Posts com Tag ‘Salvação’

Deus1Espanta-me muitas vezes a forma como certos cristãos falam sobre Deus e as coisas pertinentes a ele. Usam de uma frieza e de uma dureza que me soam como se o Senhor fosse alguém destituído de sensibilidade, de afetos, de amor. Tratam do evangelho como um martelo de ferro batendo em rocha dura, passando a imagem de que o Criador é alguém frio e calculista, como um daqueles vilões de filmes de Chuck Norris, que matam impassíveis montes de pessoas sem mexer um músculo do rosto. Um Deus de pedra. Um Deus estátua-de-gelo, com peito oco e alheio a toda forma de sensibilidade. Gosto de ver o Senhor como um poeta. Não por fazer poetismos melosos e sem função, mas por ter atributos típicos dos poetas: sua grande veia artística, seu enorme coração, sua capacidade de ver beleza onde há aridez, sua habilidade de transformar realidades difíceis em palavras expressivas, e seu amor sem fim – expresso em sua graça, em sua misericórdia, em sua compaixão.

Quando me lembro que Deus foi quem soprou cada uma das palavras dos Salmos no coração e na mente dos salmistas me encanto com seu espírito criativo. Quando me recordo que de seu interior nasceu o Cântico dos Cânticos e aquelas porções da Bíblia que os teólogos gélidos preferem esquecer que existem vejo um ser que pulsa em emoção. Quando leio que Jesus curava os enfermos “movido por íntima compaixão”, enxergo um Cristo mais amoroso do que os poetas mais parnasianos. O mesmo Jesus que chorou ao ter sua sensibilidade entranhavelmente abalada pela dor dos amigos do Lázaro morto, incapaz de permanecer alheio ao sofrimento dos que amava, mesmo sabendo que traria o defunto de volta da morte. Poetas são assim: choram com muita frequência.

Deus2Aliás, por falar de amor, fico profundamente comovido ao ler que o Todo-poderoso nos enviou o Filho pelo fato de nos ter amado. E não amado de um modo qualquer. Amado… “de tal maneira”. Ou seja: amou de forma rasgada, desbragada, entregue e devotada. Meu irmão, minha irmã, nós, que fomos resgatados pela graça e o amor do Senhor, somos a sua poesia. Ele nos compôs impulsionado pelo amor mais extraordinário já visto. Como as linhas de uma canção de amor, nascemos de sua inspiração, fomos idealizados em sua mente e acabamos concretizados como as palavras mais lindas do Verbo que se fez carne e que, de poeta, se faz poesia.

Deus sente. Deus sente, meu irmão, minha irmã. Que lamentável é vermos quem enxergue o Senhor de modo tão estático, frio e impassível como uma estátua. Em outras palavras, como um ídolo de barro.

Encanta-me saber que Jesus mandou que olhássemos para as flores quando quis falar do cuidado de Deus com nossas necessidades. Ele não teceu um tratado teológico cheio de notas se rodapé, paradigmas, cosmovisões, tabelas e gráficos explicativos. Simplesmente mandou que olhássemos para os lírios do campo. Que extraordinário! Profundas realidades espirituais em forma de poesia. “Você está preocupado? Olhe para as flores…”, disse o Mestre, com a simplicidade de um soneto.

Deus3Louvo a Deus por, ao nos fazer à sua imagem e semelhança, ter posto em nós lascas do gigantesco Espírito poético que ele tem. Porque a poesia não é um atributo de origem humana e seria muita petulância achar isso. O que temos de sensibilidade e arte é uma tênue reprodução daquilo que pulsa no coração do Senhor. A Bíblia que eu leio me mostra um Deus poeta. Sensivel. Criador. Criativo. Amante da beleza. Artístico. E que fez questão de inserir muita poesia na sua Palavra revelada, no livro que revela sua essência – acredito eu que para revelar que no Senhor há poesia. Caso contrário, qual seria a função de haver poesia na Bíblia?

Obrigado, Senhor, pelo dom de sentir. De me encantar. De ver beleza. De chorar ante uma flor, ante uma música, ante o sofrimento de um irmão. Obrigado, Senhor, por ter-se revelado esse poeta tão magnífico. E obrigado, acima de tudo, pela poesia da cruz: dois riscos que se cruzam e trazem na sua interseção um coração sangrando de tanto amar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

plano1Desde que o Senhor me converteu, ouço falar de algo chamado “plano de salvação”. Você também já deve ter ouvido falar disso. Em curtas palavras, seria o planejamento, a estratégia de Deus para redimir a humanidade pecadora. Esse plano seria, em essência, o que devemos pregar para quem não conhece o Senhor, pois revela a realidade perdida e (literalmente) desgraçada de quem existe sem Deus e de que maneira pode se religar ao Criador. A meu ver, nenhuma outra coisa deveria ser pregada ao incrédulo. Nenhuma. No entanto, não é o que tem acontecido.

Que mensagem o mundo precisa ouvir? Uma só: a humanidade desobedeceu o Senhor e por isso afastou-se dele nesta vida e, consequentemente, na próxima. Mas Deus amou tanto esses bilhões de condenados que encarnou como Jesus, para morrer e ressuscitar e, assim, restabelecer o contato entre os pecadores perdidos e o Criador. Uma vez que isso foi feito, tudo o que aquele que não vive em Deus precisa fazer é reconhecer a realidade divina de Cristo e de seu sacrifício na cruz. Pronto. Eis o plano de salvação. Resgate feito. Justificação ocorrida. Salvação concedida. O céu está disponível.

Não consigo entender qualquer outra pregação feita a incrédulos em Jesus. A salvação em Cristo é a urgência. O novo nascimento é a prioridade. Essa é a única mensagem que aquele que está a caminho do inferno precisa ouvir. Se você for pregar para um não cristão, foque no que é o ponto de partida: ele está espiritualmente morto e precisa de vida, que é Cristo. Convido você a prestar muita atenção ao que Paulo diz em Efésios 2:

plan“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus.”

Sim, o incrédulo está “morto em seus delitos e pecados”. Morto. Uma vez que ele esteja vivo, aí sim você pode pregar sobre qualquer outra coisa. Pois vivos ouvem. Já mortos são surdos. E, enquanto o morto estiver morto, sua única e exclusiva necessidade é… vida. Só. Nada mais. Então, meu irmão, minha irmã, para um morto pregue vida. Depois pense no resto.

No entanto, nossos tempos propõem outro tipo de pregação. Pregamos para mortos que eles precisam de vitória. Pregamos a mortos que eles precisam de bens materiais. Pregamos a mortos que eles precisam de cura. Pregamos a mortos que eles precisam de prosperidade. Pregamos a mortos que eles precisam de milagres. Pregamos a mortos que eles precisam de bênçãos.

Errado.

Mortos não precisam de nada disso, pois nada disso tem utilidade alguma para um morto.

Temos de mudar nossa pregação. Temos pregado para quem precisa desesperadamente de Cristo que eles necessitam de prosperidade, vitória, cura física… Quem necessita disso se não tem vida?! Meu irmão, minha irmã, zumbis não existem. Zumbis espirituais muito menos.

plano2Se você tem amor pelas almas humanas que estão a caminho do inferno, é hora de oferecer a elas a única coisa que lhes será útil no momento: a vida que está em Jesus Cristo. Pregue isso. Se você é um pregador, por favor, pare de ficar tentando animar auditórios com pregações recheadas de “glória” e “aleluia” mas completamente vazias de sentido evangelístico. Se você for falar para cristãos salvos, aí você prega sobre temas que os vivos precisam ouvir. Mas se quem te ouve são aqueles que estão mortos em seus delitos e pecados, pregue a única mensagem que importa: você pecou, está a um milímetro do inferno, mas Deus amou você de tal maneira que deu seu Filho unigênito para que, se nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna. Creia nele. E viva.

No dia em que a Igreja voltar a pregar Jesus – que é o caminho, a verdade e a…vida – para o incrédulo, voltaremos a ter uma igreja formada por pessoas que amam o Deus que as salvou. Até lá, uma enorme parte da igreja será formada por gente que ama a prosperidade, a cura, as bênçãos, as facilidades. Pois foi isso que pregamos a elas. E foi a isso que se converteram.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Vinte minutos muito bem gastos. Recomendo:

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Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício

Gracas1Um dos trechos mais interessantes da Bíblia, em minha opinião, é 1 Tessalonicenses 5.18: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. Como assim, “em tudo, dai graças”? Temos de ser gratos a Deus pela dor, a tristeza, o sofrimento, a solidão, a depressão, o desamor, o abandono, a tragédia, as heresias, a falsidade, a acusação, a traição… em tudo o que ocorre de pior em nossa vida? Sejamos francos: nós não sentimos vontade nenhuma de agradecer a Deus nessas horas, queremos mais é brigar com Ele, alardear o quanto somos fiéis e não merecemos aquilo, ficar de mal com o Senhor, questionar sua bondade, sua justiça e seu amor. Soube recentemente de uma mulher, evangélica, que perdeu o irmão de 28 anos de câncer e, ao receber a notícia de sua morte, soltou um grito no hospital:

- Deus F.D.P.!

Chocou? A mim também. Como pode isso? Essa blasfêmia, esse ato impensável? Mas a verdade é que muitos não têm coragem de dizer isso quando vem a desgraça… mas que pensam, ah, isso pensam. Estou errado? Porque a verdade é que nós não conseguimos conceber Deus deixar coisas ruins acontecerem em nossa vida. Com um ímpio vá lá, mas comigo?! Eu que sou tão obediente?! Vamos pensar um pouco sobre esse versículo. Mais ainda: vamos pensar um pouco sobre gratidão.

Graca2A chave do “em tudo dai graças”, para mim, vem alguns versículos antes: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para recebermos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5.9). O que isso significa? Façamos uma parábola: imagine que você está em um navio que naufraga. Você está ali, em alto-mar, nadando com suas últimas forças para sobreviver. Sente câibras, percebe que não há salvação para você: seu destino certo é a perdição, é afundar na escuridão do abismo submerso, ser devorado pelos peixes. De repente, desponta no horizonte uma luz. É um navio! O capitão da embarcação o viu de longe, desviou seu curso e, cheio de compaixão, partiu em sua direção. Quando você já está meio metro abaixo da superfície, ele lhe lança uma bóia. Você está salvo! Foi resgatado! Assim, você sobe a bordo, exausto, desgrenhado e rasgado – e recebe, sem que esperasse, o direito à vida.

Eu lhe perguntaria: qual seria diante dessa circunstância o seu sentimento pelo resto da vida para com aquele capitão? Provavelmente você diria algo como “eu seria eternamente grato a ele”. E diria com razão, porque o que ele fez foi algo que merece que você lhe seja agradecido pelo resto de seus dias. Ao chegar a bordo, exausto e encharcado, num primeiro momento, instintivamente, você pula no pescoço dele, o abraça com todas as poucas forças que ainda tem e repete em voz fraca: “Obrigado… obrigado… obrigado… obrigado…”. Não quer soltar a mão do bondoso capitão. Aquele homem renovou a esperança de vida para alguém que tinha a certeza da morte! Você o ama! Promete devotar o resto de seus dias a sentir gratidão por ele.

Gracas3Só que aí o navio prossegue na viagem. Vocês estão a meses do porto mais próximo, então você se recupera e acaba se integrando à rotina do navio. O capitão chega e lhe dá uma atribuição: você terá de descascar pilhas de batatas por dia para alimentar a tripulação. Em princípio parece chato, mas, afinal, o homem te salvou, é o mínimo que pode fazer. Só que as semanas passam e aquilo fica cansativo. Seus dedos doem. É entendiante. E você começa a reclamar. E não é só isso: ele deu um canto cheio de graxa para você dormir no porão da embarcação. Cheira mal, é barulhento, tem ratos, o colchão é duro. Logo, logo você se pega reclamando. Foi para aquilo que ele te resgatou? Para você ter de encarar toda aquela situação deprimente? Poxa, e você estava se esforçando tanto, era-lhe tão fiel, descascava tantas batatas por dia! Era uma injustiça! Você não merecia passar por aquilo!

Você começa a desconfiar que o capitão te salvou apenas para ter mão-de-obra barata. Se junta aos tripulantes que falam mal dele. Murmura pelas costas. O acusa de injusto, de não ter amor por você por permitir que passe por aquela situação humilhante e dolorosa. Aquele capitão é um crápula. Chega a pensar em abandonar o barco na primeira oportunidade que tiver. Vida desgraçada, capitão maldito!

Graca5O que você não sabe é que o capitão tem bons informantes e sabe tudo o que você diz. Um dia ele se aproxima de você. Cheio de amor, fala: “Eu não o destinei para a ira, mas para receber a salvação por meio deste navio”. E então, diante daquelas palavras, parece que tudo faz sentido. Você percebe que a pilha de problemas – o desconforto, o trabalho, o enfado, a chateação, o sofrimento – era algo muito pequeno perto do que o capitão fez por você. Ele não precisava, não tinha obrigação nenhuma, mas lhe estendeu a mão e o recolheu da morte certa. E simplesmente porque ele quis. Não porque você merecesse. Tudo o que você estava fazendo era se debater na água. Ia afundar, era absolutamente certo. Mas ele veio. Parou. Te resgatou. Te abrigou. Te deu alimento. Te deu um lugar para repousar. Ali você teria aflições? Naturalmente! O navio era bem desconfortável. Mas aquele homem te deu vida, não seria motivo suficiente para ter bom ânimo?

Mais do que isso: não seria motivo mais do que suficiente para… em tudo dar graças?

Deus nos deu a salvação. É motivo suficiente para em tudo darmos graças. Para em todos os piores momentos da vida, quando nos sentimos os mártires do universo… agradecermos. “Obrigado, Senhor, porque estou passando pelo vale da sombra da morte. Mas, se tu não tivesses me resgatado, eu estaria morto. Afogado em meus pecados. Afundando rumo ao inferno”. Depois disso, tendo clareza dessa realidade, só nos resta dizer, em meio aos piores dos piores momentos da vida: “Deus… obrigado… obrigado… obrigado…”.

Gratidão. Que nunca nos esqueçamos disso. Deus nos deu a vida eterna. Gratidão é o mínimo que podemos dar em troca.

Graca6Hoje, 14 de maio de 2013, o blog APENAS completa dois anos de vida. Quis que o tema de hoje fosse especificamente gratidão em ação de graças a Deus por esses dois anos em que ele tem me dado forças e ideias para continuar escrevendo aqui e, quem sabe, ajudando uma vida, edificando outra, somando de algum modo. Nesses dois anos, descasquei muita batata, reclamei muito, fiz muitas besteiras e realizei algumas coisas boas. Com certeza aprendi muito. Tive o privilégio de ter as 245 singelas reflexões que já postei neste blog lidas em cerca de 710.000 ocasiões. Foram mais de 15.000 comentários deixados aqui ao longo desse período, por irmãos que aguentam minha demora em aprová-los e respondê-los, devido à constante falta de tempo (me perdoem por não conseguir moderar todos com rapidez, eu tento… mas nem sempre consigo). Ganhei até aqui quase 1.700 companheiros fiéis de caminhada, que tiveram a coragem de assinar este blog e têm a paciência de receber por e-mail uma, duas vezes por semana aquilo que aqui escrevo.

Sou grato a Deus por me permitir, como bem disse um dos irmãos que escreveram nos comentários, “ser um cano enferrujado por meio do qual corre a água da vida”. Sou grato a você por ter a paciência de ler minhas reflexões, em posts mais longos do que habitualmente são os textos de blogs – e que são fruto da minha incapacidade de sintetizar pensamentos complexos. Muito obrigado pelo seu carinho nessa caminhada internética e por vir me visitar de vez em quando aqui no meu pequeno mosteiro virtual. Sinto-me profundamente honrado.

Gratidão. Por hoje é o que basta.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Nicole1Há poucos dias, liguei a televisão, num daqueles momentos em que você zapeia por todos os canais e não encontra absolutamente nada que te interesse. Acabei sintonizando em um programa bizarro, a que nunca assistira antes: o Face Off, do canal SyFy. Trata-se de um reality show estadunidense em que artistas de maquiagem disputam um prêmio em dinheiro criando, a cada episódio, criaturas iguais às de filmes de ficção cientifica. Monstros, cyborgues, vampiros, alienígenas, esse tipo de coisa. Aquilo chamou de imediato minha atenção porque, na hora em que sintonizei, estavam entrevistando os três finalistas do programa antes de anunciar o vencedor. Um deles, a jovem Nicole Chilelli (na foto, de camisa azul), estava, naquele exato momento, falando sobre como conseguia viver e trabalhar, apesar de sofrer com uma terrível doença chamada fibromialgia (que faz seu corpo inteiro doer, o tempo todo, entre outros sintomas horríveis – e não tem cura). Nicole falava sobre como ela, cuja mãe padece da mesma moléstia, lidava com aquilo no dia a dia e como encontrava motivação e disposição para superar aquerle horror e continuar vivendo.  Confesso que, à medida que ela falava sobre sua luta pessoal, lágrimas desciam pelo meu rosto. E já explico por quê.

Nicole2Nós, seres humanos, temos a tendência natural de reclamar de tudo, nos lamentar por qualquer coisa. Em linguagem bíblica, murmurar. A famosa murmuração que levou Israel e ficar rodando quarenta anos no deserto. E nós não somos diferentes: se moramos embaixo da ponte, chiamos pela falta de teto. Conseguimos dinheiro para nos mudar para um conjugado alugado e nos abatemos porque não é próprio. Somos abençoados com a chance de comprar um conjugado nosso e maldizemos a sorte porque não tem um quarto. O salário aumenta e nos mudamos para um quarto e sala. E praguejamos, por ser pequeno demais. Deus nos dá um três quartos e chiamos por não ter garagem ou playground. Recebemos uma bolada de herança e nos mudamos para um condomínio de luxo, com academia e piscina, mas nos entristecemos, pois o bairro não é tão nobre assim. Recebemos uma promoção e com isso conseguimos nos mudar para o melhor apartamento do melhor condomínio do país mas… não ficamos satisfeitos, pois, afinal, queríamos morar em Paris. Essa é nossa natureza: reclamar, reclamar, reclamar, reclamar, reclamar…

Nicole3Nada nunca está bom o bastante. Queremos sempre algo mais. “Piedade com contentamento é grande fonte de lucro”, revela Paulo em 1Timóteo 6.6, e continua: “pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos”. Mas, sinceramente, quem de nós pensa assim? Pior: quem de nós age segundo esse pensamento canônico? Nunca está bom o bastante. Queremos sempre mais. As bênçãos de Deus parecem sempre incompletas. Se conseguimos o emprego tão almejado e desejado, no dia seguinte já reclamamos que o chefe é exigente demais, a cadeira é desconfortável e ainda falta um ano para as férias – afinal, ninguém é de ferro. Pobres de nós, que temos uma vida tão desgraçada: o telefone não dá linha, arranharam nosso carro, nosso time perdeu, apareceu uma espinha no rosto, um fio de cabelo ficou branco, a unha quebrou! Meu Deus, quanta tragédia!

Nicole4Enquanto isso, Nicole Chilelli, uma não cristã, dá um exemplo de força interior, dedicação, perseverança, superação e alegria… porque encontra na criação de monstrengos a realização pessoal e uma motivação para prosseguir. Que vergonha. Que vergonha Nicole me fez sentir. Pois nós, cristãos, temos a vida eterna. Mas sempre estamos reclamando de tudo. Vou repetir, caso tenha parecido algo casual e sem importância: nós-temos-a-vida-eterna. Temos Jesus. Ele apontou para mim e para você e disse: “Eu te quero. Receba minha graça, o perdão dos seus pecados e a eternidade na glória eterna”. E o que nós fazemos? Respondemos a ele: “Ah, Jesus, mas a vida é tão dura, tenho de trabalhar tanto! Engordei dois quilos! Está calor demais! O elevador do meu prédio quebrou e tive de subir pelas escadas! Peguei muito engarrafamento hoje! A Internet está lenta!” E por aí vai. De uma lado, uma não cristã com fibromialgia vive alegre, motivada, sorridente, feliz e grata por fazer maquiagens que criam seres imaginários. De outro, legiões de cristãos, que receberam o privilégio de ser filhos e herdeiros do criador do universo, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam…

Nicole5Fibromialgia é uma síndrome que provoca dores por todo o corpo por longos períodos, com sensibilidade nas articulações, nos músculos e nos tendões; causa fadiga crônica, distúrbios no sono, falta de ar, dores de cabeça, depressão, ansiedade, falta de disposição e outras desgraças. Não tem cura. Os tratamentos geram poucas melhorias. É sofrimento dia e noite, 24 horas por dia, sete dias por semana. Fui procurar informações sobre Nicole na web. Li uma entrevista em que ela diz: “Maquiagem é toda minha vida”. Para uma mulher que sofre dessa montanha de problemas que você leu, maquiagem é tudo – e isso a deixa feliz. Para nós, a quem Jesus de Nazaré é toda a nossa vida, nosso tudo, nossa esperança de paz e gozo pelos trilhões e trilhões de anos que temos pela frente, às vezes cada centímetro da vida parece ruim – porque, afinal, nossa unha encravou, está chovendo lá fora ou nosso cachorro roeu o pé da mesa.

Temos de valorizar a bênção incrível que é a salvação. A adoção como filhos de Deus. O céu que nos espera. O fato de que somos amados pelo Senhor que tudo criou. a realidade de que o Todo-poderoso nos conhece pelo nome. Coisas como essas deveriam nos fazer sorrir do acordar ao deitar – exultantes e agradecidos. As tristezas vêm? Lógico! Nos abatem? Claro! Jamais vou defender que devemos ser hipócritas e dizer que tudo esá bem quando não está. Acredito que, se a Igreja fosse menos triunfalista, teríamos coragem de assumir mais vezes que estamos mal e, com isso, seríamos mais habilidosos em carregar o fardo uns dos outros e auxiliar-nos em nossas dores e nossos sofrimentos. A questão não é fingir uma falsa situação de bem-estar. É pensar em como lidamos com as desgraças da vida sabendo da realidade espiritual maior e do grande plano da eternidade.

Nicole6Nicole venceu o reality show. Tirou primeiro lugar. Faturou o prêmio. E saiu sorridente, emocionada, em paz. Feliz. Assistindo àquilo, não tive como não deixar de recordar de quando, 17 anos atrás, eu também recebi o diagnóstico de fibromialgia. Pensei no fato que, nos dez dias anteriores àquele em que assisti ao programa de TV, acordei todas as manhãs com dor de cabeça e sentindo falta de ar. Cheio de dores pelo corpo todo. Que nos três dias anteriores a ter visto Nicole sorrindo na televisão tive de me submeter, reclamando, murmurando e gemendo, a massagens doídas, para aliviar um pouco do sofrimento. Chorei com vergonha de mim, murmurador incorrigível que sou.

FibromialgiaAssisti a esse reality show durante o almoço, no intervalo de meu horário de trabalho. Nicole venceu sorrindo. Eu desliguei a TV chorando – e voltei para o meu computador. Sentei-me diante dele e me lembrei do médico que, 17 anos antes, me recomendou que eu “virasse cantor de ópera”, porque nunca mais poderia usar um computador na vida, pelo tanto que me dói digitar. Mas pensei em como Deus me conduziu até onde estou hoje – e trabalho como editor de livros cristãos, com uma jornada de oito horas diárias fazendo o que me disseram que nunca poderia fazer na vida: digitar ao computador. Na tela estava o texto de uma nova Bíblia, que estou ajudando a editar. Envergonhado, tudo o que pude fazer foi glorificar a Deus, pois o que me faz seguir adiante, lutar com todas as forças contra minhas impossibilidades e participar da confecção da Palavra Sagrada do Senhor Altíssimo é única e exclusivamente a graça do Cristo crucificado. Pois ele apontou para mim e disse: “É você”.

Murmurar? Já murmurei muito. Mas creio que não me atrevo a murmurar mais. Nicole me deu um tapa na cara. Se um não cristão pode ter alegria de viver por fazer maquiagens de monstros, mesmo sofrendo de uma moléstia terrível, eu preciso ter a humildade de ignorar as coisinhas de pouca importância do dia a dia e encontrar a alegria de viver por fazer parte de algo muito, mas infinitamente muito mais grandioso: o Reino dos céus.

Meu irmão, minha irmã, o Todo-poderoso lhe apontou o dedo e disse: “É você”. Do que você tem reclamado mesmo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício