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material1Fico imaginando se os materiais de construção pudessem falar. Pense como seria se o cimento, por exemplo, começasse a gritar de dentro da betoneira: “Pare de me agitar! Não aguento tanto sacolejo! Chega de todo esse movimento em minha vida!”. Se você fosse o mestre de obras, o que responderia a ele? Possivelmente, diria algo como “Desculpe, amigo cimento, mas, para que você cumpra aquilo para que foi criado, é preciso que eu deixe você sacudir bastante aí dentro, caso contrário, será  impossível utilizá-lo para cumprir os meus propósitos”. Ou, então, imagine que o tijolo que fica na base de um edifício começasse a gemer e reclamar: “Por favor, me tire daqui! A pressão é muito forte, tem muito peso em cima de mim, não está dando!”. Se eu fosse o engenheiro, daria a única resposta possível: “Veja bem, caro tijolo, se eu removê-lo, de que você servirá? Eu o criei e instalei nesse lugar para que sustentasse toda essa pressão. Se eu tirá-lo daí, além de prejudicar toda a estrutura do prédio você se tornará inútil, pois para isso foi criado. Fora daí você não tem função. E perceba que, embora esteja incômodo, você é perfeitamente capaz de suportar todo esse peso, eu o projetei para isso mesmo”. Você responderia algo diferente? A verdade é que se o responsável pela obra atendesse a todos os pedidos de todos os materiais de construção insatisfeitos com as dificuldades que sua existência prevê… seria impossível construir o prédio.

Vidros dos andares mais altos reclamariam das forças do vento, sem saber que o vidraceiro os fabricou com a resistência necessária para suportar os impactos do ar. Os fios elétricos murmurariam porque estão muito apertados dentro do conduit, sem perceber que, se fossem removidos dali, poderiam se partir com muito mais facilidade. O piso estaria insatisfeito porque tanta gente o pisa, mas… bem, para que serve um piso que ninguém pode pisar? O teto se abateria porque está muito longe das pessoas e por isso se sente solitário, mas não percebe que, se ele não estivesse ali, aquelas mesmas pessoas ficariam desprotegidas das intempéries. E por aí vai.

tijolo2Tudo o que aconteceu na sua vida até hoje tinha como finalidade construir a pessoa que você é, para que o Senhor cumpra a vontade dele na sua trajetória. Deus, em sua multiforme sabedoria, constrói cada um de nós de maneira diferente e com propósitos distintos das demais pessoas. Dependendo de quem você era anos atrás e de como o Senhor deseja que você se torne, ele vai trabalhar de determinada maneira. Um edifício não é formado de um único material e cada um é tratado de modo diferente: o cimento precisa ser constantemente agitado, o tijolo precisa ser assado para suportar grandes pressões, os fios precisam ser bem acondicionados, os alicerces precisam ser muito socados, a tinta precisa ser bem misturada… Cada material tem suas características, um modo diferente de ser tratado, um tempo específico de preparo antes de ser assentado, uma possibilidade diferente de ser utilizado. Mas absolutamente nenhum é visto como menos importante ou é tratado de certa maneira porque o construtor deseja que ele sofra ou seja prejudicado: tudo tem um único propósito, que é fazer o edifício ser erguido com solidez.

Seríamos muito mais felizes se compreendêssemos que as dificuldades da vida fazem parte do propósito para o qual fomos criados, e que a cada um é dado justamente o que faz parte de sua natureza e finalidade. A revolta contra Deus porque ele permite que passemos por dores e momentos difíceis é bem semelhante à reclamação de uma porção de cimento por estar sendo agitada. Aquilo faz parte de sua trajetória, formação, realidade e finalidade neste mundo. Revoltar-se com Deus porque estamos passando pelo processo necessário para nos formar enquanto peças da grande engrenagem do universo simplesmente não faz sentido.

pedra-angular-0e_smA Bíblia usa uma metáfora ligada a materiais de construção para falar sobre Jesus e, também, sobre nós, a Igreja. “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito” (Ef 2.19-22). Nas construções antigas, a pedra angular era a principal, a primeira a ser assentada na esquina do edifício, e formava um ângulo reto entre duas paredes. Servia para definir a colocação das outras pedras e alinhar toda a construção. A pedra angular é o elemento essencial que dá existência àquilo que se chama de fundamento da construção. Portanto, uma pedra angular é a base sólida de que um edifício necessita para conseguir chegar à altura programada, sem cair.

Até mesmo para que Cristo se tornasse a pedra angular – a base fundamental na qual se assenta toda a construção da Igreja – ele teve de sofrer. Foi preciso que fosse humilhado, entristecido, espancado e morto na cruz. E se ele, que é Senhor, precisou passar por isso para cumprir sua finalidade enquanto o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo… quanto mais nós não teremos de enfrentar dificuldades para cumprir aquilo para que fomos criados.

???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Rejeitar as pressões e os sacolejos da vida é como rejeitar o processo necessário para que nos tornemos o que Deus nos criou para ser. Portanto, se você costuma dizer para o Senhor “eis-me aqui”, ou “usa-me”, prepare-se, pois algo será necessário a fim de que você esteja no ponto certo para ser usado pelos propósitos divinos. Dispor-se a ser usado por Deus e depois opor-se ao processo necessário para ser usado seria um contrassenso. Portanto, é importante que você saiba disto com muita clareza: se você quer ser tijolo no grande edifício do qual Cristo é a pedra angular, terá de ser assado, transportado, assentado, cimentado e suportar muita pressão.

A boa notícia é que naquele grande e terrível dia que nos espera, todos os prédios vão desmoronar. O único que ficará de pé é aquele do qual Cristo faz parte. Minha pergunta, então, seria: o que você acha, vale a pena aguentar a pressão, os ventos, o sacolejo e tudo mais que vier pela frente?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

copa do mundo1Assim que o Brasil perdeu para a Alemanha por 7 x 1, nas semifinais da Copa do Mundo, comecei a ver muitas pessoas questionando qual seria a explicação para uma derrota tão inexplicável. Justamente por ser “inexplicável”, todos buscavam explicar. Qual seria a explicação por tantos erros? A pergunta foi feita aos jogadores logo na saída do gramado, na zona mista, na primeira coletiva com Felipão, na segunda coletiva com Felipão, nos jornais e telejornais, nas entrevistas com pessoas nas ruas do país e do exterior e em todo ambiente em que a questão era levantada. Até na entrevista coletiva com Neymar, em sua visita à Granja Comary após a goleada, fizeram a mesma pergunta, a que ele respondeu “Foi uma coisa inacreditável, inexplicável. Eu não consigo explicar, não tem o que explicar”. Em meio a todas as opiniões, ouvi de tudo: a culpa foi da escalação, do estado emocional dos jogadores, do esquema tático, do fato de o Brasil jogar em casa, da ausência de Neymar e Thiago Silva… enfim, na ânsia de explicar aquela sucessão de erros, as pessoas buscaram todo tipo de resposta, como é natural ao ser humano – afinal, não basta um evento ter ocorrido, ele tem sempre de ser explicado de forma lógica e racional. Eu preferi ouvir bem o falatório e refletir antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto. Depois de ter escutado tantas explicações para tantos erros, cheguei às minhas próprias conclusões e acredito ter encontrado a resposta bíblica para o fato de uma seleção formada por jogadores profissionais, que atuam nos melhores times do mundo, treinada por uma comissão técnica que conta com os últimos dois técnicos campeões do mundo pelo Brasil, ter perdido de forma tão avassaladora, cometendo tantos erros.

E a explicação é simples. Eles erraram tanto pela mesma razão que eu e você erramos tanto: errar faz parte da natureza humana.

O ser humano é imperfeito. Somos pecadores. Deslizes, transgressões e falhas são consequência natural da queda da humanidade. Nesse ponto, a derrota da seleção brasileira aponta para uma grande realidade de toda e qualquer pessoa: não importa o quão preparado você esteja, não importa quanto você tenha acertado antes, não importa se você já saiu vitorioso de tantas situações que no passado chegou ao topo do pódio muitas vezes, não importa nem mesmo se você tem uma vida de fidelidade a Deus e de santidade (como muitos dos jogadores da nossa seleção, que são cristãos fiéis a Cristo). Nada importa. Porque a realidade é que, se você é gente, um dia vai errar. E pode ser que erre muito feio.

copa do mundo3Davi (não o zagueiro, o rei) levantou a taça na disputa contra Golias, em seu comportamento com relação a Saul, em suas muitas vitórias contra os inimigos, em sua atitude diante de Abigail… ele era o cara. Um craque. Só que chegou o dia em que mostrou que, como absolutamente todo ser humano, era capaz de errar. Resultado: tomou de 7 x 1 quando mandou matar Urias e se deitou com Bate-Seba. O tempo se passou e, tempos depois, nova derrota de lavada: 7 x 1 no episódio do recenseamento. Os repórteres da época podem ter realizado mesas redondas para discutir a causa daquilo, em busca de uma explicação. Nas manchetes de jornal, se lia “Vexame: Davi perde de 7 x 1″. Como explicar o inexplicável? Como explicar que o homem segundo o coração de Deus, que fora campeão tantas vezes no passado, perdera de forma tão vexaminosa? A resposta: Davi era humano. E Davi errava.

O mesmo aconteceu com cada grande homem de Deus que já falhou ao longo da história. Abraão tomou de 7 x 1 ao fingir que Sara não era sua esposa. Jacó perdeu de 7 x 1 ao enganar seu irmão. Moisés perdeu de 7 x 1 no episódio das águas de Meribá. Sansão perdeu de 7 x 1 ao se casar com uma estrangeira. Pedro perdeu de 7 x 1 ao negar Cristo. Paulo perdeu de 7 x 1 tantas vezes que se apresentava como “o pior dos pecadores”. Eu e você perdemos muitas vezes de 7 x 1 em nossa caminhada de fé, mesmo depois de nossa conversão. Todos perdem de 7 x 1 pela mesmíssima razão: somos pecadores, erramos.

copa do mundo2Não parece inexplicável que um cristão que verdadeiramente ama a Cristo e que por décadas viveu de forma correta um dia cometa erros terríveis? Não nos deixa chocados e com cara de arquibancada derrotada saber que um pastor famoso pagou propina a fiscais ou faltou com seu sigilo pastoral? Não nos lança em lágrimas tomar conhecimento que aquele irmão exemplar da igreja falhou em seus votos matrimoniais? Não nos abate e nos dá vontade de sair do estádio antes do fim do primeiro tempo quando percebemos que nós mesmos perdemos de 7 x 1 para o pecado de forma que não sabemos explicar? A verdade é que, quando essas coisas acontecem, buscamos e até mesmo encontramos muitas explicações. Só que, na raiz de tudo, a explicação é só uma: somos miseráveis pecadores, perdidos, falhos, transgressores. Erramos.

A seleção brasileira perdeu de forma vergonhosa. Não tem mais volta, a Copa acabou e aquela derrota acachapante ficará para sempre marcada na história. Nossos netos nos perguntarão sobre aquele dia e jamais se poderá fazer nada para mudar o que aconteceu. O 7 x 1 para a Alemanha é eterno. Mas há uma diferença entre esse 7 x 1 e o nosso 7 x 1. No nosso caso, essa derrota não precisa marcar nosso futuro. Pois, no campeonato da cruz, existe uma regra que diz que, se a graça de Jesus nos alcança, a partida em que perdemos de goleada pode ser eliminada da tabela de nossa vida. Se nos arrependermos de nossos pecados, os confessarmos e nos dispusermos de todo coração a não mais os cometermos, aquele jogo é deletado do nosso histórico de partidas. “Quem é comparável a ti, ó Deus, que perdoas o pecado e esqueces a transgressão do remanescente da sua herança? Tu, que não permaneces irado para sempre, mas tens prazer em mostrar amor. De novo terás compaixão de nós; pisarás as nossas maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar” (Mq 7.18-19).

Jesus convida cada um de nós a retomar a trajetória que pode nos levar ao lugar mais alto do pódio, por meio de uma regra chamada perdão. Em última análise, ficar buscando explicações para o seu pecado não adianta nada, ele é inexplicável. O pecado é uma força avassaladora que nos arrasta e nos faz cometer atitudes inexplicáveis, como Paulo explicou muito bem: “Tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7.18-20).

Você tomou de 7 x 1 de sua natureza falível e pecaminosa? Foi humilhado, sente-se envergonhado, não tem coragem de olhar as pessoas ou mesmo Deus nos olhos? Assim como David Luiz, você só tem vontade de sair de campo, repetindo vez após vez “Desculpe… desculpe… desculpe…. desculpe…”? Então saiba que Jesus olha para você, com uma taça daquele ouro que não derrete estendida para te entregar. Ele olha no fundo de seus olhos e diz: “Está arrependido? Então esse jogo de 7 x 1 será apagado da sua história. Eu te perdoo. Eu não te condeno. Agora vá e não peque mais”.

copa do mundo4Você toma a taça nas mãos e, mesmo tendo perdido de 7 x 1, descobre que, pela graça, pode erguê-la acima de sua cabeça, em direção aos céus, de sorriso no rosto e coração leve. Bem-vindo à vida eterna, campeão. Você não merece, pois não foi você quem venceu o mundo, mas ainda assim a taça é sua. Qual é a explicação? Parece inexplicável que pecadores tão terríveis como nós consigamos ser campeões e herdar a vida eterna? Bem, nesse caso, a explicação é só uma: Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o 7 x 1 do mundo. Ele venceu o mundo. E, se você foi convocado para jogar no time dele, isso faz de você um eterno vencedor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

reclama1Você já observou como nós somos reclamões? Às vezes me impressiono com o tamanho da ingratidão que temos pelas coisas que Deus nós dá. Criticamos o povo israelita por ter murmurado no deserto após a libertação do Egito mas fazemos a exata mesma coisa. Pare para prestar atenção às coisas que os seus conhecidos falam ou que seus “amigos” publicam nas redes sociais e você perceberá a enorme quantidade de pessoas insatisfeitas com aquilo que têm e são. Chama especial atenção quando a ingratidão e as reclamações ocorrem em relação a algo que recebemos depois de muito pedir em oração.

Uma das áreas em que esse fenômeno mais acontece é a profissional. Todo universitário sonha com o dia em que entrará no mercado de trabalho; todo estagiário anseia por ser efetivado; todo desempregado fica ansioso por conseguir um emprego. Se for cristão, então, ele ora, jejua, chora aos pés do Senhor e faz todo tipo de barganha e promessa a Deus. Tem gente que chega a fazer campanha, subir monte, se engajar em correntes de oração e tudo o que se possa imaginar. Aí vem Deus e abre a tão sonhada “porta de emprego”. Seria de se esperar que a pessoa agradecesse diariamente por esse trabalho e exaltasse constantemente o Criador por sua generosidade. Só que basta o irmão começar a trabalhar que têm início as murmurações, pelos mais variados motivos: precisa acordar muito cedo para chegar ao trabalho, gasta muito tempo no trânsito, chega ao final do dia cansado, reclama diariamente do chefe, faz careta quando recebe o contracheque porque ganha menos do que gostaria, louva a sexta-feira porque terminou mais uma “terrível semana de trabalho”. Pediu a Deus o emprego e, quando recebe, tudo é só reclamação. Quem entende tamanha ingratidão?

reclama2Outra área em que isso acontece muito é o casamento. A moça sonha com seu “príncipe”. O rapaz clama pela sua “bênção”. Haja oração para que Deus envie logo a sua “metade”. Aí vem Deus e possibilita que você suba ao altar. Nos primeiros dois ou três anos é sempre uma maravilha, o conto de fadas que se realizou. Só que daqui a pouco começam as murmurações. É o marido que vê futebol demais. É a esposa que não gosta de cozinhar para o marido. Ele fica andando pela casa de meias e cueca. Ela deixa a calcinha pendurada no chuveiro. As reclamações crescem cada vez mais. As orações deixam de ser por agradecimento a Deus por, finalmente, lhe ter dado um cônjuge, e passam a ser para que ele transforme o marido ou para que ele faça a esposa tomar jeito. Reclamações se tornam a tônica. Pediu-se tanto um cônjuge e depois parece que ele é um presente de grego. Quem entende tamanha ingratidão?

Tem gente que sonha em ter filhos. Ora e jejua pedindo ao Senhor que lhe dê uma criança saudável e cria toda uma expectativa para a chegada do pimpolho. Aí vem Deus e concede ao casal a maravilhosa bênção da paternidade. Na primeira noite insone por causa do bebê surge o mau humor. Nos choros, a reclamação. A criança cresce e já vi pais que, inacreditavelmente, murmuram porque têm, por exemplo, de abrir mão de ver programas de televisão para brincar com o filho. Em vez de ser sempre celebrados como bênçãos do Senhor, muitos filhos levam os pais a reclamações constantes simplesmente porque os pequenos ainda estão aprendendo a ser gente e fazem traquinagens. Na hora da teimosia deles, muitos pais não encontram o prazer de ensinar o procedimento certo, mas sim vivem a tristeza de “aturar o pestinha”. Aqueles que foram tão ansiados acabam sendo vistos como fardos por quem deveria agradecer todos os dias a Deus, em lágrimas, por ter sido agraciado com o presente de valor incalculável que é uma criança. Quem entende tamanha ingratidão?

murmuraçãoO pecador estava perdido, sem Deus, sem salvação. Vive no atoleiro do pecado, caindo de transgressão em transgressão, caminhando a passos largos para o inferno. Aí vem Deus, estende a ele a sua graça, o adota como filho, o perdoa de seus erros, justifica, regenera e lhe abre as portas da vida eterna. Do inferno para o céu, motivo mais que suficiente para exaltar e glorificar o Senhor por todos os segundos de sua vida. Só que daqui a pouco o salvo começa a reclamar da vida de fé. A igreja de repente tem montes de defeitos. O pastor poderia pregar melhor. Os irmãos não são tão perfeitos como se pensava no início. O culto não é tão animado como a daquela outra igreja. Deus não atende a oração. A bênção não chega. Quero a minha cura e pra ontem! É um resmungo só. De repente a vida com Deus e na comunidade de fé se torna motivo não de alegria, mas de reclamação. Quem entende tamanha ingratidão?

Você não existia. O mundo estava muito bem, obrigado, sem você. Na verdade, você não fazia nenhuma falta. Aí vem Deus e resolve te dar de presente a vida. Te gera no ventre materno, te nutre, sustenta, forma, prepara, ama. Só que você cresce e descobre que a vida é dura, que há dores e sofrimentos, que as pessoas são más e há muita infelicidade no planeta, que viver inclui canseira e enfado. Por isso, se torna alguém que reclama da vida o tempo todo, para quem parece que nada nunca está bom. Suas palavras, em vez de celebrar a vida que Deus te concedeu como um presente de sua graça, se tornam um lamaçal de constantes murmurações. Você age como a hiena Hardy Har Har, do desenho animado, resmungando o tempo todo “ó, céus, ó, vida, ó azar…”. Parece que tudo sempre está ruim. Quem ouve suas palavras tem a sensação de que nada presta e que viver é um fardo desesperador. O Senhor te presenteou com a vida e você vive reclamando desse extraordinário presente. Quem entende tamanha ingratidão?

Reclama6Deus é bom, meu irmão, minha irmã. Logo, as coisas que ele nos dá são boas – muito embora não sejam perfeitas. É claro que há casos extremos, que devem ser tratados individualmente e que nos abatem, mas devemos ser gratos ao Senhor diariamente por cada uma de suas bênçãos – o emprego, o casamento, os filhos, o cônjuge, a igreja, a vida, tudo! Entenda: absolutamente tudo o que vem de Deus é bom, até mesmo o que nos parece mau. Pois, se dói mas vem de Deus, é bom, mesmo que não entendamos. É impossível o Pai te dar algo que seja ruim em suas finalidades últimas. Isso é absolutamente incompatível com a fé cristã. Se Deus deu, agradeça! Não reclame, não seja ingrato, não fique insatisfeito. Ele te dá o melhor e na medida certa. Agradeça. Em tudo dê graças. E se você desconfia de que, de repente, “não foi Deus quem deu”, procure desenvolver um relacionamento próximo e íntimo com o Senhor, pois dessa intimidade virão as respostas. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão” (Jo 10.27-28).

Quando vier a vontade de reclamar, procure fazer esta dinâmica: lembre-se das suas orações. Lembre-se daquilo que você pediu e o Pai lhe deu. Traga à memória tudo o que orou ao Senhor e recebeu. Se perceber que hoje você vive resmungando e reclamando de presentes da graça divina, está mais do que na hora de substituir a murmuração por louvor e ação de graças.

Antes de murmurar porque há uma goteira em sua casa, lembre-se de que Deus te deu uma casa. Antes de reclamar porque seu cônjuge está doente, lembre-se de que ele está vivo. Antes de reclamar que seu voo atrasou horas, lembre-se de que você poderia ter de viajar centenas de quilômetros de carro. Antes de reclamar que seu carro quebrou, lembre-se de que você poderia ter de andar sempre a pé. E antes de reclamar que você tem de andar sempre a pé, lembre-se de que você tem pés que andam. Celebre a vida. Celebre cada pequena coisa que Deus te deu, pois, se foi Deus quem deu, não é pequena. Seja grato, sempre.

cruz“Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). Em outras palavras, aprenda a viver contente em todo tipo de circunstância. Pare de olhar sempre o buraco que há no centro da rosquinha, antes olhe a rosquinha que há em volta do buraco. Você tem Deus e ele te fortalece; e, tendo ele, você pode encarar o que é bom e o que é ruim – e superar ou suportar as contrariedades da vida.

As fases más vêm e há, sim, momento para chorar e se lamentar. Isso é humano e normal – e bíblico. O problema é quando o lamento se torna um estilo de vida. Viva, simplesmente, e seja grato por tudo o que tem. Santa insatisfação, santa murmuração, santa ingratidão? Não, nada disso. Porque murmuração, insatisfação e ingratidão… de santas não têm nada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Julio CesarO goleiro Julio César, da seleção brasileira de futebol, deu uma entrevista ao final do jogo de Brasil e Chile, pela Copa do Mundo, em que transmitiu uma enxurrada de emoções (veja AQUI). Duramente criticado na Copa de 2010 por sua atuação na partida em que fomos eliminados, contra a Holanda, agora ele se viu numa posição de redenção ao defender dois pênaltis e manter a seleção canarinho na competição. Nessa referida entrevista ele transmitiu todo o sentimento represado que esmagava seu peito. Se você acompanha o APENAS há algum tempo, sabe que não sou muito fã de futebol e, por isso, não costumo assistir a jogos. Esse meu desinteresse pessoal me fez assistir às três primeiras partidas do Brasil na Copa com certa estoicidade, a ponto de ter chegado em casa aos 25 minutos de jogo na disputa contra o México (aproveitei as ruas vazias para resolver algo que precisava fazer). Assim, a possibilidade de os jogos do Brasil mexerem com minhas emoções era bem reduzida. Mas aí chegou Julio César. E, quando ele chorou, eu chorei junto.

Fiquei pensando sobre esse fato depois. O que levou a mim, alguém que não dá muita atenção a futebol, a derramar lágrimas junto com Julio? Eu não passei pelo que ele passou. Não vivenciei na pele suas noites insones, o ostracismo profissional, os olhares maldosos, as críticas ferrenhas. Não tenho ideia do sentimento que assolou aquele homem pelos últimos quatro anos. E, embora tenha vivido uma pequena parcela da emoção dele quando defendeu os pênaltis e, assim, manteve o Brasil na Copa, certamente minha emoção não resvalou a sola da chuteira da dele em termos de intensidade. Então por que eu chorei? Por que solucei ao ver os olhos vermelhos, a falta de palavras, os lábios trêmulos, a explosão contida de sentimentos daquele homem?

Empatia.

Empatia é o fenômeno emocional de identificação com uma pessoa. É quando conseguimos entrar na pele do outro e sentir o que ele sente. Sentir empatia pela dor alheia faz você chorar abraçado a um amigo que perdeu um parente que você nem ao menos conhecia, faz você levar doações a uma cidade distante após uma enchente por ter ficado tocado pela tragédia de terceiros, faz você sentar no meio-fio ao lado de um mendigo para bater papo enquanto ele come uma refeição que você entregou, faz você abrir mão de benefícios próprios em função do outro. Em linguagem bíblica, empatia é o que Paulo definiu muito bem em Romanos: “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram.” (Rm 12.15).

choro1É impossível ser cristão se você não tem empatia. Jesus falou sobre isso na parábola do bom samaritano. Os religiosos de então não sentiram empatia pelo homem que vivia aquele momento de sofrimento, mas o samaritano sentiu. “Um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele” (Lc 10.33). A  piedade que leva à ação é prova de que houve empatia. E sublinhe “que leva à ação”, porque piedade no discurso mas que não gera nenhuma atitude concreta é, na verdade, hipocrisia maquiada de boas intenções. Foi impossível para aquele samaritano deixar o outro homem caído, desassistido. Ele sentiu em si a dor do próximo, o amou e agiu em favor dele. Com isso, cumpriu o grande mandamento, de amar o próximo como a si mesmo. Fica claro, então, que só consegue amar o próximo quem consegue sentir a dor dele. Chorar com ele. Quem não sente empatia pelo sofrimento alheio não passou pelo novo nascimento: é absolutamente impossível alguém que foi regenerado pelo Espírito Santo dar as costas à dor do próximo. Impossível.

Sem empatia não haveria a encarnação de Cristo e, tampouco, salvação. A Bíblia fala que a motivação de Deus ao enviar o Filho em sacrifício por muitos foi a empatia do Criador por suas criaturas: “Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). A Trindade se compadeceu da humanidade, sentiu em si a dor do pecado e da perdição e agiu em nosso favor. Não é à toa que a redenção veio mediante toda a dor que Jesus sentiu, ao ser abandonado, humilhado, espancado, cuspido, açoitado, crucificado. É como se ele nos dissesse “Quero sentir em mim a dor que o pecado causa em vocês”.

Os evangelhos nos mostram que a empatia de Jesus pelos sofredores o acompanhou durante todo seu ministério terreno. Podemos ver que ele agiu muitas vezes em favor dos necessitados movido unicamente pela íntima compaixão que sentia por eles (Cf. Mt 9.36; 14.14; 15.32; 20.34; Mc 1.41; 6.34; 8.2; Lc 7.13). Assim, a empatia de Cristo pela humanidade é a raiz daquilo que devemos ter em nós como fruto, para nos conformarmos à imagem de Jesus. Alguém que não consegue se alegrar com os que se alegram e, principalmente, chorar com os que choram precisa urgentemente buscar a face de Deus, porque algo não está bem em sua espiritualidade. Fé cristã pressupõe empatia.

“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’” (Mt 25.37-40). A Bíblia é clara: só quem chora com quem chora tem parte com Cristo.

cruzÉ devido à empatia pelo próximo que somos levados a doar para os necessitados, pregar para os perdidos, amparar os pobres, abraçar os solitários, amar os inimigos, perdoar os que nos ofenderam, dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. A empatia é o princípio da solidariedade, da caridade, do amor cristão. Nada mais triste do que ver um cristão egoísta ou sovina, pois isso revela muito sobre a sua fé. Quer saber a resposta para a pergunta do título deste texto? Quer saber como anda a sua fé? Basta se lembrar de quando foi a última vez que você sentiu em si a dor do outro e agiu desinteressadamente em benefício de alguém. De quando abriu mão de si pelo próximo. De quando derramou lágrimas junto com o triste, o fraco, o abatido – simplesmente porque ele também estava derramando lágrimas. Tem muito tempo? Fez isso muitas vezes? Pense nessas perguntas e, quando tiver uma resposta, você terá uma boa medida de como anda a sua fé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

paciencia1Vivemos dias de grande impaciência. A fila do supermercado nos irrita; esperar mais do que trinta segundos pelo download nos chateia; o engarrafamento nos transtorna; “KD VC?!”, cobramos, pelo celular, da pessoa que ainda não chegou onde marcamos; meu Deus, nove meses para nascer o bebê! Não sabemos mais esperar. Em poucas décadas, a humanidade aprendeu que tudo está ao alcance de um botão, que a food pode ser fast, que a pipoca de microondas estoura mais rápido, que um clique do mouse resolve tudo na hora; que esperar é perder tempo. Só que não temos tempo a perder! Aliás, tempo temos, nós é que não queremos mais perder tempo. Tudo é pra já. Nada mais em nossa vida nos treina para sermos pacientes, pelo contrário, a rapidez de tudo nos adestra, na verdade, para sermos especialistas em impaciência. Não sabemos esperar com tranquilidade. Infelizmente, a cultura do “é pra ontem” tem cobrado um preço alto de nossa vida espiritual e de nosso relacionamento com Deus.

“Esperei com paciência no SENHOR, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor” (Sl 40.1). As palavras do salmista soam bastante fora de moda, pois esperamos com cada vez menos paciência que Deus cumpra seus propósitos. Oramos sempre na expectativa de uma cura instantânea – se ela vier daqui a uma semana é porque o Onipotente está meio fora de forma. Barganhamos fé em troca de pressa. Seis meses desempregado? Que Deus é esse? A oração precisa ter resposta imediata. O amor que ainda não apareceu? Anda logo, Onipotente! O parente que ainda não foi salvo? Acho que não tem mais jeito para ele. Chegamos ao Senhor como quem chega ao balcão do McDonald’s, exigindo uma bênção crocante e quentinha – se chegar fria ameaçamos mudar para a concorrência, como muitos que abandonam o evangelho porque não foram atendidos na hora em que queriam. Nossa impaciência tem nos levado a viver um cristianismo bem diferente daquele que a Bíblia ensina. É o cristianismo do Deus express.

paciencia2Só que o Deus da Bíblia não é assim e seus servos não devem esperar que ele seja de outro jeito. Na vida de Abraão, por exemplo, sempre destacamos a sua fé, mas o autor de Hebreus mostra que a paciência foi indispensável para o êxito do patriarca: “E assim, depois de esperar com paciência, obteve Abraão a promessa” (Hb 6.15). Queremos que a promessa se cumpra, mas não temos paciência de esperar por ela. Fé, meu irmão, minha irmã, é algo ligado intimamente à paciência. Paulo deixou isso claro: “Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.25). Não basta ter fé se ela só durar até o limite da paciência. Entenda que ter fé significa ter a certeza de algo que virá (Hb 11.1) e, se é uma certeza, você espera por toda a eternidade que ocorra. Fé que acaba ou que se abandona depois de algum tempo não é fé, pois certeza implica em paciência para se aguardar quanto tempo for preciso.

Paciência não é uma opção em nossa vida espiritual: ela é indispensável. O cristão que não sabe esperar com paz no coração aquilo que almeja acabará vivendo crises difíceis. Pois ter paciência significa ser capaz de tolerar contrariedades, dissabores e infelicidades. É esperar o que se deseja em sossego e com perseverança. “Mas, se somos atribulados, é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso conforto, o qual se torna eficaz, suportando vós com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos” (2Co 2.1-6).

paciencia3Paciência, aliás, faz parte da essência do Senhor: “Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus (Rm 15.5). Que expressão linda: “Deus da paciência”. Não é de se espantar que uma das virtudes do fruto do Espírito seja, exatamente, paciência (Gl 5.22-23), pois, para nos conformarmos à imagem de Cristo, precisamos ter em nós aquilo que ele é. E é fundamental lembrar sempre que fazemos parte de um povo que baseia toda sua crença religiosa numa esperança que exige de nós paciência: “Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas. Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima. Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas. Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais falaram em nome do Senhor. Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo” (Tg 5.7-11). Se não tivermos paciência para esperar pelo retorno do Senhor, de que adianta tudo o que vivemos?

Sei que eu e você fomos criados para viver em uma sociedade que não sabe esperar, que deseja tudo para ontem, que tem respostas e comodidades a um botão de distância. Mas o evangelho nos convida a contrariar essa ideia. Se queremos viver plenamente segundo a esperança que nos foi proposta, precisamos aprender a esperar com paz na alma. A respirar fundo e deixar Deus ser Deus, isto é, a agir no tempo que tem planejado. É por ser impacientes que muitos de nós enfiamos os pés pelas mãos e, tal qual Saul sacrificou sem ter esperado a chegada de Samuel, agimos precipitadamente e tomamos escolhas erradas – com consequências que podem ser desastrosas. Muitas vezes, temos de abrir mão de algo por anos se desejamos que Deus aja. O preço da impaciência costuma ser muito alto.

A Bíblia nos mostra que o Senhor age quando quer agir e não quando nós queremos. Jesus não chegou à casa de Lázaro quando Marta e Maria queriam, mas quando o defunto já cheirava mal. Embora não parecesse aos homens, era o momento certo para Deus. O cativeiro babilônico durou 70 anos. A escravidão no Egito, 400. Às vezes, o calendário divino demanda bastante tempo. Entre a primeira e a segunda vindas de Jesus já se passaram mais de dois mil anos, e a ampulheta segue escorrendo areia. Por que essa ansiedade toda? Por que essa impaciência toda? Você não confia? Será que Deus não é a melhor pessoa para dizer a hora certa de algo acontecer?

paciencia4Calma. Paciência. Paciência, meu irmão, minha irmã. Deixe-se guiar sempre pelas palavras de Davi: “Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará. Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito, como o sol ao meio-dia. Descansa no SENHOR e espera nele [...] Deixa a ira, abandona o furor; não te impacientes…” (Sl 37.5-8). Que o Deus da paciência acalme o seu coração, a fim de que você olhe cada vez menos para o relógio e cada vez mais para a cruz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Hipocrisia1Ninguém gosta de viver crises. Eu não gosto. Você não gosta. Crises são ruins, doem, machucam, entristecem, abatem. Elas podem vir com as mais variadas aparências: desemprego, doenças, divórcio, alcoolismo, opressão, escassez, pecados, agressões e por aí vai. Deus nos livre das crises. Mas… eis que vem a má notícia: elas são inevitáveis. Certeiras. Elas virão. Ninguém está isento de crises. Jesus as enfrentou, todos os apóstolos foram afligidos por elas, a Igreja primitiva as teve como companheiras constantes, os reformadores praticamente as convidaram ao peitar os religiosismos de então, você e eu tropeçamos nelas a cada esquina. Crises virão e são inevitáveis. Mas, sabe… crises têm um aspecto positivo, do qual devemos desfrutar: elas revelam quem cada pessoa realmente é.

Foi na hora da crise que Pedro mostrou que ainda pensava mais em si do que nos outros. Foi na crise que Judas revelou que, embora tivesse passado anos com Cristo, não compreendia o perdão divino. Quando a crise veio, Paulo e Pedro mostraram que não eram grandes especialistas em conciliação. À sombra da crise, Caim revelou onde estava seu coração com relação a Deus e a seu irmão. A crise expôs mais de uma vez que Abraão tinha uma indisfarçável covardia, ao fingir que sua esposa era sua irmã – diante de faraó e de Abimeleque. Os exemplos bíblicos são muitos e todos levam à mesma conclusão: crises revelam seu verdadeiro eu.

Hipocrisia3Na fome você descobre os caridosos. Na angústia aparecem os empáticos. Na dor se revelam aqueles que choram com quem chora. No escândalo caem as máscaras dos egocêntricos. Na pobreza somem os interesseiros. Na derrota permanecem os parceiros. Quando você não tem mais nada a oferecer se destacam seus verdadeiros amigos e desaparecem os falsos. “As riquezas multiplicam os amigos; mas, ao pobre, o seu próprio amigo o deixa” (Pv 19.4) – repare que “riquezas”, aqui, não se refere apenas a dinheiro, mas a tudo o que você pode oferecer aos demais. A crise peneira os que de fato têm amor no coração dos que têm apenas aparência de piedade.

No meio cristão merece nossa atenção especial a crise do pecado, uma vez que ela é a que mais mexe com cada um de nós. Na igreja, ela é uma das mais reveladoras que há. Quando alguém comete um daqueles pecados bem cabeludos, arrepende-se e seus irmãos em Cristo tomam conhecimento, é bom que ele se prepare, pois vai conhecer de fato quão santos, piedosos e verdadeiros são aqueles que o cercam. Os salvos o apoiarão e ajudarão na sua restauração. Os que não têm a natureza de Cristo lançarão pedras. Os medrosos sairão de perto. Os mansos e humildes de coração o abraçarão e o puxarão para cima. Em suma, é no pecado que se descobre quem realmente ama ao próximo como a si mesmo e quem ama a si mesmo como a si mesmo.

Por exemplo, você sistematicamente desonra pai e mãe, mas ninguHipocrisia2ém sabe disso. No dia em que esse pecado abominável vem à tona, muitos se afastam. Outros que te chamam de “amigo” deletam você de sua convivência – afinal, não pega bem associar seu nome a alguém que desonra pai e mãe. E por aí vai. É quando você chega diante da igreja e confessa publicamente que tem amado o dinheiro acima de seres humanos que muitos passam a atravessar para o outro lado da rua ao te avistar de longe, começam a te boicotar e demonstram que sua vida não lhes importava tanto assim.

Parece ruim? Então ouça a boa noticia: não é. Pois bendita é a crise que mostra quão cristãos os cristãos que te cercam são. Porque (preste bem atenção a isto)  o que demonstra se você é  cristão de verdade não é apenas se você peca ou não, mas como reage diante do pecado dos outros. Porque pecar 100% dos cristãos pecam, mas reagir como Cristo diante do pecado alheio… não é virtude de uma maioria.

A piedade de impiedosos não sobrevive na hora da crise. Nesse sentido, a crise é uma maravilha, pois ajuda você a enxergar com mais clareza ao seu redor. “Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos, muito embora ele tenha abandonado o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14) é um versículo que poucos conhecem e menos ainda o vivem no dia a dia.

Hipocrisia4Mas a crise não só revela a hipocrisia: ela põe os holofotes sobre os magnânimos. Pois é quando explode na igreja o escândalo de que você é um terrível preguiçoso que muitos chegarão até você com abraços amigos, palavras de consolo e restauração. É ao revelar publicamente que você não merece o céu porque é um glutão de primeira linha que os amorosos, pacificadores, bondosos e amáveis brotarão com braços abertos, mãos estendidas, ombros ofertados, colos à disposição, palavras de apoio e encorajamento e, acima de tudo, com aquilo que mais pesa nessas horas: sua presença. Pois os salvos permanecem na hora crise. Os que são amantes do próprio ventre vão cuidar de si.

Doença, pobreza, pecado, dificuldades, carência, depressão… são muitas as crises que podem pular à nossa frente. Possivelmente, ao longo da leitura desta reflexão, você imaginou pessoas que conhece e que se encaixam naquilo que foi descrito aqui. Eu perguntaria, então, se me permite: e você? Como você se comporta quando é o seu próximo que está em crise? Você permanece, apoia, ama, dá a cara a tapa, abre mão de seu tempo pelo outro, fortalece, diz palavras de amor… perdoa? Você dá as costas ou age em prol da restauração? O que a crise do seu próximo revela sobre você? Sobre sua fé? Sobre quanto ama as outras pessoas? Sobre seu cristianismo? Sobre sua vida com Cristo?

A crise virá, não tem jeito. Mas, quando ela for embora, tenha a certeza de que você terá recebido um magnífico presente do Pai que o ama: a revelação de como é de fato o coração daqueles que te chamam de “amigo”. Passada a crise, muitos “amigos” terão desaparecido – dê graças a Deus por isso. E os poucos que ficarem não serão mais seus amigos: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão” (Pv 17.17). Sim, louve a Deus pelas crises, pois elas farão brotar ao seu lado verdadeiros irmãos. E, dependendo de como você se comportar na crise do seu amigo, o Senhor lhe mostrará muito a respeito de como anda o seu próprio coração.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Gays1Olá, bom dia. Meu nome é Maurício Zágari e sou um cristão protestante (ou evangélico). Gostaria de falar, se me permite, a você que é homoafetivo (ou homossexual, ou gay, ou integrante do movimento LGBT – deixo a seu critério como prefere ser chamado) e que não compartilha da minha fé. Mas, antes, permita-me dizer que não pretendo te atacar, ofender, discriminar ou rebaixar. Quero apenas dialogar, com extremo respeito pela pessoa que você é. Um papo de um ser humano para outro ser humano. Tenho visto na internet, na televisão e em outras mídias uma lamentável troca de farpas entre certos evangélicos e certos gays (em geral, líderes e políticos) e isso tem me deixado profundamente triste. Parece que há uma guerra entre todo cristão e todo homoafetivo, e isso simplesmente não é verdade – nossa luta não é essa (Ef 6.12). Então gostaria de tentar deixar de lado o que alguns têm feito e dito, e expor questões a respeito de tudo o que tem acontecido, se você tiver paciência de prosseguir mais um pouco neste texto e me honrar com a sua leitura.

A primeira coisa que eu queria fazer, amigo homoafetivo, é te pedir perdão. E falo como cristão, embora nenhum outro cristão tenha me autorizado a fazer isso. E esse é o problema: muitos cristãos têm falado em meu nome sobre a tua sexualidade, sem que eu nunca tenha autorizado. Em geral, é gente famosa, que te ataca, ofende, agride, xinga e bate na mesa, como se todos os evangélicos estivessem fazendo a mesma coisa. Bem, eu não estou. Conheço muitos que também não estão. Não quero conversar com você ou com ninguém agredindo. Então, por favor, perdoe meus irmãos que te ofenderam. Pois a mensagem do Cristo a quem amo é a da paz, da restauração, da salvação; não a da guerra, da ofensa, da agressão. Quero que você saiba que, aos meus olhos, você é um ser humano precioso e importante. De valor.

A segunda coisa é explicar algo sobre a relação entre os evangélicos e os homoafetivos nos nossos dias. Eu não tenho absolutamente nada contra você como indivíduo. Tenho conhecidos que são gays, pessoas boas, trabalhadoras, amorosas, que pagam seus impostos e são extremamente agradáveis. Então, por favor, entenda que não existe nenhuma hostilidade contra os homoafetivos pelo fato de eu ser cristão. Só que não posso ser hipócrita, então deixe-me dizer que, de fato, não concordo com a prática homossexual. Perceba que existe uma diferença entre gostar, respeitar e amar alguém e concordar com algo que ela faça. Por exemplo: amo de todo coração minha filha. Não tenho preconceito contra ela. Não sou “infantifóbico”. Mas, se ela faz algo que em minha opinião é errado, não vou concordar e direi isso a ela – eu a amo e por isso sinto-me compelido a dizer a ela a verdade sobre o que penso acerca de suas ações. Uma coisa não exclui a outra. Percebe a diferença entre a pessoa e a prática?

Esse é o problema que tem gerado tanto conflito entre gays e cristãos: muitos cristãos tratam mal seres humanos gays por discordar do que eles fazem. E muitos seres humanos gays tratam mal os cristãos porque não nos dão o direito de discordar do que eles fazem. Assim, estamos errando dos dois lados. Pois estamos confundindo as pessoas com as suas crenças e práticas. Amo minha filha, mas posso discordar de algo que ela pense ou faça.

Gays2Se você diz que assistir a um jogo de futebol é mais legal que ler um livro vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que pizza é melhor que camarão vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que o Rio de Janeiro não é a melhor cidade do mundo vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que azul é mais bonito que preto vou discordar, mas vou continuar amando você. Enfim, se você pensa ou age de modo diferente de mim vou discordar, mas vou continuar amando você. O que você faz e pensa não anula o meu respeito humano por você. Gostaria muito que o mesmo fosse igual de sua parte quanto a mim. Temos, cristãos e homoafetivos, de começar a perceber que discordar de uma prática ou crença não é motivo para odiar quem pratica aquilo ou crê naquilo. É como flamenguistas e tricolores que discordam com relação a seus times mas se encontram na saída do estádio e não se espancam, mas se abraçam.

Assim, gostaria que você entendesse que, embora eu não concorde com o fato de você se relacionar com pessoas do mesmo sexo, isso em nada muda o meu apreço pelo indivíduo que você é. Se amanhã você aparecer na minha igreja, vou te receber com um abraço apertado, sentar ao teu lado e tirar todas as dúvidas que você porventura tenha quanto às questões de fé. Vou te apresentar a meus amigos da igreja e procurar compartilhar o amor que Cristo semeou no meu coração da melhor forma que eu puder. Claro que pediria respeito mútuo, o que inclui não ficar beijando outra pessoa do mesmo sexo na hora do culto, como algumas pessoas homoafetivas fizeram no passado (como foi amplamente divulgado pela mídia). Acredito que você, como pessoa inteligente que é, entende com toda clareza por que o que essas pessoas fizeram não é algo correto do ponto de vista da boa convivência. Foi bem desrespeitoso, na verdade.

A terceira coisa que queria é discorrer sobre por que existe essa discordância entre cristãos e gays. E aqui você não tem de concordar comigo, mas, pelo menos, pediria gentilmente que procurasse compreender por que não concordamos com a prática da homossexualidade. Veja: cremos que a Bíblia apresenta a ética e a vontade de Deus. Logo, acreditamos naquilo que ali está escrito como sendo a verdade absoluta do universo – por mais que o mundo pós-existencialista odeie o termo “absoluto” e prefira “relativo”. E a Bíblia diz que a prática da homoafetividade é pecado (palavra antiga, que significa “desobediência à vontade de Deus”). Diz isso de Gênesis a Apocalipse. Veja apenas dois exemplos:

Romanos 1:26-27 “Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro.”

Levítico 18:22 “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação.”

Logo, os cristãos entendem que a prática homossexual desagrada Deus. Você tem todo o direito de discordar disso! Eu respeito sua discordância. Ninguém é obrigado a crer no que eu creio. Mas, do mesmo modo, peço, por favor, que respeite meu direito de crer no que creio. Temos de concordar em discordar, mas sempre com carinho e afeto um pelo outro. E eu creio que – embora você e todos os demais homoafetivos sejam seres humanos merecedores de abraços sinceros, respeitáveis e amáveis – estão incorrendo em pecado quando põem em prática o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo (lembrando que “tentação” e “pecado” são conceitos bem diferentes, mas essa é outra discussão). Assim, se for de fato pecado, um dia você prestará contas. Mas a Deus, não a mim.

Gays3Aproveitando, queria pedir que me permita esclarecer algo sobre duas palavras que são usadas para se referir a mim no que tange à questão da homoafetividade pelo fato de eu discordar da prática homossexual. A primeira é “preconceituoso”. Pelo dicionário, “preconceito” é  “opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos.”. Gostaria de te explicar que eu discordar do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo não faz de mim, por definição, um preconceituoso. Pois tudo em que creio tem fundamento em dados objetivos, que são afirmações feitas ao longo da Bíblia, o livro que norteia minha vida. Você pode não crer em nada do que está ali, mas, por favor, pediria que respeitasse o fato de que eu creio. E, como creio, acredito que todos os dados objetivos que estão ali são verdade. Assim, não tenho “preconceito” contra a prática homossexual, mas sim um “conceito”, firmemente baseado em uma filosofia de vida (material e espiritual).

Outro termo é “homofóbico”. Pelo dicionário, “fobia” é “medo”. Assim, “aracnofobia” é “medo de aranhas”, “agorafobia” é medo de espaços abertos”. Me faz crer que “homofobia” seria “medo de homossexuais”. Bem, eu não tenho medo de você, tenho carinho e afeto pelo ser humano que você é. Também não tenho medo do que você pratica, eu discordo, mas não temo. Logo, não vejo a lógica de ser chamado de “homofóbico”. É como se eu chamasse você de “cristofóbico” porque discorda dos cristãos. Não acredito que seria correto dizer isso.

Bem, teríamos muito ainda a dialogar, sobre temas como o amor e a graça de Deus, as dores que você sofre quando é discriminado, vida eterna e tantas outras coisas envolvidas no relacionamento entre cristãos e gays. Mas não dá pra falar tudo de uma vez. Então vou encerrar por aqui, na esperança de que você tenha compreendido o que eu quis dizer. Não te odeio. Olho para você e vejo um ser humano tão humano como um heterossexual. Mas, com base na Bíblia, acredito que a prática da homossexualidade constitui pecado e levará quem a pratica a ter de prestar contas a Deus. Respeito se você não crê nisso. Porém, mais uma vez, peço, por favor, que você respeite o fato de eu crer.

Gays5O que me motivou a escrever este texto foi essencialmente mostrar que podemos nos tratar com gentileza e amor, mesmo que discordemos. Não há razão para os cristãos te tratarem mal. Não há razão para vocês nos tratarem mal. Podemos conversar civilizadamente. Olho para parlamentares e pessoas da mídia se agredindo e se ofendendo por causa de tudo o que aqui falamos e me entristeço enormemente. Abomino esse comportamento. E isso, se formos pensar bem, não tem a ver com religião ou sexualidade: tem a ver, acima de tudo, com educação e polidez. Chega de agressividade. Chega de ódio mútuo. Peço a Deus que consigamos conviver em paz e com respeito, sabendo que cada um dará contas de si e de suas ações diante do Criador.

Sabe, amigo homoafetivo que não professa a mesma fé que eu… tenho uma certeza: Deus, que é bom e misericordioso, deseja ter um relacionamento pessoal com a humanidade – inclusive com você. Minha oração é que isso aconteça e que você seja alcançado pela maravilhosa graça de Deus. O amor de Jesus, acredite, é maior e mais arrebatador do que o de qualquer pessoa.

Te desejo muita paz. Com respeito,
Mauricio

Morte0De vez em quando eu me pego pensando sobre o exato momento em que deixaremos esta vida e ingressaremos na eternidade. Como será? Já parou para imaginar isso? Normalmente, as pessoas fogem de falar sobre a transição desta vida para a sua continuação no plano espiritual – o que costumamos chamar de “morte”. Consideram um assunto lúgubre, sombrio, deprimente, algo até mesmo agourento. Eu não. Claro que penso sobre isso com expectativa e um certo temor pelo desconhecido, mas, quando leio na Bíblia todas as promessas sobre a vida eterna, alento e ansiedade brotam em meu coração. Então, sim, por vezes me pego pensando em como será o momento exato da morte, de maneira parecida com um jovem que sente um calafrio ao imaginar o primeiro dia na faculdade, uma mocinha que cogita como será engravidar, um menino ansioso pela expectativa do primeiro emprego, um casal trêmulo antes da noite de núpcias. Não há descrições claras e objetivas nas Escrituras que nos permitam ter certeza de como será com exatidão o instante da morte, essa é uma área que a Bíblia mantém nas sombras. Mas temos algumas pistas bíblicas que nos dão paz e nos trazem consolo quanto à partida dos nossos entes queridos e a nossa própria, se morremos em Cristo.

Primeiro é importante percebermos que a Bíblia aponta a eternidade como uma existência totalmente desprovida de sofrimento, tristeza, preocupações, estresse. A entrada no reino final é sinônimo de paz. A tão falada “paz do Senhor” será experimentada plenamente no porvir. João registrou em Apocalipse informações que, de forma bem generalista, anunciam como será o estado eterno dos salvos: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.1-4).

No porvir, os salvos não sentirão mais tristeza nem sofrerão. Isso nos revela uma realidade sobre o momento da morte: a maneira como você morre não faz nenhuma diferença, se dormindo, acordado, atropelado, afogado, de embolia, de pneumonia, de infarto, escorregando no banheiro, de câncer, numa queda de avião, em decorrência da Aids. Seja da forma que for, pela causa que for, sofrendo nos instantes finais o quanto se sofra… no exato instante em que seu espírito fechar atrás de si a porta do corpo decaído e falido e der o primeiríssimo passo dentro do reino eterno, tudo aquilo que causa dor e tristeza vai acabar. Imediatamente. Instantaneamente. Num piscar de olhos. Não há injeção de morfina que se compare ao fim do sofrimento que entrar na eternidade causará.

Mergulho0Se você parar para pensar, perceberá que, todas as vezes em que alguém fala sobre a própria partida desta vida, o que se traz à tona são os instantes que antecedem a morte e raramente você ouve alguém mencionar os instantes que a sucedem. Fala-se muito sobre como se preferia morrer, dormindo, sem sofrimento, assim ou assado. Sempre o que se destaca é o antes – e geralmente com certo receio e temor (natural, afinal, quem quer sofrer em seus instantes finais?). Pouco se fala da alegria que atravessar a cortina da vida vai proporcionar. Por isso, queria convidar você a dar asas a sua imaginação junto comigo. Em meus devaneios, costumo fazer uma analogia desse momento. Imagine que você está em um calor sufocante e salta em uma piscina gelada. No segundo em que seu corpo transpõe a linha d’água, a sensação de frio instantaneamente toma conta de si. É uma entrada imediata em uma realidade que muda tudo. Assim, imagino o mergulho na morte não pela perspectiva do “calor” que se sentia momentos antes, mas do “frio” que se sentirá momentos depois. Nesse sentido, a história bíblica do mendigo Lázaro é muito significativa e esclarecedora.

O próprio Jesus fez esse relato, que uns dizem ser uma parábola e outros, uma realidade – eu não sei, ninguém sabe com absoluta certeza. Mas, seja uma ilustração ou não, essa história é magnífica no que tange à esperança pós-morte. Disse o Senhor: “Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão” (Lc 16.20-22). Lázaro vivia em pobreza extrema, não tinha trabalho nem condições de comprar um pouco de comida que fosse. Além disso, era doente. Se você tem uma ferida dolorosa sabe o incômodo que é, então tente imaginar o que é ser “coberto” de chagas. Fica claro que ele tinha ferimentos dos pés à cabeça, o que devia causar uma dor constante que beirava a agonia. Meu irmão, minha irmã, é muito sofrimento. Aquele cidadão vivia, da hora em que acordava até a de dormir, em meio a uma dor que não dá pra imaginar. Talvez tivesse insônia. E, não bastasse a fome, a escassez, a dor e o sofrimento, ele ainda era obrigado a conviver com a humilhação de ficar sendo lambido por um bando de animais.  Será que você consegue dimensionar quanto aquele pobre homem sofreu – fisicamente e emocionalmente – durante anos?

Morte2Até que Lázaro deu o passo para fora deste mundo. Fico pensando com fascinação sobre aquele instante. Seu corpo chega ao limite, sem suportar mais. Entra em falência. Ele morre. Visualize o preciso segundo daquela morte. De olhos abertos, talvez em meio a muitas lágrimas, ele sente aquela dor lancinante provocada pela soma de muitas úlceras, da fome, da miséria humana. Um trapo. Então Deus sussurra: “Vem…”. Lázaro fecha os olhos. Um segundo depois, abre-os novamente. Como alguém que entra em uma piscina gelada e deixa instantaneamente de sentir calor, num piscar de olhos as dores físicas, o senso de humilhação, o vazio no estômago, toda a desgraça daquele mendigo simplesmente desaparece. Ele fecha os olhos no último suspiro e, quando os abre, já numa sensação de total paz e ausência de sofrimento, vê um grupo de anjos diante de si. “Levado pelos anjos…”, afirma Jesus. Suponho que estarão sorrindo, porque a alegria que sentem ao receber mais um salvo que chega à casa do Pai deve ser enorme. Pense em como Lázaro não deve ter se sentido ao ver aquele comitê de boas-vindas! O pedinte doente e sofredor é recebido por seres celestiais. Da miséria absoluta à mais plena glória!

A partir daqui é puro voo da minha imaginação. É quando já não vejo Lázaro nessa situação, penso em mim mesmo. Penso em você. Penso em cada um de nós. Fico supondo que aqueles anjos nos tomarão pela mão, ou nos envolverão num abraço, para nos conduzir à tão esperada e ansiada presença do Criador do universo, o Autor da vida, o Rei dos reis e Senhor dos Senhores. O nosso Pai. Nos meus sonhos especulativos, creio que esse encontro nos porá em nosso devido lugar, porque, diante daquela tão pura essência de santidade, a lembrança de nossa multidão de pecados nos lançará em terra e cravará o rosto no chão, em adoração a tão magnífico ser e em contrição pelo nosso histórico de pecados e falhas, transgressões e desobediências. Mas, então, penso eu, ouviremos de seus divinos lábios:

- Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

Surpreso com essa declaração injusta, uma vez que teria total consciência de quem fui na terra e da multidão de pecados que estaria carregando, eu diria:

- Mas, Senhor, eu não sou digno…

E o Pai sorrirá. Então ele trará à luz por que nos chamou de “bom e fiel” se somos tão maus e infiéis – a razão da cruz, o motivo da encarnação do Verbo e da morte do Cordeiro:

- Eu sei que você não é digno, filho, mas você não está aqui pela sua dignidade. Está aqui pela graça. Pelo amor. Pela cruz. Pelo sangue de Jesus, derramado pelos seus pecados. Nenhuma condenação há para quem chegou aqui por meio de Cristo, daquilo que meu Filho fez no Calvário.

Morte3Pronto, está consumado, entramos na eternidade. Não há mais choro, nem dor. Só a presença do Senhor, desvendado em toda a sua glória. O que virá depois disso eu não sei, é um absoluto mistério. Mas me apego às palavras de Paulo, o homem que foi arrebatado ao coração dos segredos do Senhor e viu coisas inefáveis: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9).

A morte chegará. Para os salvos, não é um tema sombrio. É um passo dentro de um reino sem sofrimento, para o abraço dos anjos, para a presença daquele que então veremos face a face e que nos amou desde antes da fundação do mundo. E, ao final de todas as coisas, todos os que derem aquele passo se reunirão e, juntos, dirão: “Aleluia!, pois reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-poderoso. Regozijemo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória!” (Ap 19.6-7).

Que linda esperança…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Radical0Sempre que vou levar ou pegar minha filha na escola passo por esta árvore da foto ao lado. Embora haja uma enorme quantidade de árvores no trajeto, essa em especial se destaca e sempre chama minha atenção, por uma característica específica: suas raízes. Elas são tão robustas e vigorosas que conseguiram fazer algo aparentemente impossível: levantaram a calçada de concreto e pedras, removendo completamente do lugar pedaços sólidos e maciços do chão. Toda vez que observo aquele bloco de rocha quebrado, me pego pensando na importância de ter raízes fortes e inabaláveis. Na vida do cristão, essa é uma realidade bíblica.

Não sei se você sabe, mas a palavra “radical” se refere a “raiz”. Por isso, quando você diz que alguém é “radical” em suas opiniões, isso significa que tal indivíduo tem raízes bem fincadas naquilo em que crê. É interessante que, nas últimas décadas, nossa sociedade passou a enxergar alguém “radical” sob uma óptica negativa. O “radical” deixou de ser um indivíduo consciente, que não negocia seus valores, firme em suas crenças, sólido em suas virtudes; passou a ser alguém tapado, intransigente, intolerante, desagradável, fundamentalista e chato.

A vontade que dá diante dessa realidade é a de tornar-se uma pessoa light, não radical, do tipo que quer agradar todo mundo. Seria mais fácil e conveniente. A questão, porém, é que Jesus é extremamente radical.

Você consegue ver, nos evangelhos, Jesus negociar aquilo em que crê? Não é o que enxergo. Vejo um Cristo firme, com raízes muito bem fixadas, que mantém-se fiel a sua ética e a seus valores, não importa a situação. Jesus não barganha favores, não negocia a solidez de seu chão, não cede ante argumentos, ameaças ou riscos. Ele foi até o fim, custasse o que custasse – e custou bem caro: o preço de sangue.

Sartre e BeauvoirHoje as posturas do Cristo não são bem vistas na sociedade, em função, claro, do pecado que nos cerca e, também, do momento histórico em que vivemos. No século 20, surgiu um movimento filosófico chamado “existencialismo” que influenciou enormemente o modo de a civilização ocidental (em que eu e você vivemos) enxergar o mundo. Pensadores influentes, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir (foto), defendiam que nada é absoluto, tudo é relativo. É o que se chama “relativismo”. Segundo esse pensamento, eu tenho a minha verdade, você tem a sua e tudo está bem. Essa ideia faz com que eu seja o deus do meu universo, pois aquilo em que creio tornam-se dogmas inquestionáveis. O existencialismo criou ideias como “todos os caminhos levam a Deus” ou “não importa o que você crê, a verdade é a sua verdade”. Soa lindo, se o existencialismo não fosse antibíblico, pois o cristianismo tem conceitos absolutos, enquanto no existencialismo tudo é relativo.

Esse pensamento invadiu a mentalidade das pessoas e hoje colhemos os frutos amargos de viver em uma sociedade em que tudo é relativo. Porque os meus e os seus valores bíblicos absolutos tornaram-se malvistos. “Radical” deixou de ser um elogio e passou a ser um palavrão. Se tivermos uma crença inabalável e se não negociarmos o que é inegociável vão nos olhar de cara feia. Mas é impossível ser cristão e não ser radical. Então prepare-se para pagar o preço de ter raízes profundas no evangelho.

agressividadeÉ fundamental frisar um aspecto extremamente importante dessa questão: ser radical não tem nada a ver com uma imagem que em nossos dias tem conquistado cada vez mais espaço entre nós, cristãos. De alguns anos para cá, passamos a acreditar que ser radical é ser agressivo, é atacar quem discorda de nós com palavras e um modo de ser ofensivos. Por entendermos que o cristão tem de ser radical, assumimos um comportamento verborrágico, de botar o dedo na cara de quem diverge de nossas opiniões, de ofender cristãos ou não-cristãos que não compartilham nossas ideias. Entenda, por favor: ser biblicamente radical não é nada disso. O cristão com raízes bem fincadas em Cristo é manso, humilde, argumenta sem elevar o tom de voz, usa de amor e graça com todos – todos. Ser radicais nas nossas crenças e posturas absolutamente não significa ser uma pessoa desagradável, que vive gritando, acusadora, de cenho carregado, o “dono da verdade”. O radical dialoga, com paz no coração e carinho na voz, para levar os demais ao conhecimento da verdade. Infelizmente – mas infelizmente mesmo – vivemos em meio a uma geração que usa redes sociais, YouTube, blogs, programas de televisão e rádio e até púlpitos para disseminar uma agressividade incompreensível “em nome de Deus”. Não é esse o caminho. Isso é um erro.

Ser um cristão radical – ou seria melhor dizer “fiel”? – tem seu preço. Mas é um preço de abnegação e, muitas vezes, sofrimento. É negar-se a si mesmo diariamente, tomar sua cruz e seguir Jesus. Quer ser um cristão radical? Então você tomará um bofetão e terá de dar a outra face. Farão mal a você e você terá de fazer o bem a seus agressores. Os elogios cruzarão seu caminho, mas você terá de viver em humildade. O poder chegará a suas mãos e você precisará lavar os pés de seus subordinados. Seu marido será imperfeito e a submissão não deixará de vigorar. Sua esposa será problemática mas ainda assim você a amará como Cristo amou a Igreja. Seus pais errarão em muitas coisas e ainda assim você terá de honrá-los. Ser radical é perdoar, preferir os outros em honra, fugir de vãs discussões, não deixar o sol se pôr sobre a sua ira, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Isso é ser radical – e agir como a Bíblia manda exigirá muito de você. Prepare-se.

raizesHá outros caminhos? Sim, há. Você pode trair suas convicções. Pode negociar com o mundo. Pode agir conforme os valores da sociedade secular. Pode fazer tudo igual a todo mundo e diferente do que a Bíblia estabelece como padrão cristão. É possível? Sim, é. Mas, quando a tentação de não ser radical chega, lembro-me daquela árvore e me pego pensando no que teria acontecido com ela caso suas raízes não fossem tão fortes. Provavelmente, o peso das pesadas placas de pedra a esmagaria. A força do chão a manteria pressionada e sabe Deus o que ocorreria àquela árvore. Creio que morreria, pois não conseguiria suportar por muito tempo. Acredito que o mesmo ocorre com o cristão cujas raízes são fracas e não têm forças para firmá-lo quando chegam as tentações, as dificuldades e os desafios da vida: ele definha espiritualmente e se torna uma sombra pálida daquilo que Deus espera de cada um de nós.

Aquela árvore sempre me lembra de que nossas raízes têm de estar cravadas em Cristo, sem ceder um milímetro sequer. Sempre. A todo dia. A toda hora. A todo instante. Só assim teremos forças suficientes para quebrar o rígido e forte peso do pecado, das fraquezas, dos problemas. Peço a Deus que, pela força da cruz, sejamos sempre amorosos, graciosos, benignos, amáveis, pacificadores, perdoadores, caridosos e… radicais.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Inimigo de nossas almas1Ele é mau. Sua natureza o faz agir diariamente contra nós. Ninguém tem maior capacidade de nos prejudicar do que ele. Seus pensamentos constantemente vão contra aquilo que é puro e bom. Suas ações cotidianamente sabotam nossa santidade. Ele é o grande responsável por cada um dos pecados que cometemos. Ele é o maior adversário de cada cristão na luta diária para ser fiel a Deus. Ele é o inimigo de nossas almas. Você sabe de quem estou falando. Sabe, não sabe? Então diga o nome dele em voz alta. Não se preocupe, ele não vai mordê-lo. Pode dizer.

Já disse?

Pois bem, se você disse “Satanás”, lamento, não é essa a resposta. O nome que deveria ter dito é… o seu próprio. Porque o maior inimigo de sua alma é você mesmo.

Para muitos o que acabei de dizer pode soar estranho. Mas, se você achava que seu grande adversário era o Diabo, está na hora de reconsiderar. Por uma simples razão: embora tente constantemente influenciá-lo, ele não obriga você a fazer absolutamente nada. Você faz porque decide fazer.

Inimigo de nossas almas2Vamos pensar em Adão e Eva. A serpente obrigou um dos dois a comer o fruto proibido? Não, não obrigou. Do mesmo modo que, em nossos dias, o Diabo não nos obriga a cometer nenhum pecado. O que ele fez com o primeiro casal e o que faz hoje é exatamente a mesma coisa: sedução. Satanás não força ninguém a nada, ele apenas sugere. Sussurra. Mostra possibilidades. Incentiva. Usa toda a sua lábia para fazermos o que ele quer. Mente que não haverá consequências. Mas quem toma a decisão de pecar somos eu e você. A única circunstância em que o Diabo obriga um ser humano a algo é na possessão demoníaca. Como não é o seu caso, não existe nada que Satanás possa levá-lo a fazer, contra a sua vontade, se você não consentir.

A verdade é que todas as vezes em que eu pequei, o fiz por decisão própria. Eu escolhi pecar. Tinha as duas possibilidades, o “sim” e o “não”, mas optei pelo “sim”. A responsabilidade por cada pecado da minha vida é  minha, o que me torna a pessoa com maior potencial de prejudicar a mim mesmo. Evidentemente, o Diabo tem um importante papel nessa equação. A ação dele é simbolicamente parecida com aquilo que você já viu em alguns desenhos animados, em que o personagem fica com um demoniozinho perto da orelha, ouvindo incentivos para fazer algo. Na vida real, os demônios só têm poder para fazer isto: tentar seduzir as pessoas para que pequem. O espírito maligno sugere: “Faça”. Mas quem faz… é você.

Inimigo de nossas almas3Paulo falou sobre isso. “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19). Note que ele não diz “o mal que não quero o Diabo me obriga a fazer”: Paulo assume a responsabilidade. Ficar pondo a culpa em Satanás por todas as coisas ruins que fazemos cria um grande problema para nós. Pois, se terceirizamos a culpa de nossas transgressões, acabaremos, como Pilatos, crendo que estamos com as mãos limpas porque as lavamos. “Eu fiz porque o Diabo me obrigou”, podemos dizer. Só que essa não é uma afirmação bíblica. Seria leviandade pôr a culpa de nossos erros em alguém que, por mais que tente de todo jeito fazer que pequemos, não tem poder nenhum de nos fazer pecar.

Eu peco porque decido pecar. Todos os meus pecados são responsabilidade minha. Eu é que darei contas de cada pensamento, palavra e ação que puser em prática. O mesmo se aplica a cada pessoa do planeta. Peço a Deus que essa percepção nos leve a tomar mais cuidado a cada nova tentação que atravessar nosso caminho.

Inimigo de nossas almas4Ah, sim, não quero que essa realidade deixe você triste. É uma verdade que não deve nos abater, mas sim nos deixar alertas, vigilantes, precavidos – atentos aos sussurros sedutores de Satanás e às nossas próprias atitudes. E uma boa notícia, de que você nunca deve se esquecer: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Jesus morreu na cruz para perdoar cada uma das suas transgressões. O sangue dele repousa sobre você. E não há nada que o Diabo possa fazer com relação a isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício