Posts com Tag ‘Pastores’

Certa vez ouvi de um servo de Deus que a igreja é um lugar muito perigoso. Pois a vida em comunhão nos expõe, nos desafia, nos convida a conviver com a contradição e a natureza humana de indivíduos que deveriam substituir essa natureza pela de Cristo. A cada dia que passa vejo mais e mais que essa é uma grande verdade. A possibilidade de que você será ferido, magoado ou humilhado de algum modo por congregar em uma família de fé é bem plausível, visto que estará convivendo e se abrindo para pecadores cheios de falhas – embora em busca de santificação. Postei há alguns meses aqui no APENAS uma reflexão sobre “O lugar mais importante na igreja“, em que, por meio de uma metáfora,  compartilho minha visão de que a segunda pessoa mais importante numa congregação depois de Jesus é o triste, o abatido, o deprimido, o humilhado, o abandonado, o desesperado, o indigno, o ferido. Fiquei espantadíssimo ao ver a quantidade enorme de irmãos que entraram em contato pelo espaço de comentários do blog para relatar experiências terríveis que viveram no ambiente eclesiástico e que sofreram os mais variados tipos de traumas. Ao todo, 48. Muito revelador e espantoso é que, em comum a todos menos três, havia o pedido de não publicar seu comentário. 45 pessoas! Sem que dissessem, ficou claro que tudo o que queriam – ou precisavam – era desabafar e não queriam se expor. Em outras palavras, inconscientemente querem permanecer invisíveis. O que essa constatação deve gerar em cada um de nós? Como devemos agir com relação a essas pessoas feridas?

Mais ainda: devemos parar de ir à igreja porque podemos acabar saindo dela com o coração dilacerado? A resposta é um grande não. E já veremos por quê.

Entre os comentários havia de tudo. O mais frequente é a decepção com os líderes ou outros membros. Sim, porque paredes e templos não ferem ninguém: quem fere são pessoas. Pastores que usaram de autoridade desmedida e humilharam ovelhas publicamente. Irmãos que discriminaram pela classe social e pela cor da pele. Pastores que não mantiveram o sigilo pastoral sobre pecados a eles confessados. Irmãos que usaram de artimanhas para tomar “cargos” de outros. Pastores que em vez de ajudar a pôr de pé os caídos esmagaram ainda mais o crânio de quem estava no chão. Irmãos que não demonstraram coração perdoador. Pastores que usaram o púlpito para fazer desde propaganda política a publicidade de revistas e DVDs. Irmãos que ignoram quem não conhecem e compartimentalizam a igreja em panelas. Pastores que agiram em causa própria e deixaram vidas humanas à própria sorte. Irmãos que não estenderam a mão quando mais se precisava de ajuda. Pastores que prometem o que Deus não promete. Irmãos que discriminam da “falta de fé” à forma de se vestir de outros e os consideram cristãos de segunda classe.

Em comum a todos os casos, o que ficou visível foi uma deficiência no amor ao próximo e a prevalência do interesse próprio.

E essas são só as causas mais frequentes que detectei entre os comentários. Há mais. A quantidade e a variedade de formas pelas quais é possível ferir alguém por estar inserido no ambiente de uma família de fé são muitas, algumas surpreendentes. E isso é um chamado à responsabilidade para todos nós. Não é à toa que usei como título deste post o mesmo do livro da jornalista Marília Camargo, publicado pela editora Mundo Cristão, que trata de desmandos cometidos por lideranças eclesiásticas. Pois esses problemas se multiplicam tanto que se tornaram visíveis para cada vez mais pessoas – cristãs ou não. E um ponto nevrálgico da questão é que deixar a comunhão dos santos não é a solução. Por diversas razões.

No que tange à liderança, nunca podemos nos esquecer que há muitos líderes que sabem cuidar de ovelhas, que as põem acima de si mesmos e que entendem que a vocação pela qual Deus os chamou é sobre Jesus e sobre o próximo e não sobre si mesmos (leia mais no post “A importância de um pastor“). Que não deixam a vaidade, a prepotência ou os projetos pessoais interferirem no cuidado e no amor pelos irmãos. São muitos e estão por aí, em igrejas de diferentes denominações, em diversas regiões do país, em bairros ricos e pobres. O ministério pastoral não entrou em colapso devido ao fato de que há os que não pastoreiam com compaixão e graça, com amor e carinho, com cuidado e zelo. Há sim os que usam o púlpito como emprego estável ou os que não entendem a profundidade do amor de Deus e por isso não o refletem em seu pastoreio, mas as maçãs podres ou contaminadas devem servir acima de tudo para nos lembrar que há maçãs maduras e que alimentam. E há muitas. Há muitos homens de Deus à frente de igrejas, é só ter paciência de procurar e pedir discernimento ao Senhor. Recusar ser bem pastoreado é recusar um maravilhoso presente que Deus nos dá.

Já no que tange à membresia, é preciso lembrarmos sempre do velho clichê (que é verdadeiro) de que a igreja não é um museu de santos, mas um hospital de pecadores. Todos, absolutamente todos os membros de uma igreja, são pecadores. Ninguém escapa. Pode ter certeza que o mais santo de todos tem no mínimo pensamentos horripilantes. Agostinho teve. John Wesley teve. Davi teve. Salomão teve. Paulo teve. Pedro teve. Eu, então, nem se fala. Só que isso, em vez de nos afastar da igreja, deve produzir em nós um sentimento de misericórdia, por saber que o próximo é tão pecador como nós e é tão passível de erro como eu e você. Há pessoas responsáveis por atividades importantes dentro de igrejas que cometem pecados cabeludos e, em vez de fugir delas, precisamos orar por elas para que sejam libertas, que alcancem o perdão e para que seus pecados não interfiram na missão que Deus lhes confiou. Sempre digo a quem está decepcionado com os irmãos que, se vemos alguém que julgamos ser um “mau cristão”, em vez de empurrá-lo para longe devemos nos aproximar para influenciá-lo positivamente. Pois é o que se encaixa na graça de Deus. Não o medo, mas a coragem.

No que tange a nós mesmos, precisamos lembrar que mesmo sendo a igreja uma assembleia de pessoas imperfeitas e potencialmente passíveis de nos machucar, é onde cultuamos a Deus em comunhão. É onde celebramos o memorial coletivo da Ceia do Senhor. É onde ouvimos pregações (sim, muitas vezes feitas por sacerdotes cheios de falhas) que vão nos edificar, consolar e exortar. É onde podemos encontrar aqueles que de outro modo não saberíamos que precisam de uma mão estendida. É aonde os perdidos tocados por Deus vão, em busca de algo a que a cruz na porta remete em termos espirituais. Já fui parar em um CTI por ter comido alimentos estragados em um restaurante. Mas não é por isso que vou deixar de ir a restaurantes, pois preciso me alimentar. O medo de comer em outro restaurante não é benéfico, pode me gerar inanição. Assim como o medo de ir a uma igreja porque nos decepcionaram em outra não provém de Deus. Se a igreja é um lugar perigoso, é um lugar para os corajosos. Um erro não justifica o outro.

Você já se decepcionou com um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. Só que o que o outro faz não depende de nós. O que temos poder para mudar é agir a partir de outra pergunta: você já decepcionou um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. E se você, como eu, reconhecer que causou o mal a alguém, mesmo que tenha sido de modo involuntário, aí está diante de si a grade oportunidade de começar a mudar o que está ruim: procurando mudar ou pelo menos melhorar a si mesmo. Pois, no que eu mudo e me torno um cristão melhor, uma ovelha menos manchada para meu pastor e um irmão menos decepcionante para os membros da igreja, aí sim estou contribuindo com meu exemplo e minha atitude pessoal para que o Corpo como um todo seja aperfeiçoado.

Então, se fomos feridos na igreja, devemos começar por fazer uma análise de nós mesmos e ver em que pontos nós ferimos os outros. Eliminando esses pontos serviremos cada vez mais de exemplo. Quanto aos que nos feriram, a dor permanecerá pelo tempo que o luto durar e isso independe de nós.

Mas podemos perdoar.

Quantas vezes? Setenta vezes sete. Todas. Sempre. Repetidamente. E não perdoe só da boca para fora, porque isso é fácil para qualquer um fazer. Perdoe em atitude. Sendo bom para quem te feriu. Ajudando-o. Estendendo a ele benefícios. Auxiliando no que ele precisar. Orando a Deus por sua vida. Essas são as maneiras bíblicas de agir com quem nos machucou. Não importa como o outro se comporta, importa como você se comporta. Faça sua parte. Pense menos em si e mais em Cristo. Pois se cada um de nós pensar somente em si, da próxima vez que escrever um post sobre gente machucada na igreja não serão 48 pessoas contando suas histórias, mas 490.

A mudança começa em nós. Menos dedos apontados, mais lágrimas no travesseiro. E quando você conseguir ser alguém melhor, ajude os demais. A começar estendendo amor de forma prática a quem te fez mal. E aí haverá festa no Céu, porque você poderá estar sendo intrumento nas mãos de Deus para levar um pecador a se arrepender. Minha esperança é que para cada ferido “em nome de Deus” apareça um bom samaritano que venha a cuidar de suas feridas. E, isso sim, será verdadeiramente feito em nome do perdoador, misericordioso, amoroso e gracioso Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Vivemos na era do cristianismo de massa. Boas igrejas são as enormes. As com milhares de membros. A celebrada congregação do Pr. David Yonggi Cho, na Coreia do Sul, é tão monumental que quem se senta nos lugares mais altos tem à disposição televisores individuais  para enxergar o pregador. Vivemos a era dos grandes eventos evangelísticos, dos enormes shows na praia de Copacabana, da separação pastor-na-plataforma/membro-na-plateia. É um cristianismo externamente vibrante e ululante mas internamente vazio e frágil. Essa é nossa era. Um pastor é considerado “bom” se a congregação dele cresce a cada dia em número de membros – e ele é tão “bom” que nem conhece o nome de seu gigantesco rebanho. O pastor que cuida de perto das ovelhas, as visita, sabe o nome de seus filhos mas não gera um crescimento numérico recebe a ordem de retornar à sede, pois “não está sabendo fazer o trabalho”. Ou “não tem ministério”. Ou “não tem unção”. Em resumo, não é “bom”. Essa é a nossa era. Mas… quero lhe fazer um convite. Vamos viajar a uma outra era e analisá-la em comparação com a nossa.

O ano é cerca de 57 d.C. Um pregador escreve uma carta para uma igreja da qual é mentor. Seu nome é Paulo de Tarso. Um homem do mais elevado grau dentro da hierarquia eclesiástica da época, apóstolo, doutor da lei, chamado pessoalmente pelo Senhor, alguém que conversou de boca com o próprio Jesus, eleito entre milhares para ser arrebatado ao céu e ver coisas inefáveis. Um indivíduo que tinha tudo para subir no salto alto, exigir ser chamado de mil adjetivos alimentadores de vaidade, entrar pela porta dos fundos para não sofrer o assédio dos membros e olhar para a massa como… a massa – um amontoado de rostos sem nome. E para que saber seus nomes, não é? O que importa é subir no púlpito, pregar e descer do púlpito pela portinha lateral. Importante demais para se misturar, que isso fique ao cargo dos auxiliares.

A carta que ele escreve vai para a igreja de Roma. Se fosse hoje, não seria uma carta, mas uma transmissão pela TV, um editorial na revista da denominação, um devocional matinal na rádio de propriedade da igreja. Seria dirigida aos “irmãos e irmãs” ou a “meu amigo, minha amiga”. Mas naquela época não havia essa tecnologia. Só havia cartas. É de se supor, pela mentalidade de nossa era, que o grande apóstolo Paulo escreveu então para o líder máximo da igreja romana, seja ele o pastor, o bispo, o presbítero. Será?

Te convido para analisar Romanos 16, o último capítulo da epístola. Vamos ver como aquele importante homem de Deus tratou as massas sem nome da igreja Romana:

“Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive”. Hmmm, nada mal, Febe deve ser uma alta dignatária da igreja romana, para merecer ter seu nome mencionado por tão reverendo homem. Prossigamos:

“Saudai Priscila e Áqüila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram a sua própria cabeça; e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios”. Mais dois nomes. Mas, também, o casal arriscou a vida pelo grande apóstolo, não é de admirar que os tenha citado nominalmente. Mas deve parar por aí, Paulo é muito ocupado, não tem tempo de se dedicar a indivíduos, tem uma enorme rede de igrejas espalhadas pela Ásia Menor para administrar. Não é…? Continuemos.

“Saudai meu querido Epêneto, primícias da Ásia para Cristo”. Estranho. Outro que Paulo conhece pelo nome.

“Saudai Maria, que muito trabalhou por vós”. Hmmm.

“Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos e estavam em Cristo antes de mim”. (Silêncio)

“Saudai Amplíato, meu dileto amigo no Senhor”. (O-O)

“Saudai Urbano, que é nosso cooperador em Cristo”.

“E também meu amado Estáquis”.

“Saudai Apeles, aprovado em Cristo”.

“Saudai os da casa de Aristóbulo. Saudai meu parente Herodião. Saudai os da casa de Narciso, que estão no Senhor. Saudai Trifena e Trifosa, as quais trabalhavam no Senhor. Saudai a estimada Pérside, que também muito trabalhou no Senhor. Saudai Rufo, eleito no Senhor, e igualmente a sua mãe, que também tem sido mãe para mim. Saudai Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas e os irmãos que se reúnem com eles. Saudai Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas e todos os santos que se reúnem com eles”.

Até aqui contei pelo menos 27 nomes. Há algo errado. Quem explica? Como pode? Como compreender à luz do cristianismo da nossa era essa intimidade, essa proximidade, esse carinho, esse afeto, esse…

…amor?

Como entender que um pregador de tal envergadura ministerial conheceria as pessoas da igreja pelo nome? Seriam grandes dizimistas? Dignatários do governo? Intelectuais e artistas famosos? Não, eram pessoas comuns. Então como explicar tanto amor vindo de um homem com tamanha intimidade com Jesus?!

A explicação é exatamente essa: Paulo era um homem de tamanha intimidade com Jesus.

Quem conhece intimamente Cristo preocupa-se em conhecer intimamente sua noiva. A noiva por quem Ele deu a própria vida numa cruz. Quem é intimo do Senhor preocupa-se com aqueles que lhe são caros. Um ministro do presidente do Brasil não está no cargo para servir somente o presidente, mas para servir também os brasileiros. É algo indissociável. Dizer que ama Deus e não amar cada um de Seus filhos é uma prova de que, na verdade, só ama Deus da boca para fora.

Deus conhece você pelo nome. Importa que quem pastoreie sua vida também o conheça pelo nome. Se foi por falta de oportunidade ou porque você chega e sai do culto sem nunca ter se apresentado… faça isso. Vá até seu pastor e lhe diga: “Quero ser discipulado”. Megaigrejas não permitem isso. Quem avalia um pastor pelo crescimento numérico da congregação que ele pastoreia não entendeu nada do que Paulo ensinou. Em vez de apenas contar o número de membros ou batizados na igreja que ele lidera, para se perceber seu tônus ministerial deve-se conversar com as ovelhas dele. Perguntar se o pastor já foi a sua casa. Se já conversou sobre sua vida. Se já o amparou em momentos de angústia. Se desce da torre de marfim para o nível do chão. Se sua com o povo. Se chora com os pequenos. Se abraça os malcheirosos. Se beija os pecadores arrependidos. Se os conhece pelo nome. Esse é o bom pastor. Os outros podem ser bons pregadores ou bons qualquer-outra-coisa. Mas pastores?

O bom pastor sabe a razão de conhecer as ovelhas pelo nome: pois, ao fazer isso, está glorificando com sua vida – como bem mostra Romanos 16.27 – o “Deus único e sábio”, a quem “seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos”.

Amém…

Paz a todos vocês que estão em Cristo: Eliana, Marco, Luiz Felipe, Bianca, Lelê, Carla, Robson, Nanda, Alexandre, Isabelle, Poliana, Luiz Fernando, Cranudo, Fábio, Solange, Felipe, João, Danila, Ricardo, Jacy, Amanda, José, Gamaliel, Elinton, Luciene, Gutemberg, Alfredo, Tarciso, Alex, Dayana, Rodrigo, Juliana, Teresa, Edson, Artimes, Willian, Ruben, Marcos, Líbia, Anderson, Luiz Henrique, Carina, Regina, Katia, Katiana, Elias, Renan, Daniel, Gessé, Davi, Gleiscon, Raquel, Simone e tantos outros que só não menciono aqui por falta de espaço.

O mano, Maurício.

O blog APENAS, após 1 ano e 6 meses no ar, alcançou a marca de meio milhão de acessos. Isso significa que foram realizadas mais de 500 mil leituras dentre as 204 reflexões aqui postadas (sem considerar os irmãos que assinam e recebem os posts direto por e-mail). Como tudo isso são números, é uma excelente oportunidade para pensarmos sobre o assunto, tão controverso no que tange à Igreja: números são relevantes para o Evangelho? Muitos seguem a linha de que o importante é ganhar o maior número possível de almas para Cristo, portanto igrejas abarrotadas de gente e grandes eventos seriam sinal de sucesso na obra de Deus. Assim, se certa igreja ou ministério cresce em quantidade de membros, tamanho do santuário, número de congregações ou conta bancária, então supõe-se estar agradando a Deus. Já outros tantos defendem que o que importa é a qualidade dos discípulos, que é preferível ter grupos, comunidades ou igrejas pequenas e bem pastoreadas, de modo que o líder possa estar mais próximo de cada ovelha, mesmo que não haja tanta multiplicação de membresia. Afinal: em se tratando do Evangelho o que importa é quantidade ou qualidade?

O grande erro que muitos cometem é achar que temos de escolher entre um ou outro. Mas não temos. Essa não é uma questão de escolha, mas de prioridade. Ou seja: o que tem mais peso.

Claro que quantidade importa, no sentido que todos queremos que o maior número possível de almas seja resgatado do inferno. Negar isso seria hipocrisia. Mas defendo que a qualidade é infinitamente mais importante – e explico por quê. Não fico impressionado por shows e cruzadas que reúnem milhares de pessoas. Catedrais suntuosas também não enchem meus olhos, só me mostram que certo grupo eclesiástico teve dinheiro suficiente para realizar aquela obra. Megaigrejas não me geram interjeições: são paredes grandes e só. Meu blog ter tantos mil acessos em xis meses muito menos me faz sentir especial – nada de bom que escrevo seria escrito sem a iluminação do Espírito Santo. Nada disso me toca, e por uma simples razão: não consigo enxergar na Bíblia base para dizer que arrebatar multidões é o propósito do Reino de Deus.

Repare: em Mateus 22.14 descobrimos que “muitos são chamados, mas poucos, escolhidos”. Já em Mateus 7.13,14, Jesus escancara: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela”. Leia com calma e veja que verdade fulminante: poucos são os escolhidos. Poucos são os que entram pela porta da vida. Em outras palavras: poucos são os que vão para o Céu. E, se há milhões nas igrejas, isso só significa que muitos dos que estão ali não vão entrar na Glória de Cristo. São membros de igrejas mas não são salvos. Isso me entistece tanto quanto a você, mas é uma dedução lógica e óbvia, a partir do que Jesus afirmou – e da qual não há como fugir simplesmente porque me dói.

Que diferença entre essas afirmações de Jesus e as frases triunfalistas que dizem que vamos “ganhar o Brasil para Cristo”, não é? Chocado? Você ainda acha difícil crer que poucos serão salvos? Então preste atenção ao que o próprio Cristo diz a esse respeito, em Lucas 13.23-27: “Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos? Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão. Quando o dono da casa se tiver levantado e fechado a porta, e vós, do lado de fora, começardes a bater, dizendo: Senhor, abre-nos a porta, ele vos responderá: Não sei donde sois. Então, direis: Comíamos e bebíamos na tua presença, e ensinavas em nossas ruas. Mas ele vos dirá: Não sei donde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais iniquidades”. É uma verdade dura: muitos dos que frequentam igrejas e se acham salvos não são. As catedrais podem estar abarrotadas, mas o Paraíso terá bem menos gente do que se supõe. Você, atônito, pergunta então: “Mas e aí? O que essa percepção deve provocar em nós?”.

Primeiro, em nada isso deve diminuir nosso fervor evangelístico. Pois você nunca sabe quem será salvo. Então temos que seguir pregando a tempo e fora de tempo para toda criatura. Mas… não só pregar, como Marcos 16 parece sugerir. Pois Mateus 28.19,20 nos mostra a Grande Comissão como um todo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”.

A grande missão da Igreja não é, assim, ganhar almas: é fazer discípulos. E discípulos não são pessoas que frequentam aulas pré-batismais. Discípulos são gente que vai caminhar por anos, ombro a ombro, com cristãos mais experientes, aprendendo na convivência a ser um servo bom e fiel de Jesus de Nazaré. Para se formar um discípulo é preciso tempo, dedicação, atenção, abnegação. E não é possível fazer isso com multidões sem nome. Só se faz isso em grupos onde há possibilidade de os irmãos se relacionarem intimamente.

Nas igrejas faraônicas isso não ocorre. Grandes números impossibilitam isso. Imagine que cada pessoa que lê os posts que escrevo no APENAS me mandasse um e-mail com questões pessoais ligadas a cada texto. Só no dia em que publiquei, por exemplo, o recente artigo  “Perfeito amor“, teria de responder a mais de 3.100 e-mails – o que é virtualmente impossível. Imagine então, o pastor de uma igreja com 3.100 membros… como os pastoreará? Como dará atenção a cada um? Como os visitará em casa? Como os conhecerá pelo nome e sarará suas feridas?

Uma pergunta fundamental que envolve essa discussão e que, portanto, devemos nos fazer é: o que faremos ao chegar no Céu? Muitos têm aquela imagem de que vamos nos deitar em edredons de nuvens fofas e ficar de papo pro ar pela eternidade. Não creio. Nós passamos nove meses na barriga de nossa mãe sendo formados e preparados não para permanecer ali, mas para desempenharmos bem nossa vida pós-nascimento. E penso que passamos 70 anos, em média, nesta terra sendo formados e preparados para desempenharmos bem nossa vida pós-morte. Haverá coisas a se fazer no Céu. E penso que esta vida existe tão somente como uma preparação para a próxima. Meus erros e acertos nesta terra servem para formar o caráter que terei no dia em que, pela graça de Deus, entrar pelos portões do Paraíso – despido, já, da natureza pecaminosa corruptível.

Por tudo isso penso que Deus quer salvar pessoas para que sejamos bem preparados, nos tornando, assim, discípulos fieis. Não consigo ver o Senhor convocando um enorme exército despreparado para estar com ele na eternidade. O vejo mais separando para si um destacamento de elite, como era a guarda pretoriana na antiga Roma. Poucos, mas bem preparados. Poucos, mas espirituais. Poucos, mas santos. Poucos, mas cheios do fruto do Espírito. Poucos, mas que demonstram um autêntico amor pelo próximo. Poucos, mas que carregam consigo as cicatrizes de uma vida de aprendizado adquirido com muito suor, dor, pecados seguidos de arrependimento, perdões, humilhações e outros fatores que formam nosso caráter cristão.

Não, números não me enchem os olhos. Simplesmente porque não creio que encham os de Deus. Pastor querido, você se gaba de que sua igreja tem muitos membros? A pergunta certa é: como é a qualidade da vida espiritual deles? Quando quebro um braço, prefiro ter um único médico bem preparado ao meu lado do que mil pessoas que não sabem engessá-lo.

Chegamos a meio milhão de acessos. Louvo a Deus por isso. Mas se há qualquer mérito neste blog não está nem nas qualidades extremamente questionáveis do pecador que aqui escreve textos e muito menos no número de assinantes ou de cliques. Pois, se as milhares de pessoas que passaram por aqui leram algum texto mas nada mudou para melhor em suas vidas, o APENAS tem como único número relevante o seu valor: zero à esquerda. Mas se houve 1 só alma que foi abençoada, edificada, incomodada, transformada ou levada ao arrependimento pelas palavras aqui escritas… então o blog teve algum valor para o Reino de Deus. Qualidade acima de tudo. E, se houver quantidade com qualidade, ótimo.

Pois o que importa para qualquer espaço onde se fale do Evangelho – seja uma igreja, um livro, uma revista ou um blog – é aproximar almas humanas de Deus e torná-los mais íntimos um do outro. Se um blog tem 500 mil acessos e não aproxima ninguém de Deus nem ajuda a sarar as feridas da alma humana, seria preferível ter tido apenas 1 acesso com consequência. Pois, ao fazer isso, teria cumprido a razão da existência do homem e de tudo o que fazemos: glorificar Deus. Porque nada que você faça na vida vai glorificar mais ao Senhor do que amar o próximo e conduzi-lo à intimidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio.