Politicamente ressurreto

Publicado: 31/05/2011 em Espiritualidade, Igreja dos nossos dias

Quando criança eu assistia muito aos Trapalhões. O quarteto formado por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias tornava as minhas noites mais divertidas, com seu humor pastelão, meio cearense, meio mangueirense, mas na gestalt funcionava muito bem. Tomado então de um certo saudosismo, confesso que me rendi ao meu lado criança e, assim que tomei conhecimento de que  o box de DVDs com os melhores momentos dos Trapalhões havia sido lançado, fui à loja comprar aquele pedaço da minha infância. Sentei-me na poltrona, com gosto de anos 70 na boca, estourei pipocas e passei algumas horas assistindo a muitos quadros do antigo programa. Depois de um certo tempo vendo as peripécias dos quatro, agora com meus olhos mais adultos e mentalidade do século 21, uma coisa me chamou bastante a atenção: a total e absoluta falta do chamado “politicamente correto” nos diálogos de cada esquete. E isso me fez refletir.

Com muita frequência, o “afro-brasileiro” Mussum era chamado de “negão” e “azulão”. Quando aparecia um “homoafetivo”, Didi logo soltava um “hmmm, esse rapaz alegre solicita!”. E por aí vai. O curioso é que a sociedade dos anos 70 e 80 não parecia se incomodar com aquilo, dadas as claques que explodiam em gargalhadas a cada piada. E nem eu me lembro de, na época, me incomodar ou ouvir reclamações. A verdade é que não pude deixar de imaginar a chuva de processos a que os Trapalhões teriam de responder hoje na Justiça caso o programa fosse ao ar em nossos dias com os mesmos roteiros. O quarteto teria sérios problemas, sob acusações de racismo e homofobia para baixo. Pois, afinal, vivemos na era do politicamente correto.

Por um lado, esse conceito é interessante, pois preserva certos grupos de constrangimentos em determinadas situações sociais. Nenhuma pessoa obesa gosta de ser chamada,  como vi no programa, de “saco de banha”. É ofensivo, traumatizante e desnecessário. Nesse sentido, vejo o politicamente correto com muito bons olhos. É uma expressão de respeito pelo sentimento alheio e merece nossa consideração. Por outro lado,  o conceito torna-se um grande problema em certas situações em que se contrapõe às verdades absolutas do Evangelho. Só de mencionar “verdades absolutas” tenho certeza que alguém que está me lendo agora já se remexeu na cadeira e pensou “isso não é politicamente correto, cada um tem sua própria verdade”. Pois é. Esse é exatamente o ponto.

Existem certas afirmações bíblicas que são bastante politicamente incorretas mas cuja morte e ressurreição de Cristo tornaram um fato de fé. Um exemplo: quem vive sem Cristo vai para o inferno (numa sociedade de minoria cristã, ninguém gosta de ouvir isso). Outro: o marido deve amar a mulher a ponto de sacrificar-se por ela (na época do “me casei para EU ser feliz”, esposos não querem escutar isso). E não para aí, podemos desfilar um corolário de fatos bíblicos politicamente incorretos: nem todos os caminhos levam a Deus. Minha verdade não importa, importa uma única Verdade. Minha vida não me pertence, pertence a Deus. A justiça de Deus pune o pecador e castiga todos os que Ele ama. Deus se ira. Sofrimento faz parte da vida do cristão. É possível ser materialmente paupérrimo e ter uma saúde problemática mas ser amado por Deus. E por aí vai.

Fato é que a Biblia está recheada de afirmações que contrariam o conceito popular e pós-moderno das proposições que satisfazem a todos. Isso porque vivemos na época em que o politicamente correto é agradar todo mundo. “Divorcie-se, afinal o amor acabou”. “O amor de Deus é tão grande que não permitiria que muitos fossem ao inferno”. “O Deus de amor não controla o sofrimento”. “Deus não quer que você seja pobre”. Afirmações como essas têm composto o cardápio de teologias politicamente corretas da Igreja do século 21. Mas Cristo nos pede para confiarmos na Cruz. Para crermos em sua soberania e na sua capacidade de gerenciar o desenrolar da História sem querer agradar o barro, mas sim realizar os propósitos do oleiro. E, por isso, somos convidados a afirmar para o mundo aquilo que o mundo não quer ouvir. Jesus morreu e ressuscitou não para nos agradar e nos dizer o que queremos que Ele diga porque assim ficamos mais confortáveis e satisfeitos: Cristo morreu e ressuscitou para nos reconciliar com Ele e com suas verdades… que muitas vezes não agradam.

Por isso, é fundamental que, nesse sentido, sejamos politicamente ressurretos com Cristo. Preciso abrir mão de mim mesmo e de minha vida, tomar minha Cruz e segui-lo. Assim como você. Assim como toda a humanidade. Essa é a maior verdade politicamente INcorreta do Evangelho: eu importo infinitamente menos do que Deus. Seja feita a vontade dEle, assim na terra como no Céu. A minha? Não importa. Se os Trapalhões fossem ao ar hoje, a época do politicamente correto, provavelmente Mussum não poderia ser chamado de “negão” e Vera Verão de “rapaz alegre que solicita”. Mas hoje, ontem e sempre, na época infindável do politicamente ressurreto, nós teríamos de dizer a Didi, Dedé, Mussum e Zacarias: arrependam-se dos seus pecados e entreguem suas vidas a Cristo, pois Ele é o único caminho, a verdade e a vida – e a caminhada com Ele vai exigir de vocês renúncias diárias de seus desejos e vontades e sua substituição pela pergunta: “Que queres de mim, Senhor?”. E não se esqueça de que existe um Didi no seu trabalho. Um Dedé na sua rua. Um Mussum em Samaria. E um Zacarias nos confins da terra.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

 

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comentários
  1. MARISE disse:

    OlÁ Maurício, mais um texto abençoado heim? Vc tem o dom de dizer coisas duras com amor. Eu quero ser (agora e sempre) “politicamente ressurreta”. Amo a sua sensibilidade. Deus te abençoe demais!

  2. Alessandra disse:

    Mto bom! 🙂

  3. Não há o que comentar mano. Concordo com tudo o que disseste no texto. Deus te abençoe, abraço e Paz.

  4. Terezinha Maria disse:

    Quero ser assim também, amorosamente sincera, rs! Sei que O Senhor está levantando um poderoso exército que fale segundo o Seu coração… e vc faz parte do mesmo!!!
    abços

  5. Seria ideal que todos os cristãos fossem instruídos tão bem assim como quando leio essas reflexões…
    Muitos tem aprendido tanto errado!

    Um forte abraço, querido irmão! Que Deus continue iluminando sua mente.

  6. André Neves disse:

    Mais um excelente texto, ideal para encerrar minhas reflexões neste dia!

    Um abraço, meu amigo!

  7. Grace Bichara disse:

    Esse texto deveria ser distribuído nas portas das nossas igrejas!

  8. Waldir Martins disse:

    É verdade. Chico Anizio também fazia o “Tim Tones Glória”, uma alusão ao Jim Jones, mas alfinetava os evangélicos. Vários tipos de brincadeiras com vários setores da sociedade.
    Gostei muito. Deus o abençoe.

  9. Patrícia disse:

    Paz,Maurício!

    Você faz terapia e nós é que somos abençoados,rs.
    Execelente texto!
    Vim te parabenizar e reafirmar que continua sendo um prazer te ler.
    Um grande abraço da mana,

    Patrícia.

  10. Lan Succi disse:

    Estupendo!
    E ainda há muitos líderes que concordam com tudo. Ou quase, porque aquilo que implementam e não está explícito na Palavra de Deus, para eles é inquestionável, visto que atende a seus interesses.

  11. Fabio Carrenho disse:

    Gostei muito do seu texto!
    Fez-me lembrar também da minha infância!
    O programa era exibido no mesmo horário do culto e ficava triste por não conseguir assistir.
    Parabéns pela analogia!
    Deus te abençoe,
    Fabio Carrenho

  12. Soraya Barros disse:

    Tenho apreciado muito seus textos. São assuntos interessantes que nos levam a refletir sobre nossa postura, nossos valores… agradeço pela leitura saudável e interessante!
    Soraya Barros

  13. Anamaria disse:

    Faltam sinceros de coração na defesa do evangelho da ressurreição , assumir a verdade do evangelho como causa primaz não é fácil, já que somos a contra-cultura do mundo. Num mundo onde o cristianismo de nossas igrejas se confunde cada vez mais e não mais consegue dar conta do recado que Cristo queria dar,defender o evangelho puro e simples e o Deus de amor e da pura Justiça põe a prova muitos. Quem eu sou diante do EU SOU? Quero ser politicamente ressureta, hum, não digo que é fácil, mas tentaremos a cada dia. Deus te abençoe e parabéns pelo belo texto.

  14. Eliana disse:

    Muito bom, Maurício!

    Parabéns e obrigada por essa reflexão!

    Vc tem o dom de proclamar as verdades bíblicas com ousadia e amor ao mesmo tempo! Aprendo tanto com vc!

    Minha vontade era imprimir seus textos e sair distribuindo por aí… hehe

    Deus o abençoe!

  15. Alessandro disse:

    Mauricio, parabéns, mais um excelente texto…

  16. […] Maurício Zágari, no Blog Apenas […]

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