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Eu3Poucas emoções no mundo se comparam a um salto de paraquedas. Essa experiência, aliás, não é apenas emocionante: é absolutamente transformadora. Se você nunca saltou antes, fica a recomendação: não perca tempo, salte! Por 350 reais você pode viver um dos mais revolucionários  eventos que um ser humano tem a possibilidade de experimentar. E, por uma série de razões, o salto é capaz de lhe dar insights muito profundos sobre a sua vida de fé. Hoje, por mais estranho que isso talvez soe, acredito até que o salto de paraquedas pode se tornar uma disciplina espiritual que vai te conduzir a reflexões extremamente válidas para sua caminhada com Cristo. Permita-me contextualizar o cenário, para você entender onde seu coração e sua razão estarão durante um salto do gênero. No Rio de Janeiro, o salto duplo é feito de uma altura de dez mil pés, cerca de 3,5 quilômetros acima do solo. Você despenca no vazio e, por 12 segundos, seu corpo acelera, até se estabilizar a uma velocidade de 200 quilômetros por hora. Depois seguem-se 45 segundos de queda livre. E que 45 segundos! Duram uma eternidade. Finalmente, a cerca de 1,5 quilômetro do chão, o paraquedas se abre. Desse momento em diante, você plana a 30 quilômetros por hora. Ao todo, do instante em que sai do avião até tocar o solo, o salto dura de 5 a 7 minutos. Se você não acha muito, experimente e verá o quanto sua mente funcionará nesse curto espaço de tempo. E por muito tempo depois.

A primeira coisa que você exercita ao saltar de paraquedas é a sua fé. Sua vida está toda depositada em um pedaço de lona conectada a alguns cabos. Um gancho mal posto pode resultar em morte. Se você conseguir elaborar uma reflexão aprofundada o suficiente a partir dessa experiência, verá a loucura que é o fato de entregar sua vida em confiança àqueles pedaços de tecido e, ao mesmo tempo, não depositar toda a sua fé no Deus criador do universo. Alguém poderia dizer que pelo menos o paraquedas é algo visível, palpável. Acredite: quando ele está dentro da mochila não há nada de visível. Te dizem que ele está ali é que tudo está certo, mas… quem sabe? Quem garante? Logo, ter fé para saltar de paraquedas mas demonstrar falta de fé em Deus é uma incongruência. Se sua fé é pouca, aceite a sugestão: faça no meio de um salto a sua oração a Deus pedindo que lhe acrescente fé. Depois me conta o que aconteceu.

Outro aspecto é o da comunhão. Se você não está fazendo um curso de paraquedismo, mas apenas um salto duplo, verá a importância do instrutor. Sem aquele cara a quem ficará enganchado durante toda a experiência, você percebe que as coisas seriam muito mais difíceis e problemáticas. A sensação de segurança que aquela pessoa vai te passar é indispensável para você ter coragem de dar o passo no vazio. Na última hora, você quer desistir e, adivinha quem te dá a força, a coragem e a confiança suficientes para se lançar do avião? O instrutor. O seu próximo. Saltar de paraquedas ensina muito sobre a importância de viver a fé em comunhão e em comunidade. Ali você vê nitidamente como a coletividade é essencial para o fortalecimento, o encorajamento mútuo, a edificação. Para seguir em frente.

Saltar de paraquedas também é um exercício magnífico para a renovação da mente. Não consigo pensar em nenhuma outra experiência humana que faça você ver as coisas de uma perspectiva totalmente diferente daquela a que sempre esteve acostumado como essa. O ser humano não foi feito para voar. Tampouco para se jogar no vazio a mais de três quilômetros de altura, contrariando tudo o que seu instinto de sobrevivência determina. É um tipo de suicídio, se parar para pensar. E, para conseguir se atirar, você terá de se dispor a ir contra tudo o que é óbvio e intrínseco a sua natureza e ao instinto de autopreservação.

O salto de paraquedas também instiga uma profunda reflexão sobre a resistência ao pecado. E, pode parecer estranho, mas saltar te fortalece contra ele. Se você está vivendo uma fase de sua vida em que enfrenta uma tentação fortíssima, à qual acha que vai sucumbir, pegue o primeiro avião que passar pela frente. Entenda: a vontade de ceder à tentação é uma força descomunal da natureza, um impulso aparentemente incontrolável, algo que vem conosco de fábrica e que move todas as fibras de nosso ser em direção ao pecado. Do mesmo modo, a vontade de não arriscar sua vida jogando-se de uma aeronave rumo ao nada domina todo o ser de quem está naquele aviãozinho, prestes a se lançar porta afora. Se você consegue exercer domínio próprio suficiente a ponto de contrariar tudo o que seu ser te diz para fazer… você é capaz de dominar a tentação. Seu eu diz “fica, não salta”, mas você se domina e vai em frente. Seu eu diz “vai, peca”, mas você se domina e não vai em frente. Se alguém me diz que teve forças para saltar de 3,5 quilômetros de altura a 200 quilômetros por hora mas não teve forças para resistir ao impulso de ver pornografia na internet, por exemplo, eu não acreditaria. Se você saltou de paraquedas, eu garanto: tem domínio próprio suficiente para se controlar ante as tentações. E, claro, há o fator presença de Deus. Pois, se você tem todo esse domínio próprio e o Espírito Santo habita em ti, as forças para resistir estão todas aí dentro, basta trazê-las à tona.

Eu6A humildade é outra virtude que o salto de paraquedas traz ao coração. Quando você vê aquela cidade enorme em que vive lá embaixo, pequenininha, uma mancha espalhada entre o mar e a montanha, percebe o quanto não somos nada. Frágeis. Pó. Mais ainda: quando você se põe em perspectiva diante do gigantismo deste mundo em que vivemos, passa a ter a rara e nítida percepção de quão insignificante é o ser humano. Acredite: saltos de paraquedas humilham qualquer soberbo. Se você conhece um homem arrogante, peça a Deus que ele decida dar um salto – e ore para que ele seja alcançado por essa percepção.

O salto de paraquedas também é uma ocasião de louvor e adoração. Quando você está em um avião e olha para toda a grandeza da criação, o coração dispara em reconhecimento à grandiosidade do Criador. Estar junto às nuvens, ver o mar lá do alto, vislumbrar as montanhas ao longe… que espetacular oportunidade de apreciar, de um ponto de vista único, a beleza da obra de arte do grande Artesão. Já perdi a conta de quantas vezes voei de avião, mas até hoje me deslumbro com a vista lá de cima, não sou nada blasé quando voo. Não foram poucas as vezes em que tive de esconder olhos molhados de emoção dos outros passageiros ao fazer um simples voo Rio-São Paulo, por exemplo. Simplesmente porque a obra das mãos do Senhor é linda de morrer.

OraçãoNão há duvidas de que saltar de paraquedas é uma experiência capaz de nos levar à transcendência e a um religare com Deus como poucas outras. Se você puder, salte – eu recomendo. Mas sabe… fiquei pensando em algo. Bem-aventurado é o homem que consegue viver o fortalecimento da fé, a valorização da comunhão, a renovação da mente, o fortalecimento contra o pecado, o senso de humildade e o louvor e a adoração do Senhor sem precisar subir a quilômetros de altura. Minha oração hoje é que todos nós consigamos dar esse salto, todos os dias, entre as quatro paredes de nosso quarto. Pois nem todos podem saltar de paraquedas, mas qualquer um pode ter uma Bíblia. Nem todos têm como entrar em um avião, mas todos temos a possibilidade de dobrar os joelhos em oração. E, na intimidade desenvolvida pelo estudo das Escrituras e o hábito de falar com Deus, está toda a emoção, a razão e a ação de que você precisa para viver a sua fé em plenitude.

Busque ao Senhor no silêncio do seu quarto. É o mais empolgante, transformador e radical salto que você pode dar em toda a sua vida de fé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

JacarezinhoDuas semana atrás preguei em uma bela igreja, localizada na principal avenida da zona norte do Rio de Janeiro. O espaçoso santuário era muito bem organizado, com tudo muito limpo, uma estrutura primorosa. O culto estava lotado, com algumas centenas de pessoas, muitas delas em pé no fundo da igreja. Os louvores traziam hinos antigos misturados com hinos atuais. Já no último fim de semana fui pregar em outra igreja, dentro da perigosa favela do Jacarezinho (foto). Para chegar lá você passa por baixo de um viaduto, atravessa a pé a linha do trem por um buraco em um muro, encara um mergulhão inundado de água malcheirosa, percorre uma longa rua que margeia um enorme canal com esgoto a céu aberto, passa ao lado de pelo menos dois lixões com pessoas catando coisas ali. Cheguei à igreja, na verdade uma espécie de garagem adaptada, e comecei a falar para os cerca de quinze ouvintes presentes. Eu competia com um pagode em último volume no boteco ao lado e ficava sentindo durante a preleção um cheiro de maconha que vinha sabe Deus de onde. O louvor era composto de composições dos próprios músicos do local, que incluíam musicas como “Injete na veia o sangue de Jesus”. Não pude deixar de refletir sobre a diferença entre essas duas realidades.

A constatação é que, para os propósitos do reino, entre elas não há diferença alguma. Tanto na igreja cheia e com recursos quanto na igrejinha humilde e com pouca gente havia cristãos ávidos por uma palavra bíblica. Nas duas havia não cristãos, carentes de salvação. Em ambas havia amor entre os membros, dedicação à preparação do louvor antes do culto, carinho com o pregador, lideranças que estavam ali graças a um profundo chamado para a obra. Quando vi tudo aquilo, percebi que a discriminação contra igrejas com muitos membros, compostas de pessoas com uma confortável condição financeira, é uma bobagem. E também percebi que a discriminação com igrejas compostas por poucas pessoas, de poder aquisitivo mais baixo, é um igual absurdo.

E isso por uma simples razão: a realidade espiritual em ambos os locais é idêntica: são almas carentes de salvação que, uma vez salvas, precisam ser discipuladas. Pessoas pobres e pessoas ricas precisam de salvação do mesmíssimo modo.

CruzMe senti muito bem na primeira igreja. Havia carinho, afeto, preocupação. Pessoas como Pr. Walmir Cohen, Marco Túlio, Fabiano e Pr. Sérgio deixaram em mim marcas de amor e a certeza de que éramos membros da mesma família, em busca do mesmo objetivo. Me ofereceram uma deliciosa massa ao molho branco, com banana caramelada. Na segunda igreja me senti igualmente amado. Havia carinho, afeto, preocupação. Pessoas como Pr. Jean, Marcos, Pr. Thiago e seu Josué transpareceram a certeza afetuosa de que pertencemos à mesma família, em busca do mesmo objetivo. Me ofereceram um delicioso pão com requeijão e guaraná Tobi, com biscoitos doces. A palavra foi ministrada em ambos lugares e, ao final de culto, os comentários dos irmãos que vieram falar comigo foram muito semelhantes: dúvidas teológicas, pedidos de oração, relatos daquilo que Deus havia falado aos seus corações pela ministração.

A diferença entre as duas realidades, do ponto de vista do discipulado, da necessidade de arrependimento e crescimento, da busca por Cristo, da necessidade de conhecimento bíblico? Absolutamente nenhuma.

Cruz2Já tinha dificuldade de entender isso antes, e agora – depois dessas duas experiências – ela aumentou: como pode, do ponto de vista espiritual, certos pregadores ou cantores só aceitarem ir ministrar em uma igreja onde lhe deem grandes ofertas ou onde haja muitos membros para comprar seus CDs? À luz da carne a explicação é óbvia para qualquer um, mas… à luz do mundo espiritual? Incompreensível. Minha oração sempre é que, a cada ministração minha, pelo menos uma única vida seja radicalmente mudada e transformada para melhor. E, nas duas igrejas que visitei em menos de duas semanas, havia montes de “uma única vida”. Quinze “uma única vida” ou centenas de “uma única vida” são, em essência, a mesmíssima coisa. Não há diferença alguma. Ai de mim escolher onde prego ou palestro com base no número de membros, na riqueza da comunidade ou qualquer outro aspecto irrelevante como esses. Deus me livre. Deus, por favor, me livre disso.

Por outro lado, também fiquei pensando: como pode alguém achar que o evangelho é só para os pobres e os de situação financeira mais carente? A alma sedenta de Cristo precisa ouvir as verdades do evangelho independentemente de habitar um corpo que desfruta de certo conforto financeiro. Confesso que ouço com ceticismo propostas surgidas no seio da igreja de nossos dias. Teologias direcionadas exclusivamente aos pobres, como se os ricos não fossem igualmente amados por Deus, são segregacionistas e, portanto, deficitárias e limitadas do ponto de vista bíblico. Por outro lado, teologias que privilegiam a riqueza e os abastados, centradas em prosperidade material, claudicam por restringir o escopo do reino de Deus. Ambas estão erradas. O socialismo espiritual é um erro. O capitalismo espiritual é um erro. O igualitarismo espiritual é a proposta do evangelho. Pois o reino de Deus é para todo aquele a quem Jesus chamar e não para quem tem mais ou menos dinheiro no banco.

Cruz3O céu é para os salvos, não exclusivo dos ricos ou dos pobres. O céu é para indivíduos. Pessoas. Almas humanas. Se o pecador se chama Zé ou Joseph, Raimundo ou Raymond, isso é irrelevante. Tenho sido despertado cada vez mais para as barreiras entre pessoas devido a aspectos de sua natureza humana. Minha oração a Deus é que Ele me livre de olhar para o próximo, no que tange à espiritualidade, devido a seu poder aquisitivo. Raça. Modo de vestir. Lugar onde mora. Perfume que usa. Denominação em que congrega. Tamanho e riqueza do santuário em que adora. Modelo do carro que dirige. Correção gramatical na forma como fala.  O exclusivismo tem me assustado, e tenho orado ao Senhor que extirpe esse mal totalmente de mim.

Não posso achar que só o louvor com hinos antigos, piano e violoncelo é aceitável. Acredite: na favela do Jacarezinho é “Injete na veia o sangue de Jesus” que estabelece o religare entre a criatura e o Criador. Pagode gospel na catedral presbiteriana também não faz sentido. A leitura recente dos livros “O plantador de igreja”, de Darrin Patrick (editora Vida Nova), e de “O impacto do reino”, de David Wraight (editora Palavra) me despertaram profundamente para a questão da contextualização do evangelho. Hoje vejo o quanto ela é essencial. O contexto muda, a essência é a mesma. Numa comunidade pobre há almas carentes, num contexto de pobreza. Numa comunidade de classe média há almas carentes, num contexto de classe média. Numa comunidade rica há almas carentes, num contexto de riqueza. Mas o que importa aqui são as “almas carentes”.

EsponjaEstou na caminhada. Cheguei ao ponto ideal? De jeito nenhum. Ainda há muita natureza humana falha e que faz acepção de pessoas dentro de mim. Peço a Deus que esprema esse mal para fora do meu organismo espiritual. A diferença é que, hoje, faz parte intrínseca de minha caminhada de fé a oração para que eu veja o próximo como Jesus vê e não segundo os valores que constam em seu imposto de renda. Você gostaria de caminhar junto comigo nessa direção?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

LuaPaoMoro num apartamento simples, pequeno, sem luxos, no Rio de Janeiro, num prédio velho, sem playground nem garagem. Mas meu cantinho tem uma característica que o torna especial para mim: as janelas. A de meu quarto dá para um pequeno bosque que fica no condomínio de trás, o que me permite despertar com o trinado dos passarinhos e o farfalhar da copa das árvores. Já a da sala me permite ver o Pão-de-Açúcar e a baía de Guanabara, uma paisagem encantadora de dia e especialmente bela e iluminada à noite. No ano-novo ela oferece um benefício a mais: sem precisar me espremer junto à multidão para assistir aos shows de fogos, posso ver da minha janela ao mesmo tempo os da Urca, de Niterói, da Enseada de Botafogo e uma boa parte dos de Copacabana. Essa virada de ano foi igual à de todos os anos anteriores. Mas com um diferencial: no céu, bem acima do Pão-de-Açúcar, brilhava uma Lua cheia lindíssima, como há muito eu não via.

Os parentes que admiravam os fogos ao meu lado não cessavam de comentar a beleza deles, com olhos que se voltavam ávidos de um lado para o outro, de um pedaço do céu para o outro, à procura de um espocar que fosse mais surpreendente do que o anterior. Mas confesso que, pela primeira vez, os fogos não me chamaram tanto a atenção. Não sei se a chegada de meu 41o aniversário ou mesmo um sentimento de melancolia que essa data sempre me traz têm a ver com isso, mas quando dei por mim eu simplesmente havia recuado, me sentado no sofá da sala e estava com o olhar fixo naquela lindíssima lua, que pairava imóvel no céu, por cima das cabeças de todos. E não pude me furtar de pensar naquele instante que, não importa o que os homens façam: a beleza da obra das mãos do Criador será sempre maior.

Lua2A prefeitura deve ter gasto alguns milhares de reais para organizar as queimas de fogos, ao custo de grande parte dos nossos impostos. Já Deus nos presenteou com a Lua por sua graça, a custo zero. A cada ano o investimento do Município na pirotecnia é maior, para incrementar o turismo e, consequentemente, aumentar a arrecadação municipal. Tudo não passa, no fundo, de uma questão financeira. Já o Senhor não nos pede nada em troca: a Lua não foi feita tão bela para que déssemos qualquer coisa como pagamento ao grande tapeceiro do universo. Foi um presente, dado por amor.

O amor de Deus se exprime em pequenas coisas, muitas das quais nem reparamos de tão triviais que se tornam: não notamos como é gostoso o cheiro de café pela manhã, a artística mistura de cores em uma árvore florida, o som do mar batendo nas pedras do Arpoador, a Lua emocionante desbancando o que de melhor o homem pode fazer. Como outdoors sem importância, essas pequenas maravilhas cotidianas normalmente desfilam ante nossos olhos de forma fugaz, sem que prestemos muita atenção a elas e lhes tributemos o devido valor. A poesia de Deus geralmente passa despercebida por nós, homens de concreto que somos, cheios de preocupações pragmáticas e tão dedicados ao dinheiro que temos de ganhar e com nossas vaidades inúteis.

Lua3Neste ano que começa, nada será novo. Continuaremos seguindo com nossas vidas, sem grandes mudanças porque o calendário virou. As passagens de ano são meras convenções cronológicas baseadas em astronomia, mas na prática absolutamente nada muda. Einstein já descobriu décadas atrás que o tempo é curvo e não linear. Mas gostamos da ideia de que o placar zerou e podemos começar tudo de novo – o que não vai acontecer. O tempo não para. A vida segue. O fluxo é constante. É bonita a alegria da virada de ano, mas no dia 2 de janeiro nos damos conta de que tudo segue como disse o sábio em Eclesiastes: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós” (Ec 1.9,10).

Os fogos um dia vão cessar. Mas a Lua seguirá embelezando o céu até o fim dos tempos. A vaidade humana passará, mas a bondade de Deus permanecerá indefinidamente. Os anos deixarão de ser contados, mas a eternidade prosseguirá com infinitude. As obras das nossas mãos serão carcomidas pela traça e a ferrugem, mas as realizações do Senhor serão lembradas pelos anjos e pelos santos para todo o sempre. Por isso, enquanto todos se deslumbram com aquilo que é temporal e fugaz, dou dois passos para trás, sento-me no sofá e contemplo o que perdurará pelos séculos dos séculos. E não, não estou falando da Lua. Falo de algo que brilhará eternamente, desbancando tudo o que o homem venha a realizar: a resplandecente graça de Jesus Cristo e a ofuscante glória do Criador do universo.

Lua1Que nunca nos esqueçamos que nada sobre Jesus pode ser substituído por algo ligado aos homens. Não há beleza humana comparável à divina. Não há fama, fortuna, glamour, benefício ou prazer proporcionados por este mundo que se comparem a um abraço do Pai celestial. E, acima de tudo, não há nada nem ninguém que suplante em nossas vidas a presença de Jesus de Nazaré. Que a Lua nunca nos deixe esquecer disso. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). Tal como a Ceia nos lembra do que o Senhor fez por nós e o arco-íris nos lembra do que o Senhor não fará mais a nós, sempre que eu olhar para a Lua cheia me lembrarei de quem o Senhor é – apesar de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Fui convidado a pregar ontem no culto de ações de graças pelo fim do semestre letivo dos alunos do Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro. O culto tinha um tema: Graça. Por isso, venho meditando há alguns dias sobre esse conceito basilar do Evangelho que, aliás, é perfeito para o post número 200 do APENAS. Para minha surpresa, o que brotou em meu coração ao pensar em algo tão magnífico foi… tristeza, acredite se quiser. E explico por quê. Pois não consegui pensar somente na graça de Deus, mas também na sua expressão no relacionamento entre os homens. Falamos muito sobre ela. Falamos. Mas… será que a temos vivido como deveríamos? Bem, aí a coisa começa a complicar. Pois é difícil encontrar alguém que a viva de fato em sua plenitude. E me incluo nisso, obviamente. Desfrutamos da graça de Deus, mas na hora de refleti-la ao próximo… não conseguimos. Graça falada encontramos por todos os lados. Mas graça vivida? Artigo raro. Exaltamos com toda razão a graça de Deus. Mas acredito que a sua manifestação não está somente no ato divino de salvar. Está em nos conceder o privilégio de nos tornarmos embaixadores da graça ao vivermos dispensando aos outros a mesma graça que Deus demonstra para conosco. Só que, nesse ponto, lamentavelmente temos chutado a bola muito acima do travessão.

A questão é que muitos de nós empacam na graça divina. Jogam âncora ali e dali não saem, estacionados nessa que é a maior característica do amor de Deus. Mas não vivem a graça na relação com os seus semelhantes, demonstrada essencialmente pelo amor e a misericórdia ao próximo. Vejo muitos e muitos exemplos e, ao vê-los, sempre lembro-me de 1 João 4.21: “Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão“. E esse, infelizmente, é um mandamento que poucos cumprem. E, ao descumpri-lo, pecam. Confesso esse pecado. Você é capaz de confessá-lo também?

Há muitas maneiras de falar sobre a graça mas não vivê-la. E todas se resumem ao pecado denunciado por essa passagem da primeira epístola de  João: amamos Deus mas tratamos o próximo sem amor. O que, na soma final, é igual a zero. O resultado dessa matemática é nulo.  E vivemos uma vida espiritual no zero a zero.

A graça de Deus se manifesta, por exemplo, em amar o mundo de tal maneira a ponto de se sacrificar por ele. Mas nós? Se formos ser honestos constataremos que estamos longe disso. Tratamos o não cristão como inimigo. Incircunciso. Ímpio. Miserável pecador. Filisteu. Vemos, por exemplo, um homossexual e o desprezamos como uma aberração, sem saber se Deus tem planos para sua vida, como se a graça de Cristo não pudesse alcançar também aquela alma – que é menos especial do que nós, lógico, afinal somos cristão perfeitos e inerrantes e aquele cara é… bem, é um pecador. Fazemos piadinhas entre os crentes em voz baixa,  o tratamos como um endemoninhado ou um personagem de comédia, sem nenhuma compaixão. Pedra nele.

Eu acredito que Jesus salva homossexuais, do exato mesmo modo que salva praticantes de pecados terríveis: vaidosos, iracundos, fofoqueiros, mentirosos, murmuradores, glutões, servos de Mamom, gananciosos, orgulhosos, arrogantes. Salvou a mim e a você, que não valemos nada, por Deus! Como não salvaria qualquer outro? Mas damos uma demonstração ínfima de graça no trato com quem não compartilha de nossa fé. Quando damos.

A graça de Deus também se manifesta no fato de que ele perdoa pecados. Mas nós? Queremos atirar em quem peca a primeira, a segunda e a terceira pedras. E a quarta não seria nada mal, só pra garantir. Meu Deus, como somos implacáveis e soberbos… Como fechamos os olhos aos nossos próprios pecados pós-conversão e fuzilamos sem chance de apelação o irmão que pecou, mesmo sabendo que todos nós também cometemos pecados horríveis todos os dias. Graça? Sim, ó maravilhosa graça, tão magnífica… para mim. Mas para os outros? Para aquele… pecador?! Jamais… Para os outros, se propomos oferecê-la voam acusações de que estamos defendendo a “graça barata” de Bonhoeffer. Implacáveis nós, que a proclamamos mas não a pomos em prática. Matemos os que pecam e dissolvamos seu corpo em ácido, para que não tenha nenhuma possibilidade de restauração.

Olho a ausência de demonstrações de graça de cristãos para com cristãos e imagino o que o Deus da graça tinha em mente ao inspirar Pedro, Paulo, Tiago e João para escrever epístolas que chamam cristãos em pecado ao arrependimento. Qual seria a finalidade do Espírito Santo com isso? Pelo que os homens têm feito, parece que o objetivo do Senhor era levar os arrependidos e perdoados a se tornarem párias dentro de suas igrejas, vidas inutilizáveis, que só servem para sentar no banco, serem segregados e discriminados, morrerem e serem lembrados como “aquele que pecou”. De preferência, esquecidos. É para isso que Deus restaura os cristãos que pecaram? Que geração mais impiedosa é a nossa, uma geração que idolatra a graça de Deus mas não tem  entendimento real de sua aplicação entre nós. Pois enquanto a graça da Cruz põe o cristão caído de pé, o veste de branco, lança seus pecados no fundo do mar e os afasta como o Oriente dista do Ocidente, a graça dos homens exila, guetifica, acusa, condena. Literalmente, os ímpios somos nós. Vou repetir: os ímpios, os impiedosos, os sem piedade, os sem compaixão, os sem misericórdia, os sem graça, os sem amor, portanto… somos nós.

Olhe em volta e, por favor, me diga que estou errado. Preciso ouvir isso.

A graça de Deus também se manifesta em priorizar o outro acima de si mesmo, como Aquele que despiu-se de Sua glória para pôr a humanidade desgraçada na porta de entrada do Céu. Mas nós? O outro será sempre o outro. Primeiro eu, depois o que me interessa, em seguida o que me convém, logo após meu ego e por último eu de novo. O próximo que temos de amar como nós mesmos habita o nosso espelho. Se não tem nosso nome e sobrenome, que Deus tenha misericórdia dele. Pois eu? Tenho que cuidar de mim. Não damos nosso tempo para o outro. Não damos nosso ombro para o outro. Falamos palavras belíssimas sobre amor e graça, mas na hora de nos sacrificarmos pelo próximo… onde? Onde? Onde, por Deus?

A graça de Deus também se manifesta em oposição ao legalismo. Acabei de editar o livro “Kingdom Come”, do presidente internacional do ministério Mocidade para Cristo (MPC), David Wraight, em que ele faz uma explanação brilhante sobre isso. Ele aponta 1 Samuel 16.7 como o cerne da questão: “O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”. Mas nós? Não importa quem é fulano, basta um porém e ele se tornará indigno da graça dos homens – dos homens, claro, pois para a graça de Deus não há ninguém indigno, ela é cega ao pecado e submissa somente ao misericordioso e amoroso querer divino. “O principal problema com o legalismo é que focaliza no que fazemos, ao invés de focalizar em quem nós somos”, explana com brilhantismo David Wraight.

A interação de Jesus com os fariseus e mestres da lei mostra que o Senhor está muito mais interessado na essência do ser, com os valores instrínsecos que norteiam o nosso viver, do que na obediência a uma lista de tarefas a serem cumpridas ou não. É por isso que Davi foi chamado – e muitos não entendem por quê – de “homem segundo o coração de Deus”: pois o Senhor não olhava para aquele assassino e adúltero como um assassino e adúltero, mas como um homem de Deus que assassinou e adulterou. A diferença é monumental – ou nem um único cristão escaparia, será que você consegue enxergar isso? Nem um único.

Uma vez que vieram o arrependimento, a confissão e o perdão, o pecado cometido é eliminado e, diante dos olhos do Todo-Poderoso, permanece tão somente a essência daquele que pecou. Você já teve curiosidade de ler o que acontece na vida do rei Davi após matar, adulterar e ser perdoado? É revelador que no mesmo capítulo da Bíblia que relata o confronto entre o profeta Natã e Davi acerca dos pecados do rei (2 Samuel 12), logo em seguida o texto mostra Davi sendo honrado por Deus, que lhe concede uma vitória estrondosa sobre os amonitas. Para Deus, restauração e triunfo. Para os homens? Vale a Lei: apedrejem Davi. Morte ao homem segundo o coração de Deus. Na teoria, amamos a graça. Na prática, vivemos o legalismo.

A  graça de Deus sempre nos trata como não merecemos, segundo a bondade e a misericórdia do Senhor e não segundo a nossa pecaminosidade. Já a graça dos homens nos pune por muito mais do que fizemos, sem misericórdia e muitas vezes sem uma justa justiça (pleonasmo proposital). A graça de Deus põe a Cruz em primeiro plano. A graça dos homens põe o pecado em primeiro plano. A graça de Deus diz “nem eu te condeno, vai e não peques mais” a graça dos homens diz “você está perdoada, mas fique longe de mim”. A graça de Deus diz “pecado? Que pecado?”. A graça dos homens diz “tá vendo aquela ali, é fulana, aquela safada que cometeu aquele pecado que te contei”. A graça de Deus é Cristo. A grassa dos homens é Barrabás.

Por isso que você leu no título deste post “a grassa dos homens”: não, não é um erro de português ou de digitação. É apenas uma forma de mostrar como a graça de Deus nas mãos dos homens torna-se algo distorcido, equivocado, que tem aparência de graça, som de graça mas só é graça aos ouvidos de quem ouve o discurso. Na prática, é grassa mesmo. Curiosamente, o dicionário define “grassa” como, veja você, a “propagação de uma doença”…

Você se lembra que, depois de ter assassinado, adulterado e de ter sido perdoado, Davi novamente incorre em pecado, ao mandar fazer o recenseamento do povo? Um pecado terrível, fétido às narinas de Deus, chamado vaidade. Quando o profeta Gade lhe dá a opção de escolher entre três tipos de punição, o pecador que já tinha sentido na pele tanto a graça de Deus quanto a grassa dos homens sabiamente escolheu, como relata 2 Samuel 24.14: “Prefiro cair nas mãos do Senhor, pois grande é a sua misericórdia, a cair nas mãos dos homens”.  O conceito que Davi tinha da misericórdia dos homens não era dos melhores. Por que será?

Olho ao redor, olho para dentro de nós e, infelizmente, constato que nada mudou dos tempos de Davi para cá. Sou homem. Portanto, estou tão sujeito como qualquer outro a manifestar a grassa crendo piamente que estou sendo um justo agente da graça. Por  isso minha oração é que Deus me permita entender Sua graça, para ser menos injusto e cruel do que sou no trato com meu semelhante. Já fui muito mais implacável do que sou hoje. As pancadas da vida me ensinaram um pouquinho mais. Até porque sou pó, não valho nada e não tenho moral nenhuma para não estender graça ao meu próximo.

Você tem? Se tem, sinta-se à vontade para atirar a primeira pedra…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.