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Misericordia1Um homem matou a facadas a tia, o primo e a prima de 12 anos. Esta última com 30 punhaladas. Preso, o triplo assassino caiu em lágrimas durante o interrogatório, confessou o crime e falou que simplesmente não sabia por que tinha feito aquilo. Ouvi quando ele disse “eu não quero ser preso, porque, senão, vou morrer na prisão e vou para o inferno. E não quero arder no fogo do inferno!”. Que cena. Que tragédia. Que tristeza. Mas houve algo que me chamou a atenção em meio a tudo isso. Assim que, aos prantos, ele fez essas afirmações, a delegada responsável pelo caso disparou um comentário: “Ele não teve misericórdia e agora quer que tenham misericórdia dele, que absurdo…”. Peraí. Há algo estranho com essa frase. Uma contradição que ficou martelando em minha cabeça. Reflitamos um pouco sobre misericórdia, um dos conceitos mais fundamentais da fé cristã.

Não vou entrar pelo mérito daquele crime em si. Foi tão abominável que dispensa comentários. Mas a questão da misericórdia bateu em meu peito como 30 facadas. Repare bem as palavras da policial. Ela está condicionando o recebimento de misericórdia à prática de misericórdia. Em outras palavras, “é dando que se recebe”. Só que esse pensamento contraria frontalmente o evangelho, conforme disse o próprio Jesus: “Há maior felicidade em dar do que em receber” (At 20.35). Aquela delegada não compreende o sentido de misericórdia – nem de longe.

Também conhecida como “compaixão” ou “piedade”, misericórdia significa dar a alguém algo que não merece. É o contrário de “justiça”, que é dar a alguém algo que merece. Cristo deu exemplos contundentes do que isso significa. Veja o caso da mulher adúltera. Pela Lei judaica, ela deveria ser apedrejada até a morte. Isso seria justo. Era o que ela merecia. Mas Jesus preferiu não agir com justiça, mas com misericórdia, e deu a ela o que aquela mulher não merecia: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado” (Jo 8.11). Sim, Jesus foi misericordioso e a perdoou. Foi magnânimo. Foi divino. E não só pregou de púlpito sobre misericórdia: ele agiu conforme pregou.

Outro exemplo de Cristo é a parábola do servo impiedoso (repare no termo, “impiedoso”, ou seja, “sem piedade”, “sem misericórdia”). Sei que você já a leu inúmeras vezes, mas, se puder, por favor, leia novamente: Misericordia2“Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu: ‘Eu lhe digo: Não até sete, mas até setenta vezes sete. Por isso, o Reino dos céus é como um rei que desejava acertar contas com seus servos. Quando começou o acerto, foi trazido à sua presença um que lhe devia uma enorme quantidade de prata. Como não tinha condições de pagar, o senhor ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que ele possuía fossem vendidos para pagar a dívida. O servo prostrou-se diante dele e lhe implorou: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo’. O senhor daquele servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou ir.

“Mas quando aquele servo saiu, encontrou um de seus conservos, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Pague-me o que me deve!’ Então o seu conservo caiu de joelhos e implorou-lhe: ‘Tenha paciência comigo, e eu lhe pagarei’. Mas ele não quis. Antes, saiu e mandou lançá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Quando os outros servos, companheiros dele, viram o que havia acontecido, ficaram muito tristes e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido. Então o senhor chamou o servo e disse: ‘Servo mau, cancelei toda a sua dívida porque você me implorou. Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu tive de você?’ Irado, seu senhor entregou-o aos torturadores, até que pagasse tudo o que devia. Assim também lhes fará meu Pai celestial, se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão’” (Lc 18.21-35).

Claro como água. O trecho central da parábola é este: “O senhor daquele servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou ir”. A justiça era cumprir a lei, vender os parentes do devedor como escravos e pegar o dinheiro. Justo. Mas aquele senhor não fez isso. Antes, teve compaixão dele. E, com isso, cancelou a dívida e o deixou ir. Isso é misericórdia: cancelar a dívida.

Misericordia3Quando eu e você fomos chamados pela graça de Deus, ele cancelou nossa dívida. Zero. Misericórdia em ação. A justiça exigia que eu ardesse no fogo do inferno, como aquele triplo assassino lembrou muito bem. Você também. Toda a humanidade, sofrendo pela eternidade distante do Criador. Mas, então… um Cordeiro é agarrado, surrado, cuspido, humilhado e levado ao matadouro. Ali, o holocausto oferecido numa cruz pinga sangue. E quando sai da sepultura, a terra treme com um som que diz: “Recebam minha misericórdia!”.

Ao contrário de Cristo, hoje muitos cristãos pregam sobre piedade mas não a vivem em suas vidas. Amam a misericórdia da boca para fora, mas não a praticam em suas ações. Agem exatamente como aquela delegada.

O grande erro daquela policial foi crer que misericórdia é algo que se merece. É exatamente o contrário. Misericórdia só existe quando não há absolutamente nenhum merecimento. Aquele assassino cruel vai cumprir a justiça humana e ficará preso, possivelmente até o fim de sua vida. Ele merece isso. É justo. Mas, se, em algum momento dos anos que lhe restam, o homem que chacinou a própria família sem misericórdia alguma vier a ser tocado pela graça do Cordeiro, prostrar seu espírito de joelhos e pedir a Deus perdão sincero pelos seus pecados… ele alcançará misericórdia. E irá para o céu.

Vivemos dias em que há tanta iniquidade ao redor que o nosso senso de justiça clama por punição. Só que repare uma coisa: Jesus não disse “bem-aventurados os justos”, tampouco “bem-aventurados os que cumprem a lei”. Ele afirmou: “Bem-aventurados os misericordiosos” (Mt 5.7). Essa ênfase não quer dizer, é claro, que justiça e o cumprimento da lei não importam. Claro que importam. São fundamentais e indispensáveis. Mas, se o Senhor enfatizou a misericórdia, isso nos leva a uma reflexão. Será que ela não tem mais peso? Será que ela não recebeu essa menção especial porque Deus a considera especial? “Desejo misericórdia, e não sacrifícios” (Os 6.6), diz o Senhor.

Acredito que Deus ama os justos. Mas ouso especular que ele tem um olhar diferente sobre os misericordiosos.

Sejamos bem-aventurados. Tenhamos um coração mais perdoador, compassivo, piedoso, misericordioso. Essa, meu irmão, minha irmã, é a única forma de termos um coração como o de Jesus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Azuis1Um conselho: não queira me conhecer pessoalmente. Um grande amigo costuma dizer que “de longe todas as montanhas são azuis, mas de perto são pedra e lama”. Pura verdade. Não foram poucas as pessoas que tomaram conhecimento da minha existência pelas coisas que escrevo, quiseram se aproximar e, depois de um tempo de convivência, sumiram. E não as censuro: elas simplesmente conheceram quem eu sou de verdade, com meus defeitos, meus pecados, minhas incorrigíveis falhas. E aí perdi a graça, pois deixei de ser aquele ser idealizado que elas achavam que eu era pelas coisas que escrevo e passei a ser… eu mesmo. Cá entre nós: sorte dessas pessoas, porque não há nada pior do que se relacionar com alguém que não é quem se pensa. Por isso admiro aqueles que descobrem quem é o verdadeiro Zágari e ainda assim continuam querendo conviver comigo. Acredito que Deus também admira os que o conhecem intimamente e, ainda assim, decidem permanecer convivendo com ele.

Claro que não dá para me comparar com Deus. No meu caso, as características que as pessoas que se aproximam de mim descobrem são todas negativas – minhas fraquezas morais, rabugice, impaciência, antipatia, preguiça, intolerância, palavras mal postas e por aí vai. Só coisas ruins, que agarram-se à ideia idealizada de quem eu sou como ferrugem a uma escultura. Já no caso de Deus é diferente. Paradoxalmente, o que faz muitas pessoas se afastarem dele quando o conhecem mais intimamente é sua real natureza, que, obviamente, é extremamente positiva – mas pode desanimar muitos.

Azuis2Pense comigo e veja se não é assim: a pessoa se converte. Em nossos dias, a pregação fácil que impera nos púlpitos cria um Deus idealizado, digno de ser amado por todos: que te fará prosperar em tudo, que vai curar todas as tuas doenças, que te fará ter uma vida eletrizantemente maravilhosa, que te dará tudo aquilo que você lhe pedir se tiver fé… que Deus extraordinário! A imagem que propagamos do Senhor é um ser disposto a dar, dar, dar, dar, dar, dar, dar e dar, num frenesi abençoador sem limites. Eu olho para um Deus desse, que sacia-me o tempo todo, e a paixão é imediata. Quem não se apaixonaria? Eu decreto que quero de volta o que é meu e me asseguram que ele vai dar. Gente, por onde andava esse Deus que eu ainda não tinha encontrado?! E, se você se mantém na superficialidade do conhecimento sobre ele, é esse Deus mesmo que terá: uma caricatura distante e idealizada do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Gente boa, mas irreal.

Só que algumas pessoas cometem o pecado imperdoável: decidem se aproximar de Deus e conhecê-lo mais intimamente. Começam então a estudar a Bíblia. Passam a ler bons livros cristãos. Ingressam em grupos de debate bíblicos onde se aprofundam nas questões sobre o Senhor. Matriculam-se em seminários teológicos. Passam a ser discipuladas por cristãos de verdade. E aí, meu irmão, minha irmã, ocorre o choque: descobrem que aquele Deus que, de longe, era tudo o que pediram a Deus, na verdade não é bem do jeito que tinham idealizado.

Azuis3Descobrem que ele é amor e graça, mas que seu juízo é severo. Reparam que muitos e muitos cristãos vão nascer, viver e morrer materialmente pobres. Percebem que, por mais incomensurável que seja a fé delas, se a soberania e a vontade divinas não quiserem lhes dar algo, simplesmente não receberão. Notam que os anos se passarão e, por mais que muitos irmãos ao seu redor tenham muita fé, não serão curados de suas doenças. Se espantam por ver que os sofrimentos vêm muitas e muitas vezes ao longo de sua caminhada com Cristo. Se dão conta de que estão deprimidos, mesmo tendo o Senhor em sua vida. Percebem que Deus diz “não” muitas vezes a nossas vontades. E por aí vai.

Muitos não suportam a intimidade com Deus. A realidade divina interessa pouco a quem o idealizou como um Deus que não faz outra coisa da vida a não ser abençoar. Não pouca gente se decepciona com a real caminhada com Jesus, que é bem diferente daquele triunfalismo mar de rosas que lhe ensinaram no início da sua vida de fé. E, por isso, acaba se afastando dele. Pois creu num Deus idealizado e, quando se aproximou de fato, notou que não era como a caricatura que pintaram dele. E de fato não é, perseverar na fé exige de nós amar Jesus com todas as coisas nele que não nos agradam (como, por exemplo, abrir mão de nós mesmo, tomar a nossa cruz e, só então, segui-lo).

Azuis4Não culpo quem se aproximou de mim, descobriu quem eu sou de fato e depois se afastou, sumiu, perdeu o interesse. Seu erro não foi se aproximar, mas acreditar na imagem idealizada e irreal que tiveram no começo – e que está longe de ser quem de fato sou. Se viessem dispostos a amar, encontrem quem encontrarem, não teriam se decepcionado. Do mesmo modo, é uma pena que haja quem se aproxime de Deus crendo que ele é aquele bom velhinho de amor sem justiça, graça sem obras, paz sem renúncia e bem-bom sem sofrimentos. Deus é Deus e felizes os que descobrem quem ele verdadeiramente é desde o início. Que chegam até ele dispostos a amá-lo encontrem quem encontrarem. Pois aí passarão a amar o Jesus de verdade, mesmo que Ele seja diferente do que inicialmente imaginaram.

Apesar de eu ser esse poço de problemas e pecados, ainda assim há quem persista em ser meu amigo ao descobrir o vaso de barro todo rachado que eu sou – vai entender. Esses não estão ganhando muito com isso. Vantagens maiores têm aqueles que, mesmo sabendo que estar com Jesus vai exigir muito de si, ainda assim persistem em se relacionar com ele. E esses estão ganhando tudo com isso: a vida eterna.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício