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Gracas1Um dos trechos mais interessantes da Bíblia, em minha opinião, é 1 Tessalonicenses 5.18: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. Como assim, “em tudo, dai graças”? Temos de ser gratos a Deus pela dor, a tristeza, o sofrimento, a solidão, a depressão, o desamor, o abandono, a tragédia, as heresias, a falsidade, a acusação, a traição… em tudo o que ocorre de pior em nossa vida? Sejamos francos: nós não sentimos vontade nenhuma de agradecer a Deus nessas horas, queremos mais é brigar com Ele, alardear o quanto somos fiéis e não merecemos aquilo, ficar de mal com o Senhor, questionar sua bondade, sua justiça e seu amor. Soube recentemente de uma mulher, evangélica, que perdeu o irmão de 28 anos de câncer e, ao receber a notícia de sua morte, soltou um grito no hospital:

- Deus F.D.P.!

Chocou? A mim também. Como pode isso? Essa blasfêmia, esse ato impensável? Mas a verdade é que muitos não têm coragem de dizer isso quando vem a desgraça… mas que pensam, ah, isso pensam. Estou errado? Porque a verdade é que nós não conseguimos conceber Deus deixar coisas ruins acontecerem em nossa vida. Com um ímpio vá lá, mas comigo?! Eu que sou tão obediente?! Vamos pensar um pouco sobre esse versículo. Mais ainda: vamos pensar um pouco sobre gratidão.

Graca2A chave do “em tudo dai graças”, para mim, vem alguns versículos antes: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para recebermos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5.9). O que isso significa? Façamos uma parábola: imagine que você está em um navio que naufraga. Você está ali, em alto-mar, nadando com suas últimas forças para sobreviver. Sente câibras, percebe que não há salvação para você: seu destino certo é a perdição, é afundar na escuridão do abismo submerso, ser devorado pelos peixes. De repente, desponta no horizonte uma luz. É um navio! O capitão da embarcação o viu de longe, desviou seu curso e, cheio de compaixão, partiu em sua direção. Quando você já está meio metro abaixo da superfície, ele lhe lança uma bóia. Você está salvo! Foi resgatado! Assim, você sobe a bordo, exausto, desgrenhado e rasgado – e recebe, sem que esperasse, o direito à vida.

Eu lhe perguntaria: qual seria diante dessa circunstância o seu sentimento pelo resto da vida para com aquele capitão? Provavelmente você diria algo como “eu seria eternamente grato a ele”. E diria com razão, porque o que ele fez foi algo que merece que você lhe seja agradecido pelo resto de seus dias. Ao chegar a bordo, exausto e encharcado, num primeiro momento, instintivamente, você pula no pescoço dele, o abraça com todas as poucas forças que ainda tem e repete em voz fraca: “Obrigado… obrigado… obrigado… obrigado…”. Não quer soltar a mão do bondoso capitão. Aquele homem renovou a esperança de vida para alguém que tinha a certeza da morte! Você o ama! Promete devotar o resto de seus dias a sentir gratidão por ele.

Gracas3Só que aí o navio prossegue na viagem. Vocês estão a meses do porto mais próximo, então você se recupera e acaba se integrando à rotina do navio. O capitão chega e lhe dá uma atribuição: você terá de descascar pilhas de batatas por dia para alimentar a tripulação. Em princípio parece chato, mas, afinal, o homem te salvou, é o mínimo que pode fazer. Só que as semanas passam e aquilo fica cansativo. Seus dedos doem. É entendiante. E você começa a reclamar. E não é só isso: ele deu um canto cheio de graxa para você dormir no porão da embarcação. Cheira mal, é barulhento, tem ratos, o colchão é duro. Logo, logo você se pega reclamando. Foi para aquilo que ele te resgatou? Para você ter de encarar toda aquela situação deprimente? Poxa, e você estava se esforçando tanto, era-lhe tão fiel, descascava tantas batatas por dia! Era uma injustiça! Você não merecia passar por aquilo!

Você começa a desconfiar que o capitão te salvou apenas para ter mão-de-obra barata. Se junta aos tripulantes que falam mal dele. Murmura pelas costas. O acusa de injusto, de não ter amor por você por permitir que passe por aquela situação humilhante e dolorosa. Aquele capitão é um crápula. Chega a pensar em abandonar o barco na primeira oportunidade que tiver. Vida desgraçada, capitão maldito!

Graca5O que você não sabe é que o capitão tem bons informantes e sabe tudo o que você diz. Um dia ele se aproxima de você. Cheio de amor, fala: “Eu não o destinei para a ira, mas para receber a salvação por meio deste navio”. E então, diante daquelas palavras, parece que tudo faz sentido. Você percebe que a pilha de problemas – o desconforto, o trabalho, o enfado, a chateação, o sofrimento – era algo muito pequeno perto do que o capitão fez por você. Ele não precisava, não tinha obrigação nenhuma, mas lhe estendeu a mão e o recolheu da morte certa. E simplesmente porque ele quis. Não porque você merecesse. Tudo o que você estava fazendo era se debater na água. Ia afundar, era absolutamente certo. Mas ele veio. Parou. Te resgatou. Te abrigou. Te deu alimento. Te deu um lugar para repousar. Ali você teria aflições? Naturalmente! O navio era bem desconfortável. Mas aquele homem te deu vida, não seria motivo suficiente para ter bom ânimo?

Mais do que isso: não seria motivo mais do que suficiente para… em tudo dar graças?

Deus nos deu a salvação. É motivo suficiente para em tudo darmos graças. Para em todos os piores momentos da vida, quando nos sentimos os mártires do universo… agradecermos. “Obrigado, Senhor, porque estou passando pelo vale da sombra da morte. Mas, se tu não tivesses me resgatado, eu estaria morto. Afogado em meus pecados. Afundando rumo ao inferno”. Depois disso, tendo clareza dessa realidade, só nos resta dizer, em meio aos piores dos piores momentos da vida: “Deus… obrigado… obrigado… obrigado…”.

Gratidão. Que nunca nos esqueçamos disso. Deus nos deu a vida eterna. Gratidão é o mínimo que podemos dar em troca.

Graca6Hoje, 14 de maio de 2013, o blog APENAS completa dois anos de vida. Quis que o tema de hoje fosse especificamente gratidão em ação de graças a Deus por esses dois anos em que ele tem me dado forças e ideias para continuar escrevendo aqui e, quem sabe, ajudando uma vida, edificando outra, somando de algum modo. Nesses dois anos, descasquei muita batata, reclamei muito, fiz muitas besteiras e realizei algumas coisas boas. Com certeza aprendi muito. Tive o privilégio de ter as 245 singelas reflexões que já postei neste blog lidas em cerca de 710.000 ocasiões. Foram mais de 15.000 comentários deixados aqui ao longo desse período, por irmãos que aguentam minha demora em aprová-los e respondê-los, devido à constante falta de tempo (me perdoem por não conseguir moderar todos com rapidez, eu tento… mas nem sempre consigo). Ganhei até aqui quase 1.700 companheiros fiéis de caminhada, que tiveram a coragem de assinar este blog e têm a paciência de receber por e-mail uma, duas vezes por semana aquilo que aqui escrevo.

Sou grato a Deus por me permitir, como bem disse um dos irmãos que escreveram nos comentários, “ser um cano enferrujado por meio do qual corre a água da vida”. Sou grato a você por ter a paciência de ler minhas reflexões, em posts mais longos do que habitualmente são os textos de blogs – e que são fruto da minha incapacidade de sintetizar pensamentos complexos. Muito obrigado pelo seu carinho nessa caminhada internética e por vir me visitar de vez em quando aqui no meu pequeno mosteiro virtual. Sinto-me profundamente honrado.

Gratidão. Por hoje é o que basta.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

DoençaDomingo passado fiquei profundamente tocado ao saber que uma irmã da igreja recebeu a notícia de que está com câncer. A previsão é de pelo menos um ano e meio de tratamento, quimioterapia e tudo o mais a que tem de se submeter alguém que é acometido por essa moléstia. Jovem, cristã, casada com o baterista do grupo de louvor… oramos juntos durante o culto – eu, ela e seu marido. Choramos. Pedimos a cura. E meus olhos demoraram algum tempo para secar, pois parecia que conseguia sentir em mim a dor e a ansiedade daquele casal, já em antecipação pelos meses de batalha que terão pela frente. Esse episódio me afundou em reflexão sobre uma das questões mais antigas entre os cristãos: como aceitar a ideia de um Deus bondoso e misericordioso deixar seus filhos enfrentarem doenças que causam dor e sofrimento? Eu tenho uma teoria.

Para falar sobre isso, antes de mais nada devemos nos lembrar de que estamos vivos e, como tal, sujeitos a todo tipo de doença. Parece meio óbvio, mas – acredite – para muitos não é. Há uma crença disseminada em muitas igrejas, com base em Isaías 53, de que Jesus curou todas as doenças do universo Doença1na cruz e basta termos fé que o interruptor da cura será acionado. Não acredito nisso. Acredito que, em sua soberania, Deus é capaz de me manter doente por mais que eu tenha a fé maior do mundo (se quiser se aprofundar no assunto, pode ler o post “E quando Deus não cura? – Parte 2/2“). Acredito no “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Enquanto estamos vivos, habitaremos em corpos frágeis, aglomerados de tecidos e líquidos sujeitos a doença, degradação, falência, decadência. A salvação não blinda nossos corpos contra bactérias, vírus, torções, multiplicação descontrolada de células (tumores), fraturas, amputações, dores e centenas de outros tipos de problemas de saúde que podemos ter. A salvação é espiritual e não corpórea. Salvos e não salvos ficarão doentes do mesmo modo. A vida nos prova que isso é fato.

Se você não crê nisso, pense em uma coisa. Islâmicos ficam doentes e são curados. Espíritas ficam doentes e são curados. Budistas ficam doentes e são curados. Hindus ficam doentes e são curados. Xintoístas ficam doentes e são curados. Candomblecistas ficam doentes e são curados. Satanistas ficam doentes e são curados. Ateus ficam doentes e são curados. Cristãos ficam doentes e são curados. Simplesmente porque todos os fieis de todas as religiões fazem parte do mesmo grupo de seres: humanos. E humanos ficam doentes. Humanos produzem anticorpos. Humanos reagem a  medicamentos. Humanos ficam curados. E humanos também morrem.

Doença2Meu pastor eventualmente diz: exceto por um acidente ou um assassinato, ninguém “morre de morte”. Todos morremos de doenças. De falhas no funcionamento do organismo. Desconsidere quem morre por fatores de origem externa, como tiros, facadas, atropelamentos, afogamentos ou similares. Os demais morrerão de AVC, infarto, malária, dengue hemorrágica, pneumonia e centenas de outros tipos de problemas orgânicos. Ninguém morre de velhice: velhos morrem porque seus organismos não comportam mais a vida e, por isso, algo falha, uma doença os acomete e chega o momento da partida desta existência material. Se todos os cristãos fossem ser curados de tudo, nenhum de nós morreria. Lembre-se de que todo mundo que um dia foi curado de algo – seja por atendimento médico ou por um milagre – no fim acabará sucumbindo a outro mal. Ou você acha que Lázaro, o irmão de Maria e Marta, está vivo até hoje?

Então, somos espíritos infinitos que habitam corpos finitos. Vamos adoecer. Vamos morrer. É bom estarmos cientes disso.

Você poderia dizer: “Ok, Maurício, tudo bem, todos vamos ficar doentes e morrer um dia, mas precisamos sofrer tanto com certas doenças tão terríveis?”. Vamos analisar alguns casos bíblicos. Miriã, a irmã de Moisés, ficou leprosa, pela vontade do Senhor. Jó, o homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal, ficou cheio de tumores na pele, pela vontade do Senhor. Doença3O próprio Lázaro, um dos melhores amigos de Jesus, adoeceu, como explicou o Mestre, “para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela [a doença] glorificado”. O cego de nascença de João 9 carregava essa condição por anos, para, segundo Jesus, “que se manifestem nele as obras de Deus”. Até aqui falamos de lepra, tumores, cegueiras e uma doença mortal indefinida, todas enfermidades terríveis. Mas tem mais: muitos são os relatos, de Êxodo a Juízes, de circunstâncias em que o Senhor amoroso enviou doenças, pragas e pestes ao seu povo, o povo eleito, o povo escolhido, para que aprendesse que não havia outro Deus além dele e abandonasse a idolatria. E não nos esqueçamos do espinho na carne de Paulo que, é possível, talvez fosse uma doença. E estamos falando do grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado ao céu… mas para quem a graça de Deus bastava.

Agora eu pergunto a você: o que têm em comum todas essas circunstâncias, em que, pela ação direta de Deus, membros do seu povo, pessoas que ele amava e a quem queria bem –  Miriã, Lázaro, Jó e tantos outros – acabaram sendo acometidos por doenças horríveis e que causaram tanto sofrimento? O que vejo em comum a todos esses casos é o desejo do Senhor de que venhamos a aprender lições importantes por meio das enfermidades.

Veja: Miriã foi vencida pela soberba e a lepra veio para lhe ensinar humildade. Paulo (se é que o espinho na carne foi uma moléstia) recebeu a lição de que a graça de Deus é o que há de mais importante. O povo israelita sofreu muitas vezes com pestes para aprender que a obediência e a fidelidade ao Todo-poderoso são vitais. Jó sofreu para que bilhões de judeus e cristãos ao longo dos milênios aprendessem com sua história sobre a soberania divina. O cego e Lázaro padeceram para que bilhões de indivíduos aprendessem que o mais importante de tudo é a glória de Deus.

Doenças e aprendizado andam de mãos dadas desde o Éden. Andavam na época do Antigo Testamento, continuaram andando após a vinda de Jesus, andam ainda em nossos dias e seguirão andando até a consumação do século. Deus sabe que somos pó e, muitas e muitas vezes, o aprendizado sobre a obediência, a graça e a glória de Deus vêm mediante um instrumento pedagógico chamado doença (que, infelizmente, carrega a reboque dor e sofrimento).

Muitos poderiam dizer que esse tipo de pensamento não coaduna com a essência de um Deus que é amor. É exatamente por isso que precisamos entender os fatos do dia a dia pela óptica do Senhor e não pela dos homens. CoDoença4mpreenda uma coisa: quando o Pai olha para você, ele não está enxergando somente os míseros 70 anos de vida durante os quais a sua alma estará na terra – tão preciosos aos seus olhos humanos. Ele está vendo de uma perspectiva muito mais elevada, o Senhor contempla os milhões, bilhões, trilhões, quatrilhões de anos que você terá de vida eterna. Se essa matemática lhe parece nebulosa, perceba que, se a eternidade tivesse apenas 1 milhão de anos de duração, nela caberiam 14.285 vezes o tempo de vida de alguém que vive na terra 70 anos. E, lembre-se que a eternidade vai durar milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões (e por aí vai, indefinidamente) de anos. Ou seja: uma eternidade que tivesse somente 1 milhão de anos equivaleria a 14.285 vidas terrenas.

Diante disso, sinceramente, o que você acha que é mais importante para o Senhor? Suas poucas décadas aqui ou sua existência eterna? Se for preciso fazer você enfrentar alguns anos de aperto agora que promoverão um aprendizado benéfico para toda a eternidade, o que você acha que ele fará? No lugar dele, o que você faria?

Doenla5Eu estava brincando de massinha de modelar com minha filha de 2 anos quando vi que ela ia enfiar um pedaço daquela substância tóxica na boca (e, se eu não visse, possivelmente engolir). Num reflexo, dei um grito. A pobrezinha tomou um susto, pois não está acostumada a ouvir papai gritar com ela. Paralisou. Fez beicinho. E começou a chorar. Tomei-a em meus braços, a acalmei e depois lhe expliquei a razão de ter gritado com ela: evitar um mal maior. Ela compreendeu, enxugou as lágrimas, apertou meu pescoço num abraço e me deu um beijo. Quase nunca grito com ela, mas se você me perguntar se eu gritaria de novo se tivesse de reviver aquela situação, afirmo que berraria quantas vezes fosse necessário, pois a amo e prefiro que ela sofra um pouquinho por algum tempo do que sofra muito por muito tempo. Por que com Deus seria diferente? O amor de Deus por nós é tão, mas tão grande, que ele deixa que fiquemos doentes.

Deus olha para mim e você sempre, sempre e sempre a partir da perspectiva da eternidade. Ele quer nosso bem eterno. Se para isso for preciso que soframos um tanto de tempo nesta vida terrena e, assim, aprendamos importantes lições que impactarão diretamente nosso relacionamento e nossa intimidade com o Senhor pelos zilhões de anos que teremos entre a doença e a eternidade, afirmo que Deus nos enfermaria quantas vezes fosse necessário. Por quê? Em linguagem bíblica, “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Co 4.17-18).

Sim, ficaremos doentes. Sim, homens bons e íntegros, cristãos fieis, servos cheios de fé… todos ficarão doentes. Sim, todos os que adoecerem sofrerão. Sim, devemos orar pelos enfermos na esperança de sua restauração. Sim, remédios curarão muitos. Sim, milagres curarão alguns. Sim, muitos morrerão. Sim, no fim todos morreremos. O que fará a diferença é o quanto teremos capacidade de tirar de aprendizado de toda a dor e o sofrimento que precisaremos encarar.

Doença5Quando Jó finalmente parou de questionar as razões de sua doença e aprendeu o que Deus queria que ele aprendesse, disse: “Certo é que falei de coisas que eu não entendia, coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber.  [...] Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram.  Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.3-6). Quatro versículos depois, Deus acaba com o sofrimento de Jó. Será coincidência? É por isso que eu sempre recomendo: se você está doente, junto à oração pela cura ore a Deus perguntando o que Ele quer que você aprenda com aquela enfermidade. Há uma grande chance de seu sofrimento ser abreviado se você aprender o mais rápido possível o que Deus quer que você aprenda. Essa é uma certeza canônica? Não, a Bíblia não afirma isso. Mas é no que eu creio.

Que em meio à doença aprendamos mais sobre santidade. Sobre obediência. Sobre a graça de Jesus. E, por fim, sobre a glória de Deus.

Doença6Eu choro pela minha irmã que recebeu o diagnóstico de câncer. Fico muito, muito triste – e domingo fiz um compromisso comigo mesmo de orar diariamente por ela. Não queria que ela passasse por isso. Jesus, na noite de sua paixão, entrou em depressão a tal ponto por causa do sofrimento que teria de enfrentar que Mateus 26 registra: ele “começou a entristecer-se e a angustiar-se” e disse a seus amigos: “A minha alma está profundamente triste até à morte”. Pois a dor… dói. E de sentir dor quem gosta? Mas o sofrimento de Jesus trouxe benefícios eternos. O Pai sabia disso e, por essa razão, não afastou de seu Filho amado o cálice do sofrimento. Por isso, muitas vezes o compassivo e bom Deus deixa que também nós bebamos do cálice do nosso sofrimento: para que aprendamos algo que virá a trazer benefícios eternos. O que cada um de nós tem de aprender com nossas doenças? Não faço ideia (para cada pessoa há um aprendizado específico). Mas Deus faz.

De minha parte, sei que a graça dele nos basta. E que a ele seja dada toda a glória, pelos séculos dos séculos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Nicole1Há poucos dias, liguei a televisão, num daqueles momentos em que você zapeia por todos os canais e não encontra absolutamente nada que te interesse. Acabei sintonizando em um programa bizarro, a que nunca assistira antes: o Face Off, do canal SyFy. Trata-se de um reality show estadunidense em que artistas de maquiagem disputam um prêmio em dinheiro criando, a cada episódio, criaturas iguais às de filmes de ficção cientifica. Monstros, cyborgues, vampiros, alienígenas, esse tipo de coisa. Aquilo chamou de imediato minha atenção porque, na hora em que sintonizei, estavam entrevistando os três finalistas do programa antes de anunciar o vencedor. Um deles, a jovem Nicole Chilelli (na foto, de camisa azul), estava, naquele exato momento, falando sobre como conseguia viver e trabalhar, apesar de sofrer com uma terrível doença chamada fibromialgia (que faz seu corpo inteiro doer, o tempo todo, entre outros sintomas horríveis – e não tem cura). Nicole falava sobre como ela, cuja mãe padece da mesma moléstia, lidava com aquilo no dia a dia e como encontrava motivação e disposição para superar aquerle horror e continuar vivendo.  Confesso que, à medida que ela falava sobre sua luta pessoal, lágrimas desciam pelo meu rosto. E já explico por quê.

Nicole2Nós, seres humanos, temos a tendência natural de reclamar de tudo, nos lamentar por qualquer coisa. Em linguagem bíblica, murmurar. A famosa murmuração que levou Israel e ficar rodando quarenta anos no deserto. E nós não somos diferentes: se moramos embaixo da ponte, chiamos pela falta de teto. Conseguimos dinheiro para nos mudar para um conjugado alugado e nos abatemos porque não é próprio. Somos abençoados com a chance de comprar um conjugado nosso e maldizemos a sorte porque não tem um quarto. O salário aumenta e nos mudamos para um quarto e sala. E praguejamos, por ser pequeno demais. Deus nos dá um três quartos e chiamos por não ter garagem ou playground. Recebemos uma bolada de herança e nos mudamos para um condomínio de luxo, com academia e piscina, mas nos entristecemos, pois o bairro não é tão nobre assim. Recebemos uma promoção e com isso conseguimos nos mudar para o melhor apartamento do melhor condomínio do país mas… não ficamos satisfeitos, pois, afinal, queríamos morar em Paris. Essa é nossa natureza: reclamar, reclamar, reclamar, reclamar, reclamar…

Nicole3Nada nunca está bom o bastante. Queremos sempre algo mais. “Piedade com contentamento é grande fonte de lucro”, revela Paulo em 1Timóteo 6.6, e continua: “pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos”. Mas, sinceramente, quem de nós pensa assim? Pior: quem de nós age segundo esse pensamento canônico? Nunca está bom o bastante. Queremos sempre mais. As bênçãos de Deus parecem sempre incompletas. Se conseguimos o emprego tão almejado e desejado, no dia seguinte já reclamamos que o chefe é exigente demais, a cadeira é desconfortável e ainda falta um ano para as férias – afinal, ninguém é de ferro. Pobres de nós, que temos uma vida tão desgraçada: o telefone não dá linha, arranharam nosso carro, nosso time perdeu, apareceu uma espinha no rosto, um fio de cabelo ficou branco, a unha quebrou! Meu Deus, quanta tragédia!

Nicole4Enquanto isso, Nicole Chilelli, uma não cristã, dá um exemplo de força interior, dedicação, perseverança, superação e alegria… porque encontra na criação de monstrengos a realização pessoal e uma motivação para prosseguir. Que vergonha. Que vergonha Nicole me fez sentir. Pois nós, cristãos, temos a vida eterna. Mas sempre estamos reclamando de tudo. Vou repetir, caso tenha parecido algo casual e sem importância: nós-temos-a-vida-eterna. Temos Jesus. Ele apontou para mim e para você e disse: “Eu te quero. Receba minha graça, o perdão dos seus pecados e a eternidade na glória eterna”. E o que nós fazemos? Respondemos a ele: “Ah, Jesus, mas a vida é tão dura, tenho de trabalhar tanto! Engordei dois quilos! Está calor demais! O elevador do meu prédio quebrou e tive de subir pelas escadas! Peguei muito engarrafamento hoje! A Internet está lenta!” E por aí vai. De uma lado, uma não cristã com fibromialgia vive alegre, motivada, sorridente, feliz e grata por fazer maquiagens que criam seres imaginários. De outro, legiões de cristãos, que receberam o privilégio de ser filhos e herdeiros do criador do universo, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam…

Nicole5Fibromialgia é uma síndrome que provoca dores por todo o corpo por longos períodos, com sensibilidade nas articulações, nos músculos e nos tendões; causa fadiga crônica, distúrbios no sono, falta de ar, dores de cabeça, depressão, ansiedade, falta de disposição e outras desgraças. Não tem cura. Os tratamentos geram poucas melhorias. É sofrimento dia e noite, 24 horas por dia, sete dias por semana. Fui procurar informações sobre Nicole na web. Li uma entrevista em que ela diz: “Maquiagem é toda minha vida”. Para uma mulher que sofre dessa montanha de problemas que você leu, maquiagem é tudo – e isso a deixa feliz. Para nós, a quem Jesus de Nazaré é toda a nossa vida, nosso tudo, nossa esperança de paz e gozo pelos trilhões e trilhões de anos que temos pela frente, às vezes cada centímetro da vida parece ruim – porque, afinal, nossa unha encravou, está chovendo lá fora ou nosso cachorro roeu o pé da mesa.

Temos de valorizar a bênção incrível que é a salvação. A adoção como filhos de Deus. O céu que nos espera. O fato de que somos amados pelo Senhor que tudo criou. a realidade de que o Todo-poderoso nos conhece pelo nome. Coisas como essas deveriam nos fazer sorrir do acordar ao deitar – exultantes e agradecidos. As tristezas vêm? Lógico! Nos abatem? Claro! Jamais vou defender que devemos ser hipócritas e dizer que tudo esá bem quando não está. Acredito que, se a Igreja fosse menos triunfalista, teríamos coragem de assumir mais vezes que estamos mal e, com isso, seríamos mais habilidosos em carregar o fardo uns dos outros e auxiliar-nos em nossas dores e nossos sofrimentos. A questão não é fingir uma falsa situação de bem-estar. É pensar em como lidamos com as desgraças da vida sabendo da realidade espiritual maior e do grande plano da eternidade.

Nicole6Nicole venceu o reality show. Tirou primeiro lugar. Faturou o prêmio. E saiu sorridente, emocionada, em paz. Feliz. Assistindo àquilo, não tive como não deixar de recordar de quando, 17 anos atrás, eu também recebi o diagnóstico de fibromialgia. Pensei no fato que, nos dez dias anteriores àquele em que assisti ao programa de TV, acordei todas as manhãs com dor de cabeça e sentindo falta de ar. Cheio de dores pelo corpo todo. Que nos três dias anteriores a ter visto Nicole sorrindo na televisão tive de me submeter, reclamando, murmurando e gemendo, a massagens doídas, para aliviar um pouco do sofrimento. Chorei com vergonha de mim, murmurador incorrigível que sou.

FibromialgiaAssisti a esse reality show durante o almoço, no intervalo de meu horário de trabalho. Nicole venceu sorrindo. Eu desliguei a TV chorando – e voltei para o meu computador. Sentei-me diante dele e me lembrei do médico que, 17 anos antes, me recomendou que eu “virasse cantor de ópera”, porque nunca mais poderia usar um computador na vida, pelo tanto que me dói digitar. Mas pensei em como Deus me conduziu até onde estou hoje – e trabalho como editor de livros cristãos, com uma jornada de oito horas diárias fazendo o que me disseram que nunca poderia fazer na vida: digitar ao computador. Na tela estava o texto de uma nova Bíblia, que estou ajudando a editar. Envergonhado, tudo o que pude fazer foi glorificar a Deus, pois o que me faz seguir adiante, lutar com todas as forças contra minhas impossibilidades e participar da confecção da Palavra Sagrada do Senhor Altíssimo é única e exclusivamente a graça do Cristo crucificado. Pois ele apontou para mim e disse: “É você”.

Murmurar? Já murmurei muito. Mas creio que não me atrevo a murmurar mais. Nicole me deu um tapa na cara. Se um não cristão pode ter alegria de viver por fazer maquiagens de monstros, mesmo sofrendo de uma moléstia terrível, eu preciso ter a humildade de ignorar as coisinhas de pouca importância do dia a dia e encontrar a alegria de viver por fazer parte de algo muito, mas infinitamente muito mais grandioso: o Reino dos céus.

Meu irmão, minha irmã, o Todo-poderoso lhe apontou o dedo e disse: “É você”. Do que você tem reclamado mesmo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Certa vez ouvi de um servo de Deus que a igreja é um lugar muito perigoso. Pois a vida em comunhão nos expõe, nos desafia, nos convida a conviver com a contradição e a natureza humana de indivíduos que deveriam substituir essa natureza pela de Cristo. A cada dia que passa vejo mais e mais que essa é uma grande verdade. A possibilidade de que você será ferido, magoado ou humilhado de algum modo por congregar em uma família de fé é bem plausível, visto que estará convivendo e se abrindo para pecadores cheios de falhas – embora em busca de santificação. Postei há alguns meses aqui no APENAS uma reflexão sobre “O lugar mais importante na igreja“, em que, por meio de uma metáfora,  compartilho minha visão de que a segunda pessoa mais importante numa congregação depois de Jesus é o triste, o abatido, o deprimido, o humilhado, o abandonado, o desesperado, o indigno, o ferido. Fiquei espantadíssimo ao ver a quantidade enorme de irmãos que entraram em contato pelo espaço de comentários do blog para relatar experiências terríveis que viveram no ambiente eclesiástico e que sofreram os mais variados tipos de traumas. Ao todo, 48. Muito revelador e espantoso é que, em comum a todos menos três, havia o pedido de não publicar seu comentário. 45 pessoas! Sem que dissessem, ficou claro que tudo o que queriam – ou precisavam – era desabafar e não queriam se expor. Em outras palavras, inconscientemente querem permanecer invisíveis. O que essa constatação deve gerar em cada um de nós? Como devemos agir com relação a essas pessoas feridas?

Mais ainda: devemos parar de ir à igreja porque podemos acabar saindo dela com o coração dilacerado? A resposta é um grande não. E já veremos por quê.

Entre os comentários havia de tudo. O mais frequente é a decepção com os líderes ou outros membros. Sim, porque paredes e templos não ferem ninguém: quem fere são pessoas. Pastores que usaram de autoridade desmedida e humilharam ovelhas publicamente. Irmãos que discriminaram pela classe social e pela cor da pele. Pastores que não mantiveram o sigilo pastoral sobre pecados a eles confessados. Irmãos que usaram de artimanhas para tomar “cargos” de outros. Pastores que em vez de ajudar a pôr de pé os caídos esmagaram ainda mais o crânio de quem estava no chão. Irmãos que não demonstraram coração perdoador. Pastores que usaram o púlpito para fazer desde propaganda política a publicidade de revistas e DVDs. Irmãos que ignoram quem não conhecem e compartimentalizam a igreja em panelas. Pastores que agiram em causa própria e deixaram vidas humanas à própria sorte. Irmãos que não estenderam a mão quando mais se precisava de ajuda. Pastores que prometem o que Deus não promete. Irmãos que discriminam da “falta de fé” à forma de se vestir de outros e os consideram cristãos de segunda classe.

Em comum a todos os casos, o que ficou visível foi uma deficiência no amor ao próximo e a prevalência do interesse próprio.

E essas são só as causas mais frequentes que detectei entre os comentários. Há mais. A quantidade e a variedade de formas pelas quais é possível ferir alguém por estar inserido no ambiente de uma família de fé são muitas, algumas surpreendentes. E isso é um chamado à responsabilidade para todos nós. Não é à toa que usei como título deste post o mesmo do livro da jornalista Marília Camargo, publicado pela editora Mundo Cristão, que trata de desmandos cometidos por lideranças eclesiásticas. Pois esses problemas se multiplicam tanto que se tornaram visíveis para cada vez mais pessoas – cristãs ou não. E um ponto nevrálgico da questão é que deixar a comunhão dos santos não é a solução. Por diversas razões.

No que tange à liderança, nunca podemos nos esquecer que há muitos líderes que sabem cuidar de ovelhas, que as põem acima de si mesmos e que entendem que a vocação pela qual Deus os chamou é sobre Jesus e sobre o próximo e não sobre si mesmos (leia mais no post “A importância de um pastor“). Que não deixam a vaidade, a prepotência ou os projetos pessoais interferirem no cuidado e no amor pelos irmãos. São muitos e estão por aí, em igrejas de diferentes denominações, em diversas regiões do país, em bairros ricos e pobres. O ministério pastoral não entrou em colapso devido ao fato de que há os que não pastoreiam com compaixão e graça, com amor e carinho, com cuidado e zelo. Há sim os que usam o púlpito como emprego estável ou os que não entendem a profundidade do amor de Deus e por isso não o refletem em seu pastoreio, mas as maçãs podres ou contaminadas devem servir acima de tudo para nos lembrar que há maçãs maduras e que alimentam. E há muitas. Há muitos homens de Deus à frente de igrejas, é só ter paciência de procurar e pedir discernimento ao Senhor. Recusar ser bem pastoreado é recusar um maravilhoso presente que Deus nos dá.

Já no que tange à membresia, é preciso lembrarmos sempre do velho clichê (que é verdadeiro) de que a igreja não é um museu de santos, mas um hospital de pecadores. Todos, absolutamente todos os membros de uma igreja, são pecadores. Ninguém escapa. Pode ter certeza que o mais santo de todos tem no mínimo pensamentos horripilantes. Agostinho teve. John Wesley teve. Davi teve. Salomão teve. Paulo teve. Pedro teve. Eu, então, nem se fala. Só que isso, em vez de nos afastar da igreja, deve produzir em nós um sentimento de misericórdia, por saber que o próximo é tão pecador como nós e é tão passível de erro como eu e você. Há pessoas responsáveis por atividades importantes dentro de igrejas que cometem pecados cabeludos e, em vez de fugir delas, precisamos orar por elas para que sejam libertas, que alcancem o perdão e para que seus pecados não interfiram na missão que Deus lhes confiou. Sempre digo a quem está decepcionado com os irmãos que, se vemos alguém que julgamos ser um “mau cristão”, em vez de empurrá-lo para longe devemos nos aproximar para influenciá-lo positivamente. Pois é o que se encaixa na graça de Deus. Não o medo, mas a coragem.

No que tange a nós mesmos, precisamos lembrar que mesmo sendo a igreja uma assembleia de pessoas imperfeitas e potencialmente passíveis de nos machucar, é onde cultuamos a Deus em comunhão. É onde celebramos o memorial coletivo da Ceia do Senhor. É onde ouvimos pregações (sim, muitas vezes feitas por sacerdotes cheios de falhas) que vão nos edificar, consolar e exortar. É onde podemos encontrar aqueles que de outro modo não saberíamos que precisam de uma mão estendida. É aonde os perdidos tocados por Deus vão, em busca de algo a que a cruz na porta remete em termos espirituais. Já fui parar em um CTI por ter comido alimentos estragados em um restaurante. Mas não é por isso que vou deixar de ir a restaurantes, pois preciso me alimentar. O medo de comer em outro restaurante não é benéfico, pode me gerar inanição. Assim como o medo de ir a uma igreja porque nos decepcionaram em outra não provém de Deus. Se a igreja é um lugar perigoso, é um lugar para os corajosos. Um erro não justifica o outro.

Você já se decepcionou com um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. Só que o que o outro faz não depende de nós. O que temos poder para mudar é agir a partir de outra pergunta: você já decepcionou um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. E se você, como eu, reconhecer que causou o mal a alguém, mesmo que tenha sido de modo involuntário, aí está diante de si a grade oportunidade de começar a mudar o que está ruim: procurando mudar ou pelo menos melhorar a si mesmo. Pois, no que eu mudo e me torno um cristão melhor, uma ovelha menos manchada para meu pastor e um irmão menos decepcionante para os membros da igreja, aí sim estou contribuindo com meu exemplo e minha atitude pessoal para que o Corpo como um todo seja aperfeiçoado.

Então, se fomos feridos na igreja, devemos começar por fazer uma análise de nós mesmos e ver em que pontos nós ferimos os outros. Eliminando esses pontos serviremos cada vez mais de exemplo. Quanto aos que nos feriram, a dor permanecerá pelo tempo que o luto durar e isso independe de nós.

Mas podemos perdoar.

Quantas vezes? Setenta vezes sete. Todas. Sempre. Repetidamente. E não perdoe só da boca para fora, porque isso é fácil para qualquer um fazer. Perdoe em atitude. Sendo bom para quem te feriu. Ajudando-o. Estendendo a ele benefícios. Auxiliando no que ele precisar. Orando a Deus por sua vida. Essas são as maneiras bíblicas de agir com quem nos machucou. Não importa como o outro se comporta, importa como você se comporta. Faça sua parte. Pense menos em si e mais em Cristo. Pois se cada um de nós pensar somente em si, da próxima vez que escrever um post sobre gente machucada na igreja não serão 48 pessoas contando suas histórias, mas 490.

A mudança começa em nós. Menos dedos apontados, mais lágrimas no travesseiro. E quando você conseguir ser alguém melhor, ajude os demais. A começar estendendo amor de forma prática a quem te fez mal. E aí haverá festa no Céu, porque você poderá estar sendo intrumento nas mãos de Deus para levar um pecador a se arrepender. Minha esperança é que para cada ferido “em nome de Deus” apareça um bom samaritano que venha a cuidar de suas feridas. E, isso sim, será verdadeiramente feito em nome do perdoador, misericordioso, amoroso e gracioso Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Sata2A proclamação do Evangelho deve ter como centro Jesus. A cruz. As boas-novas da salvação. Sempre. Sempre. Sempre. Podemos pregar sobre qualquer assunto correlato, desde que tenha ligação com o epicentro de nossa fé: Cristo. Pregações sobre dízimo devem ter foco em Jesus. Pregações sobre casamento devem ter foco em Jesus. Pregações sobre vida sexual devem ter foco em Jesus. Pregações sobre arrependimento devem ter foco em Jesus. Por isso, existe uma grande resistência em alguns setores da Igreja a se pregar sobre o inferno, o diabo e os demônios. Em grande parte, isso ocorre como reação à ênfase despropositada que certas denominações dão à chamada “libertação”, em todas as suas variáveis – “descarrego”, “batalha espiritual”, expulsão de demônios etc. -,  o que leva muitos a tomar uma postura contrária, eliminando totalmente do púlpito mensagens que tenham a ver com as hostes espirituais da maldade. Essa postura acaba se refletindo em todas as esferas da vida cristã dos que assim procedem, como a rejeição por livros que falem do assunto ou mesmo nas orações que fazem e nas músicas que cantam. Por muito tempo compartilhei desse pensamento. Falar sobre isso era como jogar uma barata dentro de uma refeição refinada num restaurante chique. Mas tenho revisto essa posição. Hoje estou convencido de que devemos sim pregar sobre o inferno e os perigos das forças espirituais do mal – desde que as pregações sobre o assunto tenham foco em Jesus.

A primeira razão que me fez rever essa posição foi a releitura do Novo Testamento. Lendo as Escrituras e alguns bons livros descobri, espantado, que Jesus de Nazaré falou muito nos Evangelhos sobre o inferno. Ou seja: o próprio Senhor abriu o precedente. Afirmar que não se pode pregar sermões que tratem do mundo espiritual maligno – com foco em Cristo, sempre – seria dizer que Jesus não poderia ter falado o que falou. E repreender Deus é, no mínimo, complicado. Se por um lado, o Senhor nos disse para não ficarmos eufóricos com esse assunto (“Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” – Lc 10.20), por outro nos instrui muitas vezes sobre ele (como em “Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino [...]  Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e perguntaram: “Por que não conseguimos expulsá-lo? “  Ele respondeu: [...] esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” -  Mt 17.18-22).

Sata3Trabalho como editor de livros cristãos. Meu último projeto – sobre o qual não posso falar muito, por enquanto, por questões éticas – é uma obra de um importante pastor presbiteriano brasileiro e chanceler de uma universidades  cristã. Tradicional. Histórico. E brilhante. Surpreendeu-me, portanto, quando li em seu texto o seguinte:  “Alguém já disse que pregar sobre o inferno não é um caminho muito bom para levar pecadores ao arrependimento, porque, nesse caso, as pessoas se converteriam por medo da perdição eterna. Pessoalmente, entendo que é preferível que seja assim ao fato de o indivíduo não se converter de maneira nenhuma. Se alguém se converteu porque tem medo de ir para o inferno, isso é ótimo, mas se a conversão ocorreu por amor a Jesus é melhor ainda. Não faz mal o crente se assustar com a realidade da justiça divina”.

Cada vez mais tenho percebido a importância de alertar a Igreja, como fez o próprio apóstolo Pedro, de que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando a quem possa tragar” (1 Pe 5.8). Forças do mal estão se infiltrando nas igrejas. Nas empresas cristãs. Ensinamentos diabólicos estão conquistando espaço nos corações e nas mentes dos jovens e adolescentes evangélicos. Temos guardado os portões da frente de nossas vidas pela proclamação indispensável do Evangelho de Cristo, mas, ao fecharmos os lábios contra “as ciladas do diabo” (Ef 6.11), deixamos a porta dos fundos escancarada para a entrada dos sabotadores de nossa espiritualidade.

Sata4Deus é infinitamente mais poderoso que o diabo. A velha ideia de que Satanás e Jeová disputam as almas humanas como num cabo-de-guerra, em igualdade de condições, é um erro de proporções (anti)bíblicas. O Deus criador é tão superior ao diabo criatura que, com um piscar de olhos, Ele poderia, se quisesse, eliminar todos os demônios, todo o inferno, tudo, tudo, tudo. Então, imaginar que o diabo é inimigo direto do Todo-poderoso chega a ser engraçado, pois o querubim caído não pode absolutamente nada contra o criador do universo. Na-da. Ele é inimigo, isso sim, dos homens, a quem consegue astutamente enganar. Em especial aqueles que não estão alertas contra esse engano  e que se julgam imunes à tentação maligna.

Portanto, é por isso que Paulo, o apóstolo, prega à igreja de Éfeso: “A nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). E deixar de fora das nossas preocupações, do nosso discurso e da nossa pregação essa realidade seria ignorar um assunto tratado extensamente por Jesus e por seus discípulos nos evangelhos, nas epístolas e em Apocalipse. Seria uma irresponsabilidade.

Sata5A literatura cristã está repleta de livros sérios que alertam para o tema, seja de forma direta ou por meio da ficção. Um exemplo que imediatamente me vem à mente é o do grande C.S.Lewis, que escreveu as obras ficcionais “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, “O Grande Abismo” e “As crônicas de Nárnia”, que mostram explicita ou implicitamente a ação de demônios e – graças a Deus – despertam o fascínio sobre o tema. Aliás, dedicar tempo e tinta para alertar a Igreja contra o inferno, o diabo e seus ardis fez parte da preocupação de grandes homens de Deus desde o princípio. Além do próprio Jesus e dos autores canônicos, os primeiros escritos da época patrística trazem textos sobre o assunto de alguns pais da Igreja, como Orígenes (“De principiis”), Gregório de Nissa e outros. Assim foi e prosseguiu pelo período da escolástica (com Erasmo) e da Reforma (com Lutero e Zuínglio), seguindo por John Wesley, John Bunyan e outros (a série do website Voltemos ao Evangelho sobre “A História do Inferno” fornece uma boa bibliografia sobre o assunto). A conclusão é que sempre houve na Igreja cristã saudável a preocupação de pregar e escrever sobre Satanás, os demônios e o inferno – de Jesus a John Piper e Paul Washer. Basta procurar.

Em nossos dias, livros e relatos de ficção apresentados como verídicos, como as histórias de Rebecca Brown e similares, prestaram um desserviço à Igreja, por dois ângulos: de um lado houve quem cresse em seus contos como se fossem realidade e passasse a viver segundo suas ficções. Do outro, quem percebeu que se tratava de uma farsa passou a ter um preconceito refratário a qualquer coisa do gênero, qualquer livro que toque no assunto, qualquer música que mencione o diabo ou o inferno. O satanismo, uma realidade tão presente e infiltrada nas igrejas, ministérios e outros ambientes cristãos, tornou-se um assunto sobre o qual não se deveria falar. Com isso, saiu perdendo a importância bíblica e histórica de se tratar e de pregar sobre a questão. E quem saiu ganhando? Preciso responder?

Até mesmo na música. O tradicional hino “Castelo Forte”, composto pelo reformador Martinho Lutero,  dedica quase metade de suas linhas ao diabo e os demônios (depois que ele afirmou, veja você: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!”):

“Castelo forte é nosso Deus,
Amparo e fortaleza:
Com seu poder defende os seus
Na luta e na fraqueza.
Nos tenta Satanás,
Com fúria pertinaz,
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na Terra.

A nossa força nada faz:
Estamos, sim, perdidos.
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos.
Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz
O Senhor dos altos céus.
E sendo também Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está:
Vencido cairá
Por uma só palavra.

Que Deus a luta vencerá,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, poder,
E, embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu reino.”

.

Sata6O inferno existe e é um assunto sério. Bíblico. Jesus falou e pregou sobre ele – e muito. Devemos fazer o mesmo. Satanás e os demônios são um assunto sério. Bíblico. Jesus lidou pessoalmente, expulsou constantemente e falou sobre eles – e muito. Devemos fazer o mesmo. Se for preciso despertar o fascínio sobre o assunto, que assim seja. Pois, no pesar da balança, é melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Pois o que está em jogo aqui são almas humanas. Precisamos saber lidar de forma bíblica e correta com as hostes espirituais da maldade, que tanto dano provocam no seio da Igreja. E isso só vai acontecer se nossos líderes nos ensinarem a fazê-lo biblicamente. Enquanto acreditarem na inverdade que “não se prega falando sobre o inferno, Satanás e os demônios”, estarão na contramão do que fez Jesus, os escritores canônicos, os pais da Igreja, os escolásticos, os reformadores, os expoentes dos grandes despertamentos e importantes pregadores reformados de nossos dias. E, com isso, só quem lucra é o diabo, que pode usar e abusar dos cristãos que não sabem lidar com o mal porque nunca lhes ensinaram a fazer isso de forma sadia.

É ingenuidade acreditar que basta pregar sobre Cristo sem falar nada sobre o diabo e estaremos isentos das artimanhas e dos ataques do maligno. Já ouvi o bom argumento de que para aprender a identificar a nota falsa basta conhecer bem a verdadeira – só que, se a tinta da nota falsa gera prurido e alergia em nossa pele, somente conhecer a verdadeira não vai adiantar muito, depois que já manuseamos a falsificada. A luz espanta as trevas, é verdade, mas me diga um cristão com Jesus no coração que não peca porque aqui e ali se deixou enganar pelas forças do mal. Como vigiaremos se não sabemos como é o inimigo? Como estaremos alertas às “ciladas do diabo” se não temos conhecimento de como ele age, o que faz, como se combate? Muitas tecnologias fajutas de “batalha espiritual” ganham notoriedade em nossos dias justamente porque houve muitos que ensinaram errado enquanto os que poderiam ensinar certo deram as costas ao assunto.

Sata7Pregar sobre Jesus é o centro, o foco e a essência. Mas o que muitos lamentavelmente não enxergam é que pregar mensagens de alerta sobre o inferno, Satanás, o satanismo, as hostes espirituais da maldade – de forma bíblica! – também é fazer exatamente isso: ressaltar a altura da montanha pela profundidade do vale. Mostrar a luz pela contraposição com as trevas. Posicionar o bem a partir de um referencial maligno. Exilar o mal de nossa proclamação do Evangelho é remover o diabo da tentação de Jesus no deserto; é tirar a história do rico e Lázaro da Bíblia; é contar a parábola do semeador pela metade; é amputar os primeiros capítulos do livro de Jó; é rasgar páginas e mais páginas das epístolas; é anular todo o sentido de Apocalipse; é jogar no lixo trechos como Lc 11.14, Mc 7.29, Jo 8.49, Mt 9.33, Mt 17.18, Mc 7.26, Lc 4.33 e muitos outros. Mais importante ainda: é arrancar da história da salvação o relato da Queda. E, sem o que a serpente fez no Éden, por que mesmo precisaríamos da cruz?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Foto1Tenho pensado muito sobre fotografias. Já reparou como ninguém fotografa momentos tristes? Você já viu alguém ficar tirando fotos em velórios, registrando o instante em que recebeu zero na prova, compartilhando no Instagram a imagem do pai em coma no hospital ou fazendo álbum de fotos dos piores momentos da festa de aniversário? Se eu pego uma câmera e aponto para você, qual é sua reação imediata? Deixe ver se acertei: dar um sorriso. O dia pode estar um inferno, mas se alguém vira uma lente em sua direção… você mostra logo os dentes. Depois do clique, seu rosto volta ao normal e aquela cara de felicidade obrigatória desmonta em um segundo. Curioso isso. Alguma vez já parou para refletir por que temos essa obrigação inconsciente de mostrar para o mundo como somos inevitavelmente felizes e irremediavelmente sorridentes?

Pegue por exemplo um álbum de fotos (ainda existe isso fora do computador?)  da vida de alguém. Se você folhear da primeira à última página vai jurar que a existência daquela pessoa foi um desfile interminável de bons momentos. Sempre sorrindo. Quando a foto é em grupo, todos juntam as cabeças e… sorrisos transbordam. Pelo menos até o fotógrafo falar “pronto”. Aí aqueles rostos perenemente sorridentes vão se lembrar da conta Foto2a pagar, do desemprego, do casamento infeliz, da dor de cabeça que não passa, do namorado que te trocou por outra, da rotina, do tédio, da depressão, da crise do petróleo, do aquecimento global, do apocalipse maia! Em outras palavras; sorrisos em fotos muitas e muitas vezes não significam nada. Não representam uma felicidade real. São um mero hábito, uma formalidade. São fachadas pintadas com o único objetivo de deixar para a posteridade a impressão de que você é e sempre foi feliz.

Mas… por quê? Por que temos a obrigação de ser felizes 24 horas por dia, sete dias por semana? Curiosamente, a infelicidade é vista como uma derrota pessoal. Demonstrar para os outros que a felicidade foi ali e já volta parece uma falha de caráter. E somos tão despreparados para lidar com nossas próprias infelicidades que também não sabemos como lidar com a infelicidade dos outros – por isso há tantos infelizes sem consolo nas igrejas. O despreparo é generalizado. Se você está triste, repare que a maioria das pessoas não vai te abraçar em silêncio ou chorar com você, mas dizer frases feitas que tentam impor felicidade: “Que isso, levanta esse astral!”, “Tá triste por que, a vitória é tua!”, “Não reclama de barriga cheia, pensa nas criancinhas da Etiópia que estão morrendo de fome”, “Fica assim não, rapaz, bola pra frente, ânimo!”. Palavras, palavras e palavras… que de fato nessas horas não servem de nada – ninguém fica feliz de repente só porque alguém chegou e disse “Não fica triste não”.

Foto3Repare que Jesus não gastava muitas palavras para consolar: ele agia para gerar consolo. O Mestre, “movendo-se de íntima compaixão”, empatizava com os infelizes, chorava com eles e não fazia nenhuma questão de dizer “chora não, vai passar”. Pois Ele era “um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima” (Is 53.3). Jesus não forjava uma falsa felicidade. Em Mateus 26, vemos o Mestre, em um momento de extrema infelicidade, dizer no Getsêmani a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, entristecido e angustiado: “A minha alma está profundamente triste até à morte”. Meu Deus… que declaração! De uma honestidade e transparência que em nossos dias seria considerada vinda de um derrotado, um fracassado, um ser de segunda classe: jamais de um servo de Deus, pois, afinal, somos mais do que vencedores! Sorria, você é filho do Rei! Sim, mas… o unigênito Filho do Rei chorou de compaixão da infelicidade dos que estavam junto ao sepulcro de Lázaro e viveu sua própria infelicidade na agonia do cálice que beberia em sua plenitude: seu sorriso de agonia era banhado pelo suor de sangue que emoldurava aquele rosto de amor.

“A minha alma está profundamente triste até à morte”. Uau. Que tapa na cara da nossa obrigação de parecer sempre feliz.

Foto4Podemos considerar que a Bíblia é o álbum de fotografias de Jesus de Nazaré. Nela estão registrados os principais momentos da vida do Cordeiro de Deus. Mas, ao contrário dos nossos álbuns humanos, Ele não tentou nunca simular uma felicidade inextinguível, uma vida de alegria todo dia. No álbum de fotos de Jesus vemos sim momentos felizes, como a festa de casamento em Caná, seus muitos encontros com seus amigos, sua entrada triunfal em Jerusalém. Mas esse álbum é também o registro de sua humilhação. O vemos cuspido. O vemos apanhando com chibatas. O vemos sendo esbofeteado. O vemos sendo ofendido e caluniado. O vemos nu. Com sua pele sangrenta totalmente exposta numa cruz, os genitais à mostra, sem ter como cobrir sua vergonha porque suas mãos estavam cravadas na madeira. Não, o álbum de fotos do Pão da Vida não teve nunca a intenção de simular uma felicidade interminável e onipresente, mas sim a intenção de desnudar a verdade da Verdade, para que nós mesmos possamos desnudar a nossa verdade. Ante os homens e ante o Pai. Seja ela de felicidade ou infelicidade. Que lição para seres que sentem-se na obrigação de estar sempre aparentando felicidade!

Não simule uma existência paradisíaca e extraordinariamente feliz, meu irmão, minha irmã. Celebre sim e muito os momentos bons e alegres, isso é importante. Diria até que é vital. Mas nunca perca a honestidade de reconhecer seus períodos de infelicidade, pois eles são lamentavelmente muito preciosos. Eles moldam nosso caráter, nos fazem refletir, nos levam a mudar de rumo, nos dão a humildade de chegar em oração a Deus e confessar que só nele temos felicidade acima de qualquer circunstância.

Meu desejo sincero é que no álbum de fotografias da sua  vida haja mais fotos de sorrisos do que de lágrimas. Desde que os sorrisos sejam sinceros – a mera contração de músculos do rosto não atesta um coração sorridente. Mas, se as lágrimas vierem, não as esconda por trás de um sorriso forçado e obrigado. Fotografe-as na sua lembrança para nunca se esquecer delas. Quem só quer se lembrar dos momentos felizes está abrindo mão da sua verdade enquanto homem. Assuma seus momentos infelizes. Deixe-os desempenhar seu papel em sua vida. E jamais se esqueça deles – pelo contrário, ponha-os na melhor moldura que puder.

Foto5No Jardim das Oliveiras, o coração de Jesus se encheu de infelicidade. No caminho do Calvário, o coração de Jesus se encheu de infelicidade. Suspenso na cruz, o coração de Jesus se encheu de infelicidade. Só que, mais à frente, depois do calvário e da crucificação, houve uma sepultura vazia. Lembre-se que o pão e o vinho são uma foto dessa sepultura. São a lembrança honestamente sorridente da vitória eterna. E é a foto desse sepulcro que nos garante uma felicidade que durará para sempre, a partir do momento em que dermos nosso primeiro passo na eternidade. E é por isso que, creio eu, no Céu não haverá fotografias: pois lá não precisaremos simular uma felicidade aparente. Lá, a felicidade não dependerá de a demonstrarmos. Na eternidade, a felicidade simplesmente é. A presença de Deus descartará no Céu o que será inútil, como revela Apocalipse 21: não haverá templo algum, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo.  Tampouco haverá sol nem lua, pois a glória de Deus será a luz do Céu – e o Cordeiro, a sua candeia.  Suas portas jamais se fecharão de dia, pois ali não haverá noite.

Sim, creio que no Céu não haverá fotos, pois serão desnecessárias num lugar em que as melhores lembranças que pudermos ter da vida terrena não deixarão saudades e onde caminharemos ao lado de um Deus que enxugará dos nossos olhos toda lágrima. E lá não haverá mais morte. Nem tristeza. Nem choro. Nem dor.

Só felicidade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo
Maurício

Alguns irmãos queridos vieram me perguntar por que não divulguei meus últimos posts aqui do APENAS pelo twitter e pelo Facebook, como tenho feito nesses quase 14 meses de existência do blog. Senti que precisava dar uma satisfação a quem me acompanha e se identifica com o que escrevo. Fato é que abandonei as redes sociais. Mas, antes de chegar nessa questão específica e de menor importância, gostaria de refletir um pouco sobre algo bem mais relevante no que tange a esse assunto e que está relacionado a ele: aquilo que chamo de Religião Internet.  É inegável que o surgimento da rede mundial de computadores mudou muito a vida da Igreja, em especial no Brasil. A primeira vez que surfei (sim, usávamos esse termo no século passado em vez de “naveguei”) na web foi ainda num browser Netscape Beta, por volta de 1995. Para alguém de até uns 20 anos pode ser engraçado ler isso, já que deve pensar “como era possível viver sem Internet”? Pois acredite: era. E éramos felizes sem ela. Hoje achamos que a vida sem Internet é impossível. Só que não é. Sei que meu comentário vai na contramão do que muitos advogam, mas creio que a inclusão digital não é tudo isso que dizem – tanto que a humanidade viveu milênios antes que Bill Gates ou Steve Jobs existissem. E, no caso da Igreja, quando falamos de redes sociais torna-se ainda mais irrelevante e até problemática.

Como disse John Piper, “uma das maiores utilidades do twitter e do Facebook será provar no último dia que a falta de oração não era por falta de tempo”. O que é absolutamente irônico é que li essa frase no Facebook. E sou obrigado a concordar com Piper, simplesmente porque ele tem razão. Mas concordar com isso e compartilhar essa frase no Facebook… é a contradição das contradições! A verdade é que, se acredito nessa afirmação, não adianta compartilhar a fotinho ao lado: preciso agir com a coerência que essa frase me exige. E só Deus sabe o quanto eu preciso orar mais, buscar mais intimidade com o Pai, me santificar e ser um homem a quem Jesus diga naquele dia: “Bem-vindo, servo bom e fiel”. E as redes sociais não estão me ajudando em nada nesse sentido. Mas daqui a pouco falo mais sobre isso.

Entenda, não demonizo a web. Sei todas as coisas boas que ela pode proporcionar. Cá estou eu, por exemplo, sendo lido por você via Internet. Há muitas coisas positivas, quando o seu uso e seu propósito são benignos. No entanto, o que quero abordar hoje não são as inúmeras vantagens que a rede mundial de computadores trouxe para nós, mas os males que gerou para o Corpo de Cristo.

O maior deles é a ideia de que é possível substituir a igreja local e a comunhão dos santos por uma pseudoprática de fé via web. Multidões têm se protegido misantropicamente das decepções com pastores e membros se entrincheirando na segurança de seus notebooks. Formam “igrejas” (embora se recusem, irritados, que usemos essa palavra) com indivíduos reduzidos a avatares que acham que conhecem e com quem trocam meia dúzia de palavras pela rede. Talvez bate-papos via MSN, frases curtas via twitter ou alguns textinhos pelo Facebook. Formam seu aprendizado de fé assistindo a cultos on-line, acompanhando vlogs de 5 minutos de pregadores famosos, lendo blogs como o APENAS e ouvindo bate-papos em podcasts muitas vezes – me perdoem – teologicamente ridículos. Mas meu blog, por exemplo, não substitui a igreja. Meu blog não substitui uma pregação. Meu blog não substitui a adoração. Meu blog não substitui a oração de uns pelos outros. Meu blog não substitui o aconselhamento pastoral. E quando falo do APENAS, o estou usando como arquétipo de todas as mídias que mencionei acima – e muitas outras. A Internet é a cerejinha do bolo da fé, mas há muitos que estão pondo o bolo em cima da cereja.

Há também o problema da enorme mistura de teologias, doutrinas, ensinamentos e doideiras que o internauta que substitui a vida em comunidade pela Religião Internet absorve. Lembro quando dava aula em seminário teológico, passava trabalhos para os alunos e, em vez de uma pesquisa, recebia de volta páginas impressas da Wikipédia. Que, aliás, é uma bênção e uma desgraça ao mesmo tempo, visto que pode esclarecer muitas coisas mas qualquer um pode postar o que quiser ali – o que torna essa ferramenta altamente desconfiável. Mas damos mais atenção à Wikipédia e a sites correlatos do que a livros que exigiram pesquisa, revisão, o crivo dos editores e são, eles sim, fontes confiáveis. Mas nossa preguiça e nosso imediatismo tornam mais fácil escrever uma palavrinha no Google e ver o que a loteria da pesquisa vai jogar em nosso colo como primeiras opções do search. E é nelas que confiaremos – sem ter conhecimento sobre quem escreveu, que linha segue, que teologia ou crenças nortearam aquela fonte de dados. Como ouvi certa vez, não me recordo de quem, substituímos o saber pela informação. E informação não forma ninguém, conhecimento adquirido com muito estudo e suor sim.

A Bíblia Sagrada foi trocada por versículos tuitados e frasezinhas descontextualizadas de Spurgeon, Paul Washer e outros homens de Deus. Ou então de pregadores da moda – muitos deles hereges. Na vida de muitos, o texto bíblico foi substituído por citações de pessoas que ensinam doutrinas diabólicas, como a que afirma que o que você disser com fé vai acontecer, ou que a Bíblia é um livro de homens e não de Deus, ou que Deus não exerce sua soberania nas tragédias, ou que o cristão autêntico tem que ter prosperidade material. Tudo absurdos bíblicos – mas muitos não sabem discernir, pois valorizam mais a beleza poética do que é dito do que a correção bíblica. Sejamos francos e não vamos esconder o problema sob o tapete: se não têm intimidade com as Escrituras, como discernirão o erro? Cairão fácil nos engodos.

Conheço um “pastor” que escreve frases lindas no twitter. Poderia jurar que ele é um conservador, até, não fosse o corte de cabelo modernoso. Mas, quando você vai ao blog dele, descobre que é um esotérico que acha que Jesus é um extraterrestre e que vai voltar num disco voador. Não ria, isso não é piada, é um fato. Possivelmente você o segue, visto que ele tem mais de 5.600 seguidores. O lê, o retuita, acha lindo o que ele fala e nem ao menos sabe que seus ensinamentos são tresloucados. Ou o pastor garotão que fica falando sobre a “contextualização” do Evangelho, ensinando montes de mundanismos – e a turma adora. Ou o pastor herege que joga a Bíblia no lixo. Ou o professor de pós-graduação que ensina a demoníaca Teologia Liberal e fala que o Cristo do cristianismo clássico é invenção grega – mas como ele fala tão bonito e tem uma carinha tão simpática muitos o amam, sem saber o perigo que ele representa para milhares de almas humanas por ensinar um Jesus que não é o da Bíblia.

Muita gente já me deu #FF no twitter junto com algumas dessas pessoas. E quando vejo isso me pergunto como um irmão pode dar #FF no mesmo tuíte para alguém como eu, que crê no conservadorismo bíblico, e para alguém que prega o liberalismo teológico, crença extremamente oposta à minha e que considero uma heresia. Não consigo compreender tamanho contrassenso. Sim, a Religião Internet é um perigo. Quem substitui a sólida doutrina de suas igrejas pela babel da www corre sérios riscos de absorver ensinamentos terríveis mas que têm aparência de piedade.

E aí chegamos às redes sociais. Tinham tudo para ser uma incrível ferramenta a serviço do Reino de Deus. Mas do jeito que têm sido usadas se tornaram em esmagadora parte uma perda de tempo precioso que poderia ser investido numa devocionalidade real – e que, essa sim, nos tornaria pessoas mais próximas de Deus. Posso falar por mim: as redes sociais me afastaram muito de Cristo e dou a mão à palmatória quanto a isso. Analisemos friamente e sem olhar apaixonado: o Facebook é o universo da irrelevância. Se você peneirar ali o que realmente tem utilidade verá que se resume talvez a 1% do que entra na sua tela. O twitter, com seus 140 caracteres, já é, por sua vez, o universo da superficialidade. Como é possível achar que um complexo pensamento teológico pode ser destrinchado nesse microespaço? Impossível. O Orkut? Ah, é verdade, o Orkut morreu, graças a Deus.

É por tudo isso e outros fatores pessoais que decidi me retirar, pelo menos por um longo e indefinido período sabático, das redes sociais. Minhas poucas entradas serão por exigência de meu trabalho. Na web só continuarei escrevendo no APENAS e nas minhas colunas em sites e revistas – artigos que alguns acham enormes, tão viciada a Igreja está em textos minúsculos e tão desacostumada está de ler livros (e me pergunto se alguém que reclama do tamanho de meus textos leria os 28 capítulos do evangelho segundo Mateus ou os 50 de Gênesis…).

Fato é que as redes sociais não têm feito bem à minha vida espiritual, além de me tomarem um tempo precioso, que preciso dedicar mais à leitura, à oração, a relacionamentos com pessoas tridimensionais a quem eu possa aconselhar e que possam me aconselhar e ouvir a confissão de meus pecados, gente com quem eu possa comungar sem a falta de prosódia que relacionamentos virtuais geram. Pela tela do computador ninguém consegue enxugar minhas lágrimas, nem eu consigo estender o ombro a quem precisa. Quero me recolher a minha vida real e resgatar a devocionalidade que vivia antes de entrar nas redes sociais. Quero que a frase de John Piper ganhe consequência em minha vida. Tenho sentido a imperativa  necessidade de me aproximar mais de Deus e me afastar desse universo paralelo, que me conduz a pecados que passam pela ira, o rancor e muitos outros que a irrealidade virtual gera – o que tem atrapalhado minha saúde física (num momento em que me trato de estresse) e espiritual. Sem falar de tristezas, decepções, chateações e similares que pulam dentro de minha casa pela tela do notebook.

Já tem cerca de dois anos que praticamente parei de assistir a televisão. Não tem nada a ver com crer que TV seja pecado. Simplesmente perdi o interesse pelos telejornais mentirosos, os seriados que não edificam, os documentários falaciosos. Não serei hipócrita de dizer que aboli a TV da minha vida, eventualmente assisto a uma ou outra coisa que penso que será interessante. Mas talvez não chegue a 3 horas por semana, no total. E posso afirmar a monstruosa diferença que afastar-se do vício por TV faz. Não tenho absolutamente nenhuma vontade de voltar a consumir essa mídia como fazia antes, e por uma simples constatação: depois que você se desintoxica ela não faz a mínima falta.

Agora quero fazer a mesma coisa com as redes sociais. Quando as descobri achei que seriam edificantes. Experimentei. Hoje, fazendo um balanço, vejo que não foram, pois mais me afastaram de Deus do que me aproximaram. Tirei muitas coisas positivas delas, creio ter contribuído um pouco, mas chegou a hora de parar. Preciso respirar mais do ar puro da vida real e retornar a 1995, quando os amigos marcavam um café para se encontrar, nos telefonávamos, mandávamos cartões de Natal escritos a mão. Hoje as pessoas mandam scraps impessoais no Facebook nos aniversários, trocam farpas pelo twitter, vivem relacionamentos bidimensionais. Não tem me feito bem. Creio que eu também não tenha feito bem a muitos, reconheço as críticas, aceito as que são justas e prefiro esquecer as injustas – pois na minha luta para me aproximar de Cristo me esforço para não devolver mal com mal. Quero avançar para trás e viver a vida que existe fora das telas.

Por isso, desde o dia 29 de junho parei de usar minhas redes. Não entro, não olho, não escrevo nelas, salvo uma ou outra coisa feita por questões de trabalho. Vou deixá-las congeladas – possivelmente abandonadas – por período indeterminado. Usava-as muito para divulgar posts novos do blog, o que de fato foi proveitoso, pois o APENAS acabou de completar 350.000 acessos em pouco mais de 13 meses no ar. Se você tem interesse em continuar lendo as reflexões que aqui são postadas, pode juntar-se aos 1.027 irmãos e irmãs que até a data de hoje gentilmente assinaram o blog e recebem os posts novos por e-mail. Ou, se lembrar, dar uma passadinha por aqui de vez em quando ou nas colunas que escrevo em outros sites e revistas. Mas não vou mais divulgar as postagens novas pelo twitter ou o Facebook.

Sei que o número de acessos vai diminuir (percebi que sair das redes reduz em cerca de 250 acessos por dia, em média), mas,  honestamente, não me importo, pois minha oração a Deus hoje é que conduza até o APENAS somente aqueles que Ele entende que precisam ler as palavras de edificação, consolo e exortação que aqui são publicadas. A partir de agora, é o Espírito de Deus quem fará a divulgação de novos posts.

Quero agradecer a você que teve a paciência de me aturar esses cerca de dois anos em que estive no twitter e poucos meses no Facebook. Mas a Religião Internet tem, na verdade, me afastado de Deus. Quero retomar essa proximidade. E, como disse, para isso é fundamental retroceder. Lembrar-me de como era antes de entrar em redes sociais. Creio que será melhor para mim e, acredito, para muitos que não coadunam comigo. Que Deus abençoe você, meu irmão, minha irmã, e que possa viver a sua fé no mundo real, sem as ilusões que as redes sociais, com todos os benefícios que proporcionam, oferecem – e que ameaçam a intimidade com Deus, a santidade e a comunhão com os irmãos que nós, cristãos, precisamos ter. Deixo um beijo e um abraço aos manos e manas com quem me relacionei em edificação pelas redes.

Seguirei aqui pelo blog, este meu mosteiro virtual, onde vou me enclausurar para continuar compartilhando como vaso de barro que sou o tesouro do Evangelho em que creio, o poder da graça, a denúncia de heresias, o amor de Cristo e a promessa de restauração a todo aquele que se arrepende e vai viver a eternidade ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Pois redes sociais são irrealidade. Já o Céu e o Inferno são o que há de mais real.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Se você deseja aconselhamento, recomendo que procure seu pastor e não um blogueiro.

As reflexões expressas neste blog são pessoais e não representam necessariamente a posição oficial de nenhuma igreja, denominação ou grupo religioso.

Quando você cria um blog, seu nível de exposição torna-se bem maior do que se possa imaginar. Atualmente, após 13 meses no ar, o APENAS tem uma média de 4.000 leituras por post, fora outros blogs que o replicam e irmãos que fizeram a assinatura e assim recebem os textos por e-mail, repassando-os para outras pessoas. É uma quantidade significativa de internautas que leem os textos e interagem comigo pelos comentários, uma média de 60 por dia. Isso me gerou muitas percepções. Mas, de todas as percepções que blogar me proporcionou, uma das mais visíveis é como é fácil as pessoas se enganarem a seu respeito.

Calma. Não estou dizendo que deliberadamente engano você, meu irmão, minha irmã. Não é isso. Mas como escrevo sobre a fé cristã a partir daquilo em que acredito, a imagem que muitos dos leitores acabam construindo sobre o autor dos textos é de uma grande santidade, de uma monstruosa intimidade com Deus, de muita devoção. Isso fica claro quando leio os comentários de diversos irmãos que, por uma enorme bondade em seus corações, tecem elogios a mim. São irmãos e irmãs que não me conhecem pessoalmente, não enxergam as profundezas do meu coração e, assim, formam uma imagem a meu respeito baseado no que escrevo. E confesso que por vezes sou tratado como um homem de Deus tão santo que quase acredito.

Isso é um enorme problema. Pois é exatamente assim que começam a se formar celebridades gospel. Que pastores começam a ser idolatrados. Que cantores evangélicos ganham fãs. Que teólogos e palestrantes passam a ser vistos como inerrantes aos olhos de muitos. Que pastores hereges ou gananciosos são amados por cristãos sinceros apesar de suas heresias e de seus intere$$e$. Tudo porque, sem se conhecer a fundo os indivíduos e suas mazelas, começamos a olhar para eles por sua aparência de santidade e piedade, por suas palavras eloquentes ou bonitas, por seu jeito aparentemente espiritual de entoar louvores… e criamos imagens em nossas mentes sobre como essas pessoas são a partir de suas máscaras. Mas por baixo dessas máscaras muitas vezes a coisa é bem diferente. E eu vou provar com o meu exemplo. Para não falar dos outros, vou me pôr na berlinda. A você que me elogia pelo que eu escrevo, deixe-me confessar algumas coisas a meu respeito.

Sou uma pessoa absolutamente normal. Como você, tenho minhas muitas deficiências. Como você, luto constantemente contra minha carne e contra zilhões de defeitos. Me iro, sinto ódio, brigo com minha esposa, perco minha paciência, falo o que não devia, faço o que não devia, sinto inveja, mágoa, ciúmes. Cobiço o bem do próximo. Como você, luto a cada dia para viver em intimidade com Deus, embora tenha dias em que fique com preguiça de ler a Bíblia e sinta sono para orar. Como diz o clichê, tem dias em que “só a graça”! Como você, nem sempre amo a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo. Chego a ser egoísta, em muitas ocasiões. Perco a cabeça. Como você, tenho pensamentos impuros. Como você, tenho vontade de matar certas pessoas – depois de enchê-las de sopapos, claro. Já cometi pecados após a minha conversão que me enchem de culpa e, embora eu esteja sinceramente arrependido e saiba que Deus me perdoou, eu mesmo não me perdoei. Em resumo, meu irmão, minha irmã, sou exatamente como você: decepcionante, um pecador de marca maior, numa luta constante contra minha natureza humana e numa perene busca desesperada por Deus e pela santidade. Que parece sempre um alvo inatingível.

Mas há um porém: apesar de eu ser todo esse amontoado de pecados, escrevo sobre aquilo em que creio. Aquilo de que não tenho a menor dúvida que seja verdade. Creio no Evangelho. Creio na Bíblia como a inerrante revelação de Cristo. Creio em Jesus. Creio na graça sem a qual eu e você iríamos para o inferno. Creio que há perdão para o pecador arrependido. Creio na santidade e a vejo como uma meta essencial. Creio que devemos combater as heresias e os hereges. Creio na pureza de coração. Creio que devemos ser como o cristão que Jesus descreve no Sermão do Monte. Se eu fosse perfeito é como eu gostaria de ser. Difícil, para não dizer impossível. Mas lutar para chegar lá é totalmente possível.

Vivo, portanto, uma contradição. Escrevo e prego sobre o que creio, mas vivo com milhões de erros e cometo bilhões de pecados. Isso faz de mim um hipócrita? Ou… um humano? Não sei. Só cabe ao Espírito Santo de Deus me julgar. Mas sei de uma coisa, como já pus em outro post: a Bíblia diz que os anjos pediram ao Senhor para proclamar o Evangelho, só que, estranhamente, Ele decidiu dar essa tarefa aos homens. Que bizarro, que escolha aparentemente contraditória e sem sentido. Porque, se você parar para pensar, ao longo dos últimos 2 mil anos, as boas-novas de salvação só têm sido pregadas por… pecadores carentes de salvação. A santidade tem sido estimulada somente por homens com falhas graves na sua própria santidade. O arrependimento dos pecados tem sido apregoado por homens e mulheres desesperadamente necessitados do arrependimento de seus pecados. Todos os humanos que pregaram o Evangelho até hoje compõem uma grande multidão de “mascarados”, pessoas que anunciaram o Caminho para o Céu enquanto dentro de seus peitos pecados horrendos vicejavam e os poluiam.

Somos desgraças ambulantes pregando a graça.

Eu me enquadro nesse grupo. Todos os cristãos que caminharam sobre a terra nos últimos 20 séculos se enquadram nesse grupo. Mesmo assim, Deus nos mandou divulgar o maravilhoso Jesus e as coisas que Ele ensinou. Fascinante. Se Cristo aparecesse para mim hoje eu teria vergonha de olhá-lo nos olhos. Pois o peso da minha pecaminosidade e falibilidade me esmagaria. Mesmo assim o amo. E nunca cessarei, enquanto Ele me permitir, de proclamar que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Nunca cessarei de pregar a mensagem da Cruz. Trinta segundos após pecar subirei num púlpito e pregarei que não devemos pecar. Simplesmente porque é o que devemos fazer. Porque é o certo.

Sejamos honestos: se eu e você fossemos esperar sermos santíssimos para anunciar que devemos ser santíssimos jamais ninguém abriria a boca.

Se eu e você fossemos esperar que nossos pecados cessassem ou que nossa máscara de bons homens e mulheres caíssem para que fossemos sentar e escrever sobre como devemos nos despir das máscaras de santidade, assumir nossa natureza pecaminosa e afirmar que precisamos terrivelmente nos santificar…você não estaria lendo essas linhas agora. Sim, eu uso máscaras de santidade, negar sim seria hipocrisia e mentira. Oculto dos outros meus muitos pecados e os trato com Deus, entre as quatro paredes do meu quarto. Exatamente como você faz. Ele me conhece. Ele conhece você. E sabe que quem se esconde atrás de cada máscara – como diz a música do Bispo Walter McAlister (veja vídeo ao final deste post) – é uma pessoa real: pecadora, errada, miserável em suas transgressões. Se cada um saisse pelas ruas alardeando seus próprios pecados não haveria espaço para caminhar em meio à multidão. Mas a questão é que absolutamente todo cristão que pisa numa igreja é um tremendo pecador vestindo máscaras de santidade mas com o rosto desfigurado pelo pecado. Todo. Sem exceção. Eu. E, se você tiver coragem de admitir, você também.

O que nunca deve nos impedir de proclamar Cristo, o Evangelho, a salvação, o arrependimento dos pecados, o juízo, o perdão… e a maravilhosa graça.

Em 1 João 1.8-10 disse o apóstolo amado: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós“. Não, eu jamais faria de Deus um mentiroso, assumo minha natureza pecadora, confesso a Ele meus pecados e creio que Ele é fiel e justo para ter me purificado de todo o mal que pratiquei. E, assim, sigo escrevendo sobre a fé.

Então sim, eu escrevo sobre o que tem que ser escrito. Escrevo porque é a verdade. Escrevo para edificar, embora eu mesmo prejudique pessoas. Escrevo para consolar, embora eu mesmo tenha minhas dores, que precisam de consolo. Escrevo para exortar, embora eu, me conhecendo como me conheço, saiba que ninguém mais do que eu precisa ser exortado. Mas mesmo assim o faço. Escrevo neste blog. Escrevo em livros. E Deus, por sua graça incompreensível, por seu amor imensurável, por sua compaixão e misericórdia impossíveis de se alcançar racionalmente em toda sua extensão… ainda assim usa as palavras que saem deste pecador incorrigível que sou para tocar corações, amparar necessitados, aconselhar pesssoas em dor e até evitar suicídios, como já contei aqui. Eis o porquê de eu continuar escrevendo sobre santidade; combatendo os inimigos de Cristo; denunciando as heresias e os hereges; trazendo reflexões sobre as coisas de Deus; buscando não esmagar quem peca, mas ajudá-lo a se pôr novamente de pé.

Meu irmão, minha irmã, eu sou pó e cinza escondidos por trás de uma máscara de piedade. Como todo pastor-celebridade. Como todo artista gospel. Como todo blogueiro. Como todo tuiteiro. Como todo teólogo. Como todo cristão. Por isso, não seja fã nem idolatre ninguém. Nenhum de nós tem a capacidade de ser exemplo: só Jesus. Só Jesus.

Não me idealize, querido, querida. Meus prêmios, livros e textos não fazem de mim alguém louvável. Sou exatamente igual a você: um pecador que carece diariamente da graça do Cordeiro de Deus que veio tirar o pecado do mundo. Não pense que sou melhor do que ninguém, não sou. Eu poderia ser muito melhor. Mas não é por isso que deixarei de estimular meu próximo a ser o melhor que ele puder. E não é por isso que não creio piamente no que escrevo: creio na graça, na glória de Deus, na remissão da humanidade pelo sangue derramado na Cruz, na luta desesperada pela santidade. E já escrevi sobre pecados enquanto lágrimas desciam por meu rosto sabendo que eu estava sendo o primeiro a ser alcançado pela minha própria exortação.

Então, querido, não me elogie nos seus comentários no blog. Em vez disso faça uma oração por mim – e por todos aqueles que você considera exemplos de santidade. Isso será muito mais proveitoso para minha vida espiritual, tão carente por trás das máscaras que uso. Tenha certeza absoluta ao ler meus textos e livros: foram escritos por um homem que peca, que sabe que peca, que odeia pecar e ainda assim peca, mas que proclama o Evangelho acreditando com toda sua alma naquilo que escreve e que deseja edificar o Corpo de Cristo. Que ama Jesus, a Bíblia, a Igreja, o Evangelho. E que luta diariamente para aproximar aquilo que vive daquilo que prega – embora nem sempre consiga. Mesmo assim, se for o caso não deixe de abrir seu coração para aquilo que escrevo, pois Deus pode usar até uma mula falha como eu para falar a você. É o que Ele tem feito por 2 mil anos por meio de cada pecador que proclamou o Evangelho da graça e é o que continuará fazendo até a gloriosa volta de Jesus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Todo mundo parece que quer reinventar o Evangelho. Se você não sabe, a palavra “evangelho” significa “boas-novas” – e o Evangelho de Cristo são as boas-novas da salvação. Ponto. O Verbo encarnou, morreu e ressuscitou para que tivéssemos salvação, ou seja, vida eterna. Ponto. O resto é só o resto. Por isso me impressiona a quantidade de cristãos que acham que o Senhor encarnou para resolver os problemas desta vida, da nossa sociedade, do mundo. O Evangelho não são as “boas-novas do saneamento básico”, as “boas-novas do enriquecimento financeiro”, as “boas-novas da influência sobre a política social” ou as “boas-novas da luta pelo fim da miséria”. Isso é Evangelho 2.0, uma nova versão daquilo que Jesus ensinou: seu Reino não é deste mundo. Ponto.

Um homem brasileiro vive, em média, 72,5 anos, enquanto na eternidade teremos vida – ou morte – eterna por 72 trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de anos. E isso não será 0,1% da eternidade. E você realmente acha que Deus está tão preocupado assim com nossos anos sobre a terra? Um-hum. Claro que Ele se preocupa, mas esta vida, que a Bíblia diz que é como “um sopro” e “uma neblina”, é uma ridícula e minúscula portinhola de entrada para o porvir eterno. Daí a influência marxista sobre o Evangelho ser um equívoco tão elementar: Jesus se ofereceu ao sacrifício não para que seus servos fossem ao Planalto, fizessem comitês, organizassem passeatas, lançassem manifestos sobre política partidária. O sacrifício vicário é um sublime exercício espiritual, um estímulo à vida devocional.

Quando Jesus morre na Cruz não é a porta do palácio de Herodes que se rompe para que seus seguidores possam exigir melhores condições de vida, nem a fechadura da residência de Pilatos que arrebenta para que os discípulos tenham como reivindicar um melhor padrão de vida para as massas carentes: é o véu do templo que se rasga, para que o homem pecador tenha acesso ao Santo dos Santos, ao Altíssimo, ao Sagrado, ao espiritual, ao Pai. Para praticar o religare com o Todo-Poderoso, o tão mal-falado bicho papão do momento: religião. Uuuuuu, que medo, teve gente que só de ouvir essa palavra se arrepiou todo.

É lógico que agora, furiosos, os adeptos dessa linha terrena de Evangelho 2.0 virão com todos os argumentos das classes oprimidas, que temos que ajudar o próximo, que amparar os órfãos e as viúvas em suas tribulações. Isso é óbvio! A consequência das boas-novas é o amor pelo próximo. Não sou filho de família rica: meus pais eram professores do estado e tinham cada um quatro ou cinco empregos para poder sustentar os filhos. Mas não é pelas minhas raízes proletárias que segurarei a foice e o martelo e farei do foco da morte e da ressurreição de Cristo uma luta política por uma vida melhor. Segurarei a Bíblia. Meu compromisso, como o de todo cristão, é com a Jerusalém Celestial, não com Brasília.

Os problemas desta vida nós, que vivemos numa pseudodemocracia, resolvemos no voto. Ou, pelo menos, deveríamos resolver, se soubéssemos votar. A fé é sobre outras coisas. Amar o próximo, sem dúvida, mas a Deus sobre todas as coisas. Como disse o Cordeiro, a Videira, “de que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. Quem não entende que o Evangelho é sobre nossa comunhão eterna com Deus e não sobre nossa comunhão momentânea com os problemas desta vida não compreendeu que o Pai deu seu Filho unigênito para que os que nEle cressem não perecessem, mas tivessem…adivinha o quê? Bem, você conhece João 3.16.

Olho para os mártires dos 313 primeiros anos de Cristianismo e não consigo ver nenhum deles morrendo no Coliseu para que os pobres tivessem acesso a educação e saúde. Não me ache um insensível, acredite, choro pelos que choram e faço a minha ação social – e o que faço Deus sabe, não preciso alardear aqui. Mas não é por isso que vou ignorar o testemunho dos mártires da Igreja primitiva, que fizeram o bem ao próximo, mas que, como os casos citados em Hebreus 11, deram suas carnes alegremente aos leões e às torturas pelo entendimento de que a meta é o Céu – e não asfaltar um bairro. Blandina, Romano, Policarpo, Estêvão e tão grande nuvem de testemunhas deram-se ao martírio em nome da eternidade. Por entenderem que o Evangelho não é a respeito deste sopro de vida. Que adianta erradicar a miséria e irmos todos para o inferno? Jesus não é um super-herói que veio à terra para salvar mocinhas em becos escuros de batedores de carteiras.

O Evangelho 2.0 é um equívoco. Simplesmente porque põe uma das muitas consequências da Cruz como a causa. Ação social, caridade, cavar poços artesianos, construir creches e escolas, influir sobre as instâncias do poder público… não foi por nada disso que Jesus encarnou, morreu e ressuscitou. Isso é consequência e não causa. Jesus veio para tirar pecadores do inferno e não pobres das favelas. Isso é Evangelho.

Quando eu era mais jovem, com meus 17 anos, cheio de testosterona, filiado a organizações estudantis de esquerda e crente que ia mudar o mundo, acharia o Evangelho 2.0 o máximo. Fui a comícios nas eleições de 1989, fui orador na minha turma de formatura na escola ostentando um button do partido que eu apoiava, discutia com os padres do colégio São Bento, onde estudei como bolsista, porque eles eram uns “reacionários de direita”. Mas aí os anos se passaram, a esquerda assumiu o poder no país e tudo continuou igual, veio a minha conversão e fui discipulado por um bom sacerdote, que me mostrou que a grande revolução social ocorre mediante a pregação do Evangelho (o 1.0, o original). Refiz meus pensamentos. Mudei minhas premissas. E compreendi a razão de Jesus ter vindo à terra. Entendi o que é graça e a diferença entre causa e consequência da Encarnação do Verbo. Cheguei a ir a um Congresso Teológico sobre a vertente evangélica e da moda da Teologia da Libertação para entender melhor as ideias que importamos do Equador sobre o tema. Continuo acreditando em caridade, em ação social e em dar de comer a quem tem fome e beber a quem tem sede, em amar o próximo, em ajudar o necessitado. Mas não acredito que isso suplante a pregação das boas-novas de salvação e que isso seja a locomotiva. Não é, é o vagão.

Que os adeptos do marxismo cristão joguem pedras. Não tem importância. Antes importa agradar a Deus que aos homens. Não sou rico, não sou da elite, amo o próximo e quero o bem de pobres e ricos. Não vou aderir ao Evangelho 2.0, porque desejo proclamar as boas-novas de salvação para os miseráveis e também para os milionários. Olho para as favelas e para os condomínios de luxo e o que vejo são a mesma coisa: almas. Pior: almas pecadoras, destituídas da graça de Deus. Cobrirei quem tem frio com um cobertor, visitarei o preso, darei pão ao faminto e água a quem tem sede. Farei isso por amor e porque Jesus nos ensinou a fazê-lo. Mas investirei a maior parte de meu tempo e de minhas forças e esforços em proclamar o Evangelho. Em proclamar a Cruz. Em anunciar o Caminho estreito. Em cumprir o ide para fazer discípulos bons e fiéis que um dia, tenham passado fome ou não nesta vida, compartilhem comigo dos quadrilhões de séculos que dura a eternidade ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ponto final.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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