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Certa vez ouvi de um servo de Deus que a igreja é um lugar muito perigoso. Pois a vida em comunhão nos expõe, nos desafia, nos convida a conviver com a contradição e a natureza humana de indivíduos que deveriam substituir essa natureza pela de Cristo. A cada dia que passa vejo mais e mais que essa é uma grande verdade. A possibilidade de que você será ferido, magoado ou humilhado de algum modo por congregar em uma família de fé é bem plausível, visto que estará convivendo e se abrindo para pecadores cheios de falhas – embora em busca de santificação. Postei há alguns meses aqui no APENAS uma reflexão sobre “O lugar mais importante na igreja“, em que, por meio de uma metáfora,  compartilho minha visão de que a segunda pessoa mais importante numa congregação depois de Jesus é o triste, o abatido, o deprimido, o humilhado, o abandonado, o desesperado, o indigno, o ferido. Fiquei espantadíssimo ao ver a quantidade enorme de irmãos que entraram em contato pelo espaço de comentários do blog para relatar experiências terríveis que viveram no ambiente eclesiástico e que sofreram os mais variados tipos de traumas. Ao todo, 48. Muito revelador e espantoso é que, em comum a todos menos três, havia o pedido de não publicar seu comentário. 45 pessoas! Sem que dissessem, ficou claro que tudo o que queriam – ou precisavam – era desabafar e não queriam se expor. Em outras palavras, inconscientemente querem permanecer invisíveis. O que essa constatação deve gerar em cada um de nós? Como devemos agir com relação a essas pessoas feridas?

Mais ainda: devemos parar de ir à igreja porque podemos acabar saindo dela com o coração dilacerado? A resposta é um grande não. E já veremos por quê.

Entre os comentários havia de tudo. O mais frequente é a decepção com os líderes ou outros membros. Sim, porque paredes e templos não ferem ninguém: quem fere são pessoas. Pastores que usaram de autoridade desmedida e humilharam ovelhas publicamente. Irmãos que discriminaram pela classe social e pela cor da pele. Pastores que não mantiveram o sigilo pastoral sobre pecados a eles confessados. Irmãos que usaram de artimanhas para tomar “cargos” de outros. Pastores que em vez de ajudar a pôr de pé os caídos esmagaram ainda mais o crânio de quem estava no chão. Irmãos que não demonstraram coração perdoador. Pastores que usaram o púlpito para fazer desde propaganda política a publicidade de revistas e DVDs. Irmãos que ignoram quem não conhecem e compartimentalizam a igreja em panelas. Pastores que agiram em causa própria e deixaram vidas humanas à própria sorte. Irmãos que não estenderam a mão quando mais se precisava de ajuda. Pastores que prometem o que Deus não promete. Irmãos que discriminam da “falta de fé” à forma de se vestir de outros e os consideram cristãos de segunda classe.

Em comum a todos os casos, o que ficou visível foi uma deficiência no amor ao próximo e a prevalência do interesse próprio.

E essas são só as causas mais frequentes que detectei entre os comentários. Há mais. A quantidade e a variedade de formas pelas quais é possível ferir alguém por estar inserido no ambiente de uma família de fé são muitas, algumas surpreendentes. E isso é um chamado à responsabilidade para todos nós. Não é à toa que usei como título deste post o mesmo do livro da jornalista Marília Camargo, publicado pela editora Mundo Cristão, que trata de desmandos cometidos por lideranças eclesiásticas. Pois esses problemas se multiplicam tanto que se tornaram visíveis para cada vez mais pessoas – cristãs ou não. E um ponto nevrálgico da questão é que deixar a comunhão dos santos não é a solução. Por diversas razões.

No que tange à liderança, nunca podemos nos esquecer que há muitos líderes que sabem cuidar de ovelhas, que as põem acima de si mesmos e que entendem que a vocação pela qual Deus os chamou é sobre Jesus e sobre o próximo e não sobre si mesmos (leia mais no post “A importância de um pastor“). Que não deixam a vaidade, a prepotência ou os projetos pessoais interferirem no cuidado e no amor pelos irmãos. São muitos e estão por aí, em igrejas de diferentes denominações, em diversas regiões do país, em bairros ricos e pobres. O ministério pastoral não entrou em colapso devido ao fato de que há os que não pastoreiam com compaixão e graça, com amor e carinho, com cuidado e zelo. Há sim os que usam o púlpito como emprego estável ou os que não entendem a profundidade do amor de Deus e por isso não o refletem em seu pastoreio, mas as maçãs podres ou contaminadas devem servir acima de tudo para nos lembrar que há maçãs maduras e que alimentam. E há muitas. Há muitos homens de Deus à frente de igrejas, é só ter paciência de procurar e pedir discernimento ao Senhor. Recusar ser bem pastoreado é recusar um maravilhoso presente que Deus nos dá.

Já no que tange à membresia, é preciso lembrarmos sempre do velho clichê (que é verdadeiro) de que a igreja não é um museu de santos, mas um hospital de pecadores. Todos, absolutamente todos os membros de uma igreja, são pecadores. Ninguém escapa. Pode ter certeza que o mais santo de todos tem no mínimo pensamentos horripilantes. Agostinho teve. John Wesley teve. Davi teve. Salomão teve. Paulo teve. Pedro teve. Eu, então, nem se fala. Só que isso, em vez de nos afastar da igreja, deve produzir em nós um sentimento de misericórdia, por saber que o próximo é tão pecador como nós e é tão passível de erro como eu e você. Há pessoas responsáveis por atividades importantes dentro de igrejas que cometem pecados cabeludos e, em vez de fugir delas, precisamos orar por elas para que sejam libertas, que alcancem o perdão e para que seus pecados não interfiram na missão que Deus lhes confiou. Sempre digo a quem está decepcionado com os irmãos que, se vemos alguém que julgamos ser um “mau cristão”, em vez de empurrá-lo para longe devemos nos aproximar para influenciá-lo positivamente. Pois é o que se encaixa na graça de Deus. Não o medo, mas a coragem.

No que tange a nós mesmos, precisamos lembrar que mesmo sendo a igreja uma assembleia de pessoas imperfeitas e potencialmente passíveis de nos machucar, é onde cultuamos a Deus em comunhão. É onde celebramos o memorial coletivo da Ceia do Senhor. É onde ouvimos pregações (sim, muitas vezes feitas por sacerdotes cheios de falhas) que vão nos edificar, consolar e exortar. É onde podemos encontrar aqueles que de outro modo não saberíamos que precisam de uma mão estendida. É aonde os perdidos tocados por Deus vão, em busca de algo a que a cruz na porta remete em termos espirituais. Já fui parar em um CTI por ter comido alimentos estragados em um restaurante. Mas não é por isso que vou deixar de ir a restaurantes, pois preciso me alimentar. O medo de comer em outro restaurante não é benéfico, pode me gerar inanição. Assim como o medo de ir a uma igreja porque nos decepcionaram em outra não provém de Deus. Se a igreja é um lugar perigoso, é um lugar para os corajosos. Um erro não justifica o outro.

Você já se decepcionou com um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. Só que o que o outro faz não depende de nós. O que temos poder para mudar é agir a partir de outra pergunta: você já decepcionou um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. E se você, como eu, reconhecer que causou o mal a alguém, mesmo que tenha sido de modo involuntário, aí está diante de si a grade oportunidade de começar a mudar o que está ruim: procurando mudar ou pelo menos melhorar a si mesmo. Pois, no que eu mudo e me torno um cristão melhor, uma ovelha menos manchada para meu pastor e um irmão menos decepcionante para os membros da igreja, aí sim estou contribuindo com meu exemplo e minha atitude pessoal para que o Corpo como um todo seja aperfeiçoado.

Então, se fomos feridos na igreja, devemos começar por fazer uma análise de nós mesmos e ver em que pontos nós ferimos os outros. Eliminando esses pontos serviremos cada vez mais de exemplo. Quanto aos que nos feriram, a dor permanecerá pelo tempo que o luto durar e isso independe de nós.

Mas podemos perdoar.

Quantas vezes? Setenta vezes sete. Todas. Sempre. Repetidamente. E não perdoe só da boca para fora, porque isso é fácil para qualquer um fazer. Perdoe em atitude. Sendo bom para quem te feriu. Ajudando-o. Estendendo a ele benefícios. Auxiliando no que ele precisar. Orando a Deus por sua vida. Essas são as maneiras bíblicas de agir com quem nos machucou. Não importa como o outro se comporta, importa como você se comporta. Faça sua parte. Pense menos em si e mais em Cristo. Pois se cada um de nós pensar somente em si, da próxima vez que escrever um post sobre gente machucada na igreja não serão 48 pessoas contando suas histórias, mas 490.

A mudança começa em nós. Menos dedos apontados, mais lágrimas no travesseiro. E quando você conseguir ser alguém melhor, ajude os demais. A começar estendendo amor de forma prática a quem te fez mal. E aí haverá festa no Céu, porque você poderá estar sendo intrumento nas mãos de Deus para levar um pecador a se arrepender. Minha esperança é que para cada ferido “em nome de Deus” apareça um bom samaritano que venha a cuidar de suas feridas. E, isso sim, será verdadeiramente feito em nome do perdoador, misericordioso, amoroso e gracioso Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Vivemos uma época da História da Igreja em que é muito fácil nos deixar levar pela tentação de voltar nossas atenções para discussões acerca das instituições e estruturas eclesiásticas e nos esquecermos de questões que – pelo relato dos evangelhos – preocuparam e ocuparam muito mais o tempo de Jesus. Em nossos dias, “apologética” está muito na moda e sobram ambientes em que, em nome de uma suposta “defesa da fé”, se fala bastante contra igrejas, denominações e grupos eclesiásticos (e escrevo entre aspas porque 90% do que se apresenta na Internet hoje como “apologética” na verdade são só agressões e fofocas que não contribuem de fato para a saúde espiritual da Igreja). O que tenho refletido muito nos últimos tempos é sobre o risco real em que caímos de nos preocuparmos tanto em discutir aspectos relacionados às instituições eclesiásticas que pecamos por desviar nossas atenções do que mais importa para Deus: o indivíduo.

É evidente que discutir questões ligadas à instituição é importante. Afinal, se não combatemos a Teologia da Prosperidade, os desmandos de certas igrejas neopentecostais, as heresias e outros graves problemas que deformam a Igreja de Nosso Senhor estamos permitindo que milhares de pessoas sejam enganadas e mal discipuladas. Mas quando voltamos excessivamente os olhos para isso, acabamos tão preocupados com o macro que os detalhes que mais importam tornam-se periféricos, quando deveria ser o contrário.

Recentemente decidi reler todo o Novo Testamento. E tive uma percepção bem interessante. Se formos prestar atenção no foco das preocupações de Jesus e dos apóstolos, se formos ao cerne do Sermão do Monte, das epístolas paulinas, das gerais e dos livros de Atos e Apocalipse, veremos que a esmagadora maioria dos problemas apontados, os grandes desmandos, as orientações, as pregações e palestras eram quase que em sua totalidade voltadas para questões pessoais. Raramente vemos exortações contra grupos ou instituições. É a alma humana que está em debate na maior parte do Novo Testamento. Evidentemente, à luz da pessoa de Cristo e da glória do Pai.

Jesus diz uma única vez que um enfermo foi curado para a glória de Deus. Se formos ver os outros milagres de Cristo perceberemos que estavam ligados a um aspecto da personalidade do Senhor: compaixão.  Jesus perdoa pecadores. Jesus sara os que clamam a Ele em lágrimas. Jesus ensina sobre o Reino sempre em relação ao aspecto humano e individual. Jesus está o tempo todo preocupado com pessoas. Que têm nome, cheiro, dores, depressões, noites insones, desesperança, falta de paz. Mesmo quando fala dos publicanos e fariseus Ele não está criticando o grupo como um todo ou questionando sua existência, mas sim atacando aspectos falhos do coração daqueles homens, como a hipocrisia e a ganância. Tanto que chama Paulo, um fariseu, não para abandonar o farisaísmo, mas para se converter de seus caminhos pessoais equivocados.

Não vemos Jesus investir seu tempo criticando o governo romano, a organização do templo ou as sinagogas. Pelo contrário, manda pagar o tributo aos dominadores, vai às sinagogas e segue religiosamente a liturgia de culto praticada nas mesmas, não discute sobre a legitimidade do partido fariseu contra o saduceu (ou vice-versa) ou levanta bandeiras contra os essênios. Sempre vemos Jesus falar sobre questões concernentes ao indivíduo. Ele quer ensinar pessoas, se preocupa em alimentá-las, se condói do enfermo, tem misericórdia do possesso, deseja que João, Maria, Antônio, Beto e Sheila sejam alcançados pelas boas novas, perdoados e salvos. Ele não quer salvar um grupo impessoal. Quer dar vida a almas.

O mesmo vemos nas motivações de Paulo. Repare que em suas epístolas ele se preocupa não em saudar ou enviar saudações dos “adeptos da Missão Integral”, dos “ortodoxos”, os “membros da igreja emergente”, os “irmãozinhos pentecostais” ou “os que congregam nas igrejas históricas”. Ele saúda pelo nome. Menciona Estéfanas, Fortunato, Acaio, Tíquico, Onésimo, Aristarco, Marcos, Epafra, Lucas, Ninfa, Prisca, Áquila, Onesíforo, Erasto, Trófimo, Êubulo, Prudente, Lino, Cláudia e tantos outros. Do mesmo modo, não critica grupos organizados ou escolas de pensamento nefastas, mas dirige suas tristezas a pessoas como Demas e Alexandre, o latoeiro. Nomes. Gente. Almas.

Sou de Paulo. Sou de Apolo. E o que disse Paulo sobre isso? “Acaso Cristo está dividido?” (1 Co 1.13a).  João escreveu suas epístolas para combater os gnósticos, grupo herético dito cristão que pregava que Jesus não era Deus feito carne. Mesmo assim sua primeira carta, por exemplo, é extremamente pessoal. “Filhinhos” e “amados” são as duas formas mais usadas pelo apóstolo para se dirigir aos seus destinatários. E se você lê com atenção tudo o que ele escreve contra os ensinamentos dos gnósticos é sempre tendo em vista aspecto individuais dos ensinamentos espúrios e como eles afetavam pessoas. Essa carta, que podemos considerar como sendo a mais motivada por aspectos institucionais de todo o Novo Testamento, é extremamente preocupada com o indivíduo.  A releia com atenção e você verá. Os “filhinhos”. Os “amados”. E nenhuma escola de pensamento ou doutrinária é filha ou amada de ninguém. Pessoas são.

Nas sete cartas à igrejas de Apocalipse vemos referências institucionais, isso é fato (prova que essa discussão não pode ser menosprezada): aos nicolaítas e aos que seguem a doutrina de Balaão. Mas, de resto, fala a todo tempo sobre questões do coração, como o abandono do primeiro amor, a fidelidade, obras, amor, fé, serviço, perseverança. Menciona até mesmo uma tal Jezabel pelo nome, por estar pervertendo os irmãos.

A conclusão é que Deus está preocupado com pessoas. Comigo. Com você. Com quem você ama. Com quem você odeia. Com arrependimento e redenção de indivíduos. Jesus não vai salvar os membros desta ou daquela denominação, mandar todos os calvinistas para o Céu ou condenar todos os adeptos da equivocada Confissão Positiva para o inferno. O que está escrito no Livro da Vida são nomes de indivíduos. Nomes de gente. Nomes com rosto, CPF, é o filho do Zezinho da padaria e a mãe da sua amiga Carla, da escola. Gente que tem mau hálito ou que acorda de mau humor, indivíduos que falam “pobrema” e almas que moram em condomínios de luxo. O porteiro do seu prédio. O lixeiro da sua rua. O jardineiro que você nunca cumprimentou. O empregado que você jamais abraça.  O manobrista que todo dia guarda a chave do seu carro mas você nem sabe seu nome. Quando pensa em nós, o que a Bíblia transparece não é que Ele pensa em “nós”: pensa no “eu” e no “você”, cujos fios de cabelo Deus sabe de cor quantos temos.

Por muito tempo devotei muita atenção para grupos. Não que eles não sejam importantes, repito, mas hoje estou muitíssimo mais preocupado com o indivíduo. Quero chegar antes de o culto começar na igreja e cumprimentar aquela irmã cheia de olheiras sentada na última fila da igreja. Perguntar se está tudo bem – e ouvir sua resposta de fato e não por uma obrigação pseudopiedosa. Quero gastar tempo que seria meu para ir na casa da senhora doente e que não tem amigos, doar-me e não apenas aparentar estar preocupado. Quero ir ao hospital orar com o irmão de uma conhecida que está padecendo de Aids – contraída numa relação homossexual. Órfãos e viúvas em suas tribulações são pessoas. É o Carlinhos, que perdeu os pais num acidente de carro, e a Dona Rute, cujo marido teve um infarte fulminante.

Nossas igrejas estão abarrotadas de pessoas carentes, solitárias, pecadoras, infelizes. Meu papel como cristão é refletir o amor de Cristo dando-lhes calor humano. Estendendo perdão. Pacificando as animosidades. Me fazendo presente nos períodos de sofrimento. Pois aprendi o que é passar momentos terríveis, depressivos e assustadoramente solitários e nem um único cristão telefonar para saber como estou. E isso é igreja que diz glorificar Deus mas só o faz da boca para fora, pois se esqueceu do próximo – que não é uma entidade autômata, com número de série: é uma alma humana.

Enquanto não amarmos de fato, perdoarmos de fato, nos doarmos de fato e enxergarmos de fato a dor do ser humano que cruza conosco no corredor da igreja ou do supermercado… estamos frequentando a igreja para que mesmo? Glorificar Deus? Como se fosse possível uma coisa sem a outra.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

* Uma versão reduzida deste artigo foi publicada originalmente na revista Igreja.

Li recentemente em um blog um texto em que o autor falava algo sobre “ser autêntico”. O irmão estava revoltado com uma discussão que teve com alguém e, por isso, escreveu o seguinte: “Ser ‘sincero’, ‘autêntico’ ou ‘você mesmo’ não é desculpa para ser uma pessoa nojenta, desagradável ou idiota. Pare de se orgulhar de ser um completo @$&#% e vê se aprende a viver em sociedade” (o @$&#% é por minha conta, o comentário trazia o palavrão explicitamente). Não concordo com a escolha de vocábulos que ele adotou,  pois antipatizo com o uso de palavrões (se para toda palavra torpe há um sinônimo menos agressivo, por que usar?). Mas estou de acordo com o conteúdo do que ele disse.

Anos atrás eu acreditava que tinha de ser autêntico, de falar o que viesse à cabeça, custasse o que custasse. Mas percebi que, se vivermos sob o pretexto de que “eu sou assim mesmo” e “esse é o meu jeito”, vamos andar na contramão do Evangelho. Por quê? Pois a verdade é que não interessa como você é. Interessa como Cristo é. E se “não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), o verdadeiro cristão não pode usar a desculpa de que “eu sou assim” e machucar outras pessoas. Pois Jesus não machucaria.

Já ouvi alguns pregadores usarem em suas mensagens um sofisma que, de tanto ser repetido, acabou virando uma pseudoverdade teológica, ou, para usar um vocábulo mais aceito pela sociedade, apenas mais um clichê gospel. Dizem: “Deus muda o caráter mas não o temperamento“. Já ouviu isso? Só que essa afirmação simplesmente não é verdade. Basta olhar as virtudes contidas no fruto do Espírito exposto em Gálatas 5.22,23a: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”.

Pare para pensar. Isso é o fruto que o Espírito Santo gera no salvo. Agora: se essa frase fosse verdade, todas essas virtudes teriam a ver apenas com caráter. Mas muitas falam de mudança de temperamento. Observe: Amor: caráter e temperamento. Alegria: temperamento. Paz: caráter e temperamento.  Longanimidade (ou paciência, em outras traduções): temperamento. Benignidade (ou amabilidade, em outras traduções): caráter e temperamento. Bondade: caráter. Fidelidade (ou fé, em outras traduções): caráter. Mansidão: temperamento. Domínio próprio: caráter e temperamento. Ou seja, a atuação do Espírito de Deus na vida do que é salvo se dá no nível da transformação do caráter mas também no do temperamento. É uma transformação do todo e não de 2/3 do indivíduo que foi chamado da morte para a vida. Ninguém é regenerado por Cristo parcialmente: ou nasce todo ou não nasce.

Naturalmente, existe o processo de santificação, uma dinâmica cotidiana. Só que santificação representa melhorar a cada dia. Subir um degrau da escada, depois outro, depois outro. Não é estagnação. Não é retrocesso. É avanço. E justificar uma forma anticristã de ser como sendo parte de um processo de santificação é alegar que estar satisfeito consigo mesmo de modo estagnado é se santificar. E não é nada disso. O cristão que fala “eu sou assim mesmo, me aguentem” não está em processo de santificação, está parado no sinal verde com o freio de mão puxado. E não adianta buzinar, pois ele não sai do lugar. E ainda berra pela janela: “Eu não vou andar, pois sou autêntico!”.

Assim, justificar, como disse o irmão do blog, atitudes desagradáveis ou ofensivas com o argumento de que é “seu jeito de ser” não é nada bíblico. O verdadeiro salvo é quem se arrependeu de todos os seus males, inclusive a sua forma de ser, se ela é socialmente desagradável. Não entendo, por exemplo, um pastor que viva falando de Jesus mas cujo temperamento seja constantemente irascível. Todos temos arroubos de raiva, mas quando o seu “jeito de ser” é naturalmente agressivo, para mim isso não demonstra autenticidade, mas falta de intimidade com o Jesus que prega.

Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou sincero” e sair desrespeitando os irmãos. Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou autêntico” e sair agredindo verbalmente as pessoas. Não, não é bíblico ou cristão dizer “esse é o meu jeito, se não gostar azar o seu”, pois isso contraria frontalmente o “amar o próximo como a si mesmo”. Dizer essas coisas só faz de você, como disse o mano do blog, “uma pessoa desagradável”. Não há mérito algum nisso. Não é bonito. Não creio que agrade Deus. Não demonstra fruto do Espírito.

Não cabe a mim dizer como você tem que ser, isso é entre você e Deus. Mas se posso fazer uma recomendação, é: não seja como você é. Não orgulhe-se de ser quem você é. Se eu fosse ser quem eu sou iria querer muita distância de mim mesmo. Mas Cristo vive em você? Então dê de beber ao teu inimigo sedento, pague um almoço ao inimigo faminto. Ame quem te fez mal. Contrarie sua natureza e seus impulsos. Alimente a natureza de Cristo em si. Isso sim é ser cristão.

Essa é a proposta do Evangelho. Se você percebeu que se encaixou nessas palavras, clame a Deus para que Ele te transforme. Acredite: Ele faz isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Tenho aprendido muitas coisas sobre Deus com a paternidade. Uma delas são os benefícios proporcionados pelas dificuldades da vida. É muito comum em nosso meio ouvirmos dos irmãos que, se estão passando “pela prova”, é porque Deus está descontente, castigando por algum pecado cometido ou algo assim. Uma das correntes mais fortes é a que atribui as dificuldades ao diabo. “O inimigo está furioso”, “o diabo se levantou contra minha vida”, “estou na luta contra os demônios”, “o devorador não está me dando descanso”… são muitas variações do mesmo tema. Mas, quanto mais eu vivo, menos acredito que as dificuldades da vida são fruto do ódio de Satanás e cada vez mais me convenço de que são fruto do amor de Deus.

Minha filha completa dois anos esta semana. A cada dia que passa vejo o quanto facilitar as coisas para ela a prejudica. Um exemplo que considero clássico, e que vou usar aqui para exemplificar minha reflexão, é quando ela deixa escapulir algum brinquedo para baixo da mesa de nossa sala – o que é algo muito frequente, pois a mesa fica ao lado da área onde mais brinca. É difícil resgatar o brinquedo, pois a mesa acaba formando um labirinto de pernas de cadeiras e as laterais são limitadas por uma parede. É realmente complicado pegar algo que caia ali embaixo. Por isso, no início a tendência imediata dela era me olhar com aquela cara de gato de botas do Shrek e, sem se mexer, pedir com voz melosa: “Pa-paaaai…”, já esperando que eu me levantasse, tirasse todas as barreiras da frente, pegasse o brinquedinho e desse de bandeja na mãozinha dela.

Confesso: no princípio minha ignorância me levava a fazer exatamente isso. Mas, lendo livros especializados e observando, comecei a notar que ela tornava-se cada dia mais dependente de mim em montes de coisas e, sempre que podia, em vez de se esforçar soltava aquele “pa-paaaai…”, tentando me comover para conseguir o que queria sem muito esforço. Foi quando percebi que ajudá-la não a estava ajudando. E muito menos a preparando para a vida. Pois a vida não nos dá as coisas de mão beijada. Mudei então de estratégia. Em vez de levantar e sempre tratar minha filha como uma bonequinha de cristal, tentando protegê-la das próprias gotas de suor, passei a incentivá-la. Frases de encorajamento como “vai lá, filha, eu sei que você consegue”, “tenho certeza de que você é capaz de pegar sozinha” e outras similares passaram a ser a tônica.

E a dificuldade passou a fazê-la crescer como pessoa. Comecei a reparar que aquela bebezinha que estava se tornando uma pequena preguiçosa agora punha os neurônios para funcionar, por vezes engatinhando pelas cadeiras e descobrindo itinerários e formas de chegar onde queria, por vezes arrastando as cadeiras do lugar para abrir caminho, em outras vezes dando a volta na mesa para se aproximar pelo outro lado. Sua mudança foi incrível – como consequência da mudança na forma como papai lidava com ela. De repente parece que  deslanchou como pessoa. Tornou-se mais confiante e independente. Passou a ter mais proatividade e a solucionar suas dificuldades sem ficar dependendo dos outros. Vi que até seu relacionamento com as pessoas mudou para melhor: a timidez diminuiu, parou de agarrar-se tanto ao meu pescoço quando chegava perto de um estranho, tornou-se mais sociável e até mais generosa. Parou de pensar tanto em si e começou a compartilhar mais as suas coisas com os outros, de seus brinquedos a sua comida. Em resumo, começou a se formar diante de meus olhos um ser humano que merece muito mais a minha admiração do que quem ela estava a caminho de se tornar caso eu ficasse facilitando demais a sua vida.

Quando via que ela empacava, eu procurava levá-la a achar soluções sem oferecer respostas prontas. Em vez de dizer “vá por ali” eu perguntava “será que não tem um caminho melhor?”. E deixava que ela raciocinasse e encontrasse seus próprios caminhos. E, lógico, se em algum momento ela ficava presa ou algo assim, de um salto eu a tomava nos braços e a confortava. Conversava com ela, tentava perguntar se ela sabia por que razão tinha se metido naquela situação e tentava mostrar outras possibilidades. Nunca de mão beijada. Sempre conduzindo-a e encorajando-a para, por méritos próprios, ela obter êxito, ganhar confiança, crescer, amadurecer. Encorajamento e elogios todas as vezes, com muita ênfase e festa.

Naturalmente eu fico sempre de olho.  Sempre zelei por sua segurança, não deixava que pegasse em facas ou chegasse perto do fogo aceso. Mas passei a procurar torná-la participante das atividades, a desafiando a encontrar as soluções que eu já conheço e poderia dar mastigado a ela. E sempre – sempre – respeitando o fato de que ela não sou eu e que tem que seguir por seus próprios passos e não necessariamente pelos que eu creio serem os melhores. Notei que às vezes eu dizia “e se você der a volta, filha?” e ela parava, pensava e tomava outro caminho para chegar aonde queria. Claro que ainda é uma criança. Mas se eu continuar a tratá-la como criança para sempre é uma criança que ela sempre será.

Com um ano e meio de vida, eu já não lavava mais as suas mãos. Comprei um banquinho e a ensinei a subir, enxaguar, ensaboar, secar, descer, dobrar o banco e o guardar no lugar. Faço meu café a quatro mãos, pois é ela quem apertava todos os botões da máquina – extremamente sorridente por ter ajudado a fazer o café do papai com seus próprios talentos e suas ações. Ela não faz ideia do que seja medo do escuro, entra e sai de lugares com a luz apagada com a maior tranquilidade, tateando paredes e móveis para cumprir sua meta, pois desenvolveu segurança suficiente para isso.

Da primeira vez que me pediu um suco eu, em vez de lhe entregar o copo pronto, a sentei ao meu lado e mostrei como se espreme uma laranja (na mão, sem ser no espremedor elétrico). E ela adorou! Como, aliás, adora descobrir que é capaz de realizar as coisas. Superar as dificuldades tornou-se, literalmente, um prazer para ela, uma aventura. Se sobe em algum lugar alto e depois não consegue descer, eu pergunto “e agora?” e ela fica pensando por um longo tempo, arrisca algumas tentativas, vira de costas, estica a perna e… consegue. Fico ali, ao lado, as mãos a um palmo dela para que não caia, mas só lhe dou segurança, procuro ao máximo não interferir. Caso contrário ela vai crescer pensando que o papai vai estar sempre ali pra resolver tudo. E, em vez de ajudar, eu estaria estragando a futura adulta que um dia ela se tornará.

Não sou um daqueles pais corujas que acham seus filhos perfeitos. Não: meus pés estão no chão, conheço as falhas de minha filha e sei que ela não é nenhuma criança prodígio, é normal como qualquer outra. Mas consigo enxergar sua evolução como pessoa. Noto que hoje ela não se deixa abater com facilidade ante os becos sem saída, não tem nenhuma preguiça (eu sou muito mais preguiçoso do que ela) e é capaz de, com confiança em si e uma segurança sólida, realizar as tarefas mais complicadas para alguém da sua idade – com intensa vontade de não desistir na primeira ou na segunda dificuldades. Nem sempre ela consegue – e nem eu espero isso. Mas o que me alegra é que ela sempre tenta, tem iniciativa e corre atrás. Não senta no chão e chora. Dá o seu melhor. E, quando consegue… seus olhos brilham e o sorriso de felicidade contagia. Naturalmente, sou o primeiro a ser contagiado.

Ela também é muito edificada pelo “não”. Quando quer que papai compre uma guloseima, um brinquedo ou qualquer outra coisa, na maioria das vezes sou obrigado a me recusar. “Desculpe, filhinha, papai está sem dinheiro”. Ela fica triste, por vezes insiste ou até chora, mas sou obrigado a manter o meu “não”. Isso tem mostrado a ela que a vida muitas e muitas vezes não nos dará o que queremos. É simples assim e temos de nos conformar com os dissabores que virão pela frente.

Hoje, quando ela fala “pa-paaaai…” não é mais para pedir facilidades. É sempre para pedir um abraço, um beijo, uma demonstração de afeto. Pois em seu curto tempo sobre a terra já descobriu que um pai não é uma mina de bênçãos, mas alguém que mostra caminhos, está presente nas emergências e, acima de tudo, é uma fonte inesgotável de amor. Aliás, deixe-me consertar: nem sempre é para pedir um abraço, um beijo, uma demonstração de afeto. Muitas vezes, é para oferecer um abraço, um beijo, uma demonstração de afeto. Pois ela já aprendeu que um pai que orienta, ampara e está sempre junto nas dificuldades – em vez de fazer as coisas por ela – toma essa atitude por amor. E ela se sente amada em toda e qualquer dificuldade.

Mais do que nunca, hoje acredito que o mesmo se dá com o Pai celestial.

Quando olho para as dificuldades da vida tenho a nítida sensação de que Deus faz o mesmo conosco. Ele não nos dá as coisas de bandeja. Permite que cadeiras e pianos fiquem no caminho e pergunta “e agora? Como você vai resolver isso?”. Pois creio que o Senhor quer que cresçamos, amadureçamos, nos solidifiquemos. Moleza não nos ajuda em nada. Tenho primos cujos pais eram os mais ricos da família, foram mimados a vida inteira e ouvi mais de uma vez meus tios dizerem que “queriam dar a eles aquilo que eles próprios não tiveram”. Hoje meus tios não estão mais entre nós. E de todos os primos da familia logo esses são os mais desajustados, sem rumo na vida, perdidos. Pois não passaram pela escola da dificuldade.

Não, não creio que o diabo nos infernize tanto quanto imaginamos. Pois ele não é bobo e sabe como as dificuldades nos fazem crescer e nos aproximam de Deus. O que é tudo o que Satanás não quer. O objetivo do diabo é que nossas almas vão para o inferno e não que nosso carro quebre ou percamos o emprego. Acredito muito mais que o inimigo quer nos dar boa vida aqui para perecermos mais adiante do que criar mil dificuldades que nos façam crescer. Simplesmente não faz sentido. Se tudo está calmo demais nos meus dias… começo a desconfiar. Quando Satanás fustigou Jó foi para que blasfemasse contra Deus e não porque queria sadicamente ver aquele homem sofrer. Satanás, acredite, não é tão raso assim. Ele pensa grande, pensa lá na frente e age sempre preocupado com a eternidade. Deus também.

Deus permite que no mundo tenhamos aflições. Mas ele está sempre ao nosso lado, para nos dizer “mas tende bom ânimo…”. Deus permite a dor e o sofrimento, mas está com as mãos sempre a um palmo de nós, para nos dizer “a minha graça te basta”. Deus permite que passemos por situações em que nos sentimos perdidos num labirinto, sem saber para onde ir ou o que fazer, mas Ele está conosco todos os dias, até a consumação do século, para nos dizer “entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele…”. Deus permite grandes apertos, para que nos tornemos cristãos maduros na fé o suficiente a ponto de dizer  “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!”

O título deste post é “Superando as dificuldades da vida”. Mas, pensando bem… não tenho muita certeza se superá-las é o que Deus deseja de nós. Creio que aprender com elas seja algo muito mais produtivo para a eternidade.

As dificuldades da vida não são prova de que Deus nos abandonou. As dificuldades da vida não são prova de que Deus é mau. As dificuldades da vida não são prova de que Deus abriu mão de sua soberania. As dificuldades da vida não são prova de que Deus não existe. As dificuldades da vida não são prova de que Deus quer nos castigar.

Por tudo o que já vivi como pai, hoje creio firmemente que as dificuldades da vida são, isso sim, uma das maiores provas do amor de Deus por nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

O blog APENAS, após 1 ano e 6 meses no ar, alcançou a marca de meio milhão de acessos. Isso significa que foram realizadas mais de 500 mil leituras dentre as 204 reflexões aqui postadas (sem considerar os irmãos que assinam e recebem os posts direto por e-mail). Como tudo isso são números, é uma excelente oportunidade para pensarmos sobre o assunto, tão controverso no que tange à Igreja: números são relevantes para o Evangelho? Muitos seguem a linha de que o importante é ganhar o maior número possível de almas para Cristo, portanto igrejas abarrotadas de gente e grandes eventos seriam sinal de sucesso na obra de Deus. Assim, se certa igreja ou ministério cresce em quantidade de membros, tamanho do santuário, número de congregações ou conta bancária, então supõe-se estar agradando a Deus. Já outros tantos defendem que o que importa é a qualidade dos discípulos, que é preferível ter grupos, comunidades ou igrejas pequenas e bem pastoreadas, de modo que o líder possa estar mais próximo de cada ovelha, mesmo que não haja tanta multiplicação de membresia. Afinal: em se tratando do Evangelho o que importa é quantidade ou qualidade?

O grande erro que muitos cometem é achar que temos de escolher entre um ou outro. Mas não temos. Essa não é uma questão de escolha, mas de prioridade. Ou seja: o que tem mais peso.

Claro que quantidade importa, no sentido que todos queremos que o maior número possível de almas seja resgatado do inferno. Negar isso seria hipocrisia. Mas defendo que a qualidade é infinitamente mais importante – e explico por quê. Não fico impressionado por shows e cruzadas que reúnem milhares de pessoas. Catedrais suntuosas também não enchem meus olhos, só me mostram que certo grupo eclesiástico teve dinheiro suficiente para realizar aquela obra. Megaigrejas não me geram interjeições: são paredes grandes e só. Meu blog ter tantos mil acessos em xis meses muito menos me faz sentir especial – nada de bom que escrevo seria escrito sem a iluminação do Espírito Santo. Nada disso me toca, e por uma simples razão: não consigo enxergar na Bíblia base para dizer que arrebatar multidões é o propósito do Reino de Deus.

Repare: em Mateus 22.14 descobrimos que “muitos são chamados, mas poucos, escolhidos”. Já em Mateus 7.13,14, Jesus escancara: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela”. Leia com calma e veja que verdade fulminante: poucos são os escolhidos. Poucos são os que entram pela porta da vida. Em outras palavras: poucos são os que vão para o Céu. E, se há milhões nas igrejas, isso só significa que muitos dos que estão ali não vão entrar na Glória de Cristo. São membros de igrejas mas não são salvos. Isso me entistece tanto quanto a você, mas é uma dedução lógica e óbvia, a partir do que Jesus afirmou – e da qual não há como fugir simplesmente porque me dói.

Que diferença entre essas afirmações de Jesus e as frases triunfalistas que dizem que vamos “ganhar o Brasil para Cristo”, não é? Chocado? Você ainda acha difícil crer que poucos serão salvos? Então preste atenção ao que o próprio Cristo diz a esse respeito, em Lucas 13.23-27: “Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos? Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão. Quando o dono da casa se tiver levantado e fechado a porta, e vós, do lado de fora, começardes a bater, dizendo: Senhor, abre-nos a porta, ele vos responderá: Não sei donde sois. Então, direis: Comíamos e bebíamos na tua presença, e ensinavas em nossas ruas. Mas ele vos dirá: Não sei donde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais iniquidades”. É uma verdade dura: muitos dos que frequentam igrejas e se acham salvos não são. As catedrais podem estar abarrotadas, mas o Paraíso terá bem menos gente do que se supõe. Você, atônito, pergunta então: “Mas e aí? O que essa percepção deve provocar em nós?”.

Primeiro, em nada isso deve diminuir nosso fervor evangelístico. Pois você nunca sabe quem será salvo. Então temos que seguir pregando a tempo e fora de tempo para toda criatura. Mas… não só pregar, como Marcos 16 parece sugerir. Pois Mateus 28.19,20 nos mostra a Grande Comissão como um todo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”.

A grande missão da Igreja não é, assim, ganhar almas: é fazer discípulos. E discípulos não são pessoas que frequentam aulas pré-batismais. Discípulos são gente que vai caminhar por anos, ombro a ombro, com cristãos mais experientes, aprendendo na convivência a ser um servo bom e fiel de Jesus de Nazaré. Para se formar um discípulo é preciso tempo, dedicação, atenção, abnegação. E não é possível fazer isso com multidões sem nome. Só se faz isso em grupos onde há possibilidade de os irmãos se relacionarem intimamente.

Nas igrejas faraônicas isso não ocorre. Grandes números impossibilitam isso. Imagine que cada pessoa que lê os posts que escrevo no APENAS me mandasse um e-mail com questões pessoais ligadas a cada texto. Só no dia em que publiquei, por exemplo, o recente artigo  “Perfeito amor“, teria de responder a mais de 3.100 e-mails – o que é virtualmente impossível. Imagine então, o pastor de uma igreja com 3.100 membros… como os pastoreará? Como dará atenção a cada um? Como os visitará em casa? Como os conhecerá pelo nome e sarará suas feridas?

Uma pergunta fundamental que envolve essa discussão e que, portanto, devemos nos fazer é: o que faremos ao chegar no Céu? Muitos têm aquela imagem de que vamos nos deitar em edredons de nuvens fofas e ficar de papo pro ar pela eternidade. Não creio. Nós passamos nove meses na barriga de nossa mãe sendo formados e preparados não para permanecer ali, mas para desempenharmos bem nossa vida pós-nascimento. E penso que passamos 70 anos, em média, nesta terra sendo formados e preparados para desempenharmos bem nossa vida pós-morte. Haverá coisas a se fazer no Céu. E penso que esta vida existe tão somente como uma preparação para a próxima. Meus erros e acertos nesta terra servem para formar o caráter que terei no dia em que, pela graça de Deus, entrar pelos portões do Paraíso – despido, já, da natureza pecaminosa corruptível.

Por tudo isso penso que Deus quer salvar pessoas para que sejamos bem preparados, nos tornando, assim, discípulos fieis. Não consigo ver o Senhor convocando um enorme exército despreparado para estar com ele na eternidade. O vejo mais separando para si um destacamento de elite, como era a guarda pretoriana na antiga Roma. Poucos, mas bem preparados. Poucos, mas espirituais. Poucos, mas santos. Poucos, mas cheios do fruto do Espírito. Poucos, mas que demonstram um autêntico amor pelo próximo. Poucos, mas que carregam consigo as cicatrizes de uma vida de aprendizado adquirido com muito suor, dor, pecados seguidos de arrependimento, perdões, humilhações e outros fatores que formam nosso caráter cristão.

Não, números não me enchem os olhos. Simplesmente porque não creio que encham os de Deus. Pastor querido, você se gaba de que sua igreja tem muitos membros? A pergunta certa é: como é a qualidade da vida espiritual deles? Quando quebro um braço, prefiro ter um único médico bem preparado ao meu lado do que mil pessoas que não sabem engessá-lo.

Chegamos a meio milhão de acessos. Louvo a Deus por isso. Mas se há qualquer mérito neste blog não está nem nas qualidades extremamente questionáveis do pecador que aqui escreve textos e muito menos no número de assinantes ou de cliques. Pois, se as milhares de pessoas que passaram por aqui leram algum texto mas nada mudou para melhor em suas vidas, o APENAS tem como único número relevante o seu valor: zero à esquerda. Mas se houve 1 só alma que foi abençoada, edificada, incomodada, transformada ou levada ao arrependimento pelas palavras aqui escritas… então o blog teve algum valor para o Reino de Deus. Qualidade acima de tudo. E, se houver quantidade com qualidade, ótimo.

Pois o que importa para qualquer espaço onde se fale do Evangelho – seja uma igreja, um livro, uma revista ou um blog – é aproximar almas humanas de Deus e torná-los mais íntimos um do outro. Se um blog tem 500 mil acessos e não aproxima ninguém de Deus nem ajuda a sarar as feridas da alma humana, seria preferível ter tido apenas 1 acesso com consequência. Pois, ao fazer isso, teria cumprido a razão da existência do homem e de tudo o que fazemos: glorificar Deus. Porque nada que você faça na vida vai glorificar mais ao Senhor do que amar o próximo e conduzi-lo à intimidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio.

Sou apaixonado pelos filmes de Charles Chaplin. Para mim é o melhor cineasta de todos os tempos e “Luzes da Cidade” é meu filme favorito. Sua sequência final, quando a florista cega tenta lhe dar uma esmola, é minha predileta da história do cinema. Chaplin tem outro filme genial, “O Garoto” (foto). Nunca me esqueço de uma cena desse longa-metragem em que o menino adotado por Carlitos tenta repetidamente se aproximar dele após aplicarem um trambique e, como há um policial por perto, Carlitos o empurra para longe com o pé. Novamente o menino volta e é enxotado. E assim faz para que o garotinho que ele ama não seja descoberto como participante do golpe. Na nossa vida muitas vezes precisamos tomar atitudes semelhantes: empurrar para longe aqueles que amamos e gostaríamos de ter por perto se for o melhor para eles – e até machucar, se isso for redundar em algo espiritualmente mais excelente. Machucar quem nos é caro para o próprio bem dessa pessoa.

Pus aqui esse trecho de “O Garoto” para você visualizar.  Merece atenção o take final, quando o menino tenta caminhar junto com Carlitos mas, por amor, é afastado de forma nada gentil. Se quiser assista e, em seguida, continuamos. Tem menos de 3 minutos.

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Em Gênesis 27 vemos o trambique que Jacó passa em seu pai, Isaque, para receber sua bênção, tendo a mãe, Rebeca, como cúmplice. Irado, ao descobrir o ocorrido Esaú planeja matar o irmão. Para que Jacó não seja morto, por amor sua mãe decide enviá-lo para longe de si. Literalmente diz a ele para se exilar. Ela não afasta o filho porque o odeie ou coisa parecida, mas por cuidado e para zelar pelo futuro dele. Nesse caso, afastá-lo é uma expressão de amor.

Em nossa vida, muitas vezes temos de tomar a decisão de afastar ou machucar pessoas que amamos para o próprio bem delas – usando aquilo que apelidei de “psicologia impetuosa”. Conversei, algum tempo atrás, com uma senhora, mãe de um pastor da Assembleia de Deus, que me relatou o que teve de fazer para proteger o filho e salvaguardar o futuro dele. Ainda adolescente, o rapaz ingressou no tráfico de drogas. Em seu primeiro dia de serviços prestados aos bandidos, ele, ao chegar ao barraco em que morava somente com a mãe, contou-lhe que tinha se unido ao “movimento”. Ela tentou argumentar de todos os modos para demovê-lo da ideia. Como viu que não cederia, a mãe tomou uma atitude extrema: caminhou até ele e tascou um bofetão em sua cara. E disse: “Suma desta casa e, enquanto não deixar essa vida, você não é mais meu filho”. No dia seguinte o jovem procurou o gerente do tráfico e explicou a situação. Como mães são muito respeitadas pelos traficantes, recebeu autorização para deixar o bando. Retornou para casa. Hoje esse homem é um pastor, pai de família. Essa senhora, agora uma velhinha de cabelos brancos, me disse a frase que me fez pensar muito: “Às vezes machucar é um gesto de amor”.

Apliquei a “psicologia impetuosa” com minha filha de menos de dois anos uma só vez depois de ter tido essa conversa. Não gostei, mas foi preciso. Ela cismou em brincar com facas. Sempre que tinha oportunidade dava um bote e pegava a faca de meu prato. Apavorado com o que aquilo poderia provocar fiz de tudo o que podia. Conversei. Expliquei. Cortei cascas de banana na frente dela para mostrar o que aquele objeto poderia causar. Mas nada adiantava. O amor delicado não estava resolvendo e comecei a temer que em algum momento ela pegasse uma faca sem que eu visse, com possíveis resultados desastrosos. Foi quando, certo dia, ela mais uma vez esticou a mão para pegar a faca em meu prato. Dessa vez eu lembrei-me daquela frase: “Às vezes machucar é um gesto de amor”. Então não falei nada. Tomei delicadamente a faca, pus fora de seu alcance e somente saí da sala, algo que nunca faço durante as refeições. Ela ficou me olhando, confusa. Chamou-me em voz baixa algumas vezes, propositadamente sem resposta. Até que foi atrás de mim no quarto. Eu estava cabisbaixo, honestamente entristecido e sem saber mais o que fazer. Quando viu as lágrimas descendo pelas minhas bochechas ela arregalou os olhos. Não escondi dela meus sentimentos. E lhe disse algo que sabia ser duro, mas que tinha certeza que teria um impacto sobre ela e provocaria uma reação: “Filhinha, quando você desobedece o papai arrebenta o meu coração”. Ela ficou paralisada. Depois veio até mim e deu um beijinho no meu joelho, muda, pensativa e visivelmente triste. Vi que ela estava transtornada e que eu disse algo que doeu fundo em sua alma. Pode parecer uma atitude forte, só que foi motivada não por maldade, mas por puro amor. Daquele dia em diante nunca mais ela quis pegar uma faca. Sei que de certo modo a machuquei. Mas foi uma medida extrema pelo próprio bem dela.

Lucas 22 nos fala de uma atitude semelhante de Jesus. Ele havia dito a Pedro que na mesma noite, antes que o galo cantasse, o negaria três vezes. É exatamente o que ocorre. E o que se passa depois disso é o que me estremece: “Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo. Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente”. Você consegue imaginar esse olhar de Jesus? E consegue imaginar o que Pedro sentiu naquela hora? Que dor terrível! Mas… você já parou para pensar que o Mestre sabia exatamente o que provocaria em seu amigo lançando-lhe aquele olhar fixo e perfurante? Será que Jesus era sádico e machucou o apóstolo pelo puro prazer de deixá-lo mal? Não creio. Para mim, aquilo era pura “psicologia impetuosa”. Jesus amava tanto Pedro que queria levar aquele homem a um estado de alma que o fortalecesse e o preparasse para o que viria pela frente. Pois Ele sabia o quanto o amigo teria de ser firme para enfrentar as perseguições, os sofrimentos, as prisões e tudo o mais que aconteceria em breve para propagar o Evangelho sem esmorecer. Então creio com convicção que Jesus lançou o olhar que destroçou Pedro por dentro e o fez chorar amargamente para que seu discípulo seguisse o caminho mais excelente. Por amor.

Machucar por amor. Magoar por amor. Entristecer por amor. Que coisa estranha. Que aparente contradição. Mas que eficiente, em certas circunstâncias. Por vezes um salva-vidas precisa dar um soco em quem está se afogando para poder salvá-lo, caso o indivíduo esteja histérico e pondo a vida dos dois em perigo. É um soco pelo bem do outro e nao por desejar o mal. O ideal é que nunca tenhamos de aplicar isso. Só que, em situações extremas… é necessário, infelizmente. Melhor empurrar quem amamos com a perna do que deixá-lo ser levado para um reformatório. Carlitos sabia disso. Aos nossos olhos, ele estava enxotando como um cachorro aquela pobre criança. Aos olhos de seu coração, estava protegendo e resguardando quem amava. Se você continua assistindo ao filme vê que grande amor aquele homem tinha pelo garoto.

Que grande amor Deus tem por mim e por você. Mas às vezes ele nos machuca como um gesto que expressa esse amor. Se não fosse isso, como explicar realidades como “Eu repreendo e disciplino a quantos amo” (Ap 3.19)? Como justificar Jesus dizer “esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus” (Jo 11.4)? Como entender o Pai ter feito um homem nascer cego “para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3)? Sadismo divino? Maldade celestial? Não. A mais pura expressão de amor: uma dor momentânea, uma tristeza aguda, uma mágoa sofredora… em nome de algo muito mais excelente.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício