.

susto4Mas há um aspecto interessante nessa história. Depois de tudo o que relatei, há pouco tempo eu estava em um restaurante no Leblon (bairro nobre do Rio) e entrou pela porta uma menina pedindo comida. Imediatamente o gerente quase voou em cima dela para expulsá-la. Meu reflexo, naquele momento, foi totalmente diferente do fiasco na loja de conveniência: pedi ao gerente que a deixasse se aproximar e dei a ela uma parte de nossa comida. Minha filha observou minha atitude e espero que isso contribua para desenvolver nela reflexos cristãos nas situações inesperadas. Quando a garotinha saiu, eu estava com paz no coração e, sinceramente, feliz. Não posso voltar atrás e alimentar aqueles dois meninos da loja de conveniências, nem mesmo sei seus nomes ou o que aconteceu a eles. Mas ficou o duro aprendizado. E oro a Deus que todos os meus amargos fracassos espirituais sirvam para aprimorar meus reflexos em Cristo.

Você errou? Cometeu deslizes dos quais se arrepende amargamente? Ou mesmo acha que, de tanto ter errado, não tem jeito para você? Então espero que minha experiência e minha atitude vergonhosa o ajudem a ver que é totalmente possível aprender com os erros, se aprimorar e desenvolver reflexos baseados nos valores do evangelho, para que, no futuro, você reaja ante as circunstâncias inesperadas da vida da mesma forma que Jesus reagiria.

E, assim, eu e você estaremos a cada dia mais próximos de refletir a glória de Deus para este mundo tão faminto de graça e amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

A Grande Batalha  Espiritual Capa1Seis meses atrás, no dia 04/07/2013, disponibilizei aqui no APENAS o e-book A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL. Se você não tomou conhecimento dessa iniciativa, uma rápida explicação: um grupo de cinco pastores da denominação de que sou membro se reuniu e escreveu esse livro sobre o assunto. Particularmente, o considero o material mais bíblico que já li sobre o tema. Com a concordância dos cinco autores, o texto foi ofertado gratuitamente aqui pelo blog como livro eletrônico, para ser baixado em formato de PDF. A iniciativa não tem fins lucrativos e o único objetivo (dos autores ao escrever e o meu ao divulgar) é a edificação da Igreja. Por isso, o download e a distribuição gratuita do livro foram liberados.

Passados seis meses, já foram feitos até a data de hoje mais de 1.550 downloads. Levando-se em conta que esta obra só conta com um único canal de distribuição (este blog), podemos considerar que A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL tem alcançado seu objetivo maior, o de edificar e instruir muitas vidas. Como sua mensagem é bíblica e séria, só posso me alegrar por isso.

Estou divulgando novamente o texto por considerá-lo muito útil para a edificação da Igreja. Se você ainda não leu, fica a recomendação para que o faça (é uma leitura rápida, em linguagem bem acessível). Para realizar o download do PDF basta clicar neste link: A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL. Peço a Deus que o abençoe em sua leitura e, se considerar que o material tem qualidade, divulgue, envie por e-mail, passe adiante. A Igreja só tem a ganhar com a leitura de livros que, de fato, edificam segundo a sã doutrina. E, com relação a A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL, eu assino embaixo.

Atualização: em 19/02/2014 o número de downloads do livro chegou a 2.116.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício