Alguns dias atrás conversei com alguém que está há meses longe de uma pessoa que ama. Me dizia esse alguém que era uma sensação estranhíssima, como se a falta daquela pessoa provocasse uma espécie de vácuo mental ou emocional, um tipo de desorientação. Contou-me que acordava de manhã e seu primeiro pensamento é “onde está fulano?” e só depois de alguns instantes se lembrava que “fulano” estava morando em outra cidade há meses. O que me impressionou nessa conversa foi o olhar desse alguém com quem eu estava dialogando na hora em que tocou naquele assunto, um olhar de distância. De tristeza e vazio. Foi apenas um instante, mas foi forte para mim ver aquele olhar. Me tocou, mas eu segurei a onda e fiquei quieto, na minha, apenas percebendo aquele sentimento. Essa conversa aparentemente corriqueira me fez meditar sobre o significado da ausência do ente amado para o ser humano.
Fato é que somos entidades completamente despreparadas para a ausência das pessoas que amamos. Por alguma razão Deus pôs em nosso DNA a urgência de estar perto daqueles por quem nutrimos sentimentos fortes. Essa urgência é tão grande que acredito que o próprio Jesus experimentou a terrível presença da ausência, como já veremos.
Todos nós já sentimos saudades na vida. Todos sabemos como dói. É humano sentir falta de quem se ama, pois o amor pressupõe presença. Amar alguém que está longe provoca uma dor que não encontra palavras. Amor pressupõe respirar o mesmo ar, observar as expressões fisionômicas, ouvir a voz, escutar o som do riso, caminhar ao lado e outras coisas extremamente banais. É tocar o dedo da pessoa rapidamente quando ela te passa o açucareiro na mesa de jantar. Aquele segundo tem significado. É conhecer o barulho que a pessoa faz quando se movimenta, mesmo que ela esteja em outro cômodo. É conhecer o ser sem saber explicar por quê.
E não ter isso nos faz definhar. Definhar de saudade.
Esse fenômeno acontece com todos os seres humanos. E com Cristo, o Filho do Homem, não foi diferente. Mateus 27.46 nos revela um dos momentos mais intrigantes da vida de Jesus de Nazaré. O Verbo encarnado, um dos integrantes da Trindade Santa, o Deus vivo vira-se para o Pai e brada em alta voz: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”, que significa “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”. Que coisa fascinante! Você já parou para pensar nisso? O Agnus Dei, o Cordeiro de Deus, estava ali cumprindo o sacrifício estabelecido desde antes da fundação do mundo, algo que Ele sabia há milênios que ocorreria, num ato de amor que levaria à salvação de uma enorme parcela da humanidade, que reconduziria o homem caído ao seu Criador. Era simplesmente o ponto mais elevado e sublime da História. Nada mais natural então do que Jesus exultar naquele momento de vitória, de triunfo sobre a morte, o pecado e o inferno. Mas… não. De modo impressionante, imprevisto e aparentemente incompreensível o Messias vira-se para o Pai e, em vez de gritar “Vencemos!!!!”, brada “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”. Fascinante. Intrigante.
Eu durante muitos anos me perguntei o motivo de Jesus ter dito aquilo. Já ouvi milhões de explicações diferentes, já li livros que defendem teorias díspares, já escutei pregações esdrúxulas sobre o tema, já vi notas de pé de página de Bíblias de estudo tentando dar uma razão para esse fato. A justificativa que mais escutei, inclusive em seminário, é que naquele momento o Pai viu todos os pecados da humanidade concentrados sobre Aquele que estava na cruz e por isso não suportou olhar para o Filho, “virando o rosto” e, com isso, “abandonou” Jesus. Mas essa explicação nunca me convenceu, perdoem-me os que creem nisso. Como poderia o Pai abandonar o Filho no momento máximo da trajetória da existência? Como o Deus onipresente do Salmo 139, sobre o qual o salmista afirma “Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá” estaria ausente naquele momento?
Não, eu nunca me convenci. E isso sempre foi um mistério para mim – até agora.
Naquela conversa que tive com essa certa pessoa eu me lembrei da força do sentimento da saudade. Depois, mais tarde, passei um período em meditação e oração e uma teoria veio ao meu coração. Não é revelação, não é profecia, anjo nenhum me contou, não é uma epifania, não se trata de um pensamento revolucionário. É apenas uma ideia – que, finalmente, me convenceu. Fez sentido. Para mim, o que houve naquele momento é que Jesus sentiu tanta saudade do Pai que a sensação da presença da ausência lhe tocou tão fundo a ponto de fazê-lo sentir-se abandonado. Eu me sinto abandonado quando as pessoas que mais amo no mundo estão longe, não dão notícias, quando estou numa situação complicada e não tenho seus ombros para chorar e seus conselhos para me nortear. Saudades puras. Eu me sinto abandonado quando quero abraçar os que amo e não posso. Saudades. Eu me sinto abandonado quando centenas de quilômetros me separam daqueles que eu gostaria de beijar, tocar, conversar, caminhar ao lado, sentir o perfume, tomar café junto, ir ao cinema, segurar a mão ou simplesmente apreciar o sorriso vendo face a face. Pura e simples saudade.
Então o que por um segundo ocupou o olhar daquela pessoa com quem conversei há alguns dias consegui na minha imaginação enxergar também nos olhos de Cristo na cruz: a tristeza da saudade. Depois, em minhas orações e meditações, procurei me pôr um instante no lugar do Cordeiro: crucificado, nu, humilhado, desglorificado, tratado como opróbio, solitário. E imaginei seu sentimento naquele instante. Eu, em seu lugar, teria dito ao Pai: “Meu Deus! Meu Deus! Que saudades enormes de ti!“. Acredito que foi isso o que Jesus disse, mas com suas próprias palavras.
Saudade. Ah, que sentimento fascinante…
Paz a todos vocês que estão em Cristo.
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Engraçado como essa hora da madrugada estou aqui lendo essa mensagem e lembrando da minha mãe que está a pouco mais de 120 km de distância de mim. E como a saudade apertou mesmo sabendo que ela voltará daqui a 2 dias. Mas o melhor de tudo é sabermos que em relação ao nosso Pai amado não existe distância, nem saudade, pois podemos sentir o seu amor e cuidado em cada fôlego e pulsar. Ele está ao nosso lado sempre!
Que Deus continue te abençoando!
Amem, Izínia, palavras sinceras e sábias.
Bênçãos em dobro pra ti!
Eu juro q eu tentei não chorar, mas não deu =’/
Lembrei do tempo q eu e meu marido namorávamos e eu ainda morava no Rio, e ele aqui em SP.Meu coração doía (literalmente), e tem gente q diz q coração não dói…aff! Pura mentira!
Eu falava com ele ao celular ou pelo msn e só de ver sua foto eu chorava!
Mas creio a saudade não é de toda ruim, pois o encontro depois de um tempo afastado é tão mágico e lindo q penso q talvez valha a pena.Quem sabe…
Bjs e paz no amor do Papai =D
PS: Mano Maurício, vc já leu meu testemunho no blog? http://crentegospel.blogspot.com/
Oi, Renatinha. Vc tem razão, os reencontros são mágicos mesmo.
Li sim, li seu testemunho. Teu blog já ta na minha ronda semanal 🙂
beijo e paz!
Eu ja senti este vazio, é um momento de transição,um lugar interior na alma humana que ficamos absolutamente sozinhos,que choramos para Deus e parece que mesmo ele nos abandonou, mas logo mais a frente ele nos permite experiencias que nos mostram que ele jamais nos abandona, Cristo viveu e sentiu isso, Deus odeia a morte, odeia nos ver sofrendo, sente saudades de nos pois somos todos seus filhos, por isso ele nos quer juntinho dele eternamente, foi a causa do sacrifício do nosso irmão mais velho, ele veio para o resgate, aqui tudo e transitório , por isso viveremos um dia sem doença, sem morte, sem dor, não haverá lagrimas, pois nossos amados estarão para todo sempre conosco, esta palavra saudade nem existirá, quando a dor da perda e da saudade aperta, precisamos nos lembrar que o espirito Santo e o nosso consolador,que nosso Pai querido respeita nossa dor, e faz um silencio de carinho e cuidado… E assim que me sinto depois de superados sentimentos e questionamento de tantos porquês da vida, decidi confiar e descobri que minhas perdas são ganhos…Graça e Paz a todos.Avante sempre.
Ivone, suas palavras mostram teu bom coração.
Graças paz do Deus feito homem pra ti!
Mauricio,
Vc sabe que tb já pensei sobre o clamor de Jesus? Nunca havia pensado que pode ter sido por saudade….sensacional!
Eu tb tenho saudade de várias coisas, pessoas, épocas e um passado…Eu poderia ter aproveitado mais, dito mais q amava mas agora só me resta a dor da reconstrução mas eu creio que Jeus pode me curar!
Estou amando essa “movimentação” do mosteiro. As suas palavras estão fazendo mt bem ao meu coração….
Bjss da amiga, Lele
Espero que a dor da reconstrução seja como a dor que a gente sente qdo uma
ferida aberta se cicatriza.
Deus tem muito ainda pra ti, amiga.
À espera dos nossos passeios,
MZágari
Simplesmente LINDO.
Simplesmente obrigado, querida amiga.
Deus a abençoe!
Ahhh, Maurício, que delícia ‘ouvir’ Jesus clamando pela presença do Pai.
Sinto saudades dEle também, essa sensação me veio inúmeras vezes ao longo da vida; antes, não sabia bem de Quem era a saudade e que hoje sei – Graças por isso, Senhor! Hoje, com ela, vem a vontade de me esparramar em Seu colo, abraçá-Lo, sentir o perfume do seu Cuidado Amoroso (pra mim tem cheiro, textura, cor, sabor). Saudade é misto de todos os sentidos, mas o pior dela é solidão, a certeza de estar só fisicamente, apartada dos sabores, cheiros, cores, texturas da pessoa que tanto queremos.
A esperança é que, um dia, na Casa do Pai, por Jesus Cristo, sentiremos que ela nunca exisitiu…
Lindo texto!!!
Bjs
Obrigado, querida.
Sabe q agora, lendo vc, eu percebo o quanto sinto saudade de Deus tb? Em especial nos momentos de pecado, em que eu voluntariamente me afasto dele.
Um beijo grande, na paz do Mestre.
dói mesmo é ter saudade de quem nunca esteve perto fisicamente, mas, em um paradoxo que tem cheiro de fel, jamais estará distante do coração. Difícil é guardar dentro de mim uma saudade que suponho ser a maior da vida… saudade que faz minha capacidade de sentir, de amar e de sofrer sempre maior do que a de pensar, de odiar e de esperar.
Enfim, perdão se isso parece uma elucubração sem sentido, uma ausência roubou minha aptidão para as palavras.
Que o Pai cuide de nosso coração frágil.
dd.
dd,
quem entende os planos do Pai, ne? Tenha certeza que Ele ta cuidando do teu coração. Que a tua saudade seja gostosa mais que dolorosa. Tenha certeza de que no dia em que a distancia física desaparecer, o extase da presença será o maior presente que vc já ganhou de Deus.
No amor dAquele que nos une,
m
Fascinante! Faz muito sentido! Muito mesmo! Deus continue abençoando sua vida querido! Abraços! Paz!
Obrigado, querido.
Que as bênçãos pra ti sejam em dobro.
Forte abraço.
Ai Mauricio… que coisa mais linda é essa??? Seus escritos confrontam o nosso coração e nos faz enxergar em cada virgula o amor de Deus! Sua vida me edifica tanto.. que vc não tem nem noção! Eu te abençôo em nome de Jesus, para que vc continue esse instrumento afiado nas mãos do Pai! Amo vc em Cristo! Grande Beijo
Obrigado, Sheyla. Recebo tua benção e a devolvo em amor a vc e a toda a tua família.
Um beijo grande, na paz de Cristo.
Amémmmmm! Recebo em nome de Jesus! Tamu juntos 😉
🙂
Maurício, a paz…
E que paz… essa que nos conforta nestes momentos de saudades do Pai, da certeza de que nos encontraremos e essa saudade nos leva em alerta e cuidado para fazer tudo aquilo que o Pai nos disse para fazer, mas mesmo quando não fazemos, sentimos saudades, e essas saudades que nos fazem olhar para dentro de nós, revelam a nossa insuficiência e que a cada dia mais precisamos Dele.
Não posso tocá-Lo, mas o vejo me guardando, sinto a a sua Luz que me aquece, suas mãos quem me guiam ao caminho certo, sinto o Seu abraço que me conforta quando estou triste, Sinto o seu Amor e posso ouvir a Sua Voz, o vejo no deserto e na aflição, as Mãos Dele que nos cobrem do sol e nos protejem…é… o nosso coração deseja a presença Dele, mas um dia contemplaremos a Sua Glória e nada mais nos faltará…
No amor de Cristo!!!
Gláucia, é isso.
Por isso que quando o pecado me faz me esconder do Pai entre folhas de Parreira eu fico tão devastado: saudades de tudo isso que há no acolhimento dEle.
Um beijo grande pra ti, nA paz.
incrível, esta sempre foi uma pergunta que eu não tinha responta..o porque do que Jesus falou na cruz, e realmente agora faz todo sentido pra mim, moro longe da minha família, e realmente a saudade é muito próxima do abandono. Estou com esta página á um tempo nos meus favoritos, não lembro porque, mas agora que li fiquei realmente feliz.
Deus te abençoe e continue edificando sua mente. Abraço
Milena
oro a Deus que ele traga paz ao teu coração e concorre você em todo momento de saudade.
Um beijo, na paz do Mestre.
Muito boa a meditação, mano (: Esse é o verdadeiro motivo do jejum. Quando estamos longe de quem amamos, nem fome sentimos (já passei por isso e creio que muitos passam, ainda). Fazer jejum por motivos que não sejam saudade é encher a barriga de vazio, de ausência. Por saudade, enchemos de Amor.
Sobre a passagem, particularmente, prefiro a tradução que diz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (até porque Deus meu e meu Deus são coisas totalmente diferentes, assim como abandono e desamparo). Deus, em verdade, jamais abandona os Seus. Ainda que Este, nunca tendo pecado, tenha se feito pecado, por Amor de nós. O sofrimento do Calvário foi algo que nenhum outro homem suportaria. E Jesus, como homem, sentiu-se como nós nos sentimos quando carregamos nossa Cruz, desamparado. Só que o desamparo de Deus é o mais amparado que existe (: Chega a ser inexplicável, somente “vivível”.
Graças ao bom Amigo pelo Consolador, que em nós habita.
em Deus, que continua sendo “meu” ainda que me desampare.
Meuuuuu Deuuuus…. que coisa mais fantástica, é impossível ler esse texto e não sentir a bem dita saudade…. a muito tempo não lei algo que mecha tão profundamente comigo…. e como dói sentir falta de alguém ou pior ainda, saber que perdemos pra sempre…quem amamos e não estou falando de morte… mas deixa pra lá, já chorei tanto pensando nisso, mas realmente esse texto é de uma profundidade… e desde já peço licença e permissão Mauricio para reescrever alguns trechos em meu facebook…. esse texto tem que ser visto por mais pessoas….
Obrigada meu Deus por essas palavras….
Fique na paz de Cristo!!!!
Olá, Danubya,,
Fico feliz que o texto te abençoou. Obrigado pelo carinho das tuas palavras.
Por favor, sinta-se à vontade para compartilhar no seu FB. Que venha a edificar muitas vidas!
Deus te abençoe e a todos os teus,
mz
Hoje me deu uma saudade de Deus não uma saudade comum é uma saudade da minha alma queria vê lo toca-lo caminhar como ele ,e nada mais faria sentindo nossa como a saudade doí.O me Deus como eu te amo.espero um dia pode lhe vê no paraíso e matar essa saudade e te dizer meu Deus com és lindo…
Depois que Deus levou meu pai pra junto de Si, há 11 meses atras, passei a conhecer uma dor diferente: a dor da saudade que nao vai passar…porque ele nao volta mais.
Jesus veio nos dar exemplo, viveu como homem e sentiu o que sentimos… Entao comecei a questionar a mim mesma: Sera que Jesus ja sentiu essa dor de saudade que eu sinto? E eu achava que nao… Mas agora depois de ler o que voce escreveu eu entendi que Jesus, durante todo o tempo de sua vida terrena, sentiu saudade! Saudade do céu, saudade do Pai! Eu concluo que Ele teve fome, sede, sono, tristeza, alegria em determinados momentos de sua vida, mas a saudade….Ele teve durante todo o tempo!
Oi, Martha,
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que bom saber que você teve essa percepção. Peço a Deus que ela te fortaleça, até o dia do reencontro com seu pai.
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Abraço fraterno, Deus te abençoe muito,
mz
facebook.com/mauriciozagariescritor
A saudade se torna dor, quando sabemos que aquela voz, aquele sorriso, nunca mais serão ouvidos ou vistos. A saudade se torna devastadora, juntamente com a dor de perder alguém que você amava, que fazia parte de você. Saudade, palavra que destrói a alma, quando você sabe que não há mais volta. Um dor incomparável, dilaceradora, não há nada nesse mundo pra consolar essa dor, a não ser o Santo Espírito. Nada nesse mundo te devolve a alegria de viver, a não ser o amor de Deus que cobre todo sofrimento.