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1Uma das atitudes mais incompreensíveis a meu ver para um cristão é a crença de que pessoas não mudam. Pelo simples fato de que pessoas mudam sempre e muito. Ouvi um homem de Deus dizer certa vez que a esposa dele já havia sido casada com sete homens diferentes ao longo da vida – e todos eram ele mesmo. Concordo totalmente. Todos nós somos seres em constante mutação. Por isso, me soa muito estranho ouvir um crente rotular alguém como um caso perdido. Ninguém é um caso perdido. Ninguém é imutável. E, principalmente: o evangelho é sobre pegar o pecador de hoje e transformá-lo no santo de amanhã. Negar isso é negar a cruz. Por isso, discriminar alguém porque pecou é negar o poder de Deus para restaurar aquela vida.

Davi é o exemplo clássico. Se você analisa a trajetória dele do começo ao fim verá o quanto ele mudou. Foi homicida, heroi, adúltero, libertador, soberbo, pai amoroso, sanguinário, homem segundo o coração de Deus, assassino de milhares sem misericórdia. Davi foi um genocida muitas vezes tão ou mais cruel que Hitler e Pol Pot (soa estranho? Releia 1Sm e 2Sm atentando para o que ele fazia com seus desafetos…). Era um cara difícil. No entanto, foi um homem de Deus. Pegue Paulo, que após se converter tem de ficar com um espinho na carne para não se ensoberbecer e, mesmo assim, se põe como o maior dos pecadores. Pegue Abraão, o pai da fé covarde que fingiu por duas vezes que sua mulher era sua irmã com medo da morte. E por aí vai, a lista é interminável: José, Moisés, Pedro, Salomão e tantos outros de humor inconstante, quedas e restaurações, pecados e aprendizados, erros e acertos. Deus acreditou em cada um deles. Devemos fazer o mesmo com os muitos Davi, Paulo, Abraão, José, Moisés, Pedro e Salomão que atravessam o nosso caminho.

Me recuso a olhar para quem quer que seja e dizer que fulano não tem mais jeito. Se eu fizer isso estarei negando a mensagem do evangelho e o poder de Deus. Até porque, sejamos francos, eu já cometi cada pecado tão horripilante – após minha conversão – que não tenho a mínima moral para falar de ninguém. Parabéns se você nunca cometeu (o que, honestamente, duvido). Mas a minha restauração após meus inúmeros erros me mostram na pele e na alma o quanto Deus pode pegar um comedor de bolotas dos porcos e reconduzi-lo ao ponto de onde nunca deveria ter saído.

Temos de cessar os apedrejamentos dentro das igrejas. Alguém pecou? Ame. Aproxime-se. Exorte. Pregue. Não abandone. Não dê as costas. Houve arrependimento? Bem-vindo, meu irmão, minha irmã. Bem-vindo de volta ao teu lar. Dá cá um abraço e vamos em frente. Esse é o nosso papel. Porque meter o malho em pecadores e desacreditar vidas é a coisa mais fácil do mundo, mas agir à semelhança do Cristo misericordioso é o que demonstra o quão maduros espiritualmente somos.

Pecadores sem arrependimento são um problema. Mas pecadores sem arrependimento são, também, potenciais futuros arrependidos. Não desista de ninguém. Não crucifique os que erraram. Deus sabe que somos pó e é importante que nós saibamos também. Algo que eu incorporei a minha vida é: só desisto de um pecador quando ele morre. Porque, até o momento de seu último suspiro, haverá chance de ele estar com Jesus no paraíso. Isso é licença para pecar? Jamais. A realidade do perdão não é um incentivo para o erro. Mas é um estímulo para amar quem peca.

Jesus veio para curar os enfermos – de corpo e de alma. Perdoar setenta vezes sete, vezes sete, vezes sete, vezes sete, vezes sete… Sarar almas doentes pelo pecado. O grande mandamento inclui amar o próximo como a si mesmo. E a maior expressão de amor são o perdão e restauração, que o diga João 3.16.

Que venham os pecadores. Que eles lotem nossas igrejas. Que ali encontrem um abraço amigo, e a pregação do evangelho do arrependimento, perdão e restauração. Pois aí o reino de Deus estará se fazendo presente. Fora disso é só vaidade e correr contra o vento.

Ame o pecador. E acredite nele. Pois Jesus nunca deixou de acreditar em você quando você cometeu os piores pecados de sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Arte1Minha esposa ganhou convites para o espetáculo de patinação “Disney on Ice”, em que diversos personagens da Disney dançam e deslizam em belas coreografias sobre o gelo. Nunca tinha assistido a nada do gênero, não fazia ideia de como era. Por isso, levamos nossa filha ao Maracanãzinho. Lá estava eu, com minha filhinha de 2 anos no colo, quando, no meio do show, entraram em cena todos os bruxos e bruxas dos desenhos da Disney, numa grande e animada coreografia. Confesso que me assustei e me preocupei. Deveria eu deixar minha doce e inocente filha ficar vendo feiticeiras e feiticeiros num cativante espetáculo de som e luz? Será que aquilo despertaria seu fascínio pelo assunto? De algum modo aquilo a levaria a se tornar uma satanista, uma adepta da bruxaria, uma depravada, uma apóstata ou mesmo uma cristã mística que dedica mais tempo ao diabo do que a Deus? Deveria eu me levantar e ir embora? A dúvida me consumia, quando entraram em cena Mickey, Minnie, Pateta e Pato Donald e, em meio a muita algazarra, expulsaram todos os bruxos de cena, enquanto a música celebrava a vitória do bem sobre o mal e a criançada ia ao delírio com a derrota das forças malignas. Sussurrei no ouvido de minha filhinha: “Tá vendo, filha, Jesus deu um jeito de fazer os maus irem embora”. E ela começou a gritar, animada: “Sai, bruxa má!”.  Esse episódio me fez refletir muito sobre qual é a diferença entre mencionar algo que vai contra os valores do Evangelho e defender esse algo. Até que ponto discorrer sobre um pecado estimula a prática desse pecado?

Minha conclusão é que entre mencionar e defender a diferença é monstruosa. No entanto, muitos de nós, cristãos, não conseguimos enxergar essa fronteira. Uma das áreas em que isso fica mais claro são as artes, haja vista as antigas polêmicas que envolvem questões como “música gospel X música do mundo”, “crente pode ir ao cinema?” etc. Sei que essa é uma discussão sem fim, que desperta paixões e defesas arraigadas, impulsivas e até agressivas (por favor, seja gentil ao discordar de minhas posições nos comentários…), sei que tem gente que considera a Disney um império satânico (graças a uma série de fitas de videocassete que um pastor com intenções que só cabe a Deus julgar lançou anos atrás, com algumas verdades sobre mensagens subliminares mas também com muitos exageros). Todavia, gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre o assunto.

Arte4Sempre defendi que não devemos deixar nossos filhos expostos de peito aberto a literaturas e filmes como os das sagas “Harry Potter” e “Crepúsculo” (perceba: eu disse “de peito aberto” e não que devemos proibi-los totalmente de ler tais obras). E explico por que precisamos nos acautelar com esse tipo de literatura: durante séculos, toda e qualquer representação de bruxos era sempre aquilo que a bruxaria de fato é: má. A bruxa da Branca de Neve, a bruxa da Bela Adormecida, a bruxa dos desenhos do Pica-Pau, a bruxa de Monteiro Lobato… todas as bruxas, enfim, sempre foram retratadas como alguém que joga no time do mal. Suas histórias nos estimulavam a fugir da bruxaria e a repudiá-la. Harry Potter não. Na série do bruxinho bonzinho, o bruxinho é… bonzinho. Essa é exatamente a questão. Ele é o herói. Ele é o tal. Ele é bacana. Ele é quem nossos adolescentes querem ser quando crescer. Eis aí o problema: o bruxo é o cara.

Arte7Nas histórias da saga “Crepúsculo” acontece o mesmo. Embora vampiros, ao contrário de bruxos, sejam seres fictícios, nessa saga eles são lindos, sedutores, charmosos, os galãs por quem as meninas suspiram. Mas os personagens vampiros são e sempre foram criaturas das trevas. Se você lhes aponta a cruz de Cristo o que eles fazem? A abraçam? Ou fogem? Então seres das trevas que fogem da cruz passaram a ser glorificados pela ficção. Até bem pouco tempo atrás os vampiros dos livros e dos filmes eram sempre tenebrosos, horripilantes, assustadores. “Crepúsculo” mudou isso e tornou desejável ser ou admirar alguém que foge da cruz de Jesus. É tudo uma questão da mensagem que é transmitida.

Então vemos que um pano de fundo belo pode ser o cenário para a transmissão de valores bem ruins do ponto de vista bíblico. Por exemplo: já expus em posts como “Cristão deve ouvir música do mundo?” e “O que é boa música evangélica?” que não vejo base bíblica para proibir cristãos de ouvir músicas seculares cujas letras não sejam antibíblicas. Mas isso deve ser sempre com cautela, analisando cuidadosamente e à luz das Escrituras aquilo que se consome. Para fazer um teste sobre isso decidi, por curiosidade pessoal, analisar letras de músicas de um artista que não é do meu gosto musical (e que, por isso, praticamente desconhecia seu repertório), mas que foi indicado por um homem de Deus a quem respeito muito e que gosta dele. Por essa razão decidi analisar as letras de suas canções e encontrei, em meio a muitas músicas inofensivas e bonitas aos ouvidos, também muitas que visivelmente contrariam o Evangelho e seus valores.

Arte3Minha cobaia foi Ivan Lins (que fique claro que nada aqui versa sobre a pessoa desse artista, apenas sobre as letras das canções que interpreta). Fiquei surpreso e assustado com a quantidade de valores antibíblicos em muitas de suas letras. “Vitoriosa”, “Porta entreaberta”, “Dinorah, Dinorah” e “Lembra de mim”, por exemplo, defendem uma sexualidade contrária ao padrão que as Escrituras estabelecem. Ainda nessa área, “Ai, ai, ai, ai, ai” exalta a paixão sexual ultrarromântica, assim como “Arrependimento”, que diz “Te amo, te amo, te amo / Mais que tudo, mais que Deus”.  “A gente merece ser feliz” e “Daquilo que eu sei” defendem o hedonismo. “Caminhos cruzados” advoga o amor irracional. “Acaso” transgride a soberania de Deus ao atribuir ao acaso fatos da vida. “Lua soberana” louva Iemanjá. Em “Ainda te procuro” a alusão é a buscar o amor nas cartas de uma cigana e em “Então é Natal” se insere no meio da música o mantra dos Hare Krishnas, “Hare Rama”. Já “Festas” passa uma noção totalmente equivocada do que é o Natal. A canção “Cartomante” faz um salada ecumênica: “Tenha paciência, Deus está contigo / Deus está conosco até o pescoço / Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes / Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias”.

E por aí vai.

Ou seja: nem tudo o que parece inocente apresenta valores bíblicos. Em tudo precisamos aplicar o tão falado discernimento.

Agora é preciso observarmos o outro lado da moeda: uma obra de arte apenas relatar histórias de pecados, idolatria, práticas equivocadas e tudo o que há de pior não a condena. Que o diga a própria Bíblia, que relata tudo isso e muito mais, da queda de Adão e Eva aos pecados das igrejas de Apocalipse, passando pelos de Abraão, Moisés, Noé, Jacó, Davi, Pedro, Paulo e muitos outros. O problema, a meu ver, é quando a obra defende a prática.

Arte4Já vi cristãos bons e sinceros desmerecerem livros magníficos, como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura “Cem anos de solidão”, que relata, dentro do realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, histórias extraordinárias e explicitamente fantasiosas com pecados gravíssimos, mas sem estimular ninguém a agir daquela forma. Ou “Crônica de uma morte anunciada”, do mesmo escritor, um excelente livro que fala do comportamento humano ante a morte certa. Ou, ainda, “O amor nos tempos do cólera”, uma linda história que tem como mensagem principal o fato de que o amor verdadeiro não depende de tempo, mas sim da pessoa (Jacó, que teve de trabalhar 14 anos por Raquel, que o diga). Imagine se fossemos condenar todos os livros de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, por exemplo, por sempre versarem sobre crimes. Sherlock Holmes, a propósito, é viciado em cocaína e há roubos e assassinatos em praticamente todas as suas histórias – mas nunca se faz nelas defesa dessas práticas.

Enfim, o que consigo ver na produção artística de variados segmentos, como a música, a literatura, a pintura, a escultura e outras artes é tanto a defesa (provavelmente inconsciente, na maioria dos casos) de valores antibíblicos (como nas músicas citadas acima) quanto a exposição não panfletária de nudez (como a Vênus de Milo, que pratica topless e deixa seu “cofrinho” à mostra – ver fotos) e a representação de um amor arrebatador, desesperado e ultrassexualizado (como em Cantares de Salomão – na Bíblia). Aliás, para quem lê Cantares entendendo o que lê, o comportamento sexual da família Buendia de “Cem anos de solidão” parece história de ninar. Vênus de MiloDeveríamos remover o livro mais erótico da Bíblia do cânon sagrado por causa disso? Ou, talvez, deixar de publicar a Bíblia? Quem sabe ainda proibir nossos filhos de ler as Escrituras, porque citam sexo, bruxaria, assassinatos, genocídios, adultérios, demônios e outras coisas terríveis?

Uma coisa é defender. Outra é relatar. Creio que, por esse pudor bem-intencionado (é importante frisar isso) porém desconectado da realidade, especialmente da realidade em que vivem os nossos jovens, uma grande parcela da Igreja tem falhado profundamente em orientar as novas gerações. Não é à toa que nossas igrejas estão cheias de adolescentes solteiras grávidas e de adultos que nãos sabem como proceder com relação às artes. Pois enquanto o mundo cai batendo sem piedade, nós ainda falamos da abelhinha do papai pousando na flor da mamãe.

Há uma guerra grave e severa no mundo espiritual e, consequentemente, nas instâncias humanas, por nossos corações e mentes. Falo de camarote: eu mesmo já fui vítima dessa guerra e cometi pecados para os quais hoje, após o arrependimento, olho com muita tristeza, profundo lamento e sem acreditar que fui capaz de cometer tamanhas atrocidades. Só que cometi e hoje, embora perdoado por Deus, carrego as cicatrizes – e para sempre as carregarei. Guerras são assim: deixam mortos e feridos por todos os lados e, se você não está bem protegido num abrigo antiaéreo, será atingido. No caso, nosso abrigo chama-se Jesus de Nazaré. O mundo está usando AR-15 e tanques, enquanto nós entramos com estalinhos e pistolas de água. Fica fácil ver de que lado a corda vai romper, se continuarmos nesse caminho. Temos de proteger nossos filhos para que eles não cometam os mesmos erros abomináveis que nós cometemos no passado – e essa proteção deve ser efetuada não com alienação, mas com oração e as indispensáveis informação e instrução (sempre de forma adequada para cada faixa etária, claro). Por ter cometido pecados que hoje abomino tenho de lutar de forma arraigada para que minha filha não os cometa.

Arte7O problema é que estamos empreendendo essa luta da forma errada. Pois, em grande parte, nós, cristãos, acreditamos que a alienação é a saída: não deixe ter acesso e está tudo certo; proíba a leitura e seu filho nunca vai pecar. Só que alienação não cria jovens santos: cria jovens alienados. Isolamos nossas crianças e nossos adolescentes, em vez de instruir e ensinar. Proibimos em vez de dialogar (como se eles não fossem ler escondido ou na casa do coleguinha). A saída não é propor uma abstinência dos livros que ganharam o Prêmio Nobel só porque eles relatam histórias de pessoas que pecam, mas estimular que leiam e então discutir com eles o que ali está relatado. Quando leio para minha filha de 2 anos a história do Patinho Feio, explico que discriminar os outros porque são fisicamente diferentes é errado, é racismo, mas não a proíbo de conhecer a história. E, quando leio Chapeuzinho Vermelho, falo sobre a maldade do lobo em oposição à bondade de Chapeuzinho, não a proíbo de ter acesso por se tratar de um livro violento (lembremos que o lobo é sumariamente executado no final). Que dizer então do Gato de Botas, um mentiroso frio e calculista que, para se dar bem na vida, inventa mil ardis para enganar o rei, incentiva outras pessoas a mentir, assassina sem piedade o gigante para poder usar o castelo dele em seu plano maligno de ascensão social e no fim… vive feliz para sempre. Leio com minha filha a história, mas explico cada erro cometido, cada equívoco. E, sabe… hoje minha filha não vai muito com a cara do Gato de Botas.

Sou a favor da boa música, secular ou cristã. Sou a favor da boa literatura – secular ou cristã. Sou a favor das boas artes plásticas – seculares ou cristãs. Não deixarei de estimular minha filha a ler a magnífica obra de Gabriel Garcia Marquez, mas vamos conversar muito sobre as mensagens de seus livroArte6s – as boas e as más. Não deixarei de levar minha filha para ver os quadros da fase negra de Goya (ao lado) devido à violência e ao mal retratados neles – mas lhe contarei por que aquelas imagens são assim. Não vou fugir das galerias do Louvre onde estão estátuas greco-romanas de homens nus, mas instruirei minha filha sobre os conceitos estéticos vigentes naquelas culturas e o que podemos tirar daquilo. Bem orientada, não creio que nada disso a tornará uma depravada. Pelo contrário, a deixará instruída e prevenida. Até porque, em paralelo, estarei ensinando a ela o Evangelho, explicando por que Deus mandava seu povo dizimar nações à espada, permitia a poligamia, mandava apedrejar pessoas até a morte, ordenava que cunhados se casassem só para gerar descendentes e outras práticas bizarras que ali são relatadas mas não estimuladas na nova aliança.

Porque, sejamos coerentes, se formos simplesmente proibir nossos jovens de ler livros que contêm violência, relatos de atos sexuais ilícitos e depravados, histórias de pecados horripilantes, descrições extraordinárias de anjos duelando com demônios e relatos de experiências de seguidores de doutrinas de demônios… nenhum deles jamais leria a Bíblia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Muitos irmãos sofrem perseguição por sua fé em Cristo – possivelmente você já sofreu. Ela pode se manifestar de maneiras variadas, da zombaria e segregação à agressão física e morte. Como devemos lidar com isso? Como reagir quando alguém pega no nosso pé ou nos destrata pela nossa crença em Jesus? Revidamos? Abaixamos a cabeça? Há uma forma bíblica de proceder quando isso ocorre? Sim, há. E para termos convicção sobre ela e estarmos preparados para reagir biblicamente à perseguição teremos de percorrer algumas passagens das Escrituras, introjetá-las fundo em nossa alma e viver da difícil maneira a que elas nos ensinam.

Ao longo dos 2.000 anos de História do Cristianismo sempre houve perseguição, em escalas variadas. O martírio sempre foi uma constante. Nos três primeiros séculos, confessar Jesus era passaporte para ser estraçalhado por leões, incinerado na fogueira e torturado de formas inimagináveis. Os séculos se passaram e os cristãos continuaram a sofrer nas mãos dos mais variados tipos de gente, de islâmicos e cristãos de outras tradições (católicos nas mãos de protestantes e protestantes nas mãos de católicos, dependendo da época e do local) a ateus e comunistas. Ainda em nossos dias, ministérios como a Missão Portas Abertas se dedicam a denunciar a perseguição a cristãos por todo o mundo e, por meio de trabalhos como o realizado por eles, sabemos que em cerca de 90 países do mundo existe atualmente perseguição religiosa ativa (saiba mais AQUI).

No Brasil somos abençoados. Não existe, por definição, perseguição religiosa, uma vez que, segundo a Missão Portas Abertas, “o individuo é perseguido se for privado de qualquer dos elementos fundamentais da liberdade religiosa”. E mais: “Perseguição não se refere a casos individuais, mas sim, quando um sistema, político ou religioso, tira a liberdade de um cristão ou o acesso à Bíblia, restringe ou proíbe o evangelismo de jovens e crianças, atividades da igreja e de missões”. Assim, em nosso país não chegamos a esse ponto. Há uma grande intolerância, mas não “perseguição”.

Só que, se nos permitirmos fugir dessa definição e nos ativermos ao senso comum, podemos entender como perseguição até mesmo todo tipo de bullying que ocorre em muitos lugares. Ser evangélico hoje gera chacota para muitos. Rejeição da família por outros (conheci uma jovem cujos pais católicos não permitiam que ela frequentasse uma igreja evangélica). Piadas estereotipadas em programas de televisão. Proprietários que se recusam a alugar imóveis para igrejas. Eu mesmo, em certa empresa em que trabalhei, tive de ouvir que eu “não era criativo devido à minha religião”, simplesmente porque me recusei a editar uma revista corporativa de uma grande companhia fabricante de cigarros.

Verdade seja dita: por razões históricas, espirituais ou mesmo por culpa de certos setores da igreja evangélica e suas práticas questionáveis, hoje em dia dizer-se evangélico é, para enorme parcela de nossa sociedade, sinônimo de ser bitolado, massa de manobra, ignorante, ingênuo, homofóbico, medieval, supersticioso e coisas dessa linha. Eu já tive de enfrentar muitos desses adjetivos e muitas situações desagradáveis. Você já?

Feita essa constatação, voltamos à pergunta: quando nos deparamos com situações em que nos sentimos discriminados ou mesmo perseguidos devido à nossa crença em Jesus, como eu e você devemos reagir? Mais ainda: como devemos nos sentir?

Em primeiro lugar, temos de saber que é previsível que seremos perseguidos: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente  em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3.12). Paulo já sabia disso 2.000 anos atrás. E as profecias dizem que nos últimos dias a perseguição só tende a piorar. Mas isso não deve ser motivo de temor, se considerarmos que importa mais viver a eternidade ao lado de Deus sofrendo nesta vida do que viver bem e ter morte espiritual. O próprio Jesus disse que seríamos “bem-aventurados”, ou seja, “felizes”, se fossemos perseguidos por amor a Ele: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mt 5.10-12).

Sei que você já leu essa passagem tantas vezes que, de repente, o sentido e a profundidade das palavras acabaram se perdendo. Então vamos prestar muita atenção aos detalhes. Repare o que Jesus está dizendo: ser perseguido por amor a Ele é razão de felicidade. Se você for perseguido por amor a Cristo – for insultado, ofendido e até mesmo se mentirem contra você – deve se alegrar. Mais do que isso, deve se regozijar, o que significa festejar ou ter prazer, contentamento, satisfação, júbilo. Naturalmente que sua natureza humana recusa-se a sentir isso na hora em que fazem troça de você, quando te acusam de forma estereotipada, quando sofre no emprego por ter colegas que pegam no seu pé devido a sua ética cristã, quando sua  família se levanta contra você por se declarar um servo de Jesus.

Só que… quem disse que ser cristão é agir como nossa natureza humana dita? Ser cristão é agir como a natureza de Cristo dita. E, se assim o fizermos, “grande é a recompensa” que nos espera nos céus. E o parâmetro que Jesus estabelece como exemplo são os profetas perseguidos do passado. A esse respeito, Hebreus 11 é riquíssimo. Veja, por exemplo,  o que se diz acerca do príncipe do Egito que virou pastor em Midiã: “Pela fé Moisés, já adulto, recusou ser chamado filho da filha do faraó, preferindo ser maltratado com o povo de Deus a desfrutar os prazeres do pecado durante algum tempo. Por amor de Cristo, considerou a desonra riqueza maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava a sua recompensa” (Hb 11.24-26)

E não para por aí. O autor aos hebreus fala das situações horripilantes que muitos tiveram de enfrentar por fidelidade a Deus e fé nele. Transcrevo aqui esse trecho, em forma de tópicos, de forma a pontuar melhor o que ele diz:

“Alguns foram
1. torturados e
2. recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior. Outros
3. enfrentaram zombaria e açoites, outros ainda foram
4. acorrentados e colocados na prisão,
5. apedrejados,
6. serrados ao meio,
7. postos à prova,
8. mortos ao fio da espada.
9. Andaram errantes,
10. vestidos de pele de ovelhas e de cabras,
11. necessitados,
12. afligidos e
13. maltratados.
O mundo não era digno deles.
14. Vagaram pelos desertos e montes, pelas cavernas e grutas.
Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido. Deus havia planejado algo melhor para nós, para que conosco fossem eles aperfeiçoados”
(Hb 11.32-40). Aos olhos do mundo, derrotados. Aos olhos de Deus, o mundo não era digno deles.

E de modo muito prático? Você que sofre no trabalho por bullying de colegas, na escola, na universidade, na vizinhança ou em qualquer outra instância por sua fé em Jesus, como deve reagir? Mandar todo mundo pro inferno? Orar pedindo que a mão de Deus pese sobre quem te faz mal? Entrar em bate-bocas, acusações, troca de farpas, vendetas e outras formas de beligerância? Não. Nada disso. Pois isso, meu irmão, minha irmã, biblicamente é uma reação carnal e diabólica. O que Jesus nos ensina mais uma vez é contrário à natureza humana. Pois o homem natural reage com violência e ira. O homem espiritual segue o que Jesus de Nazaré ensinou: põe o outro acima de si, aceita as bofetadas e os açoites (físicos ou morais), suporta a provação e as perdas mas se recusa a agir com vingança, a se defender ou a devolver na mesma moeda. Segue em silêncio o caminho do seu calvário pessoal. E não sou eu quem diz, é ensinamento do próprio Salvador do mundo, do manso Cordeiro (novamente em tópicos, para captar mais a sua atenção):

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’.  Mas eu lhes digo:
1. Não resistam ao perverso.
2. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.
3. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
4. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas.
5. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”.
Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo:
6. Amem os seus inimigos e
7. orem por aqueles que os perseguem,
para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso!”
(Mt 5.38-47).

Mas, Zágari, não posso revidar quem me persegue nem um pouquinho? Minha vontade é de acabar com a raça daquele incircunciso! Bem… responda você mesmo: “Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem” (Rm 12.14). E mais: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor.  Pelo contrário: ‘Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’.  Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Rm 12.19-21).

Seremos perseguidos, isso é um fato bíblico inescapável. O mandamento cristão é não revidar. Nada de lançar aviões contra os edifícios de quem nos persegue. Nada de invadir países para matar os inimigos. Nada de proferir nem sequer uma palavra de maldição contra nossos perseguidores. Jesus nos ensina a abençoá-los, a amá-los, a orar por eles, a alimentá-los, a saciá-los, a fazer-lhes o bem, a adotar uma postura pacificadora, a aguentar os murros na outra face. Quem de nós faz isso? Pouquíssimos, sejamos francos. A notícia é que esses pouquissimos são os que estão agindo como Deus deseja. A boa notícia para esses é que haverá recompensa na eternidade para os que engolirem sua humanidade, sofrerem perdas e danos por amor a Cristo e tiverem a nobreza de superar a vontade humana de dar o troco ou agir com violência verbal ou física. Não é preciso ter nascido de novo para pagar a perseguição na mesma moeda. Mas só quem nasceu de novo pode, pelo poder do Espírito, suportar tudo calado, negar-se a si mesmo e carregar a cruz até o dia de sua morte.

E esses, Jesus diz, são os bem-aventurados. Os felizes. Você está sofrendo qualquer tipo de perseguição pela sua fé, meu irmão, minha irmã? Sorria em silêncio. Você é feliz aos olhos de Deus. E grande será sua recompensa na eternidade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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