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Arte1Minha esposa ganhou convites para o espetáculo de patinação “Disney on Ice”, em que diversos personagens da Disney dançam e deslizam em belas coreografias sobre o gelo. Nunca tinha assistido a nada do gênero, não fazia ideia de como era. Por isso, levamos nossa filha ao Maracanãzinho. Lá estava eu, com minha filhinha de 2 anos no colo, quando, no meio do show, entraram em cena todos os bruxos e bruxas dos desenhos da Disney, numa grande e animada coreografia. Confesso que me assustei e me preocupei. Deveria eu deixar minha doce e inocente filha ficar vendo feiticeiras e feiticeiros num cativante espetáculo de som e luz? Será que aquilo despertaria seu fascínio pelo assunto? De algum modo aquilo a levaria a se tornar uma satanista, uma adepta da bruxaria, uma depravada, uma apóstata ou mesmo uma cristã mística que dedica mais tempo ao diabo do que a Deus? Deveria eu me levantar e ir embora? A dúvida me consumia, quando entraram em cena Mickey, Minnie, Pateta e Pato Donald e, em meio a muita algazarra, expulsaram todos os bruxos de cena, enquanto a música celebrava a vitória do bem sobre o mal e a criançada ia ao delírio com a derrota das forças malignas. Sussurrei no ouvido de minha filhinha: “Tá vendo, filha, Jesus deu um jeito de fazer os maus irem embora”. E ela começou a gritar, animada: “Sai, bruxa má!”.  Esse episódio me fez refletir muito sobre qual é a diferença entre mencionar algo que vai contra os valores do Evangelho e defender esse algo. Até que ponto discorrer sobre um pecado estimula a prática desse pecado?

Minha conclusão é que entre mencionar e defender a diferença é monstruosa. No entanto, muitos de nós, cristãos, não conseguimos enxergar essa fronteira. Uma das áreas em que isso fica mais claro são as artes, haja vista as antigas polêmicas que envolvem questões como “música gospel X música do mundo”, “crente pode ir ao cinema?” etc. Sei que essa é uma discussão sem fim, que desperta paixões e defesas arraigadas, impulsivas e até agressivas (por favor, seja gentil ao discordar de minhas posições nos comentários…), sei que tem gente que considera a Disney um império satânico (graças a uma série de fitas de videocassete que um pastor com intenções que só cabe a Deus julgar lançou anos atrás, com algumas verdades sobre mensagens subliminares mas também com muitos exageros). Todavia, gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre o assunto.

Arte4Sempre defendi que não devemos deixar nossos filhos expostos de peito aberto a literaturas e filmes como os das sagas “Harry Potter” e “Crepúsculo” (perceba: eu disse “de peito aberto” e não que devemos proibi-los totalmente de ler tais obras). E explico por que precisamos nos acautelar com esse tipo de literatura: durante séculos, toda e qualquer representação de bruxos era sempre aquilo que a bruxaria de fato é: má. A bruxa da Branca de Neve, a bruxa da Bela Adormecida, a bruxa dos desenhos do Pica-Pau, a bruxa de Monteiro Lobato… todas as bruxas, enfim, sempre foram retratadas como alguém que joga no time do mal. Suas histórias nos estimulavam a fugir da bruxaria e a repudiá-la. Harry Potter não. Na série do bruxinho bonzinho, o bruxinho é… bonzinho. Essa é exatamente a questão. Ele é o herói. Ele é o tal. Ele é bacana. Ele é quem nossos adolescentes querem ser quando crescer. Eis aí o problema: o bruxo é o cara.

Arte7Nas histórias da saga “Crepúsculo” acontece o mesmo. Embora vampiros, ao contrário de bruxos, sejam seres fictícios, nessa saga eles são lindos, sedutores, charmosos, os galãs por quem as meninas suspiram. Mas os personagens vampiros são e sempre foram criaturas das trevas. Se você lhes aponta a cruz de Cristo o que eles fazem? A abraçam? Ou fogem? Então seres das trevas que fogem da cruz passaram a ser glorificados pela ficção. Até bem pouco tempo atrás os vampiros dos livros e dos filmes eram sempre tenebrosos, horripilantes, assustadores. “Crepúsculo” mudou isso e tornou desejável ser ou admirar alguém que foge da cruz de Jesus. É tudo uma questão da mensagem que é transmitida.

Então vemos que um pano de fundo belo pode ser o cenário para a transmissão de valores bem ruins do ponto de vista bíblico. Por exemplo: já expus em posts como “Cristão deve ouvir música do mundo?” e “O que é boa música evangélica?” que não vejo base bíblica para proibir cristãos de ouvir músicas seculares cujas letras não sejam antibíblicas. Mas isso deve ser sempre com cautela, analisando cuidadosamente e à luz das Escrituras aquilo que se consome. Para fazer um teste sobre isso decidi, por curiosidade pessoal, analisar letras de músicas de um artista que não é do meu gosto musical (e que, por isso, praticamente desconhecia seu repertório), mas que foi indicado por um homem de Deus a quem respeito muito e que gosta dele. Por essa razão decidi analisar as letras de suas canções e encontrei, em meio a muitas músicas inofensivas e bonitas aos ouvidos, também muitas que visivelmente contrariam o Evangelho e seus valores.

Arte3Minha cobaia foi Ivan Lins (que fique claro que nada aqui versa sobre a pessoa desse artista, apenas sobre as letras das canções que interpreta). Fiquei surpreso e assustado com a quantidade de valores antibíblicos em muitas de suas letras. “Vitoriosa”, “Porta entreaberta”, “Dinorah, Dinorah” e “Lembra de mim”, por exemplo, defendem uma sexualidade contrária ao padrão que as Escrituras estabelecem. Ainda nessa área, “Ai, ai, ai, ai, ai” exalta a paixão sexual ultrarromântica, assim como “Arrependimento”, que diz “Te amo, te amo, te amo / Mais que tudo, mais que Deus”.  “A gente merece ser feliz” e “Daquilo que eu sei” defendem o hedonismo. “Caminhos cruzados” advoga o amor irracional. “Acaso” transgride a soberania de Deus ao atribuir ao acaso fatos da vida. “Lua soberana” louva Iemanjá. Em “Ainda te procuro” a alusão é a buscar o amor nas cartas de uma cigana e em “Então é Natal” se insere no meio da música o mantra dos Hare Krishnas, “Hare Rama”. Já “Festas” passa uma noção totalmente equivocada do que é o Natal. A canção “Cartomante” faz um salada ecumênica: “Tenha paciência, Deus está contigo / Deus está conosco até o pescoço / Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes / Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias”.

E por aí vai.

Ou seja: nem tudo o que parece inocente apresenta valores bíblicos. Em tudo precisamos aplicar o tão falado discernimento.

Agora é preciso observarmos o outro lado da moeda: uma obra de arte apenas relatar histórias de pecados, idolatria, práticas equivocadas e tudo o que há de pior não a condena. Que o diga a própria Bíblia, que relata tudo isso e muito mais, da queda de Adão e Eva aos pecados das igrejas de Apocalipse, passando pelos de Abraão, Moisés, Noé, Jacó, Davi, Pedro, Paulo e muitos outros. O problema, a meu ver, é quando a obra defende a prática.

Arte4Já vi cristãos bons e sinceros desmerecerem livros magníficos, como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura “Cem anos de solidão”, que relata, dentro do realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, histórias extraordinárias e explicitamente fantasiosas com pecados gravíssimos, mas sem estimular ninguém a agir daquela forma. Ou “Crônica de uma morte anunciada”, do mesmo escritor, um excelente livro que fala do comportamento humano ante a morte certa. Ou, ainda, “O amor nos tempos do cólera”, uma linda história que tem como mensagem principal o fato de que o amor verdadeiro não depende de tempo, mas sim da pessoa (Jacó, que teve de trabalhar 14 anos por Raquel, que o diga). Imagine se fossemos condenar todos os livros de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, por exemplo, por sempre versarem sobre crimes. Sherlock Holmes, a propósito, é viciado em cocaína e há roubos e assassinatos em praticamente todas as suas histórias – mas nunca se faz nelas defesa dessas práticas.

Enfim, o que consigo ver na produção artística de variados segmentos, como a música, a literatura, a pintura, a escultura e outras artes é tanto a defesa (provavelmente inconsciente, na maioria dos casos) de valores antibíblicos (como nas músicas citadas acima) quanto a exposição não panfletária de nudez (como a Vênus de Milo, que pratica topless e deixa seu “cofrinho” à mostra – ver fotos) e a representação de um amor arrebatador, desesperado e ultrassexualizado (como em Cantares de Salomão – na Bíblia). Aliás, para quem lê Cantares entendendo o que lê, o comportamento sexual da família Buendia de “Cem anos de solidão” parece história de ninar. Vênus de MiloDeveríamos remover o livro mais erótico da Bíblia do cânon sagrado por causa disso? Ou, talvez, deixar de publicar a Bíblia? Quem sabe ainda proibir nossos filhos de ler as Escrituras, porque citam sexo, bruxaria, assassinatos, genocídios, adultérios, demônios e outras coisas terríveis?

Uma coisa é defender. Outra é relatar. Creio que, por esse pudor bem-intencionado (é importante frisar isso) porém desconectado da realidade, especialmente da realidade em que vivem os nossos jovens, uma grande parcela da Igreja tem falhado profundamente em orientar as novas gerações. Não é à toa que nossas igrejas estão cheias de adolescentes solteiras grávidas e de adultos que nãos sabem como proceder com relação às artes. Pois enquanto o mundo cai batendo sem piedade, nós ainda falamos da abelhinha do papai pousando na flor da mamãe.

Há uma guerra grave e severa no mundo espiritual e, consequentemente, nas instâncias humanas, por nossos corações e mentes. Falo de camarote: eu mesmo já fui vítima dessa guerra e cometi pecados para os quais hoje, após o arrependimento, olho com muita tristeza, profundo lamento e sem acreditar que fui capaz de cometer tamanhas atrocidades. Só que cometi e hoje, embora perdoado por Deus, carrego as cicatrizes – e para sempre as carregarei. Guerras são assim: deixam mortos e feridos por todos os lados e, se você não está bem protegido num abrigo antiaéreo, será atingido. No caso, nosso abrigo chama-se Jesus de Nazaré. O mundo está usando AR-15 e tanques, enquanto nós entramos com estalinhos e pistolas de água. Fica fácil ver de que lado a corda vai romper, se continuarmos nesse caminho. Temos de proteger nossos filhos para que eles não cometam os mesmos erros abomináveis que nós cometemos no passado – e essa proteção deve ser efetuada não com alienação, mas com oração e as indispensáveis informação e instrução (sempre de forma adequada para cada faixa etária, claro). Por ter cometido pecados que hoje abomino tenho de lutar de forma arraigada para que minha filha não os cometa.

Arte7O problema é que estamos empreendendo essa luta da forma errada. Pois, em grande parte, nós, cristãos, acreditamos que a alienação é a saída: não deixe ter acesso e está tudo certo; proíba a leitura e seu filho nunca vai pecar. Só que alienação não cria jovens santos: cria jovens alienados. Isolamos nossas crianças e nossos adolescentes, em vez de instruir e ensinar. Proibimos em vez de dialogar (como se eles não fossem ler escondido ou na casa do coleguinha). A saída não é propor uma abstinência dos livros que ganharam o Prêmio Nobel só porque eles relatam histórias de pessoas que pecam, mas estimular que leiam e então discutir com eles o que ali está relatado. Quando leio para minha filha de 2 anos a história do Patinho Feio, explico que discriminar os outros porque são fisicamente diferentes é errado, é racismo, mas não a proíbo de conhecer a história. E, quando leio Chapeuzinho Vermelho, falo sobre a maldade do lobo em oposição à bondade de Chapeuzinho, não a proíbo de ter acesso por se tratar de um livro violento (lembremos que o lobo é sumariamente executado no final). Que dizer então do Gato de Botas, um mentiroso frio e calculista que, para se dar bem na vida, inventa mil ardis para enganar o rei, incentiva outras pessoas a mentir, assassina sem piedade o gigante para poder usar o castelo dele em seu plano maligno de ascensão social e no fim… vive feliz para sempre. Leio com minha filha a história, mas explico cada erro cometido, cada equívoco. E, sabe… hoje minha filha não vai muito com a cara do Gato de Botas.

Sou a favor da boa música, secular ou cristã. Sou a favor da boa literatura – secular ou cristã. Sou a favor das boas artes plásticas – seculares ou cristãs. Não deixarei de estimular minha filha a ler a magnífica obra de Gabriel Garcia Marquez, mas vamos conversar muito sobre as mensagens de seus livroArte6s – as boas e as más. Não deixarei de levar minha filha para ver os quadros da fase negra de Goya (ao lado) devido à violência e ao mal retratados neles – mas lhe contarei por que aquelas imagens são assim. Não vou fugir das galerias do Louvre onde estão estátuas greco-romanas de homens nus, mas instruirei minha filha sobre os conceitos estéticos vigentes naquelas culturas e o que podemos tirar daquilo. Bem orientada, não creio que nada disso a tornará uma depravada. Pelo contrário, a deixará instruída e prevenida. Até porque, em paralelo, estarei ensinando a ela o Evangelho, explicando por que Deus mandava seu povo dizimar nações à espada, permitia a poligamia, mandava apedrejar pessoas até a morte, ordenava que cunhados se casassem só para gerar descendentes e outras práticas bizarras que ali são relatadas mas não estimuladas na nova aliança.

Porque, sejamos coerentes, se formos simplesmente proibir nossos jovens de ler livros que contêm violência, relatos de atos sexuais ilícitos e depravados, histórias de pecados horripilantes, descrições extraordinárias de anjos duelando com demônios e relatos de experiências de seguidores de doutrinas de demônios… nenhum deles jamais leria a Bíblia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Gracas1Um dos trechos mais interessantes da Bíblia, em minha opinião, é 1 Tessalonicenses 5.18: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. Como assim, “em tudo, dai graças”? Temos de ser gratos a Deus pela dor, a tristeza, o sofrimento, a solidão, a depressão, o desamor, o abandono, a tragédia, as heresias, a falsidade, a acusação, a traição… em tudo o que ocorre de pior em nossa vida? Sejamos francos: nós não sentimos vontade nenhuma de agradecer a Deus nessas horas, queremos mais é brigar com Ele, alardear o quanto somos fiéis e não merecemos aquilo, ficar de mal com o Senhor, questionar sua bondade, sua justiça e seu amor. Soube recentemente de uma mulher, evangélica, que perdeu o irmão de 28 anos de câncer e, ao receber a notícia de sua morte, soltou um grito no hospital:

- Deus F.D.P.!

Chocou? A mim também. Como pode isso? Essa blasfêmia, esse ato impensável? Mas a verdade é que muitos não têm coragem de dizer isso quando vem a desgraça… mas que pensam, ah, isso pensam. Estou errado? Porque a verdade é que nós não conseguimos conceber Deus deixar coisas ruins acontecerem em nossa vida. Com um ímpio vá lá, mas comigo?! Eu que sou tão obediente?! Vamos pensar um pouco sobre esse versículo. Mais ainda: vamos pensar um pouco sobre gratidão.

Graca2A chave do “em tudo dai graças”, para mim, vem alguns versículos antes: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para recebermos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5.9). O que isso significa? Façamos uma parábola: imagine que você está em um navio que naufraga. Você está ali, em alto-mar, nadando com suas últimas forças para sobreviver. Sente câibras, percebe que não há salvação para você: seu destino certo é a perdição, é afundar na escuridão do abismo submerso, ser devorado pelos peixes. De repente, desponta no horizonte uma luz. É um navio! O capitão da embarcação o viu de longe, desviou seu curso e, cheio de compaixão, partiu em sua direção. Quando você já está meio metro abaixo da superfície, ele lhe lança uma bóia. Você está salvo! Foi resgatado! Assim, você sobe a bordo, exausto, desgrenhado e rasgado – e recebe, sem que esperasse, o direito à vida.

Eu lhe perguntaria: qual seria diante dessa circunstância o seu sentimento pelo resto da vida para com aquele capitão? Provavelmente você diria algo como “eu seria eternamente grato a ele”. E diria com razão, porque o que ele fez foi algo que merece que você lhe seja agradecido pelo resto de seus dias. Ao chegar a bordo, exausto e encharcado, num primeiro momento, instintivamente, você pula no pescoço dele, o abraça com todas as poucas forças que ainda tem e repete em voz fraca: “Obrigado… obrigado… obrigado… obrigado…”. Não quer soltar a mão do bondoso capitão. Aquele homem renovou a esperança de vida para alguém que tinha a certeza da morte! Você o ama! Promete devotar o resto de seus dias a sentir gratidão por ele.

Gracas3Só que aí o navio prossegue na viagem. Vocês estão a meses do porto mais próximo, então você se recupera e acaba se integrando à rotina do navio. O capitão chega e lhe dá uma atribuição: você terá de descascar pilhas de batatas por dia para alimentar a tripulação. Em princípio parece chato, mas, afinal, o homem te salvou, é o mínimo que pode fazer. Só que as semanas passam e aquilo fica cansativo. Seus dedos doem. É entendiante. E você começa a reclamar. E não é só isso: ele deu um canto cheio de graxa para você dormir no porão da embarcação. Cheira mal, é barulhento, tem ratos, o colchão é duro. Logo, logo você se pega reclamando. Foi para aquilo que ele te resgatou? Para você ter de encarar toda aquela situação deprimente? Poxa, e você estava se esforçando tanto, era-lhe tão fiel, descascava tantas batatas por dia! Era uma injustiça! Você não merecia passar por aquilo!

Você começa a desconfiar que o capitão te salvou apenas para ter mão-de-obra barata. Se junta aos tripulantes que falam mal dele. Murmura pelas costas. O acusa de injusto, de não ter amor por você por permitir que passe por aquela situação humilhante e dolorosa. Aquele capitão é um crápula. Chega a pensar em abandonar o barco na primeira oportunidade que tiver. Vida desgraçada, capitão maldito!

Graca5O que você não sabe é que o capitão tem bons informantes e sabe tudo o que você diz. Um dia ele se aproxima de você. Cheio de amor, fala: “Eu não o destinei para a ira, mas para receber a salvação por meio deste navio”. E então, diante daquelas palavras, parece que tudo faz sentido. Você percebe que a pilha de problemas – o desconforto, o trabalho, o enfado, a chateação, o sofrimento – era algo muito pequeno perto do que o capitão fez por você. Ele não precisava, não tinha obrigação nenhuma, mas lhe estendeu a mão e o recolheu da morte certa. E simplesmente porque ele quis. Não porque você merecesse. Tudo o que você estava fazendo era se debater na água. Ia afundar, era absolutamente certo. Mas ele veio. Parou. Te resgatou. Te abrigou. Te deu alimento. Te deu um lugar para repousar. Ali você teria aflições? Naturalmente! O navio era bem desconfortável. Mas aquele homem te deu vida, não seria motivo suficiente para ter bom ânimo?

Mais do que isso: não seria motivo mais do que suficiente para… em tudo dar graças?

Deus nos deu a salvação. É motivo suficiente para em tudo darmos graças. Para em todos os piores momentos da vida, quando nos sentimos os mártires do universo… agradecermos. “Obrigado, Senhor, porque estou passando pelo vale da sombra da morte. Mas, se tu não tivesses me resgatado, eu estaria morto. Afogado em meus pecados. Afundando rumo ao inferno”. Depois disso, tendo clareza dessa realidade, só nos resta dizer, em meio aos piores dos piores momentos da vida: “Deus… obrigado… obrigado… obrigado…”.

Gratidão. Que nunca nos esqueçamos disso. Deus nos deu a vida eterna. Gratidão é o mínimo que podemos dar em troca.

Graca6Hoje, 14 de maio de 2013, o blog APENAS completa dois anos de vida. Quis que o tema de hoje fosse especificamente gratidão em ação de graças a Deus por esses dois anos em que ele tem me dado forças e ideias para continuar escrevendo aqui e, quem sabe, ajudando uma vida, edificando outra, somando de algum modo. Nesses dois anos, descasquei muita batata, reclamei muito, fiz muitas besteiras e realizei algumas coisas boas. Com certeza aprendi muito. Tive o privilégio de ter as 245 singelas reflexões que já postei neste blog lidas em cerca de 710.000 ocasiões. Foram mais de 15.000 comentários deixados aqui ao longo desse período, por irmãos que aguentam minha demora em aprová-los e respondê-los, devido à constante falta de tempo (me perdoem por não conseguir moderar todos com rapidez, eu tento… mas nem sempre consigo). Ganhei até aqui quase 1.700 companheiros fiéis de caminhada, que tiveram a coragem de assinar este blog e têm a paciência de receber por e-mail uma, duas vezes por semana aquilo que aqui escrevo.

Sou grato a Deus por me permitir, como bem disse um dos irmãos que escreveram nos comentários, “ser um cano enferrujado por meio do qual corre a água da vida”. Sou grato a você por ter a paciência de ler minhas reflexões, em posts mais longos do que habitualmente são os textos de blogs – e que são fruto da minha incapacidade de sintetizar pensamentos complexos. Muito obrigado pelo seu carinho nessa caminhada internética e por vir me visitar de vez em quando aqui no meu pequeno mosteiro virtual. Sinto-me profundamente honrado.

Gratidão. Por hoje é o que basta.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

DoençaDomingo passado fiquei profundamente tocado ao saber que uma irmã da igreja recebeu a notícia de que está com câncer. A previsão é de pelo menos um ano e meio de tratamento, quimioterapia e tudo o mais a que tem de se submeter alguém que é acometido por essa moléstia. Jovem, cristã, casada com o baterista do grupo de louvor… oramos juntos durante o culto – eu, ela e seu marido. Choramos. Pedimos a cura. E meus olhos demoraram algum tempo para secar, pois parecia que conseguia sentir em mim a dor e a ansiedade daquele casal, já em antecipação pelos meses de batalha que terão pela frente. Esse episódio me afundou em reflexão sobre uma das questões mais antigas entre os cristãos: como aceitar a ideia de um Deus bondoso e misericordioso deixar seus filhos enfrentarem doenças que causam dor e sofrimento? Eu tenho uma teoria.

Para falar sobre isso, antes de mais nada devemos nos lembrar de que estamos vivos e, como tal, sujeitos a todo tipo de doença. Parece meio óbvio, mas – acredite – para muitos não é. Há uma crença disseminada em muitas igrejas, com base em Isaías 53, de que Jesus curou todas as doenças do universo Doença1na cruz e basta termos fé que o interruptor da cura será acionado. Não acredito nisso. Acredito que, em sua soberania, Deus é capaz de me manter doente por mais que eu tenha a fé maior do mundo (se quiser se aprofundar no assunto, pode ler o post “E quando Deus não cura? – Parte 2/2“). Acredito no “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Enquanto estamos vivos, habitaremos em corpos frágeis, aglomerados de tecidos e líquidos sujeitos a doença, degradação, falência, decadência. A salvação não blinda nossos corpos contra bactérias, vírus, torções, multiplicação descontrolada de células (tumores), fraturas, amputações, dores e centenas de outros tipos de problemas de saúde que podemos ter. A salvação é espiritual e não corpórea. Salvos e não salvos ficarão doentes do mesmo modo. A vida nos prova que isso é fato.

Se você não crê nisso, pense em uma coisa. Islâmicos ficam doentes e são curados. Espíritas ficam doentes e são curados. Budistas ficam doentes e são curados. Hindus ficam doentes e são curados. Xintoístas ficam doentes e são curados. Candomblecistas ficam doentes e são curados. Satanistas ficam doentes e são curados. Ateus ficam doentes e são curados. Cristãos ficam doentes e são curados. Simplesmente porque todos os fieis de todas as religiões fazem parte do mesmo grupo de seres: humanos. E humanos ficam doentes. Humanos produzem anticorpos. Humanos reagem a  medicamentos. Humanos ficam curados. E humanos também morrem.

Doença2Meu pastor eventualmente diz: exceto por um acidente ou um assassinato, ninguém “morre de morte”. Todos morremos de doenças. De falhas no funcionamento do organismo. Desconsidere quem morre por fatores de origem externa, como tiros, facadas, atropelamentos, afogamentos ou similares. Os demais morrerão de AVC, infarto, malária, dengue hemorrágica, pneumonia e centenas de outros tipos de problemas orgânicos. Ninguém morre de velhice: velhos morrem porque seus organismos não comportam mais a vida e, por isso, algo falha, uma doença os acomete e chega o momento da partida desta existência material. Se todos os cristãos fossem ser curados de tudo, nenhum de nós morreria. Lembre-se de que todo mundo que um dia foi curado de algo – seja por atendimento médico ou por um milagre – no fim acabará sucumbindo a outro mal. Ou você acha que Lázaro, o irmão de Maria e Marta, está vivo até hoje?

Então, somos espíritos infinitos que habitam corpos finitos. Vamos adoecer. Vamos morrer. É bom estarmos cientes disso.

Você poderia dizer: “Ok, Maurício, tudo bem, todos vamos ficar doentes e morrer um dia, mas precisamos sofrer tanto com certas doenças tão terríveis?”. Vamos analisar alguns casos bíblicos. Miriã, a irmã de Moisés, ficou leprosa, pela vontade do Senhor. Jó, o homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal, ficou cheio de tumores na pele, pela vontade do Senhor. Doença3O próprio Lázaro, um dos melhores amigos de Jesus, adoeceu, como explicou o Mestre, “para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela [a doença] glorificado”. O cego de nascença de João 9 carregava essa condição por anos, para, segundo Jesus, “que se manifestem nele as obras de Deus”. Até aqui falamos de lepra, tumores, cegueiras e uma doença mortal indefinida, todas enfermidades terríveis. Mas tem mais: muitos são os relatos, de Êxodo a Juízes, de circunstâncias em que o Senhor amoroso enviou doenças, pragas e pestes ao seu povo, o povo eleito, o povo escolhido, para que aprendesse que não havia outro Deus além dele e abandonasse a idolatria. E não nos esqueçamos do espinho na carne de Paulo que, é possível, talvez fosse uma doença. E estamos falando do grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado ao céu… mas para quem a graça de Deus bastava.

Agora eu pergunto a você: o que têm em comum todas essas circunstâncias, em que, pela ação direta de Deus, membros do seu povo, pessoas que ele amava e a quem queria bem –  Miriã, Lázaro, Jó e tantos outros – acabaram sendo acometidos por doenças horríveis e que causaram tanto sofrimento? O que vejo em comum a todos esses casos é o desejo do Senhor de que venhamos a aprender lições importantes por meio das enfermidades.

Veja: Miriã foi vencida pela soberba e a lepra veio para lhe ensinar humildade. Paulo (se é que o espinho na carne foi uma moléstia) recebeu a lição de que a graça de Deus é o que há de mais importante. O povo israelita sofreu muitas vezes com pestes para aprender que a obediência e a fidelidade ao Todo-poderoso são vitais. Jó sofreu para que bilhões de judeus e cristãos ao longo dos milênios aprendessem com sua história sobre a soberania divina. O cego e Lázaro padeceram para que bilhões de indivíduos aprendessem que o mais importante de tudo é a glória de Deus.

Doenças e aprendizado andam de mãos dadas desde o Éden. Andavam na época do Antigo Testamento, continuaram andando após a vinda de Jesus, andam ainda em nossos dias e seguirão andando até a consumação do século. Deus sabe que somos pó e, muitas e muitas vezes, o aprendizado sobre a obediência, a graça e a glória de Deus vêm mediante um instrumento pedagógico chamado doença (que, infelizmente, carrega a reboque dor e sofrimento).

Muitos poderiam dizer que esse tipo de pensamento não coaduna com a essência de um Deus que é amor. É exatamente por isso que precisamos entender os fatos do dia a dia pela óptica do Senhor e não pela dos homens. CoDoença4mpreenda uma coisa: quando o Pai olha para você, ele não está enxergando somente os míseros 70 anos de vida durante os quais a sua alma estará na terra – tão preciosos aos seus olhos humanos. Ele está vendo de uma perspectiva muito mais elevada, o Senhor contempla os milhões, bilhões, trilhões, quatrilhões de anos que você terá de vida eterna. Se essa matemática lhe parece nebulosa, perceba que, se a eternidade tivesse apenas 1 milhão de anos de duração, nela caberiam 14.285 vezes o tempo de vida de alguém que vive na terra 70 anos. E, lembre-se que a eternidade vai durar milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões (e por aí vai, indefinidamente) de anos. Ou seja: uma eternidade que tivesse somente 1 milhão de anos equivaleria a 14.285 vidas terrenas.

Diante disso, sinceramente, o que você acha que é mais importante para o Senhor? Suas poucas décadas aqui ou sua existência eterna? Se for preciso fazer você enfrentar alguns anos de aperto agora que promoverão um aprendizado benéfico para toda a eternidade, o que você acha que ele fará? No lugar dele, o que você faria?

Doenla5Eu estava brincando de massinha de modelar com minha filha de 2 anos quando vi que ela ia enfiar um pedaço daquela substância tóxica na boca (e, se eu não visse, possivelmente engolir). Num reflexo, dei um grito. A pobrezinha tomou um susto, pois não está acostumada a ouvir papai gritar com ela. Paralisou. Fez beicinho. E começou a chorar. Tomei-a em meus braços, a acalmei e depois lhe expliquei a razão de ter gritado com ela: evitar um mal maior. Ela compreendeu, enxugou as lágrimas, apertou meu pescoço num abraço e me deu um beijo. Quase nunca grito com ela, mas se você me perguntar se eu gritaria de novo se tivesse de reviver aquela situação, afirmo que berraria quantas vezes fosse necessário, pois a amo e prefiro que ela sofra um pouquinho por algum tempo do que sofra muito por muito tempo. Por que com Deus seria diferente? O amor de Deus por nós é tão, mas tão grande, que ele deixa que fiquemos doentes.

Deus olha para mim e você sempre, sempre e sempre a partir da perspectiva da eternidade. Ele quer nosso bem eterno. Se para isso for preciso que soframos um tanto de tempo nesta vida terrena e, assim, aprendamos importantes lições que impactarão diretamente nosso relacionamento e nossa intimidade com o Senhor pelos zilhões de anos que teremos entre a doença e a eternidade, afirmo que Deus nos enfermaria quantas vezes fosse necessário. Por quê? Em linguagem bíblica, “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Co 4.17-18).

Sim, ficaremos doentes. Sim, homens bons e íntegros, cristãos fieis, servos cheios de fé… todos ficarão doentes. Sim, todos os que adoecerem sofrerão. Sim, devemos orar pelos enfermos na esperança de sua restauração. Sim, remédios curarão muitos. Sim, milagres curarão alguns. Sim, muitos morrerão. Sim, no fim todos morreremos. O que fará a diferença é o quanto teremos capacidade de tirar de aprendizado de toda a dor e o sofrimento que precisaremos encarar.

Doença5Quando Jó finalmente parou de questionar as razões de sua doença e aprendeu o que Deus queria que ele aprendesse, disse: “Certo é que falei de coisas que eu não entendia, coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber.  [...] Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram.  Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.3-6). Quatro versículos depois, Deus acaba com o sofrimento de Jó. Será coincidência? É por isso que eu sempre recomendo: se você está doente, junto à oração pela cura ore a Deus perguntando o que Ele quer que você aprenda com aquela enfermidade. Há uma grande chance de seu sofrimento ser abreviado se você aprender o mais rápido possível o que Deus quer que você aprenda. Essa é uma certeza canônica? Não, a Bíblia não afirma isso. Mas é no que eu creio.

Que em meio à doença aprendamos mais sobre santidade. Sobre obediência. Sobre a graça de Jesus. E, por fim, sobre a glória de Deus.

Doença6Eu choro pela minha irmã que recebeu o diagnóstico de câncer. Fico muito, muito triste – e domingo fiz um compromisso comigo mesmo de orar diariamente por ela. Não queria que ela passasse por isso. Jesus, na noite de sua paixão, entrou em depressão a tal ponto por causa do sofrimento que teria de enfrentar que Mateus 26 registra: ele “começou a entristecer-se e a angustiar-se” e disse a seus amigos: “A minha alma está profundamente triste até à morte”. Pois a dor… dói. E de sentir dor quem gosta? Mas o sofrimento de Jesus trouxe benefícios eternos. O Pai sabia disso e, por essa razão, não afastou de seu Filho amado o cálice do sofrimento. Por isso, muitas vezes o compassivo e bom Deus deixa que também nós bebamos do cálice do nosso sofrimento: para que aprendamos algo que virá a trazer benefícios eternos. O que cada um de nós tem de aprender com nossas doenças? Não faço ideia (para cada pessoa há um aprendizado específico). Mas Deus faz.

De minha parte, sei que a graça dele nos basta. E que a ele seja dada toda a glória, pelos séculos dos séculos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Nicole1Há poucos dias, liguei a televisão, num daqueles momentos em que você zapeia por todos os canais e não encontra absolutamente nada que te interesse. Acabei sintonizando em um programa bizarro, a que nunca assistira antes: o Face Off, do canal SyFy. Trata-se de um reality show estadunidense em que artistas de maquiagem disputam um prêmio em dinheiro criando, a cada episódio, criaturas iguais às de filmes de ficção cientifica. Monstros, cyborgues, vampiros, alienígenas, esse tipo de coisa. Aquilo chamou de imediato minha atenção porque, na hora em que sintonizei, estavam entrevistando os três finalistas do programa antes de anunciar o vencedor. Um deles, a jovem Nicole Chilelli (na foto, de camisa azul), estava, naquele exato momento, falando sobre como conseguia viver e trabalhar, apesar de sofrer com uma terrível doença chamada fibromialgia (que faz seu corpo inteiro doer, o tempo todo, entre outros sintomas horríveis – e não tem cura). Nicole falava sobre como ela, cuja mãe padece da mesma moléstia, lidava com aquilo no dia a dia e como encontrava motivação e disposição para superar aquerle horror e continuar vivendo.  Confesso que, à medida que ela falava sobre sua luta pessoal, lágrimas desciam pelo meu rosto. E já explico por quê.

Nicole2Nós, seres humanos, temos a tendência natural de reclamar de tudo, nos lamentar por qualquer coisa. Em linguagem bíblica, murmurar. A famosa murmuração que levou Israel e ficar rodando quarenta anos no deserto. E nós não somos diferentes: se moramos embaixo da ponte, chiamos pela falta de teto. Conseguimos dinheiro para nos mudar para um conjugado alugado e nos abatemos porque não é próprio. Somos abençoados com a chance de comprar um conjugado nosso e maldizemos a sorte porque não tem um quarto. O salário aumenta e nos mudamos para um quarto e sala. E praguejamos, por ser pequeno demais. Deus nos dá um três quartos e chiamos por não ter garagem ou playground. Recebemos uma bolada de herança e nos mudamos para um condomínio de luxo, com academia e piscina, mas nos entristecemos, pois o bairro não é tão nobre assim. Recebemos uma promoção e com isso conseguimos nos mudar para o melhor apartamento do melhor condomínio do país mas… não ficamos satisfeitos, pois, afinal, queríamos morar em Paris. Essa é nossa natureza: reclamar, reclamar, reclamar, reclamar, reclamar…

Nicole3Nada nunca está bom o bastante. Queremos sempre algo mais. “Piedade com contentamento é grande fonte de lucro”, revela Paulo em 1Timóteo 6.6, e continua: “pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos”. Mas, sinceramente, quem de nós pensa assim? Pior: quem de nós age segundo esse pensamento canônico? Nunca está bom o bastante. Queremos sempre mais. As bênçãos de Deus parecem sempre incompletas. Se conseguimos o emprego tão almejado e desejado, no dia seguinte já reclamamos que o chefe é exigente demais, a cadeira é desconfortável e ainda falta um ano para as férias – afinal, ninguém é de ferro. Pobres de nós, que temos uma vida tão desgraçada: o telefone não dá linha, arranharam nosso carro, nosso time perdeu, apareceu uma espinha no rosto, um fio de cabelo ficou branco, a unha quebrou! Meu Deus, quanta tragédia!

Nicole4Enquanto isso, Nicole Chilelli, uma não cristã, dá um exemplo de força interior, dedicação, perseverança, superação e alegria… porque encontra na criação de monstrengos a realização pessoal e uma motivação para prosseguir. Que vergonha. Que vergonha Nicole me fez sentir. Pois nós, cristãos, temos a vida eterna. Mas sempre estamos reclamando de tudo. Vou repetir, caso tenha parecido algo casual e sem importância: nós-temos-a-vida-eterna. Temos Jesus. Ele apontou para mim e para você e disse: “Eu te quero. Receba minha graça, o perdão dos seus pecados e a eternidade na glória eterna”. E o que nós fazemos? Respondemos a ele: “Ah, Jesus, mas a vida é tão dura, tenho de trabalhar tanto! Engordei dois quilos! Está calor demais! O elevador do meu prédio quebrou e tive de subir pelas escadas! Peguei muito engarrafamento hoje! A Internet está lenta!” E por aí vai. De uma lado, uma não cristã com fibromialgia vive alegre, motivada, sorridente, feliz e grata por fazer maquiagens que criam seres imaginários. De outro, legiões de cristãos, que receberam o privilégio de ser filhos e herdeiros do criador do universo, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam…

Nicole5Fibromialgia é uma síndrome que provoca dores por todo o corpo por longos períodos, com sensibilidade nas articulações, nos músculos e nos tendões; causa fadiga crônica, distúrbios no sono, falta de ar, dores de cabeça, depressão, ansiedade, falta de disposição e outras desgraças. Não tem cura. Os tratamentos geram poucas melhorias. É sofrimento dia e noite, 24 horas por dia, sete dias por semana. Fui procurar informações sobre Nicole na web. Li uma entrevista em que ela diz: “Maquiagem é toda minha vida”. Para uma mulher que sofre dessa montanha de problemas que você leu, maquiagem é tudo – e isso a deixa feliz. Para nós, a quem Jesus de Nazaré é toda a nossa vida, nosso tudo, nossa esperança de paz e gozo pelos trilhões e trilhões de anos que temos pela frente, às vezes cada centímetro da vida parece ruim – porque, afinal, nossa unha encravou, está chovendo lá fora ou nosso cachorro roeu o pé da mesa.

Temos de valorizar a bênção incrível que é a salvação. A adoção como filhos de Deus. O céu que nos espera. O fato de que somos amados pelo Senhor que tudo criou. a realidade de que o Todo-poderoso nos conhece pelo nome. Coisas como essas deveriam nos fazer sorrir do acordar ao deitar – exultantes e agradecidos. As tristezas vêm? Lógico! Nos abatem? Claro! Jamais vou defender que devemos ser hipócritas e dizer que tudo esá bem quando não está. Acredito que, se a Igreja fosse menos triunfalista, teríamos coragem de assumir mais vezes que estamos mal e, com isso, seríamos mais habilidosos em carregar o fardo uns dos outros e auxiliar-nos em nossas dores e nossos sofrimentos. A questão não é fingir uma falsa situação de bem-estar. É pensar em como lidamos com as desgraças da vida sabendo da realidade espiritual maior e do grande plano da eternidade.

Nicole6Nicole venceu o reality show. Tirou primeiro lugar. Faturou o prêmio. E saiu sorridente, emocionada, em paz. Feliz. Assistindo àquilo, não tive como não deixar de recordar de quando, 17 anos atrás, eu também recebi o diagnóstico de fibromialgia. Pensei no fato que, nos dez dias anteriores àquele em que assisti ao programa de TV, acordei todas as manhãs com dor de cabeça e sentindo falta de ar. Cheio de dores pelo corpo todo. Que nos três dias anteriores a ter visto Nicole sorrindo na televisão tive de me submeter, reclamando, murmurando e gemendo, a massagens doídas, para aliviar um pouco do sofrimento. Chorei com vergonha de mim, murmurador incorrigível que sou.

FibromialgiaAssisti a esse reality show durante o almoço, no intervalo de meu horário de trabalho. Nicole venceu sorrindo. Eu desliguei a TV chorando – e voltei para o meu computador. Sentei-me diante dele e me lembrei do médico que, 17 anos antes, me recomendou que eu “virasse cantor de ópera”, porque nunca mais poderia usar um computador na vida, pelo tanto que me dói digitar. Mas pensei em como Deus me conduziu até onde estou hoje – e trabalho como editor de livros cristãos, com uma jornada de oito horas diárias fazendo o que me disseram que nunca poderia fazer na vida: digitar ao computador. Na tela estava o texto de uma nova Bíblia, que estou ajudando a editar. Envergonhado, tudo o que pude fazer foi glorificar a Deus, pois o que me faz seguir adiante, lutar com todas as forças contra minhas impossibilidades e participar da confecção da Palavra Sagrada do Senhor Altíssimo é única e exclusivamente a graça do Cristo crucificado. Pois ele apontou para mim e disse: “É você”.

Murmurar? Já murmurei muito. Mas creio que não me atrevo a murmurar mais. Nicole me deu um tapa na cara. Se um não cristão pode ter alegria de viver por fazer maquiagens de monstros, mesmo sofrendo de uma moléstia terrível, eu preciso ter a humildade de ignorar as coisinhas de pouca importância do dia a dia e encontrar a alegria de viver por fazer parte de algo muito, mas infinitamente muito mais grandioso: o Reino dos céus.

Meu irmão, minha irmã, o Todo-poderoso lhe apontou o dedo e disse: “É você”. Do que você tem reclamado mesmo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Certa vez ouvi de um servo de Deus que a igreja é um lugar muito perigoso. Pois a vida em comunhão nos expõe, nos desafia, nos convida a conviver com a contradição e a natureza humana de indivíduos que deveriam substituir essa natureza pela de Cristo. A cada dia que passa vejo mais e mais que essa é uma grande verdade. A possibilidade de que você será ferido, magoado ou humilhado de algum modo por congregar em uma família de fé é bem plausível, visto que estará convivendo e se abrindo para pecadores cheios de falhas – embora em busca de santificação. Postei há alguns meses aqui no APENAS uma reflexão sobre “O lugar mais importante na igreja“, em que, por meio de uma metáfora,  compartilho minha visão de que a segunda pessoa mais importante numa congregação depois de Jesus é o triste, o abatido, o deprimido, o humilhado, o abandonado, o desesperado, o indigno, o ferido. Fiquei espantadíssimo ao ver a quantidade enorme de irmãos que entraram em contato pelo espaço de comentários do blog para relatar experiências terríveis que viveram no ambiente eclesiástico e que sofreram os mais variados tipos de traumas. Ao todo, 48. Muito revelador e espantoso é que, em comum a todos menos três, havia o pedido de não publicar seu comentário. 45 pessoas! Sem que dissessem, ficou claro que tudo o que queriam – ou precisavam – era desabafar e não queriam se expor. Em outras palavras, inconscientemente querem permanecer invisíveis. O que essa constatação deve gerar em cada um de nós? Como devemos agir com relação a essas pessoas feridas?

Mais ainda: devemos parar de ir à igreja porque podemos acabar saindo dela com o coração dilacerado? A resposta é um grande não. E já veremos por quê.

Entre os comentários havia de tudo. O mais frequente é a decepção com os líderes ou outros membros. Sim, porque paredes e templos não ferem ninguém: quem fere são pessoas. Pastores que usaram de autoridade desmedida e humilharam ovelhas publicamente. Irmãos que discriminaram pela classe social e pela cor da pele. Pastores que não mantiveram o sigilo pastoral sobre pecados a eles confessados. Irmãos que usaram de artimanhas para tomar “cargos” de outros. Pastores que em vez de ajudar a pôr de pé os caídos esmagaram ainda mais o crânio de quem estava no chão. Irmãos que não demonstraram coração perdoador. Pastores que usaram o púlpito para fazer desde propaganda política a publicidade de revistas e DVDs. Irmãos que ignoram quem não conhecem e compartimentalizam a igreja em panelas. Pastores que agiram em causa própria e deixaram vidas humanas à própria sorte. Irmãos que não estenderam a mão quando mais se precisava de ajuda. Pastores que prometem o que Deus não promete. Irmãos que discriminam da “falta de fé” à forma de se vestir de outros e os consideram cristãos de segunda classe.

Em comum a todos os casos, o que ficou visível foi uma deficiência no amor ao próximo e a prevalência do interesse próprio.

E essas são só as causas mais frequentes que detectei entre os comentários. Há mais. A quantidade e a variedade de formas pelas quais é possível ferir alguém por estar inserido no ambiente de uma família de fé são muitas, algumas surpreendentes. E isso é um chamado à responsabilidade para todos nós. Não é à toa que usei como título deste post o mesmo do livro da jornalista Marília Camargo, publicado pela editora Mundo Cristão, que trata de desmandos cometidos por lideranças eclesiásticas. Pois esses problemas se multiplicam tanto que se tornaram visíveis para cada vez mais pessoas – cristãs ou não. E um ponto nevrálgico da questão é que deixar a comunhão dos santos não é a solução. Por diversas razões.

No que tange à liderança, nunca podemos nos esquecer que há muitos líderes que sabem cuidar de ovelhas, que as põem acima de si mesmos e que entendem que a vocação pela qual Deus os chamou é sobre Jesus e sobre o próximo e não sobre si mesmos (leia mais no post “A importância de um pastor“). Que não deixam a vaidade, a prepotência ou os projetos pessoais interferirem no cuidado e no amor pelos irmãos. São muitos e estão por aí, em igrejas de diferentes denominações, em diversas regiões do país, em bairros ricos e pobres. O ministério pastoral não entrou em colapso devido ao fato de que há os que não pastoreiam com compaixão e graça, com amor e carinho, com cuidado e zelo. Há sim os que usam o púlpito como emprego estável ou os que não entendem a profundidade do amor de Deus e por isso não o refletem em seu pastoreio, mas as maçãs podres ou contaminadas devem servir acima de tudo para nos lembrar que há maçãs maduras e que alimentam. E há muitas. Há muitos homens de Deus à frente de igrejas, é só ter paciência de procurar e pedir discernimento ao Senhor. Recusar ser bem pastoreado é recusar um maravilhoso presente que Deus nos dá.

Já no que tange à membresia, é preciso lembrarmos sempre do velho clichê (que é verdadeiro) de que a igreja não é um museu de santos, mas um hospital de pecadores. Todos, absolutamente todos os membros de uma igreja, são pecadores. Ninguém escapa. Pode ter certeza que o mais santo de todos tem no mínimo pensamentos horripilantes. Agostinho teve. John Wesley teve. Davi teve. Salomão teve. Paulo teve. Pedro teve. Eu, então, nem se fala. Só que isso, em vez de nos afastar da igreja, deve produzir em nós um sentimento de misericórdia, por saber que o próximo é tão pecador como nós e é tão passível de erro como eu e você. Há pessoas responsáveis por atividades importantes dentro de igrejas que cometem pecados cabeludos e, em vez de fugir delas, precisamos orar por elas para que sejam libertas, que alcancem o perdão e para que seus pecados não interfiram na missão que Deus lhes confiou. Sempre digo a quem está decepcionado com os irmãos que, se vemos alguém que julgamos ser um “mau cristão”, em vez de empurrá-lo para longe devemos nos aproximar para influenciá-lo positivamente. Pois é o que se encaixa na graça de Deus. Não o medo, mas a coragem.

No que tange a nós mesmos, precisamos lembrar que mesmo sendo a igreja uma assembleia de pessoas imperfeitas e potencialmente passíveis de nos machucar, é onde cultuamos a Deus em comunhão. É onde celebramos o memorial coletivo da Ceia do Senhor. É onde ouvimos pregações (sim, muitas vezes feitas por sacerdotes cheios de falhas) que vão nos edificar, consolar e exortar. É onde podemos encontrar aqueles que de outro modo não saberíamos que precisam de uma mão estendida. É aonde os perdidos tocados por Deus vão, em busca de algo a que a cruz na porta remete em termos espirituais. Já fui parar em um CTI por ter comido alimentos estragados em um restaurante. Mas não é por isso que vou deixar de ir a restaurantes, pois preciso me alimentar. O medo de comer em outro restaurante não é benéfico, pode me gerar inanição. Assim como o medo de ir a uma igreja porque nos decepcionaram em outra não provém de Deus. Se a igreja é um lugar perigoso, é um lugar para os corajosos. Um erro não justifica o outro.

Você já se decepcionou com um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. Só que o que o outro faz não depende de nós. O que temos poder para mudar é agir a partir de outra pergunta: você já decepcionou um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. E se você, como eu, reconhecer que causou o mal a alguém, mesmo que tenha sido de modo involuntário, aí está diante de si a grade oportunidade de começar a mudar o que está ruim: procurando mudar ou pelo menos melhorar a si mesmo. Pois, no que eu mudo e me torno um cristão melhor, uma ovelha menos manchada para meu pastor e um irmão menos decepcionante para os membros da igreja, aí sim estou contribuindo com meu exemplo e minha atitude pessoal para que o Corpo como um todo seja aperfeiçoado.

Então, se fomos feridos na igreja, devemos começar por fazer uma análise de nós mesmos e ver em que pontos nós ferimos os outros. Eliminando esses pontos serviremos cada vez mais de exemplo. Quanto aos que nos feriram, a dor permanecerá pelo tempo que o luto durar e isso independe de nós.

Mas podemos perdoar.

Quantas vezes? Setenta vezes sete. Todas. Sempre. Repetidamente. E não perdoe só da boca para fora, porque isso é fácil para qualquer um fazer. Perdoe em atitude. Sendo bom para quem te feriu. Ajudando-o. Estendendo a ele benefícios. Auxiliando no que ele precisar. Orando a Deus por sua vida. Essas são as maneiras bíblicas de agir com quem nos machucou. Não importa como o outro se comporta, importa como você se comporta. Faça sua parte. Pense menos em si e mais em Cristo. Pois se cada um de nós pensar somente em si, da próxima vez que escrever um post sobre gente machucada na igreja não serão 48 pessoas contando suas histórias, mas 490.

A mudança começa em nós. Menos dedos apontados, mais lágrimas no travesseiro. E quando você conseguir ser alguém melhor, ajude os demais. A começar estendendo amor de forma prática a quem te fez mal. E aí haverá festa no Céu, porque você poderá estar sendo intrumento nas mãos de Deus para levar um pecador a se arrepender. Minha esperança é que para cada ferido “em nome de Deus” apareça um bom samaritano que venha a cuidar de suas feridas. E, isso sim, será verdadeiramente feito em nome do perdoador, misericordioso, amoroso e gracioso Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Vivemos uma época da História da Igreja em que é muito fácil nos deixar levar pela tentação de voltar nossas atenções para discussões acerca das instituições e estruturas eclesiásticas e nos esquecermos de questões que – pelo relato dos evangelhos – preocuparam e ocuparam muito mais o tempo de Jesus. Em nossos dias, “apologética” está muito na moda e sobram ambientes em que, em nome de uma suposta “defesa da fé”, se fala bastante contra igrejas, denominações e grupos eclesiásticos (e escrevo entre aspas porque 90% do que se apresenta na Internet hoje como “apologética” na verdade são só agressões e fofocas que não contribuem de fato para a saúde espiritual da Igreja). O que tenho refletido muito nos últimos tempos é sobre o risco real em que caímos de nos preocuparmos tanto em discutir aspectos relacionados às instituições eclesiásticas que pecamos por desviar nossas atenções do que mais importa para Deus: o indivíduo.

É evidente que discutir questões ligadas à instituição é importante. Afinal, se não combatemos a Teologia da Prosperidade, os desmandos de certas igrejas neopentecostais, as heresias e outros graves problemas que deformam a Igreja de Nosso Senhor estamos permitindo que milhares de pessoas sejam enganadas e mal discipuladas. Mas quando voltamos excessivamente os olhos para isso, acabamos tão preocupados com o macro que os detalhes que mais importam tornam-se periféricos, quando deveria ser o contrário.

Recentemente decidi reler todo o Novo Testamento. E tive uma percepção bem interessante. Se formos prestar atenção no foco das preocupações de Jesus e dos apóstolos, se formos ao cerne do Sermão do Monte, das epístolas paulinas, das gerais e dos livros de Atos e Apocalipse, veremos que a esmagadora maioria dos problemas apontados, os grandes desmandos, as orientações, as pregações e palestras eram quase que em sua totalidade voltadas para questões pessoais. Raramente vemos exortações contra grupos ou instituições. É a alma humana que está em debate na maior parte do Novo Testamento. Evidentemente, à luz da pessoa de Cristo e da glória do Pai.

Jesus diz uma única vez que um enfermo foi curado para a glória de Deus. Se formos ver os outros milagres de Cristo perceberemos que estavam ligados a um aspecto da personalidade do Senhor: compaixão.  Jesus perdoa pecadores. Jesus sara os que clamam a Ele em lágrimas. Jesus ensina sobre o Reino sempre em relação ao aspecto humano e individual. Jesus está o tempo todo preocupado com pessoas. Que têm nome, cheiro, dores, depressões, noites insones, desesperança, falta de paz. Mesmo quando fala dos publicanos e fariseus Ele não está criticando o grupo como um todo ou questionando sua existência, mas sim atacando aspectos falhos do coração daqueles homens, como a hipocrisia e a ganância. Tanto que chama Paulo, um fariseu, não para abandonar o farisaísmo, mas para se converter de seus caminhos pessoais equivocados.

Não vemos Jesus investir seu tempo criticando o governo romano, a organização do templo ou as sinagogas. Pelo contrário, manda pagar o tributo aos dominadores, vai às sinagogas e segue religiosamente a liturgia de culto praticada nas mesmas, não discute sobre a legitimidade do partido fariseu contra o saduceu (ou vice-versa) ou levanta bandeiras contra os essênios. Sempre vemos Jesus falar sobre questões concernentes ao indivíduo. Ele quer ensinar pessoas, se preocupa em alimentá-las, se condói do enfermo, tem misericórdia do possesso, deseja que João, Maria, Antônio, Beto e Sheila sejam alcançados pelas boas novas, perdoados e salvos. Ele não quer salvar um grupo impessoal. Quer dar vida a almas.

O mesmo vemos nas motivações de Paulo. Repare que em suas epístolas ele se preocupa não em saudar ou enviar saudações dos “adeptos da Missão Integral”, dos “ortodoxos”, os “membros da igreja emergente”, os “irmãozinhos pentecostais” ou “os que congregam nas igrejas históricas”. Ele saúda pelo nome. Menciona Estéfanas, Fortunato, Acaio, Tíquico, Onésimo, Aristarco, Marcos, Epafra, Lucas, Ninfa, Prisca, Áquila, Onesíforo, Erasto, Trófimo, Êubulo, Prudente, Lino, Cláudia e tantos outros. Do mesmo modo, não critica grupos organizados ou escolas de pensamento nefastas, mas dirige suas tristezas a pessoas como Demas e Alexandre, o latoeiro. Nomes. Gente. Almas.

Sou de Paulo. Sou de Apolo. E o que disse Paulo sobre isso? “Acaso Cristo está dividido?” (1 Co 1.13a).  João escreveu suas epístolas para combater os gnósticos, grupo herético dito cristão que pregava que Jesus não era Deus feito carne. Mesmo assim sua primeira carta, por exemplo, é extremamente pessoal. “Filhinhos” e “amados” são as duas formas mais usadas pelo apóstolo para se dirigir aos seus destinatários. E se você lê com atenção tudo o que ele escreve contra os ensinamentos dos gnósticos é sempre tendo em vista aspecto individuais dos ensinamentos espúrios e como eles afetavam pessoas. Essa carta, que podemos considerar como sendo a mais motivada por aspectos institucionais de todo o Novo Testamento, é extremamente preocupada com o indivíduo.  A releia com atenção e você verá. Os “filhinhos”. Os “amados”. E nenhuma escola de pensamento ou doutrinária é filha ou amada de ninguém. Pessoas são.

Nas sete cartas à igrejas de Apocalipse vemos referências institucionais, isso é fato (prova que essa discussão não pode ser menosprezada): aos nicolaítas e aos que seguem a doutrina de Balaão. Mas, de resto, fala a todo tempo sobre questões do coração, como o abandono do primeiro amor, a fidelidade, obras, amor, fé, serviço, perseverança. Menciona até mesmo uma tal Jezabel pelo nome, por estar pervertendo os irmãos.

A conclusão é que Deus está preocupado com pessoas. Comigo. Com você. Com quem você ama. Com quem você odeia. Com arrependimento e redenção de indivíduos. Jesus não vai salvar os membros desta ou daquela denominação, mandar todos os calvinistas para o Céu ou condenar todos os adeptos da equivocada Confissão Positiva para o inferno. O que está escrito no Livro da Vida são nomes de indivíduos. Nomes de gente. Nomes com rosto, CPF, é o filho do Zezinho da padaria e a mãe da sua amiga Carla, da escola. Gente que tem mau hálito ou que acorda de mau humor, indivíduos que falam “pobrema” e almas que moram em condomínios de luxo. O porteiro do seu prédio. O lixeiro da sua rua. O jardineiro que você nunca cumprimentou. O empregado que você jamais abraça.  O manobrista que todo dia guarda a chave do seu carro mas você nem sabe seu nome. Quando pensa em nós, o que a Bíblia transparece não é que Ele pensa em “nós”: pensa no “eu” e no “você”, cujos fios de cabelo Deus sabe de cor quantos temos.

Por muito tempo devotei muita atenção para grupos. Não que eles não sejam importantes, repito, mas hoje estou muitíssimo mais preocupado com o indivíduo. Quero chegar antes de o culto começar na igreja e cumprimentar aquela irmã cheia de olheiras sentada na última fila da igreja. Perguntar se está tudo bem – e ouvir sua resposta de fato e não por uma obrigação pseudopiedosa. Quero gastar tempo que seria meu para ir na casa da senhora doente e que não tem amigos, doar-me e não apenas aparentar estar preocupado. Quero ir ao hospital orar com o irmão de uma conhecida que está padecendo de Aids – contraída numa relação homossexual. Órfãos e viúvas em suas tribulações são pessoas. É o Carlinhos, que perdeu os pais num acidente de carro, e a Dona Rute, cujo marido teve um infarte fulminante.

Nossas igrejas estão abarrotadas de pessoas carentes, solitárias, pecadoras, infelizes. Meu papel como cristão é refletir o amor de Cristo dando-lhes calor humano. Estendendo perdão. Pacificando as animosidades. Me fazendo presente nos períodos de sofrimento. Pois aprendi o que é passar momentos terríveis, depressivos e assustadoramente solitários e nem um único cristão telefonar para saber como estou. E isso é igreja que diz glorificar Deus mas só o faz da boca para fora, pois se esqueceu do próximo – que não é uma entidade autômata, com número de série: é uma alma humana.

Enquanto não amarmos de fato, perdoarmos de fato, nos doarmos de fato e enxergarmos de fato a dor do ser humano que cruza conosco no corredor da igreja ou do supermercado… estamos frequentando a igreja para que mesmo? Glorificar Deus? Como se fosse possível uma coisa sem a outra.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

* Uma versão reduzida deste artigo foi publicada originalmente na revista Igreja.

Cara1Estou escrevendo este post mais como um desabafo do que por qualquer outra razão. Se você conhece alguém que faz da sua vida um inferno vai me entender, pois há um irmão em Cristo que me atormenta e preciso botar para fora a minha ira – que é santa, naturalmente – senão parece que vou explodir. É muito duro para nós, que somos irrepreensíveis, aturar esse tipo de gente falível. Pode ser que a pessoa que você não suporte seja um vizinho que ponha músicas horríveis no maior volume sempre que você quer dormir. Ou um colega de trabalho que já fez todo tipo de fofoca contra você. Ou, ainda, uma irmã da igreja que te irrita, magoa ou toma atitudes contra sua paz. Pode ser, até mesmo, o seu chefe, quem sabe, ou o pastor que, em vez de zelar por tua alma, te oprime, subjuga, denigre e prejudica. E você odeia tudo de ruim que há nessa pessoa. Quer fazer parecer que não, pois, afinal, odiar não pega bem para um crente. Mas, lá no  fundo do seu coração, você sabe que odeia. Talvez não tão no fundo assim. Pois bem, há um cara que me tira do sério. Sou obrigado a conviver com ele por causa das circunstâncias da vida, mas ele é chato, pecador, egoísta, mesquinho e insuportável – tudo o que eu não sou. Por favor, permita-me desabafar com você, pois não tenho como fazer isso com um amigo em comum – senão poderia parecer que sou um fofoqueiro invejoso. E não pegaria bem para um bom crente como eu.

Não sei qual é o nível de relacionamento que você tem com seu desafeto. No meu caso, conheço esse fulano desde a infância. As primeiras lembranças que tenho dele são anteriores aos meus 3 anos de idade, pois morávamos na mesma rua. Dá pra imaginar o suplício que é essa convivência para um homem de 41 anos como eu? Anos e anos e anos suportando esse cidadão. Crescemos juntos e, por uma série de situações, que não vêm ao caso, fui obrigado a conviver com ele em muitas áreas de minha vida. Hoje, inclusive, ele calhou de frequentar a mesma igreja que eu – para meu azar e irritação.

Cara2Uma das coisas que mais me incomodam nele é que E. (permita-me chamá-lo apenas pela inicial, pois eu não sou o tipo de pecador que cita nomes) se faz passar por meu amigo, tem toda a aparência de crente mas é um tremendo pecador. Como o conheço há tanto tempo temos intimidade suficiente para eu saber coisas de sua vida que ninguém mais sabe. Ele me conta pensamentos terríveis e atos completamente reprováveis do ponto de vista bíblico. Às, vezes, confesso, chego a ter uma certa repulsa por E., tamanha é a sua pecaminosidade. E é duro para uma pessoa tão correta como eu aguentar isso. Mas, infelizmente, sou obrigado a conviver com ele, então não tenho para onde correr. Só que é insuportável ver o quão pecador esse cidadão é.

Eu me encontro com ele nos cultos. O vejo levantar as mãos no louvor, fazer aquela carinha de santo na hora da oração e ostentar seu jeito insuportável de cristão nota dez, quando eu sei quem ele é e as coisas horríveis que pensa e faz. Na verdade, eu o fico observando o culto inteiro e me enoja quando ele fica chorando, pedindo perdão por seus pecados, quando sei que ele vai sair da igreja e pecar de novo. E me sinto obrigado a pedir que Deus pese a mão sobre ele, pra ver se toma jeito. Miserável pecador…

Cara4Você conhece alguém tão ruim como esse cara? O que você faz com um indivíduo assim? Por favor, me diga como devo proceder. Às vezes, quando prego, confesso que já exortei muito pensando nele, pois sabia que ele estava ouvindo. Sabe quando você faz uma explanação que parece generalista mas tem endereço certo? Você pode até achar feio eu ter feito isso, mas confesso: eu fiz. Dei montes de indiretas para E. em muitas de minhas pregações, para ver se ele, de algum modo, era tocado por Deus e mudava. Não sei se adiantou, só o Senhor sabe, mas fiz a minha parte.

Pense em apenas alguns dos dez mandamentos. E. muitas e muitas vezes priorizou outras coisas no lugar de Deus.  Tomar o nome de Deus em vão é praticamente todo dia e Êxodo 20.7 diz que quem fizer isso o Senhor não terá por inocente. Preciso dizer mais? Então vamos lá: honrar pai e mãe? Coitados, lembro que, quando éramos crianças, ele dava um trabalhão. Hoje, que E. já é um homem feito, muitas vezes os decepciona. Eu vejo, ninguém me disse. “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”? Como negar as montanhas de vezes em que ele fez isso? “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”? Tudo bem, admito, nunca o vi cobiçar o jumento de ninguém, de resto perdi a conta de quantas vezes o flagrei invejando o que não lhe pertencia. Cara, desculpe, mas E. tem tantos buracos em sua santidade que se eu te contasse tudo você diria que ele não presta. Às vezes é o que tenho vontade de dizer na cara dele.

Cara5Você tem algum E. na sua vida? Pense aí. Lembrou de alguém intragável, que parece só ter vindo ao mundo para te irritar, chatear, fazer chorar? É que realmente as circunstâncias não permitem, mas por mim eu mandava exilar E. no Tibete. Sinto vergonha dele. Tenho meu grupo de amigos na igreja que de fato são santos, como eu, e quando ele chega parece que contamina o ar. Aí não tem jeito, ele vira o assunto da noite. E o pior, sabe o que mais me tira do sério? Ele até fala uma ou outra coisa legal, por isso tem gente que o elogia, que o acha alguém especial. Desculpem, mas eu conheço bem esse cara, ele é bem comunzinho. Se duvidar, uns 95% dos elogios que ele recebe são imerecidos. E. precisa desesperadamente do perdão de Deus, pois tem muitas e muitas coisas a melhorar. Já falei isso a ele. Mas parece que na maioria das vezes o cidadão não me ouve!

Bem, acho que já desabafei o suficiente. Obrigado por me permitir botar pra fora minha irritação, mas não poderia falar essas coisas sobre ele na frente de conhecidos, senão pareceria que eu é que sou o pecador fofoqueiro e não esse cara. Eu odeio tudo o que E. tem de ruim. Odeio. Odeio sua pecaminosidade, o fato de ele fazer menos do que poderia pelo próximo, odeio quando não pede perdão pelos seus pecados, odeio suas fraquezas. Ele me tira do sério.

Mas… tem uma coisa.  Apesar de tudo isso, eu sei que Jesus o ama.

A despeito de seus defeitos, suas falhas, seus pecados, sua omissão, tudo, tudo, tudo o que faz de E. uma pessoa odiosa… Jesus o ama. Não entendo todo esse amor por um zero à esqCara6uerda como ele, asseguro que não entendo. Mas sei que isso tem um nome: graça. E. não vale nada, mas a graça o faz valer o mundo para Deus. Aos olhos do Senhor esse miserável vale mais do que todos os tesouros da terra. Foi por esse cidadão que o Cordeiro de Deus subiu à cruz, foi moído, rasgado, cuspido, ofendido, morto. E eu acredito que, porque a salvação é pela graça e não por mérito, um dia ele irá para o céu. Graça. Esse é o segredo. Essa é a explicação. Essa é a esperança. Essa é a certeza. Essa é a fé. Pois a graça não faz Deus ver toda a sujeira que E. carrega em si quando olha para ele. Quando o Pai fita seu olhar em E., o que ele enxerga é o Cordeiro que foi imolado por cada um dos seus pecados.

Conheço bem E. Ele habita dentro de mim. E., de Eu. Sim… o nome de E. é Maurício Zágari.

Obrigado, Senhor, por não me ver como eu sou, mas como Jesus é.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
E.

Engrenagem1Coleciono antiguidades. Algo que me fascina, em especial, são as engrenagens de relógios antigos. É incrível a perfeição com que aquilo funciona. Uma pecinha tem o número certo de dentes, que ao rodar faz girar outra pecinha, que por sua vez movimenta uma roldana, que puxa um parafuso, que desloca um pêndulo, que roda uma outra pecinha e, por fim, o ponteiro se move. Perfeito. Uma mecânica onde tudo se encaixa, tudo funciona direitinho, sem um milímetro de erro. Agora, experimente remover somente um pequenino parafuso dessa complexa engrenagem. O resultado é que todo o relógio, aquela enorme maquinária formada por pequeninas peças que se encaixam e trabalham com perfeição… para de funcionar. A ordem que Deus estabeleceu para as coisas também é assim.

Creio que em absolutamente todas as determinações bíblicas a engrenagem funciona maravilhosamente bem. Um exemplo: a família. A Bíblia é extremamente clara quanto ao funcionamento dessa magnífica máquina. Cada peça tem seu papel e sua posição e todas são essenciais para o funcionamento do todo. Mas, para que o tic-tac flua sem nenhum problema, cada um tem de fazer a sua parte. Não adianta a roda dentada querer balançar ou o pêndulo desejar rodar: se isso acontecer, os ponteiros param e a máquina pifa. Então, nesse grande relógio chamado família, a esposa tem, por exemplo, de ser submissa Engrenagem2ao marido (Gn 3.16b; Ef 5.22-24; Cl 3.18; Tt 2.3-5; 1Pe 3.1). O marido, por sua vez, tem o papel de amar a esposa com dignidade e como Cristo amou a Igreja – ou seja, priorizá-la antes de si mesmo (Ef 5.25-30; Cl 3.19; 1Pe 3.7). Os pais precisam criar os filhos na disciplina do Senhor e educá-los na fé cristã, de modo sábio, evitando que se irem ou se irritem (Ef 6.4; Cl 3.21; Pv 19.18; Pv 29.17; Pv 3.12; Pv 22.6; Dt 8.5; Hb 12.7; Pv 13.24). Os filhos devem obedecer e honrar os pais em tudo, atentando para sua instrução com sabedoria (Rm 1.30; 2Tm 3.2; Cl 3.20; Êx 20.12; Ef 6.1-3; Pv 5.7; Pv 2.1; Pv 4.10; Pv 1.8; Pv 19.27; Pv 10.1; Pv 6.20; Pv 13.1; Pv 15.20; Pv 19.26; Pv 28.7; Pv 19.13; Pv 13.24; Pv 17.21). Assim como um relógio, se todas as pecinhas fizerem o que a Bíblia lhes ordena, ou seja, cumprirem esses seus papéis, a vida em família será sempre abençoada. Pois a engrenagem estará funcionando exatamente como determina o manual do relojoeiro. Se, porém, apenas uma das peças agir de modo diferente daquele que Deus estipulou, toda a máquina apresentará problemas: vai adiantar, atrasar, parar de funcionar ou simplesmente explodir.

Nas questões de atritos pessoais a coisa é igual. Deus criou um padrão que devemos seguir quando, por exemplo, alguém nos faz mal. Só que, sejamos francos e realistas, quase nenhum cristão age diante de agressões ou ataques conforme a Bíblia estipula. Nessas horas temos duas opções: fazer o que achamos que tem de ser feito ou seguir ao pé da letra o que o manual do construtor dessa grande engrenagem chamada sociedade determina.

Assim, se lhe fizeram mal, eis como o manual diz que você deve agir: “Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta” (Mt 5.23-24). Mais Engrenagem3ainda: “não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas” (Mt 5.39-41); ou, para ir além: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.20-21). Portanto, não espere que, devolvendo mal com mal, retribuindo ofensa com ofensa ou agressão com agressão, vai obter o favor de Deus. O mecanismo foi feito para funcionar quando damos a outra face, abençoamos quem nos faz mal ou amamos os inimigos em ações práticas. Se agirmos conforme nossos instintos ou segundo os critérios da nossa sociedade – que não leva desaforo para casa – o que vai rodar é o relógio do mundo e não o de Deus.

Escolhi como exemplos os papéis na família e a forma como reagimos diante de uma agressão ou ofensa por serem áreas, em especial, em que os cristãos enfrentam muita dificuldade de se comportar segundo o padrão do evangelho. Só que não tem jeito, Deus estabeleceu um mecanismo de funcionamento perfeito para cada área. Se seguirmos ao pé da letra o que estipula o manual do construtor da vida, podemos descansar em Sua soberania, na certeza de que as coisas fluirão. Mas se dermos o nosso jeito, agirmos conforme nossa vontade e deixarmos nossos impulsos e desejos substituírem a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, além de nos tornarmos idólatras vamos fazer a máquina bater pino.

Engrenagem4Ser uma peça em uma engrenagem perfeita não é fácil. Exige obediência a uma rotina de funcionamento. Exige trabalho em conjunto com outras peças extremamente diferentes de nós. Exige atrito diário com as outras partes da engrenagem. Exige reciclagens constantes, com restauração de pequenos defeitos que nos impedem de funcionar como manda o manual. Exige a consciência de que, se quebrarmos e perdermos a funcionalidade, teremos de ser removidos para não prejudicar o todo. Exige saber que não servimos para nada longe das outras peças. Exige a certeza de que o construtor conhece cada peça individualmente, criou cada uma em detalhes e só ele entende plenamente o funcionamento da máquina. Exige a compreensão de que, se não seguirmos o manual, vamos fazer não só com que nossas ações não sirvam para o objetivo para o qual fomos criados, mas isso afetará todas as outras peças e prejudicará o funcionamento da engrenagem como um todo.

Muitas vezes nós não sabemos o que fazer em determinada situação de nossa vida. Nos vemos encurralados, sem noção de para que lado virar, como agir, que passo dar. Nessas horas, é importante lembrar que Deus sabe o que faz. E a Bíblia Engrenagem5sempre nos diz o que fazer, por mais que suas determinações nos pareçam estranhas ou contrariem nossos desejos e vontades. Não é para praticar sexo antes do casamento? Deus sabe o que faz. Não é para namorar em jugo desigual? Deus sabe o que faz. Não é para sonegar imposto? Deus sabe o que faz. Não é para se divorciar porque “acabou o amor”? Deus sabe o que faz. Não é para reter o dízimo? Deus sabe o que faz. Não é para abandonar a comunhão dos irmãos depois de ter sido magoado por eles? Deus sabe o que faz. É para perdoar quem te traiu, enganou, abusou sexualmente, roubou, agrediu, mentiu, irritou, fraudou, prejudicou, caluniou, expôs seus segredos, humilhou, defraudou, decepcionou? Deus sabe o que faz.

Você é um peça fundamental numa grande engrenagem. Aprenda como ela funciona e aja – em tudo e nos mínimos detalhes – de acordo com o manual. Não tem como dar errado, acredite. Pois Deus sabe o que faz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Ichtus6Sábado passado fui palestrar em um retiro de líderes de cerca de 40 igrejas batistas em São João de Meriti (RJ). Era ainda cedo e um irmão heroicamente se despencou de longe para me pegar em casa e me levar ao sítio onde aconteceria o evento. Estávamos no carro, a caminho do encontro, quando tivemos o susto: bem ao nosso lado ocorreu uma batida entre dois automóveis. Confesso que não entendo nada de marcas de carro, só sei que um era vermelho e o outro, verde. O verde dobrou mal uma esquina e acertou o vermelho na parte de trás. Com o susto do estrondo, olhei para o lado e vi que o carro atingido tinha diversos produtos cristãos colados na traseira: adesivos com versículos bíblicos e, bem no lugar da batida, um daqueles peixes de plástico prateado que reproduzem o símbolo primitivo de Jesus (o Ichtus). Paramos para ver se alguém tinha se machucado e vimos que os dois motoristas saíram ilesos da colisão. Foi quando o pior aconteceu.
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O que ocorre quando alguém bate no carro de um cristão? Que reação você espera do dono do automóvel? Confesso que, na minha ingenuidade, suponho que um servo de Cristo vai manter o domínio próprio (que é virtude do fruto do Espírito), vai pacificar (o que fará dele um bem-aventurado), conversará com o proprietário do outro veículo de forma mansa (mansidão também faz parte do furto do Espírito), será cuidadoso na escolha das palavras (Mateus 12.36 – “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo”), tudo o que falar será no sentido de resolver de forma civilizada o incidente (Provérbios 15.1 – “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira”) e resolverá tudo com amabilidade (Tiago 1.19 – “Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”).
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Ichtus3Bem, isso era o que eu imaginava. Mas o que vi foi algo completamente diferente. O dono do carro cheio de adesivos cristãos já saltou falando os palavrões mais interessantes que ouvi em toda minha vida. Pense nos piores que você conhece. Pois foram exatamente esses que o irmão falou. E mais: enquanto o motorista aparentemente não cristão que bateu em seu carro veio com tranquilidade conversar, o servo de Jesus saltou de seu banco com uma atitude que me fez pensar que daria um tiro no outro – ou pelo menos sairia no braço. Ou seja: o mano chegou pronto para a briga.
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Não ficamos no local por muito mais. Mas ainda tive tempo suficiente de ver o amado irmão dizer montes de impropérios contra o pobre cidadão que teve o azar de bater nele, o que me fez lembrar um lutador de UFC “cristão”. Ou seja: mais agressividade impossível. Fui embora conversando com Wagner, meu anfitrião, sobre o testemunho público que nós, crentes em Jesus, temos dado para o mundo.
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Ichtus1A colisão foi bem em cima do Ichtus de plástico, ou seja, não tinha como qualquer pessoa que estivesse por ali não ver que aquele homem transtornado era frequentador de uma igreja evangélica, os adesivos denunciavam. E todos viram a reação agressiva do mano. O não cristão até tentou apaziguar a fúria desbocada do irmão em Cristo, mas só recebeu de volta pedradas, acusações, ofensas e ameaças.
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Belo testemunho. Se eu fosse aquele rapaz, pensaria que todos os evangélicos são desbocados, agressivos, descontrolados, belicosos. Em outras palavras: o que há de pior entre os homens. Isso me conduziu a uma profunda reflexão sobre como tem sido nosso exemplo ante a sociedade. Temos sido sal da terra e luz do mundo? Ou temos vivido um evangelho todo trocado, como sal do mundo e luz da terra – do tipo “parece mas não é”? Pois, se for o caso, se todos agirmos como aquele homem, para nada mais prestamos senão para ser lançados fora e pisados pelos homens. (Mt 5.13).
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Comportamento é uma coisa interessante, pois ele revela muito sobre a pessoa que se esconde por trás da máscara de crente. Nunca me esqueço de uma vez em que estava andando quando vi uma irmã em um ponto de ônibus. Caminhei contente em direção a ela para saudá-la, quando vi que fez sinal para um ônibus – que a ignorou e passou direto. A irmã, que não tinha me visto, gritou um palavrão para o motorista, questionando a moralidade da pobre mãe daquele indivíduo. Constrangido, me desviei e segui meu caminho sem que ela percebesse que eu tinha testemunhado aquela cena, para não envergonhá-la.
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Ichtus4Nossa pregação é inútil se nosso exemplo pessoal contraria o evangelho. Quando cometi meus piores pecados ocultos dei graças a Deus por ninguém ter visto, pois senão o Senhor teria sido vituperado pelo meu péssimo testemunho. Claro que o fato de muitos de meus pecados não terem se tornado notórios não os justificam em nada nem os tornam menos graves, mas, se há algum consolo, é que pelo menos Jesus e sua Igreja não foram envergonhados pelo meu comportamento horrível. Temos a responsabilidade, como cristãos, de dar exemplo em todo momento. Se vamos à igreja, damos glória a Deus e aleluia, mas nos comportamos como os mais mundanos dos mundanos, nos tornamos vergonha para o evangelho e não refletimos a luz de Cristo. Se defendemos valores bíblicos mas fazemos isso em rede nacional de TV aos berros, com agressividade e arrogância, em absolutamente nada estamos lutando pela causa do Senhor, o exaltando ou proclamando, mas sim traindo Jesus. Pregar o evangelho sempre deve ser feito com mansidão. Sempre. Pois nosso tom de voz e o amor em nosso olhar falam muito mais alto do que qualquer palavra que pronunciemos. Afirmar no Jornal Nacional que “só o Senhor é Deus” enquanto se dá um murro na cara de alguém glorifica Jesus?
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“Ah, pelo menos o evangelho foi pregado”, muitos justificam. E eu pergunto: foi mesmo?
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Nenhum de nós é perfeito. Eu e você pecamos e escorregamos muitas vezes por dia. Todo dia. Mas temos o dever de nos empenharmos ao máximo para viver aquilo em que cremos. Ainda mais diante do mundo. Costumo dizer que Deus não espera de nós perfeição, pois ele sabe que nunca seremos perfeitos. Mas ele espera, na verdade, o máximo possível de esforço para alcançar a perfeição. Porque isso sim é possível.
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Ichtus5Se baterem no seu carro, meu irmão, minha irmã, trate quem bateu com amor. Ele não fez de propósito – creio eu. Se alguém te ofender, não devolva mal com mal (Rm 12). Se te passarem para trás, ande a segunda milha (Mt 5.39-41). Dar a outra face não é ser frouxo nem banana, é ser crente. Pois, se não formos diferentes do mundo, em que somos diferentes do mundo? Se agimos como mundanos somos apenas mundanos que frequentam uma igreja. Ser cristãos exige de nós caminharmos na direção oposta do que todos caminham, nadar correnteza acima, trafegar pela contramão do mundo. Temos de ser ETs – pois realmente somos alienígenas, peregrinos em terra estranha.
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É fundamental que demos o exemplo para o mundo. Em palavras, ações e reações. E isso exige de nós esforço, pois o velho homem tem uma capacidade impressionante de pôr a nova criatura para escanteio. Ser sal e luz exige que façamos as coisas ao contrário do que nossa natureza humana determina. Porque, se não o fizermos, a única coisa que dirá que somos cristãos – para o mundo e também para Deus - serão os adesivos evangélicos na traseira de nossos carros.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício