Posts com Tag ‘Espiritualidade’

Alem1Você quer evoluir na sua espiritualidade? Quer crescer em intimidade com Deus? Quer aprender mais da Palavra? Se você é um bom cristão, provavelmente respondeu sim a todas essas perguntas. Mas será que existe algo que te limite nesse sentido? Algo que te faça achar que não vai conseguir? Ou, de repente, será que você está satisfeito e confortável com sua atual posição espiritual e não vê necessidade de galgar novos patamares? Te convido a refletir sobre isso.

Paulo escreveu em Romanos 12.2 que é condição para experimentarmos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus que passemos por um processo de renovação da mente. Renovar significa tornar algo novo… de novo. Ou seja, para conhecermos o coração de Deus precisamos pegar o que já era novo e fazer novo novamente. Interessante pensar nisso.

É importante refletir sobre essa questão porque existe uma ideia equivocada entre nós. Achamos que, uma vez que tudo se fez novo na conversão, nunca mais é preciso mudar nada. Está feito. Conversão ocorrida, aprendemos os conceitos cristãos e pronto. Agora é só se agarrar ao que nos ensinaram, carregar esse vinho velho nas costas até a hora da nossa morte e tudo está bem. Só que, na verdade, não está. Romanos 12.2 que o diga.

Alem3A caminhada no evangelho pressupõe uma constante reavaliação de crenças, valores, conceitos, ideias. É a Igreja reformada sempre reformando – e a Igreja somos eu e você. A maior parte do que você aprende no seu primeiro ano pós-conversão descobrirá depois que eram introduções, verdades parciais ou mesmo erros. Era leitinho, alimento para quem dá os primeiros passos. A maturidade espiritual clareia muito essa percepção e muda tudo. Só que existe uma ideia que emperra a evolução de muita gente: a de que certas coisas não devem mudar ou não devemos aprender nada novo. Já ouvi frases como “não podemos pregar que passagens como Marcos 16 ou o trecho da mulher adúltera de João 8 não estão em muitos dos manuscritos originais da Bíblia, porque o povo não entenderia”. Bobagem. Tudo o que é bem explicado e vem para edificação pode ser compreendido – e, logo, deve ser ensinado. Temos de ensinar a verdade, na certeza de que absolutamente todos podem aprender, se desenvolver, crescer, mudar do leite para a comida espiritual sólida.

Recentemente tive uma experiência que mostrou com muita clareza o quanto subestimamos as pessoas. Gosto muito de ópera. Ouço óperas com muita frequência. Uma certa pessoa de meu círculo de relacionamentos desde que a conheço só ouvia músicas bem bobinhas, simples, para não dizer infantis. Eu a achava incapaz se gostar de algo mais profundo e elaborado. Alem4Semana passada eu estava junto com essa pessoa e resolvi assistir no computador à opereta “I Pagliacci”, de Rugero Leoncavallo. Achei que ela não fosse dar a mínima, ou mesmo reclamar. Para minha surpresa, essa conhecida fixou os olhos na tela e começou a prestar muita atenção. Passou a fazer montes de perguntas sobre a história, os personagens, a música. Fiquei empolgado. Nunca imaginei que ela pudesse gostar daquilo. Perguntei se estava apreciando. Disse que sim. Então propus que víssemos algumas partes da minha ópera favorita: “Carmen”, de Georges Bizet. Ela assentiu. Assistimos juntos a muitos trechos. O ápice foi quando, para meu assombro, chegou a ária “La fleur que tu m’avais jetté”, cantada pelo excelente tenor Jonas Kaufmann (o vídeo da ária está ao final deste post). Fiquei de queixo caído ao perceber que ela visivelmente se emocionou e, ante meu olhar estupefato, disse:

- Gostei. Quero ouvir de novo, papai.

Sim, essa pessoa era minha filhinha de 2 anos. E eu, que só dava “Patati Patatá”, “Homenzinho torto” e “Galinha Pintadinha” para ela ouvir… descobri que ela é capaz de apreciar ópera. E, creia: por quase duas horas ela ficou sentada no meu colo, sorvendo o que há de melhor nessa arte tão bela e sensível. Eu explicava tudo, o que era a orquestra, o som de cada instrumento, os cenários, a trama, técnicas vocais, o que é canto lírico… enfim, expliquei muito para alguém que eu achava que não entenderia nada. E anteontem, dois dias depois dessa experiência, ela chegou da creche e disse que queria assistir a óperas. Não desenhos animados: óperas. Essa experiência me mostrou como, muitas vezes, nós é que não levamos fé nas pessoas. Qualquer um é capaz de nos surpreender. De aprender. De se renovar. De evoluir. De coisas grandiosas. Você também.

alem5Pode ser que você acredite (ou alguém tenha feito você acreditar) que não dá para ir além de onde já chegou. Talvez, até, você mesmo creia que não precisa ir além, que está tudo bem como está. Que não precisa mudar, renovar a mente. Se é o caso, saiba que Paulo discordaria. Escute e escute bem: você pode ir muito além de onde já chegou. Pode ganhar muito mais conhecimento bíblico, teológico, histórico. Pode mergulhar muito mais profundamente na sua espiritualidade. Pode ter uma vida de oração bem mais sólida, uma rotina de estudo bíblico mais aprofundada, uma intimidade muito maior com Cristo. Você duvida? Bem, eu duvidava que minha filha de 2 anos trocasse a “Galinha Pintadinha” pela “Habanera”, de Bizet.

Nada é impossível. É desejo de Deus que você renove sua mente e cresça em sua devoção e em sua espiritualidade. Esse seria também o seu desejo? Então prepare-se para descobrir um mundo novo dentro da sua fé, porque, quando o desejo do seu coração encontra o desejo do coração de Deus, o resultado é uma harmonia espiritual com a beleza e a complexidade de uma ária de ópera.

Meu irmão, minha irmã, não fique estagnado, seja por que razão for. Se você se acha incapaz de crescer espiritualmente, saiba que tem toda a capacidade do mundo para isso. Se te disseram que não precisa evoluir, afirmo que não é verdade. Seja lá o que faz você permanecer estagnado onde está, saiba que, em Cristo, você pode ir muito além. Levante a âncora e se lance ao mar, reme com vontade. O resto deixe com os ventos do Espírito Santo de Deus, que te levará a novas, produtivas e emocionantes aventuras por oceanos que você nem sabia que poderia vir a conhecer.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Certa vez ouvi de um servo de Deus que a igreja é um lugar muito perigoso. Pois a vida em comunhão nos expõe, nos desafia, nos convida a conviver com a contradição e a natureza humana de indivíduos que deveriam substituir essa natureza pela de Cristo. A cada dia que passa vejo mais e mais que essa é uma grande verdade. A possibilidade de que você será ferido, magoado ou humilhado de algum modo por congregar em uma família de fé é bem plausível, visto que estará convivendo e se abrindo para pecadores cheios de falhas – embora em busca de santificação. Postei há alguns meses aqui no APENAS uma reflexão sobre “O lugar mais importante na igreja“, em que, por meio de uma metáfora,  compartilho minha visão de que a segunda pessoa mais importante numa congregação depois de Jesus é o triste, o abatido, o deprimido, o humilhado, o abandonado, o desesperado, o indigno, o ferido. Fiquei espantadíssimo ao ver a quantidade enorme de irmãos que entraram em contato pelo espaço de comentários do blog para relatar experiências terríveis que viveram no ambiente eclesiástico e que sofreram os mais variados tipos de traumas. Ao todo, 48. Muito revelador e espantoso é que, em comum a todos menos três, havia o pedido de não publicar seu comentário. 45 pessoas! Sem que dissessem, ficou claro que tudo o que queriam – ou precisavam – era desabafar e não queriam se expor. Em outras palavras, inconscientemente querem permanecer invisíveis. O que essa constatação deve gerar em cada um de nós? Como devemos agir com relação a essas pessoas feridas?

Mais ainda: devemos parar de ir à igreja porque podemos acabar saindo dela com o coração dilacerado? A resposta é um grande não. E já veremos por quê.

Entre os comentários havia de tudo. O mais frequente é a decepção com os líderes ou outros membros. Sim, porque paredes e templos não ferem ninguém: quem fere são pessoas. Pastores que usaram de autoridade desmedida e humilharam ovelhas publicamente. Irmãos que discriminaram pela classe social e pela cor da pele. Pastores que não mantiveram o sigilo pastoral sobre pecados a eles confessados. Irmãos que usaram de artimanhas para tomar “cargos” de outros. Pastores que em vez de ajudar a pôr de pé os caídos esmagaram ainda mais o crânio de quem estava no chão. Irmãos que não demonstraram coração perdoador. Pastores que usaram o púlpito para fazer desde propaganda política a publicidade de revistas e DVDs. Irmãos que ignoram quem não conhecem e compartimentalizam a igreja em panelas. Pastores que agiram em causa própria e deixaram vidas humanas à própria sorte. Irmãos que não estenderam a mão quando mais se precisava de ajuda. Pastores que prometem o que Deus não promete. Irmãos que discriminam da “falta de fé” à forma de se vestir de outros e os consideram cristãos de segunda classe.

Em comum a todos os casos, o que ficou visível foi uma deficiência no amor ao próximo e a prevalência do interesse próprio.

E essas são só as causas mais frequentes que detectei entre os comentários. Há mais. A quantidade e a variedade de formas pelas quais é possível ferir alguém por estar inserido no ambiente de uma família de fé são muitas, algumas surpreendentes. E isso é um chamado à responsabilidade para todos nós. Não é à toa que usei como título deste post o mesmo do livro da jornalista Marília Camargo, publicado pela editora Mundo Cristão, que trata de desmandos cometidos por lideranças eclesiásticas. Pois esses problemas se multiplicam tanto que se tornaram visíveis para cada vez mais pessoas – cristãs ou não. E um ponto nevrálgico da questão é que deixar a comunhão dos santos não é a solução. Por diversas razões.

No que tange à liderança, nunca podemos nos esquecer que há muitos líderes que sabem cuidar de ovelhas, que as põem acima de si mesmos e que entendem que a vocação pela qual Deus os chamou é sobre Jesus e sobre o próximo e não sobre si mesmos (leia mais no post “A importância de um pastor“). Que não deixam a vaidade, a prepotência ou os projetos pessoais interferirem no cuidado e no amor pelos irmãos. São muitos e estão por aí, em igrejas de diferentes denominações, em diversas regiões do país, em bairros ricos e pobres. O ministério pastoral não entrou em colapso devido ao fato de que há os que não pastoreiam com compaixão e graça, com amor e carinho, com cuidado e zelo. Há sim os que usam o púlpito como emprego estável ou os que não entendem a profundidade do amor de Deus e por isso não o refletem em seu pastoreio, mas as maçãs podres ou contaminadas devem servir acima de tudo para nos lembrar que há maçãs maduras e que alimentam. E há muitas. Há muitos homens de Deus à frente de igrejas, é só ter paciência de procurar e pedir discernimento ao Senhor. Recusar ser bem pastoreado é recusar um maravilhoso presente que Deus nos dá.

Já no que tange à membresia, é preciso lembrarmos sempre do velho clichê (que é verdadeiro) de que a igreja não é um museu de santos, mas um hospital de pecadores. Todos, absolutamente todos os membros de uma igreja, são pecadores. Ninguém escapa. Pode ter certeza que o mais santo de todos tem no mínimo pensamentos horripilantes. Agostinho teve. John Wesley teve. Davi teve. Salomão teve. Paulo teve. Pedro teve. Eu, então, nem se fala. Só que isso, em vez de nos afastar da igreja, deve produzir em nós um sentimento de misericórdia, por saber que o próximo é tão pecador como nós e é tão passível de erro como eu e você. Há pessoas responsáveis por atividades importantes dentro de igrejas que cometem pecados cabeludos e, em vez de fugir delas, precisamos orar por elas para que sejam libertas, que alcancem o perdão e para que seus pecados não interfiram na missão que Deus lhes confiou. Sempre digo a quem está decepcionado com os irmãos que, se vemos alguém que julgamos ser um “mau cristão”, em vez de empurrá-lo para longe devemos nos aproximar para influenciá-lo positivamente. Pois é o que se encaixa na graça de Deus. Não o medo, mas a coragem.

No que tange a nós mesmos, precisamos lembrar que mesmo sendo a igreja uma assembleia de pessoas imperfeitas e potencialmente passíveis de nos machucar, é onde cultuamos a Deus em comunhão. É onde celebramos o memorial coletivo da Ceia do Senhor. É onde ouvimos pregações (sim, muitas vezes feitas por sacerdotes cheios de falhas) que vão nos edificar, consolar e exortar. É onde podemos encontrar aqueles que de outro modo não saberíamos que precisam de uma mão estendida. É aonde os perdidos tocados por Deus vão, em busca de algo a que a cruz na porta remete em termos espirituais. Já fui parar em um CTI por ter comido alimentos estragados em um restaurante. Mas não é por isso que vou deixar de ir a restaurantes, pois preciso me alimentar. O medo de comer em outro restaurante não é benéfico, pode me gerar inanição. Assim como o medo de ir a uma igreja porque nos decepcionaram em outra não provém de Deus. Se a igreja é um lugar perigoso, é um lugar para os corajosos. Um erro não justifica o outro.

Você já se decepcionou com um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. Só que o que o outro faz não depende de nós. O que temos poder para mudar é agir a partir de outra pergunta: você já decepcionou um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. E se você, como eu, reconhecer que causou o mal a alguém, mesmo que tenha sido de modo involuntário, aí está diante de si a grade oportunidade de começar a mudar o que está ruim: procurando mudar ou pelo menos melhorar a si mesmo. Pois, no que eu mudo e me torno um cristão melhor, uma ovelha menos manchada para meu pastor e um irmão menos decepcionante para os membros da igreja, aí sim estou contribuindo com meu exemplo e minha atitude pessoal para que o Corpo como um todo seja aperfeiçoado.

Então, se fomos feridos na igreja, devemos começar por fazer uma análise de nós mesmos e ver em que pontos nós ferimos os outros. Eliminando esses pontos serviremos cada vez mais de exemplo. Quanto aos que nos feriram, a dor permanecerá pelo tempo que o luto durar e isso independe de nós.

Mas podemos perdoar.

Quantas vezes? Setenta vezes sete. Todas. Sempre. Repetidamente. E não perdoe só da boca para fora, porque isso é fácil para qualquer um fazer. Perdoe em atitude. Sendo bom para quem te feriu. Ajudando-o. Estendendo a ele benefícios. Auxiliando no que ele precisar. Orando a Deus por sua vida. Essas são as maneiras bíblicas de agir com quem nos machucou. Não importa como o outro se comporta, importa como você se comporta. Faça sua parte. Pense menos em si e mais em Cristo. Pois se cada um de nós pensar somente em si, da próxima vez que escrever um post sobre gente machucada na igreja não serão 48 pessoas contando suas histórias, mas 490.

A mudança começa em nós. Menos dedos apontados, mais lágrimas no travesseiro. E quando você conseguir ser alguém melhor, ajude os demais. A começar estendendo amor de forma prática a quem te fez mal. E aí haverá festa no Céu, porque você poderá estar sendo intrumento nas mãos de Deus para levar um pecador a se arrepender. Minha esperança é que para cada ferido “em nome de Deus” apareça um bom samaritano que venha a cuidar de suas feridas. E, isso sim, será verdadeiramente feito em nome do perdoador, misericordioso, amoroso e gracioso Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Vivemos uma época da História da Igreja em que é muito fácil nos deixar levar pela tentação de voltar nossas atenções para discussões acerca das instituições e estruturas eclesiásticas e nos esquecermos de questões que – pelo relato dos evangelhos – preocuparam e ocuparam muito mais o tempo de Jesus. Em nossos dias, “apologética” está muito na moda e sobram ambientes em que, em nome de uma suposta “defesa da fé”, se fala bastante contra igrejas, denominações e grupos eclesiásticos (e escrevo entre aspas porque 90% do que se apresenta na Internet hoje como “apologética” na verdade são só agressões e fofocas que não contribuem de fato para a saúde espiritual da Igreja). O que tenho refletido muito nos últimos tempos é sobre o risco real em que caímos de nos preocuparmos tanto em discutir aspectos relacionados às instituições eclesiásticas que pecamos por desviar nossas atenções do que mais importa para Deus: o indivíduo.

É evidente que discutir questões ligadas à instituição é importante. Afinal, se não combatemos a Teologia da Prosperidade, os desmandos de certas igrejas neopentecostais, as heresias e outros graves problemas que deformam a Igreja de Nosso Senhor estamos permitindo que milhares de pessoas sejam enganadas e mal discipuladas. Mas quando voltamos excessivamente os olhos para isso, acabamos tão preocupados com o macro que os detalhes que mais importam tornam-se periféricos, quando deveria ser o contrário.

Recentemente decidi reler todo o Novo Testamento. E tive uma percepção bem interessante. Se formos prestar atenção no foco das preocupações de Jesus e dos apóstolos, se formos ao cerne do Sermão do Monte, das epístolas paulinas, das gerais e dos livros de Atos e Apocalipse, veremos que a esmagadora maioria dos problemas apontados, os grandes desmandos, as orientações, as pregações e palestras eram quase que em sua totalidade voltadas para questões pessoais. Raramente vemos exortações contra grupos ou instituições. É a alma humana que está em debate na maior parte do Novo Testamento. Evidentemente, à luz da pessoa de Cristo e da glória do Pai.

Jesus diz uma única vez que um enfermo foi curado para a glória de Deus. Se formos ver os outros milagres de Cristo perceberemos que estavam ligados a um aspecto da personalidade do Senhor: compaixão.  Jesus perdoa pecadores. Jesus sara os que clamam a Ele em lágrimas. Jesus ensina sobre o Reino sempre em relação ao aspecto humano e individual. Jesus está o tempo todo preocupado com pessoas. Que têm nome, cheiro, dores, depressões, noites insones, desesperança, falta de paz. Mesmo quando fala dos publicanos e fariseus Ele não está criticando o grupo como um todo ou questionando sua existência, mas sim atacando aspectos falhos do coração daqueles homens, como a hipocrisia e a ganância. Tanto que chama Paulo, um fariseu, não para abandonar o farisaísmo, mas para se converter de seus caminhos pessoais equivocados.

Não vemos Jesus investir seu tempo criticando o governo romano, a organização do templo ou as sinagogas. Pelo contrário, manda pagar o tributo aos dominadores, vai às sinagogas e segue religiosamente a liturgia de culto praticada nas mesmas, não discute sobre a legitimidade do partido fariseu contra o saduceu (ou vice-versa) ou levanta bandeiras contra os essênios. Sempre vemos Jesus falar sobre questões concernentes ao indivíduo. Ele quer ensinar pessoas, se preocupa em alimentá-las, se condói do enfermo, tem misericórdia do possesso, deseja que João, Maria, Antônio, Beto e Sheila sejam alcançados pelas boas novas, perdoados e salvos. Ele não quer salvar um grupo impessoal. Quer dar vida a almas.

O mesmo vemos nas motivações de Paulo. Repare que em suas epístolas ele se preocupa não em saudar ou enviar saudações dos “adeptos da Missão Integral”, dos “ortodoxos”, os “membros da igreja emergente”, os “irmãozinhos pentecostais” ou “os que congregam nas igrejas históricas”. Ele saúda pelo nome. Menciona Estéfanas, Fortunato, Acaio, Tíquico, Onésimo, Aristarco, Marcos, Epafra, Lucas, Ninfa, Prisca, Áquila, Onesíforo, Erasto, Trófimo, Êubulo, Prudente, Lino, Cláudia e tantos outros. Do mesmo modo, não critica grupos organizados ou escolas de pensamento nefastas, mas dirige suas tristezas a pessoas como Demas e Alexandre, o latoeiro. Nomes. Gente. Almas.

Sou de Paulo. Sou de Apolo. E o que disse Paulo sobre isso? “Acaso Cristo está dividido?” (1 Co 1.13a).  João escreveu suas epístolas para combater os gnósticos, grupo herético dito cristão que pregava que Jesus não era Deus feito carne. Mesmo assim sua primeira carta, por exemplo, é extremamente pessoal. “Filhinhos” e “amados” são as duas formas mais usadas pelo apóstolo para se dirigir aos seus destinatários. E se você lê com atenção tudo o que ele escreve contra os ensinamentos dos gnósticos é sempre tendo em vista aspecto individuais dos ensinamentos espúrios e como eles afetavam pessoas. Essa carta, que podemos considerar como sendo a mais motivada por aspectos institucionais de todo o Novo Testamento, é extremamente preocupada com o indivíduo.  A releia com atenção e você verá. Os “filhinhos”. Os “amados”. E nenhuma escola de pensamento ou doutrinária é filha ou amada de ninguém. Pessoas são.

Nas sete cartas à igrejas de Apocalipse vemos referências institucionais, isso é fato (prova que essa discussão não pode ser menosprezada): aos nicolaítas e aos que seguem a doutrina de Balaão. Mas, de resto, fala a todo tempo sobre questões do coração, como o abandono do primeiro amor, a fidelidade, obras, amor, fé, serviço, perseverança. Menciona até mesmo uma tal Jezabel pelo nome, por estar pervertendo os irmãos.

A conclusão é que Deus está preocupado com pessoas. Comigo. Com você. Com quem você ama. Com quem você odeia. Com arrependimento e redenção de indivíduos. Jesus não vai salvar os membros desta ou daquela denominação, mandar todos os calvinistas para o Céu ou condenar todos os adeptos da equivocada Confissão Positiva para o inferno. O que está escrito no Livro da Vida são nomes de indivíduos. Nomes de gente. Nomes com rosto, CPF, é o filho do Zezinho da padaria e a mãe da sua amiga Carla, da escola. Gente que tem mau hálito ou que acorda de mau humor, indivíduos que falam “pobrema” e almas que moram em condomínios de luxo. O porteiro do seu prédio. O lixeiro da sua rua. O jardineiro que você nunca cumprimentou. O empregado que você jamais abraça.  O manobrista que todo dia guarda a chave do seu carro mas você nem sabe seu nome. Quando pensa em nós, o que a Bíblia transparece não é que Ele pensa em “nós”: pensa no “eu” e no “você”, cujos fios de cabelo Deus sabe de cor quantos temos.

Por muito tempo devotei muita atenção para grupos. Não que eles não sejam importantes, repito, mas hoje estou muitíssimo mais preocupado com o indivíduo. Quero chegar antes de o culto começar na igreja e cumprimentar aquela irmã cheia de olheiras sentada na última fila da igreja. Perguntar se está tudo bem – e ouvir sua resposta de fato e não por uma obrigação pseudopiedosa. Quero gastar tempo que seria meu para ir na casa da senhora doente e que não tem amigos, doar-me e não apenas aparentar estar preocupado. Quero ir ao hospital orar com o irmão de uma conhecida que está padecendo de Aids – contraída numa relação homossexual. Órfãos e viúvas em suas tribulações são pessoas. É o Carlinhos, que perdeu os pais num acidente de carro, e a Dona Rute, cujo marido teve um infarte fulminante.

Nossas igrejas estão abarrotadas de pessoas carentes, solitárias, pecadoras, infelizes. Meu papel como cristão é refletir o amor de Cristo dando-lhes calor humano. Estendendo perdão. Pacificando as animosidades. Me fazendo presente nos períodos de sofrimento. Pois aprendi o que é passar momentos terríveis, depressivos e assustadoramente solitários e nem um único cristão telefonar para saber como estou. E isso é igreja que diz glorificar Deus mas só o faz da boca para fora, pois se esqueceu do próximo – que não é uma entidade autômata, com número de série: é uma alma humana.

Enquanto não amarmos de fato, perdoarmos de fato, nos doarmos de fato e enxergarmos de fato a dor do ser humano que cruza conosco no corredor da igreja ou do supermercado… estamos frequentando a igreja para que mesmo? Glorificar Deus? Como se fosse possível uma coisa sem a outra.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

* Uma versão reduzida deste artigo foi publicada originalmente na revista Igreja.

Li recentemente em um blog um texto em que o autor falava algo sobre “ser autêntico”. O irmão estava revoltado com uma discussão que teve com alguém e, por isso, escreveu o seguinte: “Ser ‘sincero’, ‘autêntico’ ou ‘você mesmo’ não é desculpa para ser uma pessoa nojenta, desagradável ou idiota. Pare de se orgulhar de ser um completo @$&#% e vê se aprende a viver em sociedade” (o @$&#% é por minha conta, o comentário trazia o palavrão explicitamente). Não concordo com a escolha de vocábulos que ele adotou,  pois antipatizo com o uso de palavrões (se para toda palavra torpe há um sinônimo menos agressivo, por que usar?). Mas estou de acordo com o conteúdo do que ele disse.

Anos atrás eu acreditava que tinha de ser autêntico, de falar o que viesse à cabeça, custasse o que custasse. Mas percebi que, se vivermos sob o pretexto de que “eu sou assim mesmo” e “esse é o meu jeito”, vamos andar na contramão do Evangelho. Por quê? Pois a verdade é que não interessa como você é. Interessa como Cristo é. E se “não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), o verdadeiro cristão não pode usar a desculpa de que “eu sou assim” e machucar outras pessoas. Pois Jesus não machucaria.

Já ouvi alguns pregadores usarem em suas mensagens um sofisma que, de tanto ser repetido, acabou virando uma pseudoverdade teológica, ou, para usar um vocábulo mais aceito pela sociedade, apenas mais um clichê gospel. Dizem: “Deus muda o caráter mas não o temperamento“. Já ouviu isso? Só que essa afirmação simplesmente não é verdade. Basta olhar as virtudes contidas no fruto do Espírito exposto em Gálatas 5.22,23a: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”.

Pare para pensar. Isso é o fruto que o Espírito Santo gera no salvo. Agora: se essa frase fosse verdade, todas essas virtudes teriam a ver apenas com caráter. Mas muitas falam de mudança de temperamento. Observe: Amor: caráter e temperamento. Alegria: temperamento. Paz: caráter e temperamento.  Longanimidade (ou paciência, em outras traduções): temperamento. Benignidade (ou amabilidade, em outras traduções): caráter e temperamento. Bondade: caráter. Fidelidade (ou fé, em outras traduções): caráter. Mansidão: temperamento. Domínio próprio: caráter e temperamento. Ou seja, a atuação do Espírito de Deus na vida do que é salvo se dá no nível da transformação do caráter mas também no do temperamento. É uma transformação do todo e não de 2/3 do indivíduo que foi chamado da morte para a vida. Ninguém é regenerado por Cristo parcialmente: ou nasce todo ou não nasce.

Naturalmente, existe o processo de santificação, uma dinâmica cotidiana. Só que santificação representa melhorar a cada dia. Subir um degrau da escada, depois outro, depois outro. Não é estagnação. Não é retrocesso. É avanço. E justificar uma forma anticristã de ser como sendo parte de um processo de santificação é alegar que estar satisfeito consigo mesmo de modo estagnado é se santificar. E não é nada disso. O cristão que fala “eu sou assim mesmo, me aguentem” não está em processo de santificação, está parado no sinal verde com o freio de mão puxado. E não adianta buzinar, pois ele não sai do lugar. E ainda berra pela janela: “Eu não vou andar, pois sou autêntico!”.

Assim, justificar, como disse o irmão do blog, atitudes desagradáveis ou ofensivas com o argumento de que é “seu jeito de ser” não é nada bíblico. O verdadeiro salvo é quem se arrependeu de todos os seus males, inclusive a sua forma de ser, se ela é socialmente desagradável. Não entendo, por exemplo, um pastor que viva falando de Jesus mas cujo temperamento seja constantemente irascível. Todos temos arroubos de raiva, mas quando o seu “jeito de ser” é naturalmente agressivo, para mim isso não demonstra autenticidade, mas falta de intimidade com o Jesus que prega.

Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou sincero” e sair desrespeitando os irmãos. Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou autêntico” e sair agredindo verbalmente as pessoas. Não, não é bíblico ou cristão dizer “esse é o meu jeito, se não gostar azar o seu”, pois isso contraria frontalmente o “amar o próximo como a si mesmo”. Dizer essas coisas só faz de você, como disse o mano do blog, “uma pessoa desagradável”. Não há mérito algum nisso. Não é bonito. Não creio que agrade Deus. Não demonstra fruto do Espírito.

Não cabe a mim dizer como você tem que ser, isso é entre você e Deus. Mas se posso fazer uma recomendação, é: não seja como você é. Não orgulhe-se de ser quem você é. Se eu fosse ser quem eu sou iria querer muita distância de mim mesmo. Mas Cristo vive em você? Então dê de beber ao teu inimigo sedento, pague um almoço ao inimigo faminto. Ame quem te fez mal. Contrarie sua natureza e seus impulsos. Alimente a natureza de Cristo em si. Isso sim é ser cristão.

Essa é a proposta do Evangelho. Se você percebeu que se encaixou nessas palavras, clame a Deus para que Ele te transforme. Acredite: Ele faz isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Você sabe quem foram Bacio Pontelli, Giovannino de Dolci, Perugino, Ghirlandaio, Rosselli, Signorelli, Pinturicchio, Piero di Cosimo, Bartolomeo della Gatta, Rafael, Michelangelo Buonarroti e Sisto IV? Não? Então aguarde um pouquinho que já vai saber. Mas antes vamos falar um pouco sobre tesouros.

Com a renúncia do papa Bento 16, li diferentes reportagens que falam sobre o local onde ocorre a eleição do líder católico: a Capela Sistina (foto ao lado). Em muitas dessas matérias de jornais o texto referiu-se a essa Capela como um “tesouro da Igreja”. Lembro bem das duas vezes em que tive a oportunidade de visitar a Capela Sistina, uma maravilha da arte sacra, um monumento da História da Igreja. Uma obra belíssima do bom gosto humano. Fica no Palácio Apostólico, residência oficial do papa, na Cidade do Vaticano. Seus afrescos (técnica de pintura em paredes) têm beleza e valor incalculáveis.

No entanto, falando espiritualmente, sempre que penso na Capela Sistina a imagem que vem a minha mente nunca são pessoas ajoelhadas em contrição, vidas em arrependimento sincero por seus pecados, a pregação genuína da Palavra de Deus, gente sendo discipulada, adoração de filhos ao Pai celestial. O que me lembro das duas ocasiões é uma multidão de turistas se espremendo, sentando no chão daquele santuário, uma balbúrdia incontrolável, desrespeito por um lugar sagrado, indivíduos desobedecendo todas as normas do lugar e guardas de segurança berrando em inglês “No photos!” (“Sem fotos!”) o tempo inteiro, sendo solenemente ignorados pelos turistas.

Enfim, naquele local, feito para prestar culto a Deus, o que há hoje é um coquetel alucinado de desobediência, desrespeito, desordem e indecência – e não vi ninguém entrar por aquelas portas mencionando o nome de Jesus: tudo é uma grande ode à arte das paredes e do teto. A Capela Sistina é considerada um tesouro artístico da humanidade. E é. Mas isso me faz pensar. Pois ali hoje não há nada que me lembre Cristo, que aproxime dele as hordas que se atropelam no local. Em resumo, é um tesouro de valor incalculável mas espiritualmente inútil.

Não é segredo para nenhum de nós que vivemos na época da Teologia da Prosperidade que os males provocados por essa heresia e as igrejas que a adotaram acabaram com a imagem da Igreja evangélica como um todo diante da sociedade. Mas esqueçamos a Teologia da Prosperidade e seus seguidores por alguns momentos. Pensemos nas igrejas sérias. Nas que de fato têm lideranças honestas diante do Senhor, onde se busca discipular bem os membros e glorificar a Deus, onde se pensa mais na eternidade do que na vida terrena. Será que é possível ultrapassar até mesmo inconscientemente os limites do uso do dinheiro nessas congregações piedosas, corretas e de fato cristãs?

Sim, é.

Não é pecado os responsáveis por uma igreja se preocuparem com sua estrutura e manutenção financeira. Na verdade, se não tratarem dessa questão com muito zelo estarão sendo negligentes com a obra de Deus. É preciso sobriedade e diligência na gestão econômica de uma igreja. Mas o maior erro que cometem, muitas vezes sem maldade e sem perceber que é um erro, é pôr o dinheiro acima de pessoas. E como isso pode acontecer?

Crendo ou agindo como se o tesouro de uma igreja fosse dinheiro ou qualquer coisa relacionada a ele em vez de Deus e de indivíduos. Fazendo mal a pessoas por causa de dinheiro. Pondo em qualquer instância dinheiro acima de seres humanos.

Ouvi algumas vezes de irmãos que se dedicam amorosamente à administração monetária eclesiástica a expressão “erário da igreja”, referindo-se ao dinheiro que seus membros entregaram aos líderes na forma de ofertas e dízimos. Pelo dicionário, “erário” é, literalmente, “Conjunto dos recursos econômicos e financeiros de uma entidade ou de um Estado. = TESOURO“. Nesse sentido, é correto dizer que “erário” são os números que aparecem no extrato bancário de uma igreja. Mas chama a minha atenção a apresentação e definição de “erário” também como “tesouro”, pois imediatamente vêm à minha mente Mateus 6.21 e Lucas 12.34, passagens que mostram a afirmação de Jesus no Sermão do Monte: “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. E onde deve estar o coração de uma igreja?

Mateus 22.36-40 registra o diálogo entre Jesus e um fariseu: “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei. Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.”

Eis a resposta. O tesouro de uma igreja, o erário de uma Igreja, não é dinheiro: são Deus e as pessoas. A mais bela, imponente, rica e suntuosa igreja já construída não vale um centavo aos olhos de Deus se posto em comparação com o mais humilde e desconhecido dos indivíduos. As magníficas pinturas da Capela Sistina têm zero de influência sobre o destino eterno de almas humanas. E, por esse prisma, ela vale menos do que qualquer igrejinha humilde de pau-a-pique de beira de estrada onde se realize um culto para três pessoas.

Sou favorável a termos um local de culto, um templo, um santuário. Não junto minha voz à dos irmãos bem-intencionados que julgam que igrejas nos lares ou “comunidades” são a resposta bíblica, embora entenda suas razões. São meus irmãos em Cristo e compreendo sua repulsa pelos templos institucionais, mas não coaduno de sua visão, por entender que estão condenando algo que o Senhor não condena, oferecem soluções que não solucionam e geram um debate que não leva a lugar nenhum. Não quero entrar nesse mérito aqui, as razões que me levam a acreditar na Igreja organizada já foi exposta em diversos posts deste blog (por exemplo, Jesus nunca construiu templos).

A questão é que paredes não são a riqueza de uma igreja. Nem bancos. Vitrais. Ou o batistério. Os instrumentos musicais. A decoração do teto. A arquitetura. A decoração. A conta bancária. No dia em que o “erário” de uma igreja passa a ser dinheiro em detrimento das almas que entram por suas portas essa igreja faliu. Tornou-se um monumento vazio e triste. Na Segunda Guerra Mundial os bombardeios assolaram dezenas de igrejas e catedrais pela Europa, que viraram montes de escombros (veja foto à dir.). Todo o dinheiro investido ali virou pó. Basta um terremoto, uma enchente, uma praga de cupins e o “erário” vai por água abaixo.

Passo com frequência na porta de igrejas suntuosas, como, por exemplo, a belíssima Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro. Você sabe dizer quem idealizou sua construção? Eu não. Sabe quem foi seu arquiteto? Eu não. Sabe os nomes dos presbíteros do Conselho que aprovaram sua edificação? Eu não. Não sei nada de sua história. Mas conheço diversas pessoas que ali conheceram Cristo e desenvolveram sua fé. Pessoas que, junto com o Deus que ali é adorado, são o verdadeiro erário, o tesouro daquele local. Aquele lindo templo não é a realização de seus idealizadores e construtores: os seres humanos que passaram por suas portas e por sua história são.

Fico imaginando quando chegaram ao céu os príncipes, reis e sacerdotes da Europa que idealizaram e financiaram igrejas monumentais, banhadas a ouro, com vitrais e rosetas coloridas, órgãos de tubos magistrais e pés direitos de dezenas de metros; e Deus lhes perguntando: “O que você tem a apresentar?”. Ao que responderam: “Ergui igrejas e catedrais magníficas para ti, Senhor”. E, em meu exercício de imaginação, consigo pensar em Deus balançando a cabeça e dizendo: “Não, meu filho, você não entendeu a pergunta. Quero saber quantos seres humanos você amou de modo desinteressadado. Quantas vidas você abençoou. Quantas almas edificou. Qual o nome de cada indivíduo que entrou pelas portas dessas igrejas, o que você fez para sanar suas dores, para dar paz a seus corações. A quantos estendeu perdão real. Quem preferiu em honra. Exerceu justiça com todos? Pois foi esse o erário que entreguei em suas mãos para que você cuidasse”.

É com isso, acima de tudo, que devemos nos preocupar. Grandes monumentos eclesiásticos serão comidos pela traça e a ferrugem. Virá um bombardeio, um terremoto, extremistas islâmicos ou uma enchente e as maiores catedrais valerão algo somente para algum ferro-velho. A magnífica Catedral de Córdoba, na Espanha (foto à esq.), erguida para  Jesus, virou uma mesquita para adoração de Alá após a conquista do país pelos mouros no ano 711. Se aquilo fosse o erário da igreja espanhola ela estaria sem nada para apresentar a Deus no dia da grande prestação de contas. No local do Templo de Jerusalém existe atualmente uma mesquita e só sobrou um muro onde judeus lamentam sua assolação, um erário de interesse meramente histórico para a Nova Aliança. No subsolo da famosíssima Catedral de Milão hoje há apenas um amontoado de pedras do que foi sua primeira construção, considerada (como diz o folheto para turistas) “uma pérola arqueológica”. Como local espiritual de adoração a Jeová seu valor é zero. Mas, quando estive lá, aos meus pés havia um buraco insosso que outrora foi o ricamente adornado tanque batismal onde Ambrósio batizou um dos mais valiosos itens do erário celestial: Agostinho de Hipona, um dos maiores teólogos de todos os tempos, um homem que há 1.700 anos abençoa vidas com seus ensinamentos – e elas sim são o seu legado.

É natural que a preocupação de um pastor seja fazer a igreja que lidera congregar no melhor templo possível. É compreensível e penso que eu, se estivesse à frente de uma congregação, faria o mesmo. Nunca, porém, erigiria uma construção suntuosa, prefiro um espaço onde se consiga conhecer todos pelo nome e se pastorear bem as ovelhas, de perto. No dia em que houvesse superlotação abriria congregações. Não gastaria muito dinheiro na obra, para que sobrasse o suficiente que me permitisse abençoar vidas, enviar e sustentar pelo tempo necessário muitos missionários, ajudar os necessitados, construir talvez uma pequena escola, editar livros que viessem a edificar e consolar vidas. Enfim, administraria o “erário” não para que ele se tornasse uma Capela Sistina – belíssima mas inútil para o Reino de Deus -, mas que fosse investido para aproximar cada vez mais o verdadeiro erário de Deus do maior erário que um homem pode ter: Jesus de Nazaré.

Agora, respondendo à pergunta do início: Bacio Pontelli foi o arquiteto que projetou a Capela Sistina, já tinha ouvido falar dele? Giovannino de Dolci foi quem supervisionou a obra, já tinha ouvido falar dele? Perugino, Ghirlandaio, Rosselli, Signorelli, Pinturicchio, Piero di Cosimo, Bartolomeo della Gatta, Rafael e Michelangelo Buonarroti são os artistas que embelezaram o local, já tinha ouvido falar de todos? Talvez de Rafael e Michelangelo, os mais famosos. E Sisto IV foi o papa católico que financiou a transformação da antiga Capela Magna na que veio a se chamar Sistina, em sua homenagem. Já tinha ouvido falar dele?

Nosso tesouro está no Céu, meu irmão, minha irmã. Enquanto estamos na terra, nosso tesouro são pessoas e Deus. Que nunca nos esqueçamos que aquilo que fazemos para os seres humanos e o nosso relacionamento com Deus são o nosso verdadeiro foco nesta vida. Pois é única e exclusivamente isso que nos fará sermos chamados “servos bons e fiéis”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Recebi o e-mail abaixo de uma irmã em Cristo. Tocou-me tanto que decidi reproduzi-lo aqui, com a resposta que enviei a ela, na esperança de que venha a trazer paz a corações que estejam passando por situações semelhantes à que ela está enfrentando. É desnecessário divulgar seu nome, pois não quero expô-la. O que importa não é quem ela é, mas a sua experiência. E oro a Deus que aquilo que lhe respondi – e, em especial, os textos bíblicos – alcance o maior número possível de corações angustiados. Segue o desabafo honesto, sincero e dolorido que recebi de R.:

“Bom dia, como você está?

Não sei nem como começar a escrever, preciso desabafar e essa angústia não pode ser com qualquer pessoa.

Estou me sentindo fraca, já não tenho ânimo para frequentar a igreja, há muito tempo não oro nem faço jejum. Estou me sentindo triste, meu espirito está angustiado com tudo o que vejo dentro das igrejas, estou triste por ver pessoas agredindo uma as outras.

Estou triste, pois me parte o coração ver pessoas na rua passando frio, triste por ver tanto sofrimento e nenhuma mudança. Fico me perguntando cadê os verdadeiros cristãos.

Preciso de forças, estou envergonhada da pessoa que sou, tenho olhado o cisco no olho do meu próximo, mas fui incapaz de retirar a trave que estava nos meus olhos. Sou orgulhosa, egoísta, hipócrita, venenosa. Apenas reclamo e não faço nada.

Estou caindo, fui fraca e deixei as aflições do mundo ficarem entre eu e Deus. Estou decepcionada, porque magoei Deus, não fui fiel a Ele, deixei as paixões do mundo me afastarem dEle. Estou com vergonha, me sinto suja, me sinto como alguém desprezivel, uma pecadora que não sabe reconhecer seus erros. Estou sentindo tantas coisas em meu coração e não sei como escrever, como colocar para fora.

Entendo a minha condição, entendo que enquanto estiver nesse corpo cairei e continuarei caindo até o dia que Cristo voltar ou até a minha morte. Mas sou fraca, tenho trocado o tesouro do Reino por coisas pequenas, não tenho tido concentração para orar, vivo em um ambiente onde domina a fofoca, a inveja, a maldade, são pessoas perversas com suas linguas afiadas. Tenho bebido desse veneno e compactuado com isso, estou sentindo as consequências dessa minha escolha.

Mas eu quero voltar, eu quero voltar para o meu Pai, quero ficar com Ele, não quero que as coisas do mundo sejam as minhas coisas. Que Deus possa me perdoar pela minhas transgressões, pelos meus pecados, não estou mais suportando viver uma vida sem Deus, sem a presença dEle, isso tem me matado.

Meu peito vai explodir, estou caindo, peço que ore por mim meu irmão. Estou angustiada, tomada por uma profunda tristeza.

Que Deus te abençoe, meu irmão!”

Li essa confissão tão honesta e dolorosa. E respondi a ela o que reproduzo abaixo, com acréscimos que depois, com mais calma, incluí no texto. Peço a Deus que as singelas palavras que vêm a seguir alcancem corações:

“R.,

meu coração chora pela tua angústia. Li o que você escreveu e gostaria de te dizer algumas palavras.

Primeiro, lembre-se se uma coisa: você é humana e Deus sabe disso. Não quero passar a mão na cabeça do pecado, mas importa que você entenda o olhar do Pai. Veja o que a respeito do Senhor diz Salmos 103.3-5; 8-14:

É ele que perdoa todos os seus pecados e cura todas as suas doenças, que resgata a sua vida da sepultura e o coroa de bondade e compaixão, que enche de bens a sua existência, de modo que a sua juventude se renova como a águia. O Senhor é compassivo e misericordioso, mui paciente e cheio de amor. Não acusa sem cessar nem fica ressentido para sempre; não nos trata conforme os nossos pecados nem nos retribui conforme as nossas iniquidades. Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem; e como o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões. Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem; pois ele sabe do que somos formados; lembra-se de que somos pó.

Essas verdades magníficas nos mostram que Deus não se interressa em punir ou destruir: isso é papel do Diabo. O que Nosso Senhor quer é pôr de pé o abatido, levantar o caído, pôr o anel no dedo do filho que foi comer as bolotas dos porcos.

R., Deus não espera de você perfeição, mas sim esforço. Pois, como disse o salmista, “ele sabe do que somos formados, lembra-se de que somos pó”: o Senhor sabe que você nunca será inerrante, perfeita, que você é pó. Assim, Deus compreende as suas fraquezas. O que Ele não aceita é o acomodamento. O cristão de verdade não é o que vence todas as batalhas, mas o que luta com toda a sua energia para vencê-las.

Se você está sem forças para viver sua vida devocional, lembre-se que Paulo disse que quando somos fracos é que somos fortes, pois o poder de Deus se aperfeiçoa na nossa fraqueza. É nessa hora, R., em que você se vira para o Senhor e diz “sozinha não posso”. E aprende a depender dele. Nunca deixando, claro, de fazer a sua parte.

As igrejas são imperfeitas, as pessoas são imperfeitas, todos nós somos. Se eu fosse me espelhar em mim mesmo e na minha santidade capenga, jamais frequentaria a igreja. Pois sei quem sou e quão distante estou de quem deveria ser. Mas é exatamente a percepção que tenho quando olho para mim e vejo o quão falho e pecador sou que me faz  olhar com compaixão para as falhas dos meus irmãos e isso me estimula a participar da comunhão. Pois nós, cristãos, somos, sem exceção, um bando de pecadores que amam a Cristo, reunidos em assembleia para cultuá-lo e nos ajudarmos uns aos outros em nossas fraquezas. Não é porque há imperfeições entre – todos – os cristãos que vamos abandonar o culto a Deus. É preciso saber racionalmente disso. Nos meus momentos de maior angústia, foram irmãos da igreja que me aconselharam, choraram comigo, deram seu ombro, compartilharam suas experiências, me apoiaram para ficar de pé. Nem todos farão isso. Mas há muitos irmãos piedosos que vão ser colunas na sua vida. E lembre-se de Hebreus 10.25: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia.”

Compartilho da sua tristeza ao ver cristãos agredindo uns aos outros. Não é o padrão nem o desejo de Cristo para nós, mas hoje entendo que a natureza humana caída muitas vezes faz a carne agir com mais força que o espírito. Aos que agridem temos de estender perdão e misericórdia. Ore por eles. Peça a Deus que os abençoe. O que Paulo manda fazermos sobre isso é algo que pouquíssimos de nós fazem. Mas que precisamos pôr em prática. Tenho tentado. Muitas vezes não consigo. Mas tenho lido este trecho diariamente, há muito templ, e estou tentando torná-lo uma realidade na minha vida, e tenho conseguido única e exclusivamente pela graça de Deus:Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem.  Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram.  Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior. Não sejam sábios aos seus próprios olhos.  Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos.  Façam todo o possível para viver em paz com todos.  Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor.  Pelo contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”.  Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Romanos 12.14-21). Tente. Sei que você vai conseguir. Perdoe.

Isso é dar a outra face. É se deixar ser agredido sem revidar. É ser atacado sem atacar. É fazer o que Jesus fez: como ovelha muda ante seus tosquiadores Ele não abriu a boca. Esse é o padrão bíblico. Se fazemos justiça com as próprias mãos, agimos carnalmente e tomamos do Senhor aquilo que compete a Ele. Não sou eu que digo, R., está aí em Romanos, está no Sermão do Monte, a Bíblia sempre nos orienta que essa é a postura do verdadeiro cristão. Então não sinta raiva dos irmãos que te agridem. Ame-os. Ore por eles. E, se te fizerem mal, faça-lhes o bem. Tenha paz com todos, sabendo que o Senhor é quem retribuirá o mal que lhe fizerem.

Quando você diz “fico me perguntando cadê os verdadeiros cristãos” eu te respondo: olhe-se no espelho e lá você encontrará. Pois verdadeiros cristãos não são anjos flutuando sobre nuvens. São seres humanos, pó, que erram – mas com uma grande diferença: como têm o Espirito Santo habitando em si, se incomodam com o erro e fazem de tudo para não errar de novo.

Tudo o que você me diz sobre como se sente, todos os adjetivos depreciativos que usou para se referir a si mesma, toda a vergonha que expressa sobre a forma que você diz ser pode parecer algo repreensível, pode fazer parecer que você é uma perdida sem esperanças. Talvez seja assim que você se sinta. Mas o que leio nas entrelinhas da sua confissão é uma coisa linda: o Espirito de Deus habita em ti. Você pode se perguntar “como assim?? Pois se estou sendo tão pecadora!!”. Mas repare: é Ele quem convence do pecado, da justiça e do juízo. O homem por si mesmo é incapaz disso. E, se você se sente como descreve, é sinal de que o nosso Pai te ama e está te chamando ao arrependimento. Se Deus não se preocupasse contigo, você estaria pecando sem se incomodar. Esse incômodo prova que o Senhor está te chamando para uma mudança – por amor.

Agora, há um ponto importante, que aprendi com meu pastor: existe uma diferença grande entre remorso e arrependimento. Remorso é o choro que não tem consequência. Arrependimento é o choro que nos faz mudar de atitude. Remorso é carnal, é o que Judas sentiu. Arrependimento é espiritual, é o que Pedro sentiu após negar Cristo. O que é importante agora é você fazer essa angústia que o Espírito de Deus está gerando dentro de si pelo estilo de vida pecador que você está vivendo ter como consequência uma mudança de rumo. Deus está à porta e bate. Você vai abrir a porta do seu coração? Só depende de você.

Repare o que Paulo escreveu aos Coríntios em 2 Coríntios 7.8-11: “Mesmo que a minha carta lhes tenha causado tristeza, não me arrependo. É verdade que a princípio me arrependi, pois percebi que a minha carta os entristeceu, ainda que por pouco tempo. Agora, porém, me alegro, não porque vocês foram entristecidos, mas porque a tristeza os levou ao arrependimento. Pois vocês se entristeceram como Deus desejava, e de forma alguma foram prejudicados por nossa causa.  A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte.  Vejam o que esta tristeza segundo Deus produziu em vocês: que dedicação, que desculpas, que indignação, que temor, que saudade, que preocupação, que desejo de ver a justiça feita! Em tudo vocês se mostraram inocentes a esse respeito”.

Não é lindo? Consigo ver em você essa mesma tristeza. Não é um abatimento de alma destruidor, mas é Deus te chamando para o arrependimento, para a paz, para a salvação, para a dedicação, o temor, a justiça. Acredite, há muito pouco tempo vivi isso. E dói. Sei que dói. Mas o resultado é maravilhoso, se você consegue converter essa tristeza em mudança de rumo.

Quando você diz “Mas eu quero voltar, eu quero voltar para o meu Pai”, só te digo uma coisa: Ele está de braços abertos, apenas esperando. Volte hoje. Volte agora. Não adie um dia sequer. Não adie um minuto. Sinta o abraço do Pai.

E você diz “Que Deus possa me perdoar pela minhas transgressões, pelos meus pecados”. Vou te contar um segredo: Ele pode. Mais ainda: Ele quer. Jesus veio à terra exatamente com esse propósito: perdoar pecados. E existe uma fórmula mágica para isso acontecer, que está em Provérbios 28.13: “Quem esconde os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia“. Tudo o que você tem de fazer é se arrepender (o que suas palavras demonstram que já aconteceu), confessar a Deus os seus pecados e abandoná-los. Pronto. Está feito. Foi para isso que Jesus encarnou, sofreu, morreu e ressuscitou, R., para que você e eu tivéssemos perdão e possamos estar na eternidade com Deus. 

Compreenda que Deus não te despreza porque você errou. Veja que revelação maravilhosa Jesus nos faz: “Eu lhes digo que, da mesma forma, há alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.” (Lc 15.8-10). Você está arrependida? Quer realmente abandonar o pecado? Saiba que os anjos estão em festa.

De modo muito prático, R., recomendo que você acalme-se, respire fundo e busque silenciar. É hora de você se recolher ao silêncio das quatro paredes, só você e Deus. Chore. Derrame sua verdade pelos seus olhos ante o Cordeiro de Deus. Você terá momentos de muita angústia e dor pela sua pecaminosidade nesse processo. Mas, uma vez que o perdão do Senhor vier sobre ti… ah, R., é um gozo sem explicação. Neste momento há muita confusão na sua mente. É hora de se recompor, chorar, gemer e se cobrir de pó e cinza. Mas, depois, lave o rosto, quando você se acalmar, já tendo confessado e abandonado o pecado, retome sua vida devocional com Deus. Sua oração pode ser um sussurro, um gemido. Sua leitura da Biblia pode ser curta, desde que profunda e feita com muita reflexão, para que aquilo que você lê deixe de ser texto e se torne vida prática. Seu jejum pode esperar. Assim, aos poucos, vai recuperando a paz, o equilíbrio e a comunhão com Deus. E tudo ficará bem. A vida ganhará novas cores, você se conhecerá muito mais e terá muito mais ímpeto de agradar o Salvador e de ser íntima e útil para Ele. Sabendo que Jesus de Nazaré não quer te punir: quer te restaurar.

Fique calma. Jesus ama muito você. Não se sinta indigna, sinta-se amada e cuidada. Lembre-se que, se o Espirito está falando ao seu coração, é sinal de que Ele te chama, ama e não desistiu de você. Tenha paz. Fuja do pecado. E volte aos braços do Pai, com coração sincero e contrito.

Oro por ti, minha irmã. Entrega teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais Ele fará. Deus é contigo.

Na paz que excede todo o entendimento,
Mauricio”

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Decidi reproduzir aqui meu diálogo com R. pois sei que há muitas e muitas pessoas que estão passando por o que ela passou. Eu já passei. E, por isso mesmo, posso afirmar: há esperança. Há perdão. Há reconciliação com Deus. E há muito a viver e fazer uma vez que você se põe em pé após passar pelo vale da sombra da morte e/ou pelo lamaçal do pecado. Deus não despreza um coração contrito, afirma a Palavra. Deus não despreza os Seus. Deus não é um carrasco: é um Pai – amoroso, bondoso e perdoador.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari

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Eu e você certamente já escutamos todo tipo de oração: por casa, emprego, casamento, causas na justiça, recebimento de dons, curas e por aí vai, a lista é interminável. Mas rarissimamente você vai ouvir alguém pedir a Deus por… amigos. Amigos? Sim, bons e verdadeiros amigos. Em nossa vida eles são extremamente importantes, desempenham um papel fundamental, são colunas na alegria e na tribulação, mas, ainda assim, parece que não damos muita atenção a isso. Não se vê igrejas organizando “correntes de sete semanas por amigos”, “reunião de intercessão por amigos”, “grande clamor por obtenção de amigos” ou nada do gênero. E penso que essa é uma falha grave em nossa devocionalidade. Pois estamos deixando de solicitar do Pai um dos artigos mais indispensáveis para a caminhada humana.

Em 1996, eu trabalhava no jornal O Globo, um jovem e promissor jornalista, cheio de “amigos”. Afinal, muitos viam em mim alguém que teria um grande futuro profissional: em menos de dois anos de formado tinha passado pelo Jornal do Brasil e sido convidado para ir para O Globo pelo dobro do salário (e não, não estou me gabando, é que no JB eu ganhava muito mal mesmo). Assim, ser meu “amigo” parecia que traria muitas vantagens para quem estivesse por perto quando eu tivesse um upgrade profissional. Só que o inesperado aconteceu: fiquei doente e fui obrigado a deixar o emprego, visto que não conseguia mais usar um computador. A notícia correu pelas redações: Zágari não poderia mais trabalhar, estava inválido para sempre. Não tinha mais nada a oferecer. E foi então que percebi que as dezenas de pessoas que me convidavam para sair, viajar, fazer mil coisas… não eram minhas amigas de fato. Para elas eu era um “contato”. Desempregado e deprimido, fui para casa com a certeza de que muitos e muitos me dariam apoio naquela hora tão difícil. Lembro até hoje quantos amigos me deram um telefonema que fosse para saber como eu estava:

2.

E só.

Bem diz Provérbios 14.20 que “O pobre é odiado até do vizinho, mas o rico tem muitos amigos”. Isso fala de aproximação por interesse, por aquilo que você pode proporcionar. Naquele momento aprendi o que NÃO É um amigo de verdade. Não é quem te bajula, nem quem está por perto para se divertir ou pelo que você possa oferecer. Não é quem precisa de você porque a bola do jogo é sua ou fica sempre falando somente de si. Não é o que te pergunta se está tudo bem sem real interesse de ouvir a resposta. Tampouco conviver todos os dias, muitas horas por dia, garante algo – passar muito tempo junto também não faz um amigo, faz colegas. Não, nada disso é amizade. E, naquela época, vi de perto a falta que o calor humano faz.

Tudo isso voltou à minha mente quando um irmão querido que conheci por meio do APENAS me escreveu um email contando como se sente solitário e sem amigos. E lembrei então da oração que fiz naquela época, quando, deprimido e só, resolvi erguer a Deus o clamor tão inusitado: “Senhor, dá-me amigos…”. E Ele deu. Conheci pessoas em pouco tempo que até hoje, 16 anos depois, são capazes de tirar a roupa do corpo para me vestir. E eu a elas. E de lá para cá o Pai tem acrescentado mais alguns a essa lista, que faço questão de manter seleta e restrita. Hoje só entram nela aqueles que nos momentos de maior adversidade em minha vida doaram-se por amor sem pensar em si mesmos. Ou aqueles por quem eu pude fazer isso. Pois descobri que essa é a grande e maior prova de amizade que existe. Biblicamente falando.

Amigos, pela ótica bíblica, são pessoas que gostam de você de graça (ou com graça), isto é, a despeito de qualquer coisa. Com quem não vai concordar em tudo, mas que continuará amando do mesmo jeito. Que estarão do teu lado apesar de todos os teus defeitos, tuas falhas e teus pecados. São aqueles que servem de coluna na sua vida, que saem no meio da noite do calor de sua casa para te ajudar no frio da escuridão da rua. Amigos são vidas que abrem mão de  algo importante para elas por você.

Sim, fui à Bíblia tentar entender o padrão divino de amizade. E percebi que, acima de tudo, segundo as Escrituras é isso o que determina de fato o que é um amigo: é alguém que abre mão de si por você. Palavras do próprio Jesus, em João 15.13: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos”. Abdicar de si. Deixar o próprio conforto pelo outro. Dispor do seu tempo em favor do amigo. Ouvir com interesse e empatia. Suportar os defeitos. Amparar. Brigar por ele. E nunca virar as costas, não importa o quê – em especial nos momentos de maior tribulação. Pois é nessa hora que você descobre quem de fato é seu amigo, como diz Provérbios 17.17: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”. Nada como um bom momento de angústia para você peneirar quem de fato te considera um amigo.

Aprendi lendo a Bíblia que amizade se prova na hora em que temos tudo para abandonar o amigo e não o fazemos. Aprendi com Salomão, em Provérbios 27.10: “Não abandones o teu amigo, nem o amigo de teu pai, nem entres na casa de teu irmão no dia da tua adversidade. Mais vale o vizinho perto do que o irmão longe”. Sim, eu já tinha descoberto na prática o que não é um amigo. Depois descobri na Bíblia o que É.

Essa é um recomendação que faço com ênfase: se você nunca orou a Deus pedindo amigos verdadeiros, não perca tempo e ore. Peça amizades reais, desinteressadas e que não desaparecem quando vem a ventania.

Jesus tinha doze amigos. Mas na hora em que ele mais precisou, cada um pensou só em si mesmo, escondendo-se para salvar a própria pele. Todos o abandonaram… com exceção de um. Sim, só um, João, ficou aos pés da cruz, sofrendo com Cristo, correndo o risco de ser preso, torturado e morto também. Prova de que o perigo pessoal importava para ele menos do que prestar solidariedade e carinho ao seu amigo naquela hora de dor.

E eu acredito ser essa a razão de ele ter sido, dentre todos, “aquele a quem Jesus amava”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício