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copa do mundo1Assim que o Brasil perdeu para a Alemanha por 7 x 1, nas semifinais da Copa do Mundo, comecei a ver muitas pessoas questionando qual seria a explicação para uma derrota tão inexplicável. Justamente por ser “inexplicável”, todos buscavam explicar. Qual seria a explicação por tantos erros? A pergunta foi feita aos jogadores logo na saída do gramado, na zona mista, na primeira coletiva com Felipão, na segunda coletiva com Felipão, nos jornais e telejornais, nas entrevistas com pessoas nas ruas do país e do exterior e em todo ambiente em que a questão era levantada. Até na entrevista coletiva com Neymar, em sua visita à Granja Comary após a goleada, fizeram a mesma pergunta, a que ele respondeu “Foi uma coisa inacreditável, inexplicável. Eu não consigo explicar, não tem o que explicar”. Em meio a todas as opiniões, ouvi de tudo: a culpa foi da escalação, do estado emocional dos jogadores, do esquema tático, do fato de o Brasil jogar em casa, da ausência de Neymar e Thiago Silva… enfim, na ânsia de explicar aquela sucessão de erros, as pessoas buscaram todo tipo de resposta, como é natural ao ser humano – afinal, não basta um evento ter ocorrido, ele tem sempre de ser explicado de forma lógica e racional. Eu preferi ouvir bem o falatório e refletir antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto. Depois de ter escutado tantas explicações para tantos erros, cheguei às minhas próprias conclusões e acredito ter encontrado a resposta bíblica para o fato de uma seleção formada por jogadores profissionais, que atuam nos melhores times do mundo, treinada por uma comissão técnica que conta com os últimos dois técnicos campeões do mundo pelo Brasil, ter perdido de forma tão avassaladora, cometendo tantos erros.

E a explicação é simples. Eles erraram tanto pela mesma razão que eu e você erramos tanto: errar faz parte da natureza humana.

O ser humano é imperfeito. Somos pecadores. Deslizes, transgressões e falhas são consequência natural da queda da humanidade. Nesse ponto, a derrota da seleção brasileira aponta para uma grande realidade de toda e qualquer pessoa: não importa o quão preparado você esteja, não importa quanto você tenha acertado antes, não importa se você já saiu vitorioso de tantas situações que no passado chegou ao topo do pódio muitas vezes, não importa nem mesmo se você tem uma vida de fidelidade a Deus e de santidade (como muitos dos jogadores da nossa seleção, que são cristãos fiéis a Cristo). Nada importa. Porque a realidade é que, se você é gente, um dia vai errar. E pode ser que erre muito feio.

copa do mundo3Davi (não o zagueiro, o rei) levantou a taça na disputa contra Golias, em seu comportamento com relação a Saul, em suas muitas vitórias contra os inimigos, em sua atitude diante de Abigail… ele era o cara. Um craque. Só que chegou o dia em que mostrou que, como absolutamente todo ser humano, era capaz de errar. Resultado: tomou de 7 x 1 quando mandou matar Urias e se deitou com Bate-Seba. O tempo se passou e, tempos depois, nova derrota de lavada: 7 x 1 no episódio do recenseamento. Os repórteres da época podem ter realizado mesas redondas para discutir a causa daquilo, em busca de uma explicação. Nas manchetes de jornal, se lia “Vexame: Davi perde de 7 x 1″. Como explicar o inexplicável? Como explicar que o homem segundo o coração de Deus, que fora campeão tantas vezes no passado, perdera de forma tão vexaminosa? A resposta: Davi era humano. E Davi errava.

O mesmo aconteceu com cada grande homem de Deus que já falhou ao longo da história. Abraão tomou de 7 x 1 ao fingir que Sara não era sua esposa. Jacó perdeu de 7 x 1 ao enganar seu irmão. Moisés perdeu de 7 x 1 no episódio das águas de Meribá. Sansão perdeu de 7 x 1 ao se casar com uma estrangeira. Pedro perdeu de 7 x 1 ao negar Cristo. Paulo perdeu de 7 x 1 tantas vezes que se apresentava como “o pior dos pecadores”. Eu e você perdemos muitas vezes de 7 x 1 em nossa caminhada de fé, mesmo depois de nossa conversão. Todos perdem de 7 x 1 pela mesmíssima razão: somos pecadores, erramos.

copa do mundo2Não parece inexplicável que um cristão que verdadeiramente ama a Cristo e que por décadas viveu de forma correta um dia cometa erros terríveis? Não nos deixa chocados e com cara de arquibancada derrotada saber que um pastor famoso pagou propina a fiscais ou faltou com seu sigilo pastoral? Não nos lança em lágrimas tomar conhecimento que aquele irmão exemplar da igreja falhou em seus votos matrimoniais? Não nos abate e nos dá vontade de sair do estádio antes do fim do primeiro tempo quando percebemos que nós mesmos perdemos de 7 x 1 para o pecado de forma que não sabemos explicar? A verdade é que, quando essas coisas acontecem, buscamos e até mesmo encontramos muitas explicações. Só que, na raiz de tudo, a explicação é só uma: somos miseráveis pecadores, perdidos, falhos, transgressores. Erramos.

A seleção brasileira perdeu de forma vergonhosa. Não tem mais volta, a Copa acabou e aquela derrota acachapante ficará para sempre marcada na história. Nossos netos nos perguntarão sobre aquele dia e jamais se poderá fazer nada para mudar o que aconteceu. O 7 x 1 para a Alemanha é eterno. Mas há uma diferença entre esse 7 x 1 e o nosso 7 x 1. No nosso caso, essa derrota não precisa marcar nosso futuro. Pois, no campeonato da cruz, existe uma regra que diz que, se a graça de Jesus nos alcança, a partida em que perdemos de goleada pode ser eliminada da tabela de nossa vida. Se nos arrependermos de nossos pecados, os confessarmos e nos dispusermos de todo coração a não mais os cometermos, aquele jogo é deletado do nosso histórico de partidas. “Quem é comparável a ti, ó Deus, que perdoas o pecado e esqueces a transgressão do remanescente da sua herança? Tu, que não permaneces irado para sempre, mas tens prazer em mostrar amor. De novo terás compaixão de nós; pisarás as nossas maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar” (Mq 7.18-19).

Jesus convida cada um de nós a retomar a trajetória que pode nos levar ao lugar mais alto do pódio, por meio de uma regra chamada perdão. Em última análise, ficar buscando explicações para o seu pecado não adianta nada, ele é inexplicável. O pecado é uma força avassaladora que nos arrasta e nos faz cometer atitudes inexplicáveis, como Paulo explicou muito bem: “Tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7.18-20).

Você tomou de 7 x 1 de sua natureza falível e pecaminosa? Foi humilhado, sente-se envergonhado, não tem coragem de olhar as pessoas ou mesmo Deus nos olhos? Assim como David Luiz, você só tem vontade de sair de campo, repetindo vez após vez “Desculpe… desculpe… desculpe…. desculpe…”? Então saiba que Jesus olha para você, com uma taça daquele ouro que não derrete estendida para te entregar. Ele olha no fundo de seus olhos e diz: “Está arrependido? Então esse jogo de 7 x 1 será apagado da sua história. Eu te perdoo. Eu não te condeno. Agora vá e não peque mais”.

copa do mundo4Você toma a taça nas mãos e, mesmo tendo perdido de 7 x 1, descobre que, pela graça, pode erguê-la acima de sua cabeça, em direção aos céus, de sorriso no rosto e coração leve. Bem-vindo à vida eterna, campeão. Você não merece, pois não foi você quem venceu o mundo, mas ainda assim a taça é sua. Qual é a explicação? Parece inexplicável que pecadores tão terríveis como nós consigamos ser campeões e herdar a vida eterna? Bem, nesse caso, a explicação é só uma: Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o 7 x 1 do mundo. Ele venceu o mundo. E, se você foi convocado para jogar no time dele, isso faz de você um eterno vencedor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Rixosa1A Bíblia fala sobre um tipo específico de mulher, que merece nossa atenção: a mulher rixosa. Como essa não é uma palavra muito comum, temos de entender exatamente o que significa. Segundo o dicionário, “rixosa” é uma pessoa “que promove contenda”. Ou seja, uma mulher briguenta, que causa discórdia ou desavença, que com enorme frequência está de mau humor. Ela é irritadiça, explode por qualquer coisa, descarrega suas tensões e frustrações em cima dos outros, ira-se num piscar de olhos, tem sempre uma boa desculpa para despejar sua cabeça quente e falta de mansidão sobre os demais – eles que aguentem. Ela tem prazer em comprar briga. E, por tudo isso, é intragável. Bem… por que tratar especificamente desse tipo de mulher? Pois, acredite, é um dos tipos sobre os quais a Bíblia mais fala – certamente, não à toa.

Vejamos algumas verdades que as Escrituras expõem sobre a mulher que promove contendas: “Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa”. Essa mesma afirmação é tão séria que ocorre em duas passagens: Provérbios 21.9 e 25.24. O que esse versículo está dizendo é que a mulher rixosa é alguém tão insuportável que ninguém consegue conviver debaixo do mesmo teto com ela. Quando chega da rua, em vez de trazer alegria para o lar traz uma nuvem negra sobre a cabeça e contamina todos ao redor com seu mau humor crônico. É aquela que, quando você dá “bom dia” parece que ela responde “o que há de bom nele?!”. A mulher rixosa afasta os outros de si. Ela destrói seu casamento, leva os filhos à ira e sabota a harmonia do lar. Dificilmente ela cede e nunca admite que está errada. A culpa de tudo é sempre do outro – que, por isso, precisa ouvir umas boas verdades. Desculpar-se? Jamais, pois acredita que pedir perdão é diminuir-se em vez de engrandecer-se. Em suma, a mulher rixosa faz você querer estar em qualquer lugar do mundo, menos perto dela.

Morte6A Bíblia avança na descrição desse tipo de mulher: “Melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda” (Pv 21.19). Essa afirmação parece semelhante à anterior, elevada ao quadrado. Uma terra deserta não tem água, é um lugar onde você morre de sede. A comida é escassa, restrita a animais rastejantes e peçonhentos. De dia, o calor é abrasador, queima a alma, tira o ânimo, mata por desidratação. As noites são gélidas e congelam quem anda por ali. Uma terra deserta tem tempestades de areia que tornam a vida de quem está na região um inferno, pois açoitam sua pele, enchem seus orifícios de sedimentos, impedem a visão, tornam a caminhada impossível. O deserto é o último lugar do mundo em que você quer morar, porque a qualidade de vida ali é a pior que há. No entanto, a Bíblia diz que é melhor morar nesse local insuportável do que com uma mulher iracunda e rixosa. É… a coisa é grave.

Morte7Mas não para por aí. A sabedoria bíblica afirma: “O gotejar contínuo no dia de grande chuva e a mulher rixosa são semelhantes” (Pv 27.15). Os antigos chineses tinham um método conhecido de tortura, simples e eficaz. Quando capturavam um inimigo, o amarravam de modo que ficasse imóvel. Em seguida, punham uma fonte qualquer de água sobre a cabeça daquele pobre coitado, para que um gotejar contínuo caísse sobre o mesmo ponto de sua cabeça. Uma gota. Duas gotas. Três. Quatro. Vinte. Cem. Mil. Dez mil. E por aí vai. Não parece grande coisa, mas os relatos históricos revelam que essa simples forma de tortura, após dias seguidos de pingos intermináveis, era capaz de levar os torturados simplesmente à loucura. Isso mesmo. Guerreiros fortes e bem treinados, com resistência a grandes dores e sofrimentos, eram quebrados e enlouqueciam devido a um gotejar contínuo. E é a isso que o texto bíblico compara a mulher que vive em contendas. Em outras palavras: a mulher rixosa é capaz de te levar à loucura. Ela tira qualquer um do sério e a convivência com ela torna-se uma tortura insuportável.

Morte9A mulher rixosa age, portanto, de modo errado, indigno e vergonhoso. Muitas vezes vemos homens casados definharem depois de conviver por anos com esposas do tipo. Eles perdem o viço, o vigor, a alegria e, muitas vezes, a saúde. É fácil entender a razão: “A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que procede vergonhosamente é como podridão nos seus ossos” (Pv 12.4). Pela medicina, apodrecimento ósseo ocorre em algumas poucas circunstâncias. Uma é uma condição chamada osteonecrose, uma consequência da má circulação sanguínea dentro do osso, que causa a morte de células e tem como resultado o apodrecimento do osso e, consequentemente, fraturas e dor no local. A única solução para a osteonecrose é remover o osso e substituí-lo por uma prótese. A outra situação que faz o osso apodrecer? A morte. Deu para entender a que a Bíblia compara esse tipo de mulher?

A mulher rixosa vive de modo oposto ao que o evangelho propõe. Ela precisa urgentemente de uma mudança de vida. Já tratei aqui no APENAS do fato que não existem cristãos arrogantes (ver AQUI) e, do mesmo modo, não acredito que uma mulher rixosa tenha intimidade com Deus. Simplesmente porque a natureza de um cristão autêntico exclui totalmente o prazer por promover a contenda. Paulo admoesta que devemos fazer tudo “sem murmurações nem contendas” (Fp 2.14), logo, viver estimulando a rixa contraria a vontade divina. Provérbios 10.12 diz que “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões”. Vemos, então, que a rixa é fruto do ódio e, por sua vez, o ódio é contrário à natureza de Cristo, como deixam claro algumas passagens das Escrituras: “Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas” (1Jo 2.9); “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si” (1Jo 3.15). Por outro lado, o amor é a essência de Deus: “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1Jo 4.16).

Rixosa2Uma mulher rixosa, ou seja, que promove contendas, faz exatamente o contrário do que a Bíblia estipula como o comportamento ideal de uma mulher de Deus. Paulo condena as contendas em passagens como 2Timóteo 2.23, Romanos 13.13 e Tito 3.9. Em 1 Coríntios 3.3, o apóstolo de Cristo associa diretamente as rixas à carnalidade: “Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?”. Isso é totalmente corroborado por Tiago, quando o irmão de Jesus diz: “De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?” (Tg 4.1). Mais claro, impossível: ser rixoso é ser carnal – logo, é viver distante de Deus.

Meu objetivo ao chamar sua atenção para a deformação espiritual que é ser uma mulher rixosa é despertá-la para uma reflexão. Pense sobre a sua vida. Será que as pessoas vivem se afastando de você? Será que seu marido tem preferido ficar em qualquer outro lugar que não seja ao seu lado? Será que os irmãos fogem de sua companhia? Será que seus filhos evitam ficar muito tempo com você? Se a resposta a alguma dessas perguntas foi “sim”, não necessariamente significa que você é rixosa, pode haver outras explicações. Mas… pode ser que sim. Talvez as suas atitudes e o seu temperamento precisem ser reavaliados, o que é algo excelente: “Honroso é para o homem o desviar-se de contendas, mas todo insensato se mete em rixas” (Pv 20.3).

A boa notícia é que isso tem jeito. Se você perceber que tem vivido a insensatez do mau humor constante, saiba que rabugice tem cura. Um espírito belicoso tem cura. Uma alma amarga tem cura. E a cura tem nome: Jesus de Nazaré.

Rixosa3Jesus é o Príncipe da Paz. Ele é o manso Cordeiro. Ele é o Senhor dos exércitos que foi humilhado sem revidar. “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.29). Aproxime-se de Cristo. Procure crescer em intimidade com ele. Busque-o na oração e no estudo de sua Palavra. Viva uma vida com Deus. Negue-se a si mesmo e siga-o. Aprenda a pedir perdão, isso não diminui ninguém – muito pelo contrário. Reconheça seus erros, pois só almas grandiosas são capazes disso. Fale palavras de edificação e afirmação e não de diminuição e destruição. Aprenda a dar o braço a torcer. Ceda. Prefira os outros em honra. Sorria. Ame.

Se Cristo fizer morada no seu coração, os seus pensamentos se tornarão os pensamentos de Jesus, a sua mente será renovada e você se tornará uma mulher exemplar, como a de Provérbios 31.10-31: amada por todos, elogiada e que deixa um rastro de alegria e vida por onde passa.

Ah, sim: se você é um homem rixoso, não pense que está em melhor situação. Tudo o que leu neste post se aplica a você também.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

foto.PNG Gosto muito de pôr minha filha para dormir. Temos uma espécie de ritual entre o instante que deitamos em sua cama e o momento em que ela pega no sono: começamos lendo livros juntos, eu conto histórias que invento, brincamos de coisas como sombra na parede e, por fim, oro por ela cantarolando uma oração, usando melodias de músicas calmas e tranquilas com palavras de intercessão. Em geral, ela adormece enquanto canto a oração, deitado ao seu lado. Geralmente, na hora de cantar, para deixá-la mais confortável escorrego para baixo no colchão e fico com a cabeça na altura de sua cintura, quase que aos seus pés. Isso permite que ela tenha mais espaço para esparramar os braços e também me facilita sair da cama quando minha filha dorme sem esbarrar demais nela e correr o risco de acordá-la. Domingo passado, seguimos essa mesma rotina. No momento em que eu estava cantarolando a canção, ela, já sonolenta,  virou-se para mim e sussurrou:

- Papai?

- Sim?

- Chega mais pra cima.

E abriu os braços. Eu sorri e, suavemente, pus minha cabeça no peito dela. Minha filhinha de três anos aconchegou o papai, pôs sua mão na minha e envolveu meu pescoço com o bracinho. Ali fiquei eu, recebendo aquele amor em forma de proximidade e toque, até que, algum tempo depois, senti sua respiração mais pesada e percebi que tinha adormecido. Quando estava aos pés dela, já articulava como eu faria para escapulir dali e ir fazer outras coisas. Mas, quando fiquei naquela posição de paz e extremo afeto, toda vontade de sair desapareceu. Tudo o que eu queria era ficar e desfrutar daquele amor.

cima1Se você é cristão, isso significa que vive aos pés de Jesus. Assim como Maria, a irmã de Lázaro, você se deleita em estar aos pés do Mestre, aprendendo dele, adorando e exaltando o seu amado. É um lugar confortável, pois permite que você esteja em postura de submissão, reverência, amor e servidão ao Senhor mas, ao mesmo tempo, com mobilidade para esticar os braços, mexer as pernas e até se levantar e ir embora, se desejar. Estar aos pés de Cristo é uma posição desejável ao servo de Deus, é digna e demonstra um relacionamento fiel ao Salvador.

Você vive aos pés de Jesus? Ótimo. Só que, às vezes, isso não basta. Pois é bem possível que, em determinado instante, você ouça o Mestre lhe falar:

- Chega mais pra cima.

Ao falar isso, o que Deus quer dizer é que ele anseia por mais do relacionamento de vocês. É quando ele deixa claro que não deseja que você fique apenas aos seus pés, mas que vá para o seu colo. E, do colo, para o abraço. Em outras palavras, o Senhor quer te elevar para um patamar de maior intimidade com ele.

Num primeiro momento, você pode estranhar o processo de elevação. Quando deitei no peito de minha filha, demorei um certo tempo até ficar confortável, pois tinha medo de pesar sobre ela ou de machucá-la com meu ombro, por isso fiz uma certa força para não pressionar demais seu corpinho. Embora fossem um lugar e uma situação deliciosamente agradáveis, havia um certo desconforto envolvido. Quando Deus nos convida para subir de seus pés e repousar a cabeça em seu peito ou descansarmos em seu abraço, há a probabilidade de que fará isso por caminhos que te deixarão desconfortável ou mesmo assustado.

Engraving of  by Dore, 1866Veja o exemplo de Jó. Toda a situação que ele enfrentou tinha apenas um objetivo, traçado no coração de Deus: fazer com que aquele servo fiel fosse elevado a um patamar superior de intimidade com o Senhor. Repare que Jó vivia aos pés do Pai: a Bíblia o define como um “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1.1). Estar mais aos pés do Todo-poderoso do que isso é difícil, quem me dera poder ser definido dessa maneira. Ao final do processo de elevação, porém, aquele mesmo servo fiel diz: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42.5). Você consegue perceber que transformação ocorreu no nível espiritual dele, que diferença? Embora vivesse em integridade, retidão, temor e santidade, Jó ainda estava apenas aos pés de Deus. Era preciso mais. O Pai queria que seu filho fosse para um outro nível de intimidade. Então ele diz:

- Chega mais pra cima, Jó.

E Jó enfrenta um processo longo e doloroso, mas que o eleva ao patamar de onde podia ver o Senhor com os olhos. Pense agora no menino mimado José, escolhido para viver uma grande experiência com Deus. O problema é que ele era extremamente imaturo. Foi preciso passar por escravidão, servidão, calúnia e prisão para alcançar o nível que o Senhor queria.

- Chega mais pra cima, José.

E lá foi o filhinho riquinho de Jacó amarrado como um bicho numa caravana de escravagistas estrangeiros, esforço importante para que ele deixasse de ser playboy e virasse um homem de Deus. Paulo de Tarso era outro que vivia aos pés do Senhor, mas de maneira completamente errada. Zeloso e dedicado a Jeová, perseguia cristãos e os prendia, como serviço ao Deus de quem só via a sola dos pés. Mas, então, Jesus aparece e lhe diz:

- Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões. Agora… chega mais pra cima.

E lá foi aquele homem, agora cego, deprimido, abatido, mas com sua mente renovada para experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. O fariseu Paulo tinha sido elevado a um nível de intimidade em que foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é permitido falar. A ponto de dizer, com segurança, ao final de sua vida:

- Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.

cima2Muitas vezes, atravessamos períodos de muita dificuldade, de esforço, sofrimento e falta de paz. Culpamos o Diabo, xingamos a vida, brigamos com Deus. Somos acusados de falta de fé, pecado, frieza espiritual. Não entendemos nada, ficamos sufocados pelas circunstâncias, questionamos o Pai: como pode um servo fiel como eu passar por tudo isso?! Se esse é o seu caso, procure o Senhor com serenidade, em oração e pelo estudo da Santa Palavra. De repente, tudo o que está enfrentando faz parte de um processo doloroso, mas necessário, para elevar você a novos patamares de intimidade com o Criador. O objetivo divino é tirá-lo dos pés e colocá-lo no abraço de Cristo. Tudo o que você precisa fazer para aguentar firme e superar essa fase é afinar seu espírito com o Espírito Santo e ouvir o sussurro suave daquele que nos ama com amor incompreensível:

- Chega mais pra cima, filho meu. E vem para o abraço do teu Pai…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Desista1É muito comum ouvirmos em nosso meio evangélico que o cristão em tudo deve perseverar, que precisa buscar seus sonhos e nunca, sob nenhuma circunstância, desistir. Não creio nisso. Simplesmente porque a Bíblia não diz isso. A perseverança deve ser na santidade e na obediência, sempre. “Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida” (Ap 2.10). Mas, em se tratando de sonhos humanos, isso não se aplica. Lendo as Escrituras, vejo que o cristão deve ter ciência de que, em certas situações, chega um momento em que precisa desistir, abrir mão do que ele quer. Podemos ver muitos exemplos, como o de Jesus, que desistiu de pedir ao Pai que afastasse dele o cálice do sofrimento (Mt 26.36-46). Ou Paulo, que desistiu de orar a Deus pedindo que tirasse o espinho de sua carne (2Co 12.7-10). Sim, há ocasiões em que o Senhor espera que nos conformemos e entreguemos os pontos. Certas esperanças não devem ser alimentadas, em especial porque nosso coração é enganoso e não sabemos muitas vezes qual é a vontade divina. Assim, se o que almejamos difere do que Deus almeja, tenha a certeza: o melhor é desistir. Perca a tua esperança, pois ela está depositada em algo que não condiz com o querer do Senhor.

A pergunta imediata que se segue é: como posso saber se meu sonho está de acordo com que Deus quer? Há dois critérios principais: o que a Bíblia diz e a paz no coração.

A vontade de Deus está revelada nas Escrituras. Então conheça a Bíblia. Estude-a. Veja os princípios que ela defende. Nem sempre há uma resposta objetiva para a sua situação, mas há princípios bíblicos que podem responder teu questionamento e nortear teus sonhos e tuas metas. A resposta nem sempre vem num versículo claro, mas num conceito transmitido ao longo de toda a Escritura. Por exemplo: não existe nenhuma passagem bíblica que fale que não devemos fumar crack, mas há um princípio claro acerca dos cuidados que devemos ter com nosso corpo e com nossa mente. Ou, então, você tem aquela dúvida que assola milhões de solteiros: devo namorar aquela pessoa que não é cristã, na esperança de que ela vai se converter? É para persistir nesse relacionamento ou não? Aí você vai à Bíblia e vê que ela é clara sobre o fato de que esse é um namoro em jugo desigual (2Co 6.14-16), mas a Escritura não te dá a certeza de que o (a) jovem será salvo (a). Na dúvida, vá no certo, desista do erro (até porque Deus não precisa que você namore ninguém para que aquela alma seja alcançada, se o Espírito de Deus quiser salvá-la usará até uma mula).

O segundo critério é a paz no coração. Paulo escreveu: “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração” (Cl 3.15). Portanto, se você vive uma situação de constante atribulação, é hora de pegar o primeiro retorno e dar no pé. Isso acontece muito, por exemplo, em relacionamentos afetivos. Sabe esses namoros que mais parecem dramalhões mexicanos, com arroubos de sofrimento, fins e recomeços, rompimentos dramáticos e voltas novelescas? Onde está a paz? Se não há paz, não insista, desista. Ou quando tem de fechar um negócio mas fica em agonia sobre se assina o contrato ou não? Ou, ainda, na decisão entre seguir a carreira que vai realizar você ou a que vai te dar dinheiro? Não insista no que agonia, desista.

Desista2Quando comecei a pensar no assunto para escrever este post, calhou que assisti ao belíssimo filme “A vida secreta das palavras”. Durante o longa-metragem, um personagem menciona um livreto curto e exuberante, “Cartas de amor de uma freira portuguesa”, de Mariana Alcoforado, e imediatamente me lembrei que essa obra trata exatamente disso: a necessidade de abandonar sonhos que dominam nosso ser com fúria. Resolvi reler essa pequena coletânea de cartas enviadas por uma freira ao homem que ama, que jamais voltou a encontrar pessoalmente e com quem nunca pôde se casar. A história é real e, naturalmente, a experiência de Mariana tem aspectos nada louváveis em termos cristãos (como você perceberá na leitura), mas a mensagem sobre a importância da desistência em certas situações está lá com uma força sem igual na literatura. Resolvi compartilhar o curto PDF desse livreto. Você pode fazer o download gratuito clicando neste link: < Cartas-de-Amor-de-uma-Freira-Portuguesa >. Minha recomendação é que reflita sobre a trajetória de Mariana, da total esperança à desistência. Em sua última carta, fica claro que desistir da esperança seria a única decisão que daria a ela forças para seguir vivendo. Não sei dizer se a distância do amado lhe trouxe a paz que ela desejava ao coração, mas pelo menos trouxe um tipo de paz meio genérico, catatônico e artificial – porém, suficiente para lhe dar forças para seguir.

Temos de saber a hora de render nossa vontade. Se Deus diz “não”… é não. Se insistirmos no “sim”, só o que conseguiremos é uma vida de sofrimento e dor à espera de algo que jamais chegará.

Recomendo que leia o livreto. É uma leitura que não dura mais que 15 ou 20 minutos. Depois sinta em si o sofrimento e a frustração de Mariana. Em seguida, veja se o melhor não foi ela dar adeus a seu sonho, que alimentou tão desesperadamente por tanto tempo. Por fim, pense se na tua vida há algum sonho que esteja sendo alimentado à toa, porque vai contra o desejo do coração de Deus. Se você tiver a convicção que perseverar nesse objetivo é a vontade do Senhor, vá em frente. Mas… e se não for? Nessa hora, entregue-se em sacrifício vivo ao Senhor e diga: “Seja feita a tua vontade” (Mt 6.10). E, se a vontade dele for que você abra mão de certos objetivos e sonhos, perceba que abandoná-los não significa falta de fé, de fidelidade ou de perseverança: é o cumprimento da boa, perfeita e agradável vontade de Deus e, certamente, é o que te trará felicidade.

Persista. Mas, se não for da vontade do Senhor, desista. E, aí sim, você estará cumprindo a vontade do Senhor. Sabendo que, muitas vezes, a desistência do que você tanto queria pode se tornar a maior bênção da sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

1Uma das atitudes mais incompreensíveis a meu ver para um cristão é a crença de que pessoas não mudam. Pelo simples fato de que pessoas mudam sempre e muito. Ouvi um homem de Deus dizer certa vez que a esposa dele já havia sido casada com sete homens diferentes ao longo da vida – e todos eram ele mesmo. Concordo totalmente. Todos nós somos seres em constante mutação. Por isso, me soa muito estranho ouvir um crente rotular alguém como um caso perdido. Ninguém é um caso perdido. Ninguém é imutável. E, principalmente: o evangelho é sobre pegar o pecador de hoje e transformá-lo no santo de amanhã. Negar isso é negar a cruz. Por isso, discriminar alguém porque pecou é negar o poder de Deus para restaurar aquela vida.

Davi é o exemplo clássico. Se você analisa a trajetória dele do começo ao fim verá o quanto ele mudou. Foi homicida, heroi, adúltero, libertador, soberbo, pai amoroso, sanguinário, homem segundo o coração de Deus, assassino de milhares sem misericórdia. Davi foi um genocida muitas vezes tão ou mais cruel que Hitler e Pol Pot (soa estranho? Releia 1Sm e 2Sm atentando para o que ele fazia com seus desafetos…). Era um cara difícil. No entanto, foi um homem de Deus. Pegue Paulo, que após se converter tem de ficar com um espinho na carne para não se ensoberbecer e, mesmo assim, se põe como o maior dos pecadores. Pegue Abraão, o pai da fé covarde que fingiu por duas vezes que sua mulher era sua irmã com medo da morte. E por aí vai, a lista é interminável: José, Moisés, Pedro, Salomão e tantos outros de humor inconstante, quedas e restaurações, pecados e aprendizados, erros e acertos. Deus acreditou em cada um deles. Devemos fazer o mesmo com os muitos Davi, Paulo, Abraão, José, Moisés, Pedro e Salomão que atravessam o nosso caminho.

Me recuso a olhar para quem quer que seja e dizer que fulano não tem mais jeito. Se eu fizer isso estarei negando a mensagem do evangelho e o poder de Deus. Até porque, sejamos francos, eu já cometi cada pecado tão horripilante – após minha conversão – que não tenho a mínima moral para falar de ninguém. Parabéns se você nunca cometeu (o que, honestamente, duvido). Mas a minha restauração após meus inúmeros erros me mostram na pele e na alma o quanto Deus pode pegar um comedor de bolotas dos porcos e reconduzi-lo ao ponto de onde nunca deveria ter saído.

Temos de cessar os apedrejamentos dentro das igrejas. Alguém pecou? Ame. Aproxime-se. Exorte. Pregue. Não abandone. Não dê as costas. Houve arrependimento? Bem-vindo, meu irmão, minha irmã. Bem-vindo de volta ao teu lar. Dá cá um abraço e vamos em frente. Esse é o nosso papel. Porque meter o malho em pecadores e desacreditar vidas é a coisa mais fácil do mundo, mas agir à semelhança do Cristo misericordioso é o que demonstra o quão maduros espiritualmente somos.

Pecadores sem arrependimento são um problema. Mas pecadores sem arrependimento são, também, potenciais futuros arrependidos. Não desista de ninguém. Não crucifique os que erraram. Deus sabe que somos pó e é importante que nós saibamos também. Algo que eu incorporei a minha vida é: só desisto de um pecador quando ele morre. Porque, até o momento de seu último suspiro, haverá chance de ele estar com Jesus no paraíso. Isso é licença para pecar? Jamais. A realidade do perdão não é um incentivo para o erro. Mas é um estímulo para amar quem peca.

Jesus veio para curar os enfermos – de corpo e de alma. Perdoar setenta vezes sete, vezes sete, vezes sete, vezes sete, vezes sete… Sarar almas doentes pelo pecado. O grande mandamento inclui amar o próximo como a si mesmo. E a maior expressão de amor são o perdão e restauração, que o diga João 3.16.

Que venham os pecadores. Que eles lotem nossas igrejas. Que ali encontrem um abraço amigo, e a pregação do evangelho do arrependimento, perdão e restauração. Pois aí o reino de Deus estará se fazendo presente. Fora disso é só vaidade e correr contra o vento.

Ame o pecador. E acredite nele. Pois Jesus nunca deixou de acreditar em você quando você cometeu os piores pecados de sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Arte1Minha esposa ganhou convites para o espetáculo de patinação “Disney on Ice”, em que diversos personagens da Disney dançam e deslizam em belas coreografias sobre o gelo. Nunca tinha assistido a nada do gênero, não fazia ideia de como era. Por isso, levamos nossa filha ao Maracanãzinho. Lá estava eu, com minha filhinha de 2 anos no colo, quando, no meio do show, entraram em cena todos os bruxos e bruxas dos desenhos da Disney, numa grande e animada coreografia. Confesso que me assustei e me preocupei. Deveria eu deixar minha doce e inocente filha ficar vendo feiticeiras e feiticeiros num cativante espetáculo de som e luz? Será que aquilo despertaria seu fascínio pelo assunto? De algum modo aquilo a levaria a se tornar uma satanista, uma adepta da bruxaria, uma depravada, uma apóstata ou mesmo uma cristã mística que dedica mais tempo ao diabo do que a Deus? Deveria eu me levantar e ir embora? A dúvida me consumia, quando entraram em cena Mickey, Minnie, Pateta e Pato Donald e, em meio a muita algazarra, expulsaram todos os bruxos de cena, enquanto a música celebrava a vitória do bem sobre o mal e a criançada ia ao delírio com a derrota das forças malignas. Sussurrei no ouvido de minha filhinha: “Tá vendo, filha, Jesus deu um jeito de fazer os maus irem embora”. E ela começou a gritar, animada: “Sai, bruxa má!”.  Esse episódio me fez refletir muito sobre qual é a diferença entre mencionar algo que vai contra os valores do Evangelho e defender esse algo. Até que ponto discorrer sobre um pecado estimula a prática desse pecado?

Minha conclusão é que entre mencionar e defender a diferença é monstruosa. No entanto, muitos de nós, cristãos, não conseguimos enxergar essa fronteira. Uma das áreas em que isso fica mais claro são as artes, haja vista as antigas polêmicas que envolvem questões como “música gospel X música do mundo”, “crente pode ir ao cinema?” etc. Sei que essa é uma discussão sem fim, que desperta paixões e defesas arraigadas, impulsivas e até agressivas (por favor, seja gentil ao discordar de minhas posições nos comentários…), sei que tem gente que considera a Disney um império satânico (graças a uma série de fitas de videocassete que um pastor com intenções que só cabe a Deus julgar lançou anos atrás, com algumas verdades sobre mensagens subliminares mas também com muitos exageros). Todavia, gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre o assunto.

Arte4Sempre defendi que não devemos deixar nossos filhos expostos de peito aberto a literaturas e filmes como os das sagas “Harry Potter” e “Crepúsculo” (perceba: eu disse “de peito aberto” e não que devemos proibi-los totalmente de ler tais obras). E explico por que precisamos nos acautelar com esse tipo de literatura: durante séculos, toda e qualquer representação de bruxos era sempre aquilo que a bruxaria de fato é: má. A bruxa da Branca de Neve, a bruxa da Bela Adormecida, a bruxa dos desenhos do Pica-Pau, a bruxa de Monteiro Lobato… todas as bruxas, enfim, sempre foram retratadas como alguém que joga no time do mal. Suas histórias nos estimulavam a fugir da bruxaria e a repudiá-la. Harry Potter não. Na série do bruxinho bonzinho, o bruxinho é… bonzinho. Essa é exatamente a questão. Ele é o herói. Ele é o tal. Ele é bacana. Ele é quem nossos adolescentes querem ser quando crescer. Eis aí o problema: o bruxo é o cara.

Arte7Nas histórias da saga “Crepúsculo” acontece o mesmo. Embora vampiros, ao contrário de bruxos, sejam seres fictícios, nessa saga eles são lindos, sedutores, charmosos, os galãs por quem as meninas suspiram. Mas os personagens vampiros são e sempre foram criaturas das trevas. Se você lhes aponta a cruz de Cristo o que eles fazem? A abraçam? Ou fogem? Então seres das trevas que fogem da cruz passaram a ser glorificados pela ficção. Até bem pouco tempo atrás os vampiros dos livros e dos filmes eram sempre tenebrosos, horripilantes, assustadores. “Crepúsculo” mudou isso e tornou desejável ser ou admirar alguém que foge da cruz de Jesus. É tudo uma questão da mensagem que é transmitida.

Então vemos que um pano de fundo belo pode ser o cenário para a transmissão de valores bem ruins do ponto de vista bíblico. Por exemplo: já expus em posts como “Cristão deve ouvir música do mundo?” e “O que é boa música evangélica?” que não vejo base bíblica para proibir cristãos de ouvir músicas seculares cujas letras não sejam antibíblicas. Mas isso deve ser sempre com cautela, analisando cuidadosamente e à luz das Escrituras aquilo que se consome. Para fazer um teste sobre isso decidi, por curiosidade pessoal, analisar letras de músicas de um artista que não é do meu gosto musical (e que, por isso, praticamente desconhecia seu repertório), mas que foi indicado por um homem de Deus a quem respeito muito e que gosta dele. Por essa razão decidi analisar as letras de suas canções e encontrei, em meio a muitas músicas inofensivas e bonitas aos ouvidos, também muitas que visivelmente contrariam o Evangelho e seus valores.

Arte3Minha cobaia foi Ivan Lins (que fique claro que nada aqui versa sobre a pessoa desse artista, apenas sobre as letras das canções que interpreta). Fiquei surpreso e assustado com a quantidade de valores antibíblicos em muitas de suas letras. “Vitoriosa”, “Porta entreaberta”, “Dinorah, Dinorah” e “Lembra de mim”, por exemplo, defendem uma sexualidade contrária ao padrão que as Escrituras estabelecem. Ainda nessa área, “Ai, ai, ai, ai, ai” exalta a paixão sexual ultrarromântica, assim como “Arrependimento”, que diz “Te amo, te amo, te amo / Mais que tudo, mais que Deus”.  “A gente merece ser feliz” e “Daquilo que eu sei” defendem o hedonismo. “Caminhos cruzados” advoga o amor irracional. “Acaso” transgride a soberania de Deus ao atribuir ao acaso fatos da vida. “Lua soberana” louva Iemanjá. Em “Ainda te procuro” a alusão é a buscar o amor nas cartas de uma cigana e em “Então é Natal” se insere no meio da música o mantra dos Hare Krishnas, “Hare Rama”. Já “Festas” passa uma noção totalmente equivocada do que é o Natal. A canção “Cartomante” faz um salada ecumênica: “Tenha paciência, Deus está contigo / Deus está conosco até o pescoço / Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes / Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias”.

E por aí vai.

Ou seja: nem tudo o que parece inocente apresenta valores bíblicos. Em tudo precisamos aplicar o tão falado discernimento.

Agora é preciso observarmos o outro lado da moeda: uma obra de arte apenas relatar histórias de pecados, idolatria, práticas equivocadas e tudo o que há de pior não a condena. Que o diga a própria Bíblia, que relata tudo isso e muito mais, da queda de Adão e Eva aos pecados das igrejas de Apocalipse, passando pelos de Abraão, Moisés, Noé, Jacó, Davi, Pedro, Paulo e muitos outros. O problema, a meu ver, é quando a obra defende a prática.

Arte4Já vi cristãos bons e sinceros desmerecerem livros magníficos, como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura “Cem anos de solidão”, que relata, dentro do realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, histórias extraordinárias e explicitamente fantasiosas com pecados gravíssimos, mas sem estimular ninguém a agir daquela forma. Ou “Crônica de uma morte anunciada”, do mesmo escritor, um excelente livro que fala do comportamento humano ante a morte certa. Ou, ainda, “O amor nos tempos do cólera”, uma linda história que tem como mensagem principal o fato de que o amor verdadeiro não depende de tempo, mas sim da pessoa (Jacó, que teve de trabalhar 14 anos por Raquel, que o diga). Imagine se fossemos condenar todos os livros de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, por exemplo, por sempre versarem sobre crimes. Sherlock Holmes, a propósito, é viciado em cocaína e há roubos e assassinatos em praticamente todas as suas histórias – mas nunca se faz nelas defesa dessas práticas.

Enfim, o que consigo ver na produção artística de variados segmentos, como a música, a literatura, a pintura, a escultura e outras artes é tanto a defesa (provavelmente inconsciente, na maioria dos casos) de valores antibíblicos (como nas músicas citadas acima) quanto a exposição não panfletária de nudez (como a Vênus de Milo, que pratica topless e deixa seu “cofrinho” à mostra – ver fotos) e a representação de um amor arrebatador, desesperado e ultrassexualizado (como em Cantares de Salomão – na Bíblia). Aliás, para quem lê Cantares entendendo o que lê, o comportamento sexual da família Buendia de “Cem anos de solidão” parece história de ninar. Vênus de MiloDeveríamos remover o livro mais erótico da Bíblia do cânon sagrado por causa disso? Ou, talvez, deixar de publicar a Bíblia? Quem sabe ainda proibir nossos filhos de ler as Escrituras, porque citam sexo, bruxaria, assassinatos, genocídios, adultérios, demônios e outras coisas terríveis?

Uma coisa é defender. Outra é relatar. Creio que, por esse pudor bem-intencionado (é importante frisar isso) porém desconectado da realidade, especialmente da realidade em que vivem os nossos jovens, uma grande parcela da Igreja tem falhado profundamente em orientar as novas gerações. Não é à toa que nossas igrejas estão cheias de adolescentes solteiras grávidas e de adultos que nãos sabem como proceder com relação às artes. Pois enquanto o mundo cai batendo sem piedade, nós ainda falamos da abelhinha do papai pousando na flor da mamãe.

Há uma guerra grave e severa no mundo espiritual e, consequentemente, nas instâncias humanas, por nossos corações e mentes. Falo de camarote: eu mesmo já fui vítima dessa guerra e cometi pecados para os quais hoje, após o arrependimento, olho com muita tristeza, profundo lamento e sem acreditar que fui capaz de cometer tamanhas atrocidades. Só que cometi e hoje, embora perdoado por Deus, carrego as cicatrizes – e para sempre as carregarei. Guerras são assim: deixam mortos e feridos por todos os lados e, se você não está bem protegido num abrigo antiaéreo, será atingido. No caso, nosso abrigo chama-se Jesus de Nazaré. O mundo está usando AR-15 e tanques, enquanto nós entramos com estalinhos e pistolas de água. Fica fácil ver de que lado a corda vai romper, se continuarmos nesse caminho. Temos de proteger nossos filhos para que eles não cometam os mesmos erros abomináveis que nós cometemos no passado – e essa proteção deve ser efetuada não com alienação, mas com oração e as indispensáveis informação e instrução (sempre de forma adequada para cada faixa etária, claro). Por ter cometido pecados que hoje abomino tenho de lutar de forma arraigada para que minha filha não os cometa.

Arte7O problema é que estamos empreendendo essa luta da forma errada. Pois, em grande parte, nós, cristãos, acreditamos que a alienação é a saída: não deixe ter acesso e está tudo certo; proíba a leitura e seu filho nunca vai pecar. Só que alienação não cria jovens santos: cria jovens alienados. Isolamos nossas crianças e nossos adolescentes, em vez de instruir e ensinar. Proibimos em vez de dialogar (como se eles não fossem ler escondido ou na casa do coleguinha). A saída não é propor uma abstinência dos livros que ganharam o Prêmio Nobel só porque eles relatam histórias de pessoas que pecam, mas estimular que leiam e então discutir com eles o que ali está relatado. Quando leio para minha filha de 2 anos a história do Patinho Feio, explico que discriminar os outros porque são fisicamente diferentes é errado, é racismo, mas não a proíbo de conhecer a história. E, quando leio Chapeuzinho Vermelho, falo sobre a maldade do lobo em oposição à bondade de Chapeuzinho, não a proíbo de ter acesso por se tratar de um livro violento (lembremos que o lobo é sumariamente executado no final). Que dizer então do Gato de Botas, um mentiroso frio e calculista que, para se dar bem na vida, inventa mil ardis para enganar o rei, incentiva outras pessoas a mentir, assassina sem piedade o gigante para poder usar o castelo dele em seu plano maligno de ascensão social e no fim… vive feliz para sempre. Leio com minha filha a história, mas explico cada erro cometido, cada equívoco. E, sabe… hoje minha filha não vai muito com a cara do Gato de Botas.

Sou a favor da boa música, secular ou cristã. Sou a favor da boa literatura – secular ou cristã. Sou a favor das boas artes plásticas – seculares ou cristãs. Não deixarei de estimular minha filha a ler a magnífica obra de Gabriel Garcia Marquez, mas vamos conversar muito sobre as mensagens de seus livroArte6s – as boas e as más. Não deixarei de levar minha filha para ver os quadros da fase negra de Goya (ao lado) devido à violência e ao mal retratados neles – mas lhe contarei por que aquelas imagens são assim. Não vou fugir das galerias do Louvre onde estão estátuas greco-romanas de homens nus, mas instruirei minha filha sobre os conceitos estéticos vigentes naquelas culturas e o que podemos tirar daquilo. Bem orientada, não creio que nada disso a tornará uma depravada. Pelo contrário, a deixará instruída e prevenida. Até porque, em paralelo, estarei ensinando a ela o Evangelho, explicando por que Deus mandava seu povo dizimar nações à espada, permitia a poligamia, mandava apedrejar pessoas até a morte, ordenava que cunhados se casassem só para gerar descendentes e outras práticas bizarras que ali são relatadas mas não estimuladas na nova aliança.

Porque, sejamos coerentes, se formos simplesmente proibir nossos jovens de ler livros que contêm violência, relatos de atos sexuais ilícitos e depravados, histórias de pecados horripilantes, descrições extraordinárias de anjos duelando com demônios e relatos de experiências de seguidores de doutrinas de demônios… nenhum deles jamais leria a Bíblia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Sata2A proclamação do Evangelho deve ter como centro Jesus. A cruz. As boas-novas da salvação. Sempre. Sempre. Sempre. Podemos pregar sobre qualquer assunto correlato, desde que tenha ligação com o epicentro de nossa fé: Cristo. Pregações sobre dízimo devem ter foco em Jesus. Pregações sobre casamento devem ter foco em Jesus. Pregações sobre vida sexual devem ter foco em Jesus. Pregações sobre arrependimento devem ter foco em Jesus. Por isso, existe uma grande resistência em alguns setores da Igreja a se pregar sobre o inferno, o diabo e os demônios. Em grande parte, isso ocorre como reação à ênfase despropositada que certas denominações dão à chamada “libertação”, em todas as suas variáveis – “descarrego”, “batalha espiritual”, expulsão de demônios etc. -,  o que leva muitos a tomar uma postura contrária, eliminando totalmente do púlpito mensagens que tenham a ver com as hostes espirituais da maldade. Essa postura acaba se refletindo em todas as esferas da vida cristã dos que assim procedem, como a rejeição por livros que falem do assunto ou mesmo nas orações que fazem e nas músicas que cantam. Por muito tempo compartilhei desse pensamento. Falar sobre isso era como jogar uma barata dentro de uma refeição refinada num restaurante chique. Mas tenho revisto essa posição. Hoje estou convencido de que devemos sim pregar sobre o inferno e os perigos das forças espirituais do mal – desde que as pregações sobre o assunto tenham foco em Jesus.

A primeira razão que me fez rever essa posição foi a releitura do Novo Testamento. Lendo as Escrituras e alguns bons livros descobri, espantado, que Jesus de Nazaré falou muito nos Evangelhos sobre o inferno. Ou seja: o próprio Senhor abriu o precedente. Afirmar que não se pode pregar sermões que tratem do mundo espiritual maligno – com foco em Cristo, sempre – seria dizer que Jesus não poderia ter falado o que falou. E repreender Deus é, no mínimo, complicado. Se por um lado, o Senhor nos disse para não ficarmos eufóricos com esse assunto (“Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” – Lc 10.20), por outro nos instrui muitas vezes sobre ele (como em “Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino [...]  Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e perguntaram: “Por que não conseguimos expulsá-lo? ”  Ele respondeu: [...] esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” -  Mt 17.18-22).

Sata3Trabalho como editor de livros cristãos. Meu último projeto – sobre o qual não posso falar muito, por enquanto, por questões éticas – é uma obra de um importante pastor presbiteriano brasileiro e chanceler de uma universidades  cristã. Tradicional. Histórico. E brilhante. Surpreendeu-me, portanto, quando li em seu texto o seguinte:  “Alguém já disse que pregar sobre o inferno não é um caminho muito bom para levar pecadores ao arrependimento, porque, nesse caso, as pessoas se converteriam por medo da perdição eterna. Pessoalmente, entendo que é preferível que seja assim ao fato de o indivíduo não se converter de maneira nenhuma. Se alguém se converteu porque tem medo de ir para o inferno, isso é ótimo, mas se a conversão ocorreu por amor a Jesus é melhor ainda. Não faz mal o crente se assustar com a realidade da justiça divina”.

Cada vez mais tenho percebido a importância de alertar a Igreja, como fez o próprio apóstolo Pedro, de que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando a quem possa tragar” (1 Pe 5.8). Forças do mal estão se infiltrando nas igrejas. Nas empresas cristãs. Ensinamentos diabólicos estão conquistando espaço nos corações e nas mentes dos jovens e adolescentes evangélicos. Temos guardado os portões da frente de nossas vidas pela proclamação indispensável do Evangelho de Cristo, mas, ao fecharmos os lábios contra “as ciladas do diabo” (Ef 6.11), deixamos a porta dos fundos escancarada para a entrada dos sabotadores de nossa espiritualidade.

Sata4Deus é infinitamente mais poderoso que o diabo. A velha ideia de que Satanás e Jeová disputam as almas humanas como num cabo-de-guerra, em igualdade de condições, é um erro de proporções (anti)bíblicas. O Deus criador é tão superior ao diabo criatura que, com um piscar de olhos, Ele poderia, se quisesse, eliminar todos os demônios, todo o inferno, tudo, tudo, tudo. Então, imaginar que o diabo é inimigo direto do Todo-poderoso chega a ser engraçado, pois o querubim caído não pode absolutamente nada contra o criador do universo. Na-da. Ele é inimigo, isso sim, dos homens, a quem consegue astutamente enganar. Em especial aqueles que não estão alertas contra esse engano  e que se julgam imunes à tentação maligna.

Portanto, é por isso que Paulo, o apóstolo, prega à igreja de Éfeso: “A nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). E deixar de fora das nossas preocupações, do nosso discurso e da nossa pregação essa realidade seria ignorar um assunto tratado extensamente por Jesus e por seus discípulos nos evangelhos, nas epístolas e em Apocalipse. Seria uma irresponsabilidade.

Sata5A literatura cristã está repleta de livros sérios que alertam para o tema, seja de forma direta ou por meio da ficção. Um exemplo que imediatamente me vem à mente é o do grande C.S.Lewis, que escreveu as obras ficcionais “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, “O Grande Abismo” e “As crônicas de Nárnia”, que mostram explicita ou implicitamente a ação de demônios e – graças a Deus – despertam o fascínio sobre o tema. Aliás, dedicar tempo e tinta para alertar a Igreja contra o inferno, o diabo e seus ardis fez parte da preocupação de grandes homens de Deus desde o princípio. Além do próprio Jesus e dos autores canônicos, os primeiros escritos da época patrística trazem textos sobre o assunto de alguns pais da Igreja, como Orígenes (“De principiis”), Gregório de Nissa e outros. Assim foi e prosseguiu pelo período da escolástica (com Erasmo) e da Reforma (com Lutero e Zuínglio), seguindo por John Wesley, John Bunyan e outros (a série do website Voltemos ao Evangelho sobre “A História do Inferno” fornece uma boa bibliografia sobre o assunto). A conclusão é que sempre houve na Igreja cristã saudável a preocupação de pregar e escrever sobre Satanás, os demônios e o inferno – de Jesus a John Piper e Paul Washer. Basta procurar.

Em nossos dias, livros e relatos de ficção apresentados como verídicos, como as histórias de Rebecca Brown e similares, prestaram um desserviço à Igreja, por dois ângulos: de um lado houve quem cresse em seus contos como se fossem realidade e passasse a viver segundo suas ficções. Do outro, quem percebeu que se tratava de uma farsa passou a ter um preconceito refratário a qualquer coisa do gênero, qualquer livro que toque no assunto, qualquer música que mencione o diabo ou o inferno. O satanismo, uma realidade tão presente e infiltrada nas igrejas, ministérios e outros ambientes cristãos, tornou-se um assunto sobre o qual não se deveria falar. Com isso, saiu perdendo a importância bíblica e histórica de se tratar e de pregar sobre a questão. E quem saiu ganhando? Preciso responder?

Até mesmo na música. O tradicional hino “Castelo Forte”, composto pelo reformador Martinho Lutero,  dedica quase metade de suas linhas ao diabo e os demônios (depois que ele afirmou, veja você: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!”):

“Castelo forte é nosso Deus,
Amparo e fortaleza:
Com seu poder defende os seus
Na luta e na fraqueza.
Nos tenta Satanás,
Com fúria pertinaz,
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na Terra.

A nossa força nada faz:
Estamos, sim, perdidos.
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos.
Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz
O Senhor dos altos céus.
E sendo também Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está:
Vencido cairá
Por uma só palavra.

Que Deus a luta vencerá,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, poder,
E, embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu reino.”

.

Sata6O inferno existe e é um assunto sério. Bíblico. Jesus falou e pregou sobre ele – e muito. Devemos fazer o mesmo. Satanás e os demônios são um assunto sério. Bíblico. Jesus lidou pessoalmente, expulsou constantemente e falou sobre eles – e muito. Devemos fazer o mesmo. Se for preciso despertar o fascínio sobre o assunto, que assim seja. Pois, no pesar da balança, é melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Pois o que está em jogo aqui são almas humanas. Precisamos saber lidar de forma bíblica e correta com as hostes espirituais da maldade, que tanto dano provocam no seio da Igreja. E isso só vai acontecer se nossos líderes nos ensinarem a fazê-lo biblicamente. Enquanto acreditarem na inverdade que “não se prega falando sobre o inferno, Satanás e os demônios”, estarão na contramão do que fez Jesus, os escritores canônicos, os pais da Igreja, os escolásticos, os reformadores, os expoentes dos grandes despertamentos e importantes pregadores reformados de nossos dias. E, com isso, só quem lucra é o diabo, que pode usar e abusar dos cristãos que não sabem lidar com o mal porque nunca lhes ensinaram a fazer isso de forma sadia.

É ingenuidade acreditar que basta pregar sobre Cristo sem falar nada sobre o diabo e estaremos isentos das artimanhas e dos ataques do maligno. Já ouvi o bom argumento de que para aprender a identificar a nota falsa basta conhecer bem a verdadeira – só que, se a tinta da nota falsa gera prurido e alergia em nossa pele, somente conhecer a verdadeira não vai adiantar muito, depois que já manuseamos a falsificada. A luz espanta as trevas, é verdade, mas me diga um cristão com Jesus no coração que não peca porque aqui e ali se deixou enganar pelas forças do mal. Como vigiaremos se não sabemos como é o inimigo? Como estaremos alertas às “ciladas do diabo” se não temos conhecimento de como ele age, o que faz, como se combate? Muitas tecnologias fajutas de “batalha espiritual” ganham notoriedade em nossos dias justamente porque houve muitos que ensinaram errado enquanto os que poderiam ensinar certo deram as costas ao assunto.

Sata7Pregar sobre Jesus é o centro, o foco e a essência. Mas o que muitos lamentavelmente não enxergam é que pregar mensagens de alerta sobre o inferno, Satanás, o satanismo, as hostes espirituais da maldade – de forma bíblica! – também é fazer exatamente isso: ressaltar a altura da montanha pela profundidade do vale. Mostrar a luz pela contraposição com as trevas. Posicionar o bem a partir de um referencial maligno. Exilar o mal de nossa proclamação do Evangelho é remover o diabo da tentação de Jesus no deserto; é tirar a história do rico e Lázaro da Bíblia; é contar a parábola do semeador pela metade; é amputar os primeiros capítulos do livro de Jó; é rasgar páginas e mais páginas das epístolas; é anular todo o sentido de Apocalipse; é jogar no lixo trechos como Lc 11.14, Mc 7.29, Jo 8.49, Mt 9.33, Mt 17.18, Mc 7.26, Lc 4.33 e muitos outros. Mais importante ainda: é arrancar da história da salvação o relato da Queda. E, sem o que a serpente fez no Éden, por que mesmo precisaríamos da cruz?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Miseravel1Qual é o momento mais importante da nossa caminhada de fé? Para uns, é o instante da conversão. Para outros, é o dia do batismo. Há também os que consideram o momento mais importante a hora da morte, quando finalmente darão o glorioso passo de entrada na casa do Pai. Cada pessoa elege aquele ponto da trajetória com o Senhor que mais marcou sua vida. Tenho também o meu. Claro que sei que todos esses momentos são fundamentais e memoráveis, mas entendo que a conversão e a morte, por exemplo, são os momentos mais importantes de nossa vida. Mas em se tratando da caminhada de fé, ou seja, do bom combate, da nossa trajetória de vida com Jesus, há um dia em que tudo muda e, por isso, o tenho guardado num lugar especial do coração. É quando cai a ficha e você, como Paulo, exclama: “Miserável homem que sou!”.

Naturalmente, na hora da conversão existe uma dose dessa percepção. É quando, pela ação do Espírito Santo, nos enxergamos como condenados ao inferno e dissociados de Deus e, assim, somos rendidos ao Evangelho da graça. Mas há uma diferença entre se perceber um pecador perdido e se perceber um cristão miserável. Pois muitos são convertidos a Cristo, ganham a cidadania do Reino dos Céus, são adotados como filhos de Deus e, a partir daí, deveriam passar a viver de acordo com a natureza de Jesus, sendo mansos e humildes. Mas a realidade nos mostra que muitos e muitos são os que começam a se considerar quase super-heróis. Mais que vencedores. Vitoriosos. Filhos do Rei. Tanques blindados. Bombas atômicas a serviço dos céus, prontos para arrebentar com os ímpios e com os “menos espirituais”. Vestem uma capa de grandeza e passam a considerar o resto da humanidade parte de um segundo escalão de pessoas. É como se manifesta um pecado muito comum a nós, cristãos: a soberba espiritual.

Já vi muitos assim. Arrogantes. Impiedosos. Cujo maior prazer é apontar o cisco no olho do outro. E confesso: eu mesmo já fui assim. Pois não entendia que todo homem de Deus é, antes de tudo, também um homem. Humano. E, como tal, cheio de falhas, crenças equivocadas, arrogância, vaidade e montes e montes e montes de defeitos. Se você é um cristão sincero, olhará para dentro de si e verá o quão problemático e falho é. Mas eu me via como “o eleito”, “o escolhido”. Algo à parte dos demais, tão espiritualmente certo em tudo e muito superior aos cristãos “menos santos”. Falava dos que cometiam pecados (diferentes dos meus, pois eu também sempre pecava) como fracos, frios, fariseus, lobos em pele de ovelha, crentes em quem não se pode confiar. Eu era o tal. Eles eram o joio. Que tremendo bobo eu era, só rindo de mim.

Miseravel2Porque um dia a realidade despencou na minha cabeça como uma bigorna. E foi quando as escamas caíram de meus olhos e enxerguei que, mesmo sendo cristão há muitos anos, continuava sendo um miserável. Que não era melhor do que ninguém. Que meus dons, talentos, ministérios, qualidades, santidade e tudo o mais que havia em mim não era mérito meu, mas do Pai das luzes. Ele me concedeu como empréstimo, não sou dono de nada e posso perdê-los a qualquer hora. Por outro lado, o pecado que cometo é sim mérito (ou demérito) meu. Ou seja: no dia em que você, como cristão, vê claramente que tudo o que tem de bom vem de Deus e o que tem de mau vem de si… aí exclama: “Miserável homem que eu sou!”.

Passei a amar muito mais o apóstolo Paulo quando compreendi como nunca antes o que ele diz em Romanos 7.14ss: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado”.

Prestou muita atenção ao que leu agora? Paulo – o grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado e viu o Céu ainda em vida – vivenciou esse magnífico momento: como cristão, mesmo já com anos de convertido, enxergou o que tantos e tantos em nossas igrejas ainda nãos viram: que nós…

1. Somos carnais
2. Somos vendidos à escravidão do pecado
3. Agimos de modo incompreensível aos nossos próprios olhos
4. Fazemos o que detestamos e não o que preferiríamos
5. Somos habitação do pecado (que percepção assustadora, pois sabemos que também somos habitação do Espírito Santo)
6. Somos fantoches do pecado, que nos leva a agir contrariando o que cremos e o que queremos viver
7. Temos membros obedientes a uma lei que guerreia contra a lei da nossa mente
8. Somos prisioneiros da lei do pecado que está em nossos membros
9. Mesmo salvos, somos miseráveis – pois vivemos dominados pelo pecado

Em outras palavras, mesmo cristãos nós somos miseráveis, pois vivemos o tempo todo sob a sombra de nossa própria pecaminosidade. O dicionário revela o que “miserável” significa: desprezível, torpe, vil, insignificante, reles, ínfimo, desgraçado, infeliz, mísero. Uau. Que soco na boca do estômago de nossa soberba espiritual.

A percepção dessa realidade é extremamente humilhante, nos põe em nosso devido lugar e nos conduz a um ambiente espiritual de profunda submissão a Deus e desapego de nós mesmos. Paulo teve essa percepção: mesmo sendo cristão era um miservável pecador. Alguém que o Senhor precisava permitir ser afligido por um mensageiro de Satanás esbofeteador para que não se exaltasse pela grandeza das revelações que recebeu. Um mero humano, como eu e você.

Miseravel3Honestamente? Quanto mais leio as epístolas paulinas, mais admiro Paulo. E mais me apiedo dos crentes que se apresentam como anjos de santidade. Pois não chegaram ainda ao sublime ponto de admitir que são miseráveis. Vejo muitos que são assim. E isso gera em mim um sentimento misto de pena com tristeza, confesso. Creio ser muito mais digno, bíblico e honesto reconhecer com a boca no megafone: sou cristão, salvo somente pela graça imerecida de Deus, mas ao mesmo tempo carrego o corpo dessa morte amarrado nas costas – o que faz de mim um miserável pecador. Que depende única e exclusivamente da misericórdia do Senhor para continuar respirando, quanto mais entrar no Céu. Pois sei o mal que há em mim e como meu lado sombrio é feio, disforme e animalesco. Como você se enxerga, meu irmão, minha irmã? Você se orgulha da sua santidade ou se abate pela sua natureza humana pecadora?

Chega a ser muito entristecedor ver os “crentes sem mácula” metendo dedos na cara “dos que pecam”, sendo que carregam na alma lodo do pior tipo. Isso é um dos pecados mais falados e criticados por Jesus: a hipocrisia. Já vivi nesse mundo, sei de perto o que é. E reconheço esse meu pecado com temor diante do PaiMiseravel4: pequei por me achar menos pecador do que os demais pecadores. Miserável homem que sou. Ah, que bendito dia em que o Espírito Santo me fez reproduzir essas palavras do apóstolo Paulo! Dia em que enxerguei que não é porque aceitei Jesus que virei um ser angelical, mas que continuo sendo um pecador compulsivo e incorrigivel, totalmente dependente da graça. A diferença é que, sabendo da miserabilidade que existe em mim, consigo chegar com humildade aos pés do Senhor, banhá-los em lágrimas e enxugá-los com meus cabelos. No passado, o crentão que eu era ficaria de pé, nariz levantado, peito estufado,  ao lado do Rei dos Reis, e diria: “E aí, Paizão, tamos numa boa, né? Sou teu eleito, meu chapa, gente boa igual a mim não há. E vamos lá mandar esses crentes carnais pro inferno, julguemos juntos, eu e o Senhor, os meus irmãos, pois estou a fim de ver sangue!”.

Sim, aquele foi o dia mais importante. Pois na conversão eu fui salvo, mas me sentia o tal por isso. No batismo saí das águas me achando o puro, o imaculado. Mas no dia em que caí em mim, vi que mesmo salvo continuo pecando sem parar, caí de joelhos, tremi e murmurei: miserável… homem… que… sou…

Gosto de pensar que após a morte irei para o Céu. Não por mim, que não valho nada, mas pela Cruz. Só pela Cruz. Pela graça. Pelo amor. Pelo perdão. Por Jesus. E, ao chegar lá, pode ser que eu ouça “bem-vindo, servo bom e fiel”. Mas acredito muito mais que vou ouvir: “Bem-vindo, miserável pecador. Você não tem mérito algum, mas por causa do sacrifício de meu Filho eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!”.

Paulo estava certo: somos miseráveis. Eu, você, todos os cristãos. E bendito seja o Senhor, que pela graça um dia nos chamou para sua maravilhosa luz e tempos depois iluminou a nossa realidade de cristãos pecadores. Não é o seu caso? Então clame a Deus, na esperança de que Ele te mostre o quão miserável você é. Acredite: é uma das maiores bênçãos para a alma que você poderá receber ao longo de toda a sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
mz