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adoteumpecador1Você já deve ter visto na televisão anúncios de organizações que estimulam você a apadrinhar crianças pelo mundo inteiro ou a ajudar instituições humanitárias de auxílio medico em regiões de pobreza extrema. São entidades como Action Aid, Médicos sem Fronteiras ou Visão Mundial, que fazem um trabalho maravilhoso de amor pelo próximo. Você contribui com trinta a cinquenta reais por mês e ajuda pessoas desnutridas, doentes ou carentes a melhorar de vida, estudar, ter auxilio médico, encontrar dignidade. Fiquei pensando sobre a ação dessas belíssimas organizações e me inspirei para propor uma campanha. Assim, lanço hoje a Adote um pecador.

A diferença entre essa minha campanha solitária e as dessas instituições é que ela funciona em moldes diferentes. Em vez de você doar um pouco de dinheiro mensalmente e deixar que os integrantes desses grupos ponham a mão na massa para auxiliar os carentes, doentes e necessitados, minha proposta não vai lhe custar nem um centavo. Também não vai exigir ações mensais. Na verdade, vai requerer de você muito mais: o seu coração.

O alvo de nossa campanha é alguma pessoa que você conheceu, que pertencia a alguma igreja e hoje não pertence mais. Mas não qualquer um, tem de ser um indivíduo com perfil específico: alguém que cometeu um ou mais pecados do tipo que os cristãos costumam considerar – sabe Deus por quê – mais graves do que os outros e que por isso foi discriminado dentro da igreja, oprimido pelos irmãos e que, diante de tanta falta de amor, acabou se afastando da família de fé.

Vou ajudar você a se lembrar de alguém: em geral, são pessoas que cometeram pecados sexuais (pode até mesmo ser um pastor que adulterou); que se divorciaram sem a bênção da igreja; que não conseguiram abandonar a dependência química por álcool ou outras drogas; gente que foi vista em algum ambiente “pecaminoso”, como uma boate, o samba ou o baile funk; indivíduos que cometeram algum tipo de delito que os levaram a ser humilhados publicamente, talvez até conduzidos à frente da igreja para serem expostos em suas transgressões diante dos demais. Perceba que não estou entrando pelo mérito do pecado em si (se é pecado, é pecado e ponto) nem passando a mão na cabeça da transgressão. Meu foco é o que nós, a Igreja de Jesus Cristo, fizemos com essa vida após o pecado. Pois bem, a pessoa que é o alvo dessa campanha deve ser alguém que, além do estrago causado pelo próprio pecado, tenha sido ainda mais prejudicada pela forma discriminatória ou humilhante da qual os irmãos em Cristo a trataram ao tomar conhecimento de suas falhas. Essas são as almas que desejo alcançar com a campanha Adote um pecador.

adoteumpecador2E como ela funciona? Em vez de doar seu dinheiro, você vai doar seu coração e seu tempo. Primeiro, proponho que você ou um grupo de irmãos da igreja partam ao encontro dessa pessoa – em sua casa, no trabalho, na escola, nas ruas. Não é só dar um folheto não. É sair do seu conforto e ir até ela, onde ela estiver, como o bom pastor da parábola foi até a ovelha perdida. Quando a encontrar, você vai lhe dar amor. Abrace-a. Chore com ela. Peça perdão em nome da igreja inteira por, em vez de ajudá-la a ficar de pé após o pecado, tê-la afundado ainda mais na lama mediante a segregação, os olhares tortos, a falta de tato, a desumanidade. Deixe claro que ela é importante. Por fim, fale do amor de Cristo. Diga-lhe que Deus perdoa todos os pecados mediante arrependimento, que ela é extremamente bem-vinda no seio da igreja do Senhor, que nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus. Dê-lhe um beijo, um abraço apertado e… vá embora.

adoteumpecador3E atenção, pois este é um ponto fundamental da campanha: não convide essa preciosa alma para ir à igreja. Nem mesmo toque no assunto. O objetivo é dar amor, trazer perdão à tona, viver o evangelho junto com ela. Demonstrar bondade. Amabilidade. Carinho. Afeto. Cristo. Se ela achar que você a procurou apenas para voltar a frequentar cultos, tudo estará perdido. A finalidade é que ela se sinta acolhida, perdoada, querida, importante. É dar-lhe o senso de humanidade e de comunhão que a discriminação que sofreu roubou dela. Tenho certeza de que, se ela voltar a enxergar a família de fé como uma família de fato, mais do que um grupo de carrascos da inquisição, tornar a frequentar o ambiente eclesiástico será uma consequência natural. Mas será uma consequência, não a causa. Triste igreja é aquela que tenta trazer pessoas para tornar-se uma frequentadora de cultos, em vez de um membro amado e perdoado do Corpo de Cristo. Dê amor a ela, sem esperar nada em troca. O resto ficará por conta do Espírito Santo.

A campanha está lançada. O blog APENAS tem na data de hoje quase 2.400 assinantes, que somam-se a uma média de 11 mil acessos semanais. Isso significa que mais de 13 mil pessoas lerão este post apenas na primeira semana de sua publicação. Imagine se cada uma dessas 13 mil partirem em busca de um pecador. Seriam 13 mil seres humanos, abandonados e segregados devido a pecados que cometeram, que receberiam amor e graça da parte de irmãos em Cristo. E, se você repassar este texto para pelo menos um conhecido e ele decidir adotar um pecador, já seriam 26 mil indivíduos que visualizariam, na prática, o amor de Cristo em sua vida por meio de irmãos. Elas deixariam de ver a igreja como um antro de inquisidores e passariam a enxergar os cristãos como gente que ama, perdoa, acolhe e vive de fato o que a Bíblia diz. Eu ouso até sonhar mais alto: imagine que cada uma dessas 26 mil pessoas chamasse mais três irmãos para também adotar um pecador. Se isso acontecesse, alcançaríamos 100 mil indivíduos feridos, machucados e oprimidos dentro das igrejas que teriam um vislumbre da graça da cruz de fato em sua vida. Tremo só de imaginar.

Eu tenho esse sonho. E é um sonho bom de se sonhar – pois é bíblico e mira no epicentro da nossa fé: amor, bondade, perdão, reconciliação, restauração. Se meu sonho vai se tornar realidade ou não… depende única e exclusivamente de você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Certa vez ouvi de um servo de Deus que a igreja é um lugar muito perigoso. Pois a vida em comunhão nos expõe, nos desafia, nos convida a conviver com a contradição e a natureza humana de indivíduos que deveriam substituir essa natureza pela de Cristo. A cada dia que passa vejo mais e mais que essa é uma grande verdade. A possibilidade de que você será ferido, magoado ou humilhado de algum modo por congregar em uma família de fé é bem plausível, visto que estará convivendo e se abrindo para pecadores cheios de falhas – embora em busca de santificação. Postei há alguns meses aqui no APENAS uma reflexão sobre “O lugar mais importante na igreja“, em que, por meio de uma metáfora,  compartilho minha visão de que a segunda pessoa mais importante numa congregação depois de Jesus é o triste, o abatido, o deprimido, o humilhado, o abandonado, o desesperado, o indigno, o ferido. Fiquei espantadíssimo ao ver a quantidade enorme de irmãos que entraram em contato pelo espaço de comentários do blog para relatar experiências terríveis que viveram no ambiente eclesiástico e que sofreram os mais variados tipos de traumas. Ao todo, 48. Muito revelador e espantoso é que, em comum a todos menos três, havia o pedido de não publicar seu comentário. 45 pessoas! Sem que dissessem, ficou claro que tudo o que queriam – ou precisavam – era desabafar e não queriam se expor. Em outras palavras, inconscientemente querem permanecer invisíveis. O que essa constatação deve gerar em cada um de nós? Como devemos agir com relação a essas pessoas feridas?

Mais ainda: devemos parar de ir à igreja porque podemos acabar saindo dela com o coração dilacerado? A resposta é um grande não. E já veremos por quê.

Entre os comentários havia de tudo. O mais frequente é a decepção com os líderes ou outros membros. Sim, porque paredes e templos não ferem ninguém: quem fere são pessoas. Pastores que usaram de autoridade desmedida e humilharam ovelhas publicamente. Irmãos que discriminaram pela classe social e pela cor da pele. Pastores que não mantiveram o sigilo pastoral sobre pecados a eles confessados. Irmãos que usaram de artimanhas para tomar “cargos” de outros. Pastores que em vez de ajudar a pôr de pé os caídos esmagaram ainda mais o crânio de quem estava no chão. Irmãos que não demonstraram coração perdoador. Pastores que usaram o púlpito para fazer desde propaganda política a publicidade de revistas e DVDs. Irmãos que ignoram quem não conhecem e compartimentalizam a igreja em panelas. Pastores que agiram em causa própria e deixaram vidas humanas à própria sorte. Irmãos que não estenderam a mão quando mais se precisava de ajuda. Pastores que prometem o que Deus não promete. Irmãos que discriminam da “falta de fé” à forma de se vestir de outros e os consideram cristãos de segunda classe.

Em comum a todos os casos, o que ficou visível foi uma deficiência no amor ao próximo e a prevalência do interesse próprio.

E essas são só as causas mais frequentes que detectei entre os comentários. Há mais. A quantidade e a variedade de formas pelas quais é possível ferir alguém por estar inserido no ambiente de uma família de fé são muitas, algumas surpreendentes. E isso é um chamado à responsabilidade para todos nós. Não é à toa que usei como título deste post o mesmo do livro da jornalista Marília Camargo, publicado pela editora Mundo Cristão, que trata de desmandos cometidos por lideranças eclesiásticas. Pois esses problemas se multiplicam tanto que se tornaram visíveis para cada vez mais pessoas – cristãs ou não. E um ponto nevrálgico da questão é que deixar a comunhão dos santos não é a solução. Por diversas razões.

No que tange à liderança, nunca podemos nos esquecer que há muitos líderes que sabem cuidar de ovelhas, que as põem acima de si mesmos e que entendem que a vocação pela qual Deus os chamou é sobre Jesus e sobre o próximo e não sobre si mesmos (leia mais no post “A importância de um pastor“). Que não deixam a vaidade, a prepotência ou os projetos pessoais interferirem no cuidado e no amor pelos irmãos. São muitos e estão por aí, em igrejas de diferentes denominações, em diversas regiões do país, em bairros ricos e pobres. O ministério pastoral não entrou em colapso devido ao fato de que há os que não pastoreiam com compaixão e graça, com amor e carinho, com cuidado e zelo. Há sim os que usam o púlpito como emprego estável ou os que não entendem a profundidade do amor de Deus e por isso não o refletem em seu pastoreio, mas as maçãs podres ou contaminadas devem servir acima de tudo para nos lembrar que há maçãs maduras e que alimentam. E há muitas. Há muitos homens de Deus à frente de igrejas, é só ter paciência de procurar e pedir discernimento ao Senhor. Recusar ser bem pastoreado é recusar um maravilhoso presente que Deus nos dá.

Já no que tange à membresia, é preciso lembrarmos sempre do velho clichê (que é verdadeiro) de que a igreja não é um museu de santos, mas um hospital de pecadores. Todos, absolutamente todos os membros de uma igreja, são pecadores. Ninguém escapa. Pode ter certeza que o mais santo de todos tem no mínimo pensamentos horripilantes. Agostinho teve. John Wesley teve. Davi teve. Salomão teve. Paulo teve. Pedro teve. Eu, então, nem se fala. Só que isso, em vez de nos afastar da igreja, deve produzir em nós um sentimento de misericórdia, por saber que o próximo é tão pecador como nós e é tão passível de erro como eu e você. Há pessoas responsáveis por atividades importantes dentro de igrejas que cometem pecados cabeludos e, em vez de fugir delas, precisamos orar por elas para que sejam libertas, que alcancem o perdão e para que seus pecados não interfiram na missão que Deus lhes confiou. Sempre digo a quem está decepcionado com os irmãos que, se vemos alguém que julgamos ser um “mau cristão”, em vez de empurrá-lo para longe devemos nos aproximar para influenciá-lo positivamente. Pois é o que se encaixa na graça de Deus. Não o medo, mas a coragem.

No que tange a nós mesmos, precisamos lembrar que mesmo sendo a igreja uma assembleia de pessoas imperfeitas e potencialmente passíveis de nos machucar, é onde cultuamos a Deus em comunhão. É onde celebramos o memorial coletivo da Ceia do Senhor. É onde ouvimos pregações (sim, muitas vezes feitas por sacerdotes cheios de falhas) que vão nos edificar, consolar e exortar. É onde podemos encontrar aqueles que de outro modo não saberíamos que precisam de uma mão estendida. É aonde os perdidos tocados por Deus vão, em busca de algo a que a cruz na porta remete em termos espirituais. Já fui parar em um CTI por ter comido alimentos estragados em um restaurante. Mas não é por isso que vou deixar de ir a restaurantes, pois preciso me alimentar. O medo de comer em outro restaurante não é benéfico, pode me gerar inanição. Assim como o medo de ir a uma igreja porque nos decepcionaram em outra não provém de Deus. Se a igreja é um lugar perigoso, é um lugar para os corajosos. Um erro não justifica o outro.

Você já se decepcionou com um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. Só que o que o outro faz não depende de nós. O que temos poder para mudar é agir a partir de outra pergunta: você já decepcionou um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. E se você, como eu, reconhecer que causou o mal a alguém, mesmo que tenha sido de modo involuntário, aí está diante de si a grade oportunidade de começar a mudar o que está ruim: procurando mudar ou pelo menos melhorar a si mesmo. Pois, no que eu mudo e me torno um cristão melhor, uma ovelha menos manchada para meu pastor e um irmão menos decepcionante para os membros da igreja, aí sim estou contribuindo com meu exemplo e minha atitude pessoal para que o Corpo como um todo seja aperfeiçoado.

Então, se fomos feridos na igreja, devemos começar por fazer uma análise de nós mesmos e ver em que pontos nós ferimos os outros. Eliminando esses pontos serviremos cada vez mais de exemplo. Quanto aos que nos feriram, a dor permanecerá pelo tempo que o luto durar e isso independe de nós.

Mas podemos perdoar.

Quantas vezes? Setenta vezes sete. Todas. Sempre. Repetidamente. E não perdoe só da boca para fora, porque isso é fácil para qualquer um fazer. Perdoe em atitude. Sendo bom para quem te feriu. Ajudando-o. Estendendo a ele benefícios. Auxiliando no que ele precisar. Orando a Deus por sua vida. Essas são as maneiras bíblicas de agir com quem nos machucou. Não importa como o outro se comporta, importa como você se comporta. Faça sua parte. Pense menos em si e mais em Cristo. Pois se cada um de nós pensar somente em si, da próxima vez que escrever um post sobre gente machucada na igreja não serão 48 pessoas contando suas histórias, mas 490.

A mudança começa em nós. Menos dedos apontados, mais lágrimas no travesseiro. E quando você conseguir ser alguém melhor, ajude os demais. A começar estendendo amor de forma prática a quem te fez mal. E aí haverá festa no Céu, porque você poderá estar sendo intrumento nas mãos de Deus para levar um pecador a se arrepender. Minha esperança é que para cada ferido “em nome de Deus” apareça um bom samaritano que venha a cuidar de suas feridas. E, isso sim, será verdadeiramente feito em nome do perdoador, misericordioso, amoroso e gracioso Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício