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Hipocrisia1Ninguém gosta de viver crises. Eu não gosto. Você não gosta. Crises são ruins, doem, machucam, entristecem, abatem. Elas podem vir com as mais variadas aparências: desemprego, doenças, divórcio, alcoolismo, opressão, escassez, pecados, agressões e por aí vai. Deus nos livre das crises. Mas… eis que vem a má notícia: elas são inevitáveis. Certeiras. Elas virão. Ninguém está isento de crises. Jesus as enfrentou, todos os apóstolos foram afligidos por elas, a Igreja primitiva as teve como companheiras constantes, os reformadores praticamente as convidaram ao peitar os religiosismos de então, você e eu tropeçamos nelas a cada esquina. Crises virão e são inevitáveis. Mas, sabe… crises têm um aspecto positivo, do qual devemos desfrutar: elas revelam quem cada pessoa realmente é.

Foi na hora da crise que Pedro mostrou que ainda pensava mais em si do que nos outros. Foi na crise que Judas revelou que, embora tivesse passado anos com Cristo, não compreendia o perdão divino. Quando a crise veio, Paulo e Pedro mostraram que não eram grandes especialistas em conciliação. À sombra da crise, Caim revelou onde estava seu coração com relação a Deus e a seu irmão. A crise expôs mais de uma vez que Abraão tinha uma indisfarçável covardia, ao fingir que sua esposa era sua irmã – diante de faraó e de Abimeleque. Os exemplos bíblicos são muitos e todos levam à mesma conclusão: crises revelam seu verdadeiro eu.

Hipocrisia3Na fome você descobre os caridosos. Na angústia aparecem os empáticos. Na dor se revelam aqueles que choram com quem chora. No escândalo caem as máscaras dos egocêntricos. Na pobreza somem os interesseiros. Na derrota permanecem os parceiros. Quando você não tem mais nada a oferecer se destacam seus verdadeiros amigos e desaparecem os falsos. “As riquezas multiplicam os amigos; mas, ao pobre, o seu próprio amigo o deixa” (Pv 19.4) – repare que “riquezas”, aqui, não se refere apenas a dinheiro, mas a tudo o que você pode oferecer aos demais. A crise peneira os que de fato têm amor no coração dos que têm apenas aparência de piedade.

No meio cristão merece nossa atenção especial a crise do pecado, uma vez que ela é a que mais mexe com cada um de nós. Na igreja, ela é uma das mais reveladoras que há. Quando alguém comete um daqueles pecados bem cabeludos, arrepende-se e seus irmãos em Cristo tomam conhecimento, é bom que ele se prepare, pois vai conhecer de fato quão santos, piedosos e verdadeiros são aqueles que o cercam. Os salvos o apoiarão e ajudarão na sua restauração. Os que não têm a natureza de Cristo lançarão pedras. Os medrosos sairão de perto. Os mansos e humildes de coração o abraçarão e o puxarão para cima. Em suma, é no pecado que se descobre quem realmente ama ao próximo como a si mesmo e quem ama a si mesmo como a si mesmo.

Por exemplo, você sistematicamente desonra pai e mãe, mas ninguHipocrisia2ém sabe disso. No dia em que esse pecado abominável vem à tona, muitos se afastam. Outros que te chamam de “amigo” deletam você de sua convivência – afinal, não pega bem associar seu nome a alguém que desonra pai e mãe. E por aí vai. É quando você chega diante da igreja e confessa publicamente que tem amado o dinheiro acima de seres humanos que muitos passam a atravessar para o outro lado da rua ao te avistar de longe, começam a te boicotar e demonstram que sua vida não lhes importava tanto assim.

Parece ruim? Então ouça a boa noticia: não é. Pois bendita é a crise que mostra quão cristãos os cristãos que te cercam são. Porque (preste bem atenção a isto)  o que demonstra se você é  cristão de verdade não é apenas se você peca ou não, mas como reage diante do pecado dos outros. Porque pecar 100% dos cristãos pecam, mas reagir como Cristo diante do pecado alheio… não é virtude de uma maioria.

A piedade de impiedosos não sobrevive na hora da crise. Nesse sentido, a crise é uma maravilha, pois ajuda você a enxergar com mais clareza ao seu redor. “Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos, muito embora ele tenha abandonado o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14) é um versículo que poucos conhecem e menos ainda o vivem no dia a dia.

Hipocrisia4Mas a crise não só revela a hipocrisia: ela põe os holofotes sobre os magnânimos. Pois é quando explode na igreja o escândalo de que você é um terrível preguiçoso que muitos chegarão até você com abraços amigos, palavras de consolo e restauração. É ao revelar publicamente que você não merece o céu porque é um glutão de primeira linha que os amorosos, pacificadores, bondosos e amáveis brotarão com braços abertos, mãos estendidas, ombros ofertados, colos à disposição, palavras de apoio e encorajamento e, acima de tudo, com aquilo que mais pesa nessas horas: sua presença. Pois os salvos permanecem na hora crise. Os que são amantes do próprio ventre vão cuidar de si.

Doença, pobreza, pecado, dificuldades, carência, depressão… são muitas as crises que podem pular à nossa frente. Possivelmente, ao longo da leitura desta reflexão, você imaginou pessoas que conhece e que se encaixam naquilo que foi descrito aqui. Eu perguntaria, então, se me permite: e você? Como você se comporta quando é o seu próximo que está em crise? Você permanece, apoia, ama, dá a cara a tapa, abre mão de seu tempo pelo outro, fortalece, diz palavras de amor… perdoa? Você dá as costas ou age em prol da restauração? O que a crise do seu próximo revela sobre você? Sobre sua fé? Sobre quanto ama as outras pessoas? Sobre seu cristianismo? Sobre sua vida com Cristo?

A crise virá, não tem jeito. Mas, quando ela for embora, tenha a certeza de que você terá recebido um magnífico presente do Pai que o ama: a revelação de como é de fato o coração daqueles que te chamam de “amigo”. Passada a crise, muitos “amigos” terão desaparecido – dê graças a Deus por isso. E os poucos que ficarem não serão mais seus amigos: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão” (Pv 17.17). Sim, louve a Deus pelas crises, pois elas farão brotar ao seu lado verdadeiros irmãos. E, dependendo de como você se comportar na crise do seu amigo, o Senhor lhe mostrará muito a respeito de como anda o seu próprio coração.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Justo1“Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Esse pequeno trecho da carta de Paulo aos romanos deveria ser alvo de reflexões diárias de todo cristão. Mostra que toda a humanidade faz parte do mesmo grupo de indivíduos: gente imperfeita, errada, pecadora e desesperadamente carente de Deus. Da cruz. De Cristo. Ninguém é justo por si mesmo, mas somos feitos justos por meio do sangue de Jesus. Essa percepção deveria nos levar a uma posição de extrema humildade e misericórdia; afinal nenhum de nós é melhor do que o outro. “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Meu irmão, minha irmã, eu e você somos culpados de transgredir toda a lei de Deus. Toda. Consequentemente, não somos melhores que o ladrão da cruz, Pilatos, Judas, os fariseus, Herodes, Charles Manson, Adolf Hitler, Mussolini… quem você quiser. Aliás, eu, você, seu pastor, o líder de jovens da sua igreja, os cantores mais famosos, os líderes da sua denominação, a dirigente do círculo de oração, madre Teresa de Calcutá… não importa: estamos todos no mesmo barco, que mina água todos os dias e afunda no mar de pecados. A salvação está exclusivamente em Jesus. Só. Ele é o único caminho. O único justo por mérito próprio. Ser humano nenhum vale alguma coisa por mérito pessoal, o enorme valor que temos vem por graça, justificação, misericórdia, adoção, concessão divina. Nosso valor não é uma característica inata, é um presente que recebemos. Somos galhos secos, o que temos de bom vem da seiva que corre para nós a partir da árvore em que fomos enxertados: Cristo. Uma leitura recente me fez enxergar isso com uma clareza ainda maior do que antes.

David Yonggi ChoAo ler o último exemplar da revista Cristianismo Hoje, me deparei com reportagens que me chamaram a atenção. Primeiro, o pastor sul-coreano David Yonggi Cho (foto), líder da maior igreja evangélica do mundo, a Yoido Full Gospel Church, foi preso e condenado a três anos de prisão pelo desvio do equivalente a R$ 30 milhões da igreja. Ele admitiu que cometeu o crime “movido pelo interesse de suprir dificuldades financeiras da obra missionária”. Segundo, o papa católico romano Francisco confessou publicamente que furtou um crucifixo do corpo de um colega morto, em pleno velório, quando era bispo em Buenos Aires. “Enquanto espalhava as flores, peguei a cruz que estava sobre o rosário”, admitiu.

Em comum, as duas histórias nos falam de líderes religiosos (independente da teologia ou doutrina que professam) que são referência em suas linhas de atuação e exemplos para seus seguidores e que cometeram pecados que nenhum de nós esperava que cometessem. Muita gente fica chocada ao tomar conhecimento de situações como essas. Ouço comentários do tipo “como pode, mas logo ele!”. A mim, porém, nada disso espanta. Pelo simples e bíblico fato de que, assim como eu e você, todos os líderes religiosos são pecadores, cometem atrocidades, acertam e erram, escorregam e caem. Pois são humanos. Necessitam diariamente de perdão por seus pecados. São iguaizinhos a mim. E a você.

Justo2Cada vez que leio relatos como esses, simplesmente me entristeço e penso “É, a Bíblia está certa mesmo”. Somos pó. Nossa natureza humana é má. Precisamos desesperadamente de Jesus de Nazaré. Vejo grandes homens de Deus confessarem pecados que comprovam que são simplesmente homens e isso me leva a ouvir com cada vez maior tristeza discursos de pessoas que se consideram cristãos mais santos do que outros e que, por isso, falam do próximo com superioridade. A queda de gigantes me mostra que devemos sempre amparar-nos, do maior ao menor, pois estamos todos no mesmo nível. Dos que ocupam os mais elevados cargos na hierarquia eclesiástica aos iniciantes na fé, todos equivalemos: somos aglomerados de pele, ossos, sangue e pecados e carecemos da piedade de nossos irmãos e da misericórdia de Deus. Todos exalamos o odor da desobediência e precisamos desesperadamente do perfume de Cristo.

Entenda que a compreensão acerca de nossa falibilidade não deve nos tornar abertos ao pecado ou confortáveis com ele. A transgressão à vontade divina deve ser sempre evitada, precisa constantemente ser alvo de nossas pregações, exortações e alertas. Sempre. Sempre. Sempre. Santidade não se negocia. O que considero triste é a postura de superioridade que alguns de nós assumem, por se considerarem espiritualmente menos falíveis do que os outros. E não tenho o olhar entristecido para essa postura a partir de mim mesmo: sigo o exemplo de Jesus, que criticou diversas vezes a hipocrisia dos mestres da lei e fariseus durante seu ministério terreno. O que Cristo sempre denunciava nesses doutores da teologia era a hipocrisia: serem pecadores não arrependidos e ficarem rebaixando, discriminando e atacando outros pecadores. É a velha história da trave e do cisco no olho, que você já conhece. E hoje, dois mil anos depois, a história se repete.

Justo3Quando leio relatos da queda de homens de Deus, meu coração rasga. Não só pelo pecado em si desses líderes, mas por ver muitos e muitos irmãos que – inacreditavelmente – parecem se alegrar com a queda deles. Como se tombos alheios valorizassem estarmos de pé. Podemos, por favor, chorar por eles? Será que você consegue orar por cada indivíduo pecador como você e pedir ao Santo dos Santos que os restaure e use de compaixão para com suas vidas? Se eles fossem membros da sua igreja ou pessoas de sua convivência diária, o que você faria? Será que os procuraria e lhes levaria palavras de conforto, amor, graça e reconstrução? Ou daria as costas, se afastaria, os largaria à própria sorte? A resposta a essa pergunta revela se você vive a hipocrisia ou a piedade – peço a Deus que seja a piedade.

E sempre devemos inserir na equação sobre como vemos esses homens que pecaram o fator arrependimento. Uma vez que cada um deles se arrepende do erro, confessa e deixa o pecado, está perdoado por Deus. Como poderíamos nós não perdoá-los se o próprio Criador os perdoou? Se Jesus foi à cruz por eles? Esses indivíduos, quando restaurados, podem e devem continuar exercendo seu ministério. Continuam sendo úteis para o Senhor. Seus livros continuam sendo valiosos e importantes, sua pregação segue sendo relevante, sua vida e seu ministério não morreram. Se você tem dificuldades de concordar com isso, lembre-se dos seus próprios pecados. Nada disso é graça barata: é graça, em sua essência mais pura e bíblica.

Precisamos compreender que o evangelho não são boas-novas de hipocrisia ou de superioridade: são boas-novas de salvação. Pois o que a cruz nos mostra acima de qualquer outra coisa é que a humanidade é toda perdida, nasceu igualmente destinada à miséria espiritual e só pode encontrar o caminho da paz em Jesus de Nazaré. Isso nos faz elevar os olhos para os montes, para o único que é digno de abrir os selos. Nossa pecaminosidade coletiva destaca a gloriosa pureza do Cordeiro de Deus.

OXYGEN Volume 22Meu irmão, minha irmã, fuja do pecado. Esforce-se no poder de Deus para se libertar de práticas pecaminosas, de pensamentos maldosos e de tudo o que fere o Senhor. Viva uma vida dedicada à proclamação da santidade. Isso é bíblico e é o certo. Mas, em nome de Cristo, viva também uma vida devotada a levar indivíduos a se aproximar de Jesus. E isso não acontece falando mal ou pondo o dedo na cara: Cristo se manifesta por meio do amparo, do auxilio, do aconselhamento, da mútua sustentação, do chorar com quem chora, da piedade, da compaixão, do perdão, da restauração. Não acredito no evangelho do irmão do filho pródigo. Acredito no evangelho do pai do filho pródigo. Comparo a atitude daquele pai com a do seu obediente e leal filho mais velho e enxergo um retrato fiel das nossas atitudes hoje: de um lado, os que abraçam o pecador que retorna; de outro o que se entristece porque o pecador foi restaurado – é mais interessante apenas criticá-lo (afinal, nos sentimos menos pecadores do que ele). Uns querem promover o banquete; outros se recusam a entrar na mesma casa. Um é o evangelho do “Não há justo, nem um sequer”; o outro é a religião do “raça de víboras!”.

Podemos escolher que tipo de cristãos seremos: hipócritas ou graciosos. Jesus foi gracioso e repreendeu os hipócritas. Os fariseus e mestres da lei foram hipócritas e repreenderam o Gracioso. E você, como será?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Eu matei um homem1Vivemos uma contradição muito interessante. Somos cristãos, o que significa que abraçamos a religião da graça (pois o cristianismo é a única crença religiosa do planeta em que a salvação não depende do homem, mas de Deus, que age movido por amor e compaixão). Por outro lado, temos uma forma de enxergar os erros do nosso próximo de forma quase implacável. Quanto mais fios brancos nascem na minha cabeça, mais claramente percebo o coração extremamente perdoador do Senhor em oposição ao coração pouco perdoador dos homens. Em nome do amor a Deus sobre todas as coisas acabamos por não amar nada o próximo como a nós mesmos. Diga, por favor, se estou errado: muitas vezes você admira um certo cristão e, no dia que descobre que ele cometeu um pecado considerado grave, passa a não enxergá-lo mais do mesmo modo. Deus pode tê-lo perdoado décadas atrás, mediante seu arrependimento, mas, ainda hoje, sussurramos sobre aquele pecador num tom nada gracioso. Não é o que acontece? A questão é que, se agimos dessa maneira, não nos conformamos à imagem de Cristo e procedemos com nosso próximo de maneira nada diferente do mundo. Decidi conduzir você à reflexão sobre isso de um modo extremamente doloroso para mim. Se está lendo este blog, é porque você enxerga em quem aqui escreve algum tipo de virtude cristã. Então tomei a decisão de confessar publicamente um pecado hediondo que cometi, e gostaria de ver se, diante disso, você continuará lendo o APENAS, se deixará de ser assinante do blog, se passará a ver o que escrevo com desconfiança. Acredite, não é nem de longe fácil para mim expor esse meu pecado, mas, se vai ajudar a levar você a uma meditação que o fará aproximar-se mais do modo divino de ser e o tornará um praticante mais ativo da graça… vale a pena.

Pois bem, a verdade é que eu já matei uma pessoa.

É muito difícil expor isso. Por motivos óbvios, não saio por aí dizendo às pessoas que cometi esse crime, que me marcará para o resto de meus dias. Levarei essa marca na alma até o dia de minha morte, pois cometi o chamado homicídio culposo – o que é cometido sem a intenção de matar. Fato é que um homem deu seu último suspiro porque o assassinei, e ter ou não a intenção original não muda este fato: eu tirei a vida de um ser humano. Se eu dissesse isso de cara, possivelmente você não leria um único post deste blog, pois eu me tornaria um desqualificado para falar das coisas de Deus, minha única definição aos seus olhos seria assassino.

Eu matei um homem0Estou usando de uma sinceridade que, acredite, não é nada fácil para mim. Seria mais conveniente continuar mantendo esse crime do meu passado oculto e seguir falando e escrevendo sobre as coisas de Deus sem que você visse em mim o que realmente sou – um assassino. Confessar isso pela internet exige muito, me faz sofrer, traz lágrimas aos meus olhos. Mas senti que chegou a hora de abrir esse pecado. Em troca, tudo o que peço é que você use da mesma sinceridade e diga: saber disso muda a forma como você me vê? Saber que pequei contra o sexto mandamento me desqualifica aos seus olhos? Até que ponto você é capaz de me ver como um igual tendo conhecimento de que levei um ser humano à morte? Em que medida consegue enxergar o perdão de Deus sobre a minha vida e continuar a ler o que escrevo sem passar a ver minhas palavras como água que brota de uma fonte contaminada, estragada? E – o mais importante de tudo – o que a percepção sobre a forma como você passará a me ver a partir da leitura deste texto levará a você a pensar, à luz da Bíblia, sobre a graça que existe no seu coração?

Muita coisa aconteceu depois que tirei a vida daquele homem. Fui restaurado, pequei de novo, me arrependi de novos erros, pequei novamente e sigo nessa caminhada – transgredindo, acertando, escorregando, me levantando, me esforçando para não errar mais. Mas nada apagará o fato de que um ser humano foi morto pela minha mão. Agora você entende por que poucas coisas me entristecem tanto como ver irmãos em Cristo agindo de modo impiedoso com pecadores arrependidos – pois eu mesmo sou um pecador arrependido. Mais ainda: um terrível pecador arrependido.

A falta de entendimento bíblico sobre a graça, a misericórdia e o perdão gerou uma situação tão grave que muitos não perdoam nem a si mesmos, por causa de erros que cometeram no passado – embora Deus já os tenha perdoado. Outros tantos não conseguem estender perdão àqueles que pecaram. Como um pecador perdoado, não tenho como não me entristecer ao ver tanta gente imperfeita enterrando tanta gente imperfeita. Desqualificando. Segregando. Pondo o dedo no nariz. Acusando. É por isso que, de vez em quando, volto no APENAS ao tema do perdão – pois, apesar de ser um dos fundamentos do evangelho, graça é algo tão pouco posto em prática em nossos dias. Tão pouco…

Eu matei um homem00Devemos odiar o pecado com todas as nossas forças, não nos conformar com ele, pregar contra ele, exortar os irmãos que sabemos estar praticando pecados dos quais não se arrependem. É o que a Bíblia manda e ponto final. Mas também devemos odiar a impiedade hipócrita daqueles que só sabem acusar e não enxergam a trave do tamanho de um campo de futebol que ostentam em seus olhos. O pecado me enoja. Meu pecado me enoja. Mas também me enoja a postura que costumo chamar de “nazismo espiritual”: gente que, em defesa da santidade, esquece as próprias iniquidades e promove uma “limpeza étnica”, pondo aqueles que considera “mais pecadores” do que si mesmos (isso existe?) em um gueto de impiedade, num campo de concentração de acusações,  num paredão de falta de misericórdia, numa câmara de gás de falta de graça. Até acredito que fazem isso com boas intenções, por falta de instrução bíblica ou de amor, mas não podemos deixar isso passar sem nos esforçarmos por levá-los a ver como Cristo vê.

Jesus mesmo disse, “Portanto, eu lhe digo, os muitos pecados dela lhe foram perdoados; pois ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama” (Lc 7.47). Eu  sei que meus muitos pecados foram perdoados e por isso minha gratidão ao Senhor não tem fim. Sei que o assassinato que cometi não pesa mais sobre mim, por isso banho os pés de Cristo com minhas lágrimas e os enxugo com meus cabelos. Mas, infelizmente, sou obrigado a conviver diariamente com a triste visão de irmãos em Cristo que odeiam a graça e amam pisar em pecadores. Uma igreja formada por gente assim não é a que vai morar no céu. É humana, carnal, pecadora e – literalmente – des… graçada.

Eu matei um homem2Por favor, faça uma análise de suas atitudes. Como você age quando sabe que um irmão cometeu um pecado que o escandaliza, mas do qual se arrependeu? Compare sua postura com a que acredita que Jesus teria. Seria a mesma? Precisamos estudar mais sobre o que a Bíblia fala sobre o perdão, a misericórdia, a graça. Temos urgentemente de compreender a razão de Jesus ter encarnado e se oferecido na cruz. É indispensável olhar para o Cordeiro pendurado no madeiro e sempre, sempre, sempre perceber que, ao lado dele, há um bandido arrependido ouvindo dos lábios do Salvador: “Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso” (Lc 23.43).

Resgate pecadores, não os afunde ainda mais na lama. Ame pecadores, assim como o Senhor ama você, pecador. Eu me tornei uma pessoa muito mais graciosa no dia em que percebi – em meio à minha própria impiedade agressiva, miserável e sem misericórdia – que não sou melhor do que ninguém. Você é?

Confesso publicamente: eu matei um homem. Sou um assassino. Ele perdeu a vida por minha causa. Seu nome é Jesus de Nazaré.

A boa notícia é que ele ressuscitou e nenhuma condenação há para aqueles que nele estão. Uma Páscoa abençoada para você, que matou a mesma pessoa que eu.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Sexo1Quantos tipos de pecados existem? Serão dezenas, centenas, milhares, milhões? Confesso que não sei ao certo, mas uma certeza tenho: são muitos. Muitos mesmo. Isso é curioso, porque, embora existam tantas e tantas e tantas formas de desobedecer a vontade de Deus, parece que concentramos nossa atenção em um pequeno punhado delas. Veja se estou errado: o que escandaliza a esmagadora maioria de nós são atitudes como embriaguez, fumo, consumo de drogas, envolvimento em programações consideradas pecaminosas (boate, bailes, carnaval, shows etc.) e aquilo que pomos no pináculo dos pecados: práticas sexuais ilícitas. Tudo o que é pecado é pecado, logo, não podemos ignorar o quanto qualquer uma dessas atitudes pecaminosas é tóxica para nossa alma nem diminuir a gravidade de qualquer uma delas. Mas o que me chama a atenção é como desenvolvemos o hábito de pôr no paredão apenas um pequeno grupo de transgressões – em especial, os pecados sexuais, considerados por muitos como piores do que a blasfêmia contra o Espírito Santo – quando existem dezenas, centenas, milhares ou milhões. Será que a eleição do sexo ilícito no imaginário popular como a pior de todas as transgressões tem alguma implicação? Tem sim, e são implicações sérias.

Sexo2Acabei de ler um livro em que, em síntese, o autor expõe sua visão do que faz um sacerdote ser bem-sucedido, ou seja, o que seria sucesso no ministério. É uma obra bem interessante e que tem o seu valor, mas algo chamou minha atenção. Percorri com interesse suas páginas, até que cheguei ao capítulo que fala sobre santidade. Quando vi o tema, imaginei que ele discorreria sobre diferentes questões, como bom uso do dinheiro da igreja, relacionamento saudável com a família, cuidados com a vaidade excessiva, sexualidade sadia, humildade no uso do poder, justiça ao lidar com as ovelhas, a importância de ser manso no trato com os diferentes, a necessidade de não se corromper para obter facilidades, amar o próximo como a si mesmo, e uma série de outros tópicos que, a meu ver, são indissociáveis do tema santidade do ministro. Só que, para minha surpresa, o autor começa o capítulo falando sobre sexo, prossegue falando sobre sexo e o termina falando sobre… sexo. Cheguei ao final desse trecho pensando: “Tá certo, concordo, mas… sexo?!”.

É absolutamente inquestionável que uma sexualidade santa é fundamental para a vida pessoal e ministerial de um indivíduo, devemos estar em constante vigilância para não cometer transgressões sexuais e, caso pequemos, sempre buscar o arrependimento sincero e a mudança de atitude. Mas, do jeito que o autor desse livro e muitos irmãos e irmãs tratam a questão, a sensação que tenho é que ser santo é apenas ser sexualmente santo. A pergunta é: e o resto? E as outras dezenas ou centenas, os outros milhares ou milhões de pecados, que fim levaram?

A conclusão a que chego é que nós criamos um ranking de pecados. E, no alto do pódio, triunfando como os piores pecados de todos, estão os de cunho sexual. Uma distinção que, é importante lembrar, a Bíblia não faz.

Revista UltimatoA revista Ultimato publicou na sua mais recente edição (número 346, pg. 42) um artigo não assinado em que aponta a negligência de grande parcela dos cristãos no que tange aos pecados ligados à injustiça social. Diz o texto: “A maior parte dos pregadores tem chamado a minha atenção para os pecados do sexo – o amor livre, a prostituição, o adultério, a pornografia, o homossexualismo – indicando a conduta certa nesta área. Agradeço a Deus por isso, mas lamento muito o silêncio, a falta de clareza e de ênfase na outra pregação, não menos importante que a anterior (…) Por falta de profetas nesta área, demorei muito tempo a compreender que é pecado tanto trair o cônjuge como deixar o irmão de estômago vazio”. Creio que o autor teve 101% de clareza em sua afirmação, pois conseguiu enxergar o quanto a “ditadura do sexo” está desviando as nossas preocupações de muitos outros tipos de pecados.

Não quero ser mal compreendido, então preciso enfatizar algo: pecado sexuais são graves. Nunca vou dizer o contrário nem vou passar a mão na cabeça deles. São horríveis e ponto. Toda prática sexual ilícita é destrutiva e só gera problemas, dor, morte e devastação. Sofro com um gosto amargo na boca só de pensar nos erros que cometi nessa área (e se você está praticando algo do gênero recomendo, por amor a sua vida e a sua alma, que pare imediatamente, já – de preferência, ontem). Mas o grande mal de se resumir os pecados graves a sexo é que todos os outros pecados graves começam a ser praticados sem que se dê o devido peso a eles.

Sexo3E vou te contar um segredo: todo pecado é grave. Não existe “pecado não grave” ou “pecado menos grave”. Poderíamos nos perder em discussões eternas sobre “pecadinho e pecadão”, “pecados para a morte” ou mesmo o conceito católico romano de “pecado mortal e pecado venial”. Conheço a teologia de tudo isso e a grande conclusão, em última análise, é uma só: pecado é pecado. Desobediência é desobediência. Morte espiritual é morte espiritual. Não existe morte que mate mais do que outra morte. Quem morre de queda de avião morre tanto quanto quem morre de pneumonia. Quem morre numa explosão nuclear morre tanto quanto quem morre de dengue. Tirando a imperdoável blasfêmia contra o Espírito Santo (que é atribuir atos divinos ao Diabo), os demais pecados estão todos no mesmo saco: representam morte espiritual e carecem de arrependimento, confissão e abandono.

Se um ministro do evangelho comete um pecado sexual, ele imediatamente é afastado de seu cargo. E isso é correto, pois essa alma preciosa e valiosa está doente e necessita ser tratada, cuidada, pastoreada, sarada e, só então, reconduzida às suas atividades ministeriais. Mas não deveria ser assim também com um ministro que peca pela inveja? Pela ganância? Pela arrogância? Pela soberba? Pela corrupção? Falta de amor? Vaidade? Maledicência? Dissensões? Partidarismos? Egoísmo? Egocentrismo? Hipocrisia? Abuso de poder? Favorecimentos ilícitos? Violência verbal? Injustiça? Traições? Quebra da ética pastoral? Mau uso do dinheiro da igreja? Etc., etc., etc? Confesso que não consigo me lembrar de quase nenhum caso de um ministro que tenha sido afastado do cargo por qualquer um desses pecados. Graves, diga-se. Hediondos. Um pastor soberbo, agressivo, corrupto ou vaidoso é uma anomalia espiritual. Precisa de tratamento tanto quanto um viciado em pornografia na internet.

Sexo4E não estou nem de longe falando apenas de ministros do evangelho. O mesmo se aplica a cada um de nós. Em um culto recente em minha igreja, um de meus pastores iniciou a celebração convidando a congregação a confessar seus pecados a Deus. Claro que me lembrei de meus pecado sexuais. Mas também me lembrei de muitos e muitos e muitos outros tipos de pecados, a ponto de a oração terminar e eu ter de interromper meu ato de contrição sem ter tido tempo de conversar com o Senhor sobre todos. Poucas vezes nos derramamos em lágrimas por termos sido, por exemplo, invejosos, iracundos, gananciosos, espertalhões, abusados ou por termos usado o “jeitinho brasileiro” (que é pecado, diga-se de passagem). Praticamos essas transgressões contra Deus sem nenhum drama de consciência, enquanto legiões de irmãos se deprimem por estarem, por exemplo, escravizados ao vício em pornografia. Por ser uma situação tão inexistente, chega a soar engraçado imaginar um líder ir a público dizer:

- Meus irmãos, preciso me licenciar do ministério pois não honro meu pai e minha mãe e tenho de me tratar espiritualmente.

Ou um membro de igreja que procure auxílio em gabinete pastoral afirmando:

- Pastor, preciso de libertação porque sou muito invejoso.

Inferno de DanteVocê já viu alguém ser disciplinado na igreja por ter praticado a glutonaria? Eu nunca. Na verdade, em todos os meus anos de convertido nunca ouvi uma única pregação, escutei uma música gospel ou li um livro cristão sequer que fosse sobre esse pecado. Parece engraçado eu estar dizendo isso? Não quando lemos na Bíblia que “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.21). Meu irmã, minha irmã, isso é extremamente sério! Essa passagem, por exemplo, me mostra que a glutonaria é tão grave e tem consequências tão severas como a fornicação, por exemplo, e outros pecados sexuais. E aqui reside o perigo, o xis da questão: se eu te perguntar quantas vezes você adulterou na vida, pode ser que me responda, indignado e ofendido: “Nunca!”; mas, sinceramente, quantas vezes você foi glutão? Umas 50? 100? 200? 300? E será que ao menos se arrependeu e pediu perdão a Deus por isso? Ainda: será que ter pecado pela glutonaria sem arrependimento faz de você menos culpado diante do Senhor do que se tivesse fornicado mas se arrependesse e pedisse perdão com toda sinceridade?

A mesma passagem que mostra a gravidade da obra da carne glutonaria a inclui no mesmo grupo que “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (Gl 19-21). Atravessamos a vida com nossa santidade sexual intocada mas cultivamos inimizades, sentimos ciúmes, promovemos discórdias, estimulamos facções, sentimos inveja e por aí vai – sem que nos arrependamos ou peçamos perdão ao Senhor. Será mesmo que estamos tão melhores assim na fita?

Todo pecado é grave. Mas existe um tipo de pecado que, sim, é mais grave do que os outros: o pecado não confessado. Enquanto ficarmos pondo corretamente o dedo na cara dos pecados sexuais mas passando incorretamente a mão na cabeça dos demais tipos de pecados, estaremos deixando de pregar contra eles, continuaremos a praticá-los sem arrependimento, não os confessaremos a Deus e, com tudo isso, seremos engolidos por atos hediondos para o Senhor mas a que não damos tanta atenção porque, para nós, não são tão hediondos assim.

Eis o grande mal da ditadura do sexo: deixamos de confessar nossos outros pecados, igualmente perniciosos.

Pecados sexuaisPode ser que você tenha se casado virgem, nunca tenha se masturbado, viva uma vida livre de adultérios e jamais tenha espiado pornografia na internet, entre outras atitudes sexuais biblicamente ilícitas. Se esse é o seu caso, ótimo – mas cuidado: sua sexualidade pode não te afastar de Deus, porém, de repente, sua língua, seus olhos, seu coração, seu ego ou suas atitudes o estão mantendo a anos-luz de distância do Senhor.

Quais são os pecados que você comete habitualmente mas aos quais não dá muita importância? Lembre-se de Provérbios 28.13: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”. Examine-se, pois, o homem a si mesmo… e alcance a misericórdia do Pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

susto1Sabe quando algo ou alguém te dá um susto e você age por reflexo, dando um salto para o lado, abaixando a cabeça ou levantando as mãos para se proteger? Isso ocorre porque todo ser humano é condicionado a ter reflexos instantâneos e instintivos, de acordo com cada situação que se apresenta inesperadamente em seu caminho. Todos agimos por reflexo, adestrados que somos a tomar certas atitudes diante de circunstâncias específicas. O resultado é que, como somos fruto do meio em que vivemos, mesmo sendo cristãos não é raro fazermos escolhas mundanas – por puro reflexo. É nesse momento que entra em cena o Espírito Santo. Ele nos faz parar, pensar e ver que aquilo que fizemos não foi nada bonito. Ou seja, depois do reflexo vem a reflexão. Sob o poder de Deus, a reflexão acerca de reflexos equivocados pode nos levar a ter reflexos acertados no futuro. Para exemplificar o que estou dizendo, permita-me relatar um episódio que me aconteceu recentemente.

Entrei em uma loja de conveniências para sacar dinheiro. No exato momento em que estava no caixa automático, fui abordado por um adolescente, visivelmente muito humilde, sujo e mal vestido, que carregava uma caixa de engraxate.

- Tio, compra alguma coisa pra eu comer?

Você sabe como é: quando estamos digitando nossa senha, não gostamos de ter gente estranha por perto. Então eu, por reflexo, cobri o teclado com a mão e, sem nem ao menos olhar para o rapaz, por reflexo balbuciei qualquer coisa parecida com um “agora não”. Ele recuou e continuei a operação, torcendo que desistisse de mim e fosse abordar outra pessoa. Só que, no que terminei, me virei e dei de cara com ele, me esperando. Para piorar, vi que o jovem estava acompanhado de um menininho, possivelmente seu irmão. Tive apenas um segundo para decidir o que fazer. Você pode imaginar que, obviamente, como sou um bom cristão e escrevo sobre a fé num blog e em livros, eu agi da forma mais bíblica possível, amparando aquelas vidas e dando de comer a quem tinha fome, certo?

Errado.

Naquele segundo decisivo, agi por puro reflexo mundano. O Maurício cristão parecia ter evaporado. Em vez de abrir mão de mim, comprar alimentos para os dois e agir segundo a graça, a compaixão e o amor, eu, por reflexo, virei a cara, dei as costas e saí pela porta, deixando para trás aqueles dois seres humanos famintos.

susto2Eu poderia me justificar, usando o reflexo como desculpa para dizer que não tive oportunidade de consertar o erro – afinal, agi segundo um impulso condicionado e não havia como voltar atrás. Mas seria uma mentira. Pois, assim que saí da loja, tive de parar para atravessar a rua, uma vez que o sinal estava vermelho para os pedestres. E, naquele momento, não houve reflexo algum. Fiquei ali por, no mínimo, um minuto, parado. Na minha cabeça, uma sirene tocava, dizendo algo como “volte lá, seu egoísta sem compaixão, dê de comer a quem tem fome, seu cristão de meia tigela, avarento e servo de Mamom!”. Sim, eu tive tempo de sobra de girar sobre os calcanhares, voltar para a loja e comprar algo para aquelas duas vidas matarem a fome. Mas a verdade é que fiquei ali, estagnado. O sinal abriu e segui meu caminho.

Esse episódio aconteceu há quase dois meses, mas até hoje não sai da minha cabeça. De lá pra cá me peguei pensando muitas vezes: por que eu tomei aquela decisão? Por que não fiz o que Jesus nos disse para fazer? Por que não amei o meu próximo? Por que não dei de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede? Por que virei as costas para Cristo quando ele se apresentou para mim na forma de dois meninos carentes?

Creio que o mundano que habita em mim naquele momento falou mais alto do que o cristão que habita em mim. Eu reagi como o mundo reage, por reflexo. Agi segundo meus próprios interesses egoístas. E, depois, quando parei para pensar e tive tempo de reformular meus atos, não consertei meu erro, simplesmente segui a correnteza de acordo com o pensamento do mundo. Naquele momento, meu coração não estava em Cristo. Como Paulo explicou muito bem: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19).

Eu e você vivemos isso muitas vezes. Como estamos no mundo, somos contaminados pelos valores e os padrões do mundo. E, quando somos pegos de surpresa, despreparados, se não estivermos encharcados do evangelho, vamos agir por reflexo – e reflexo mundano. Porque é fácil ser cristão ao final do culto, no ambiente eclesiástico, após passar duas horas vivendo a realidade da presença divina. Mas, no dia a dia, depois de ficar longos períodos com a mente apenas nas coisas deste século, corremos o sério risco de agir como cidadãos do mundo. Por isso é essencial imergirmos nas coisas de Deus todos os dias, seja pela oração, seja pelo estudo da Palavra, seja pelo jejum ou as demais disciplinas espirituais. Temos de estar em Cristo diariamente, a todo momento, ininterruptamente, sem trégua.

susto3Em certa ocasião, Jesus disse: “Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele” (Mc 10.15). Já ouvi muitas interpretações acerca do que o Mestre quis dizer com isso. Entendo que uma criança ainda não teve tempo suficiente de ser influenciada pelo seu entorno. Meninos e meninas, embora carreguem o pecado dentro de si, ainda não foram condicionados a agir desta ou daquela maneira. Seus reflexos mundanos não estão estabelecidos. São diamantes brutos, puros. Nós, adultos, não: estamos altamente contaminados com maneiras de agir que nos ensinaram por aí. No caso específico, já ouvi tantas vezes que devemos ignorar os pedintes, reter esmolas e fugir de estranhos que pedem dinheiro que simplesmente me deixei levar por essas filosofias. Só que são filosofias humanas e não divinas. Deus manda amar, estender a mão, ajudar o necessitado, cuidar do pobre, amparar o desamparado. Não vejo na Bíblia Jesus dizer o que já ouvi incontáveis vezes, de diferentes pessoas: que não devemos dar esmolas porque, se o fizermos, estaremos estimulando a mendicância. O que o Senhor disse foi: “Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber…” (Mt 25.41-43).

Minha filha acabou de completar 3 anos. Minha esposa, que é infinitamente mais generosa do que eu, propôs que era hora de ela dar parte de seus muitos brinquedos a crianças carentes. Chamamos a pequena, lhe explicamos a ideia e minha filhinha, sem pestanejar, separou alegremente para doarmos muitos de seus bens, de bonecas ao seu velocípede. Confesso que, ao ver a bondade do coração da minha filha, me lembrei do episódio da loja de conveniências e senti vergonha de mim. “Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele”… Tenho buscado aprender mais sobre o reino de Cristo observando minha pequenininha. Em especial, tentando reagir mais como Jesus reagiria e não como o mundo me ensinou. Mudar meus reflexos.

susto4Mas há um aspecto interessante nessa história. Depois de tudo o que relatei, há pouco tempo eu estava em um restaurante no Leblon (bairro nobre do Rio) e entrou pela porta uma menina pedindo comida. Imediatamente o gerente quase voou em cima dela para expulsá-la. Meu reflexo, naquele momento, foi totalmente diferente do fiasco na loja de conveniência: pedi ao gerente que a deixasse se aproximar e dei a ela uma parte de nossa comida. Minha filha observou minha atitude e espero que isso contribua para desenvolver nela reflexos cristãos nas situações inesperadas. Quando a garotinha saiu, eu estava com paz no coração e, sinceramente, feliz. Não posso voltar atrás e alimentar aqueles dois meninos da loja de conveniências, nem mesmo sei seus nomes ou o que aconteceu a eles. Mas ficou o duro aprendizado. E oro a Deus que todos os meus amargos fracassos espirituais sirvam para aprimorar meus reflexos em Cristo.

Você errou? Cometeu deslizes dos quais se arrepende amargamente? Ou mesmo acha que, de tanto ter errado, não tem jeito para você? Então espero que minha experiência e minha atitude vergonhosa o ajudem a ver que é totalmente possível aprender com os erros, se aprimorar e desenvolver reflexos baseados nos valores do evangelho, para que, no futuro, você reaja ante as circunstâncias inesperadas da vida da mesma forma que Jesus reagiria.

E, assim, eu e você estaremos a cada dia mais próximos de refletir a glória de Deus para este mundo tão faminto de graça e amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Maledicência1Sim, eu creio em maldição hereditária. Não, não estou falando do tipo de maldição hereditária que você está pensando. O conceito amplamente difundido a define, em resumo, como a transmissão de um pecado (e suas consequências) de pai para o filho, depois para o neto, depois para o bisneto e assim por diante, o que abriria as portas para o Diabo agir em sucessivas gerações de uma mesma família. Absolutamente não é sobre isso que desejo falar. Quero tratar aqui de um conceito que eu mesmo inventei, a partir menos da teologia e mais da etimologia, ou seja, do significado das palavras. Assim, creio em um conceito de “maldição hereditária” que elaborei e que vejo como extremamente pernicioso. Permita-me explicar.

“Maldição”, pelo dicionário, pode significar “praga”, que é o sentido mais popular do termo. Só que a palavra tem a mesma raiz de “maldizer” (“maldito” seria, então, alguém sobre quem foi dito algo que não é bom, mas mal, logo, é “mal-dito”). Ou seja, “amaldiçoar” pode ter o sentido tanto de “rogar uma praga” quanto de “falar mal”, “promover maledicência”. E maledicência é a fofoca, a conversa escarnecedora, o tititi maldoso, a crítica destrutiva, o desdém pelas conquistas alheias, a conversação invejosa, as palavras que desqualificam o que é diferente só por ser diferente do que eu sou ou acredito, o desmerecimento de algo que é importante para o outro. Abrange desde o “vou te contar o que fulano fez mas é só pra você orar” até o sarcasmo e a ironia ao se referir ao próximo ou a algo relacionado ao próximo. Falar mal é… falar mal.

Já “hereditária” se refere a algo “que se recebe ou se transmite por herança” ou “que vem dos pais, dos antepassados”. Aqui me permito extrapolar esse sentido “familiar” para algo que se adquire não só de pai para filho, mas que faz parte do DNA cultural de um determinado grupo, ou seja, uma família, uma sociedade, uma turma de amigos ou mesmo uma igreja. Por esse conceito, por exemplo, o hábito de membros de determinada denominação se saudarem uns aos outros com “graça e paz”, “a paz do Senhor” ou “paz e bem” faz parte da hereditariedade desse grupo específico, do seu código genético cultural. É aquela coisa que um começa a fazer, o outro imita e logo todos adotam como algo natural e espontâneo.

Maledicência2Assim, juntando essas duas acepções do termo, o significado que inventei para “maldição hereditária” não tem nada a ver com um pecado ou uma praga passada sobrenaturalmente entre sucessivas gerações de uma família, mas sim à cultura de um grupo humano específico de praticar habitualmente a maledicência. Em outras palavras, o hábito disseminado em um determinado núcleo de pessoas de falar mal de outras. Portanto, sim, nesse sentido eu creio em “maldição hereditária”, pois vejo com muita frequência grupos em que falar mal de terceiros é tão natural como beber água. E estou me referindo a grupos de cristãos.

Sejamos sinceros: falar mal do próximo é algo que absolutamente todo mundo faz, em escalas diferentes e de formas distintas. É natural a seres humanos dizer coisas sobre outros seres humanos que configurem um certo grau de maledicência. Todos nós fazemos isso e negar seria hipocrisia. Mas estou me referindo a um patamar mais grave do problema. O que vejo é que existem certos grupos em que a maledicência, o maldizer, é visto de certo modo como uma virtude, algo natural, desejável e até engraçado. Em que há um certo orgulho por falar mal. É um jeito de ser que cria laços de intimidade entre os integrantes. Eles esperam que os outros membros daquele núcleo falem mal e os que não o fizerem acabam deslocados dos demais. Nesses grupos, o principal alvo de sua língua ferina em geral são os diferentes. Aqueles que, de algum modo, não compartilham daquilo que para os maledicentes culturais é habitual, valioso ou natural – sejam gostos, preferências, estilos de vida, ideias, valores e similares. Tristemente, isso acontece muito no nosso meio cristão.

É importante frisar que não estou me referindo a uma crítica saudável, construtiva ou, até mesmo, a conversas apologéticas válidas sobre aspectos errados ou heréticos de certos setores da igreja. Essa é a boa crítica e não configura falar mal, mas sim apontar erros com boa intenção, por amor à sã doutrina. Eu me refiro a falar mal mesmo, no sentido mais pejorativo do termo. Aquele maldizer que tem um certo veneno, uma “pimentinha”, que é uma boa dose de pura maldade. Você sabe do que estou falando.

Diga-me se estou errado: sente em volta de uma mesa com certos grupos pentecostais e você verá que não demorará muito para que comecem a falar mal dos irmãos de igrejas tradicionais, chamando-os de “frios” e coisas  similares. Desdenhando e, de certo modo, inferiorizando. O mesmo sentimento você encontrará em grupos de tradicionais que maldimaledicência3rão e depreciarão muitos aspectos do meio pentecostal. Outro exemplo é a eterna querela reformados (calvinistas) versus arminianos, em que a maledicência ocorre com uma frequência impressionante em certos círculos. Voam farpas dos dois lados, com comportamentos que vão das piadinhas a comentários agressivos e ofensivos. Uma tristeza.

Uma das áreas em que esse meu conceito de “maldição hereditária” cresce cada dia mais é na musical. A coisa mais comum é você ouvir pessoas que preferem um certo gênero ou estilo no louvor falar tudo o que você possa imaginar de ruim de quem não aprecia o mesmo. Esse sentimento de “tribo”, de “os nossos certos e os deles errados” vem impregnado muitas vezes de sarcasmo, desprezo, piadinhas e desmerecimento, seja por músicas, seja por músicos, seja por quem gosta do que o maledicente não gosta. Uns acusam outros de superficialidade; outros acusam uns de estagnação e anacronismo. Sempre com palavras nada amorosas. Uma tristeza.

Que dizer então de teorias teológicas? Perco a conta do número de vezes em que ouvi maledicências de certos grupos de cristãos acerca daqueles que não acreditam no que eles acreditam no que se refere aos mais variados aspectos da teologia cristã. E volto a dizer: não estou me referindo a divergências respeitosas e saudáveis, mas a conversas ferinas, depreciativas, cheias de desdém. Os pontos de controvérsia são muitos, e vão de línguas estranhas a teorias escatológicas; de crenças à discordância sobre a forma de batismo em águas; de opiniões sobre como escolher o cônjuge a visões sobre como deve ser a liturgia do culto. Uma tristeza.

E há a maledicência motivada por questões insignificantes. Já ouvi tititis porque o marido passou o braço pelos ombros da esposa durante o culto, ou veneno destilado sobre a roupa do irmão beltrano, sobre o cabelo de sicrana… o céu é o limite quando se trata de temas para maledicentes. Porque todo amante da maledicência tem algo em comum: não importa muito o tema, desde que possa falar mal. Uma tristeza.

Enfim, tenho visto grupos e mais grupos que têm em sua natureza o pecado da maledicência visto como algo normal e aceitável – até mesmo um elemento de união entre seus membros. Só que não é. Falar mal é, biblicamente, um horror. Veja:

maledicência4“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar” (Cl 3.8). Viu ali a maledicência? Pois o falar mal é diretamente associado à natureza terrena e a práticas terríveis, como a ira e a avareza.

Salmos 62.3-4 vai além e indica que o maldizer é uma atitude clara de hipocrisia e falta de amor ao próximo – ou seja, é um pecado contra o Grande Mandamento: “Até quando acometereis vós a um homem, todos vós, para o derribardes, como se fosse uma parede pendida ou um muro prestes a cair? Só pensam em derribá-lo da sua dignidade; na mentira se comprazem; de boca bendizem, porém no interior maldizem”.

Mas tem mais. Em 1Timóteo 5.14, falar mal dos outros é diretamente denunciado como uma prática satânica: “Quero, portanto, que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não dêem ao adversário ocasião favorável de maledicência”.

Diante disso tudo, fica claro que o falar mal do próximo, em todas as suas acepções (com piadas, sarcasmo, ironia, maldade, falsa intenção de exortação ou o que for) é abominação para Deus.

maledicência5Agora, por favor, preste atenção a algo: o objetivo deste texto não é estimular você a olhar para o lado e ficar apontando e acusando tal e tal pessoa ou grupo que seja praticante dessa “maldição hereditária”. Isso não teria nenhuma utilidade para o evangelho ou para a sua vida espiritual. Caso você detecte que há grupos de maledicentes por perto, o mandamento do Senhor quanto a eles é claro e objetivo: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (Lc 6.26-28). Não há margem para interpretação. O mandamento cristão é: se falarem mal de você, fale bem deles.

O que desejo com este post é levar você a refletir e responder à seguinte pergunta: “Será que eu faço parte de algum grupo que pratica habitualmente e/ou prazerosamente a maledicência?” Se você percebe que a pecaminosa prática da maledicência faz parte de um determinado grupo a que você pertença (seja família, turma de amigos, colegas ou mesmo os membros da sua igreja), o que deve fazer? Há dois caminhos a seguir.

Primeiro: converse com os que tais coisas praticam e os alerte sobre quão maligno é o que fazem. Traga à lembrança deles que é preferível calar do que maldizer: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).

Segundo: se ainda assim os tais não ouvirem sua exortação e continuarem adeptos dessa cultura de “maldição hereditária”, afaste-se do grupo. Mateus 18 diz: “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano”. Pois é melhor se afastar dos que amam falar mal dos outros do que permanecer contaminando-se com essa prática horrível. Em Mateus 5.29, Jesus recomenda: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno”. Arranque-se do grupo dos maledicentes antes que você sofra as consequências.

Maledicência0Que consequências? Vamos ouvir Tiago: “Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (Tg 1.26). Em outras palavras, o irmão de Jesus está dizendo que a religião dos que não conseguem ficar calados se não têm algo edificante a dizer… não vale nada. Logo depois, ele dá o ultimato: “Com a língua bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim!” (Tg 3.9-10). No grego original, a palavra traduzida aqui por “bênção” é eulogia, que significa “fala elegante”, ou “discurso justo”. Já “maldição” foi traduzida de katara, que quer dizer “execração”, ou seja, “ódio profundo” ou “aversão exacerbada” (segundo o dicionário Houaiss). Dá para conciliar uma fala elegante com outra que carregue em si ódio e aversão? Biblicamente, não.

Chama minha atenção a frase final de Tiago: “Meus irmãos, não pode ser assim!”. Repare, primeiro, que ele está se dirigindo a cristãos, o que prova que esse mal ocorre em nosso meio. E, segundo, ele afirma que não se pode amaldiçoar. Falar mal. Maldizer. Isso está errado. Precisamos mudar, se o fazemos. Precisamos exortar em amor os que o fazem. E, se continuarem se orgulhando e praticando a maledicência, devemos nos afastar da roda dos escarnecedores que existem em nosso meio.

Pare por um momento de pensar nos maledicentes que você conhece. Faça, isso sim, uma análise de si mesmo e de seu procedimento. Se você perceber que tem seguido o caminho da maledicência e decidir parar com isso, a teu respeito dirá a Palavra de Deus: “Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito” (Tg 3.2). E, se você decidir não se assentar mais na roda dos escarnecedores, a teu respeito diz a Palavra de Deus: “É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera” (Sl 1.3). Reflita e responda: como você prefere ser conhecido nos céus: como alguém perfeito, que dá fruto e cujas folhas não murcham… ou como alguém que pratica o mesmo que o Diabo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Li recentemente em um blog um texto em que o autor falava algo sobre “ser autêntico”. O irmão estava revoltado com uma discussão que teve com alguém e, por isso, escreveu o seguinte: “Ser ‘sincero’, ‘autêntico’ ou ‘você mesmo’ não é desculpa para ser uma pessoa nojenta, desagradável ou idiota. Pare de se orgulhar de ser um completo @$&#% e vê se aprende a viver em sociedade” (o @$&#% é por minha conta, o comentário trazia o palavrão explicitamente). Não concordo com a escolha de vocábulos que ele adotou,  pois antipatizo com o uso de palavrões (se para toda palavra torpe há um sinônimo menos agressivo, por que usar?). Mas estou de acordo com o conteúdo do que ele disse.

Anos atrás eu acreditava que tinha de ser autêntico, de falar o que viesse à cabeça, custasse o que custasse. Mas percebi que, se vivermos sob o pretexto de que “eu sou assim mesmo” e “esse é o meu jeito”, vamos andar na contramão do Evangelho. Por quê? Pois a verdade é que não interessa como você é. Interessa como Cristo é. E se “não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), o verdadeiro cristão não pode usar a desculpa de que “eu sou assim” e machucar outras pessoas. Pois Jesus não machucaria.

Já ouvi alguns pregadores usarem em suas mensagens um sofisma que, de tanto ser repetido, acabou virando uma pseudoverdade teológica, ou, para usar um vocábulo mais aceito pela sociedade, apenas mais um clichê gospel. Dizem: “Deus muda o caráter mas não o temperamento“. Já ouviu isso? Só que essa afirmação simplesmente não é verdade. Basta olhar as virtudes contidas no fruto do Espírito exposto em Gálatas 5.22,23a: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”.

Pare para pensar. Isso é o fruto que o Espírito Santo gera no salvo. Agora: se essa frase fosse verdade, todas essas virtudes teriam a ver apenas com caráter. Mas muitas falam de mudança de temperamento. Observe: Amor: caráter e temperamento. Alegria: temperamento. Paz: caráter e temperamento.  Longanimidade (ou paciência, em outras traduções): temperamento. Benignidade (ou amabilidade, em outras traduções): caráter e temperamento. Bondade: caráter. Fidelidade (ou fé, em outras traduções): caráter. Mansidão: temperamento. Domínio próprio: caráter e temperamento. Ou seja, a atuação do Espírito de Deus na vida do que é salvo se dá no nível da transformação do caráter mas também no do temperamento. É uma transformação do todo e não de 2/3 do indivíduo que foi chamado da morte para a vida. Ninguém é regenerado por Cristo parcialmente: ou nasce todo ou não nasce.

Naturalmente, existe o processo de santificação, uma dinâmica cotidiana. Só que santificação representa melhorar a cada dia. Subir um degrau da escada, depois outro, depois outro. Não é estagnação. Não é retrocesso. É avanço. E justificar uma forma anticristã de ser como sendo parte de um processo de santificação é alegar que estar satisfeito consigo mesmo de modo estagnado é se santificar. E não é nada disso. O cristão que fala “eu sou assim mesmo, me aguentem” não está em processo de santificação, está parado no sinal verde com o freio de mão puxado. E não adianta buzinar, pois ele não sai do lugar. E ainda berra pela janela: “Eu não vou andar, pois sou autêntico!”.

Assim, justificar, como disse o irmão do blog, atitudes desagradáveis ou ofensivas com o argumento de que é “seu jeito de ser” não é nada bíblico. O verdadeiro salvo é quem se arrependeu de todos os seus males, inclusive a sua forma de ser, se ela é socialmente desagradável. Não entendo, por exemplo, um pastor que viva falando de Jesus mas cujo temperamento seja constantemente irascível. Todos temos arroubos de raiva, mas quando o seu “jeito de ser” é naturalmente agressivo, para mim isso não demonstra autenticidade, mas falta de intimidade com o Jesus que prega.

Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou sincero” e sair desrespeitando os irmãos. Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou autêntico” e sair agredindo verbalmente as pessoas. Não, não é bíblico ou cristão dizer “esse é o meu jeito, se não gostar azar o seu”, pois isso contraria frontalmente o “amar o próximo como a si mesmo”. Dizer essas coisas só faz de você, como disse o mano do blog, “uma pessoa desagradável”. Não há mérito algum nisso. Não é bonito. Não creio que agrade Deus. Não demonstra fruto do Espírito.

Não cabe a mim dizer como você tem que ser, isso é entre você e Deus. Mas se posso fazer uma recomendação, é: não seja como você é. Não orgulhe-se de ser quem você é. Se eu fosse ser quem eu sou iria querer muita distância de mim mesmo. Mas Cristo vive em você? Então dê de beber ao teu inimigo sedento, pague um almoço ao inimigo faminto. Ame quem te fez mal. Contrarie sua natureza e seus impulsos. Alimente a natureza de Cristo em si. Isso sim é ser cristão.

Essa é a proposta do Evangelho. Se você percebeu que se encaixou nessas palavras, clame a Deus para que Ele te transforme. Acredite: Ele faz isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Miseravel1Qual é o momento mais importante da nossa caminhada de fé? Para uns, é o instante da conversão. Para outros, é o dia do batismo. Há também os que consideram o momento mais importante a hora da morte, quando finalmente darão o glorioso passo de entrada na casa do Pai. Cada pessoa elege aquele ponto da trajetória com o Senhor que mais marcou sua vida. Tenho também o meu. Claro que sei que todos esses momentos são fundamentais e memoráveis, mas entendo que a conversão e a morte, por exemplo, são os momentos mais importantes de nossa vida. Mas em se tratando da caminhada de fé, ou seja, do bom combate, da nossa trajetória de vida com Jesus, há um dia em que tudo muda e, por isso, o tenho guardado num lugar especial do coração. É quando cai a ficha e você, como Paulo, exclama: “Miserável homem que sou!”.

Naturalmente, na hora da conversão existe uma dose dessa percepção. É quando, pela ação do Espírito Santo, nos enxergamos como condenados ao inferno e dissociados de Deus e, assim, somos rendidos ao Evangelho da graça. Mas há uma diferença entre se perceber um pecador perdido e se perceber um cristão miserável. Pois muitos são convertidos a Cristo, ganham a cidadania do Reino dos Céus, são adotados como filhos de Deus e, a partir daí, deveriam passar a viver de acordo com a natureza de Jesus, sendo mansos e humildes. Mas a realidade nos mostra que muitos e muitos são os que começam a se considerar quase super-heróis. Mais que vencedores. Vitoriosos. Filhos do Rei. Tanques blindados. Bombas atômicas a serviço dos céus, prontos para arrebentar com os ímpios e com os “menos espirituais”. Vestem uma capa de grandeza e passam a considerar o resto da humanidade parte de um segundo escalão de pessoas. É como se manifesta um pecado muito comum a nós, cristãos: a soberba espiritual.

Já vi muitos assim. Arrogantes. Impiedosos. Cujo maior prazer é apontar o cisco no olho do outro. E confesso: eu mesmo já fui assim. Pois não entendia que todo homem de Deus é, antes de tudo, também um homem. Humano. E, como tal, cheio de falhas, crenças equivocadas, arrogância, vaidade e montes e montes e montes de defeitos. Se você é um cristão sincero, olhará para dentro de si e verá o quão problemático e falho é. Mas eu me via como “o eleito”, “o escolhido”. Algo à parte dos demais, tão espiritualmente certo em tudo e muito superior aos cristãos “menos santos”. Falava dos que cometiam pecados (diferentes dos meus, pois eu também sempre pecava) como fracos, frios, fariseus, lobos em pele de ovelha, crentes em quem não se pode confiar. Eu era o tal. Eles eram o joio. Que tremendo bobo eu era, só rindo de mim.

Miseravel2Porque um dia a realidade despencou na minha cabeça como uma bigorna. E foi quando as escamas caíram de meus olhos e enxerguei que, mesmo sendo cristão há muitos anos, continuava sendo um miserável. Que não era melhor do que ninguém. Que meus dons, talentos, ministérios, qualidades, santidade e tudo o mais que havia em mim não era mérito meu, mas do Pai das luzes. Ele me concedeu como empréstimo, não sou dono de nada e posso perdê-los a qualquer hora. Por outro lado, o pecado que cometo é sim mérito (ou demérito) meu. Ou seja: no dia em que você, como cristão, vê claramente que tudo o que tem de bom vem de Deus e o que tem de mau vem de si… aí exclama: “Miserável homem que eu sou!”.

Passei a amar muito mais o apóstolo Paulo quando compreendi como nunca antes o que ele diz em Romanos 7.14ss: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado”.

Prestou muita atenção ao que leu agora? Paulo – o grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado e viu o Céu ainda em vida – vivenciou esse magnífico momento: como cristão, mesmo já com anos de convertido, enxergou o que tantos e tantos em nossas igrejas ainda nãos viram: que nós…

1. Somos carnais
2. Somos vendidos à escravidão do pecado
3. Agimos de modo incompreensível aos nossos próprios olhos
4. Fazemos o que detestamos e não o que preferiríamos
5. Somos habitação do pecado (que percepção assustadora, pois sabemos que também somos habitação do Espírito Santo)
6. Somos fantoches do pecado, que nos leva a agir contrariando o que cremos e o que queremos viver
7. Temos membros obedientes a uma lei que guerreia contra a lei da nossa mente
8. Somos prisioneiros da lei do pecado que está em nossos membros
9. Mesmo salvos, somos miseráveis – pois vivemos dominados pelo pecado

Em outras palavras, mesmo cristãos nós somos miseráveis, pois vivemos o tempo todo sob a sombra de nossa própria pecaminosidade. O dicionário revela o que “miserável” significa: desprezível, torpe, vil, insignificante, reles, ínfimo, desgraçado, infeliz, mísero. Uau. Que soco na boca do estômago de nossa soberba espiritual.

A percepção dessa realidade é extremamente humilhante, nos põe em nosso devido lugar e nos conduz a um ambiente espiritual de profunda submissão a Deus e desapego de nós mesmos. Paulo teve essa percepção: mesmo sendo cristão era um miservável pecador. Alguém que o Senhor precisava permitir ser afligido por um mensageiro de Satanás esbofeteador para que não se exaltasse pela grandeza das revelações que recebeu. Um mero humano, como eu e você.

Miseravel3Honestamente? Quanto mais leio as epístolas paulinas, mais admiro Paulo. E mais me apiedo dos crentes que se apresentam como anjos de santidade. Pois não chegaram ainda ao sublime ponto de admitir que são miseráveis. Vejo muitos que são assim. E isso gera em mim um sentimento misto de pena com tristeza, confesso. Creio ser muito mais digno, bíblico e honesto reconhecer com a boca no megafone: sou cristão, salvo somente pela graça imerecida de Deus, mas ao mesmo tempo carrego o corpo dessa morte amarrado nas costas – o que faz de mim um miserável pecador. Que depende única e exclusivamente da misericórdia do Senhor para continuar respirando, quanto mais entrar no Céu. Pois sei o mal que há em mim e como meu lado sombrio é feio, disforme e animalesco. Como você se enxerga, meu irmão, minha irmã? Você se orgulha da sua santidade ou se abate pela sua natureza humana pecadora?

Chega a ser muito entristecedor ver os “crentes sem mácula” metendo dedos na cara “dos que pecam”, sendo que carregam na alma lodo do pior tipo. Isso é um dos pecados mais falados e criticados por Jesus: a hipocrisia. Já vivi nesse mundo, sei de perto o que é. E reconheço esse meu pecado com temor diante do PaiMiseravel4: pequei por me achar menos pecador do que os demais pecadores. Miserável homem que sou. Ah, que bendito dia em que o Espírito Santo me fez reproduzir essas palavras do apóstolo Paulo! Dia em que enxerguei que não é porque aceitei Jesus que virei um ser angelical, mas que continuo sendo um pecador compulsivo e incorrigivel, totalmente dependente da graça. A diferença é que, sabendo da miserabilidade que existe em mim, consigo chegar com humildade aos pés do Senhor, banhá-los em lágrimas e enxugá-los com meus cabelos. No passado, o crentão que eu era ficaria de pé, nariz levantado, peito estufado,  ao lado do Rei dos Reis, e diria: “E aí, Paizão, tamos numa boa, né? Sou teu eleito, meu chapa, gente boa igual a mim não há. E vamos lá mandar esses crentes carnais pro inferno, julguemos juntos, eu e o Senhor, os meus irmãos, pois estou a fim de ver sangue!”.

Sim, aquele foi o dia mais importante. Pois na conversão eu fui salvo, mas me sentia o tal por isso. No batismo saí das águas me achando o puro, o imaculado. Mas no dia em que caí em mim, vi que mesmo salvo continuo pecando sem parar, caí de joelhos, tremi e murmurei: miserável… homem… que… sou…

Gosto de pensar que após a morte irei para o Céu. Não por mim, que não valho nada, mas pela Cruz. Só pela Cruz. Pela graça. Pelo amor. Pelo perdão. Por Jesus. E, ao chegar lá, pode ser que eu ouça “bem-vindo, servo bom e fiel”. Mas acredito muito mais que vou ouvir: “Bem-vindo, miserável pecador. Você não tem mérito algum, mas por causa do sacrifício de meu Filho eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!”.

Paulo estava certo: somos miseráveis. Eu, você, todos os cristãos. E bendito seja o Senhor, que pela graça um dia nos chamou para sua maravilhosa luz e tempos depois iluminou a nossa realidade de cristãos pecadores. Não é o seu caso? Então clame a Deus, na esperança de que Ele te mostre o quão miserável você é. Acredite: é uma das maiores bênçãos para a alma que você poderá receber ao longo de toda a sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
mz

Cada civilização contém conceitos que são considerados as maiores virtudes entre as pessoas que a formam. Na Grécia antiga, por exemplo, o poder de argumentação era tão valorizado que existiam escolas voltadas especificamente para ensinar a debater. Em certas tribos aborígenes, trair alguém antes de matá-la dava status, como revela o livro O totem da paz. Também não são poucas as sociedades ao longo da História em que os mais fortes fisicamente são e foram os mais louvados. A espiritualidade e a obediência ao Alcorão são bem vistas em culturas islâmicas. Em certas sociedades orientais, a honra era vista como o valor principal de um homem. E na nossa? O que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21, em que eu e você estamos imersos? Basicamente o que chamo de “os três F”: fama, fortuna e físico. Quer ser o maior entre os seus semelhantes no Brasil de hoje? Então seja famoso: destaque-se, apareça mais que os outros, seja venerado, que muitos olhos se voltem para você. Ou então ganhe muito dinheiro, ostente carros caríssimos, more numa mansão, demonstre como você é bem-sucedido financeiramente. Por fim, tenha um aspecto físico invejável, seja por uma beleza natural ou por recursos como malhação, cirurgias plásticas, implante de silicone, botox, cabelos bem cortados – ou ainda, por roupas e sapatos caríssimos e da grife que está na moda. Pronto. Você será visto com destaque, valorizado, bajulado, invejado, amado. Mas… e no Reino de Deus? O que destaca alguém? Acredite: o exato oposto daquilo que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21:

Humildade.

O pecado de Satanás foi a arrogância. Ele quis ser mais do que era. Deu no que deu. Podemos contrastar sua atitude com a do grande profeta João Batista, sobre quem o próprio Jesus disse: “Eu lhes digo que entre os que nasceram de mulher não há ninguém maior do que João” (Lc 7.28). Sendo João isso tudo, ele mesmo afirmou: “Depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias” (Mc 1.7). João sabia quem era. Mas, mesmo sendo o maior de todos os que haviam nascido em toda a história da humanidade, ele conhecia seu lugar. Sabia que era pó. Que exemplo para todos nós…

Nossa civilização nos condicionou a querer sempre um lugar de destaque. Um emprego que nos projete. Títulos. Nosso nome escrito em letras de neon. Elogios. Um ego muito bem nutrido por palavras que mostrem como nós somos grandiosos. Mas o que Jesus ensina contraria de frente essa mentalidade: “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. (Mt 5.5). Que diferença! E a afirmação que não deixa dúvida alguma (peço que você leia essas palavras de Jesus com muita atenção): Quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mt 18.4). Humildade na terra, grandeza no Céu. Diminuir para crescer.

Jesus é o único digno de abrir o livro, Jesus é o maior, Jesus é maravilhoso, Jesus é o Altíssimo, Jesus é Criador, Jesus é o Caminho, Jesus é amor, Jesus é o santíssimo, Jesus é o Onipotente, Jesus é tudo. No entanto: “Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder, e que viera de Deus e estava voltando para Deus;  assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura.  Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura.  [...] Disse Pedro: “Não; nunca lavarás os meus pés”. Jesus respondeu: “Se eu não os lavar, você não terá parte comigo”.  [...] Então lhes perguntou: “Vocês entendem o que lhes fiz?  [...] Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros.  Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.1-15).

Permita-me perguntar: qual foi a última vez que você seguiu esse exemplo e “lavou os pés” de alguém menor do que você?

Entre nós, cristãos, certas características nos dão destaque no meio dos irmãos. O santo se acha mais santo do que os outros. O que ora muito crê que isso o torna mais especial do que os demais. O pecador condena quem julga que é mais pecador do que ele. O que tem um cargo na igreja se acha mais do que o que não tem. O que manifesta um dom se acha mais agraciado por Deus. Em resumo, eu e você não estamos isentos de nos acharmos os tais porque fazemos ou somos algo que nos põe numa posição de destaque.

Já parou para pensar por que os cristãos são tão fascinados por escândalos? Já parou para pensar por que amamos falar sobre aquele pastor famoso que caiu em adultério? Já parou para pensar por que comentamos salivando que a cantora gospel famosa rastejou no palco? Já parou para pensar por que temos um prazer indizível em comentar o último pecado que fulano cometeu? Em suma, já parou para pensar por que temos o prazer sádico de tricotar entre nós quando algum outro cristão incorre em desgraça?

Porque isso faz com que nós nos sintamos superiores.

Pura e simplesmente isso. É um sentimento mesquinho que, até inconscientemente, nos faz pensar “não sou tão mau assim, afinal fulano é um tremendo pecador, muito mais do que eu, que vivo tão corretamente”. É por isso que a maioria prefere segregar o pecador e não lhe dar um único telefonema para saber como ele está em vez de se aproximar, amar, dar ombro, dar afeto, ajudar em sua restauração: porque gostamos demais de nós mesmos para gostarmos dos outros.

Certa vez entrevistei o ator e comediante Jerry Lewis. Perguntei a ele como explicava seu sucesso. Sua resposta foi simples: “Todo filme que faço se baseia num princípio: um homem em apuros.  E cada pessoa do público fica feliz porque quem está naquela situação embaraçosa ou complicada é outro e não ela mesma”. Ou seja: rimos da desgraça do outro porque isso nos faz nos sentirmos melhor conosco. Não fosse assim, como explicar o sucesso das videocassetadas? Pessoas se arrebentando no chão, levando tombos, sendo atropeladas, pegando fogo… e nós daqui caindo na gargalhada. Os cristãos, inclusive – sejamos honestos. Como explicar esse contrassenso absoluto? Simples: a desgraça alcançou o outro e não nós.

Quando o outro peca isso faz dele inferior aos olhos dos cristãos. Portanto, um pecado que tornou alguém um escândalo faz com que eu, que também peco todos os dias mas não virei escândalo, me sinta melhor, mais feliz comigo mesmo. Superior. Maior. Sinto orgulho de mim mesmo, essa é a grande verdade. No entanto, as palavras de Paulo atravessam nosso sentimento de superioridade como uma espada afiada: “Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza” (2 Co 11.30).

Essa é a proposta do Evangelho. Reconhecer nossa fraqueza. Reconhecer nossa falibilidade. Pois, enquanto nos achamos mais especiais do que os demais, sofreremos do traiçoeiro pecado do “orgulho santo” – o orgulho do que há de bom em nós, o orgulho até de nossa “santidade”, tão maior do que a dos demais. Mas se nos achamos tão melhores do que os outros, não abrimos espaço para nos escancararmos para Deus, como Paulo fez: “Miserável homem que eu sou!” (Rm 7.24). Não. Diremos em nosso íntimo (sem falar em voz alta, para não pegar mal): “Magnífico homem que eu sou!”. Assim, nos sentiremos mais. Nos sentiremos os eleitos, os profetas, os escolhidos, os queridinhos do Pai. Nos sentiremos superiores. E nos sentiremos aliviados por não sermos tão ruins como os outros. Só que… com isso, não reconhecemos nossas fraquezas e não reconhecemos que o pior dos pecadores não é pior do que nós. E no dia em que estivermos diante do trono de Deus para prestar contas de tudo o que fizemos e falamos, será que o que ouviremos dele é “você é realmente o tal”?

Prefiro ficar com Paulo, que em Romanos 7.18 confessa com uma humildade que não encontramos em quase ninguém em nossos dias: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo”. Não é à toa que Paulo foi Paulo. Pois, talvez lembrado pelo espinho na carne, reconhecia que só a graça lhe bastava e que só a graça fazia dele um vaso de barro com a excelência do fôlego de vida em si.

Fico muito triste ao ver cristãos que se acham mais do que outros, seja por que razões forem. E oro por muitos que conheço e que são assim. Ore por mim também, por favor, pois não sou melhor do que meus pais. Em vez de nos acusarmos, nos rebaixarmos e nos segregarmos, amemo-nos mais e oremos mais uns pelos outros. No grande e terrível dia em que estaremos diante do Justo Juiz, que ele olhe para nós e veja a cruz de Cristo. Porque, se Ele olhar para quem nós realmente somos (e não para quem achamos que somos) nada nos restará a não ser choro e ranger de dentes.

Sou um pecador, mas se puder fazer algo por você, meu irmão pecador, minha irmã pecadora, tentarei. E não te desprezarei pelo fato de que você pecou um pecado diferente do meu e que ingenuamente considero pior. Pois… quem sou eu? “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Quem sou eu…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.