Arquivo de agosto, 2013

É tempo de orar_Marca paginaPeço desculpas para voltar a um assunto já tratado aqui no blog (no post É tempo de orar). Normalmente não gosto de repetir temas, mas, dada a enorme quantidade de pessoas que entraram em contato comigo pedindo mais informações sobre a campanha nacional de oração pelo Brasil que a editora Mundo Cristão está propondo, publico este post como forma de esclarecimento. Esse esforço conjunto de intercessão tem como ponto de partida o livro É tempo de orar, que escrevi a pedido da Mundo Cristão.

Essencialmente, dou aqui mais informações sobre como você e sua igreja/denominação podem participar, se desejarem. Basta ler o material que publico abaixo, produzido e disponibilizado pela editora em seu site: no http://www.mundocristao.com.br/produtosdet.asp?cod_produto=11046&cod_categoria=162 você tem acesso à página da editora e, ao clicar em “Compartilhe essa ideia”, faz o download de uma série de recursos de divulgação: avatar e capa para Facebook, avatar e background para Twitter, apresentação em PowerPoint nos formatos de tela 16:9 e 4:3 (ideal para as igrejas apresentarem a campanha), release + entrevista sobre o propósito da campanha, carta-convite do Presidente, marca páginas (ideal para as igrejas), spot de rádio (ideal para as igrejas) e um vídeo sobre a campanha.

Tanto o livro em formato e-book, quanto todo esse material descrito acima, pode ser baixado da web gratuitamente. Impresso, o livro tem custo de R$ 2,50.

Fico muito feliz pelos irmãos e pastores que já anunciaram a adesão a essa mobilização de joelhos em prol de nosso país. Deus abençoe cada um por acreditar na eficácia da oração e por sair do imobilismo para interceder pelo Brasil. A seguir, algum material sobre a campanha:

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Mundo Cristao_É tempo de orar

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Finalizo este post com uma entrevista do Diretor de Operações da Mundo Cristão, Renato Fleischner, que explica em suas próprias palavras o processo que gerou o É tempo de orar e seus objetivos:

Como surgiu a ideia de fazer a campanha É tempo de orar?
RF – No auge das manifestações de junho, o Mark Carpenter (diretor presidente), o Ricardo Dinapoli (Diretor Adm/Financeiro) e eu estávamos participando de uma feira de livros nos Estados Unidos quando vimos uma manchete do jornal USA Today com uma foto das manifestações na primeira página. Poucos dias antes, a saída de São Paulo havia sido conturbada com o fechamento do acesso ao aeroporto de Guarulhos. Ao refletir sobre a foto do jornal, surgiu no coração do Mark o desejo de fazermos alguma coisa como editora cristã inserida no contexto brasileiro. Ainda nos Estados Unidos, conversei com a Silvia Justino, nossa gerente editorial, sobre algumas ideias. Ela acionou o Mauricio Zágari, editor de obras originais, que em poucos dias escreveu o livro.

E de onde surgiu a ideia do e-book gratuito?
RF – O e-book é um formato ainda inovador no Brasil, mas que apresenta muitas oportunidades de distribuição. No fundo, uma editora é uma provedora de conteúdo e o nosso maior desejo é que o conteúdo se espalhe, seja no formato digital ou impresso. Infelizmente, não é possível distribuir o livreto na forma impressa gratuitamente. Mas, estamos fazendo pacotes para igrejas, o que reduz o custo de aquisição.

Como vocês pretendem divulgar esta campanha?
RF – A Mundo Cristão é uma editora com forte presença nas redes sociais. Além disso, há uma série de igrejas e organizações que já se dispuseram a colaborar.

Por que uma campanha para oração e não para ação?
RF – Uma coisa não inviabiliza a outra. Todos nós temos direito de nos manifestar. E é fundamental pressionar os governantes para que se faça justiça. Há coisas que nós devemos e podemos fazer, e há outras que precisam da intervenção divina. Orar pelo Brasil significa compartilhar com Deus o nosso desejo de um país melhor. E nos parece difícil mudar o país sem mudar o coração das pessoas. Todo aquele que acredita que Deus intervém na história pode e deve colocar diante de Deus as suas insatisfações pelo rumo que o país está tomando.”

Ore, meu irmão, minha irmã. E, se sentir que deve, ajude a divulgar esse esforço de oração, que independe de igreja, denominação, linha doutrinária ou o que for: é para cristãos. O Brasil precisa. E o Brasil somos nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

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Locus1Gosto muito de ler as passagens dos evangelhos que falam sobre quando Jesus buscava afastar-se da multidão, distanciar-se do vozerio, abrir espaço para os pensamentos e se isolar. Ele seguia, então, para algum monte, um jardim, um local afastado, calmo, de paz. É senso comum que ele ia a esses lugares para poder orar com mais tranquilidade. Gosto de pensar que havia outras razões para o Cristo buscar o isolamento e esses locais bucólicos: o silêncio. A quietude. A solitude. Nesses lugares especiais, ele conseguia, imagino eu, se desligar de tudo ao seu redor, ouvir o sussurro de sua alma, o pulsar de seu coração, o suave cicio de suas vozes mais interiores. Creio que ali ele se recompunha, reduzia o ritmo da respiração, buscava na poesia do silêncio a clareza de pensamentos, a sinceridade de sentimentos e a absoluta honestidade do seu coração. Esses lugares aonde Jesus ia têm um nome: locus amoenus.

Esse termo vem do latim e significa “lugar ameno”. Em resumo, é um elemento da literatura bucólica – ou poesia pastoral – o tipo de texto que exalta a vida campestre e a natureza. É bem característica de um estilo literário chamado arcadismo. Faz parte do grupo de conceitos que incluLocus2em, por exemplo, o fugere urbem (a proposta de fuga da vida urbana) e o carpe diem (algo como “faça este dia valer a pena”). O locus amoenus seria, assim, uma proposta de escape da vida burguesa pragmática e estereotipada, repleta de valores rasos, superficiais e que têm a ver mais com a subsistência e a rotina maçante da penosa existência cotidiana do que com uma vida plena de significado, mais simples, poética e bela. Representa a satisfação pela felicidade e é uma grande metáfora de um estado de espírito onde reside o amor, a paz, a quietude.

O locus amoenus é a representação exterior daquilo que almejam cultivar no interior de sua alma as pessoas que buscam dar um passo além da frieza da vida rotineira e pasteurizada. É uma grande metáfora da alma.

Locus3Gosto do silêncio. Talvez pelo fato de meus pensamentos constantemente gritarem muito alto (à minha revelia) e viajarem de forma incontrolável a milhares de quilômetros por segundo, valorizo demais os momentos de solitude, paz e reflexão. É a hora de suspirar fundo e ouvir a doce sinfonia do nada. É como deitar numa rede em uma noite escura, fitar a vastidão do espaço e ficar olhando dentro dos lindos e profundos olhos negros do infinito. E cada vez mais tenho valorizado esse estado de espírito, intimamente relacionado a lugares especiais. Tenho o meu locus amoenus, um lugar onde você se senta em uma rocha, ouve o mar acariciar as pedras, vê o sol se pôr num degradê entre o lilás e o carmesim e procura deixar o vento ser a única voz a sussurrar no seu ouvido.

Aliás, a única não.

O locus amoenus abre em si a possibilidade de ouvirmos com mais clareza a voz de Deus. Nos calamos para os pragmatismos e as inutilidades tão marketeadas da existência e, assim, conseguimos ouvir o calmo som da estrondosa voz divina no espaço vazio que se forma em nossa mente, nosso coração, nossos sentidos. A verdade é que tenho descoberto Deus cada vez mais no silêncio.

Sabe aqueles dias em que parece que você precisa gritar? Pôr pra fora multidões de sentimentos reprimidos, frases não ditas, palavras arquivadas em algum canto do seu superego, lágrimas que precisa derramar ou morre? Em que parece que ou você grita ou explode? Pois, diante de certas impossibilidades, o locus amoenus pode ser uma câmera de descompressão perfeita. Se você não tem um lugar como esse, minha recomendação é que – para o bem da tua alma – descubra um. Para onde, assim como o Mestre, você possa se retirar, silenciar, refletir e… sentir.

“Compeliu Jesus os seus discípulos a embarcar e passar adiante para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. E, tendo-os despedido, subiu ao monte para orar. Ao cair da tarde, estava o barco no meio do mar, e ele, sozinho em terra” (Mc 6.44-47). Jesus deixa todos. Sobe o monte, sozinho. E traz consigo a placidez da solitude à praia – sozinho.

Locus4A passagem que mais me mostra o quanto Jesus valorizava o locus amoenus é Marcos 14.32-36:
“Então, foram a um lugar chamado Getsêmani; ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar. E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia. E lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai. E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra; e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. E dizia: Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.”

Repare: Jesus padecia de pavor e angústia e sua alma estava profundamente triste até à morte. Ele estava confuso, abalado, sem perspectivas, sem direção. Em sua mente, um peso de pensamentos e incertezas. Em sua alma, dor. Em seu coração, um vazio. Mas, em seu espírito, esperança. E foi no locus amoenus que ele buscou a paz.

Tenha um locus amoenus só para você ou para compartilhar com alguém que seja importante em sua vida. Nas horas de maior angústia e aflição, vá até lá. Sente-se. Acalme-se. Sinta a brisa. Deleite os olhos. Ore. Deixe morrer o pavor, a angústia. Recupere o prumo. E tenha em mente algo muito importante: o locus amoenus não precisa ser, necessariamente, um lugar. Na verdade, creio que o melhor locus amoenus de todos é, isso sim… uma pessoa. Aquela em cujos braços você se aconchegará, fechará os olhos, dará um suspiro e, enfim, encontrará a paz: Jesus de Nazaré.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Meu próximo entrevistado na coluna de Cultura da revista CRISTIANISMO HOJE (http://cristianismohoje.com.br/) é o cultíssimo e sensível Gerson Borges. O bate-papo será publicado na edição de outubro/novembro. Inspirado pela entrevista tão edificante com esse que é um dos músicos cristãos de maior qualidade e sensibilidade do país, hoje vou apenas compartilhar um pouco da arte desse irmão querido, poeta de alto gabarito e pastor amoroso – além de ser uma companhia extremamente agradável. Caso você ainda não conheça a música de Gerson Borges, fica aqui meu incentivo enfático para buscar conhecer mais. Compartilho a canção mais significativa para a minha vida do repertório de Gerson: “Janelas”.

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Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício

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É TEMPO de orar_220713.inddMuitas pessoas deixam de orar porque, lá no fundo, não creem que a oração produza resultados. Já ouvi muito frases do tipo “ah, a gente não pode orar”, como se “só orar” fosse pouco ou quase nada. Ineficaz. Mas a oração é o maior meio que temos de adequar a realidade do mundo aos interesses de Deus. Nossa oração é poderosa e eficaz. Jesus nos instou a orar e orou muitas vezes. Os grandes homens e mulheres de Deus na Bíblia sempre oraram em momentos de alegria ou dificuldade. Diante disso, cabe a pergunta: o quanto nós oramos? Esqueça a oração como uma obrigação, do tipo “sou cristão, logo, tenho de orar tantas horas por dia” ou “muita oração, muito poder; pouca oração, pouco poder”. Oração não é uma chatice ou um pré-requisito para ir para o céu: é um privilégio. Quando a cortina do templo se rasgou, você ganhou acesso direto àquele para quem nada é impossível. Isso é uma bênção, um presente – você é um privilegiado. Mas… será que estamos fazendo uso desse privilégio? Mais ainda: será que temos real consciência de tudo o que podemos vivenciar mediante a oração, essa conversa direta e íntima com nosso Pai?

Já vinha pensando sobre oração há algum tempo (recentemente postei aqui um texto sobre o tema, “O que aprendi sobre oração com as minhas ceroulas”). Por isso, fiquei muito feliz quando a editora Mundo Cristão me convidou para escrever um pequeno livro de incentivo à Igreja brasileira a interceder pela nação: É tempo de orar. A obra apresenta trinta dos maiores problemas que enfrentamos atualmente no Brasil, com estatísticas e informações, seguidos de orações específicas pela solução deles. A base são as principais questões levantadas pelos brasileiros durante as manifestações que agitaram o país nos últimos meses.

Detalhe: nas próximas semanas o livro pode ser obtido, em formato eletrônico, gratuitamente.

É TEMPO de orar_220713.inddA ideia é utilizar o livro (capa ao lado) como meio de reunir cristãos de todo o país para orar durante 30 dias pela nação, a começar no dia 7 de setembro. A versão digital da obra já está disponível para ser baixada gratuitamente nas seguintes lojas virtuais: Google, Apple, Amazon, Kobo, Cultura e Saraiva (ver AQUI). Você pode fazer o download gratuito até o dia 6 de outubro. Já a versão impressa será disponibilizada por um custo irrisório (menos de R$ 3,00).

Considero É tempo de orar uma iniciativa maravilhosa: alguém está fazendo algo para estimular a igreja brasileira a orar pelo nosso país. Parabéns à Mundo Cristão. Recomendo que você adquira o livreto (tem apenas 32 páginas), estimule seus irmãos a adquirir, estimule seu pastor a adquirir, ore seguindo o roteiro que o livro oferece… enfim, que faça algo, meu irmão, minha irmã. Se tiver interesse, clique AQUI para ir ao site da Mundo Cristão. Mas não fique apático ante a realidade do Brasil.

Quero frisar que não estou recebendo nada em termos financeiros com a venda desse livro. Logo, por favor, não pense que estou recomendando a aquisição do É tempo de orar para que eu ganhe dinheiro. Não vou receber um centavo sequer com as vendas. Estou estimulando você e sua igreja a seguir as orações que ele propõe pois acredito que essa obra possa ser um catalisador para que pessoas que hoje estão se esquecendo da realidade nacional tenham algo concreto em que se basear para elevar um clamor a Deus pelo Brasil. Meu desejo e o da Mundo Cristão é que o maior número possível de igrejas, ministérios e pessoas se unam a esse esforço de oração coletiva que começará no dia 7 de setembro. Um mês de oração. Cada dia um tema. Não despreze a sua oração, pois Deus não despreza.

E volto a lembrar: até 6 de outubro, o livro em versão eletrônica é totalmente grátis.

OracaoAcredito que proclamar Jesus seja o primeiro passo para termos um Brasil melhor. Orar é o segundo. E não creio que sejam atitudes inócuas. Pregar Cristo não é pregar Cristo. Orar não é orar. São ações reais, que provocam resultados reais. Infelizmente, muitas vezes nos esquecemos dessa verdade. Por isso, projetos como o do É tempo de orar são importantes, pois configuram iniciativas concretas que nos sacodem e fazem com que saiamos do imobilismo.

Não podemos menosprezar a importância da nossa oração. E não podemos abrir mão dela. O Brasil passa por um momento delicado e único. Queremos um Brasil melhor. Precisamos de melhorias em setores como saúde, educação, tributação, transportes, empregos, saneamento básico, política… muito precisa ser melhorado. E eu creio que o caminho para solucionar esses problemas é Cristo. Temos de ir a ele em oração. Portanto, meu irmão, minha irmã, convido você a dobrar os joelhos. É tempo de orar!

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Amor1Está na moda dizer que “amar é uma decisão”. Todo crente politicamente correto diz isso. “Afinal”, escuto sempre, “Jesus mandou amar os inimigos e eu não sinto vontade de amá-los, mas decido amá-los”. Reconheço que essa afirmação tem mérito, há sim um componente racional no amor. Afinal, muitas vezes é a razão que nos impulsiona a realizar atos traduzidos por amor (de ajuda ao próximo, ações de caridade por completos estranhos e atos similares). Mas olho para a Bíblia e não consigo me convencer de que seja uma verdade absoluta e fechada, excludente. E olha que já me esforcei muito para crer nisso. Mas, longe da simpática teoria e dentro da realidade da vida, não consegui até hoje ser convencido de que o amor que a Bíblia exalta e que constitui a natureza de Deus se resume a algo tão frio e estoico como uma pura decisão racional – tal qual a decisão de que roupa vou vestir hoje à noite ou de que prato vou comer no almoço.

Pelo que pesquisei, o conceito de que “o amor é uma decisão e não um sentimento” não tem origem cristã, mas pagã: parece ter sido originado em um conto chinês que se tornou amplamente divulgado no mundo ocidental graças à viralidade da Internet, em especial a partir de fontes espíritas kardecistas. Você pode ler o conto AQUI, pois foi reproduzido, inclusive, num livro do padre Marcelo Rossi. Se você souber de outra fonte, por favor compartilhe nos comentários e terei prazer de publicar.

Amor3À parte das origens pagãs dessa teoria, comecei a refletir e resolvi fazer um teste, que teve resultados interessantes. Selecionei alguns conhecidos meus que defendem com veemência que “amar é uma decisão” (ou seja, um processo de escolha meramente racional). Sem que percebessem, em momentos variados lhes perguntei como foi sua história de amor com o marido/a esposa. Pedi que contassem como chegaram ao ponto de decidir se casar com o cônjuge. Invariavelmente, ouvi, entre outras afirmações, coisas do tipo “quando a vi meu coração disparou”, “eu não conseguia parar de pensar nele”, “eu a achei a mulher mais linda do mundo” e “quando ele segurou na minha mão foi como se tivesse tomado um choque elétrico” – todas afirmações bastante ligadas ao emocional (afinal, ninguém decide disparar o próprio coração, manter um pensamento constante, considerar alguém belo ou disparar eletricidade pelo corpo ante o toque de alguém). Logo, sou obrigado a concluir que, na prática, ninguém ama um marido ou uma esposa exclusivamente porque decidiu amar. Algo na linha: “Olhei, pensei, raciocinei, ponderei, refleti e tomei a decisão: vou amar fulano e poderemos nos casar”. Se você for honesto, verá que não é assim que acontece.

Amor6Existem aqueles que se casam sim por uma decisão. Repare: eu disse “se casam” e não necessariamente “se amam”. Conheço homens que escolheram a esposa porque “ela tem um ministério que complementa o meu” e mulheres que optaram por maridos porque “ele é honesto e trabalhador e me trata com respeito e carinho”. Tudo isso é importante, entenda que não estou desmerecendo o aspecto racional da escolha do cônjuge. Ele é indispensável. Creio, inclusive, que sem um componente racional um casamento está fadado ao fracasso. Mais ainda: estou convicto de que, sem a tomada de certas decisões, não há amor conjugal. Mas, quando ouço comentários reducionistas como “amar é uma decisão”, vejo pessoas que se casaram pela razão, mas não consigo enxergar nelas pessoas que se casaram por amor. Pois amor não é razão. Amor não é decisão.

Muitos justificam essa teoria a partir do modelo de casamento – cultural e contextualizado – adotado nos tempos bíblicos. Naqueles milênios, a escolha do cônjuge era feita pelos pais. E os adeptos da crença de que “amar é uma decisão” recorrem a esse fato como um argumento para justificar a ideia de que é possível se casar sem nenhum sentimento e você “aprenderá a amar” a pessoa da mesma forma. Mais do que isso: defendem que esse é o padrão bíblico.

Amor7Mas aí descubro muitas passagens bíblicas que me mostram o contrário. Uma história extraordinária nesse sentido é a de Jacó. Ele foi obrigado a se casar com Lia, quando seu coração pulsava, na verdade, por Raquel. Depois, quando as duas se tornaram suas mulheres, as Escrituras nos mostram uma Lia eternamente infeliz por não contar com o amor do marido. Estavam casados, mas não havia o aspecto emocional do amor. Ela era tão infeliz que chegou ao ponto de tentar despertar no esposo algum sentimento mediante a gravidez (“O Senhor viu a minha infelicidade. Agora, certamente o meu marido me amará” – Gn 29.32). Leia com calma toda a vida de Lia e o que você verá é uma mulher com um enorme vazio no peito, uma alma oca, que era tão ignorada pelo marido que não a amava que precisava comprar o direito de se deitar com ele (Gn 30.15-16).

Já com Raquel era diferente: “Jacó amava a Raquel e disse: Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel. Respondeu Labão: Melhor é que eu ta dê, em vez de dá-la a outro homem; fica, pois, comigo. Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava” (Gn 29.16-20). Ao ouvir que “amar é uma decisão” fico pensando então por que Jacó não simplesmente decidiu amar Lia e, assim, resolver o problema. Ou por que, quando acordou de manhã e viu que tinha se casado com Lia, não “decidiu amá-la” e, em seguida, “decidiu não amar” Raquel, o que facilitaria muito sua vida. Porque, convenhamos, se o negócio era arranjar uma esposa, ele já tinha arranjado. Para que precisava de Raquel se já tinha Lia? Trabalhar mais sete anos para ter a segunda esposa seria irracional, bastava Jacó decidir não mais amar Raquel, tocar a vida com Lia e ser feliz para sempre. Mas não foi o que aconteceu.

Amor8Há outros exemplos. Analiso o amor de Salomão pela Sulamita no Cântico dos Cânticos e confesso que sinto um pouco de pena de quem se casava apenas porque as famílias decidiam. Salomão tinha mil mulheres e concubinas, mas repare que o Cântico dos Cânticos fala sobre somente uma delas. Ele se casou com muitas, mas creio que só amou uma. Racionalmente decidiu unir-se a mil. Mas, emocionalmente, seu coração ligou-se a uma única. E uma leitura honesta desse lindo poema de amor que é o livro de Cantares mostra que esse relacionamento estava a anos-luz de ser meramente “uma decisão”.

O mesmo ocorre, também, com Ester. Lemos em Ester 2.17 que “O rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e ela alcançou perante ele favor e benevolência mais do que todas as virgens”. Por que o rei não decidiu amar outra? Se era uma questão de opção racional somente, o que fez aquela mulher se destacar das demais aos olhos do soberano? Razão, puramente? E mais: razão… principalmente? O que aquela jovem hebreia tinha de tão especial que racionalmente teria feito Assuero “decidir” amá-la mais do que a todas outras mulheres? Era estrangeira, pobre, exilada, órfã, de outra religião… racionalmente não fazia sentido o rei decidir amá-la em detrimento das demais? Mas a Bíblia relata que esse amor simplesmente aconteceu e não porque Assuero optou por isso.

Amor9Essa questão extrapola o amor conjugal. Quando leio João 3.16, vejo que “Deus amou o mundo” e não que ele “decidiu amar o mundo”. Vejo, em muitas passagens, Jesus ser movido a atos de amor por compaixão (Mt 9.36; 14.14; 15.32; 20.34; Mc 1.41; 6.34; Lc 7.13). E “compaixão”, pelo dicionário, significa “Sentimento benévolo que nos inspira a infelicidade ou o mal alheio”. Ou seja, dizer que compaixão é apenas uma decisão seria negar a essência de seu significado. Poderíamos ir além: o termo em grego usado para falar da compaixão de Jesus é splagchnizomai, que fala explicitamente de uma emoção, algo que se sente. Logo, dizer que o amor do Senhor pelos carentes de compaixão e misericórdia seria apenas uma decisão contraria, em todos os aspectos, a exegese bíblica.

Vejo em Romanos 9 o Senhor dizer “amei Jacó e aborreci Esaú”. Ora, se amor é uma decisão, por que Deus não decidiu amar Esaú, visto que ele não faz acepção de pessoas? O Senhor poderia perfeitamente decidir amar ambos. Outra: o texto bíblico diz, em numerosas ocasiões, que, durante os séculos em que o reino do Sul, Judá, foi idólatra, Deus reteve o juízo pelo amor dele a seu servo Davi. Outro exemplo está em 1Samuel 18.1, onde vemos: “Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma”. Uma decisão pura e simples?

Amar pressupõe algo diferente. Amar faz alguém se destacar da multidão. E, se você destrincha cuidadosamente os textos bíblicos, vê que, na Escritura, quem ama não o faz porque olha a multidão, analisa um por um, pondera e decide: “Vou amar aquele”. Não é assim. O amor bíblico verdadeiro, universal e despido de um contexto histórico específico aponta para pessoas que, aos olhos de alguém, brilharam dentre as demais e tocaram na razão mas, indispensavelmente, também no coração de alguém.

Amor2Se você tem um filho eu te perguntaria se você o ama somente porque racionalmente ele foi formado a partir de um espermatozóide ou um óvulo seu. Você foi vendo aquele bebezinho crescer todos os dias até que, numa certa manhã, disse “bem, a partir de hoje decido amar essa criança”, foi dessa maneira? Outra pergunta: você não escolheu ter os irmãos que tem, mas, em geral, nós amamos nossos irmãos. Isso ocorreu racionalmente ou foi fruto de uma emoção cultivada e desenvolvida diariamente, ao longo dos anos? E, sobre isso, eu perguntaria: se você teve algum problema com um parente e cortou relações, se amar é tão somente uma decisão racional, por que não simplesmente decide voltar a amá-lo?

É fundamental lembrar que ninguém, nem um único cristão, ama Jesus porque tomou a decisão de amar. Nós amávamos o mundo, até que, pela graça, contrariando tudo em que críamos racionalmente até então, o amor de Deus nos alcançou e passamos a amar Jesus. Eu nunca decidi amá-lo. Estava muito bem, obrigado, amando minha vida de incrédulo, quando esse amor chegou pelos sentidos, invadiu meu cérebro, ligou-se a minha alma, incendiou meu espírito e pronto: quando me dei conta estava amando.

Amor5Por que falar sobre este assunto? Porque há muitos irmãos e irmãs decidindo somente pela razão a quem “amar” e, por isso, se casando sem amar. Tornam-se cônjuges de amigos (e não de amores) que decidiram desposar, mas vivem sem desfrutar do amor pleno que Salomão descreve no Cântico dos Cânticos (que não é apenas erótico, como muitos defendem, se você ler com atenção verá duas almas profundamente entrelaçadas emocionalmente). Esses irmãos tornam-se incompletos e acabam se divorciando ou se condenando à infelicidade e à frustração até que a morte os separe. E tudo porque acreditaram na teoria de que “amar é só uma decisão”. Dizer isso é como falar “o Brasil é o estado do Rio de Janeiro”. Só que não é, o Rio é uma parte do Brasil. Assim como a razão, a decisão é uma parte do amor. Ele é composto ainda de ação e emoção. Advogar um amor ultrarromântico, baseado somente nos sentimentos, é um erro. Mas descartar o sentimento como se fosse algo antibíblico, na ultravalorização do racionalismo, é descartar a linda capacidade que Deus nos deu de sentir.

Eu amaria concordar que “amar é uma decisão”, pois isso me faria mais politicamente correto dentro do meio evangélico, onde esse conceito da filosofia oriental virou moda. Eu amaria, mas o meu amor por essa teoria não depende somente de uma decisão minha. Eu não decido crer no que creio. O amor é uma decisão, sim. O amor é razão, sim. Mas vai muito além disso. O amor é também ação. E, sim, o amor é emoção. Se você se casa com alguém por quem seu coração não pulsa, casou-se por amizade ou carinho, não por amor. Seu amado tem de ser seu amigo, mas não pode ser seu amigo. O amor é muito mais complexo do que a simples definição “uma decisão” tenta fazer parecer. Deus é amor. E Deus é razão, ação e emoção.

É por isso que o amor é infinito e o infinito faz meu coração pulsar infinitamente.

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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

A woman unplugs an electrical cordTempos atrás eu ficava muito chateado quando alguém criticava o termo “religião”. Pois eu sempre entendi “religião” como algo bom, uma comunicação com Deus, um relacionamento pessoal com o Senhor – a partir da raiz latina “religare”. Por isso eu lia ou ouvia pessoas amaldiçoando a “religião” e aquilo me incomodava profundamente. Tenho lido alguns bons livros. Tenho tido algumas experiências. E hoje posso dizer que entendo os que criticam a “religião” e não me chateio mais. Na verdade, até concordo com eles e por uma simples razão: finalmente compreendi que, em nossos dias, o termo “religião”  (e seus cognatos) ganhou dois significados diferentes. O fenômeno é igual ao que ocorre com palavras como “manga”, que pode se referir a uma fruta ou a um pedaço da minha camisa; como “casa”, que pode ser a construção onde moro ou o local onde prendemos o botão da calça; como “pena”, que pode ser “dó” ou uma parte da asa de um pássaro. Sim, atualmente, a mesma palavra, “religião”, também ganhou significados bem diferentes – um positivo e outro negativo. Vamos falar sobre eles.

Primeiro o positivo. Algum tempo atrás estava conversando com um amigo e ele usou uma metáfora muito interessante. Ao falar sobre pecado e restauração, usou a imagem do fio de algum aparelho eletrodoméstico que é arrancado da tomada. Isso é pecado. Deus é a fonte de energia, a fonte de vida, a tomada. Nós somos o eletrodoméstico. Enquanto estivermos ligados a Deus, “conectados à tomada”, fluirá dele para nós a “eletricidade”, a vida, aquilo que nos permite funcionar. Assim, do mesmo modo que uma televisão precisa estar ligada à tomada para ter razão de ser, para cumprir o propósito para o qual foi criada, para termos vida nós precisamos estar ligados ao Senhor. Só assim teremos razão de ser, cumpriremos o propósito para o qual fomos criados.

Religião2Portanto, quando pecamos, é como se nosso fio fosse arrancado da tomada. Perdemos a conexão. Não estamos mais ligados ao Pai. Por isso, precisamos nos re…ligar a Deus. Isto é, nos ligar novamente à fonte de vida. Religar. Essa é a origem do termo “religião”: vem do latim religare, que se refere a essa religação. Portanto, sempre que você ouvir falar de “religião” no sentido da  “religação entre o pecador e Deus”, sorria! Esse é um bom significado. Essa é a boa religião. E não deve ser criticada ou amaldiçoada. Nesse sentido, “religiosa” é somente uma pessoa que foi reconectada a Cristo. E glória ao Senhor por isso: bendita a religião, que permitiu que a graça transformasse o pecador em um religioso.

Mas existe também o sentido negativo. Aos olhos de muitos, o termo perdeu o sentido original de “religação”. E hoje entendo isso. O exemplo maior do conceito negativo de “religião” está na parábola do bom samaritano. Sei que você já leu essa passagem milhares de vezes, mas o convido uma vez mais para dar atenção a esse relato, registrado em Lucas 10:

Religião3“[Certo intérprete da Lei]  perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo.”

Repare: aquele sacerdote e aquele levita (que passaram ao largo, não deram a mínima para quem estava ali, caído, e foram cuidar da própria vida) são “religiosos” – no pior sentido. Eles cumprem tudo o que a religiosidade estipula, obedecem as normas do eclesiasticismo (não procure essa palavra no dicionário, é um neologismo meu)… enfim, aos olhos dos homens aquele sacerdote e aquele levita são servos corretíssimos de Deus. Seguem a cartilha da fé ao pé da letra. Só que tem um porém: em seu coração eles não amam o próximo. Isso é o sentido negativo que o conceito de “religião” ganhou em nossos dias: é o estilo de vida de quem exteriormente é o supra sumo da espiritualidade, mas por dentro é cheio de desamor. É exatamente o que Jesus chamou de um “sepulcro caiado”. Pois Jesus define o “sepulcro caiado” como alguém que parece justo por fora mas por dentro está  cheio de hipocrisia e maldade – o que, pelo meu entendimento, é resultado direto da falta de amor.

Religião4Tiago 1.27 diz: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”. A palavra, no original grego, traduzida aqui por “religião”, é thrēskeia, que tem exatamente o sentido do cumprimento de práticas litúrgicas, de normas e regras ditadas pela fé, de observâncias cerimoniais. O irmão de Jesus estava fazendo uma alusão direta aos fariseus e outros mestres da Lei, explicando que tudo aquilo que eles cumpriam como parte de sua religiosidade (rituais, obediência à Lei, liturgias, cumprimento de festas e sábados e tudo o mais) era inútil se eles não tivessem amor pelo próximo. E não só amor como sentimento, mas amor demonstrado de forma prática. Pois era tão importante buscar a santidade e fugir da contaminação do pecado como esforçar-se e sacrificar-se pelo bem-estar do próximo – como fruto do amor.

Religião no sentido da “religação” com Deus é algo bom, imprescindível e, mais do que tudo, é um privilegio concedido por Cristo a nós. Quando ele morreu na cruz e o véu do templo se rasgou, o que aquilo quis dizer foi: “Não há mais impedimentos, você pode se ligar diretamente ao Pai”. Por outro lado, religião no sentido de viver uma vida de práticas, cumprimento a regras e obediência aos mandamentos bíblicos mas sem demonstração de amor ao próximo é o que há de mais nefasto. Os samaritanos não faziam nada do que os sacerdotes judeus faziam em termos litúrgicos, mas foi precisamente o gesto de amor do samaritano pelo próximo que lhe rendeu elogios de Cristo. Não foi ter ido ao culto, evangelizado, louvado da forma “certa”, pregado um bom sermão, seguido as liturgias e datas santas…nada disso. Fazer essas coisas é ótimo – e devemos fazer – mas não foi isso o que fez Jesus destacar a atitude do samaritano. O sacerdote cumpria a cartilha da fé ao pé da letra, mas deixou o próximo pra lá e foi cuidar da própria vida e tratar dos próprios interesses. E esse, aos olhos de Jesus, é “raça de víboras”.

Os elogios de Jesus foram pelo amor demonstrado ao próximo.

Que Deus nos livre de nos tornarmos “religiosos” no mau sentido. Se cumprirmos tudo o que a cartilha do crente determina mas nosso coração não tiver amor pelo próximo… estamos mal na fita. Peço ao Senhor que nos amemos uns aos outros de fato. Que haja mais pregações sobre isso. Que se cante mais sobre isso. É simples, não exige grandes teologias: amar o próximo é fazer por ele o que gostaríamos que fizessem a nós. Uma criança entende o conceito.

Deus queira que nunca aconteça com você. Mas, se um dia ocorrer de você estar caído, ferido, à beira da estrada, peça ao Senhor que passe por ali o religioso que foi religado a Deus e não o religioso que só cumpre os eclesiasticismos. Senão, meu irmão, minha irmã, você ficará jogado às traças, à chuva e ao desamor de gente que diz amar a Deus mas deixa você caído à beira do caminho, implorando por socorro.

Mais do que isso: que o religioso que deixa os outros largados para lá nunca sejamos você e eu. Pois, se formos assim… que Deus tenha misericórdia de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Papa1 Moro na rua em cuja extremidade foi montado o palco para a apresentação do papa na Jornada Mundial da Juventude. Em outras palavras, isso significa que todo e qualquer tipo de inconveniente causado por esse megaevento me atingiu: engarrafamentos colossais, gente gritando e cantando o dia inteiro (e a noite… e a madrugada…) embaixo da minha janela e perturbando o sono de minha filha, dificuldade de deslocamento (minha rua foi premiada com barreiras que impediam o acesso de carros), montanhas de lixo deixadas pelos peregrinos na minha calçada. Enfim: fiquei no olho do furacão, tendo de suportar todo tipo de incômodo proporcionado pelo evento (e que fique claro que isso não tem nada a ver com o fato de ser católico romano: poderia ser budista, espírita ou evangélico, os inconvenientes seriam iguais). Decidi, então, aproveitar o feriado municipal e fugir do papa e dos gigantescos transtornos que ele e seus peregrinos trouxeram ao Rio de Janeiro. Escapei para um chalé à beira de um lago em Penedo, cidadezinha de montanha que amo, no estado do Rio. Que alívio. Só que tem um detalhe: o frio oscilava entre 2 e 7 graus Celsius. E, aí, congelei. Como bom carioca, não estou habituado a conviver com o frio extremo. Por isso, ao chegar a Penedo me deparei com um grande problema: só levei um par de calças. Jeans. Já usou jeans no frio de 2 graus? Acredite: parece que saíram do freezer. É torturante. E ali me vi eu, em agonia, com calças polares. E parecia que não tinha nada que eu pudesse fazer.

Foi quando me lembrei de que havia algo à minha disposição que poderia me livrar daquela tortura.

Papa2Alguns anos atrás, quando viajei para países frios, como Suíça e a Áustria, comprei ceroulas. Aqui no Brasil essa é uma peça de vestuário bastante incomum, pois somos um país bem quente. Lá são de uso comum. Mas a verdade é que ceroulas são extremamente úteis no frio. São como calças de pijama, só que aderem mais ao corpo, e as vestimos por baixo das calças. Acredite: por mais que pareça engraçado ou estranho usar ou até falar sobre ceroulas, quando viajo a um lugar muito frio sem elas eu sofro. Não queira usar calças jeans a 2 graus sem elas: parece que nossas pernas estão enfiadas na neve. Por isso, quando achei na minha mochila as ceroulas compradas para aquela viagem foi como se um coral de anjos começasse a cantar o Aleluia de Handel. Alívio. Conforto. E paz. Graças a algo a que não estou muito habituado a usar e a que, por isso, não me lembrava de recorrer, fui salvo de ficar três dias congelado da cintura para baixo.

Em nossa vida espiritual, muitas vezes vivemos situações difíceis, torturantes, de agonia. Nos deparamos com becos sem saída nos quais parece que não há nada o que fazer. Nos vemos impotentes diante de grandes dificuldades da vida. A sensação é que estamos vivendo um inferno congelante, do qual não há escapatória. Olhamos ao redor e parece que a ajuda nunca chegará, que ninguém ouve nossos apelos, que só nos resta nos conformar com a dor e o sofrimento, abaixar a cabeça e chorar.

Só que muitas vezes nos esquecemos de algo que usamos vez ou outra, algo que frequentemente fica esquecido e guardado em um canto mofado de nossa espiritualidade. Algo que aquece a alma e esquenta o coração. Que, assim como as ceroulas que usamos tão pouco mas são a salvação no momento de tribulação, cai às vezes no ostracismo até que nos lembremos de que temos esse recurso sempre à disposição: oração.

Papa3Sejamos francos: falamos muito mais de oração do que oramos. Oramos pouco. E, por orar pouco, muitas vezes a oração fica esquecida num canto mofado e escuro do nosso armário espiritual. Está ali, ao nosso dispor, com um potencial enorme de nos livrar de muitas tribulações, mas simplesmente não recorremos a ela. Pense em quantas vezes você ficou doente e antes mesmo de orar foi tomar remédios e procurar o médico. Pense na frequência com que tenta resolver algo com suas próprias forças em vez de dobrar os joelhos e falar com o Senhor. Pense nas aflições e dores que poderia evitar caso clamasse a Deus rotineiramente. Pense na oração que está ao alcance de suas mãos mas você simplesmente não usa, assim como eu e minhas ceroulas.

A oração é extremamente menosprezada em nossos dias. É vista como um complemento da fé e não como um de seus alicerces. Muitas vezes, até mesmo como uma chatice, uma penosa obrigação. Ninguém me obrigou a usar as ceroulas, mas elas viabilizaram que eu passasse dias agradáveis no frio. Ninguém te obriga a orar, mas a oração viabiliza que você supere períodos de tribulação sob a mão e a direção de Cristo. Tampouco me senti incomodado por usar as ceroulas, assim como não devemos nos incomodar quando nos convidam a orar, a participar de um culto de intercessão, a fazer parte de um grupo de oração. Ou mesmo quando o Espírito Santo de Deus nos chama a orar entre as quatro paredes de nosso quarto.

Papa4Nunca imaginaria que logo o papa seria, indiretamente, o responsável por me conduzir a uma reflexão sobre oração. E, por isso, apesar da enormidade do transtorno que a presença dele trouxe a minha vida e à de milhões de cariocas, tenho de lhe agradecer. Obrigado, Sr. Jorge Mario, por, depois de me atrapalhar tanto, ter me proporcionado dias tão agradáveis em Penedo. E, mais importante do que isso: por acabar me conduzindo, por caminhos estranhos, a pensamentos sobre oração. Não serei hipócrita: confesso que torço para que demore muito a haver no Rio novos eventos como a Jornada Mundial da Juventude, para que eu não tenha de fugir de minha própria cidade graças aos enormes incômodos como os que a vinda do papa me provocou.

Por outro lado, peço a Deus que a disponibilidade e a urgência da oração permaneçam sempre presentes em nossa vida – e isso, todos os dias. Que nunca esqueçamos aquilo que Deus pôs ao nosso dispor, como artigo de primeira necessidade, em algum canto mofado da nossa vida de fé. Obrigado, Senhor, pelo privilégio de poder orar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício