Posts com Tag ‘Batalha Espiritual’

Inimigo de nossas almas1Ele é mau. Sua natureza o faz agir diariamente contra nós. Ninguém tem maior capacidade de nos prejudicar do que ele. Seus pensamentos constantemente vão contra aquilo que é puro e bom. Suas ações cotidianamente sabotam nossa santidade. Ele é o grande responsável por cada um dos pecados que cometemos. Ele é o maior adversário de cada cristão na luta diária para ser fiel a Deus. Ele é o inimigo de nossas almas. Você sabe de quem estou falando. Sabe, não sabe? Então diga o nome dele em voz alta. Não se preocupe, ele não vai mordê-lo. Pode dizer.

Já disse?

Pois bem, se você disse “Satanás”, lamento, não é essa a resposta. O nome que deveria ter dito é… o seu próprio. Porque o maior inimigo de sua alma é você mesmo.

Para muitos o que acabei de dizer pode soar estranho. Mas, se você achava que seu grande adversário era o Diabo, está na hora de reconsiderar. Por uma simples razão: embora tente constantemente influenciá-lo, ele não obriga você a fazer absolutamente nada. Você faz porque decide fazer.

Inimigo de nossas almas2Vamos pensar em Adão e Eva. A serpente obrigou um dos dois a comer o fruto proibido? Não, não obrigou. Do mesmo modo que, em nossos dias, o Diabo não nos obriga a cometer nenhum pecado. O que ele fez com o primeiro casal e o que faz hoje é exatamente a mesma coisa: sedução. Satanás não força ninguém a nada, ele apenas sugere. Sussurra. Mostra possibilidades. Incentiva. Usa toda a sua lábia para fazermos o que ele quer. Mente que não haverá consequências. Mas quem toma a decisão de pecar somos eu e você. A única circunstância em que o Diabo obriga um ser humano a algo é na possessão demoníaca. Como não é o seu caso, não existe nada que Satanás possa levá-lo a fazer, contra a sua vontade, se você não consentir.

A verdade é que todas as vezes em que eu pequei, o fiz por decisão própria. Eu escolhi pecar. Tinha as duas possibilidades, o “sim” e o “não”, mas optei pelo “sim”. A responsabilidade por cada pecado da minha vida é  minha, o que me torna a pessoa com maior potencial de prejudicar a mim mesmo. Evidentemente, o Diabo tem um importante papel nessa equação. A ação dele é simbolicamente parecida com aquilo que você já viu em alguns desenhos animados, em que o personagem fica com um demoniozinho perto da orelha, ouvindo incentivos para fazer algo. Na vida real, os demônios só têm poder para fazer isto: tentar seduzir as pessoas para que pequem. O espírito maligno sugere: “Faça”. Mas quem faz… é você.

Inimigo de nossas almas3Paulo falou sobre isso. “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19). Note que ele não diz “o mal que não quero o Diabo me obriga a fazer”: Paulo assume a responsabilidade. Ficar pondo a culpa em Satanás por todas as coisas ruins que fazemos cria um grande problema para nós. Pois, se terceirizamos a culpa de nossas transgressões, acabaremos, como Pilatos, crendo que estamos com as mãos limpas porque as lavamos. “Eu fiz porque o Diabo me obrigou”, podemos dizer. Só que essa não é uma afirmação bíblica. Seria leviandade pôr a culpa de nossos erros em alguém que, por mais que tente de todo jeito fazer que pequemos, não tem poder nenhum de nos fazer pecar.

Eu peco porque decido pecar. Todos os meus pecados são responsabilidade minha. Eu é que darei contas de cada pensamento, palavra e ação que puser em prática. O mesmo se aplica a cada pessoa do planeta. Peço a Deus que essa percepção nos leve a tomar mais cuidado a cada nova tentação que atravessar nosso caminho.

Inimigo de nossas almas4Ah, sim, não quero que essa realidade deixe você triste. É uma verdade que não deve nos abater, mas sim nos deixar alertas, vigilantes, precavidos – atentos aos sussurros sedutores de Satanás e às nossas próprias atitudes. E uma boa notícia, de que você nunca deve se esquecer: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Jesus morreu na cruz para perdoar cada uma das suas transgressões. O sangue dele repousa sobre você. E não há nada que o Diabo possa fazer com relação a isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

A Grande Batalha  Espiritual Capa1Seis meses atrás, no dia 04/07/2013, disponibilizei aqui no APENAS o e-book A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL. Se você não tomou conhecimento dessa iniciativa, uma rápida explicação: um grupo de cinco pastores da denominação de que sou membro se reuniu e escreveu esse livro sobre o assunto. Particularmente, o considero o material mais bíblico que já li sobre o tema. Com a concordância dos cinco autores, o texto foi ofertado gratuitamente aqui pelo blog como livro eletrônico, para ser baixado em formato de PDF. A iniciativa não tem fins lucrativos e o único objetivo (dos autores ao escrever e o meu ao divulgar) é a edificação da Igreja. Por isso, o download e a distribuição gratuita do livro foram liberados.

Passados seis meses, já foram feitos até a data de hoje mais de 1.550 downloads. Levando-se em conta que esta obra só conta com um único canal de distribuição (este blog), podemos considerar que A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL tem alcançado seu objetivo maior, o de edificar e instruir muitas vidas. Como sua mensagem é bíblica e séria, só posso me alegrar por isso.

Estou divulgando novamente o texto por considerá-lo muito útil para a edificação da Igreja. Se você ainda não leu, fica a recomendação para que o faça (é uma leitura rápida, em linguagem bem acessível). Para realizar o download do PDF basta clicar neste link: A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL. Peço a Deus que o abençoe em sua leitura e, se considerar que o material tem qualidade, divulgue, envie por e-mail, passe adiante. A Igreja só tem a ganhar com a leitura de livros que, de fato, edificam segundo a sã doutrina. E, com relação a A GRANDE BATALHA ESPIRITUAL, eu assino embaixo.

Atualização: em 19/02/2014 o número de downloads do livro chegou a 2.116.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Sata2A proclamação do Evangelho deve ter como centro Jesus. A cruz. As boas-novas da salvação. Sempre. Sempre. Sempre. Podemos pregar sobre qualquer assunto correlato, desde que tenha ligação com o epicentro de nossa fé: Cristo. Pregações sobre dízimo devem ter foco em Jesus. Pregações sobre casamento devem ter foco em Jesus. Pregações sobre vida sexual devem ter foco em Jesus. Pregações sobre arrependimento devem ter foco em Jesus. Por isso, existe uma grande resistência em alguns setores da Igreja a se pregar sobre o inferno, o diabo e os demônios. Em grande parte, isso ocorre como reação à ênfase despropositada que certas denominações dão à chamada “libertação”, em todas as suas variáveis – “descarrego”, “batalha espiritual”, expulsão de demônios etc. -,  o que leva muitos a tomar uma postura contrária, eliminando totalmente do púlpito mensagens que tenham a ver com as hostes espirituais da maldade. Essa postura acaba se refletindo em todas as esferas da vida cristã dos que assim procedem, como a rejeição por livros que falem do assunto ou mesmo nas orações que fazem e nas músicas que cantam. Por muito tempo compartilhei desse pensamento. Falar sobre isso era como jogar uma barata dentro de uma refeição refinada num restaurante chique. Mas tenho revisto essa posição. Hoje estou convencido de que devemos sim pregar sobre o inferno e os perigos das forças espirituais do mal – desde que as pregações sobre o assunto tenham foco em Jesus.

A primeira razão que me fez rever essa posição foi a releitura do Novo Testamento. Lendo as Escrituras e alguns bons livros descobri, espantado, que Jesus de Nazaré falou muito nos Evangelhos sobre o inferno. Ou seja: o próprio Senhor abriu o precedente. Afirmar que não se pode pregar sermões que tratem do mundo espiritual maligno – com foco em Cristo, sempre – seria dizer que Jesus não poderia ter falado o que falou. E repreender Deus é, no mínimo, complicado. Se por um lado, o Senhor nos disse para não ficarmos eufóricos com esse assunto (“Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” – Lc 10.20), por outro nos instrui muitas vezes sobre ele (como em “Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino [...]  Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e perguntaram: “Por que não conseguimos expulsá-lo? ”  Ele respondeu: [...] esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” –  Mt 17.18-22).

Sata3Trabalho como editor de livros cristãos. Meu último projeto – sobre o qual não posso falar muito, por enquanto, por questões éticas – é uma obra de um importante pastor presbiteriano brasileiro e chanceler de uma universidades  cristã. Tradicional. Histórico. E brilhante. Surpreendeu-me, portanto, quando li em seu texto o seguinte:  “Alguém já disse que pregar sobre o inferno não é um caminho muito bom para levar pecadores ao arrependimento, porque, nesse caso, as pessoas se converteriam por medo da perdição eterna. Pessoalmente, entendo que é preferível que seja assim ao fato de o indivíduo não se converter de maneira nenhuma. Se alguém se converteu porque tem medo de ir para o inferno, isso é ótimo, mas se a conversão ocorreu por amor a Jesus é melhor ainda. Não faz mal o crente se assustar com a realidade da justiça divina”.

Cada vez mais tenho percebido a importância de alertar a Igreja, como fez o próprio apóstolo Pedro, de que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando a quem possa tragar” (1 Pe 5.8). Forças do mal estão se infiltrando nas igrejas. Nas empresas cristãs. Ensinamentos diabólicos estão conquistando espaço nos corações e nas mentes dos jovens e adolescentes evangélicos. Temos guardado os portões da frente de nossas vidas pela proclamação indispensável do Evangelho de Cristo, mas, ao fecharmos os lábios contra “as ciladas do diabo” (Ef 6.11), deixamos a porta dos fundos escancarada para a entrada dos sabotadores de nossa espiritualidade.

Sata4Deus é infinitamente mais poderoso que o diabo. A velha ideia de que Satanás e Jeová disputam as almas humanas como num cabo-de-guerra, em igualdade de condições, é um erro de proporções (anti)bíblicas. O Deus criador é tão superior ao diabo criatura que, com um piscar de olhos, Ele poderia, se quisesse, eliminar todos os demônios, todo o inferno, tudo, tudo, tudo. Então, imaginar que o diabo é inimigo direto do Todo-poderoso chega a ser engraçado, pois o querubim caído não pode absolutamente nada contra o criador do universo. Na-da. Ele é inimigo, isso sim, dos homens, a quem consegue astutamente enganar. Em especial aqueles que não estão alertas contra esse engano  e que se julgam imunes à tentação maligna.

Portanto, é por isso que Paulo, o apóstolo, prega à igreja de Éfeso: “A nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). E deixar de fora das nossas preocupações, do nosso discurso e da nossa pregação essa realidade seria ignorar um assunto tratado extensamente por Jesus e por seus discípulos nos evangelhos, nas epístolas e em Apocalipse. Seria uma irresponsabilidade.

Sata5A literatura cristã está repleta de livros sérios que alertam para o tema, seja de forma direta ou por meio da ficção. Um exemplo que imediatamente me vem à mente é o do grande C.S.Lewis, que escreveu as obras ficcionais “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, “O Grande Abismo” e “As crônicas de Nárnia”, que mostram explicita ou implicitamente a ação de demônios e – graças a Deus – despertam o fascínio sobre o tema. Aliás, dedicar tempo e tinta para alertar a Igreja contra o inferno, o diabo e seus ardis fez parte da preocupação de grandes homens de Deus desde o princípio. Além do próprio Jesus e dos autores canônicos, os primeiros escritos da época patrística trazem textos sobre o assunto de alguns pais da Igreja, como Orígenes (“De principiis”), Gregório de Nissa e outros. Assim foi e prosseguiu pelo período da escolástica (com Erasmo) e da Reforma (com Lutero e Zuínglio), seguindo por John Wesley, John Bunyan e outros (a série do website Voltemos ao Evangelho sobre “A História do Inferno” fornece uma boa bibliografia sobre o assunto). A conclusão é que sempre houve na Igreja cristã saudável a preocupação de pregar e escrever sobre Satanás, os demônios e o inferno – de Jesus a John Piper e Paul Washer. Basta procurar.

Em nossos dias, livros e relatos de ficção apresentados como verídicos, como as histórias de Rebecca Brown e similares, prestaram um desserviço à Igreja, por dois ângulos: de um lado houve quem cresse em seus contos como se fossem realidade e passasse a viver segundo suas ficções. Do outro, quem percebeu que se tratava de uma farsa passou a ter um preconceito refratário a qualquer coisa do gênero, qualquer livro que toque no assunto, qualquer música que mencione o diabo ou o inferno. O satanismo, uma realidade tão presente e infiltrada nas igrejas, ministérios e outros ambientes cristãos, tornou-se um assunto sobre o qual não se deveria falar. Com isso, saiu perdendo a importância bíblica e histórica de se tratar e de pregar sobre a questão. E quem saiu ganhando? Preciso responder?

Até mesmo na música. O tradicional hino “Castelo Forte”, composto pelo reformador Martinho Lutero,  dedica quase metade de suas linhas ao diabo e os demônios (depois que ele afirmou, veja você: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!”):

“Castelo forte é nosso Deus,
Amparo e fortaleza:
Com seu poder defende os seus
Na luta e na fraqueza.
Nos tenta Satanás,
Com fúria pertinaz,
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na Terra.

A nossa força nada faz:
Estamos, sim, perdidos.
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos.
Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz
O Senhor dos altos céus.
E sendo também Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está:
Vencido cairá
Por uma só palavra.

Que Deus a luta vencerá,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, poder,
E, embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu reino.”

.

Sata6O inferno existe e é um assunto sério. Bíblico. Jesus falou e pregou sobre ele – e muito. Devemos fazer o mesmo. Satanás e os demônios são um assunto sério. Bíblico. Jesus lidou pessoalmente, expulsou constantemente e falou sobre eles – e muito. Devemos fazer o mesmo. Se for preciso despertar o fascínio sobre o assunto, que assim seja. Pois, no pesar da balança, é melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Pois o que está em jogo aqui são almas humanas. Precisamos saber lidar de forma bíblica e correta com as hostes espirituais da maldade, que tanto dano provocam no seio da Igreja. E isso só vai acontecer se nossos líderes nos ensinarem a fazê-lo biblicamente. Enquanto acreditarem na inverdade que “não se prega falando sobre o inferno, Satanás e os demônios”, estarão na contramão do que fez Jesus, os escritores canônicos, os pais da Igreja, os escolásticos, os reformadores, os expoentes dos grandes despertamentos e importantes pregadores reformados de nossos dias. E, com isso, só quem lucra é o diabo, que pode usar e abusar dos cristãos que não sabem lidar com o mal porque nunca lhes ensinaram a fazer isso de forma sadia.

É ingenuidade acreditar que basta pregar sobre Cristo sem falar nada sobre o diabo e estaremos isentos das artimanhas e dos ataques do maligno. Já ouvi o bom argumento de que para aprender a identificar a nota falsa basta conhecer bem a verdadeira – só que, se a tinta da nota falsa gera prurido e alergia em nossa pele, somente conhecer a verdadeira não vai adiantar muito, depois que já manuseamos a falsificada. A luz espanta as trevas, é verdade, mas me diga um cristão com Jesus no coração que não peca porque aqui e ali se deixou enganar pelas forças do mal. Como vigiaremos se não sabemos como é o inimigo? Como estaremos alertas às “ciladas do diabo” se não temos conhecimento de como ele age, o que faz, como se combate? Muitas tecnologias fajutas de “batalha espiritual” ganham notoriedade em nossos dias justamente porque houve muitos que ensinaram errado enquanto os que poderiam ensinar certo deram as costas ao assunto.

Sata7Pregar sobre Jesus é o centro, o foco e a essência. Mas o que muitos lamentavelmente não enxergam é que pregar mensagens de alerta sobre o inferno, Satanás, o satanismo, as hostes espirituais da maldade – de forma bíblica! – também é fazer exatamente isso: ressaltar a altura da montanha pela profundidade do vale. Mostrar a luz pela contraposição com as trevas. Posicionar o bem a partir de um referencial maligno. Exilar o mal de nossa proclamação do Evangelho é remover o diabo da tentação de Jesus no deserto; é tirar a história do rico e Lázaro da Bíblia; é contar a parábola do semeador pela metade; é amputar os primeiros capítulos do livro de Jó; é rasgar páginas e mais páginas das epístolas; é anular todo o sentido de Apocalipse; é jogar no lixo trechos como Lc 11.14, Mc 7.29, Jo 8.49, Mt 9.33, Mt 17.18, Mc 7.26, Lc 4.33 e muitos outros. Mais importante ainda: é arrancar da história da salvação o relato da Queda. E, sem o que a serpente fez no Éden, por que mesmo precisaríamos da cruz?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Quero começar este texto pedindo perdão. Pois estou tão transtornado com o que li em dois comentários deixados no mesmo dia aqui no APENAS que posso soar um pouco rude – embora esteja lutando contra minha natureza humana para ser manso nas minhas palavras. Há duas coisas que me tiram do sério, confesso: injustiças e pessoas que impõem jugos sobre o próximo que Deus não impõe – gente que julga irmãs por usar calça ou saia, que não perdoa quem Deus perdoou, que diz que se alguém não foi curado de uma doença foi por falta de fé… ou que acusa outros de estarem possessos por demônios. Isso mesmo. Fiquei horrorizado ao ler dois comentários sobre pessoas que tiveram de ouvir que estavam possuídas por demônios. A falta de amor e a ignorância de quem fez esse tipo de afirmação mostram o estado de analfabetismo bíblico e de ausência de discernimento em que se encontra grande parte da Igreja de nossos dias. Quero falar sobre isso, correndo o risco de irritar alguns e de provocar polêmica. Mas vale a pena o risco, em nome da verdade bíblica e do amor cristão.

Reproduzo aqui sem alterar uma vírgula o que o primeiro irmão escreveu. Note a agonia contida em suas palavras, causada pelo que ele ouviu (a bem da verdade, um esclarecimento: eu não sou pastor):

“olá amado Pastor, só fugindo um pouco do tema que o senhor postou, eu queria te fazer uma pergunta . Hoje eu fui numa loja evangélica atrás de um livro que falasse de doenças depressivas, ou mentais, não sei se é a mesma coisa, então o vendedor me indicou o senhor me garantindo que o senhor é muito bom e confiável, é que eu tenho uma irmã que é esquizofrênica, e muitas pessoas dizem que é possessão demoníaca, e as vezes isso deixa ela muito triste, ela é uma pessoa totalmente normal, mas a base de remédios, se ela não tomar ela entra em crise, queria saber sua opinião sobre isso. Esquizofrenia é possessão ou não, é muito importante pra mim.”

Já vai longe o tempo em que se desconheciam transtornos mentais como a esquizofrenia. Hoje a psiquiatria entende bem essa e outras moléstias de origem cerebral, como síndrome do pânico, fibromialgia, EPT, TOC, depressão clínica e por aí vai. Embora em alguns casos não se saiba ainda a causa ou o mecanismo exato de funcionamento de tais distúrbios, a medicina humana que Deus nos deu por sua graça comum permite diagnosticar e tratar com uma considerável taxa de sucesso a maioria dessas patologias. No caso específico da esquizofrenia, estima-se que 1% da população mundial sofra desse mal.

Creio na existência de demônios. Creio em possessão demoníaca. Já vi pessoas endemoninhadas e, pelo nome de Cristo e seu amor, eu mesmo já expulsei demônios. Mas não é por isso que vou ignorar as descobertas da ciência e dizer que tudo é possessão. Essa é a resposta mais fácil, rápida e ignorante que há. Sempre desconfio. Recentemente preguei em certo lugar e, ao final do culto, um irmão me procurou. Saímos para beber alguma coisa e ele me contou estar com pensamentos de morte e um sentimento de opressão. Não tive nenhuma prova de que era algo de origem espiritual. Então oramos e recomendei a ele que buscasse seu pastor para avaliar essa possibilidade e que em paralelo fosse a um psiquiatra para fazer uma avaliação. Sendo uma ou outra causa, ele estaria coberto e bem amparado.

Meu pensamento e minha experiência me levam a uma prática simples: oremos. Se for um mal de causa espiritual, revelará sua presença e agiremos como Jesus agiu: “Cala-te e sai”. Sem shows. Sem espetáculos. Sem alto-falantes. Sem berrarias. Sem câmeras de televisão. Sem expor ao vitupério público ou traumatizar ainda mais aquela pobre alma aprisionada, que tem de ser amada e cuidada. Prestamos tanta atenção ao demônio que nos esquecemos do ser humano que está sofrendo sob sua influência. Antes de pensarmos em poder temos de pensar em amor. Tendo isso na mente e no coração, expulsar aquela imundície da vida da pessoa ocorre naturalmente. Sem dar chance de falar muito: “Cala-te”. E sai. Pronto. E, depois, é fundamental iniciar um discipulado com aquela vida. O exorcismo não é a última etapa, é a primeira. Pois mais do que ser liberto de demônios, importa caminhar com Cristo. Expulsar e largar pra lá não adianta nada.

Se na oração e em um eventual acompanhamento não houver nenhum indício de influência espiritual (seja opressão ou possessão), costumo recomendar à pessoa que procure um bom psiquiatra, para que faça um diagnóstico e inicie um tratamento. Já vi mais de uma dezena de “possessos” terem seus “demônios” expulsos por comprimidos e pílulas.

Lembro quando, alguns anos atrás, comecei a sentir tonteiras diárias. Após exames como ressonância, tomografia e eletroencefalograma, o neurologista diagnosticou um tipo leve de epilepsia, que causa tonturas e dores de cabeça. O tratamento: três anos tomando carbamazepina. Nessa época ouvi de um cristão que “não existe epilepsia, todo caso de epilepsia é na verdade possessão”. Pois bem, depois dos três anos recebi alta e nunca mais senti nenhum dos sintomas: os neurotransmissores descompassados do meu cérebro estavam equilibrados e tudo ficou bem. Se fosse acreditar no que aquela pessoa disse, teria de admitir que a carbamazepina tem o mesmo poder que o nome de Jesus para expulsar demônios. Que tal?

O segundo relato veio de um jovem que estava, em suas próprias palavras, “numa aflição enorme, com dores no peito, deprimido e coisas do gênero”. A razão? Mostrou para os pais um texto que escrevi sobre batalha espiritual (leia AQUI) e teve de ouvir deles que o que falei “é coisa do diabo” e que por isso ele “precisava de libertação”. Segundo esse irmão, “meu pai me disse duas vezes que eu estava com o diabo no corpo de pensar isso que você diz no texto”. Compreensivelmente assustado, o jovem concordou em ir a um “culto de libertação”. Lá, segundo contou, na hora em que foram orar por ele o intercessor “chamou o inferno inteiro e repetia várias vezes: Eu sei que você está aí dentro desse rapaz, sai daí agora em nome de Jesus!! Nessa hora eu pensei: estou sendo liberto ou carregado com coisas ruins espiritualmente?”. E desde aquele dia esse jovem, que estava bem, passou a se sentir mal, aflito, confuso, com dores e depressão.

Não preciso dizer o quanto me entristece, choca e abate ler relatos como esse. Você consegue sentir na sua pele a dor de um filho que ouve dos próprios pais que “tem o diabo no corpo”? Que jugo terrível foi posto sobre um jovem cristão simplesmente por ter uma visão teológica diferente da de outros irmãos. Por preferir crer na Bíblia em vez de nas doutrinas de demônios ensinadas por esses grupos de batalha espiritual que baseiam seus ensinos apócrifos em “revelações” de supostos ex-satanistas ou de demônios, feitas em sessões de exorcismo. Como se demônios fossem revelar as verdades do inferno, esses mentirosos. E os irmãos seduzidos por essas histórias deixam a Bíblia sagrada de lado e preferem acreditar em “guerreiros da luz” e “divinas revelações do inferno” – enormes absurdos do ponto de vista bíblico. Onde está a sã doutrina? Onde está o amor pelo próximo? Como crer que poder de Deus se manifesta independentemente do amor de Deus? Desculpem, estou realmente muito triste e abalado por essas histórias.

O que mais incomoda nesses relatos é que pessoas desinformadas, patologicamente místicas ou seguidoras desses grupos irresponsáveis de batalha espiritual acabam jogando legiões de demônios nas costas de pessoas normais ou de vítimas de doenças bioquímicas – demônios que simplesmente não estão lá. Fazem pessoas espiritualmente saudáveis crer que são possessas. Você consegue ter ideia do que sente alguém que ouve isso a seu respeito? Da sensação de desamparo, culpa e uma lista enorme de emoções negativas? Afirmações irresponsáveis como essas podem piorar o estado de saúde dos doentes, sem falar que, enquanto dez “obreiros” ficam berrando no ouvido do pobre coitado e sacudindo sua cabeça tentando expulsar um suposto demônio que não está lá, ele está deixando de ser tratado adequadamente. E sendo severamente traumatizado.

Quando falamos dos dons do Espírito mencionados em 1 Coríntios 12, muitos ficam salivando para profetizar, sobem o monte e fazem correntes e campanhas para receber dons de curar e por aí vai. Mas pouquíssimos pedem a Deus discernimento de espíritos. E, ao meu ver, é um dos dons mais necessários e mais ausentes da Igreja em nossos dias. Falta discernimento. Pior: falta bom senso.

Perdoe-me o tom chateado, por favor. Mas me ponho no lugar da irmã desse querido que escreveu o comentário acima e do jovem acusado de ter o diabo no corpo e a dor que sinto por eles é muito grande. Vitimada por uma enfermidade psiquiátrica e ainda por cima acusada de possessão demoníaca. Chamado de endemoninhado pelos próprios pais. Que jugo enorme! É muita falta de amor dizer uma coisa dessas para alguém. Mesmo que fosse o caso, não se deveria falar nada, mas orar e deixar o nome de Jesus fazer o resto, sem penalizar aquela alma mais ainda. São seres humanos, por Deus! Onde estão nossa compaixão e nossa graça!?

Vivamos com olhos espirituais abertos sim. O mundo espiritual existe, todos sabemos que nossa luta não é contra carne e sangue, que Jesus expulsou demônios e Satanás vive em derredor buscando quem possa tragar. Creio em tudo isso. Mas não podemos jamais deixar de lado a razão ou o coração. A ciência e a compaixão. As descobertas da medicina e as misericórdias com os que sofrem. Senão daqui a pouco estaremos novamente torturando epiléticos, afogando quem discorda de nossas crenças teológicas e queimando pessoas com síndrome de Down na fogueira achando que são bruxos e feiticeiros. Ou, quem sabe, duendes e fadas.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício