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Azuis1Um conselho: não queira me conhecer pessoalmente. Um grande amigo costuma dizer que “de longe todas as montanhas são azuis, mas de perto são pedra e lama”. Pura verdade. Não foram poucas as pessoas que tomaram conhecimento da minha existência pelas coisas que escrevo, quiseram se aproximar e, depois de um tempo de convivência, sumiram. E não as censuro: elas simplesmente conheceram quem eu sou de verdade, com meus defeitos, meus pecados, minhas incorrigíveis falhas. E aí perdi a graça, pois deixei de ser aquele ser idealizado que elas achavam que eu era pelas coisas que escrevo e passei a ser… eu mesmo. Cá entre nós: sorte dessas pessoas, porque não há nada pior do que se relacionar com alguém que não é quem se pensa. Por isso admiro aqueles que descobrem quem é o verdadeiro Zágari e ainda assim continuam querendo conviver comigo. Acredito que Deus também admira os que o conhecem intimamente e, ainda assim, decidem permanecer convivendo com ele.

Claro que não dá para me comparar com Deus. No meu caso, as características que as pessoas que se aproximam de mim descobrem são todas negativas – minhas fraquezas morais, rabugice, impaciência, antipatia, preguiça, intolerância, palavras mal postas e por aí vai. Só coisas ruins, que agarram-se à ideia idealizada de quem eu sou como ferrugem a uma escultura. Já no caso de Deus é diferente. Paradoxalmente, o que faz muitas pessoas se afastarem dele quando o conhecem mais intimamente é sua real natureza, que, obviamente, é extremamente positiva – mas pode desanimar muitos.

Azuis2Pense comigo e veja se não é assim: a pessoa se converte. Em nossos dias, a pregação fácil que impera nos púlpitos cria um Deus idealizado, digno de ser amado por todos: que te fará prosperar em tudo, que vai curar todas as tuas doenças, que te fará ter uma vida eletrizantemente maravilhosa, que te dará tudo aquilo que você lhe pedir se tiver fé… que Deus extraordinário! A imagem que propagamos do Senhor é um ser disposto a dar, dar, dar, dar, dar, dar, dar e dar, num frenesi abençoador sem limites. Eu olho para um Deus desse, que sacia-me o tempo todo, e a paixão é imediata. Quem não se apaixonaria? Eu decreto que quero de volta o que é meu e me asseguram que ele vai dar. Gente, por onde andava esse Deus que eu ainda não tinha encontrado?! E, se você se mantém na superficialidade do conhecimento sobre ele, é esse Deus mesmo que terá: uma caricatura distante e idealizada do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Gente boa, mas irreal.

Só que algumas pessoas cometem o pecado imperdoável: decidem se aproximar de Deus e conhecê-lo mais intimamente. Começam então a estudar a Bíblia. Passam a ler bons livros cristãos. Ingressam em grupos de debate bíblicos onde se aprofundam nas questões sobre o Senhor. Matriculam-se em seminários teológicos. Passam a ser discipuladas por cristãos de verdade. E aí, meu irmão, minha irmã, ocorre o choque: descobrem que aquele Deus que, de longe, era tudo o que pediram a Deus, na verdade não é bem do jeito que tinham idealizado.

Azuis3Descobrem que ele é amor e graça, mas que seu juízo é severo. Reparam que muitos e muitos cristãos vão nascer, viver e morrer materialmente pobres. Percebem que, por mais incomensurável que seja a fé delas, se a soberania e a vontade divinas não quiserem lhes dar algo, simplesmente não receberão. Notam que os anos se passarão e, por mais que muitos irmãos ao seu redor tenham muita fé, não serão curados de suas doenças. Se espantam por ver que os sofrimentos vêm muitas e muitas vezes ao longo de sua caminhada com Cristo. Se dão conta de que estão deprimidos, mesmo tendo o Senhor em sua vida. Percebem que Deus diz “não” muitas vezes a nossas vontades. E por aí vai.

Muitos não suportam a intimidade com Deus. A realidade divina interessa pouco a quem o idealizou como um Deus que não faz outra coisa da vida a não ser abençoar. Não pouca gente se decepciona com a real caminhada com Jesus, que é bem diferente daquele triunfalismo mar de rosas que lhe ensinaram no início da sua vida de fé. E, por isso, acaba se afastando dele. Pois creu num Deus idealizado e, quando se aproximou de fato, notou que não era como a caricatura que pintaram dele. E de fato não é, perseverar na fé exige de nós amar Jesus com todas as coisas nele que não nos agradam (como, por exemplo, abrir mão de nós mesmo, tomar a nossa cruz e, só então, segui-lo).

Azuis4Não culpo quem se aproximou de mim, descobriu quem eu sou de fato e depois se afastou, sumiu, perdeu o interesse. Seu erro não foi se aproximar, mas acreditar na imagem idealizada e irreal que tiveram no começo – e que está longe de ser quem de fato sou. Se viessem dispostos a amar, encontrem quem encontrarem, não teriam se decepcionado. Do mesmo modo, é uma pena que haja quem se aproxime de Deus crendo que ele é aquele bom velhinho de amor sem justiça, graça sem obras, paz sem renúncia e bem-bom sem sofrimentos. Deus é Deus e felizes os que descobrem quem ele verdadeiramente é desde o início. Que chegam até ele dispostos a amá-lo encontrem quem encontrarem. Pois aí passarão a amar o Jesus de verdade, mesmo que Ele seja diferente do que inicialmente imaginaram.

Apesar de eu ser esse poço de problemas e pecados, ainda assim há quem persista em ser meu amigo ao descobrir o vaso de barro todo rachado que eu sou – vai entender. Esses não estão ganhando muito com isso. Vantagens maiores têm aqueles que, mesmo sabendo que estar com Jesus vai exigir muito de si, ainda assim persistem em se relacionar com ele. E esses estão ganhando tudo com isso: a vida eterna.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Um fenômeno incompreensível no nosso meio é a alegria que muitos frequentadores de igreja demonstram quando um  cristão cai em pecado. E digo “frequentadores de igreja” não por acaso: um cristão de verdade jamais se alegra com o pecado de ninguém. A verdade é que, enquanto Jesus diz que “haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7), aqui na terra a turma se esbalda quando alguém peca. Evidentemente não estou falando só de pecados gravíssimos, terríveis, como: glutonaria, rancor, ira, maledicência, discórdia, ciúmes, egoísmo, inveja e outros dessa estirpe (ou você achava que esses pecados não eram sérios? Leia Gálatas 5.19-21). Refiro-me basicamente à tríade sexo, poder e dinheiro – os grandes pecados que elegemos para não perdoar, junto, é claro, com o álcool e o cigarro. Envolveu um desses pecados e a turma vai adorar falar por anos a fio sobre os envolvidos nessas histórias, que na cabeça do cristão brasileiro são piores que a blasfêmia contra o Espírito Santo.

Não, pecar não é correto. Não se justifica. É uma desobediência ao Rei dos Reis. É feio. É condenável. Cheira mal às narinas do Santíssimo. Mas permita-me abordar 4 aspectos da questão:

1. Absolutamente todo mundo peca. Eu e você, inclusive.

2. Todos pecados são hediondos, mesmo os que você pratica e acha que não são. O glutão é tão pecador como o assassino. O invejoso e o ciumento são tão pecadores como o estuprador. Se você acha que o seu pecado é menor do que o do bandido da boca de fumo, novamente sugiro que leia Gálatas 5.19-21 e me diga se estou errado.

3. Jesus encarnou como o Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo. Depois da Cruz, ele concede o perdão a todo pecador que se arrepende (a única exceção é a blasfêmia contra o Espírito Santo, mas nesse caso não haveria arrependimento). E, se Deus já perdoou, quem você pensa que é para continuar acusando o pecador arrependido?

4. Alegrar-se quando alguém peca é tão pecado como qualquer outro, pois vai contra o maior mandamento: amar o próximo como a si mesmo.

Apesar dessas verdades, o que vejo ao meu redor é que o frequentador de igreja em geral ama crucificar quem Deus já perdoou. Ama de paixão. Tem um prazer e uma alegria sádicos de ficar apontando o pecado alheio. É como se dissesse: “Hehehe, sou melhor do que você”. Pior: há os que amam ficar sabendo e tricotando sobre o pecado do outro. “Você não soube o que fulana fez? Vou te contar, mas é só pra você orar por ela”, diz o fofoqueiro. “Pode contar, só quero saber para interceder por beltrano”, diz o frequentador de igreja com aparência de piedade mas que por dentro está se escangalhando de se entreter com a desgraça do seu próximo.

Tudo pelo sádico prazer anticristão de ver o próximo se dar mal. Essa que é a pura verdade.

Pois o cristão de fato não se alegra com a queda do irmão: o ajuda a se reerguer, o preserva, chora com ele, proteje-o. Pois todo aquele que escorregou tem o grande potencial de se tornar um cristão melhor após ser reerguido pelo Espírito de Deus – basta ver o exemplo de Davi no caso de Bateseba. E o cristão de verdade sabe disso e luta para que o irmão que pecou torne-se um homem segundo o coração de Deus. Não pisa na cabeça dele nem o acusa. Isso já tem alguém chamado Satanás para fazer, nenhum ser humano precisa tomar do diabo aquilo que ele já fará naturalmente. Quem o faz torna-se cúmplice dele.

Como disse um sacerdote veterano certa vez, quando alguém lhe perguntou se deveria perdoar alguém que praticou grande mal: “Bem… temos duas opções: ou nós não o perdoamos ou fazemos o que a Bíblia manda”. Sim, a resposta do problema era matemática: 70 vezes 7. E a equação estava resolvida. Esse relato me lembra uma frase de Jesus quando uma certa mulher adúltera foi levada até ele, pois queriam apedrejá-la. Você conhece a história. Disse o Cordeiro de Deus: “Visto que continuavam a interrogá-lo, Jesus se levantou e lhes disse: ‘Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela’.” (João 8.7).

Meu irmão, minha irmã, perceba: você peca todo santo dia – por pensamentos, palavras, atos e omissões. Você e eu não somos menos pecadores do que o pior dos assassinos. Mas aí vem logo alguém com aquele argumento óbvio: “Ah, eu peco, só que eu não vivo pecando”. E eu perguntaria: “Não vive pecando? Ok. Então me diga um único dia da sua vida em que você não pecou”. Pois é. Você e eu pecamos TODOS os dias das nossas vidas, tirando talvez algum dia em que estivemos em coma. Fora esse, você pecou TODOS os dias.

Então, caro amigo vaidoso, glutão, fofoqueiro, invejoso, iracundo, maledicente, preguiçoso, cobiçoso, egocêntrico, que não põe Deus acima de todas as coisas, que deseja o mal ao próximo, que não prefere os outros em honra, que devolve mal com o mal, que não perdoa as dívidas e ofensas, que é rude com os outros, que desdenha os mais pobres, que inveja os mais ricos, materialista, que tem inimizades e ciúmes, que tem iras e discórdias, que promove dissensões e facções… meu querido, lamento informar, mas você e eu vivemos  SIM pecando. Di-a-ri-a-men-te. E Paulo diz em Gálatas 5 que “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam”. Então, caro, estamos mal na fita – e carecemos da graça de Deus tanto quanto quem você acha o pior dos pecadores.

É a isso que Jesus se referia quando disse para olharmos a trave em nosso olho antes de olhar o argueiro no olho do outro, caro frequentador de igreja. Diante disso, se me permite, sugiro que a partir de hoje você olhe menos para o pecado do seu próximo – em especial se por acaso você sente aquela satisfação sádica de ver o pecador se arrebentar – e passe a dirigir mais sua atenção para os seus próprios pecados e, principalmente, para a Cruz de Cristo. Pois, pode acreditar: você vai precisar muito dela no Dia do Juízo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo – e que, como eu, sabem que são miseráveis pecadores.

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