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JacarezinhoDuas semana atrás preguei em uma bela igreja, localizada na principal avenida da zona norte do Rio de Janeiro. O espaçoso santuário era muito bem organizado, com tudo muito limpo, uma estrutura primorosa. O culto estava lotado, com algumas centenas de pessoas, muitas delas em pé no fundo da igreja. Os louvores traziam hinos antigos misturados com hinos atuais. Já no último fim de semana fui pregar em outra igreja, dentro da perigosa favela do Jacarezinho (foto). Para chegar lá você passa por baixo de um viaduto, atravessa a pé a linha do trem por um buraco em um muro, encara um mergulhão inundado de água malcheirosa, percorre uma longa rua que margeia um enorme canal com esgoto a céu aberto, passa ao lado de pelo menos dois lixões com pessoas catando coisas ali. Cheguei à igreja, na verdade uma espécie de garagem adaptada, e comecei a falar para os cerca de quinze ouvintes presentes. Eu competia com um pagode em último volume no boteco ao lado e ficava sentindo durante a preleção um cheiro de maconha que vinha sabe Deus de onde. O louvor era composto de composições dos próprios músicos do local, que incluíam musicas como “Injete na veia o sangue de Jesus”. Não pude deixar de refletir sobre a diferença entre essas duas realidades.

A constatação é que, para os propósitos do reino, entre elas não há diferença alguma. Tanto na igreja cheia e com recursos quanto na igrejinha humilde e com pouca gente havia cristãos ávidos por uma palavra bíblica. Nas duas havia não cristãos, carentes de salvação. Em ambas havia amor entre os membros, dedicação à preparação do louvor antes do culto, carinho com o pregador, lideranças que estavam ali graças a um profundo chamado para a obra. Quando vi tudo aquilo, percebi que a discriminação contra igrejas com muitos membros, compostas de pessoas com uma confortável condição financeira, é uma bobagem. E também percebi que a discriminação com igrejas compostas por poucas pessoas, de poder aquisitivo mais baixo, é um igual absurdo.

E isso por uma simples razão: a realidade espiritual em ambos os locais é idêntica: são almas carentes de salvação que, uma vez salvas, precisam ser discipuladas. Pessoas pobres e pessoas ricas precisam de salvação do mesmíssimo modo.

CruzMe senti muito bem na primeira igreja. Havia carinho, afeto, preocupação. Pessoas como Pr. Walmir Cohen, Marco Túlio, Fabiano e Pr. Sérgio deixaram em mim marcas de amor e a certeza de que éramos membros da mesma família, em busca do mesmo objetivo. Me ofereceram uma deliciosa massa ao molho branco, com banana caramelada. Na segunda igreja me senti igualmente amado. Havia carinho, afeto, preocupação. Pessoas como Pr. Jean, Marcos, Pr. Thiago e seu Josué transpareceram a certeza afetuosa de que pertencemos à mesma família, em busca do mesmo objetivo. Me ofereceram um delicioso pão com requeijão e guaraná Tobi, com biscoitos doces. A palavra foi ministrada em ambos lugares e, ao final de culto, os comentários dos irmãos que vieram falar comigo foram muito semelhantes: dúvidas teológicas, pedidos de oração, relatos daquilo que Deus havia falado aos seus corações pela ministração.

A diferença entre as duas realidades, do ponto de vista do discipulado, da necessidade de arrependimento e crescimento, da busca por Cristo, da necessidade de conhecimento bíblico? Absolutamente nenhuma.

Cruz2Já tinha dificuldade de entender isso antes, e agora – depois dessas duas experiências – ela aumentou: como pode, do ponto de vista espiritual, certos pregadores ou cantores só aceitarem ir ministrar em uma igreja onde lhe deem grandes ofertas ou onde haja muitos membros para comprar seus CDs? À luz da carne a explicação é óbvia para qualquer um, mas… à luz do mundo espiritual? Incompreensível. Minha oração sempre é que, a cada ministração minha, pelo menos uma única vida seja radicalmente mudada e transformada para melhor. E, nas duas igrejas que visitei em menos de duas semanas, havia montes de “uma única vida”. Quinze “uma única vida” ou centenas de “uma única vida” são, em essência, a mesmíssima coisa. Não há diferença alguma. Ai de mim escolher onde prego ou palestro com base no número de membros, na riqueza da comunidade ou qualquer outro aspecto irrelevante como esses. Deus me livre. Deus, por favor, me livre disso.

Por outro lado, também fiquei pensando: como pode alguém achar que o evangelho é só para os pobres e os de situação financeira mais carente? A alma sedenta de Cristo precisa ouvir as verdades do evangelho independentemente de habitar um corpo que desfruta de certo conforto financeiro. Confesso que ouço com ceticismo propostas surgidas no seio da igreja de nossos dias. Teologias direcionadas exclusivamente aos pobres, como se os ricos não fossem igualmente amados por Deus, são segregacionistas e, portanto, deficitárias e limitadas do ponto de vista bíblico. Por outro lado, teologias que privilegiam a riqueza e os abastados, centradas em prosperidade material, claudicam por restringir o escopo do reino de Deus. Ambas estão erradas. O socialismo espiritual é um erro. O capitalismo espiritual é um erro. O igualitarismo espiritual é a proposta do evangelho. Pois o reino de Deus é para todo aquele a quem Jesus chamar e não para quem tem mais ou menos dinheiro no banco.

Cruz3O céu é para os salvos, não exclusivo dos ricos ou dos pobres. O céu é para indivíduos. Pessoas. Almas humanas. Se o pecador se chama Zé ou Joseph, Raimundo ou Raymond, isso é irrelevante. Tenho sido despertado cada vez mais para as barreiras entre pessoas devido a aspectos de sua natureza humana. Minha oração a Deus é que Ele me livre de olhar para o próximo, no que tange à espiritualidade, devido a seu poder aquisitivo. Raça. Modo de vestir. Lugar onde mora. Perfume que usa. Denominação em que congrega. Tamanho e riqueza do santuário em que adora. Modelo do carro que dirige. Correção gramatical na forma como fala.  O exclusivismo tem me assustado, e tenho orado ao Senhor que extirpe esse mal totalmente de mim.

Não posso achar que só o louvor com hinos antigos, piano e violoncelo é aceitável. Acredite: na favela do Jacarezinho é “Injete na veia o sangue de Jesus” que estabelece o religare entre a criatura e o Criador. Pagode gospel na catedral presbiteriana também não faz sentido. A leitura recente dos livros “O plantador de igreja”, de Darrin Patrick (editora Vida Nova), e de “O impacto do reino”, de David Wraight (editora Palavra) me despertaram profundamente para a questão da contextualização do evangelho. Hoje vejo o quanto ela é essencial. O contexto muda, a essência é a mesma. Numa comunidade pobre há almas carentes, num contexto de pobreza. Numa comunidade de classe média há almas carentes, num contexto de classe média. Numa comunidade rica há almas carentes, num contexto de riqueza. Mas o que importa aqui são as “almas carentes”.

EsponjaEstou na caminhada. Cheguei ao ponto ideal? De jeito nenhum. Ainda há muita natureza humana falha e que faz acepção de pessoas dentro de mim. Peço a Deus que esprema esse mal para fora do meu organismo espiritual. A diferença é que, hoje, faz parte intrínseca de minha caminhada de fé a oração para que eu veja o próximo como Jesus vê e não segundo os valores que constam em seu imposto de renda. Você gostaria de caminhar junto comigo nessa direção?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício