Posts com Tag ‘Igreja’

adoteumpecador1Você já deve ter visto na televisão anúncios de organizações que estimulam você a apadrinhar crianças pelo mundo inteiro ou a ajudar instituições humanitárias de auxílio medico em regiões de pobreza extrema. São entidades como Action Aid, Médicos sem Fronteiras ou Visão Mundial, que fazem um trabalho maravilhoso de amor pelo próximo. Você contribui com trinta a cinquenta reais por mês e ajuda pessoas desnutridas, doentes ou carentes a melhorar de vida, estudar, ter auxilio médico, encontrar dignidade. Fiquei pensando sobre a ação dessas belíssimas organizações e me inspirei para propor uma campanha. Assim, lanço hoje a Adote um pecador.

A diferença entre essa minha campanha solitária e as dessas instituições é que ela funciona em moldes diferentes. Em vez de você doar um pouco de dinheiro mensalmente e deixar que os integrantes desses grupos ponham a mão na massa para auxiliar os carentes, doentes e necessitados, minha proposta não vai lhe custar nem um centavo. Também não vai exigir ações mensais. Na verdade, vai requerer de você muito mais: o seu coração.

O alvo de nossa campanha é alguma pessoa que você conheceu, que pertencia a alguma igreja e hoje não pertence mais. Mas não qualquer um, tem de ser um indivíduo com perfil específico: alguém que cometeu um ou mais pecados do tipo que os cristãos costumam considerar – sabe Deus por quê – mais graves do que os outros e que por isso foi discriminado dentro da igreja, oprimido pelos irmãos e que, diante de tanta falta de amor, acabou se afastando da família de fé.

Vou ajudar você a se lembrar de alguém: em geral, são pessoas que cometeram pecados sexuais (pode até mesmo ser um pastor que adulterou); que se divorciaram sem a bênção da igreja; que não conseguiram abandonar a dependência química por álcool ou outras drogas; gente que foi vista em algum ambiente “pecaminoso”, como uma boate, o samba ou o baile funk; indivíduos que cometeram algum tipo de delito que os levaram a ser humilhados publicamente, talvez até conduzidos à frente da igreja para serem expostos em suas transgressões diante dos demais. Perceba que não estou entrando pelo mérito do pecado em si (se é pecado, é pecado e ponto) nem passando a mão na cabeça da transgressão. Meu foco é o que nós, a Igreja de Jesus Cristo, fizemos com essa vida após o pecado. Pois bem, a pessoa que é o alvo dessa campanha deve ser alguém que, além do estrago causado pelo próprio pecado, tenha sido ainda mais prejudicada pela forma discriminatória ou humilhante da qual os irmãos em Cristo a trataram ao tomar conhecimento de suas falhas. Essas são as almas que desejo alcançar com a campanha Adote um pecador.

adoteumpecador2E como ela funciona? Em vez de doar seu dinheiro, você vai doar seu coração e seu tempo. Primeiro, proponho que você ou um grupo de irmãos da igreja partam ao encontro dessa pessoa – em sua casa, no trabalho, na escola, nas ruas. Não é só dar um folheto não. É sair do seu conforto e ir até ela, onde ela estiver, como o bom pastor da parábola foi até a ovelha perdida. Quando a encontrar, você vai lhe dar amor. Abrace-a. Chore com ela. Peça perdão em nome da igreja inteira por, em vez de ajudá-la a ficar de pé após o pecado, tê-la afundado ainda mais na lama mediante a segregação, os olhares tortos, a falta de tato, a desumanidade. Deixe claro que ela é importante. Por fim, fale do amor de Cristo. Diga-lhe que Deus perdoa todos os pecados mediante arrependimento, que ela é extremamente bem-vinda no seio da igreja do Senhor, que nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus. Dê-lhe um beijo, um abraço apertado e… vá embora.

adoteumpecador3E atenção, pois este é um ponto fundamental da campanha: não convide essa preciosa alma para ir à igreja. Nem mesmo toque no assunto. O objetivo é dar amor, trazer perdão à tona, viver o evangelho junto com ela. Demonstrar bondade. Amabilidade. Carinho. Afeto. Cristo. Se ela achar que você a procurou apenas para voltar a frequentar cultos, tudo estará perdido. A finalidade é que ela se sinta acolhida, perdoada, querida, importante. É dar-lhe o senso de humanidade e de comunhão que a discriminação que sofreu roubou dela. Tenho certeza de que, se ela voltar a enxergar a família de fé como uma família de fato, mais do que um grupo de carrascos da inquisição, tornar a frequentar o ambiente eclesiástico será uma consequência natural. Mas será uma consequência, não a causa. Triste igreja é aquela que tenta trazer pessoas para tornar-se uma frequentadora de cultos, em vez de um membro amado e perdoado do Corpo de Cristo. Dê amor a ela, sem esperar nada em troca. O resto ficará por conta do Espírito Santo.

A campanha está lançada. O blog APENAS tem na data de hoje quase 2.400 assinantes, que somam-se a uma média de 11 mil acessos semanais. Isso significa que mais de 13 mil pessoas lerão este post apenas na primeira semana de sua publicação. Imagine se cada uma dessas 13 mil partirem em busca de um pecador. Seriam 13 mil seres humanos, abandonados e segregados devido a pecados que cometeram, que receberiam amor e graça da parte de irmãos em Cristo. E, se você repassar este texto para pelo menos um conhecido e ele decidir adotar um pecador, já seriam 26 mil indivíduos que visualizariam, na prática, o amor de Cristo em sua vida por meio de irmãos. Elas deixariam de ver a igreja como um antro de inquisidores e passariam a enxergar os cristãos como gente que ama, perdoa, acolhe e vive de fato o que a Bíblia diz. Eu ouso até sonhar mais alto: imagine que cada uma dessas 26 mil pessoas chamasse mais três irmãos para também adotar um pecador. Se isso acontecesse, alcançaríamos 100 mil indivíduos feridos, machucados e oprimidos dentro das igrejas que teriam um vislumbre da graça da cruz de fato em sua vida. Tremo só de imaginar.

Eu tenho esse sonho. E é um sonho bom de se sonhar – pois é bíblico e mira no epicentro da nossa fé: amor, bondade, perdão, reconciliação, restauração. Se meu sonho vai se tornar realidade ou não… depende única e exclusivamente de você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Ganho1A época em que vivemos é a era do ganho. Nossa sociedade é capitalista, materialista, consumista e existencialista. Se você não entende algum desses conceitos, basta compreender o que está no centro de todas essas filosofias de vida: o eu. O meu. O que posso ganhar. O lucro pessoal. O benefício próprio. Os nossos tempos estimulam um individualismo exacerbado, que nos arrasta como um carro de Fórmula 1 pelas ruas pedregosas da vida. Acabamos destroçados pela necessidade de ganhar, ganhar, ganhar. Só seremos vistos como pessoas bem-sucedidas se ganharmos muito dinheiro, ganharmos o coração do menino mais cobiçado, ganharmos um cargo de destaque na igreja, ganharmos uma cobiçada vaga de emprego, ganharmos status, ganharmos títulos, ganharmos celebridade, ganhar, ganhar, ganhar! Somos levados pelo mundo ao nosso redor a crer que a vida é uma grande competição, em que ganhar diariamente (seja lá o que for) é a grande razão de estarmos sobre a terra. Mas não é isso o que a Bíblia nos ensina.

É fácil reparar como essa forma de ver a vida invadiu a igreja e tomou conta de nós, do mesmo modo que um câncer se espalha silenciosamente por nossos organismo. A maior prova disso é que nossa caminhada de fé tornou-se permeada pelo conceito de vitória. E só tem vitória quem triunfa, vence… ganha. “A vitória é tua!”, dizemos aos irmãos. “Deus, nos dê a vitória!”, oramos. “Faça tal campanha na igreja e Deus te dará a vitória!”, mentimos. Falamos mais a palavra “vitória” em nossas orações e nos cultos do que “Jesus”. Parece que, para muitos de nós, uma vida sem “vitória” é uma vida sem fé, sem bênção, sem a presença do Senhor. Em outras palavras, cremos que, se não ganhamos diariamente, nossa espiritualidade é mirrada, raquítica.

Para cumprir a vontade de Deus, Abraão perdeu a terra Natal e a parentela; Jó perdeu tudo o que tinha; Moisés perdeu a pacata vida de pastor; Jeremias perdeu a paz; Noé perdeu o respeito dos vizinhos; Paulo perdeu tudo aquilo em que cria; João perdeu a liberdade; Raabe perdeu sua cidade; Jesus perdeu a própria vida. A lista de personagens da Bíblia que perderam muito nesta vida é gigantesca. Mas, na gramática de Deus, perder por amor a ele é ganhar para a vida eterna.

Martir“Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hb 11.35-40). Essa parece uma lista de “vitoriosos”? Ou parece mais a descrição de gente que sofreu perdas enormes? Tenha a certeza de que foram perdas que resultaram num ganho muito superior – por ser um ganho eterno e não terreno. É impossível viver para Deus sem perder para si.

“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25), disse Jesus. Ele afirmou, ainda: “Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 10.39). E, nesta era em que somos instigados a ganhar o mundo inteiro, precisamos ouvir as palavras do Mestre a seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.25-26).

Se não temos de ganhar o mundo inteiro, o que, afinal, precisamos ganhar? Paulo responde: “O que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.7-8).

Cristo. Eis o que precisamos ganhar. Pois, como disse Paulo, “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). São o Rei, seu reino e sua justiça que devemos buscar antes de tudo mais, sabendo que, assim, tudo mais nos será acrescentado.

E como se ganha Cristo?

cruzPerdendo. Abrindo mão de si. Perco prazeres terrenos a fim de ganhar Cristo. Perco oportunidades, porém fraudulentas, a fim de ganhar Cristo. Perco o casamento com aquele partidão que não é cristão a fim de ganhar Cristo. Perco aquele negócio da China, mas que exigiria liberação de propina, a fim de ganhar Cristo. Perco a fama e deixo outros brilharem a fim de ganhar Cristo. Perco dinheiro justo que eu deveria receber, para não escandalizar a igreja, a fim de ganhar Cristo. Perco respeito de quem considera minha fé uma fábula e minhas crenças, fanatismo, a fim de ganhar Cristo. Perco a vingança e dou a outra face a fim de ganhar Cristo. Perco o emprego em que teria de me corromper, a fim de ganhar Cristo. Perco o que desejo a fim de ganhar Cristo. Perco minha felicidade a fim de ganhar Cristo. Perder, perder, perder.

Mas o que ganhamos por essa perda, acredite, vale a pena.

O que você está disposto a perder a fim de ganhar Cristo? É a resposta a essa pergunta que vai determinar quem vem em primeiro lugar na sua vida. Será você mesmo? Ou Jesus? Suas ações responderão. E Deus estará bem atento a elas.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Divorcio1Existem entre nós multidões de irmãos e irmãs que enfrentam problemas em seu casamento. Alguns dos posts mais lidos do APENAS são justamente aqueles que se referem a casamentos infelizes, uma prova de que a coisa não vai bem e o povo de Deus está ávido por orientação e consolo nessa área. Lamentavelmente, ser cristão não nos dá passaporte automático para a felicidade matrimonial. O aspecto que considero o mais triste de tudo é que, muitas e muitas vezes, irmãos e irmãs consideram que a saída mais “fácil” para seus dramas conjugais é o divórcio. Embora cada vez mais o divórcio venha se difundindo no seio da Igreja, nada me convence que essa seja a alternativa preferida do Senhor para um matrimônio em crise. Jamais você ouvirá de mim uma recomendação para que se divorcie. Acredito na restauração. Acredito que o poder de Deus é capaz de pegar o relacionamento mais devastado do mundo e reconstruí-lo, fazer com que seja funcional e feliz novamente. O próprio Jesus afirmou: “Para Deus todas as coisas são possíveis” (Mt 19.26). Então ou acredito em Cristo ou não acredito. E, se ele garantiu que é possível para Deus fazer tudo, eu creio que é possível ele restaurar todo e qualquer casamento.

Divorcio2No entanto, por mais que a Bíblia afirme certas verdades, muitos de nós sempre têm um “porém” quando se trata de sua vida em particular. Quando alguém me pergunta se deve se divorciar ou não e eu digo que deve lutar pelo casamento, que deve ter fé na restauração por Cristo, ouço com uma frequência enorme coisas do tipo “Ah, você diz isso porque não conhece meu marido”, “Mesmo depois que tudo o que minha esposa aprontou?”, “Sei que Deus pode, mas no meu caso não tem jeito”, “Eu acho que não casei no Senhor”, “Já profetizaram que ela não era a escolhida de Deus para mim”, “Depois de tudo o que eu sofri não tem volta”. As justificativas são muitas. E todas elas trazem em si duas características: despem Deus de sua onipotência (pois carregam em si a ideia de que, naquele caso, o Senhor não tem como resolver), e buscam no divórcio a solução. Mas Deus pode todas as coisas (Mt 19.26), odeia o divórcio (Ml 2.16) e ama a família (Mt 19.6). Portanto, acredito firmemente que o caminho divino para todo casamento é sempre a restauração – mesmo nos casos de práticas sexuais ilícitas, para os quais Jesus abre a possibilidade de separação (Mt 5.31-32).

Você, nesse momento, pode olhar para sua vida e comentar: “Ah, Zágari, falar é fácil”. E é  verdade, falar é fácil. Mas, então, eu gostaria de lhe dar esperanças sem falar muito mais. O que passo a fazer a seguir é simplesmente reproduzir uma troca de e-mails que tive com uma irmã. Ela me procurou com uma crise aguda em seu casamento. Com a autorização dela e de seu marido, mostro a seguir o que aconteceu em sua vida e em seu matrimônio, na esperança de que essa história real ajude você naquilo que for preciso. Existem muitos elementos no caso dela com que você pode se identificar e a minha esperança é que o relato a seguir (que é longo, peço desculpas por isso, mas não tinha jeito) venha a impactar a sua vida.

Três observações: 1. Para este post não ficar enorme, tive de encurtar alguns trechos, indicados por “[...]“. 2. A irmã será mantida no anonimato e informações que poderiam levar à sua identificação serão ocultadas ou alteradas. 3. Nos momentos em que a irmã se refere a mim com palavras elogiosas, isso não tem nenhum sentido de autoexaltação e peço encarecidamente que, se você está em crise no seu casamento, não procure conselhos meus: vá ao seu pastor e, acima de tudo, a Deus. Eu não faço milagres e não tenho absolutamente nenhum poder de restaurar lares: só o Senhor tem. Por favor, não veja em mim ninguém especial nesse sentido, não me peça aconselhamento: Deus comissionou a sua alma ao seu pastor, é ele quem deve tratar de sua vida. Sou apenas uma ovelhinha, balindo pela internet. Tendo dito isso, passemos ao diálogo:

div3 IRMÃ:
“Bom dia, irmão Maurício! [...] Li seu artigo sobre casamentos infelizes, e infelizmente, me identifiquei com todos os casos ali citados, porém, meu caso é bem pior… [...] Casei-me há X anos, depois de X anos de namoro. Tenho um filho de X anos, que é a nossa felicidade e pelo qual lutamos arduamente pra manter nosso casamento porque queremos dar a ele uma referência de família estruturada. Quando eu namorava meu marido, nós brigávamos muito, por ciúmes, e ele chegou a me agredir severamente.

Neste meio tempo, conheci um rapaz, que foi o grande amor da minha vida. Mas, por pressão da família e pq achava que casar com meu marido atual seria mais seguro pra mim, aceitei o fato e me casei com ele. Íamos na igreja, fomos trabalhando, tivemos nosso filho….Mas esquecemos do nosso casamento. Ele sempre gritou comigo, me destratava na frente das pessoas…

Até que um dia, o antigo amor apareceu. E, quando o vi, todo aquele amor que guardei por X anos ressuscitou com força total e eu acabei traindo meu marido. Acabei contando pro meu marido, pois não podia esconder algo tão grave (ele havia visto um email meu pra uma amiga contando da traição, eu não tive alternativas e contei tudo pra ele….). Me arrependi, pedi perdão, pois sabia que havia pecado contra Deus e contra meu esposo. Ele ficou irado, se revoltou, mas me perdoou, só que vive me ameaçando, dizendo que, se encontrar com o outro, não sabe a reação dele.

Ele se transformou em um homem amargo, vive me policiando, desconfia dos meus olhares, não posso nem pensar em olhar pro lado, pra todo lugar que vou, tenho que avisar…perdi a minha liberdade, mas isso eu já previa desde a hora que contei pra ele… [...] num dia desses, me recusei deitar com ele…num ato de desespero, ele me pegou à força e me meu um tapa na cara, dizendo que isso servia para que eu acordasse pra vida…

Fiquei muito magoada, pois prometi à mim mesma que nunca mais ele colocaria a mão em mim pra me agredir…me revoltei e pedi o divórcio. Ele, arrependido, pediu perdão, mas eu, com o coração duro como pedra, não quis voltar atrás na minha decisão, pois estava em jogo meu ego, minha dignidade de mulher, o respeito…

Estávamos prontos a entregar nossos cargos na igreja, mas, meia hora antes da reunião, li o seu artigo…. de verdade, fiquei mais revoltada por estar de mãos atadas, mas esperançosa no Deus do impossível, pois vi que se eu quisesse agradar a Deus, terei que me sacrificar mas sei que Ele iria me dar um escape….

Mas confesso que amo o outro rapaz com todas as minhas forças (e o pior de tudo é que ele me espera, pois se divorciou da esposa dele pra ficar comigo…eu não pedi, ele fez pq quis)….mas sei que vai contra todos os princípios que acredito…e não sei o que faço…tô mais perdida que cego em tiroteio, perdida em meus sentimentos, meus princípios, em questão à vontade de Deus na minha vida, do pq que tenho que passar por tudo isso (lógico que sei que é consequência das minhas próprias escolhas, certas ou erradas)… O que é mais difícil é ter que aguentar olhar pra cara do meu marido, não tenho a mínima vontade de estar com ele, me deitar com ele….como manter o casamento assim né???”

RESPOSTA:
“Minha irmã, eu recomendo enfaticamente que vocês procurem seu pastor. Houve e há erros de todos os lados. Você errou, seu marido errou, esse rapaz errou. Está tudo uma grande confusão e é preciso retornar ao prumo. Isso só vai acontecer com abnegação, reconhecimento de erros e uma fidelidade inegociável à Palavra de Deus.

O que vejo pelo que você me disse é que falta muita coisa nessa história toda. Falta perdão. Falta amor. Falta arrependimento. Falta buscar Deus em primeiro lugar. Falta agir conforme o padrão bíblico de marido e mulher. Vocês precisam apagar essa confusão toda e recomeçar. Busque seu pastor. Converse com ele. Peça orientação. Peça oração. É um caso complexo demais para eu te aconselhar por email, minha irmã. Vocês precisam de muito mais que conselho: precisam de pastoreio, amparo e discipulado. E seu pastor é a pessoa para isso. [...] Mas tenha esperança: Deus faz o impossível. Se vocês se arrependerem e buscarem o Senhor, Ele vai consertar tudo. Tenha paz. Confie na graça. Realize as obras do Reino. É o que posso te dizer por este meio tão limitado.”

IRMÃ:
Pois é, Maurício….Eu e meu marido não achamos que o pastor saberá lidar com a nossa situação….Nossa comunidade é muito pequena, bem tradicional….Eu não quero expôr meu marido e nem ele a mim….Por isso não buscamos ajuda dentro na nossa igreja, pois será um “baque” muito grande….temos medo de escandalizar a comunidade e de servir de pedra de tropeço pra alguns…. E realmente falta muita coisa….faltou vergonha na minha cara rsrsrs….faltou temor a Deus…e qdo vi, o desastre já estava feito….Me arrependo do dia em que me encontrei com o outro…pois foi nesse dia que o pecado entrou na minha vida conjugal….Sei que a culpa de tudo isso foi minha…mas ficar me lamentando é pior….Mas não tenho coragem de abrir a situação pro meu pastor….”

RESPOSTA:
“Seu pastor não é um carrasco. Se ele exercer o ministério com zelo pastoral, antes de mais nada vai manter sigilo absoluto sobre o caso e não exporá nenhum de vocês a absolutamente ninguém. Nenhum cristão decente faria isso. Em segundo lugar, ele vai trabalhar para reconstruir o que foi destruído e não para condenar vocês. Se houve arrependimento e abandono do pecado, o que resta é a restauração. Se seu pastor não for confiável a ponto de poder pastorear vocês dessa maneira, recomendo que mudem urgentemente de igreja e procurem um pastor que entenda o seu papel – apascentar vidas e não afundá-las mais na lama. [...] Em oração por ti, minha irmã, na esperança da reconstrução.”

IRMÃ:
Mauricio…isso é verdade. Vou conversar com meu marido. Lembre-se de nós em suas orações, mesmo que não nos conheça pessoalmente, precisamos muito, pois sei que Deus ouve e intercederá por nós. E eu vou orar não só pela restauração, mas também pelo seu ministério, que é muito edificante e confortante. Deus o abençoe, obrigada pelo auxílio muito benéfico num momento tão difícil pra mim….Confio que Deus é muito bom pra mim, que me mostrou seu artigo meia hora antes de entregarmos tudo…Sinto muita alegria na palavra de Deus e não poderia viver longe da casa de Deus…é isso que me sustenta e não me faz desistir de tudo….”

Depois de algum tempo, recebi o e-mail abaixo dela:

IRMÃ:
“Boa tarde, irmão Maurício,
Venho trazer notícias: conversamos com nosso pastor. Deus fez surgir a oportunidade e sabemos que é o cuidado Dele …. O pastor soube lidar com a situação (o meu medo era que ele NÃO soubesse lidar), abrimos tudo aquilo que havia acontecido e também o que sentíamos (como dizem por aí: lavamos a roupa suja ali mesmo) e ele nos aconselhou e vai continuar nos aconselhando. E nós, como casal, vamos lutar pra manter nosso casamento. Entendemos que precisamos da graça de Deus, do perdão mútuo e muita paciência. Sabemos que é um novo começo, como diz o artigo que escreveu…. Obrigada pelas orações (e continue orando, por favor) [...] Deus o abençoe ricamente….”

Aparentemente, a situação tinha melhorado, mas, então, recebi este e-mail:

div5IRMÃ:
“Paz do Senhor, irmão Maurício…lembra de mim? [...] Tenho algumas perguntas, espero que vc possa me ajudar, como irmão em Cristo….Tenho passado algumas situações referentes ao meu marido….ele não me perdoa pela traição, faz coisas absurdas, como me seguir o tempo todo, não tem mais confiança e vira e mexe discutimos…há meses que não temos relações sexuais, não da parte dele….da minha mesmo, pois não tenho um pingo de vontade, pois as coisas que ele anda fazendo, só tem me feito rejeitá-lo…

E depois disso, ainda tem mais um problema: ele está muito agressivo….um tempo atrás ele me deu um tapa na cara, sem mais, nem menos e outro dia agrediu nosso filho tão violentamente, que quase perdemos nosso filho pro conselho tutelar, pois a professora viu as marcas que ficaram sobre o corpo dele….nesse dia saí de casa com meu filho….E pra piorar tudo, ele escancarou o problema pra toda a liderança de nossa igreja, mas de um jeito agressivo e me expôs de uma maneira vergonhosa, relatando tudo à maneira dele, do ponto de vista dele….me chamou de mentirosa e etc…nem tive como me defender diante as acusações dele….pois eu só sabia chorar de vergonha e me senti humilhada…. nas nossas discussões ele me acusa de estar acabando com nossa família, diz que eu estou jogando a vida de todo mundo no lixo…[...]

A minha pergunta é: Se eu me separar dele, vou pro inferno? Quais as consequências que terei que arcar? Como fica meu ministério na igreja? O que faço eu diante de tudo isso, se meu coração só deseja ficar longe dele? Vou ser perseguida a vida toda, sendo julgada, se me separar ? Deus vai me condenar? me ajuda meu irmão…..”

RESPOSTA:
“Minha irmã, você e seu marido precisam voltar às bases da fé: amor e perdão. Sem isso, carregarão feridas pelo resto da vida. Separar-se não é a solução, vocês precisam de cura. Estão feridos, machucados, magoados. Divórcio será apenas mais um problema, até porque, como pai do teu filho, ele manterá contato pelo resto da vida com você.

Vocês precisam voltar ao básico: dialogo em vez de briga. Amor em vez de ódio. Perdão em vez de acusação. Você esta fazendo as perguntas erradas. Não tem que se perguntar o que acontece caso se separe, mas o que acontece se não amar, perdoar, restaurar. A Bíblia nos diz que Deus não perdoa os pecados de quem não perdoa o próximo. Você não está perdoando. Seu marido não está perdoando. Isso sim é grave. O perdão restaura a alma. Recompõe relacionamentos. Traz paz. A falta de perdão alimenta o ódio, nos afasta de Deus, nos assemelha ao Diabo.

Tente conversar e orar junto com ele. Como vocês se relacionarão sexualmente cheios de mágoa, rancor e ressentimento um com o outro? É preciso zerar tudo. Como? Pedindo perdão.  Perdoando. Conversando. Buscando aconselhamento em amor. Sua liderança não tem o direito de julgar ou condenar ninguém, tem de trabalhar no sentido de reconduzir vocês ao caminho de onde saíram.

Oro por você, minha irmã, para que tenha a sabedoria da mulher virtuosa de Pv 31. Lembre-se que a mulher sábia edifica o lar. Seja sábia. Aja e reaja com maturidade às ofensas de seu marido. Lembre-se que o filho de vocês ficará marcado pelo resto da vida pelo que vocês dois fizerem agora. Seja modelo para seu filho, por mais que seu marido não seja.

Recomendo que você assista junto com seu marido a essa pregação de Paul Washer, é magnífica e bíblica: http://youtu.be/uEugHA8R6qg. Faça a coisa certa, que não necessariamente é a mais fácil.”

IRMÃ:
“Acho que sou rebelde….pois sei de tudo que está na Biblia….e não consigo aceitar que tenho que escolher ficar com meu marido….Não tenho ódio, de verdade…perdoo o que ele anda fazendo….a única coisa é que não quero mais conviver com ele….Ele  não tem a alternativa de se separar de mim? Já que é a parte ofendida?”

RESPOSTA:
“E por que vc quereria isso? Celibato eterno? Biblicamente não é o melhor.”

IRMÃ:
“Difícil…..mas entendo que seguir Jesus nunca seria fácil….Que Deus me ajude e me direcione…acredito que Deus é um Deus de milagres…..mas sinceramente, não sei se Deus vai conseguir trabalhar em mim…pois reconheço que sou muito dura de coração…:(

Agradeço suas palavras  e conselhos Mauricio…ore por mim, por nossa família…. Deus continue abençoando sua vida…Continuo lendo seus posts….aliás, são muito abençoados e abençoadores! Paz esteja contigo e sua família…”

Finalmente, após muito tempo sem ter notícias, semana passada recebi este e-mail da irmã:

div1IRMÃ:
“Bom dia, irmão Mauricio
Venho trazer notícias, boas notícias…
A tempestade passou, e confesso. ..que tempestade tenebrosa!
Conseguimos passar por ela, não ilesos, mas com certeza, mais maduros e com a certeza do grandioso amor de Deus.
Hoje entendo que estive cega, nas mãos do inimigo, satisfazendo as vontades dele e quase perdi o meu maior tesouro:  minha família.
Mas Deus nos resgatou, me resgatou e estou vivendo a volta ao meu primeiro Amor.
E você é parte contribuinte de todo esse processo, junto com muitos outros irmãos que se juntaram nesta causa.
E acredito que Deus sorriu quando decidimos voltar atrás e reconstruir nossa família.
Que Deus sorriu quando Ele estava pegando meus pecados e lançando ao mar do esquecimento diante ao meu arrependimento.
Nós somos feitos à semelhança Dele…então…Ele sorri,  como nós. ..como eu sorrio agora, porque vejo o sorriso do meu filho quando me vê junto ao meu marido.E meu marido sorri porque tem a mulher que ele diz amar ao seu lado. ..
Assim como vc deve estar sorrindo ao ler este email da pessoa que um dia pediu ajuda, sem ao menos saber quem vc era e vc decidiu ajudar sem saber quem eu sou, simplesmente por amor de irmãos,  unidos por Cristo, por um Deus que nos ensinou o que era o amor verdadeiro.
Como Deus não haveria de sorrir numa situação dessas? !
[...] Agradeço pelo seu tempo, que não foi perdido, pois o resultado está neste email.
No amor de Cristo”.

cruz-cristo-jesus-pascoa-deusA você, que teve paciência de ler este post tão longo, peço a Deus que a história dessa irmã ajude a lhe dar esperança. Lembre-se que, não importa quão graves foram os pecados envolvidos no seu casamento, se você se dispuser a buscar a restauração e confiar em Deus… tudo mais ele fará.

Todo casamento pode ser restaurado. Todo. Deus não realiza o impossível dia sim, dia não: ele é onipotente a todo momento. Ele pode tudo. Ele pode pegar o seu casamento em ruínas e construir a partir dos escombros um lar cheio de alegria, paz e respeito.

Você crê nisso? Deus crê.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Sexo1Quantos tipos de pecados existem? Serão dezenas, centenas, milhares, milhões? Confesso que não sei ao certo, mas uma certeza tenho: são muitos. Muitos mesmo. Isso é curioso, porque, embora existam tantas e tantas e tantas formas de desobedecer a vontade de Deus, parece que concentramos nossa atenção em um pequeno punhado delas. Veja se estou errado: o que escandaliza a esmagadora maioria de nós são atitudes como embriaguez, fumo, consumo de drogas, envolvimento em programações consideradas pecaminosas (boate, bailes, carnaval, shows etc.) e aquilo que pomos no pináculo dos pecados: práticas sexuais ilícitas. Tudo o que é pecado é pecado, logo, não podemos ignorar o quanto qualquer uma dessas atitudes pecaminosas é tóxica para nossa alma nem diminuir a gravidade de qualquer uma delas. Mas o que me chama a atenção é como desenvolvemos o hábito de pôr no paredão apenas um pequeno grupo de transgressões – em especial, os pecados sexuais, considerados por muitos como piores do que a blasfêmia contra o Espírito Santo – quando existem dezenas, centenas, milhares ou milhões. Será que a eleição do sexo ilícito no imaginário popular como a pior de todas as transgressões tem alguma implicação? Tem sim, e são implicações sérias.

Sexo2Acabei de ler um livro em que, em síntese, o autor expõe sua visão do que faz um sacerdote ser bem-sucedido, ou seja, o que seria sucesso no ministério. É uma obra bem interessante e que tem o seu valor, mas algo chamou minha atenção. Percorri com interesse suas páginas, até que cheguei ao capítulo que fala sobre santidade. Quando vi o tema, imaginei que ele discorreria sobre diferentes questões, como bom uso do dinheiro da igreja, relacionamento saudável com a família, cuidados com a vaidade excessiva, sexualidade sadia, humildade no uso do poder, justiça ao lidar com as ovelhas, a importância de ser manso no trato com os diferentes, a necessidade de não se corromper para obter facilidades, amar o próximo como a si mesmo, e uma série de outros tópicos que, a meu ver, são indissociáveis do tema santidade do ministro. Só que, para minha surpresa, o autor começa o capítulo falando sobre sexo, prossegue falando sobre sexo e o termina falando sobre… sexo. Cheguei ao final desse trecho pensando: “Tá certo, concordo, mas… sexo?!”.

É absolutamente inquestionável que uma sexualidade santa é fundamental para a vida pessoal e ministerial de um indivíduo, devemos estar em constante vigilância para não cometer transgressões sexuais e, caso pequemos, sempre buscar o arrependimento sincero e a mudança de atitude. Mas, do jeito que o autor desse livro e muitos irmãos e irmãs tratam a questão, a sensação que tenho é que ser santo é apenas ser sexualmente santo. A pergunta é: e o resto? E as outras dezenas ou centenas, os outros milhares ou milhões de pecados, que fim levaram?

A conclusão a que chego é que nós criamos um ranking de pecados. E, no alto do pódio, triunfando como os piores pecados de todos, estão os de cunho sexual. Uma distinção que, é importante lembrar, a Bíblia não faz.

Revista UltimatoA revista Ultimato publicou na sua mais recente edição (número 346, pg. 42) um artigo não assinado em que aponta a negligência de grande parcela dos cristãos no que tange aos pecados ligados à injustiça social. Diz o texto: “A maior parte dos pregadores tem chamado a minha atenção para os pecados do sexo – o amor livre, a prostituição, o adultério, a pornografia, o homossexualismo – indicando a conduta certa nesta área. Agradeço a Deus por isso, mas lamento muito o silêncio, a falta de clareza e de ênfase na outra pregação, não menos importante que a anterior (…) Por falta de profetas nesta área, demorei muito tempo a compreender que é pecado tanto trair o cônjuge como deixar o irmão de estômago vazio”. Creio que o autor teve 101% de clareza em sua afirmação, pois conseguiu enxergar o quanto a “ditadura do sexo” está desviando as nossas preocupações de muitos outros tipos de pecados.

Não quero ser mal compreendido, então preciso enfatizar algo: pecado sexuais são graves. Nunca vou dizer o contrário nem vou passar a mão na cabeça deles. São horríveis e ponto. Toda prática sexual ilícita é destrutiva e só gera problemas, dor, morte e devastação. Sofro com um gosto amargo na boca só de pensar nos erros que cometi nessa área (e se você está praticando algo do gênero recomendo, por amor a sua vida e a sua alma, que pare imediatamente, já – de preferência, ontem). Mas o grande mal de se resumir os pecados graves a sexo é que todos os outros pecados graves começam a ser praticados sem que se dê o devido peso a eles.

Sexo3E vou te contar um segredo: todo pecado é grave. Não existe “pecado não grave” ou “pecado menos grave”. Poderíamos nos perder em discussões eternas sobre “pecadinho e pecadão”, “pecados para a morte” ou mesmo o conceito católico romano de “pecado mortal e pecado venial”. Conheço a teologia de tudo isso e a grande conclusão, em última análise, é uma só: pecado é pecado. Desobediência é desobediência. Morte espiritual é morte espiritual. Não existe morte que mate mais do que outra morte. Quem morre de queda de avião morre tanto quanto quem morre de pneumonia. Quem morre numa explosão nuclear morre tanto quanto quem morre de dengue. Tirando a imperdoável blasfêmia contra o Espírito Santo (que é atribuir atos divinos ao Diabo), os demais pecados estão todos no mesmo saco: representam morte espiritual e carecem de arrependimento, confissão e abandono.

Se um ministro do evangelho comete um pecado sexual, ele imediatamente é afastado de seu cargo. E isso é correto, pois essa alma preciosa e valiosa está doente e necessita ser tratada, cuidada, pastoreada, sarada e, só então, reconduzida às suas atividades ministeriais. Mas não deveria ser assim também com um ministro que peca pela inveja? Pela ganância? Pela arrogância? Pela soberba? Pela corrupção? Falta de amor? Vaidade? Maledicência? Dissensões? Partidarismos? Egoísmo? Egocentrismo? Hipocrisia? Abuso de poder? Favorecimentos ilícitos? Violência verbal? Injustiça? Traições? Quebra da ética pastoral? Mau uso do dinheiro da igreja? Etc., etc., etc? Confesso que não consigo me lembrar de quase nenhum caso de um ministro que tenha sido afastado do cargo por qualquer um desses pecados. Graves, diga-se. Hediondos. Um pastor soberbo, agressivo, corrupto ou vaidoso é uma anomalia espiritual. Precisa de tratamento tanto quanto um viciado em pornografia na internet.

Sexo4E não estou nem de longe falando apenas de ministros do evangelho. O mesmo se aplica a cada um de nós. Em um culto recente em minha igreja, um de meus pastores iniciou a celebração convidando a congregação a confessar seus pecados a Deus. Claro que me lembrei de meus pecado sexuais. Mas também me lembrei de muitos e muitos e muitos outros tipos de pecados, a ponto de a oração terminar e eu ter de interromper meu ato de contrição sem ter tido tempo de conversar com o Senhor sobre todos. Poucas vezes nos derramamos em lágrimas por termos sido, por exemplo, invejosos, iracundos, gananciosos, espertalhões, abusados ou por termos usado o “jeitinho brasileiro” (que é pecado, diga-se de passagem). Praticamos essas transgressões contra Deus sem nenhum drama de consciência, enquanto legiões de irmãos se deprimem por estarem, por exemplo, escravizados ao vício em pornografia. Por ser uma situação tão inexistente, chega a soar engraçado imaginar um líder ir a público dizer:

- Meus irmãos, preciso me licenciar do ministério pois não honro meu pai e minha mãe e tenho de me tratar espiritualmente.

Ou um membro de igreja que procure auxílio em gabinete pastoral afirmando:

- Pastor, preciso de libertação porque sou muito invejoso.

Inferno de DanteVocê já viu alguém ser disciplinado na igreja por ter praticado a glutonaria? Eu nunca. Na verdade, em todos os meus anos de convertido nunca ouvi uma única pregação, escutei uma música gospel ou li um livro cristão sequer que fosse sobre esse pecado. Parece engraçado eu estar dizendo isso? Não quando lemos na Bíblia que “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.21). Meu irmã, minha irmã, isso é extremamente sério! Essa passagem, por exemplo, me mostra que a glutonaria é tão grave e tem consequências tão severas como a fornicação, por exemplo, e outros pecados sexuais. E aqui reside o perigo, o xis da questão: se eu te perguntar quantas vezes você adulterou na vida, pode ser que me responda, indignado e ofendido: “Nunca!”; mas, sinceramente, quantas vezes você foi glutão? Umas 50? 100? 200? 300? E será que ao menos se arrependeu e pediu perdão a Deus por isso? Ainda: será que ter pecado pela glutonaria sem arrependimento faz de você menos culpado diante do Senhor do que se tivesse fornicado mas se arrependesse e pedisse perdão com toda sinceridade?

A mesma passagem que mostra a gravidade da obra da carne glutonaria a inclui no mesmo grupo que “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (Gl 19-21). Atravessamos a vida com nossa santidade sexual intocada mas cultivamos inimizades, sentimos ciúmes, promovemos discórdias, estimulamos facções, sentimos inveja e por aí vai – sem que nos arrependamos ou peçamos perdão ao Senhor. Será mesmo que estamos tão melhores assim na fita?

Todo pecado é grave. Mas existe um tipo de pecado que, sim, é mais grave do que os outros: o pecado não confessado. Enquanto ficarmos pondo corretamente o dedo na cara dos pecados sexuais mas passando incorretamente a mão na cabeça dos demais tipos de pecados, estaremos deixando de pregar contra eles, continuaremos a praticá-los sem arrependimento, não os confessaremos a Deus e, com tudo isso, seremos engolidos por atos hediondos para o Senhor mas a que não damos tanta atenção porque, para nós, não são tão hediondos assim.

Eis o grande mal da ditadura do sexo: deixamos de confessar nossos outros pecados, igualmente perniciosos.

Pecados sexuaisPode ser que você tenha se casado virgem, nunca tenha se masturbado, viva uma vida livre de adultérios e jamais tenha espiado pornografia na internet, entre outras atitudes sexuais biblicamente ilícitas. Se esse é o seu caso, ótimo – mas cuidado: sua sexualidade pode não te afastar de Deus, porém, de repente, sua língua, seus olhos, seu coração, seu ego ou suas atitudes o estão mantendo a anos-luz de distância do Senhor.

Quais são os pecados que você comete habitualmente mas aos quais não dá muita importância? Lembre-se de Provérbios 28.13: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”. Examine-se, pois, o homem a si mesmo… e alcance a misericórdia do Pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Maledicência1Sim, eu creio em maldição hereditária. Não, não estou falando do tipo de maldição hereditária que você está pensando. O conceito amplamente difundido a define, em resumo, como a transmissão de um pecado (e suas consequências) de pai para o filho, depois para o neto, depois para o bisneto e assim por diante, o que abriria as portas para o Diabo agir em sucessivas gerações de uma mesma família. Absolutamente não é sobre isso que desejo falar. Quero tratar aqui de um conceito que eu mesmo inventei, a partir menos da teologia e mais da etimologia, ou seja, do significado das palavras. Assim, creio em um conceito de “maldição hereditária” que elaborei e que vejo como extremamente pernicioso. Permita-me explicar.

“Maldição”, pelo dicionário, pode significar “praga”, que é o sentido mais popular do termo. Só que a palavra tem a mesma raiz de “maldizer” (“maldito” seria, então, alguém sobre quem foi dito algo que não é bom, mas mal, logo, é “mal-dito”). Ou seja, “amaldiçoar” pode ter o sentido tanto de “rogar uma praga” quanto de “falar mal”, “promover maledicência”. E maledicência é a fofoca, a conversa escarnecedora, o tititi maldoso, a crítica destrutiva, o desdém pelas conquistas alheias, a conversação invejosa, as palavras que desqualificam o que é diferente só por ser diferente do que eu sou ou acredito, o desmerecimento de algo que é importante para o outro. Abrange desde o “vou te contar o que fulano fez mas é só pra você orar” até o sarcasmo e a ironia ao se referir ao próximo ou a algo relacionado ao próximo. Falar mal é… falar mal.

Já “hereditária” se refere a algo “que se recebe ou se transmite por herança” ou “que vem dos pais, dos antepassados”. Aqui me permito extrapolar esse sentido “familiar” para algo que se adquire não só de pai para filho, mas que faz parte do DNA cultural de um determinado grupo, ou seja, uma família, uma sociedade, uma turma de amigos ou mesmo uma igreja. Por esse conceito, por exemplo, o hábito de membros de determinada denominação se saudarem uns aos outros com “graça e paz”, “a paz do Senhor” ou “paz e bem” faz parte da hereditariedade desse grupo específico, do seu código genético cultural. É aquela coisa que um começa a fazer, o outro imita e logo todos adotam como algo natural e espontâneo.

Maledicência2Assim, juntando essas duas acepções do termo, o significado que inventei para “maldição hereditária” não tem nada a ver com um pecado ou uma praga passada sobrenaturalmente entre sucessivas gerações de uma família, mas sim à cultura de um grupo humano específico de praticar habitualmente a maledicência. Em outras palavras, o hábito disseminado em um determinado núcleo de pessoas de falar mal de outras. Portanto, sim, nesse sentido eu creio em “maldição hereditária”, pois vejo com muita frequência grupos em que falar mal de terceiros é tão natural como beber água. E estou me referindo a grupos de cristãos.

Sejamos sinceros: falar mal do próximo é algo que absolutamente todo mundo faz, em escalas diferentes e de formas distintas. É natural a seres humanos dizer coisas sobre outros seres humanos que configurem um certo grau de maledicência. Todos nós fazemos isso e negar seria hipocrisia. Mas estou me referindo a um patamar mais grave do problema. O que vejo é que existem certos grupos em que a maledicência, o maldizer, é visto de certo modo como uma virtude, algo natural, desejável e até engraçado. Em que há um certo orgulho por falar mal. É um jeito de ser que cria laços de intimidade entre os integrantes. Eles esperam que os outros membros daquele núcleo falem mal e os que não o fizerem acabam deslocados dos demais. Nesses grupos, o principal alvo de sua língua ferina em geral são os diferentes. Aqueles que, de algum modo, não compartilham daquilo que para os maledicentes culturais é habitual, valioso ou natural – sejam gostos, preferências, estilos de vida, ideias, valores e similares. Tristemente, isso acontece muito no nosso meio cristão.

É importante frisar que não estou me referindo a uma crítica saudável, construtiva ou, até mesmo, a conversas apologéticas válidas sobre aspectos errados ou heréticos de certos setores da igreja. Essa é a boa crítica e não configura falar mal, mas sim apontar erros com boa intenção, por amor à sã doutrina. Eu me refiro a falar mal mesmo, no sentido mais pejorativo do termo. Aquele maldizer que tem um certo veneno, uma “pimentinha”, que é uma boa dose de pura maldade. Você sabe do que estou falando.

Diga-me se estou errado: sente em volta de uma mesa com certos grupos pentecostais e você verá que não demorará muito para que comecem a falar mal dos irmãos de igrejas tradicionais, chamando-os de “frios” e coisas  similares. Desdenhando e, de certo modo, inferiorizando. O mesmo sentimento você encontrará em grupos de tradicionais que maldimaledicência3rão e depreciarão muitos aspectos do meio pentecostal. Outro exemplo é a eterna querela reformados (calvinistas) versus arminianos, em que a maledicência ocorre com uma frequência impressionante em certos círculos. Voam farpas dos dois lados, com comportamentos que vão das piadinhas a comentários agressivos e ofensivos. Uma tristeza.

Uma das áreas em que esse meu conceito de “maldição hereditária” cresce cada dia mais é na musical. A coisa mais comum é você ouvir pessoas que preferem um certo gênero ou estilo no louvor falar tudo o que você possa imaginar de ruim de quem não aprecia o mesmo. Esse sentimento de “tribo”, de “os nossos certos e os deles errados” vem impregnado muitas vezes de sarcasmo, desprezo, piadinhas e desmerecimento, seja por músicas, seja por músicos, seja por quem gosta do que o maledicente não gosta. Uns acusam outros de superficialidade; outros acusam uns de estagnação e anacronismo. Sempre com palavras nada amorosas. Uma tristeza.

Que dizer então de teorias teológicas? Perco a conta do número de vezes em que ouvi maledicências de certos grupos de cristãos acerca daqueles que não acreditam no que eles acreditam no que se refere aos mais variados aspectos da teologia cristã. E volto a dizer: não estou me referindo a divergências respeitosas e saudáveis, mas a conversas ferinas, depreciativas, cheias de desdém. Os pontos de controvérsia são muitos, e vão de línguas estranhas a teorias escatológicas; de crenças à discordância sobre a forma de batismo em águas; de opiniões sobre como escolher o cônjuge a visões sobre como deve ser a liturgia do culto. Uma tristeza.

E há a maledicência motivada por questões insignificantes. Já ouvi tititis porque o marido passou o braço pelos ombros da esposa durante o culto, ou veneno destilado sobre a roupa do irmão beltrano, sobre o cabelo de sicrana… o céu é o limite quando se trata de temas para maledicentes. Porque todo amante da maledicência tem algo em comum: não importa muito o tema, desde que possa falar mal. Uma tristeza.

Enfim, tenho visto grupos e mais grupos que têm em sua natureza o pecado da maledicência visto como algo normal e aceitável – até mesmo um elemento de união entre seus membros. Só que não é. Falar mal é, biblicamente, um horror. Veja:

maledicência4“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar” (Cl 3.8). Viu ali a maledicência? Pois o falar mal é diretamente associado à natureza terrena e a práticas terríveis, como a ira e a avareza.

Salmos 62.3-4 vai além e indica que o maldizer é uma atitude clara de hipocrisia e falta de amor ao próximo – ou seja, é um pecado contra o Grande Mandamento: “Até quando acometereis vós a um homem, todos vós, para o derribardes, como se fosse uma parede pendida ou um muro prestes a cair? Só pensam em derribá-lo da sua dignidade; na mentira se comprazem; de boca bendizem, porém no interior maldizem”.

Mas tem mais. Em 1Timóteo 5.14, falar mal dos outros é diretamente denunciado como uma prática satânica: “Quero, portanto, que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não dêem ao adversário ocasião favorável de maledicência”.

Diante disso tudo, fica claro que o falar mal do próximo, em todas as suas acepções (com piadas, sarcasmo, ironia, maldade, falsa intenção de exortação ou o que for) é abominação para Deus.

maledicência5Agora, por favor, preste atenção a algo: o objetivo deste texto não é estimular você a olhar para o lado e ficar apontando e acusando tal e tal pessoa ou grupo que seja praticante dessa “maldição hereditária”. Isso não teria nenhuma utilidade para o evangelho ou para a sua vida espiritual. Caso você detecte que há grupos de maledicentes por perto, o mandamento do Senhor quanto a eles é claro e objetivo: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (Lc 6.26-28). Não há margem para interpretação. O mandamento cristão é: se falarem mal de você, fale bem deles.

O que desejo com este post é levar você a refletir e responder à seguinte pergunta: “Será que eu faço parte de algum grupo que pratica habitualmente e/ou prazerosamente a maledicência?” Se você percebe que a pecaminosa prática da maledicência faz parte de um determinado grupo a que você pertença (seja família, turma de amigos, colegas ou mesmo os membros da sua igreja), o que deve fazer? Há dois caminhos a seguir.

Primeiro: converse com os que tais coisas praticam e os alerte sobre quão maligno é o que fazem. Traga à lembrança deles que é preferível calar do que maldizer: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).

Segundo: se ainda assim os tais não ouvirem sua exortação e continuarem adeptos dessa cultura de “maldição hereditária”, afaste-se do grupo. Mateus 18 diz: “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano”. Pois é melhor se afastar dos que amam falar mal dos outros do que permanecer contaminando-se com essa prática horrível. Em Mateus 5.29, Jesus recomenda: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno”. Arranque-se do grupo dos maledicentes antes que você sofra as consequências.

Maledicência0Que consequências? Vamos ouvir Tiago: “Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (Tg 1.26). Em outras palavras, o irmão de Jesus está dizendo que a religião dos que não conseguem ficar calados se não têm algo edificante a dizer… não vale nada. Logo depois, ele dá o ultimato: “Com a língua bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim!” (Tg 3.9-10). No grego original, a palavra traduzida aqui por “bênção” é eulogia, que significa “fala elegante”, ou “discurso justo”. Já “maldição” foi traduzida de katara, que quer dizer “execração”, ou seja, “ódio profundo” ou “aversão exacerbada” (segundo o dicionário Houaiss). Dá para conciliar uma fala elegante com outra que carregue em si ódio e aversão? Biblicamente, não.

Chama minha atenção a frase final de Tiago: “Meus irmãos, não pode ser assim!”. Repare, primeiro, que ele está se dirigindo a cristãos, o que prova que esse mal ocorre em nosso meio. E, segundo, ele afirma que não se pode amaldiçoar. Falar mal. Maldizer. Isso está errado. Precisamos mudar, se o fazemos. Precisamos exortar em amor os que o fazem. E, se continuarem se orgulhando e praticando a maledicência, devemos nos afastar da roda dos escarnecedores que existem em nosso meio.

Pare por um momento de pensar nos maledicentes que você conhece. Faça, isso sim, uma análise de si mesmo e de seu procedimento. Se você perceber que tem seguido o caminho da maledicência e decidir parar com isso, a teu respeito dirá a Palavra de Deus: “Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito” (Tg 3.2). E, se você decidir não se assentar mais na roda dos escarnecedores, a teu respeito diz a Palavra de Deus: “É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera” (Sl 1.3). Reflita e responda: como você prefere ser conhecido nos céus: como alguém perfeito, que dá fruto e cujas folhas não murcham… ou como alguém que pratica o mesmo que o Diabo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Gay1O assunto de que desejo tratar hoje é extremamente delicado, em especial em nossos dias: homossexuais nas igrejas. Por isso, se você for adiante na leitura, é importante que leia com muita calma e atenção o texto a seguir (que é longo), porque, caso contrário, a probabilidade de que tenha um entendimento errado acerca da reflexão que levanto aqui é enorme. Não é novidade para ninguém que existe atualmente uma forte tensão entre as igrejas (evangélica ou católica) e a militância LGBT, formada por homossexuais. Não quero entrar pelo mérito das polêmicas, PL 122, nada disso. Já tem gente demais falando sobre o assunto pelo viés político, debatendo aspectos legais e similares. Não quero falar sobre a “cura gay”, o “casamento gay” ou qualquer outra controvérsia macro.

O que me interessa aqui é tratar especificamente do âmbito da alma humana e do amor pelo próximo.

Acerca da homoafetividade em si não há muito o que dizer. Cientificamente e psicologicamente, ninguém até hoje sabe o que leva uma pessoa a ser homossexual. Eu não sei, você não sabe, ninguém sabe. Há muitas teorias, todas inconclusivas. Mas o que todos sabem é que, para a fé cristã, a prática homossexual é pecado. Ponto. Não sou eu quem diz, está na Bíblia. Não é uma questão de opinião pessoal, é algo afirmado no livro sagrado do cristianismo. Se você crê na Bíblia vai acreditar nisso; se não crê, não vai. Logo, o que está em debate não é se a prática homossexual é biblicamente pecado ou não. À luz das Escrituras, os cristãos encontram a resposta em passagens como:

“Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão.” (Rm 1.26-27).

“Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante.” (Lv 18.22).

“Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos e nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus.”  (1Co 6.9-10).

“Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. Também sabemos que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreverentes, para os que matam pai e mãe, para os homicidas, para os que praticam imoralidade sexual e os homossexuais, para os sequestradores, para os mentirosos e os que juram falsamente; e para todo aquele que se opõe à sã doutrina” (1Tm 1.8-10).

Portanto, para a fé cristã, o evangelho de Jesus Cristo, a Bíblia sagrada, o cristianismo… a prática homossexual é pecado – ou seja, algo que contraria a vontade de Deus. Isso é um fato de fé, ou seja: crê quem crê; não crê quem não crê.

O que gostaria de trazer à reflexão é a forma como nós, cristãos, temos lidado com seres humanos homossexuais que chegam às nossas igrejas. Sejamos francos: a maioria de nós, membros ou líderes, não sabe muito bem o que fazer quando alguém entra em nossa congregação e diz: “Sou homossexual, creio que a prática homossexual é pecado e amo Jesus Cristo, meu Senhor e Salvador”. E esse nosso despreparo nos tem feito ferir – acredito eu que, na maioria das vezes, sem querer – muitas almas. Que deveriam ser amadas, tratadas, cuidadas, acolhidas, discipuladas.

Gay2Conheço todas as teorias. Já ouvi que homossexuais são endemoninhados, que decidiram ser gays, que são fruto de uma mutação genética, que tiveram traumas de infância… há muitas explicações para o que faz um homoafetivo ser homoafetivo. A verdade é que, até hoje, ninguém sabe. Ninguém comprovou nada. Há muita especulação sendo proclamada como fato irrefutável, mas, na realidade, não há nenhuma resposta definitiva. Para muitos, não tem nem o que discutir: se é gay basta passar por um “processo de libertação” e a pessoa se tornará heterossexual. Ou basta decidir não ser mais gay de uma hora para outra e pronto. É o que dizem, mas… sinceramente? Eu não sei. Não sei a causa da homossexualidade. Não sei como resolver o caso de alguém que é gay e diz que não quer mais ser. Honestamente, não sei. Deixo a questão para os especialistas.

Enquanto o debate sobre aspectos políticos, legais, psicológicos, científicos e similares segue a todo vapor, vejo homossexuais entrarem pelas portas de nossas igrejas, confessarem Jesus como Senhor e Salvador e passarem a viver entre nós. É aí? Como lidamos com eles? Será que temos amado essas pessoas? Será que temos estendido graça a elas? Será que as discipulamos com carinho, respeito e amor ou as discriminamos, segregamos, ofendemos, machucamos, expulsamos, extirpamos de nosso meio?

Afinal, lidamos com uma certa tranquilidade e/ou tolerância em nossas igrejas com indivíduos sobre os quais a Bíblia diz que “Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus” (Gl 5.21), como idólatras (de bens, dinheiro ou pessoas) que dizem professar a fé em Cristo; como gente que odeia e diz professar a fé em Cristo; indivíduos que promovem a discórdia e dizem professar a fé em Cristo; ciumentos que dizem professar a fé em Cristo; irados que dizem professar a fé em Cristo; egoístas que dizem professar a fé em Cristo; invejosos que dizem professar a fé em Cristo; e gente que promove dissensões e facções mas diz professar a fé em Cristo. Só que, quando se trata de um gay que diz professar a fé em Cristo… ficamos meio perdidos.

Então, esta é a grande pergunta deste texto: como eu e você tratamos um gay que entra em nossa igreja?

Gay3Um jovem cujo nome vou manter no anonimato deixa, há algum tempo, comentários no APENAS. Ele é gay. Nascido e criado na igreja evangélica, afirma que ama Jesus. Sua experiência congregacional, no entanto, é péssima. Ele alega ter sido maltratado e discriminado a tal ponto pelos irmãos na fé que sua alma carrega feridas profundas. Ele compartilha a visão bíblica de que a prática homossexual é pecado e não nega isso em nenhum momento. Mas suas palavras mostram alguém perdido em meio ao tiroteio, num conflito profundo entre sua fé e sua realidade afetivo-sexual. Eu o convidei para escrever um texto sobre sua experiência como homossexual dentro da igreja, que vou reproduzir a seguir. Com que finalidade? Nos fazer refletir. Para que possamos pensar sobre o que se passa no coração de seres humanos gays que creem que a prática homossexual é pecado e afirmam seu amor por Cristo. Pois eu e você sabemos perfeitamente o que dizem os cristãos sobre a homossexualidade. Sabemos perfeitamente o que os homossexuais não cristãos dizem sobre a homossexualidade. Mas… e um homossexual que professa a fé em Cristo e repudia sua homossexualidade, você sabe o que ele diz? O que sente? Que conflitos enfrenta?

Que fique claro: sou cristão e, como tal, creio no que a Bíblia diz sobre a prática homossexual. No entanto, procuro não discriminar ninguém. Não tenho preconceitos, mas sim conceitos quanto ao assunto. E não sou homofóbico, pois não tenho fobia a homossexuais. Tampouco sou a favor da prática homossexual. Por outro lado, sou totalmente a favor de tratar gays como seres humanos. E penso que, se não sabemos como lidar com um gay que se senta nos bancos da igreja, está mais do que na hora de descobrirmos.

Não acredito que devemos passar a mão na cabeça do pecado. Mas creio piamente que devemos abraçar com todo o carinho do mundo o pecador.

Cedo agora a palavra ao meu convidado. Leia, Reflita. Questione. Critique. Tudo bem discordar dele. Tudo bem repensar atitudes suas. Não espero que todos concordem com esse rapaz ou que discordem dele, mas gostaria que você, pelo menos, pensasse um pouco sobre o que nós, evangélicos, fizemos a esse jovem (que representa uma multidão de pessoas em situação análoga à dele) para que ele se apresente como alguém tão ferido pela igreja. Será que poderíamos ter feito algo diferente?

Ao depoimento:

“Mexer em uma ferida pode ser algo doloroso e com certeza desagradável, ainda mais se esta ferida estiver aberta. Eu tenho uma ferida que foi aberta anos atrás, quando ainda era criança e, pelo visto, permanecerá assim por um longo tempo. Nasci e fui criado em um lar evangélico, meus pais são evangélicos (já não tenho mais pai); grande parte de meus parentes são ou evangélicos ou católicos. Estou com 31 anos e desde que criei consciência enfrento uma guerra contra o homossexualismo (digo homossexualismo e não homossexualidade pois me sinto patologicamente gay). A homossexualidade refere-se à dificuldade que o indivíduo tem de se relacionar com indivíduos do mesmo sexo, e não o oposto, como muitos pensam. São anos de luta interior, confusão e, obviamente, falta de apoio, já que costumamos temer o que não entendemos e a homossexualidade é um grande mistério tanto dentro quanto fora do sistema religioso.

O cerne desta questão é exatamente a dificuldade. Ela vem de todos os lados. Por muito tempo tentei manter uma vida religiosa saudável. Ia à igreja, orava, jejuava, lia a Bíblia com frequência, participava das atividades da igreja da qual era membro, mas sempre com este espinho na minha carne incomodando. Tentei resistir até onde pude, mas chegou o momento em que a solidão e os medos oprimiram tanto que decidi dar um tempo da igreja. Muitos questionamentos começaram a rondar minha cabeça. Ninguém escolhe ser homossexual. No meu caso escolheram para mim. Apesar de ter pais evangélicos, sofri tentativas de abuso de meu próprio pai! Perdoem o pleonasmo, mas poucas coisas conseguem reforçar o medo e angústia que a situação traz. Por muitas vezes pensei em pedir ajuda, mas quem acreditaria em um moleque que vivia à sombra da vontade soberana de seu pai? Ninguém daria crédito. Passei anos da minha vida com medo e frustrado, e, quando se passa muito tempo nesse estado, o sentimento se torna ódio. Desejei que meu pai morresse e, quando ele morreu, não senti remorso nem arrependimento, senti liberdade. Não que eu tenha prazer na morte dele, mas tenho na ausência.

Por vezes pensei em conversar com o pastor da igreja que frequentava, mas ele me aterrorizava. Não o considero um pastor além da formalidade do cargo, mas um mero fantoche de um sistema. Mudei de igreja na tentativa de mudar o quadro e no fim das contas nada mudou. Em maio deste ano conheci um rapaz, nos envolvemos e pude tirar muitas dúvidas. Mas a verdade é que não cheguei a conclusão nenhuma. Não sendo assumido, precisava me esconder, até que um dia fomos pegos pela polícia. Dois policiais tentaram nos extorquir, foi uma situação traumática e humilhante. Naquele momento entendi que meu lugar não era me escondendo, mas sim no caminho reto. Mas qual é este caminho reto? Abri mão do relacionamento, estou tentando me firmar na igreja novamente, tenho recebido ajuda de algumas pessoas. Escrevo um blog que me serve como um canal para catarse. Mas a dúvida continua. A guerra continua. Infelizmente a igreja está longe de saber lidar com indivíduos como eu. Sei que existem muitos rapazes e moças oprimidos pela homossexualidade dentro das igrejas e muitos não sabem como agir.

Dói profundamente ver que hoje, ao invés de amar e estender a mão àqueles que buscam ajuda, muitos têm usado a mídia e os púlpitos para conclamar uma guerra contra a comunidade homossexual. Não que eu seja a favor do PLC 122, mas, como alguém que sente na pele a rejeição e o preconceito, também não sou de todo contra. Somos culpados sim pelo mal que se alastra, pois não somos capazes (e falo como cristão) de seguir o exemplo de Cristo. Sei que não somos perfeitos, mas, como diz a letra da música, se a verdade é o que pregamos, por que erramos não sendo um?

Quantas histórias eu já ouvi de jovens que não suportam a pressão e veem no suicídio a resposta! E, muitas vezes, estamos discutindo valores que sequer temos em frente para passar! Meu Deus! Não é fácil lutar esta guerra, a maior parte do tempo ela é solitária. Acredito que alguns consideram homossexualidade o pecado-mor. Sei que, ao contrário do que a máxima popular diz que “pra Deus não há pecadinho nem pecadão”, há sim diferença de pecados, mas devemos entender que pecado significa errar o alvo, e o apóstolo Paulo, em Romanos 3.23, diz que TODOS pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Alguns se esquecem de que estamos todos encerrados debaixo do mesmo fardo, que é o pecado, e que só o sangue de Cristo pode nos limpar.

Quantas vezes quis trabalhar na igreja, mas era visto com desconfiança. Chegaram até o ponto de me dar um cargo em uma sexta-feira e tirar-me no sábado. Eu vi de perto a história de pessoas que estavam por um fio e foram chutadas de dentro da igreja. Hoje estão sem Deus e, o pior, as acusações contra estas pessoas foram as mais pesadas possíveis. Acredito que, se você quer ganhar alguém para sua causa, deve ser simpático e amável com a pessoa, no mínimo.

Como já disse, todos estamos encerrados debaixo do pecado. A igreja deveria se lembrar de que, quando Deus olha para a humanidade, Ele nos olha através do sacrifício de Cristo. Eu, mesmo sendo homossexual, estou sendo visto por Deus através de Cristo e do sacrifício que Ele fez. Jesus também morreu por mim! Queria saber como enfrentar e como ajudar aquelas pessoas que enfrentam a homossexualidade, mas definitivamente não sei. O que sei é que, sem amor, jamais serão ganhas para Cristo.

Um dos maiores eruditos cristãos da atualidade, o Dr. William Lane Craig, em seu livro Apologética para questões difíceis da vida, defende que ser homossexual não é pecado, afinal não parte de uma escolha do indivíduo, mas a prática da homossexualidade sim. Acredito que este pensamento esteja correto. Afinal, além de ele ser uma autoridade em questões bíblicas, para mim é exatamente o que faz sentido. Baseado nisso, um dos passos para se vencer esta batalha é exatamente a negação desta natureza. Dói demais, não queria saber o quanto. Quisera a igreja ter esta percepção e, ao invés de partir para o ataque, lembrar-se de que Cristo nos chamou para amar o pecador. Muitos também esquecem que a Palavra nos diz, em Efésios 6.12, que nossa luta não é contra carne nem sangue, mas sim uma batalha espiritual!

Eu decidi acreditar em Deus, decidi e concluí que não vale a pena trilhar o caminho da homossexualidade. Tudo que peço é que você que está lendo este texto agora e conhece alguém nesta situação pare e pense: o que Jesus faria? Como Ele trataria alguém que enfrenta este fardo? Se cada pessoa que me julgou e me apedrejou tivesse apenas orado pela minha vida, acredito que tudo estaria diferente agora. Sei que é difícil combater uma guerra quando não conhecemos direito nosso inimigo, mas a Igreja de Cristo tem ao seu lado o Conhecedor de TODAS AS COISAS. Por muitas vezes pensei que Deus ou teria um plano grandioso ou queria me enlouquecer. Muitas vezes beirei a loucura. Se você não sabe o que é passar mais de vinte anos negando sua natureza não tente entender. Não são vinte horas nem vinte dias, são vinte ANOS. Que Deus me ajude a seguir em frente”.

Gay4É isso. Eu, Zágari, não sou homossexual. Mas sou um monte de outras coisas. E confesso: eu peco todos os dias. Ficaria feliz se meus irmãos em Cristo olhassem meus pecados e me ajudassem a superá-los, que dobrassem os joelhos ao meu lado e, mesmo sabendo da terrível natureza pecaminosa que tenho, orassem comigo e por mim. Ficaria feliz se não pisassem na minha cabeça ao tomar conhecimento das minhas iniquidades. Acredito que você, que também desobedece Deus dia após dia, desejaria que agissem assim com relação aos seus pecados. Não devemos nunca ser coniventes com o pecado. Com relação a ele, a única e exclusiva atitude que a Bíblia nos orienta a tomar é: arrepender-se, confessar e deixar. Mas, por favor, faça um  esforço e não deixe de me amar por causa dos muitos pecados diários que cometo; pelo contrário, ajude-me com amor cristão a superá-los. Tentarei fazer o mesmo com você, que peca muito e peca todos os dias. E seria ótimo se eu e você fizéssemos o mesmo com relação a todos os outros pecadores do mundo.

Espero que você consiga sentir em si a dor desse rapaz, que é a dor de muitas e muitas pessoas que vivem situações parecidas à dele. Para que, de fato, ame o próximo como a si mesmo – mesmo que considere o próximo um pecador. Pois “Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.” (1Jo 4.20). Este post não traz respostas, mas deixa uma pergunta: será que temos amado como Jesus amou?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

carga0Fernando Pessoa tem uma poesia bastante conhecida, onde se lê: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Por esse prisma, e com toda licença poética, me atrevo a dizer que vivemos cercados de poetas – pessoas que sorriem, cumprimentam, se esmeram em transparecer alegria, mas por dentro são tomadas de tristezas profundas. São fingidoras. Não pelo aspecto negativo, simplesmente fingem que está tudo bem quando, na verdade, está tudo mal. Heróis da temperança, suportam suas cargas sem repartir com ninguém – e não por vontade própria. São multidões de infelizes que circulam ao nosso redor sem que sua infelicidade torne-se visível. E, acredite: dentro das igrejas.

Entre esses irmãos e irmãs há de tudo. Pessoas acometidas por doenças que roubam sua paz, gente extremamente infeliz em sua vida afetiva, deprimidos, solitários, seres humanos feridos por outros seres humanos, filhos abandonados, pais esquecidos, almas esmagadas pelo peso do próprio pecado, cristãos que não conseguem enxergar Cristo. São muitas as razões, são muitas as vítimas. Convivem diariamente com a tristeza, sem ter com quem conversar, desabafar, sem ter quem as ouça e a suas histórias. São sofredores ocultos.

carga4A pergunta que me faço é: por quê? Por que há entre nós essa multidão de ilhas humanas, isoladas, que não conseguem estabelecer pontes com as demais? Se somos um Corpo e cada membro que dói deveria afetar todos os outros, por que há tantos que se mantém em silêncio quanto às suas dores mais profundas? Paulo diz em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”. Isso é o cenário ideal. Por que, então, para tantos e tantos isso não acontece?

Acredito que há duas explicações e, infelizmente, elas não são muito bonitas.

Primeiro: quem é que pergunta “tudo bem?” de fato preparado para ouvir um “não” como resposta? Porque, sejamos francos, todos estamos condicionados a cruzar com alguém, dizer “tudo bem?” e escutar um automático “tudo bem” de volta. Só que uma enorme porcentagem dos que dizem isso… não estão nada bem. Respondem pelo hábito e pela triste realidade: se dissessem “não, não estou bem” veriam da parte da outra pessoa uma total inabilidade de lidar com isso. Muitos ouviriam um “vamos orar, irmão” de volta ou um “que é isso, irmã, a vitória é tua!”. E tudo continuaria como antes.

carga2Como Igreja, a realidade é que muitos não estão preparados para lidar com quem não está bem. Simplesmente não sabem o que fazer. Nem o que dizer. Perdem o rebolado. Muitos buscam o caminho mais fácil: encaminham para o pastor. Muitos respondem frases-feitas. Muitos fogem. Muitos chegam ao ponto de dizer que é falta de fé. E, com isso, nos acostumamos a que não adianta nada nos mostrarmos como de fato estamos, pois abrir o peito não terá utilidade. O socorro não virá. O conforto ficará apenas na vontade. Dizer “não estou bem” pra quê? Quem se interessaria? E, caso se interessassem, quantos estariam habilitados a levar nosso fardo conosco?

Penso que isso deveria ser muito mais presente em nossa vida em igreja. Deveríamos pregar mais sobre o assunto. Na escola bíblica dominical deveria ser lição indispensável: como amar o próximo. Como levar as cargas uns dos outros. Como escutar a infelicidade alheia de maneira consequente. Todo seminário teológico deveria investir tempo tratando disso – afinal, é um elemento da fé cristã muito mais importante do que calvinismo X arminianismo ou sobre batismo no Espírito Santo, por exemplo. Eu trocaria os dons mais excelentes pela habilidade de levar conforto a quem tem dor. Eu preferiria mil vezes mais ter o dom de levar as cargas dos meus irmãos do que o de profetizar ou operar maravilhas. Simplesmente porque é mais útil, mais importante e desesperadamente mais necessário em nossos dias. Amar o próximo… ó, Deus, como precisamos aprender a fazer isso!

carga5A segunda explicação é a falta de confiabilidade de muitos. Há irmãos e irmãs aos montes que sofrem de dramas reais, dores de alma crônicas, tristezas infindáveis… mas não confiam em se abrir com ninguém da igreja. Porque já viram todo tipo de traições: sacerdotes que vazam confissões que lhes foram feitas em confiança. Irmãos que passam adiante o que lhes segredamos. Irmãs que se afastam de nós ao tomar conhecimento de certas realidades que nos esmagam. Diante disso, como confiar? Como ter fé em que aquele amigo “tão espiritual” não trairá a confiança que depositamos nele ao vilipendiar nossas dores mais profundas e agoniantes? Logo, o que acontece é: “Tudo bem?”. “Sim, tudo ótimo!”, quando, por dentro, há tristeza, solidão, angústia, sofrimento.

Como podemos mudar isso? Preocupando-nos de fato com o próximo. Pondo em prática o Grande Mandamento. Se você começar a agir na sua comunidade de fé mostrando que é alguém com quem se pode contar na hora da angústia e da tribulação, as pessoas criarão coragem para compartilhar com você suas dores. Se você se apresentar como alguém confiável, os cansados e sobrecarregados se aproximarão. E terão coragem de dizer “não, não está tudo bem”. Olhe para si: você é alguém preparado para ouvir e auxiliar, para amparar? Tem base bíblica para oferecer conforto e paz a partir do que dizem as Escrituras? Você é um cristão pronto para oferecer o conforto de Cristo? Se percebe que não, procure urgentemente soluções para isso. Seus irmãos precisam de você. Há dores demais em nosso meio, angústias em excesso no seio da Igreja para deixarmos isso pra lá. “Jesus cuida” – sim, eu sei disso. Mas Jesus quer usar você como instrumento para cuidar.

Olhe ao redor e passe a procurar o próximo a quem possa amar. Não sabe como fazer? Comece com uma simples pergunta: “Tudo bem?”. E quando vier a resposta automática, olhe nos olhos e insista: “Mas… tudo bem mesmo?”. A partir daí, prepare-se: você pode se surpreender com o que vai ouvir e com a forma com que Deus pode usá-lo para levar cargas de pessoas que, muitas vezes, mal têm forças de ficar em pé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

É TEMPO de orar_220713.inddMuitas pessoas deixam de orar porque, lá no fundo, não creem que a oração produza resultados. Já ouvi muito frases do tipo “ah, a gente não pode orar”, como se “só orar” fosse pouco ou quase nada. Ineficaz. Mas a oração é o maior meio que temos de adequar a realidade do mundo aos interesses de Deus. Nossa oração é poderosa e eficaz. Jesus nos instou a orar e orou muitas vezes. Os grandes homens e mulheres de Deus na Bíblia sempre oraram em momentos de alegria ou dificuldade. Diante disso, cabe a pergunta: o quanto nós oramos? Esqueça a oração como uma obrigação, do tipo “sou cristão, logo, tenho de orar tantas horas por dia” ou “muita oração, muito poder; pouca oração, pouco poder”. Oração não é uma chatice ou um pré-requisito para ir para o céu: é um privilégio. Quando a cortina do templo se rasgou, você ganhou acesso direto àquele para quem nada é impossível. Isso é uma bênção, um presente – você é um privilegiado. Mas… será que estamos fazendo uso desse privilégio? Mais ainda: será que temos real consciência de tudo o que podemos vivenciar mediante a oração, essa conversa direta e íntima com nosso Pai?

Já vinha pensando sobre oração há algum tempo (recentemente postei aqui um texto sobre o tema, “O que aprendi sobre oração com as minhas ceroulas”). Por isso, fiquei muito feliz quando a editora Mundo Cristão me convidou para escrever um pequeno livro de incentivo à Igreja brasileira a interceder pela nação: É tempo de orar. A obra apresenta trinta dos maiores problemas que enfrentamos atualmente no Brasil, com estatísticas e informações, seguidos de orações específicas pela solução deles. A base são as principais questões levantadas pelos brasileiros durante as manifestações que agitaram o país nos últimos meses.

Detalhe: nas próximas semanas o livro pode ser obtido, em formato eletrônico, gratuitamente.

É TEMPO de orar_220713.inddA ideia é utilizar o livro (capa ao lado) como meio de reunir cristãos de todo o país para orar durante 30 dias pela nação, a começar no dia 7 de setembro. A versão digital da obra já está disponível para ser baixada gratuitamente nas seguintes lojas virtuais: Google, Apple, Amazon, Kobo, Cultura e Saraiva (ver AQUI). Você pode fazer o download gratuito até o dia 6 de outubro. Já a versão impressa será disponibilizada por um custo irrisório (menos de R$ 3,00).

Considero É tempo de orar uma iniciativa maravilhosa: alguém está fazendo algo para estimular a igreja brasileira a orar pelo nosso país. Parabéns à Mundo Cristão. Recomendo que você adquira o livreto (tem apenas 32 páginas), estimule seus irmãos a adquirir, estimule seu pastor a adquirir, ore seguindo o roteiro que o livro oferece… enfim, que faça algo, meu irmão, minha irmã. Se tiver interesse, clique AQUI para ir ao site da Mundo Cristão. Mas não fique apático ante a realidade do Brasil.

Quero frisar que não estou recebendo nada em termos financeiros com a venda desse livro. Logo, por favor, não pense que estou recomendando a aquisição do É tempo de orar para que eu ganhe dinheiro. Não vou receber um centavo sequer com as vendas. Estou estimulando você e sua igreja a seguir as orações que ele propõe pois acredito que essa obra possa ser um catalisador para que pessoas que hoje estão se esquecendo da realidade nacional tenham algo concreto em que se basear para elevar um clamor a Deus pelo Brasil. Meu desejo e o da Mundo Cristão é que o maior número possível de igrejas, ministérios e pessoas se unam a esse esforço de oração coletiva que começará no dia 7 de setembro. Um mês de oração. Cada dia um tema. Não despreze a sua oração, pois Deus não despreza.

E volto a lembrar: até 6 de outubro, o livro em versão eletrônica é totalmente grátis.

OracaoAcredito que proclamar Jesus seja o primeiro passo para termos um Brasil melhor. Orar é o segundo. E não creio que sejam atitudes inócuas. Pregar Cristo não é pregar Cristo. Orar não é orar. São ações reais, que provocam resultados reais. Infelizmente, muitas vezes nos esquecemos dessa verdade. Por isso, projetos como o do É tempo de orar são importantes, pois configuram iniciativas concretas que nos sacodem e fazem com que saiamos do imobilismo.

Não podemos menosprezar a importância da nossa oração. E não podemos abrir mão dela. O Brasil passa por um momento delicado e único. Queremos um Brasil melhor. Precisamos de melhorias em setores como saúde, educação, tributação, transportes, empregos, saneamento básico, política… muito precisa ser melhorado. E eu creio que o caminho para solucionar esses problemas é Cristo. Temos de ir a ele em oração. Portanto, meu irmão, minha irmã, convido você a dobrar os joelhos. É tempo de orar!

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

A área de administração do APENAS é rica em estatísticas. Permite que eu saiba quais foram os posts mais lidos, quem escreve mais comentários, a que horas do dia houve mais acessos, esse tipo de coisa. Alguns blogueiros são motivados e movidos pelas estatísticas, já eu confesso que raramente acesso essa seção. Esta semana o blog ultrapassou os 800 mil acessos desde sua criação e, por isso, acabei entrando nessa área do site. Movido pela curiosidade, pela primeira vez espiei qual é o link mais clicado de todos. Confesso que eu esperava que fosse o de algum dos livros que escrevi, de alguma das indicações dos links recomendados, dos vídeos do Youtube com os evangelhos de Mateus e Marcos em áudio ou algo assim. Algo de fato relevante. Para minha surpresa e espanto, porém, com alguns milhares de cliques, o link mais acessado do APENAS é…

…minha foto.

Ahn?! Minha foto? Com tantas coisas mais importantes, com links para livros extremamente edificantes, para blogs e sites de alta qualidade, para posts antigos que podem abençoar, para tanta coisa útil, o que foi mais clicado é a imagem do meu rosto. Eu até entenderia se fosse a página do “Quem sou eu”, afinal é importante saber quem é a pessoa que escreve aquilo que lemos, qual é sua formação e em que crê. Mas não: é a imagem de minha face que, disparado, tem milhares de acessos. Não quero dizer quantos por razões pessoais, mas, para você ter ideia, o segundo link mais clicado do blog tem somente 25% da quantidade de cliques da minha foto.

A inesperada constatação me fez pensar: por quê? Por que em um blog em que o principal são as palavras, as ideias, as reflexões e os conceitos, o que mais desperta a curiosidade das pessoas é uma imagem? Que, convenhamos, não diz nada. Que diferença faz se tenho orelhas de abano ou se uso óculos fundo de garrafa? A realidade é que vivemos numa época em que o visual é extremamente valorizado. A meu ver, muito mais do que deveria. Vivemos numa civilização que dá um peso gigantesco àquilo que nossos sentidos captam, muito mais do que àquilo que nosso cérebro formula e que nosso coração move.

Lembro-me de quando, poucos anos atrás, cientistas usaram um software para tentar recriar como teria sido o rosto de Jesus, a partir de informações étnicas dos homens israelitas do primeiro século. E me recordo de ter pensado “para quê?”. Pois que diferença faz se Jesus foi alto ou baixo, de nariz arrebitado ou adunco, com barba rala ou comprida, de queixo pontudo ou quadrado? Os traços do invólucro físico em que encarnou o Filho de Deus é irrelevante, muito mais importam suas boas novas, sua mensagem, seu sacrifício, sua história. A aparência física pouco proveito tem. Mas ainda assim há quem invista dezenas de horas e muito dinheiro para tentar imaginar como teria sido o rosto de Cristo (e, certamente, o resultado é a mais pura especulação). Quanta vaidade…

Damos excessivo valor à aparência de nossos santuários em detrimento do que acontece ali dentro. Saímos dos shows gospel comentando os efeitos visuais e nos esquecemos de falar de Jesus. Nos importamos demais com as camisas do congresso jovem da igreja e de menos com a preparação em oração para o evento. Julgamos a santidade de um cristão pelo aspecto externo em vez de pelo coração e os frutos. Em muitas denominações ainda discriminamos o irmão pelo que veste. A verdade é que nossa civilização é escrava do visual. Dependente dos sentidos. Amante das aparências. Isso fora ou dentro das igrejas.

Devemos nos perguntar: será que eu e você estamos nos deixando levar por isso? Será que temos apreciado mais a casca do que o miolo? Até que ponto nossa espiritualidade está atrelada a imagens e aparências? Pior: tratamos de forma diferente quem entra pelas portas da igreja dependendo de como a pessoa aparenta? Discriminamos o feio? Priorizamos o rico? Menosprezamos o pregador de terno mal ajustado? Acolhemos de igual modo o elegante e o maltrapilho?

Eu realmente fiquei triste por minha foto ser o link mais clicado do blog. Estou pensando seriamente em removê-la. Porque, sinceramente, num espaço sobre as coisas de Deus, meu rosto é o que menos importa. Nos quatro livros de minha autoria já publicados me recusei a pôr minha foto na contracapa, pois meus traços físicos não importam, o que tem relevância são as palavras e ideias ali contidas. No APENAS, o princípio é o mesmo. Afinal, será que se eu fosse vesgo, banguela ou careca isso mudaria o valor daquilo que penso? Porque, se analisarmos bem, é o que pensamos e cremos que dita nossas ações. E são nossas ações que demonstram quem somos. Pois são os frutos, e não a cor das folhas, que revelam quem é a árvore.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

P.S. Este post não está sem fotos por acaso.