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solidao1O rosto é sorridente. O aperto de mão, amigável. Quando lhe perguntam como está, a resposta é sempre “tudo bem”. Da hora em que chega à igreja até o momento em que se despede, todos acreditam que sua vida é repleta de felicidade. Mas, por trás de toda essa aparência, esconde-se uma pessoa extremamente solitária. Não deveria ser assim, mas a dura realidade é que nossas igrejas estão cheias de irmãos e irmãs que se encaixam nessa descrição, e que, embora escondam e não demonstrem, são muitos solitários. São cristãos, vivem em comunidade, vão aos cultos e cantam louvores, mas, na verdade, sentem-se sozinhos. Os laços com os demais são superficiais e frágeis e eles percebem que, na hora em que precisam de um ombro sincero, não o encontram. Por vezes, chegam a derramar lágrimas escondido. Poucas pessoas lhes telefonam, por isso se sentem como se ninguém estivesse nem aí para si. Olham a vida dos demais e acabam com a sensação de que todos são felizes e têm muitos amigos, menos eles próprios – o que os deprime. Apesar disso, por mais que se esforcem por ser amáveis e gentis na igreja, poucos demonstram interesse real por sua vida. Qual deve ser nosso papel junto a quem se vê nessa situação? Será que há algo que você possa fazer pelos milhares de solitários que transitam entre nós mas não demonstram, tocando a vida em meio à multidão mas tendo a solidão como companheira mais fiel? Qual é o remédio para a solidão?

Como cristãos, é importante prestarmos atenção a quem sofre, pois, sendo nós membros do Corpo de Cristo, temos o dever fraterno de zelar uns pelos outros, de acolher, amar, cuidar. Quando o pé sofre um corte, não é ele próprio que se aplica remédios, é a mão. Quando a panturrilha sente cãibras, é o pé que se alonga para aliviá-la, com a ajuda da mão, sendo que as costas se vergam para que a mão alcance o pé. O corte no dedo é levado à boca. E quando os músculos e tendões doem é dos olhos que descem as lágrimas.  Como integrantes de um todo, devemos cuidar dos irmãos. Mas que remédio podemos dar a eles?

solidão2Para conseguir auxiliar pessoas adoentadas pela solidão, quem não sofre desse mal precisa, antes de tudo, compreender que solidão não tem a ver com a quantidade de pessoas que te cercam, mas, sim, com a quantidade de pessoas que se preocupam com você. Muitas vezes descobrimos que alguém se sente solitário e nos perguntamos como pode, afinal, ele se relaciona com tanta gente! Chegamos a pensar que é frescura ou necessidade de atenção, pois não compreendemos que não basta ter pessoas em volta. O solitário não é um ermitão, é alguém que, embora viva em comunidade, não tem laços fortes de ligação com ninguém. Ele não sente falta de mais eventos na igreja, mas de alguém lhe diga: “Que saudade, liguei só para saber como você está”.

O solitário geralmente tem a percepção de que, se partisse desta vida, não faria muita falta. Pode até ser uma percepção equivocada, mas não é por ser uma visão distorcida que deixa de ser algo que o machuque. Muitos que olham de fora acham que o problema é culpa do próprio solitário, afinal, por que ele não se enturma? Por que ele não corre atrás? Basta se aproximar das pessoas! Bem, na verdade, correr atrás dos outros não satisfaz a solidão, pois não demonstra um real interesse do próximo. O solitário se sente desimportante na vida dos irmãos e vive uma real necessidade de ser amado e querido. Algo que ele não quer impor, pois precisa que ocorra espontaneamente. Correr atrás das pessoas não é o remédio para a solidão.

Como Igreja, precisamos estar constantemente atentos para os solitários que nos cercam. Devemos identificá-los e amá-los sem hipocrisia. A única forma de fazermos isso é saindo de nossa zona de conforto e indo até eles para buscar conhecê-los em profundidade, descobrir quem eles são e, a partir daí, criar vínculos verdadeiros. Não devemos amar os solitários como um gesto de caridade, “com pena” ou por “obrigação cristã”: precisamos buscar conhecê-los para criar laços verdadeiros de afeto mútuo e passar a amá-los de verdade. Temos de criar as circunstâncias para que eles de fato nos façam falta. Amizades não são apenas aquelas que a vida nos joga no colo, são também as que nos mexemos para construir. Mas, para o solitário, esse movimento partir dele não é um remédio muito eficaz, ele deseja ver interesse que parta das outras pessoas.

solidão3É bastante difícil para alguém que tem muitos amigos sinceros e vive numa atmosfera de amizade perene compreender a solidão. Quem vive imerso em amor não capta com facilidade a intensidade da dor que o solitário sente. O que fazer? Buscar em Deus a resposta. Em sua glória celestial, o Deus que é amor jamais sentiu solidão. Acompanhado, de eternidade a eternidade, pela Trindade santa, o Criador se basta a si mesmo e se complementa, vivendo numa unidade plural e singular que faz de si um ser pleno e absolutamente destituído de carência. No entanto, dos altos céus ele olhou para a humanidade solitária, despida da plenitude de Deus, e desceu à terra, fazendo-se solitário como os solitários, para nos devolver a capacidade de comungar para sempre com aquele que nunca nos deixará sós. E, ao fazer-se como um se nós, o Filho experimentou o gosto da solidão: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46), gemeu o Senhor agonizante. Por que Jesus decidiu vivenciar a dor dos solitários? Amor. Puro amor.

Meu irmão, minha irmã, há muitos solitários nas nossas igrejas. Peço a Deus que encha o seu coração do amor que é fruto do Espírito, para que você sinta em si a dor dos solitários e faça algo para cuidar de quem precisa urgentemente de calor humano. É aproximando-se de Deus que você terá discernimento para identificar as vítimas da solidão, frutificará em amor pelos tais e partirá em seu socorro com interesse genuíno. Ao fazê-lo, você estará permitindo que Deus o use para transformar a vida de tantos que precisam desse amor.

Afinal, já entendeu qual é o remédio para a solidão do seu irmão? Se você disse “Deus”… lamento, errou. Deus é o médico que aplica o remédio.  O remédio… é você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

primeiro amor1É muito conhecida a expressão “voltar ao primeiro amor”. Ela está em Apocalipse 2.4, quando Deus puxa a orelha dos cristãos da cidade de Éfeso por terem “abandonado o primeiro amor”. É interessante que, por causa dessa passagem, é popularmente difundida a ideia de que o “primeiro amor” é o estado ideal e a meta de todo cristão. Que sentir e fazer por toda a vida o que se sentia e se fazia no início da caminhada cristã é o que Jesus espera de todos nós. Particularmente, eu discordo disso. Por estranho que possa parecer, não penso que o primeiro amor seja o estado ideal para todos os cristãos. Para muitos sim, mas não para todos. Acredito mais que, em nossa espiritualidade, devemos procurar viver o “segundo amor”. Esquisito? Permita-me explicar.

Em geral, quando nos referimos a esse “primeiro amor”, o associamos a uma certa empolgação; a um sentimento de busca profunda de Deus; a uma vontade constante de evangelizar, de pensar e agir o tempo todo por Jesus. Sabe aquele sentimento de empolgação que você sente no início de um namoro? Seria mais ou menos a isso que associamos esse estado espiritual mencionado em Apocalipse. Só que, quando analisamos com calma o texto, vemos que não é bem isso o que ele diz.

primeiro amor2Veja: “Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores. Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido. Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor. Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele” (Ap 2.2-5). Repare que Deus dá ordem para se lembrar “de onde caiu”. No contexto bíblico do processo de queda e restauração do homem, “cair” é um verbo usado como sinônimo de “viver de modo pecaminoso” (cf. 1Co 10.12-13). Se dizemos “fulano caiu”, automaticamente compreendemos que ele está vivendo em pecado e sem arrependimento. Isso é reforçado pelo que é dito a seguir aos cristãos de Éfeso: que, se os membros daquela igreja não se arrependessem, sofreriam consequências. E qual tipo de cristão precisa de arrependimento? Quem pecou.

Se a ideia popularmente difundida for correta, viver uma espiritualidade menos impulsiva, menos empolgada, menos assemelhada a uma paixão de início de namoro seria um pecado que necessita de arrependimento. Só que não é. Ninguém tem seu “candelabro” removido porque tornou-se menos empolgado. Isso ocorre se foram cometidos pecados. Portanto, conclui-se que o problema dos efésios é que estavam em um estado de transgressão e necessitavam de arrependimento, para retornar a realizar “as primeiras obras”, ou seja, as práticas de santidade que faziam parte de sua rotina antes dessa queda. Era uma igreja dedicada, sofredora e apologética – como o texto bíblico descreve com clareza -, mas que estava envolvida em algum pecado.

Entendo, então, que o problema da igreja de Éfeso não era estar vivendo uma vida espiritual menos eufórica – visto que essa interpretação é  incompatível com o que o Senhor fala nos versículos anteriores -, mas estava incorrendo em pecados de que necessitava se arrepender. Não consigo ver o “primeiro amor”, portanto, como um estado de euforia pós-conversão, como muitos apregoam, mas sim o estado de santidade que devemos viver ao longo de toda nossa vida.

primeiro amor3Tendo dito tudo isso, permita-me explicar, então, por que acredito que o “segundo amor” é mais desejável que o primeiro. E aqui o conceito que uso é o popular. Muitos creem, pela interpretação que entendo ser equivocada, de Ap 2.4, que aquela euforia do período imediatamente pós-conversão é o estado ideal de vida espiritual do crente. Não vejo assim. O início da caminhada cristã é uma fase de imaturidade e impetuosidade, ignorância bíblica e limitação teológica. Nessa fase, o cristão responde à graça de Deus, recebe o chamado do Espírito Santo, mas ainda engatinha na fé, bebe leite espiritual, o que é um estado imperfeito, como Hebreus 5.12-14; 1 Coríntios 3.1,2 e 1 Timóteo 3.6 deixam claro. Não é o padrão que Deus deseja para nós. Ele quer cristãos maduros, fortalecidos na Palavra, experientes. Somos convidados a buscar a maturidade espiritual e não a viver eternamente naquele estado inicial de impulsividade, grande emotividade e enormes limitações. Deus quer que fiquemos firmes na rocha, com solidez – não com empolgação.

Façamos uma analogia, por exemplo, com um casamento. Pessoas recém-casadas vivem numa enorme euforia, numa empolgação só, como se a vida a dois fosse uma eterna lua de mel: fazem caminhos de pétalas da porta à cama, preparam as comidas preferidas do cônjuge, deixam bilhetinhos em lugares estratégicos… vivem alegres o conto de fadas. Mas, passados os primeiros anos de casamento, se não foi desenvolvida uma maturidade naquele relacionamento ele vai se desgastar. Virão as necessidades práticas do dia a dia, as contas, a perda do pudor de soltar gases na frente do outro, a mulher descobrirá que o marido ronca, o marido descobrirá que a mulher tem mau hálito de manhã… a magia começa a ser substituída pelo mundo real. E, então, quem dependia do conto de fadas para ser feliz no matrimônio vai se decepcionar, esfriar, viver infeliz, se divorciar. Pois, se aquele “primeiro amor” é o estágio que traz felicidade, lamento informar aos sonhadores: ele não vai durar para sempre.

primeiro amor4Portanto, é o “segundo amor”, o que se solidifica passada a fase dos cuticutis iniciais de um casamento, que vai sustentá-lo. A maturidade. O amor sólido e perene. A capacidade de continuar dando a vida pelo outro pelo resto de seus dias. As gracinhas dos primeiros anos de matrimônio passam. O que permanece é o amor verdadeiro e maduro. Na vida espiritual é igual. O cristão que acha que deve buscar aquele cuticuti inicial com Deus como o modelo de vida espiritual vai viver uma espiritualidade limitada. Vai querer sempre buscar emoções. Ficará insatisfeito quando não sentir nada no culto. Vai se tornar viciado na empolgação que viveu nos primeiros tempos de convertido. Mas Deus procura verdadeiros adoradores e não adoradores empolgados.

Assim, biblicamente, “voltar ao primeiro amor” é o que precisa fazer o cristão que passou a viver na prática do pecado. Ele tem de abandonar suas transgressões, lembrar-se de onde caiu, arrepender-se e voltar a realizar as obras que praticava no início – as boas obras, fruto da fé salvífica. Já o cristão que vive em intimidade com o Senhor e que, apesar de seus pecados, não se conforma com eles e se esforça em viver em santidade, esse deve viver o “segundo amor”. Maduro. Sólido. Consistente. Consequente. Duradouro.

“Esta é a minha oração: Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção” (Fp 1.9).

Ao contrário do que diz a música, eu não quero voltar a esse “primeiro amor” que a cultura popular estabeleceu. Quero viver no “segundo amor”. Nas vezes em que eu descarrilei no meio do caminho, não só quis, mas precisei voltar ao primeiro amor. Mas, enquanto estiver nos trilhos, não. Pois desejo que minha vida com Deus seja uma linha ascendente, cada vez com mais intimidade, conhecimento, crescimento e maturidade. Uma evolução. E nunca um retrocesso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

grandes pequenas maravilhas1Você já parou para pensar sobre que invenção espetacular é a escada? Uma tecnologia simples, barata, econômica e extremamente eficaz. Consegue transportar pessoas a alturas enormes usando apenas a técnica do um-passo-de-cada-vez. Ou, então, o guarda-chuva: a pessoa que o inventou deveria receber um prêmio Nobel, tão útil é esse objeto de apenas cinco reais. Pense ainda em outra fantástica invenção humana, os óculos. Eficientes, ágeis, leves, pequenos e que mudam a vida de quem precisa deles. Sou fascinado, ainda, pelo asfalto – só quem já teve de encarar uma estrada de terra esburacada ou de cascalho é capaz de valorizar a genialidade do asfalto. Isso para não falar dos livros, a meu ver a maior criação do ser humano: conhecimento, entretenimento, crescimento e fascinação que cabem embaixo do braço. Essas e outras invenções estão tão integradas ao nosso dia a dia que nem damos muita atenção a elas, mas tornaram-se essenciais à vida (dá para imaginar um mundo sem coisas como desodorantes, sapatos, fraldas, folhas de papel ou travesseiros?). Isso ocorre, também, com as grandes pequenas maravilhas da nossa vida espiritual.

O cotidiano de cada pessoa não é formado, em sua essência, por eventos magistrais, grandiosos; pelo contrário, é a soma de uma enorme quantidade de fatos e elementos muito simples. Entre um dia extraordinário e outro há muitos dias comuns e cheios de alegria, felicidade, paz, transformação e a manifestação da graça de Deus. Da hora que você acorda até o momento em que dorme, se for parar para ver a quantidade incontável de objetos e outros recursos que utiliza naquilo que chama de dia a dia, verá que a vida é formada muito mais por coisas aparentemente insignificantes (mas indispensáveis) do que por grandiosas.

A Copa do Mundo de futebol, por exemplo, só ocorre a cada quatro anos, mas entre uma e outra dá para jogar dezenas de peladas bastante divertidas com os amigos. Nem todo filme ganha um Oscar, mas muitos deles são produções simples que nos envolvem e encantam. Nem todo livro é uma Bíblia, mas há muita literatura transformadora contida em livros aparentemente muito simples. Você pode não morar num castelo no Vale do Loire, mas a sua casinha é o seu castelo. Camarão com catupiry é sensacional, mas como desprezar a delícia de um bom feijão com arroz? Elementos simples que existem em meio a outros grandiosos e que juntos formam um mundo de maravilhas – mas que, por vezes, são desprezados. Se ficamos só esperando a alegria das coisas espetaculares perderemos a maior parte da felicidade da vida.

grandes pequenas maravilhas2Do mesmo modo, em nossa caminhada de fé muitas vezes deixamos de usufruir dos grandes pequenos milagres de Deus por valorizar apenas eventos e fatos espirituais estrondosos. Enquanto ficamos esperando o paralítico se levantar da cadeira de rodas, deixamos de nos maravilhar com o milagre que é Deus ter dado aos homens o conhecimento suficiente para criar um remédio como um anti-inflamatório ou um analgésico. Enquanto muitos se angustiam porque o Senhor não faz as multidões se converterem quando eles pregam, deixam de se assombrar porque uma única alma preciosíssima entregou-se a Cristo. Se deixamos de nos encantar com as grandes pequenas maravilhas da fé, acabamos entristecidos por não conseguir desfrutar das enormes realizações que poderíamos ter ao nos encantarmos com dádivas pouco chamativas. Assim, do mesmo modo que não consideramos nada de mais uma estrada asfaltada ou uma escada (sem perceber quão difícil seria a vida diária sem elas), temos o mau hábito de desprezar as coisas menos espetaculares da vida espiritual.

Com isso, deixamos de desfrutar do melhor de Deus porque passamos os anos esperando pelo extraordinário de Deus.

Pequenas orações são respondidas, mas não glorificamos o Senhor por isso. Uma pessoa é perdoada por uma ofensa cometida, porém consideramos esse um fato qualquer. Um faminto recebe alimentos de uma pessoa caridosa, mas é “só” uma atitude corriqueira. Um filho respeita os pais e acata, em honra, o que eles disseram e esse gesto não parece ser nada de mais. Um pai ensina o filho a dobrar os joelhos antes de dormir e essa ação não emociona ninguém. Recebemos o direito de chamar o Criador de tudo de “Pai” e um bocejo sai de nossa boca ao fazê-lo. O deprimido encontra um ombro amigo onde chorar e não damos atenção a isso. Eventos e fatos como esses são milagres diários, todavia não damos o devido valor a eles.

Não perca a oportunidade de valorizar e se assombrar com tudo o que o Onipotente faz e com tudo o que nossa fé nos permite viver. Gênesis diz que Deus criou os magníficos e gigantescos astros celestes, mas, também, as magníficas e insignificantes sementes das plantas (Gn 1.11). Sim, o Criador do universo é o Criador dos átomos microscópicos. Ele faz milagres de cair o queixo, mas, também, milagres cotidianos bastante singelos. Procure abrir seus olhos para as grandes pequenas maravilhas e você será capaz de viver muito mais próximo do Senhor, com uma fé fortalecida não só porque um morto ressuscitou ou o mar se abriu, mas porque o sol nasceu de manhã, um pássaro cantou na sua janela e uma brisa suave refrescou a sua pele.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Futebol e religiãoA Copa do Mundo começou. Assisti a um excelente programa de televisão estrangeiro, em que o apresentador John Oliver analisa esse evento de forma coerente e divertida. Se você fala inglês, recomendo assistir ao vídeo inteiro, é muito bom (veja AQUI). O que mais me chamou a atenção foi a explicação que Oliver dá ao fato de que, apesar dos inúmeros absurdos envolvidos na realização desta Copa e dos descalabros praticados pela FIFA, ainda assim as pessoas estão empolgadas com a competição e ansiosas pelos jogos. Para ele, a razão é que “futebol é como uma religião”. Fiquei pensando sobre isso e gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o assunto. O que leva alguém a comparar um simples esporte a algo tão sublime, transcendente e celestial como uma religião? (E entenda que me refiro a religião como o religare do homem com Deus e não a um sistema engessado de práticas e liturgias. Se desejar entender melhor essa diferença você pode ler este post).

Primeiro, porque a fé religiosa é algo que mexe com o mais íntimo de nosso ser, desperta paixões, produz debates acalorados. A religiosidade afeta tudo em nós: influencia nossos valores, pensamentos, ações; enfim, tudo aquilo que somos e fazemos. Isso é bem visível, também, no futebol: quem aprecia veste a camisa e a defende como a um manto sagrado. Por exemplo, é preciso muita paciência para lidar com torcedores que, toda segunda-feira, parece que não têm assunto além do jogo da véspera. Durante certo tempo, um vizinho invariavelmente encontrava comigo no elevador e engrenava uma conversa animadíssima sobre o mais recente desempenho do Flamengo. “E o mengão, hein, rapaz, que garfada!” E eu: “É… am-ham…”, com aquele sorriso amarelo no rosto e sem fazer ideia do que ele estava falando. No dia em que confessei a ele que não acompanho futebol e não assisto a jogos, nossos próximos encontros passaram a ser sempre silenciosos – parecia que, se não fosse para falar de bola, não havia assunto. Deixei de ser um bom papo para ele, uma vez que futebol era o que mexia com tudo à sua volta. E não foram poucas as vezes em que fiquei avulso em rodinhas de amigos amantes do esporte bretão, tão inteirado eu estava acerca do que eles falavam como uma girafa numa conversa sobre física quântica.

Brazilian attorney, Nelson Paviotti, poses with his two Volkswagen Beetles painted with the colors of the national flag in CampinasSegundo, porque futebol e religião criam fanáticos. Assisti a um vídeo recentemente de um advogado (foto) que fez a promessa, em 1994, de só se vestir de verde e amarelo pelo resto da vida caso a seleção brasileira fosse campeã. Dito e feito. Agora, ele promete só comer alimentos que tenham essas cores caso a seleção vença. Fiquei chocado. Mas o fanatismo está aí, e veio para ficar. É o crente que se torna um chato, por exemplo, por querer impor sua fé de qualquer modo aos não cristãos, sem compreender que quem converte é o Espírito Santo e não a nossa insistência. Fanatismo tem um quê de desequilíbrio. É diferente de ser radical. O radical é alguém equilibrado, que não negocia aquilo em que acredita por ter raízes muito bem fincadas no que crê; já o fanático é quem transborda sua fé de forma exuberante e, muitas vezes, excêntrica e, até mesmo, incômoda para quem está em volta. Radicalismo é elegante, fanatismo é extravagante. No futebol, o fanatismo por vezes torna-se assustador. Da última vez que fui ao Maracanã, para acompanhar parentes que moram no exterior, tive de sair com minha filha pequena das cadeiras e ir passear perto das lanchonetes, de tão assustada que ela ficou com os gritos, os gestos agressivos e os palavrões berrados pelos fanáticos que nos rodeavam.

EstatuaTerceiro, porque futebol e religião têm a capacidade de conduzir pessoas desequilibradas a um passo além do fanatismo, que é a intolerância. Você pode ser fanático por algo sem que isso te torne alguém agressivo a quem pensa diferente de você. Há o que poderíamos chamar de “fanáticos do bem”, ou seja, aqueles que são extremamente emotivos quanto ao que amam, mas que não fazem mal a quem pensa diferente de si. Já os intolerantes são os “fanáticos do mal”. Muitos se tornam irracionais, como os vândalos que recentemente quebraram e urinaram em uma estátua da Virgem Maria, um absurdo fruto de ignorância e da falta de entendimento acerca do que é o evangelho da graça e da paz. No futebol, isso também é assim. Torcedores espancam e matam seres humanos que torcem para outro time simplesmente porque… bem, porque torcem para outro time. A intolerância leva pessoas a agredir outras somente porque se enganaram e entraram com a camisa do outro time no meio da torcida organizada, assim como leva cristãos desequilibrados a agredir homossexuais e espíritas. Em ambos os casos, a intolerância fere o princípio do amor e o da graça.

Há outros pontos que identificam futebol e religião, mas, para não me alongar demais, eu gostaria de tratar de um aspecto que, em vez de assemelhar o futebol à religião, os diferencia: a racionalidade. E acredito que foi nesse ponto que John Oliver se baseou em seu programa para fazer a comparação entre futebol e religião. Na visão dele (e na de muitos), tanto o esporte quanto as crenças religiosas seriam alimentados por irracionalidade. Só que isso não é verdade. Sem racionalidade, a fé cristã não é fé cristã.

BrasilO amor pelo futebol, em qualquer nível, é irracional. Seja você um saudável e comedido apreciador desse esporte ou um intolerante e agressivo torcedor, seu envolvimento com o time do seu coração não se dá de forma racional. Eu explico: você saberia racionalizar por que torce para este ou aquele time? Será que é porque ele é o melhor de todos? Bem, o campeão de hoje estará na segunda divisão amanhã, então o conceito de “melhor” é relativo. A verdade é que você torce para quem torce por razões emocionais e não racionais. Como alguém que se apaixona por um amor impossível, você se apaixonou por uma equipe e passou a torcer por ela sem que haja uma explicação lógica imediata – talvez tenha adotado como seu o time que era de seus pais, por exemplo, ou vai ver que gostou das cores da camisa na sua infância. Não se sabe exatamente o que leva alguém a escolher este ou aquele time para ser o seu. Se não fosse assim, eu não teria torcido para a seleção brasileira até 1994, quando a vi ser campeã pela primeira vez. Eu e você torcemos para o Brasil porque tem a ver com a nossa relação emocional com nossa pátria.

leitura biblicaNa religião, entretanto, se as decisões são irracionais, isso só vai gerar problemas – em todos os âmbitos. “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados de suas calúnias. É melhor sofrer por fazer o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal” (1Pe 3.15-17). Repare: “razão da esperança”. Pedro está falando de racionalidade. A fé necessariamente tem de ter um componente racional. A sua conversão aconteceu no dia em que a graça de Deus se manifestou em sua vida e o Espírito Santo conduziu você a perceber, racionalmente, que o evangelho faz sentido. O teólogo Anselmo de Cantuária (1033-1109) apontou dois conceitos que se tornaram célebres na história do pensamento cristão: Credo ut intelligam (“creio para que possa entender”) e Fides quaerens intellectum (“a fé em busca de compreensão”). Com isso, Anselmo quis dizer que a tarefa da teologia é mostrar que crer é também pensar, ou seja, que não há uma oposição entre fé e reflexão intelectual (embora a fé tenha lugar de primazia). O que isso significa? Que não há como afastar a fé da racionalidade. Você crê porque Jesus e as boas-novas da salvação fazem sentido para você. Quando Paulo escreveu que “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18), estava mostrando que o cristianismo não faz sentido para os que não são salvos, mas, para nós, é totalmente compreensível e nos soa até estranho que alguém não creia no que nós cremos.

Se passarmos a viver nossa fé de modo irracional, isso criará enormes distorções. Passaremos a acreditar em falsas doutrinas, adotaremos práticas bizarras em nossos cultos, agiremos de modo diferente do que a Bíblia nos orienta a agir, nos comportaremos de modo antibíblico com o próximo… são muitos os absurdos que podem ser praticados pela irracionalidade religiosa. Por isso, é extremamente necessário que nossa fé siga a lógica bíblica – pois fora da Bíblia a fé torna-se ilógica. E, se é ilógica, não é fé cristã. Muitos dizem que não há lógica em se ter fé, mas isso não é verdade. Há a lógica do mistério. Seguimos um Cristo que revelou seus mistérios até o limite que poderíamos compreender (observe que “compreender” exige racionalidade). Se assim não fosse, não poderíamos conhecer a vontade de Deus por meio de um livro. Pois leitura é um processo lógico e racional. Tudo o que propõe uma vida cristã baseada em pressupostos irracionais do ponto de vista bíblico… não é bíblico. Logo, não é cristianismo.

Amor ao proximoReligião e futebol têm, sim, muito em comum. Mas a nossa religião exige de nós um conhecimento bíblico que gera o equilíbrio. E esse equilíbrio vem mediante a prática do amor, da graça, da justiça, do perdão, da reconciliação e de muitas outras virtudes que o evangelho destaca. Por isso é tão importante estudarmos a Palavra. Se apenas vivermos a fé sem nos aprofundarmos em seu aspecto racional, acabaremos urinando em estátuas da Virgem Maria e nos tornando a “torcida organizada de Jesus”, que vive aquilo em que crê de forma ignorante, intolerante e irracional, espancando os diferentes e agredindo os que nos agridem. Se não vivenciarmos a fé racional, nos uniremos aos que tacam coquetéis molotov, paus e pedras nos que não concordam conosco. A História da Igreja mostra que esse é um caminho que leva para longe, muito longe, do único Caminho.

A Copa está começando. Vivamos este momento com amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.22-23). Vivamos a alegria do jogo junto com a irritação por tudo o que a realização dessa competição gerou em termos negativos, mas vivamos racionalmente, controladamente, com equilíbrio, como seguidores de Jesus e à luz dos ensinamentos bíblicos. Porque não há nenhum outro modo de se conformar à imagem de Cristo neste momento que não seja agindo como Cristo agiria: buscando a justiça, mas com alegria.

Sejamos diferentes, como todo cristão deve ser. Curtamos a Copa do Mundo de futebol em paz. Não permitamos que nada nem ninguém nos tire neste momento do caminho da serenidade, da santidade, da graça e do amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

 

 

Gays1Olá, bom dia. Meu nome é Maurício Zágari e sou um cristão protestante (ou evangélico). Gostaria de falar, se me permite, a você que é homoafetivo (ou homossexual, ou gay, ou integrante do movimento LGBT – deixo a seu critério como prefere ser chamado) e que não compartilha da minha fé. Mas, antes, permita-me dizer que não pretendo te atacar, ofender, discriminar ou rebaixar. Quero apenas dialogar, com extremo respeito pela pessoa que você é. Um papo de um ser humano para outro ser humano. Tenho visto na internet, na televisão e em outras mídias uma lamentável troca de farpas entre certos evangélicos e certos gays (em geral, líderes e políticos) e isso tem me deixado profundamente triste. Parece que há uma guerra entre todo cristão e todo homoafetivo, e isso simplesmente não é verdade – nossa luta não é essa (Ef 6.12). Então gostaria de tentar deixar de lado o que alguns têm feito e dito, e expor questões a respeito de tudo o que tem acontecido, se você tiver paciência de prosseguir mais um pouco neste texto e me honrar com a sua leitura.

A primeira coisa que eu queria fazer, amigo homoafetivo, é te pedir perdão. E falo como cristão, embora nenhum outro cristão tenha me autorizado a fazer isso. E esse é o problema: muitos cristãos têm falado em meu nome sobre a tua sexualidade, sem que eu nunca tenha autorizado. Em geral, é gente famosa, que te ataca, ofende, agride, xinga e bate na mesa, como se todos os evangélicos estivessem fazendo a mesma coisa. Bem, eu não estou. Conheço muitos que também não estão. Não quero conversar com você ou com ninguém agredindo. Então, por favor, perdoe meus irmãos que te ofenderam. Pois a mensagem do Cristo a quem amo é a da paz, da restauração, da salvação; não a da guerra, da ofensa, da agressão. Quero que você saiba que, aos meus olhos, você é um ser humano precioso e importante. De valor.

A segunda coisa é explicar algo sobre a relação entre os evangélicos e os homoafetivos nos nossos dias. Eu não tenho absolutamente nada contra você como indivíduo. Tenho conhecidos que são gays, pessoas boas, trabalhadoras, amorosas, que pagam seus impostos e são extremamente agradáveis. Então, por favor, entenda que não existe nenhuma hostilidade contra os homoafetivos pelo fato de eu ser cristão. Só que não posso ser hipócrita, então deixe-me dizer que, de fato, não concordo com a prática homossexual. Perceba que existe uma diferença entre gostar, respeitar e amar alguém e concordar com algo que ela faça. Por exemplo: amo de todo coração minha filha. Não tenho preconceito contra ela. Não sou “infantifóbico”. Mas, se ela faz algo que em minha opinião é errado, não vou concordar e direi isso a ela – eu a amo e por isso sinto-me compelido a dizer a ela a verdade sobre o que penso acerca de suas ações. Uma coisa não exclui a outra. Percebe a diferença entre a pessoa e a prática?

Esse é o problema que tem gerado tanto conflito entre gays e cristãos: muitos cristãos tratam mal seres humanos gays por discordar do que eles fazem. E muitos seres humanos gays tratam mal os cristãos porque não nos dão o direito de discordar do que eles fazem. Assim, estamos errando dos dois lados. Pois estamos confundindo as pessoas com as suas crenças e práticas. Amo minha filha, mas posso discordar de algo que ela pense ou faça.

Gays2Se você diz que assistir a um jogo de futebol é mais legal que ler um livro vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que pizza é melhor que camarão vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que o Rio de Janeiro não é a melhor cidade do mundo vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que azul é mais bonito que preto vou discordar, mas vou continuar amando você. Enfim, se você pensa ou age de modo diferente de mim vou discordar, mas vou continuar amando você. O que você faz e pensa não anula o meu respeito humano por você. Gostaria muito que o mesmo fosse igual de sua parte quanto a mim. Temos, cristãos e homoafetivos, de começar a perceber que discordar de uma prática ou crença não é motivo para odiar quem pratica aquilo ou crê naquilo. É como flamenguistas e tricolores que discordam com relação a seus times mas se encontram na saída do estádio e não se espancam, mas se abraçam.

Assim, gostaria que você entendesse que, embora eu não concorde com o fato de você se relacionar com pessoas do mesmo sexo, isso em nada muda o meu apreço pelo indivíduo que você é. Se amanhã você aparecer na minha igreja, vou te receber com um abraço apertado, sentar ao teu lado e tirar todas as dúvidas que você porventura tenha quanto às questões de fé. Vou te apresentar a meus amigos da igreja e procurar compartilhar o amor que Cristo semeou no meu coração da melhor forma que eu puder. Claro que pediria respeito mútuo, o que inclui não ficar beijando outra pessoa do mesmo sexo na hora do culto, como algumas pessoas homoafetivas fizeram no passado (como foi amplamente divulgado pela mídia). Acredito que você, como pessoa inteligente que é, entende com toda clareza por que o que essas pessoas fizeram não é algo correto do ponto de vista da boa convivência. Foi bem desrespeitoso, na verdade.

A terceira coisa que queria é discorrer sobre por que existe essa discordância entre cristãos e gays. E aqui você não tem de concordar comigo, mas, pelo menos, pediria gentilmente que procurasse compreender por que não concordamos com a prática da homossexualidade. Veja: cremos que a Bíblia apresenta a ética e a vontade de Deus. Logo, acreditamos naquilo que ali está escrito como sendo a verdade absoluta do universo – por mais que o mundo pós-existencialista odeie o termo “absoluto” e prefira “relativo”. E a Bíblia diz que a prática da homoafetividade é pecado (palavra antiga, que significa “desobediência à vontade de Deus”). Diz isso de Gênesis a Apocalipse. Veja apenas dois exemplos:

Romanos 1:26-27 “Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro.”

Levítico 18:22 “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação.”

Logo, os cristãos entendem que a prática homossexual desagrada Deus. Você tem todo o direito de discordar disso! Eu respeito sua discordância. Ninguém é obrigado a crer no que eu creio. Mas, do mesmo modo, peço, por favor, que respeite meu direito de crer no que creio. Temos de concordar em discordar, mas sempre com carinho e afeto um pelo outro. E eu creio que – embora você e todos os demais homoafetivos sejam seres humanos merecedores de abraços sinceros, respeitáveis e amáveis – estão incorrendo em pecado quando põem em prática o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo (lembrando que “tentação” e “pecado” são conceitos bem diferentes, mas essa é outra discussão). Assim, se for de fato pecado, um dia você prestará contas. Mas a Deus, não a mim.

Gays3Aproveitando, queria pedir que me permita esclarecer algo sobre duas palavras que são usadas para se referir a mim no que tange à questão da homoafetividade pelo fato de eu discordar da prática homossexual. A primeira é “preconceituoso”. Pelo dicionário, “preconceito” é  “opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos.”. Gostaria de te explicar que eu discordar do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo não faz de mim, por definição, um preconceituoso. Pois tudo em que creio tem fundamento em dados objetivos, que são afirmações feitas ao longo da Bíblia, o livro que norteia minha vida. Você pode não crer em nada do que está ali, mas, por favor, pediria que respeitasse o fato de que eu creio. E, como creio, acredito que todos os dados objetivos que estão ali são verdade. Assim, não tenho “preconceito” contra a prática homossexual, mas sim um “conceito”, firmemente baseado em uma filosofia de vida (material e espiritual).

Outro termo é “homofóbico”. Pelo dicionário, “fobia” é “medo”. Assim, “aracnofobia” é “medo de aranhas”, “agorafobia” é medo de espaços abertos”. Me faz crer que “homofobia” seria “medo de homossexuais”. Bem, eu não tenho medo de você, tenho carinho e afeto pelo ser humano que você é. Também não tenho medo do que você pratica, eu discordo, mas não temo. Logo, não vejo a lógica de ser chamado de “homofóbico”. É como se eu chamasse você de “cristofóbico” porque discorda dos cristãos. Não acredito que seria correto dizer isso.

Bem, teríamos muito ainda a dialogar, sobre temas como o amor e a graça de Deus, as dores que você sofre quando é discriminado, vida eterna e tantas outras coisas envolvidas no relacionamento entre cristãos e gays. Mas não dá pra falar tudo de uma vez. Então vou encerrar por aqui, na esperança de que você tenha compreendido o que eu quis dizer. Não te odeio. Olho para você e vejo um ser humano tão humano como um heterossexual. Mas, com base na Bíblia, acredito que a prática da homossexualidade constitui pecado e levará quem a pratica a ter de prestar contas a Deus. Respeito se você não crê nisso. Porém, mais uma vez, peço, por favor, que você respeite o fato de eu crer.

Gays5O que me motivou a escrever este texto foi essencialmente mostrar que podemos nos tratar com gentileza e amor, mesmo que discordemos. Não há razão para os cristãos te tratarem mal. Não há razão para vocês nos tratarem mal. Podemos conversar civilizadamente. Olho para parlamentares e pessoas da mídia se agredindo e se ofendendo por causa de tudo o que aqui falamos e me entristeço enormemente. Abomino esse comportamento. E isso, se formos pensar bem, não tem a ver com religião ou sexualidade: tem a ver, acima de tudo, com educação e polidez. Chega de agressividade. Chega de ódio mútuo. Peço a Deus que consigamos conviver em paz e com respeito, sabendo que cada um dará contas de si e de suas ações diante do Criador.

Sabe, amigo homoafetivo que não professa a mesma fé que eu… tenho uma certeza: Deus, que é bom e misericordioso, deseja ter um relacionamento pessoal com a humanidade – inclusive com você. Minha oração é que isso aconteça e que você seja alcançado pela maravilhosa graça de Deus. O amor de Jesus, acredite, é maior e mais arrebatador do que o de qualquer pessoa.

Te desejo muita paz. Com respeito,
Mauricio

Amor5Eu e minha filhinha estávamos nos divertindo a valer. Já era tarde e passava da hora de ela dormir, mas a brincadeira estava tão legal que é lógico que a pequena não queria ir para a cama. Só que faço questão de manter a disciplina de seu sono e, por isso, lhe informei que precisávamos parar. Você sabe como são as crianças: imediatamente o sorriso sumiu de seu rosto, ela fez um bico enorme, cruzou os braços e afundou o queixo no peito. Raro é o dia em que não lhe digo no mínimo uma três vezes que a amo. Ela também diz que me ama e sabe perfeitamente quanto seu amor é importante para mim. Por isso, naquele minuto, usou a estratégia da chantagem emocional para tentar ficar acordada por mais algum tempo, brincando comigo. Foi golpe baixo: “Eu não te amo mais, papai”, falou alto. Eu sei que ela disse isso da boca para fora, e a minha reação foi espontânea e imediata. Eu respondi, em voz baixa e acariciando seus cabelos: “Bebê, absolutamente nada do que você faça ou fale vai me fazer deixar de te amar. Meu amor por você é pelo resto da vida”. Percebi que ela não esperava por aquelas palavras. Relaxou a postura, encostou-se em mim, sorriu de canto de boca e me abraçou. Em pouco tempo estava na cama, sendo embalada por uma oração cantada pelo papai.

Nossas reações impensadas merecem atenção. Elas falam muito sobre nós, porque ocorrem sem planejamento, sem censura. Se você quiser saber como é o temperamento de alguém, dê nela um susto. Umas pessoas reagem gritando, outras saem correndo, outras partem para cima. Isso demonstra se são agressivas, defensivas, tímidas ou o que for. Do mesmo modo, reações espontâneas revelam verdades profundas. Depois desse episódio, fiquei pensando sobre o que eu disse a minha filha. Sei que soa como um lugar-comum dizer que nada abalará o amor de um pai pelo filho, mas, acredite, eu falei  aquilo de modo irrefletido e sei que partiu do fundo do meu coração. Foi uma verdade absoluta. Naquele instante, eu tive a plena convicção de que, mesmo que minha filha cometa as maiores atrocidades contra mim, meu amor por ela permanecerá.

Que dirá o amor do Aba, nosso Pai celestial.

Amor2Todos os dias, eu e você temos atitudes, pensamentos e posturas que trazem subentendido a afirmação para Deus: “Eu não te amo mais, papai”. Os pecados são a maior expressão disso. Desobedecemos ao Senhor, mesmo sabendo que Jesus disse: “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama” (Jo 14.21). A conclusão é óbvia: se desobedecemos os mandamentos de Cristo, estamos lhe dizendo com nossas ações que não o amamos.

Outra forma de dizer a Deus que não o amamos é quando não o amamos sobre todas as coisas. Confuso? Explico: o maior mandamento é que amemos ao Senhor sobre todas as coisas. Quando estabelecemos prioridades em vez do nosso relacionamento com ele, não o estamos amando sobre todas as coisas. Como é sua vida de oração? Como anda seu estudo das Escrituras? Quem não ora nem estuda a Bíblia está dizendo ao Criador com sua atitude que não deseja se relacionar com ele, que ter intimidade com o Senhor não é prioritário. E isso é o descumprimento do primeiro mandamento.

E por aí vai. Além de pecados e prioridades equivocadas, é extensa a lista de posturas e pensamentos que se traduzem para Deus como falta de amor – como, por exemplo, a falta de fé e a busca do Senhor por interesses pessoais. Poderíamos gastar muito tempo aqui falando sobre todos os itens dessa lista, mas não é esse o foco do que eu gostaria de compartilhar. O que mais penso acerca desse assunto é na reação de Jesus a essas nossas demonstrações de desamor. Como o Senhor considera essas posturas?

Amor3Minhas palavras espontâneas a minha filha me fizeram compreender mais sobre o amor de um pai. Pois se eu, que sou mau, tenho esse sentimento com relação a quem gerei, que dirá nosso Pai com relação a nós. Pense: você não simplesmente brotou de um “espermatozoide divino”. O Senhor não esperou nove meses para ver como você seria. Não. Você é fruto de um projeto. Você foi planejado. Foi cuidadosamente pensado e idealizado pelo Criador. O salmista já disse, sob inspiração do Espírito Santo: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Sl 139.13-16).

Você é uma obra de arte. Deus idealizou absolutamente tudo o que diz respeito a sua pessoa antes mesmo de criar a primeira célula do seu corpo. Quando você não passava de um zigoto microscópico no útero de sua mãe, o Senhor já te amava com um amor profundo e inabalável. Ele olhava para aquele amontoado disforme de células e pensava: “Eis aqui o filho que eu amo”. Deus já tinha um propósito para a sua existência. Na verdade, antes que Gênesis 1.1 ocorresse, você já era realidade no coração do Todo-poderoso, e creio que ele ansiava pelo dia em que formaria sua vida. Você é precioso, amado, valioso e importante para o seu Pai.

Erramos sim. Muitas vezes cometemos atrocidades. Dizemos diariamente a Deus com nossas atitudes: “Eu não te amo mais, papai”. Chegamos a nos afastar dele, por amarmos mais o mundo e os prazeres da vida do que o nosso Criador. Só que o Pai está na janela, de olhos fixos no horizonte, à espera do Filho amado. E, quando temos a coragem de reconhecer nosso erro, ele se vira para nós e diz: “Bebê, absolutamente nada do que você faça ou fale vai me fazer deixar de te amar. Meu amor por você é pelo resto da vida”. Eu diria mais: é pela eternidade.

Como eu posso afirmar isso? Porque assim disse o Senhor: “Todo aquele que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei. Pois desci dos céus, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou. E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.37-40).

Amor4E se você acha que, por algo que tenha feito, o amor de Deus por você se acabou, por favor preste muita atenção a esta verdade irrefutável da Bíblia (recomendo que leia umas três vezes, pensando no que está lendo): “Nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38-39). Nada. Nada, nada, nada é capaz de separar você do amor de Deus. Nada.

Você é amado. Amado desde sempre e amado para sempre.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

adoteumpecador1Você já deve ter visto na televisão anúncios de organizações que estimulam você a apadrinhar crianças pelo mundo inteiro ou a ajudar instituições humanitárias de auxílio medico em regiões de pobreza extrema. São entidades como Action Aid, Médicos sem Fronteiras ou Visão Mundial, que fazem um trabalho maravilhoso de amor pelo próximo. Você contribui com trinta a cinquenta reais por mês e ajuda pessoas desnutridas, doentes ou carentes a melhorar de vida, estudar, ter auxilio médico, encontrar dignidade. Fiquei pensando sobre a ação dessas belíssimas organizações e me inspirei para propor uma campanha. Assim, lanço hoje a Adote um pecador.

A diferença entre essa minha campanha solitária e as dessas instituições é que ela funciona em moldes diferentes. Em vez de você doar um pouco de dinheiro mensalmente e deixar que os integrantes desses grupos ponham a mão na massa para auxiliar os carentes, doentes e necessitados, minha proposta não vai lhe custar nem um centavo. Também não vai exigir ações mensais. Na verdade, vai requerer de você muito mais: o seu coração.

O alvo de nossa campanha é alguma pessoa que você conheceu, que pertencia a alguma igreja e hoje não pertence mais. Mas não qualquer um, tem de ser um indivíduo com perfil específico: alguém que cometeu um ou mais pecados do tipo que os cristãos costumam considerar – sabe Deus por quê – mais graves do que os outros e que por isso foi discriminado dentro da igreja, oprimido pelos irmãos e que, diante de tanta falta de amor, acabou se afastando da família de fé.

Vou ajudar você a se lembrar de alguém: em geral, são pessoas que cometeram pecados sexuais (pode até mesmo ser um pastor que adulterou); que se divorciaram sem a bênção da igreja; que não conseguiram abandonar a dependência química por álcool ou outras drogas; gente que foi vista em algum ambiente “pecaminoso”, como uma boate, o samba ou o baile funk; indivíduos que cometeram algum tipo de delito que os levaram a ser humilhados publicamente, talvez até conduzidos à frente da igreja para serem expostos em suas transgressões diante dos demais. Perceba que não estou entrando pelo mérito do pecado em si (se é pecado, é pecado e ponto) nem passando a mão na cabeça da transgressão. Meu foco é o que nós, a Igreja de Jesus Cristo, fizemos com essa vida após o pecado. Pois bem, a pessoa que é o alvo dessa campanha deve ser alguém que, além do estrago causado pelo próprio pecado, tenha sido ainda mais prejudicada pela forma discriminatória ou humilhante da qual os irmãos em Cristo a trataram ao tomar conhecimento de suas falhas. Essas são as almas que desejo alcançar com a campanha Adote um pecador.

adoteumpecador2E como ela funciona? Em vez de doar seu dinheiro, você vai doar seu coração e seu tempo. Primeiro, proponho que você ou um grupo de irmãos da igreja partam ao encontro dessa pessoa – em sua casa, no trabalho, na escola, nas ruas. Não é só dar um folheto não. É sair do seu conforto e ir até ela, onde ela estiver, como o bom pastor da parábola foi até a ovelha perdida. Quando a encontrar, você vai lhe dar amor. Abrace-a. Chore com ela. Peça perdão em nome da igreja inteira por, em vez de ajudá-la a ficar de pé após o pecado, tê-la afundado ainda mais na lama mediante a segregação, os olhares tortos, a falta de tato, a desumanidade. Deixe claro que ela é importante. Por fim, fale do amor de Cristo. Diga-lhe que Deus perdoa todos os pecados mediante arrependimento, que ela é extremamente bem-vinda no seio da igreja do Senhor, que nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus. Dê-lhe um beijo, um abraço apertado e… vá embora.

adoteumpecador3E atenção, pois este é um ponto fundamental da campanha: não convide essa preciosa alma para ir à igreja. Nem mesmo toque no assunto. O objetivo é dar amor, trazer perdão à tona, viver o evangelho junto com ela. Demonstrar bondade. Amabilidade. Carinho. Afeto. Cristo. Se ela achar que você a procurou apenas para voltar a frequentar cultos, tudo estará perdido. A finalidade é que ela se sinta acolhida, perdoada, querida, importante. É dar-lhe o senso de humanidade e de comunhão que a discriminação que sofreu roubou dela. Tenho certeza de que, se ela voltar a enxergar a família de fé como uma família de fato, mais do que um grupo de carrascos da inquisição, tornar a frequentar o ambiente eclesiástico será uma consequência natural. Mas será uma consequência, não a causa. Triste igreja é aquela que tenta trazer pessoas para tornar-se uma frequentadora de cultos, em vez de um membro amado e perdoado do Corpo de Cristo. Dê amor a ela, sem esperar nada em troca. O resto ficará por conta do Espírito Santo.

A campanha está lançada. O blog APENAS tem na data de hoje quase 2.400 assinantes, que somam-se a uma média de 11 mil acessos semanais. Isso significa que mais de 13 mil pessoas lerão este post apenas na primeira semana de sua publicação. Imagine se cada uma dessas 13 mil partirem em busca de um pecador. Seriam 13 mil seres humanos, abandonados e segregados devido a pecados que cometeram, que receberiam amor e graça da parte de irmãos em Cristo. E, se você repassar este texto para pelo menos um conhecido e ele decidir adotar um pecador, já seriam 26 mil indivíduos que visualizariam, na prática, o amor de Cristo em sua vida por meio de irmãos. Elas deixariam de ver a igreja como um antro de inquisidores e passariam a enxergar os cristãos como gente que ama, perdoa, acolhe e vive de fato o que a Bíblia diz. Eu ouso até sonhar mais alto: imagine que cada uma dessas 26 mil pessoas chamasse mais três irmãos para também adotar um pecador. Se isso acontecesse, alcançaríamos 100 mil indivíduos feridos, machucados e oprimidos dentro das igrejas que teriam um vislumbre da graça da cruz de fato em sua vida. Tremo só de imaginar.

Eu tenho esse sonho. E é um sonho bom de se sonhar – pois é bíblico e mira no epicentro da nossa fé: amor, bondade, perdão, reconciliação, restauração. Se meu sonho vai se tornar realidade ou não… depende única e exclusivamente de você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício