Arquivo de setembro, 2013

Deus1Espanta-me muitas vezes a forma como certos cristãos falam sobre Deus e as coisas pertinentes a ele. Usam de uma frieza e de uma dureza que me soam como se o Senhor fosse alguém destituído de sensibilidade, de afetos, de amor. Tratam do evangelho como um martelo de ferro batendo em rocha dura, passando a imagem de que o Criador é alguém frio e calculista, como um daqueles vilões de filmes de Chuck Norris, que matam impassíveis montes de pessoas sem mexer um músculo do rosto. Um Deus de pedra. Um Deus estátua-de-gelo, com peito oco e alheio a toda forma de sensibilidade. Gosto de ver o Senhor como um poeta. Não por fazer poetismos melosos e sem função, mas por ter atributos típicos dos poetas: sua grande veia artística, seu enorme coração, sua capacidade de ver beleza onde há aridez, sua habilidade de transformar realidades difíceis em palavras expressivas, e seu amor sem fim – expresso em sua graça, em sua misericórdia, em sua compaixão.

Quando me lembro que Deus foi quem soprou cada uma das palavras dos Salmos no coração e na mente dos salmistas me encanto com seu espírito criativo. Quando me recordo que de seu interior nasceu o Cântico dos Cânticos e aquelas porções da Bíblia que os teólogos gélidos preferem esquecer que existem vejo um ser que pulsa em emoção. Quando leio que Jesus curava os enfermos “movido por íntima compaixão”, enxergo um Cristo mais amoroso do que os poetas mais parnasianos. O mesmo Jesus que chorou ao ter sua sensibilidade entranhavelmente abalada pela dor dos amigos do Lázaro morto, incapaz de permanecer alheio ao sofrimento dos que amava, mesmo sabendo que traria o defunto de volta da morte. Poetas são assim: choram com muita frequência.

Deus2Aliás, por falar de amor, fico profundamente comovido ao ler que o Todo-poderoso nos enviou o Filho pelo fato de nos ter amado. E não amado de um modo qualquer. Amado… “de tal maneira”. Ou seja: amou de forma rasgada, desbragada, entregue e devotada. Meu irmão, minha irmã, nós, que fomos resgatados pela graça e o amor do Senhor, somos a sua poesia. Ele nos compôs impulsionado pelo amor mais extraordinário já visto. Como as linhas de uma canção de amor, nascemos de sua inspiração, fomos idealizados em sua mente e acabamos concretizados como as palavras mais lindas do Verbo que se fez carne e que, de poeta, se faz poesia.

Deus sente. Deus sente, meu irmão, minha irmã. Que lamentável é vermos quem enxergue o Senhor de modo tão estático, frio e impassível como uma estátua. Em outras palavras, como um ídolo de barro.

Encanta-me saber que Jesus mandou que olhássemos para as flores quando quis falar do cuidado de Deus com nossas necessidades. Ele não teceu um tratado teológico cheio de notas se rodapé, paradigmas, cosmovisões, tabelas e gráficos explicativos. Simplesmente mandou que olhássemos para os lírios do campo. Que extraordinário! Profundas realidades espirituais em forma de poesia. “Você está preocupado? Olhe para as flores…”, disse o Mestre, com a simplicidade de um soneto.

Deus3Louvo a Deus por, ao nos fazer à sua imagem e semelhança, ter posto em nós lascas do gigantesco Espírito poético que ele tem. Porque a poesia não é um atributo de origem humana e seria muita petulância achar isso. O que temos de sensibilidade e arte é uma tênue reprodução daquilo que pulsa no coração do Senhor. A Bíblia que eu leio me mostra um Deus poeta. Sensivel. Criador. Criativo. Amante da beleza. Artístico. E que fez questão de inserir muita poesia na sua Palavra revelada, no livro que revela sua essência – acredito eu que para revelar que no Senhor há poesia. Caso contrário, qual seria a função de haver poesia na Bíblia?

Obrigado, Senhor, pelo dom de sentir. De me encantar. De ver beleza. De chorar ante uma flor, ante uma música, ante o sofrimento de um irmão. Obrigado, Senhor, por ter-se revelado esse poeta tão magnífico. E obrigado, acima de tudo, pela poesia da cruz: dois riscos que se cruzam e trazem na sua interseção um coração sangrando de tanto amar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Alem1Você quer evoluir na sua espiritualidade? Quer crescer em intimidade com Deus? Quer aprender mais da Palavra? Se você é um bom cristão, provavelmente respondeu sim a todas essas perguntas. Mas será que existe algo que te limite nesse sentido? Algo que te faça achar que não vai conseguir? Ou, de repente, será que você está satisfeito e confortável com sua atual posição espiritual e não vê necessidade de galgar novos patamares? Te convido a refletir sobre isso.

Paulo escreveu em Romanos 12.2 que é condição para experimentarmos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus que passemos por um processo de renovação da mente. Renovar significa tornar algo novo… de novo. Ou seja, para conhecermos o coração de Deus precisamos pegar o que já era novo e fazer novo novamente. Interessante pensar nisso.

É importante refletir sobre essa questão porque existe uma ideia equivocada entre nós. Achamos que, uma vez que tudo se fez novo na conversão, nunca mais é preciso mudar nada. Está feito. Conversão ocorrida, aprendemos os conceitos cristãos e pronto. Agora é só se agarrar ao que nos ensinaram, carregar esse vinho velho nas costas até a hora da nossa morte e tudo está bem. Só que, na verdade, não está. Romanos 12.2 que o diga.

Alem3A caminhada no evangelho pressupõe uma constante reavaliação de crenças, valores, conceitos, ideias. É a Igreja reformada sempre reformando – e a Igreja somos eu e você. A maior parte do que você aprende no seu primeiro ano pós-conversão descobrirá depois que eram introduções, verdades parciais ou mesmo erros. Era leitinho, alimento para quem dá os primeiros passos. A maturidade espiritual clareia muito essa percepção e muda tudo. Só que existe uma ideia que emperra a evolução de muita gente: a de que certas coisas não devem mudar ou não devemos aprender nada novo. Já ouvi frases como “não podemos pregar que passagens como Marcos 16 ou o trecho da mulher adúltera de João 8 não estão em muitos dos manuscritos originais da Bíblia, porque o povo não entenderia”. Bobagem. Tudo o que é bem explicado e vem para edificação pode ser compreendido – e, logo, deve ser ensinado. Temos de ensinar a verdade, na certeza de que absolutamente todos podem aprender, se desenvolver, crescer, mudar do leite para a comida espiritual sólida.

Recentemente tive uma experiência que mostrou com muita clareza o quanto subestimamos as pessoas. Gosto muito de ópera. Ouço óperas com muita frequência. Uma certa pessoa de meu círculo de relacionamentos desde que a conheço só ouvia músicas bem bobinhas, simples, para não dizer infantis. Eu a achava incapaz se gostar de algo mais profundo e elaborado. Alem4Semana passada eu estava junto com essa pessoa e resolvi assistir no computador à opereta “I Pagliacci”, de Rugero Leoncavallo. Achei que ela não fosse dar a mínima, ou mesmo reclamar. Para minha surpresa, essa conhecida fixou os olhos na tela e começou a prestar muita atenção. Passou a fazer montes de perguntas sobre a história, os personagens, a música. Fiquei empolgado. Nunca imaginei que ela pudesse gostar daquilo. Perguntei se estava apreciando. Disse que sim. Então propus que víssemos algumas partes da minha ópera favorita: “Carmen”, de Georges Bizet. Ela assentiu. Assistimos juntos a muitos trechos. O ápice foi quando, para meu assombro, chegou a ária “La fleur que tu m’avais jetté”, cantada pelo excelente tenor Jonas Kaufmann (o vídeo da ária está ao final deste post). Fiquei de queixo caído ao perceber que ela visivelmente se emocionou e, ante meu olhar estupefato, disse:

– Gostei. Quero ouvir de novo, papai.

Sim, essa pessoa era minha filhinha de 2 anos. E eu, que só dava “Patati Patatá”, “Homenzinho torto” e “Galinha Pintadinha” para ela ouvir… descobri que ela é capaz de apreciar ópera. E, creia: por quase duas horas ela ficou sentada no meu colo, sorvendo o que há de melhor nessa arte tão bela e sensível. Eu explicava tudo, o que era a orquestra, o som de cada instrumento, os cenários, a trama, técnicas vocais, o que é canto lírico… enfim, expliquei muito para alguém que eu achava que não entenderia nada. E anteontem, dois dias depois dessa experiência, ela chegou da creche e disse que queria assistir a óperas. Não desenhos animados: óperas. Essa experiência me mostrou como, muitas vezes, nós é que não levamos fé nas pessoas. Qualquer um é capaz de nos surpreender. De aprender. De se renovar. De evoluir. De coisas grandiosas. Você também.

alem5Pode ser que você acredite (ou alguém tenha feito você acreditar) que não dá para ir além de onde já chegou. Talvez, até, você mesmo creia que não precisa ir além, que está tudo bem como está. Que não precisa mudar, renovar a mente. Se é o caso, saiba que Paulo discordaria. Escute e escute bem: você pode ir muito além de onde já chegou. Pode ganhar muito mais conhecimento bíblico, teológico, histórico. Pode mergulhar muito mais profundamente na sua espiritualidade. Pode ter uma vida de oração bem mais sólida, uma rotina de estudo bíblico mais aprofundada, uma intimidade muito maior com Cristo. Você duvida? Bem, eu duvidava que minha filha de 2 anos trocasse a “Galinha Pintadinha” pela “Habanera”, de Bizet.

Nada é impossível. É desejo de Deus que você renove sua mente e cresça em sua devoção e em sua espiritualidade. Esse seria também o seu desejo? Então prepare-se para descobrir um mundo novo dentro da sua fé, porque, quando o desejo do seu coração encontra o desejo do coração de Deus, o resultado é uma harmonia espiritual com a beleza e a complexidade de uma ária de ópera.

Meu irmão, minha irmã, não fique estagnado, seja por que razão for. Se você se acha incapaz de crescer espiritualmente, saiba que tem toda a capacidade do mundo para isso. Se te disseram que não precisa evoluir, afirmo que não é verdade. Seja lá o que faz você permanecer estagnado onde está, saiba que, em Cristo, você pode ir muito além. Levante a âncora e se lance ao mar, reme com vontade. O resto deixe com os ventos do Espírito Santo de Deus, que te levará a novas, produtivas e emocionantes aventuras por oceanos que você nem sabia que poderia vir a conhecer.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

S09A solidão faz parte da vida de muitos de nós. Não são poucas as pessoas que vivem cercadas por multidões mas, por trás dos sorrisos artificiais, vivem em estado de absoluta solidão. Pessoalmente valorizo muito o estar só, buscar um lugar isolado, sentar-se e ficar apenas pensando, misturando o som de ondas com o de pensamentos – é uma dinâmica extremamente produtiva. Gosto de fazer isso. Como diz Frejat, “às vezes levo o meu corpo para passear”, é por aí. Só que isso não é solidão, é solitude. Embora pelo dicionário os dois termos sejam sinônimos, na vida prática estão muito distantes. É interessante pensar em solitude como uma “atitude de buscar estar só”, é algo voluntário, escolhido, almejado. Já a solidão e mal-vinda, é perniciosa, faz mal, nos envelhece, dá câncer, é feia. Dói.

Quando Jesus buscava isolar-se no monte ou no jardim, ele procurava a solitude. O cristão tem um benefício a mais que pode agregar a esses momentos: a oração. Em instantes de solitude, é possível alternar períodos de reflexão com de oração. Até mais: de leitura – da Bíblia ou de algum bom livro. Em suma, solitude é uma bênção, pois pode reunir três das coisas mais maravilhosas que há: reflexão, oração e leitura.

Em contraste, solidão é uma maldição. Ela nos transforma em panelas de pressão, desesperadas por conversar com alguém, sedentas por um pouco de afeto (seja dar ou receber), cheias de sentimentos acumulados a compartilhar… mas não há uma válvula de escape. O resultado é que carregamos universos dentro So0do peito mas não há ninguém com quem possamos dividir a beleza desse espetáculo cósmico. Solidão é um “eu em mim” involuntário e compulsório.

O ser humano foi feito para compartilhar. Em termos eclesiásticos, o nome disso é comunhão. E, pela enorme quantidade de cristãos solitários que existem por aí, fica clara a urgência que existe de haver uma comunhão mais sincera, ampla e devotada entre nós. Em geral, chamamos equivocadamente de comunhão aquele lanchinho oferecido após o culto, a pizza depois do grupo pequeno, a festa de aniversário de um irmão. Tudo isso é muito bom e tem o seu mérito, mas a verdadeira comunhão não é isso. A começar pelo real sentido do termo: “união comum”. Não necessariamente desenvolver atividades sociais promove união. Acredito que proporcionam contatos e conversas, mas não união. Porque união passa a ideia de se fundir. O que é algo muito mais profundo, que pressupõe mergulhar no coração do outro.

Minha teoria é que há tantos solitários dentro das igrejas porque não conseguimos de fato promover a união. Não abrimos nossos anseios mais íntimos para o outro. Não compartilhamos nossos dramas mais escondidos com ninguém. Não entregamos nosso afeto como fomos feitos para entregar porque há milhões de barreiras sociais, culturais ou pessoais. E, com isso, retemos. Engolimos. Nos ensimesmamos. E, se você vive a solidão, sabe o quão terrível é isso, como um animal selvagem que nos estraçalha por dentro. Ninguém se basta a si mesmo: precisamos uns dos outros.

So4Viver somente para si é uma das coisas mais tristes que há. Jesus chamou seus discípulos de amigos, pois até o Deus humano precisava de comunhão. Ele sofreu ao ver que no seu momento de agonia os amigos dormiram, o abandonando à solidão. Você pode dizer que só a comunhão com Deus importa, que ele supre todas as nossas necessidades. Bem… ai de quem não tem o Senhor para compartilhar. Mas existem coisas para as quais só o ser humano serve. Pense: Deus criou a mulher usando o argumento de que não era bom que o homem vivesse só. Mas… o homem não estava com o Criador no Éden? Então ele não estava só. Conclui-se que o Senhor sabia que certas necessidades emocionais e afetivas apenas outro ser humano pode suprir. Mas muitos preferem empurrar o próximo para Deus em vez de se doar a uma real comunhão. Terceirizam a presença que poderia acabar com a solidão de muitos. Só que, assim como o Senhor nos usa para muitas coisas, também quer que nós sejamos o canal para combater a solidão de nossos irmãos.

Solidão, ao contrário do que muitos pensam, não tem a ver com a quantidade de pessoas com quem você se relaciona. Tem a ver com a qualidade da conexão que se estabelece entre você e o outro. Milhões de pessoas ao redor não são garantia do fim da solidão. Uma única pessoa que seja, mas que tenha acesso ao nosso mais profundo íntimo sim, representa o fim da solidão. Davi e Jônatas que o digam. “Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1Sm 18.1).

Em grande parte, a culpa por haver tantos irmãos e irmãs vivendo em profunda solidão é minha e sua. Porque não nos devotamos de fato a amar o próximo como a nós mesmos. Não partimos ao encontro do outro. Não nos disponibilizamos a comungar, ou seja, a participar de uma união que seja comum. Não ousamos. Não nos atrevemos a expor a alma.

So7Oro a Deus que aqueles que guardam gritos presos na garganta encontrem alguém com quem consigam se identificar a tal ponto que tsunamis de sentimentos, pensamentos, tristezas e frustrações possam ser compartilhados e, assim, o caminho para a paz venha a se estabelecer. Pois ter alguém com quem se pode falar tudo, com quem se chore, que nos abrace e segure nossa mão em amor, que olhe nos nossos olhos e saiba tudo sem que precisemos dizer nada… é uma das maiores bênçãos que podemos receber. Bem-aventurados são aqueles que têm nem que seja uma única pessoa especial com quem possam ser eles mesmos em tudo. Pois isso é o início da mais íntima comunhão – e o fim da solidão.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

carga0Fernando Pessoa tem uma poesia bastante conhecida, onde se lê: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Por esse prisma, e com toda licença poética, me atrevo a dizer que vivemos cercados de poetas – pessoas que sorriem, cumprimentam, se esmeram em transparecer alegria, mas por dentro são tomadas de tristezas profundas. São fingidoras. Não pelo aspecto negativo, simplesmente fingem que está tudo bem quando, na verdade, está tudo mal. Heróis da temperança, suportam suas cargas sem repartir com ninguém – e não por vontade própria. São multidões de infelizes que circulam ao nosso redor sem que sua infelicidade torne-se visível. E, acredite: dentro das igrejas.

Entre esses irmãos e irmãs há de tudo. Pessoas acometidas por doenças que roubam sua paz, gente extremamente infeliz em sua vida afetiva, deprimidos, solitários, seres humanos feridos por outros seres humanos, filhos abandonados, pais esquecidos, almas esmagadas pelo peso do próprio pecado, cristãos que não conseguem enxergar Cristo. São muitas as razões, são muitas as vítimas. Convivem diariamente com a tristeza, sem ter com quem conversar, desabafar, sem ter quem as ouça e a suas histórias. São sofredores ocultos.

carga4A pergunta que me faço é: por quê? Por que há entre nós essa multidão de ilhas humanas, isoladas, que não conseguem estabelecer pontes com as demais? Se somos um Corpo e cada membro que dói deveria afetar todos os outros, por que há tantos que se mantém em silêncio quanto às suas dores mais profundas? Paulo diz em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”. Isso é o cenário ideal. Por que, então, para tantos e tantos isso não acontece?

Acredito que há duas explicações e, infelizmente, elas não são muito bonitas.

Primeiro: quem é que pergunta “tudo bem?” de fato preparado para ouvir um “não” como resposta? Porque, sejamos francos, todos estamos condicionados a cruzar com alguém, dizer “tudo bem?” e escutar um automático “tudo bem” de volta. Só que uma enorme porcentagem dos que dizem isso… não estão nada bem. Respondem pelo hábito e pela triste realidade: se dissessem “não, não estou bem” veriam da parte da outra pessoa uma total inabilidade de lidar com isso. Muitos ouviriam um “vamos orar, irmão” de volta ou um “que é isso, irmã, a vitória é tua!”. E tudo continuaria como antes.

carga2Como Igreja, a realidade é que muitos não estão preparados para lidar com quem não está bem. Simplesmente não sabem o que fazer. Nem o que dizer. Perdem o rebolado. Muitos buscam o caminho mais fácil: encaminham para o pastor. Muitos respondem frases-feitas. Muitos fogem. Muitos chegam ao ponto de dizer que é falta de fé. E, com isso, nos acostumamos a que não adianta nada nos mostrarmos como de fato estamos, pois abrir o peito não terá utilidade. O socorro não virá. O conforto ficará apenas na vontade. Dizer “não estou bem” pra quê? Quem se interessaria? E, caso se interessassem, quantos estariam habilitados a levar nosso fardo conosco?

Penso que isso deveria ser muito mais presente em nossa vida em igreja. Deveríamos pregar mais sobre o assunto. Na escola bíblica dominical deveria ser lição indispensável: como amar o próximo. Como levar as cargas uns dos outros. Como escutar a infelicidade alheia de maneira consequente. Todo seminário teológico deveria investir tempo tratando disso – afinal, é um elemento da fé cristã muito mais importante do que calvinismo X arminianismo ou sobre batismo no Espírito Santo, por exemplo. Eu trocaria os dons mais excelentes pela habilidade de levar conforto a quem tem dor. Eu preferiria mil vezes mais ter o dom de levar as cargas dos meus irmãos do que o de profetizar ou operar maravilhas. Simplesmente porque é mais útil, mais importante e desesperadamente mais necessário em nossos dias. Amar o próximo… ó, Deus, como precisamos aprender a fazer isso!

carga5A segunda explicação é a falta de confiabilidade de muitos. Há irmãos e irmãs aos montes que sofrem de dramas reais, dores de alma crônicas, tristezas infindáveis… mas não confiam em se abrir com ninguém da igreja. Porque já viram todo tipo de traições: sacerdotes que vazam confissões que lhes foram feitas em confiança. Irmãos que passam adiante o que lhes segredamos. Irmãs que se afastam de nós ao tomar conhecimento de certas realidades que nos esmagam. Diante disso, como confiar? Como ter fé em que aquele amigo “tão espiritual” não trairá a confiança que depositamos nele ao vilipendiar nossas dores mais profundas e agoniantes? Logo, o que acontece é: “Tudo bem?”. “Sim, tudo ótimo!”, quando, por dentro, há tristeza, solidão, angústia, sofrimento.

Como podemos mudar isso? Preocupando-nos de fato com o próximo. Pondo em prática o Grande Mandamento. Se você começar a agir na sua comunidade de fé mostrando que é alguém com quem se pode contar na hora da angústia e da tribulação, as pessoas criarão coragem para compartilhar com você suas dores. Se você se apresentar como alguém confiável, os cansados e sobrecarregados se aproximarão. E terão coragem de dizer “não, não está tudo bem”. Olhe para si: você é alguém preparado para ouvir e auxiliar, para amparar? Tem base bíblica para oferecer conforto e paz a partir do que dizem as Escrituras? Você é um cristão pronto para oferecer o conforto de Cristo? Se percebe que não, procure urgentemente soluções para isso. Seus irmãos precisam de você. Há dores demais em nosso meio, angústias em excesso no seio da Igreja para deixarmos isso pra lá. “Jesus cuida” – sim, eu sei disso. Mas Jesus quer usar você como instrumento para cuidar.

Olhe ao redor e passe a procurar o próximo a quem possa amar. Não sabe como fazer? Comece com uma simples pergunta: “Tudo bem?”. E quando vier a resposta automática, olhe nos olhos e insista: “Mas… tudo bem mesmo?”. A partir daí, prepare-se: você pode se surpreender com o que vai ouvir e com a forma com que Deus pode usá-lo para levar cargas de pessoas que, muitas vezes, mal têm forças de ficar em pé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

voz1Já compartilhei aqui no APENAS, algumas vezes, como a paternidade me ensinou realidades sobre nosso relacionamento com Deus. Hoje gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o que acontece quando a voz do filho encontra o coração do pai.

Nos primeiros meses de vida da minha filha pude perceber quão impressionante era o poder que aquele chorinho estridente de recém-nascida tinha sobre mim. Na época eu enfrentava uma crise de estresse que me descompensou profundamente e aquele choro era capaz de me desequilibrar a ponto de me levar às lágrimas. Cheguei a comprar, por indicação da esposa de meu pastor, daqueles protetores auriculares de borracha, para diminuir o impacto que a voz de minha filha tinha sobre mim. Era ela abrir a boca e eu ficar imediatamente transtornado. O poder da voz da bebê era tão impressionante naquele meu momento de fragilidade emocional que houve uma semana em que baixei três vezes na emergência do hospital com picos de pressão.

O tempo se passou. A crise de estresse foi controlada e minha filha seguiu crescendo. Aos poucos, a coisa se acalmou. Mas a voz dela continuou tendo um poder inexplicável sobre mim – de formas diferentes. A primeira palavra que ela disse na vida foi “papai”. E dizia com uma doçura e um tom de voz que passou a me derreter. Nos momentos de maior tensão, era ela falar aquele “pa-paaaai…” e eu virava um bobão. Depois que completou 2 anos, passou a articular melhor os pensamentos e seus carinhos e conversas começaram a ganhar tons extremamente convincentes. Não que eu cedesse em tudo, claro, mas confesso que aquela voz conseguiu me levar a ceder muitas vezes.

voz2Atualmente, já uma menininha, ela pesa cerca de 14 quilos. Uma das maiores dificuldades que tenho é carregá-la no colo. Minha fibromialgia não me permite suportar muito peso por muito tempo, por isso já estou tentando fazer com que ela peça menos o colo, em especial na rua. Caso contrário fico com muita dor nas costas. Cheguei a fazer um acordo com ela: quando quer desfrutar um pouco dos braços do papai nós andamos um pouco e, em seguida, ela vem um pouco. Depois caminhamos mais um tanto e ela retorna ao meu abraço. E assim prosseguimos, no que acabou virando um tipo de brincadeira. Só que, às vezes, quando está com muita vontade do meu colo, faz aquela carinha linda e, com voz maviosa, sussurra: “Papai… me dá só um pôtinho de tólo?”. Pronto. Batalha ganha. Dor, que dor? Aquele clamor tão doce, meigo, sincero e amoroso me faz caminhar por quarteirões com ela no colo, agonizando de dor, mas transbordando de amor.

Agora pense no poder que a tua voz tem junto ao coração do Pai.

Ouço muitas pessoas falarem diversas coisas sobre seu relacionamento com Deus e sobre oração. “Deus não está me ouvindo”, “o céu está fechado”, “minha oração não passa do teto”, “eu oro mas Deus não responde”, “será que Deus me esqueceu?”, “eu falo e ele não escuta”, “não consigo orar, pois é difícil falar quando ninguém me ouve”… e por aí vai. Quando ouço frases como essas, penso em silêncio: “Que pena… esse irmão ainda não entendeu”. Não entendeu o poder que a voz do filho tem junto ao coração do Pai.

voz3Ezequias recebeu sua sentença de morte (2Rs 20). Virou-se para a parede, chorou amargamente e orou ao Senhor. Creio que o Pai ouviu sua oração mais ou menos assim: “Papai… me dá só um pôtinho de tólo?”. Não consigo visualizar um Deus que solta raios dos olhos e trovoadas das orelhas, sentado num trono distante, ouvindo essa oração de forma meio fria e respondendo de modo estoico ao clamor tão doído de um filho. O que imagino é o Senhor sentado aos pés daquele leito, com um olhar de indizível misericórdia – profundamente tocado pela voz que chegou a seu coração – estendendo os braços e dizendo “tá bem, Ezequias, vem aqui pro colinho, papai te dá mais quinze anos de vida, agora para de chorar, que meu coração tá rasgando de amor e compaixão”. Olho para Davi, o menino arteiro, depois de ter feito suas traquinagens, e o vejo erguendo sua voz ao Pai e sussurrando: “Dicupa, papai…”. Ao que Deus vira-se para ele, coração triste pela desobediência do filho mas transbordante de amor, e responde: “Tá desculpado, querido. Agora, de castigo, vou trazer pra mim o teu filhinho pra você nunca se esquecer de obedecer papai. Mas depois te pego no colo, tá?”.

Você é filho, meu irmão. Você é filha, minha irmã. Sua voz atinge o Pai diretamente no coração. Ele te ama. Ele está de ouvidos sempre atentos para te ouvir. E uma ótima notícia: Deus não sente dor nas costas. Pode te carregar no colo pela duração de uma vida e nunca se cansará. Há poder na tua voz: o poder de mexer profundamente com o amor maior que existe no mundo: o amor do seu Pai por você.

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á. Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mt 7.7-11).

voz4Se você fez traquinagens, faça sua voz ser ouvida pelo Pai e ele lhe dará perdão. Se você está exausto, faça sua voz ser ouvida pelo Pai e ele lhe dará descanso. Se você chora baixinho no travesseiro, faça sua voz ser ouvida pelo Pai e ele enxugará suas lágrimas. Se você está cansado e sobrecarregado, faça sua voz ser ouvida pelo Pai e ele lhe dará alívio. Se você está em tribulação, faça sua voz ser ouvida pelo Pai e ele lhe dará paz.

Fale com teu Pai. E, seja lá por que razão for, creio que, no coração desse Pai tão maravilhoso, misericordioso e amável, o que brotará quando ele ouvir a tua voz é o mais puro amor. E é impossível a alguém que ama ignorar quem ama.

Ele te ouve. Ele te pega no colo. Creia nisso, amado de Deus. Agora abre a tua boca e conta pro teu Pai: onde está doendo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício