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Sexo1Quantos tipos de pecados existem? Serão dezenas, centenas, milhares, milhões? Confesso que não sei ao certo, mas uma certeza tenho: são muitos. Muitos mesmo. Isso é curioso, porque, embora existam tantas e tantas e tantas formas de desobedecer a vontade de Deus, parece que concentramos nossa atenção em um pequeno punhado delas. Veja se estou errado: o que escandaliza a esmagadora maioria de nós são atitudes como embriaguez, fumo, consumo de drogas, envolvimento em programações consideradas pecaminosas (boate, bailes, carnaval, shows etc.) e aquilo que pomos no pináculo dos pecados: práticas sexuais ilícitas. Tudo o que é pecado é pecado, logo, não podemos ignorar o quanto qualquer uma dessas atitudes pecaminosas é tóxica para nossa alma nem diminuir a gravidade de qualquer uma delas. Mas o que me chama a atenção é como desenvolvemos o hábito de pôr no paredão apenas um pequeno grupo de transgressões – em especial, os pecados sexuais, considerados por muitos como piores do que a blasfêmia contra o Espírito Santo – quando existem dezenas, centenas, milhares ou milhões. Será que a eleição do sexo ilícito no imaginário popular como a pior de todas as transgressões tem alguma implicação? Tem sim, e são implicações sérias.

Sexo2Acabei de ler um livro em que, em síntese, o autor expõe sua visão do que faz um sacerdote ser bem-sucedido, ou seja, o que seria sucesso no ministério. É uma obra bem interessante e que tem o seu valor, mas algo chamou minha atenção. Percorri com interesse suas páginas, até que cheguei ao capítulo que fala sobre santidade. Quando vi o tema, imaginei que ele discorreria sobre diferentes questões, como bom uso do dinheiro da igreja, relacionamento saudável com a família, cuidados com a vaidade excessiva, sexualidade sadia, humildade no uso do poder, justiça ao lidar com as ovelhas, a importância de ser manso no trato com os diferentes, a necessidade de não se corromper para obter facilidades, amar o próximo como a si mesmo, e uma série de outros tópicos que, a meu ver, são indissociáveis do tema santidade do ministro. Só que, para minha surpresa, o autor começa o capítulo falando sobre sexo, prossegue falando sobre sexo e o termina falando sobre… sexo. Cheguei ao final desse trecho pensando: “Tá certo, concordo, mas… sexo?!”.

É absolutamente inquestionável que uma sexualidade santa é fundamental para a vida pessoal e ministerial de um indivíduo, devemos estar em constante vigilância para não cometer transgressões sexuais e, caso pequemos, sempre buscar o arrependimento sincero e a mudança de atitude. Mas, do jeito que o autor desse livro e muitos irmãos e irmãs tratam a questão, a sensação que tenho é que ser santo é apenas ser sexualmente santo. A pergunta é: e o resto? E as outras dezenas ou centenas, os outros milhares ou milhões de pecados, que fim levaram?

A conclusão a que chego é que nós criamos um ranking de pecados. E, no alto do pódio, triunfando como os piores pecados de todos, estão os de cunho sexual. Uma distinção que, é importante lembrar, a Bíblia não faz.

Revista UltimatoA revista Ultimato publicou na sua mais recente edição (número 346, pg. 42) um artigo não assinado em que aponta a negligência de grande parcela dos cristãos no que tange aos pecados ligados à injustiça social. Diz o texto: “A maior parte dos pregadores tem chamado a minha atenção para os pecados do sexo – o amor livre, a prostituição, o adultério, a pornografia, o homossexualismo – indicando a conduta certa nesta área. Agradeço a Deus por isso, mas lamento muito o silêncio, a falta de clareza e de ênfase na outra pregação, não menos importante que a anterior (…) Por falta de profetas nesta área, demorei muito tempo a compreender que é pecado tanto trair o cônjuge como deixar o irmão de estômago vazio”. Creio que o autor teve 101% de clareza em sua afirmação, pois conseguiu enxergar o quanto a “ditadura do sexo” está desviando as nossas preocupações de muitos outros tipos de pecados.

Não quero ser mal compreendido, então preciso enfatizar algo: pecado sexuais são graves. Nunca vou dizer o contrário nem vou passar a mão na cabeça deles. São horríveis e ponto. Toda prática sexual ilícita é destrutiva e só gera problemas, dor, morte e devastação. Sofro com um gosto amargo na boca só de pensar nos erros que cometi nessa área (e se você está praticando algo do gênero recomendo, por amor a sua vida e a sua alma, que pare imediatamente, já – de preferência, ontem). Mas o grande mal de se resumir os pecados graves a sexo é que todos os outros pecados graves começam a ser praticados sem que se dê o devido peso a eles.

Sexo3E vou te contar um segredo: todo pecado é grave. Não existe “pecado não grave” ou “pecado menos grave”. Poderíamos nos perder em discussões eternas sobre “pecadinho e pecadão”, “pecados para a morte” ou mesmo o conceito católico romano de “pecado mortal e pecado venial”. Conheço a teologia de tudo isso e a grande conclusão, em última análise, é uma só: pecado é pecado. Desobediência é desobediência. Morte espiritual é morte espiritual. Não existe morte que mate mais do que outra morte. Quem morre de queda de avião morre tanto quanto quem morre de pneumonia. Quem morre numa explosão nuclear morre tanto quanto quem morre de dengue. Tirando a imperdoável blasfêmia contra o Espírito Santo (que é atribuir atos divinos ao Diabo), os demais pecados estão todos no mesmo saco: representam morte espiritual e carecem de arrependimento, confissão e abandono.

Se um ministro do evangelho comete um pecado sexual, ele imediatamente é afastado de seu cargo. E isso é correto, pois essa alma preciosa e valiosa está doente e necessita ser tratada, cuidada, pastoreada, sarada e, só então, reconduzida às suas atividades ministeriais. Mas não deveria ser assim também com um ministro que peca pela inveja? Pela ganância? Pela arrogância? Pela soberba? Pela corrupção? Falta de amor? Vaidade? Maledicência? Dissensões? Partidarismos? Egoísmo? Egocentrismo? Hipocrisia? Abuso de poder? Favorecimentos ilícitos? Violência verbal? Injustiça? Traições? Quebra da ética pastoral? Mau uso do dinheiro da igreja? Etc., etc., etc? Confesso que não consigo me lembrar de quase nenhum caso de um ministro que tenha sido afastado do cargo por qualquer um desses pecados. Graves, diga-se. Hediondos. Um pastor soberbo, agressivo, corrupto ou vaidoso é uma anomalia espiritual. Precisa de tratamento tanto quanto um viciado em pornografia na internet.

Sexo4E não estou nem de longe falando apenas de ministros do evangelho. O mesmo se aplica a cada um de nós. Em um culto recente em minha igreja, um de meus pastores iniciou a celebração convidando a congregação a confessar seus pecados a Deus. Claro que me lembrei de meus pecado sexuais. Mas também me lembrei de muitos e muitos e muitos outros tipos de pecados, a ponto de a oração terminar e eu ter de interromper meu ato de contrição sem ter tido tempo de conversar com o Senhor sobre todos. Poucas vezes nos derramamos em lágrimas por termos sido, por exemplo, invejosos, iracundos, gananciosos, espertalhões, abusados ou por termos usado o “jeitinho brasileiro” (que é pecado, diga-se de passagem). Praticamos essas transgressões contra Deus sem nenhum drama de consciência, enquanto legiões de irmãos se deprimem por estarem, por exemplo, escravizados ao vício em pornografia. Por ser uma situação tão inexistente, chega a soar engraçado imaginar um líder ir a público dizer:

- Meus irmãos, preciso me licenciar do ministério pois não honro meu pai e minha mãe e tenho de me tratar espiritualmente.

Ou um membro de igreja que procure auxílio em gabinete pastoral afirmando:

- Pastor, preciso de libertação porque sou muito invejoso.

Inferno de DanteVocê já viu alguém ser disciplinado na igreja por ter praticado a glutonaria? Eu nunca. Na verdade, em todos os meus anos de convertido nunca ouvi uma única pregação, escutei uma música gospel ou li um livro cristão sequer que fosse sobre esse pecado. Parece engraçado eu estar dizendo isso? Não quando lemos na Bíblia que “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.21). Meu irmã, minha irmã, isso é extremamente sério! Essa passagem, por exemplo, me mostra que a glutonaria é tão grave e tem consequências tão severas como a fornicação, por exemplo, e outros pecados sexuais. E aqui reside o perigo, o xis da questão: se eu te perguntar quantas vezes você adulterou na vida, pode ser que me responda, indignado e ofendido: “Nunca!”; mas, sinceramente, quantas vezes você foi glutão? Umas 50? 100? 200? 300? E será que ao menos se arrependeu e pediu perdão a Deus por isso? Ainda: será que ter pecado pela glutonaria sem arrependimento faz de você menos culpado diante do Senhor do que se tivesse fornicado mas se arrependesse e pedisse perdão com toda sinceridade?

A mesma passagem que mostra a gravidade da obra da carne glutonaria a inclui no mesmo grupo que “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (Gl 19-21). Atravessamos a vida com nossa santidade sexual intocada mas cultivamos inimizades, sentimos ciúmes, promovemos discórdias, estimulamos facções, sentimos inveja e por aí vai – sem que nos arrependamos ou peçamos perdão ao Senhor. Será mesmo que estamos tão melhores assim na fita?

Todo pecado é grave. Mas existe um tipo de pecado que, sim, é mais grave do que os outros: o pecado não confessado. Enquanto ficarmos pondo corretamente o dedo na cara dos pecados sexuais mas passando incorretamente a mão na cabeça dos demais tipos de pecados, estaremos deixando de pregar contra eles, continuaremos a praticá-los sem arrependimento, não os confessaremos a Deus e, com tudo isso, seremos engolidos por atos hediondos para o Senhor mas a que não damos tanta atenção porque, para nós, não são tão hediondos assim.

Eis o grande mal da ditadura do sexo: deixamos de confessar nossos outros pecados, igualmente perniciosos.

Pecados sexuaisPode ser que você tenha se casado virgem, nunca tenha se masturbado, viva uma vida livre de adultérios e jamais tenha espiado pornografia na internet, entre outras atitudes sexuais biblicamente ilícitas. Se esse é o seu caso, ótimo – mas cuidado: sua sexualidade pode não te afastar de Deus, porém, de repente, sua língua, seus olhos, seu coração, seu ego ou suas atitudes o estão mantendo a anos-luz de distância do Senhor.

Quais são os pecados que você comete habitualmente mas aos quais não dá muita importância? Lembre-se de Provérbios 28.13: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”. Examine-se, pois, o homem a si mesmo… e alcance a misericórdia do Pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Li recentemente em um blog um texto em que o autor falava algo sobre “ser autêntico”. O irmão estava revoltado com uma discussão que teve com alguém e, por isso, escreveu o seguinte: “Ser ‘sincero’, ‘autêntico’ ou ‘você mesmo’ não é desculpa para ser uma pessoa nojenta, desagradável ou idiota. Pare de se orgulhar de ser um completo @$&#% e vê se aprende a viver em sociedade” (o @$&#% é por minha conta, o comentário trazia o palavrão explicitamente). Não concordo com a escolha de vocábulos que ele adotou,  pois antipatizo com o uso de palavrões (se para toda palavra torpe há um sinônimo menos agressivo, por que usar?). Mas estou de acordo com o conteúdo do que ele disse.

Anos atrás eu acreditava que tinha de ser autêntico, de falar o que viesse à cabeça, custasse o que custasse. Mas percebi que, se vivermos sob o pretexto de que “eu sou assim mesmo” e “esse é o meu jeito”, vamos andar na contramão do Evangelho. Por quê? Pois a verdade é que não interessa como você é. Interessa como Cristo é. E se “não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), o verdadeiro cristão não pode usar a desculpa de que “eu sou assim” e machucar outras pessoas. Pois Jesus não machucaria.

Já ouvi alguns pregadores usarem em suas mensagens um sofisma que, de tanto ser repetido, acabou virando uma pseudoverdade teológica, ou, para usar um vocábulo mais aceito pela sociedade, apenas mais um clichê gospel. Dizem: “Deus muda o caráter mas não o temperamento“. Já ouviu isso? Só que essa afirmação simplesmente não é verdade. Basta olhar as virtudes contidas no fruto do Espírito exposto em Gálatas 5.22,23a: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”.

Pare para pensar. Isso é o fruto que o Espírito Santo gera no salvo. Agora: se essa frase fosse verdade, todas essas virtudes teriam a ver apenas com caráter. Mas muitas falam de mudança de temperamento. Observe: Amor: caráter e temperamento. Alegria: temperamento. Paz: caráter e temperamento.  Longanimidade (ou paciência, em outras traduções): temperamento. Benignidade (ou amabilidade, em outras traduções): caráter e temperamento. Bondade: caráter. Fidelidade (ou fé, em outras traduções): caráter. Mansidão: temperamento. Domínio próprio: caráter e temperamento. Ou seja, a atuação do Espírito de Deus na vida do que é salvo se dá no nível da transformação do caráter mas também no do temperamento. É uma transformação do todo e não de 2/3 do indivíduo que foi chamado da morte para a vida. Ninguém é regenerado por Cristo parcialmente: ou nasce todo ou não nasce.

Naturalmente, existe o processo de santificação, uma dinâmica cotidiana. Só que santificação representa melhorar a cada dia. Subir um degrau da escada, depois outro, depois outro. Não é estagnação. Não é retrocesso. É avanço. E justificar uma forma anticristã de ser como sendo parte de um processo de santificação é alegar que estar satisfeito consigo mesmo de modo estagnado é se santificar. E não é nada disso. O cristão que fala “eu sou assim mesmo, me aguentem” não está em processo de santificação, está parado no sinal verde com o freio de mão puxado. E não adianta buzinar, pois ele não sai do lugar. E ainda berra pela janela: “Eu não vou andar, pois sou autêntico!”.

Assim, justificar, como disse o irmão do blog, atitudes desagradáveis ou ofensivas com o argumento de que é “seu jeito de ser” não é nada bíblico. O verdadeiro salvo é quem se arrependeu de todos os seus males, inclusive a sua forma de ser, se ela é socialmente desagradável. Não entendo, por exemplo, um pastor que viva falando de Jesus mas cujo temperamento seja constantemente irascível. Todos temos arroubos de raiva, mas quando o seu “jeito de ser” é naturalmente agressivo, para mim isso não demonstra autenticidade, mas falta de intimidade com o Jesus que prega.

Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou sincero” e sair desrespeitando os irmãos. Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou autêntico” e sair agredindo verbalmente as pessoas. Não, não é bíblico ou cristão dizer “esse é o meu jeito, se não gostar azar o seu”, pois isso contraria frontalmente o “amar o próximo como a si mesmo”. Dizer essas coisas só faz de você, como disse o mano do blog, “uma pessoa desagradável”. Não há mérito algum nisso. Não é bonito. Não creio que agrade Deus. Não demonstra fruto do Espírito.

Não cabe a mim dizer como você tem que ser, isso é entre você e Deus. Mas se posso fazer uma recomendação, é: não seja como você é. Não orgulhe-se de ser quem você é. Se eu fosse ser quem eu sou iria querer muita distância de mim mesmo. Mas Cristo vive em você? Então dê de beber ao teu inimigo sedento, pague um almoço ao inimigo faminto. Ame quem te fez mal. Contrarie sua natureza e seus impulsos. Alimente a natureza de Cristo em si. Isso sim é ser cristão.

Essa é a proposta do Evangelho. Se você percebeu que se encaixou nessas palavras, clame a Deus para que Ele te transforme. Acredite: Ele faz isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Cada civilização contém conceitos que são considerados as maiores virtudes entre as pessoas que a formam. Na Grécia antiga, por exemplo, o poder de argumentação era tão valorizado que existiam escolas voltadas especificamente para ensinar a debater. Em certas tribos aborígenes, trair alguém antes de matá-la dava status, como revela o livro O totem da paz. Também não são poucas as sociedades ao longo da História em que os mais fortes fisicamente são e foram os mais louvados. A espiritualidade e a obediência ao Alcorão são bem vistas em culturas islâmicas. Em certas sociedades orientais, a honra era vista como o valor principal de um homem. E na nossa? O que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21, em que eu e você estamos imersos? Basicamente o que chamo de “os três F”: fama, fortuna e físico. Quer ser o maior entre os seus semelhantes no Brasil de hoje? Então seja famoso: destaque-se, apareça mais que os outros, seja venerado, que muitos olhos se voltem para você. Ou então ganhe muito dinheiro, ostente carros caríssimos, more numa mansão, demonstre como você é bem-sucedido financeiramente. Por fim, tenha um aspecto físico invejável, seja por uma beleza natural ou por recursos como malhação, cirurgias plásticas, implante de silicone, botox, cabelos bem cortados – ou ainda, por roupas e sapatos caríssimos e da grife que está na moda. Pronto. Você será visto com destaque, valorizado, bajulado, invejado, amado. Mas… e no Reino de Deus? O que destaca alguém? Acredite: o exato oposto daquilo que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21:

Humildade.

O pecado de Satanás foi a arrogância. Ele quis ser mais do que era. Deu no que deu. Podemos contrastar sua atitude com a do grande profeta João Batista, sobre quem o próprio Jesus disse: “Eu lhes digo que entre os que nasceram de mulher não há ninguém maior do que João” (Lc 7.28). Sendo João isso tudo, ele mesmo afirmou: “Depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias” (Mc 1.7). João sabia quem era. Mas, mesmo sendo o maior de todos os que haviam nascido em toda a história da humanidade, ele conhecia seu lugar. Sabia que era pó. Que exemplo para todos nós…

Nossa civilização nos condicionou a querer sempre um lugar de destaque. Um emprego que nos projete. Títulos. Nosso nome escrito em letras de neon. Elogios. Um ego muito bem nutrido por palavras que mostrem como nós somos grandiosos. Mas o que Jesus ensina contraria de frente essa mentalidade: “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. (Mt 5.5). Que diferença! E a afirmação que não deixa dúvida alguma (peço que você leia essas palavras de Jesus com muita atenção): Quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mt 18.4). Humildade na terra, grandeza no Céu. Diminuir para crescer.

Jesus é o único digno de abrir o livro, Jesus é o maior, Jesus é maravilhoso, Jesus é o Altíssimo, Jesus é Criador, Jesus é o Caminho, Jesus é amor, Jesus é o santíssimo, Jesus é o Onipotente, Jesus é tudo. No entanto: “Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder, e que viera de Deus e estava voltando para Deus;  assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura.  Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura.  [...] Disse Pedro: “Não; nunca lavarás os meus pés”. Jesus respondeu: “Se eu não os lavar, você não terá parte comigo”.  [...] Então lhes perguntou: “Vocês entendem o que lhes fiz?  [...] Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros.  Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.1-15).

Permita-me perguntar: qual foi a última vez que você seguiu esse exemplo e “lavou os pés” de alguém menor do que você?

Entre nós, cristãos, certas características nos dão destaque no meio dos irmãos. O santo se acha mais santo do que os outros. O que ora muito crê que isso o torna mais especial do que os demais. O pecador condena quem julga que é mais pecador do que ele. O que tem um cargo na igreja se acha mais do que o que não tem. O que manifesta um dom se acha mais agraciado por Deus. Em resumo, eu e você não estamos isentos de nos acharmos os tais porque fazemos ou somos algo que nos põe numa posição de destaque.

Já parou para pensar por que os cristãos são tão fascinados por escândalos? Já parou para pensar por que amamos falar sobre aquele pastor famoso que caiu em adultério? Já parou para pensar por que comentamos salivando que a cantora gospel famosa rastejou no palco? Já parou para pensar por que temos um prazer indizível em comentar o último pecado que fulano cometeu? Em suma, já parou para pensar por que temos o prazer sádico de tricotar entre nós quando algum outro cristão incorre em desgraça?

Porque isso faz com que nós nos sintamos superiores.

Pura e simplesmente isso. É um sentimento mesquinho que, até inconscientemente, nos faz pensar “não sou tão mau assim, afinal fulano é um tremendo pecador, muito mais do que eu, que vivo tão corretamente”. É por isso que a maioria prefere segregar o pecador e não lhe dar um único telefonema para saber como ele está em vez de se aproximar, amar, dar ombro, dar afeto, ajudar em sua restauração: porque gostamos demais de nós mesmos para gostarmos dos outros.

Certa vez entrevistei o ator e comediante Jerry Lewis. Perguntei a ele como explicava seu sucesso. Sua resposta foi simples: “Todo filme que faço se baseia num princípio: um homem em apuros.  E cada pessoa do público fica feliz porque quem está naquela situação embaraçosa ou complicada é outro e não ela mesma”. Ou seja: rimos da desgraça do outro porque isso nos faz nos sentirmos melhor conosco. Não fosse assim, como explicar o sucesso das videocassetadas? Pessoas se arrebentando no chão, levando tombos, sendo atropeladas, pegando fogo… e nós daqui caindo na gargalhada. Os cristãos, inclusive – sejamos honestos. Como explicar esse contrassenso absoluto? Simples: a desgraça alcançou o outro e não nós.

Quando o outro peca isso faz dele inferior aos olhos dos cristãos. Portanto, um pecado que tornou alguém um escândalo faz com que eu, que também peco todos os dias mas não virei escândalo, me sinta melhor, mais feliz comigo mesmo. Superior. Maior. Sinto orgulho de mim mesmo, essa é a grande verdade. No entanto, as palavras de Paulo atravessam nosso sentimento de superioridade como uma espada afiada: “Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza” (2 Co 11.30).

Essa é a proposta do Evangelho. Reconhecer nossa fraqueza. Reconhecer nossa falibilidade. Pois, enquanto nos achamos mais especiais do que os demais, sofreremos do traiçoeiro pecado do “orgulho santo” – o orgulho do que há de bom em nós, o orgulho até de nossa “santidade”, tão maior do que a dos demais. Mas se nos achamos tão melhores do que os outros, não abrimos espaço para nos escancararmos para Deus, como Paulo fez: “Miserável homem que eu sou!” (Rm 7.24). Não. Diremos em nosso íntimo (sem falar em voz alta, para não pegar mal): “Magnífico homem que eu sou!”. Assim, nos sentiremos mais. Nos sentiremos os eleitos, os profetas, os escolhidos, os queridinhos do Pai. Nos sentiremos superiores. E nos sentiremos aliviados por não sermos tão ruins como os outros. Só que… com isso, não reconhecemos nossas fraquezas e não reconhecemos que o pior dos pecadores não é pior do que nós. E no dia em que estivermos diante do trono de Deus para prestar contas de tudo o que fizemos e falamos, será que o que ouviremos dele é “você é realmente o tal”?

Prefiro ficar com Paulo, que em Romanos 7.18 confessa com uma humildade que não encontramos em quase ninguém em nossos dias: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo”. Não é à toa que Paulo foi Paulo. Pois, talvez lembrado pelo espinho na carne, reconhecia que só a graça lhe bastava e que só a graça fazia dele um vaso de barro com a excelência do fôlego de vida em si.

Fico muito triste ao ver cristãos que se acham mais do que outros, seja por que razões forem. E oro por muitos que conheço e que são assim. Ore por mim também, por favor, pois não sou melhor do que meus pais. Em vez de nos acusarmos, nos rebaixarmos e nos segregarmos, amemo-nos mais e oremos mais uns pelos outros. No grande e terrível dia em que estaremos diante do Justo Juiz, que ele olhe para nós e veja a cruz de Cristo. Porque, se Ele olhar para quem nós realmente somos (e não para quem achamos que somos) nada nos restará a não ser choro e ranger de dentes.

Sou um pecador, mas se puder fazer algo por você, meu irmão pecador, minha irmã pecadora, tentarei. E não te desprezarei pelo fato de que você pecou um pecado diferente do meu e que ingenuamente considero pior. Pois… quem sou eu? “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Quem sou eu…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.

Spams são uma das maiores pragas para os usuários de internet. Não tenho nem de explicar: se você está lendo este artigo é porque é usuário da web. E, se navega no mundo cibernético, já foi vítima de spam. “Ganhe dinheiro sem sair de casa”, “Aumente o tamanho do pênis” (desculpe se isso te escandaliza, mas esse chega todo dia), “Viagra com 50% de desconto”, “Livro da AD Santos é destaque da revista Quem” e inutilidades do gênero lotam nossa caixa de entrada de e-mails, trazendo consigo desde vírus até a mera chateação de ter que ficar deletando cada um. Mesmo o espaço de moderação de comentários do APENAS sofre com isso, acredite. A cada comentário legítimo, entram três spams, em média. Recentemente, um irmão me mandou um comentário indignado (com toda razão): “Não entendo quando vejo em blogs tal como o seu e outros de conteúdo evangélico, voltados para edificação da igreja, banners de propagandas totalmente contrárias à fé evangélica em Cristo Jesus, tal como o que vejo acima, oferecendo os serviços de um vidente de nome tupak ou tupac, e em outro caso que me vem a memória (em outro blog), quando vi ali propagandas da medalha milagrosa”. Pois é, spams nos atacam até como banners não solicitados e não aprovados em nosso blog. Como esse aqui abaixo, que acabou de aparecer na página enquanto eu fechava este texto, de “Tara, a médium visionária”. São incômodos, indesejados, prejudiciais, chegam sem que queiramos, invadem nossa privacidade, geram em nós sentimentos ruins. E em nossa vida espiritual há um tipo de spam muito pior do que esses, que não só irritam e causam confusão como nos fazem muito mal. Chama-se pecado.

Nenhum cristão quer pecar. Tenho absoluta certeza que, se você tem o coração em Cristo, a última coisa que quer fazer é desobedecer e entristecer o teu Salvador. E não estou falando de joio, mas de cristãos sinceros, tementes a Deus, honestos em sua devoção. Só que, de repente, quando menos se espera, seu firewall falha e eis que entra no inbox da sua alma um spam enviado pela sua natureza pecaminosa com auxílio de um hacker chamado Satanás. Pode vir em formas diversas: pensamentos maldosos, desejos ilícitos, cobiças impróprias, sentimento de vingança, vaidade odiosa, maledicências nocivas, invejas desnecessárias, glutonaria despropositada… são muitas. Elas invadem sua caixa de entrada na forma de tentações. Furaram as defesas, o antivírus não pegou, o antispam foi ineficaz e lá está ele. Não teve jeito, alcançou seu coração. E agora?

Agora há dois caminhos. Ao detectar o spam indesejado você pode deletá-lo apertando o botão da oração, clicando no comando da leitura bíblica, arrastando-o para a pasta do fruto do Espírito ou pondo na quarentena das disciplinas espirituais. O outro caminho é cedendo à tentação e abrindo o email, deixando que o vírus escondido dentro do spam do pecado contamine todo o software da sua alma. E aí a coisa fica feia.

Uma vez que o spam do pecado cumpriu o seu papel, a sua máquina começa a funcionar mais lentamente. Some a vontade de ir à igreja, a concentração na hora da oração se dispersa, a leitura das Escrituras diminui ou some, um abismo vai chamando outro abismo. Nenhum computador foi feito para ser contaminado, assim como nenhum cristão deseja pecar, mas se o spam foi bem-sucedido ao furar os bloqueios, mesmo o mais sincero cristão vai começar a agir segundo a programação que se infiltrou em seu código-fonte de boas obras. Aliás, isso acontece com absolutamente todos os cristãos. O hacker espiritual logrou êxito e conseguiu contaminar todos os computadores espirituais do mundo todo, de todas as eras e em todos os lugares.

Veja como o apóstolo Paulo reconhece com sinceridade e humildade que seu software estava cheio desse spam virulento: O pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. (…) Sabemos que a lei é espiritual; eu, contudo, não o sou, pois fui vendido como escravo ao pecado.  Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio.  E, se faço o que não desejo, admito que a lei é boa.  Neste caso, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.  Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo.  Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.  Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.  Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim.  Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus;  mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. (Romanos 7.11-23).

A descrição de Paulo é perfeita. O spam do pecado aproveita uma oportunidade e produz todo tipo de estragos que o computador originalmente não desejava. O software age sem entender o que faz. Não faz o que foi feito para fazer, mas “o que odeia”. Assim, quem executou o que o spam determina não é o software original, mas o vírus que habita nele. E, deste modo, o computador sai completamente da normalidade, faz o mal que não foi programado inicialmente para fazer. No íntimo, sua programação tem prazer na lei de Deus, mas uma outra força atua em seus sistemas, guerreando contra os códigos originais, tornando o computador prisioneiro do vírus que determina suas operações.

Pronto, a máquina contaminou. O estrago foi feito. Talvez muitos arquivos importantes tenham sido perdidos. Pessoas ao seu redor foram afetadas, como spams que fazem seu e-mail enviar cópias dele para sua lista de contatos. A máquina pode até mesmo travar e parar de funcionar. Páginas pornográficas vão pular na tela à sua frente. Banners de videntes vão escandalizar quem lê sua vida. Softwares de santidade deixam de abrir. Quando se dá conta, o estrago é tamanho que você cai em si, despenca em prantos e fica se perguntando o que tinha na cabeça quando clicou no arquivo executável que veio naquele spam. E tudo parece perdido. Será preciso formatar a máquina. Talvez vendê-la. Não havia backup, então tudo está perdido. Deus…

De repente, chega um e-mail enviado por  “Espírito Santo”, um amigo e conselheiro antigo com quem você costumava andar muito, mas de quem tinha se afastado há algum tempo. Escrito no “subject” vem o assunto: “Graça”. Sentado no chiqueiro da virulência, você abre a mensagem e vê um texto curto, escrito em vermelho cor de sangue, dizendo para você se lembrar que na casa de seu pai há um antivírus muito potente. Que basta você enviar um e-mail escrito “Arrependimento” e seu pai lhe mandará esse antivírus, chamado “Cruz”.

Você faz isso. Para sua surpresa, o Pai não manda o e-mail. Vem pessoalmente instalá-lo na sua máquina. Ele observa com gigantesco amor o seu olhar impotente, insere o DVD da misericórdia e procede a limpeza. Aparece uma mensagem na tela: “O sangue de Jesus está purificando sua alma de todo pecado. Aguarde o fim da limpeza”. Enquanto espera (a limpeza é muito rápida), só dá tempo de ler uma mensagem que o antivírus da Cruz estampa antre seus olhos, escrita pelo apóstolo Paulo: “Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?  Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Romanos 7.24,25a). Em segundos o software de limpeza informa o fim do procedimento. Na tela, aparece a última caixa de texto do processo: “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus,  porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte.  Porque, aquilo que a lei fora incapaz de fazer por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado” (Romanos 8.1-3).

Seu pai te abraça. Você não tem palavras para agradecer. Lágrimas rolam pelo seu rosto. Todos os programas e arquivos que você julgava ter perdido estão lá, como se tudo tivesse sido feito novo, como se o computador tivesse acabado de sair da fábrica. Você não para de agradecer, os olhos cheios d’água. E promete nunca mais clicar num daqueles spams. Seu pai se contenta em sorrir, como se soubesse que essa é uma promessa que você jamais conseguiria cumprir sozinho. E apenas lhe responde: “Tudo bem. Mas se voltar a clicar num spam não hesite em me chamar. Mesmo se for setenta vezes sete vezes”. Você diz que sim. Sabe que aquele antivírus estará à disposição todos os dias, até a consumação do século.

Seu pai se despede e faz que vai embora, mal sabendo você que ele ficou onde sempre esteve, no mesmo cômodo que você, quietinho, escondido atrás de uma cortina, vendo tudo o que você faz, o DVD na mão. Você está feliz demais. Mas… de repente, um barulhinho no seu computador chama sua atenção. Na tela, uma janela indica: “Você tem 1 nova mensagem”. Quando vai ver, adivinha: é um spam. Você se lembra da promessa feita ao seu pai. Seu dedo paira sobre o botão de deletar. Um pensamento vem: que mal poderia fazer? Vai que te dá algum prazer ou alguma vantagem ler esse e-mail, nunca se sabe. E então… clica.

Atrás da cortina, seu pai se entristece. Abaixa os olhos para o DVD e, falando de si para si mesmo, sussurra: “Antes vocês estavam separados de Deus e, em suas mentes, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês.  Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação” (Colossenses 1.21,22).

E então ele sorri um sorriso com gosto de vitória final.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício