Ao mesmo tempo, vejo homens que são verdadeiras referências teológicas entre os protestantes brasileiros. Pastores, teólogos, sacerdotes e acadêmicos com títulos elegantes que escrevem colunas e artigos em revistas, que dão dezenas de conferências teológicas por ano, que aparecem na televisão, que escrevem livros e fazem parte de uma espécie de elite do pensamento cristão nacional. Esses homens escrevem em blogs, revistas, dão palestras em seminários, vivem com seus nomes e fotos em anúncios de workshops em revistas evangélicas, são convidados para palestrar em zilhões de lugares. Gente grande, gente parruda.
Enquanto os meus pensamentos teológicos são irrelevantes no cenário nacional, o que esses homens de renome falam influencia, gera debates, muda mentalidades, provoca o surgimento de organizações, é uma coisa de louco. Basta um desses medalhões abrir a boca e dizer algo que no dia seguinte centenas ou até milhares de cristãos evangélicos por todo o país estarão comentando, expressando suas opiniões, debatendo e até se ofendendo, dependendo da postura de cada um. As redes sociais vão fervilhar.
A grande questão é que todas essas grandes figuras do cenário evangélico brasileiro têm suas crenças e ideologias. Uns acreditam que a Igreja deve influenciar a sociedade pela via política. Outros creem que a Igreja deve ajudar a reinventar a sociedade secular. Tem gente que acredita que a Igreja tem que ser fonte de insumos para a ética da nação. Há os que investem na ideia de que a Igreja deve ajudar a redefinir a ordem do poder econômico e político no mundo. Nessa Arca de Noé que é a “inteligentzia” evangélica brasileira tem todo tipo de passageiro, cada um com uma pelagem distinta.
É extremamente comum vermos ainda a guetificação dos setores da Igreja, alicerçada em termos como “fundamentalismo” e “liberalismo”, em evidentes e paradoxais ações de afastamento em nome de uma suposta união. A estratificação da Igreja está na pauta do dia. Caudilhos religiosos escrevem artigos em websites em que criticam aqueles que discordam deles com uma postura tão arrogante e deselegante que envergonha qualquer cristão anônimo. Leio alguns artigos escritos por esses homens cheios de dons em que vejo a utilização de termos vergonhosos para classificar aqueles que deles discordam. E sinto vergonha alheia.
A Igreja do Brasil está mal e vai piorar. E os culpados, escreva isso, não são o povo, os desconhecidos, os zero à esquerda como eu. São aqueles que, tendo renome para dar o exemplo ao povo, aos desconhecidos, aos zero à esquerda como eu, usam termos depreciativos e argumentos ofensivos e nada cristãos para criticar outros líderes que discordam de suas visões intocáveis. Somos obrigados a ler artigos em que se fala de graça, humildade e união por meio de palavras que carecem de graça, são recheadas de soberba e desunem mais do que qualquer outra coisa. E, em meio a uma igreja incoerente como essa, criticam quem critica a incoerência.
O papel dos zés-ninguéns como nós
Ao mesmo tempo, leio em Tiago 5.16 que “A oração de um justo é poderosa e eficaz” – justo não por justiça própria, mas por ter sido justificado por Cristo, naturalmente. O que, de certo modo, confere um poder de influência ao cristão zé-ninguém como eu. Por quê? Porque a Palavra de Deus mostra que por meio da fé e da devoção pessoal o zé-ninguém pode influenciar o Estado, a sociedade, o mundo. Pois Deus ouve a voz dos pequeninos. Se isso não fosse assim, se não surtisse efeito, se a busca das soluções imanentes não viesse por via transcendente, por que Paulo diria em 1 Tm 2.1,2: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica, com toda a piedade e dignidade”?
Nós, que somos os menores, abrigamos setores sérios, éticos e sadios do protestantismo brasileiro. Enquanto em muitas cúpulas vemos uns querendo devorar o fígado de quem deles discorda, os pequeninos estão promovendo a verdadeira revolução social: de joelhos, com o rosto no pó. Como a Bíblia manda.
Leio na internet e nos artigos as discussões de alguns dos grandes nomes no cenário evangélico nacional, que acreditam realmente que vão mudar a realidade do país pelo caminho da mobilização, da mistura com o Estado, da influência sobre a sociedade, e os comparo com as legiões de irmãzinhas e irmãozinhos que passam noites em vigília, que choram pelo país, que clamam pelo fim da violência nas favelas, que impõem as mãos sobre o mapa do Brasil e clamam a Deus por misericórdia e mudança. E aí me pergunto: qual é o caminho mais bíblico? Qual surtirá mais efeito?
Ouço as palavras do Rei em 2 Cr 7.14 dizendo “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra” e ao mesmo tempo leio os artigos e os livros daqueles que acham que elegendo políticos evangélicos e formando comitês gospel para subir a rampa do Planalto vamos mudar algo neste país e me pergunto: qual é o caminho? A face do Senhor ou a face da presidenta da República? Quem tem o poder de promover a revolução social, o fim da miséria, a implantação da ética do Reino entre nós? Deputados? Comitês? Alianças? Governadores? Presidentes? Ou um tal de Deus?
Ouvindo muitos, a sensação que tenho é que parece que Deus não tem muita força para isso não.
“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. A quem Jesus nos ensinou a pedir isso? À Associação de Moradores? Ao Ministério Público? À mídia? Aos jornais? À TV Globo? É impressionante como há grandes líderes evangélicos de renome no país que não acreditam no poder da oração. Ou, se acreditam, demonstram por suas palavras e atitudes que a oração pode até vir a ser feita, mas se um comitezinho não for organizado e uma declaração emitida à imprensa ela não vai adiantar nada. Enquanto isso vejo o cristão anônimo clamando a Deus como ensina Mateus 6.6. Que alento…
Enquanto vejo lideranças evangélicas esbravejando sobre questões político-partidárias e querendo usar o sagrado Evangelho de Cristo para defender agendas antimiséria e contra a fome, escuto o senhorzinho sentado ao meu lado no banco da igreja lendo a Bíblia em voz alta passagens como “Portanto, não se preocupem, dizendo: ‘Que vamos comer?’ ou ‘Que vamos beber?’ ou ‘Que vamos vestir?’. Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6.31-33).
Lendo certos artigos na internet parece que Jesus não estava tão certo assim quando disse essas coisas.
Resta orar: Pai, eu peço. Não vou participar de comitês, não vou à mídia, não escreverei artigos em websites ofendendo quem discorda de mim. Mas vou pedir-te, Pai, crendo na eficácia da oração deste pequeno desconhecido que vos fala. E, quando eu pedir, que seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. Amém.
Paz a todos vocês que estão em Cristo.
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