Vivemos a era das frases curtas. De repente a nossa fé pulou no imaginário de uma enorme parcela da Igreja brasileira da Bíblia e dos livros para adesivos de automóvel, 140 caracteres do twitter, fotos com frasezinhas do Facebook, slideshows no YouTube, blogs com três ou quatro parágrafos. Preguiçosos que somos, passamos a ser governados por teologia fast food em vez de por leituras com introdução, desenvolvimento e conclusão. Ao longo de algum tempo,  fiz uma coletânea de clichês gospel que ouço pelos arraiais evangélicos (das igrejas organizadas aos desigrejados) para que possamos comentar cada um. Leia e veja se você já não ouviu essas frases serem repetidas montes de vezes – sem que aqueles que as falam tenham gasto cinco minutos refletindo sobre seu significado. Vamos analisá-los biblicamente e historicamente:

- “Eu declaro/decreto a bênção” – Bênçãos são benefícios vindos unilateralmente de Deus e por decisão soberana dEle. Ninguém pode declarar ou decretar uma bênção, pois está fazendo aquilo que só o Senhor pode fazer. Quem o faz toma o lugar de Deus e, portanto, pratica idolatria. Sem falar que essa afirmação, fruto da chamada “Confissão Positiva”, tem raízes em religiões demoníacas de Nova Era (saiba mais sobre isso no post Demonologia da Prosperidade).

- “Eu tomo posse da bênção” – “tomar posse” significa literalmente se apossar de algo que não é seu. Quem “toma posse” é um posseiro, ou seja, alguém que invadiu um local que não lhe pertence e impõe pela força e presença o domínio sobre o que é dos outros. Como vimos acima, bênção é um benefício outorgado por Deus, por sua soberania. Quem quer “tomar posse” de uma bênção está dizendo, em outras palavras, que vai arrancar do Senhor na marra aquilo que quer para si e que só receberia se fosse concedido pelo Todo-Poderoso. Logo, essa frase, (cunhada com base no Antigo Testamento, quando o povo de Israel entrou na Terra Prometida e teve de “tomar posse” dela na base da briga, visto que era habitada por outros povos) é uma afronta à vontade soberana de Deus, que concede bênçãos a cada um conforme lhe apraz e não porque as tomamos dele à força.

- “Tá amarrado” – parte do princípio de que podemos atar demônios com amarras espirituais. Não existe tal expressão na Bíblia e o que as Escrituras nos ensinam a fazer com os demônios é expulsá-los imediatamente quando se manifestam, e não amarrá-los. Não vemos nenhum exemplo bíblico de Jesus ou os apóstolos “amarrando” demônios. O padrão bíblico é: “Cala-te e sai”.  Jesus não perdia tempo dialogando com demônios, apenas os mandava ficar quietos e então os expulsava. O único episódio de possessão em que Jesus vai além do “cala-te e sai” é o do gadareno. E, mesmo assim, a ordem de Cristo não é amarrar ninguém, mas sair na hora da pobre alma atormentada.

- “Temos que voltar ao modelo da Igreja primitiva” – se fizermos isso, estamos lascados. A Igreja primitiva, ao contrário do que existe no imaginário popular cristão, estava a anos-luz da perfeição. Em Atos lemos casos como os de Ananias e Safira, discordâncias com os judaizantes, brigas internas entre crentes como Paulo e Pedro, duplas missionárias sendo divididas por discordâncias. A esmagadora maioria das epístolas do NT foi escrita para consertar as montanhas de erros que os primeiros cristãos cometiam. Na Ceia do Senhor muitos iam só para matar a fome e os que levavam mais não dividiam com quem não tinha posses. Se lemos as sete cartas às igrejas de Apocalipse vemos como a maioria estava distante da vontade de Deus. Nos 313 anos em que houve perseguição do Império Romano aos cristãos, surgiu o fenômeno dos “lapsi”, aqueles que, ao contrário dos mártires, negavam Jesus perante as autoridades para salvar suas vidas – e não foram poucos os que fizeram isso. Nas catacumbas, que eram essencialmente cemitérios subterrâneos, os cristãos mais ricos tinham direito a sepulturas mais luxuosas que os pobres e, muitas vezes, ganhavam câmaras inteiras exclusvas para suas famílias. Havia muitos privilégios concedidos aos abastados na Igreja primitiva.

Além disso, a Igreja primitiva foi assolada por montes e montes de heresias que surgiram em seu seio, como gnosticismo, sabelianismo, modalismo, monofisismo, eutiquianismo, pelagianismo, marcionismo, ebionismo e outros “ismos” que denunciam como ela era dividida, como havia desacordos, divergências de visão e rachas. Tudo isso mostra que retomar o modelo da Igreja primitiva não é viver um Evangelho puro e simples, como muitos pensam, é voltar a uma época cheia de enormes poluições, divisões, pecados e problemas no seio do Corpo de Cristo. Igualzinho aos nossos dias.

- “Os primeiros cristãos se reuniam em lares e não em templos, por isso devemos voltar a esse modelo” – os primeiros cristãos, aqueles cheios de imperfeições que vimos acima, só se reuniam em lares por uma única razão: como por 313 anos o cristianismo foi considerada uma religião criminosa pelo Império Romano, qualquer um que se confessasse cristão tinha seus bens tomados, era preso, torturado e morto. Por isso, o culto a Jesus tinha de ser feito de modo escondido. O único lugar onde havia um mínimo de privacidade eram os lares dos cristãos, que podiam simular uma visita social e ali realizavam suas liturgias. Mas, com o Edito de Milão, no ano 313, decreto que liberou a religião cristã, imediatamente os que se ocultavam, ávidos por comungar com mais irmãos, começaram a erguer templos onde pudessem se ajuntar e reverenciar o Senhor coletivamente. Em pouco tempo, graças à liberdade religiosa, o culto em lares tinha sido extinto.

Para fazer um paralelo com nossos dias, é só ver o caso da China, por exemplo, onde não se pode cultuar Jesus publicamente e por isso lá existe a chamada “igreja subterrânea”, ou seja, os irmãos são obrigados a se reunir em pequenos grupos, nos porões de suas casas, para cultuar Jesus em oculto. Se você perguntar a um membro desses grupos em lares se eles preferem esse tipo de modelo ou se gostariam de ter templos onde se reunir em maior quantidade e celebrar a liturgia da adoração com muito mais irmãos (como eu já fiz, em entrevistas com membros da Igreja subterrânea chinesa para reportagens que escrevi), verá que TODOS eles dão preferência ao ajuntamento em santuários, onde poderiam comungar em maior número, num local dedicado e visível, que servisse de referência para os não cristãos em sofrimentos saberem que ali podem encontrar ajuda. Uma reunião num lar dificilmente será encontrada por quem está vivendo aflições que só Deus pode aliviar, o que não ocorre se você tem um templo bem visível.

- “Jesus não criou uma religião” – a palavra “religião” vem do latim “religare” e significa “ligar duas partes separadas”. Portanto, em sua essência, religião cristã é o contato entre Cristo e o homem, é o “religare” entre o Pai e o filho. Religião, assim, é relacionamento, é intimidade. Logo, quando ora você pratica religião. Quando lê a Bíblia você pratica religião. Etimologicamente, qualquer pessoa que se liga a Deus é um religioso sim senhor, pois pratica o “religare”. Portanto, ao ensinar a oração do Pai Nosso, Jesus nos estava ensinando a ser religiosos, no sentido de sabermos nos comunicar bem com o Pai. Quando ouvimos “pedis e nada recebeis pois pedis mal”, o que está sendo dito é “você está praticando mal a sua religião”. É claro que, como muitas palavras da língua portuguesa (como “manga”, que pode ser a fruta ou uma parte de uma blusa), o termo “religião” pode ter o significado de “prática organizada de uma fé”, basta ver no dicionário. É a “famigerada” instituição. Em geral é nessa acepção que a frase em questão é dita. Nesse sentido, quando Jesus diz a Pedro que sobre Ele (a Pedra) seria erguida Sua Igreja, o Mestre está estabecendo-se como o alicerce, o fundamento da fé que se seguiria pelos milênios a seguir. Só que Ele em nenhuma passagem da Bíblia  especifica como o homem deveria manter o Corpo sobre esse fundamento. Isso é uma decisão que Jesus deixou a cargo do homem. Fato é que se Jesus nunca instituiu uma organização religiosa que o tivesse como alicerce, também nunca proibiu. Repare que o que Jesus critica, por exemplo, nos maus fariseus em momento algum é sua organização ou o fato de cultuarem  Deus de modo institucional, sua crítica a eles era uma questão do indivíduo, do coração, e não da instituição: a hipocrisia, a falsa aparência de piedade, a religiosidade aparente sem um “religare” autêntico, sempre questões de foro pessoal e nunca institucional.

- “Jesus nunca construiu templos, por isso devemos nos reunir em lares” – se Jesus nunca construiu templos, também nuca construiu casas. Por esse argumento, se não devemos adorá-lo em templos institucionais também não poderíamos adorá-lo em lares. Dá na mesma. A resposta e a solução para essa pendenga de se podemos ou não cultuar Jesus em templos está em duas passagens bíblicas. Em João 4.19ss, lemos o diálogo entre o Mestre e a samaritana: “Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és profeta. Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.  Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Eis a primeira resposta: seja no templo, num lar, no monte ou em Jerusalém, importa adorar em espírito e em verdade. Se é o que a pessoa faz, não se pode condenar o local só porque Jesus nunca construiu um edifício.

Temos que lembrar que os discípulos adoraram muitas vezes o Senhor na cadeia. E Jesus também nunca construiu uma cadeia. Outra passagem reveladora que contradiz essa frase incoerente está nas palavras de Jesus relatadas em Mateus 18.20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Se houver dois ou três reunidos em nome de Jesus num templo de uma igreja institucional Ele ali não estará? Se houver dois ou três reunidos em nome de Jesus num templo do tipo que Jesus nunca ergueu Ele não se fará presente? A resposta é óbvia. Então o fato de Jesus nunca ter construído um templo, uma igreja ou uma catedral é absolutamente irrelevante, desde que haja ali dois ou três reunidos em Seu nome e o adorando em espírito e em verdade. Quem perde tempo combatendo isso e advogando furiosamente a reunião em lares só está perdendo tempo.

- “Não cai uma folha da árvore se Deus não deixar” – embora faça sentido biblicamente, visto que Deus é soberano e controla tudo o que ocorre no universo, sejam fatos bons ou tragédias, essa frase não está em nenhum lugar da Bíblia.

- “Sou cristão, não evangélico” – essa frase é fruto da vergonha de ser designado pela mesma nomenclatura de  igrejas e pastores que têm enlameado o bom nome da Igreja evangélica. Então, para evitar ser associados por amigos e parentes a esses grupos, muitos têm optado por se dizer apenas “cristãos” e repudiam enfaticamente o nome “evangélico”. Mais do que deixar de ser evangélicos, se tornam antievangélicos. Isso é nonsense, pelo simples fato que não resolve nada. Os que enlameiam nosso nome também se dizem “cristãos”. Pela mesma lógica, deveríamos abandonar esse termo também?  A resposta é óbvia.  Etimologicamente, “evangélico” é o que segue o Evangelho de Jesus. Historicamente, “evangélico” é o que segue o Evangelho conforme resgatado pela Reforma Protestante. Logo, se você é cristão, professa o Evangelho de Cristo e coaduna com os cinco “solas” da Reforma… você é evangélico, queira ou não. É uma nomenclatura de 500 anos que define quem tem essas características. Renegar isso é dizer que você não é o que você é. Portanto, em vez de dizer “não sou o que sou, sou só cristão” por vergonha de ser associado a igrejas e pastores dos quais se envergonha, o ideal é deixar claro para os de fora que nós somos sim evangélicos, enquanto os que praticam atrocidades em nome da fé é que não são.

Se alguém faz piadinha pelo fato de você ser evangélico, em vez de mudar sua nomenclatura aproveite a oportunidade e explique para o piadista a razão de você portar esse honroso nome, fale que evangélico significa “aquele que segue o Evangelho de Cristo conforme resgatado pelos reformadores”, explique por que os falsos cristãos não são evangélicos e aproveite para explicar o que são as boas-novas da salvação do genuíno Evangelho de Cristo. Assim, ser humilhado por ser evangélico é uma excelente oportunidade não de mudar por vergonha o que te define, mas sim de explicar aos não cristãos o que é o Evangelho da salvação. De e-van-ge-li-zar. A escolha é sua.

- “Deus é amor e por isso não controla as tragédias nem desastres naturais, como os tsunamis” -  essa heresia teológica vem sendo pregada por um pequeno grupo que segue a linha do Teísmo Aberto americano, uma linha de pensamento que no Brasil foi chamada por um pastor evangélico que não se diz evangélico de Teologia Relacional. Ele e mais um punhado de pastores e acadêmicos celebrados nas mídias sociais (além de um grupinho de pessoas que tentam pegar carona em suas celebridades para se promover) começaram a propagar essas ideias pelas redes sociais, dizendo que Deus abriu mão de sua soberania e não controla as tragédias que ocorrem no mundo. Segundo essa heresia, Deus só está preocupado em relacionamentos e o conceito de Jeová controlando as forças da natureza seria fruto da incorporação de valores da filosofia e da religião grega no Cristianismo. Esquecem que Deus abriu o Mar Vermelho e o Rio Jordão, que Jesus acalmou a tempestade, que o Sol “parou” e retrocedeu, que houve um terremoto no momento em que Jesus entregou o seu Espirito… para essa heresia tudo isso são metáforas, o que associa esse pensamento à diabólica Teologia Liberal de Bultmann e outros teólogos – segundo a qual a Bíblia não é literal e muitos de seus relatos são apenas fábulas. Ao propagar essa afirmação, os adeptos da Teologia Relacional destituem Deus daquilo que é indissociável de Sua essência: Seu poder absoluto sobre todas as coisas e Sua soberania sobre tudo o que ocorre no universo. É, portanto, uma afirmação antibíblica e anticristã.

- “Padussinhô” – cumprimento que originalmente tinha um significado muito bonito e bíblico: “A paz do Senhor”. O problema é que a expressão de popularizou de tal forma que as pessoas nem pensam mais no significado do termo. Passam umas pelas outras no corredor da igreja e soltam um “Padussinhô” sem nem se tocar do profundo significado da expressão. Da próxima vez que você for saudar alguém com essas palavras, concentre-se em seu belo significado: que você está desejando a aquele irmão a paz que excede todo o entendimento vinda do Príncipe da Paz, que saudava seus amigos desejando exatamente a mesma coisa. Lembra das palavras do Mestre ao chegar, ressurreto, entre os discípulos, por exemplo, em Lucas 24? “Falavam ainda estas coisas quando Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: Paz seja convosco!”. Não deixemos uma saudação tão significativa perder seu sentido: ao a falarmos, que de fato estejamos desejando paz a aquela pessoa. Só um porém: você já parou para pensar o que exatamente significa “paz”? Significa “Quietação de ânimo, sossego, tranquilidade, ausência de dissensões, boa harmonia, concórdia, reconciliação”. Vale a pena investir um tempo meditando sobre cada um desses valores que dedicamos aos irmãos.

- “Temos que contextualizar o Evangelho à cultura de cada época e sociedade” – a afirmação em si é correta, isso é exatamente o que temos de fazer. Não adianta pregarmos o Evangelho no século 21 de túnica e sandália de couro. O problema é que alguns setores da Igreja têm levado essa ideia correta além no limite de segurança. Têm conduzido esse conceito ad absurdum. Com isso, tentam com tanta força e ímpeto falar a linguagem de nossos tempos para atrair o mundo que acabam muitas vezes sendo mais mundo que Igreja. É o que ocorre, principalmente, entre a chamada Igreja emergente: os próprios pastores acabam cometendo excessos e absurdos como pregar falando palavrões de púlpito e recomendar a ida a seus membros a shows de artistas com letras anticristãs e estéticas agressivas, como Ozzy Osbourne e Titãs (grupo que tem canções altamente antibíblicas, como “Igreja”, “Homem Primata” e “Epitáfio”). É preciso muita cautela. Pois nunca podemos esquecer que o Evangelho é, sempre foi e sempre será escândalo para os que não creem e que é contracultura. Isso em qualquer época e em qualquer cultura.

- “Fala, Deus” – geralmente é dito quando um pregador diz algo que o irmão ou a irmã acham que deveria ser ouvido por alguém da igreja ou por toda a congregação. É uma espécie de “toma, desgraçado, que Deus tá dizendo aquilo que eu penso que você deveria ouvir”. Na maioria das vezes não é dito com amor no coração e, por isso, é algo reprovável. A não ser que a exortação seja para si mesmo. Aí… fala, Deus!

- “Eis que eu te digo…” – nos arraiais pentecostais significa que está começando uma profecia da parte de Deus. Nada contra. Sou pentecostal e creio na atualidade dos dons. O problema é que ser “profeta” dá status entre os irmãos, como se a pessoa que profetiza fosse merecedora de um amor especial da parte de Deus. Por isso, não são poucas as pessoas que simulam profecias e, com isso, cometem o gravíssimo pecado de pôr nos lábios do Senhor o que Ele não falou. Sem falar do estrago causado junto à pessoa a quem a falsa profecia foi dirigida, que vai acreditar que Deus lhe deu algum direcionamento que na verdade não deu. Assim, antes de dizer “eis que eu te digo”… trema!

- “Em nome de Jesus” – a expressão é bíblica e o Mestre nos autorizou a usá-la. A questão é que muitos a estão usando com significados que não deveriam ter, como se fosse um “abracadabra”. Como disse Walter McAlister no livro “O Fim de uma Era”, tem sido usada com o sentido de “tem que dar certo”. “Eu vou conseguir esse emprego em nome de Jesus”. “Você vai namorar fulano, em nome de Jesus”. “O liquidificador vai funcionar agora, em nome de Jesus”. Na verdade, qual é o significado bíblico dessa expressão? Quando alguém permite que outra pessoa faça algo em seu nome, está lhe concedendo a autoridade pessoal que detém. Por exemplo, se um soldado raso chega a um capitão e lhe diz para preparar um automóvel o capitão não lhe obedecerá, pois o soldado não tem autoridade de solicitar isso a um superior. Mas se um general diz a um soldado raso: “Vá até o capitão em meu nome e lhe diga para preparar um automóvel”, aquele soldado acabou de receber a autoridade que o general tem sobre o capitão para aquela tarefa especifica. Então ele pode chegar ao capitão e dizer: “Estou vindo em nome do general solicitar que prepare o carro” e o capitão obedecerá o soldado porque o pedido é segundo a autoridade do general. Em nome dele. Com Jesus é igual. Os homens não têm autoridade de expulsar demônios. Mas quando você expulsa “em nome de Jesus”, é a autoridade que nos foi concedida por Deus que está realizando aquele feito. Do mesmo modo, ser humano algum tem poder em si para curar uma doença sem ser por meios médicos. Mas se você ora “em nome de Jesus” pela cura, é a capacidade milagrosa de curar que Jesus tem e que nos foi concedida que está atuando. Ou seja, a forma correta de usarmos essa expressão é somente quando podemos substitui-la por “segundo a autoridade de Jesus concedida a mim para este fim”.

- “Jesus não criou hierarquias nem liturgias” – errado. Basta você ver que no céu existem anjos e arcanjos. O prefixo “arc” significa “o principal”, “o primeiro”, “o de maior autoridade”. Por isso, arcebispo é o principal dos bispos. Do mesmo modo, fica claro que no reino celestial o arcanjo tem um papel hierarquicamente superior a um anjo. Esse princípio do mundo espiritual também é aplicado na terra. A Bíblia manda respeitarmos as autoridades e diz que nenhuma autoridade há que não tenha sido constituída por Deus. Também manda servos obedecerem seus senhores. Afirma à mulher que deve ser submissa ao marido. Ou seja, em todas as instâncias da vida humana – seja política, profissional ou familiar – as Escrituras deixam claro que há uma hierarquia. Seria de se estranhar muito que justamente na vida espiritual isso não ocorresse. A Bíblia deixa claro que havia na Igreja do primeiro século pessoas com cargos de supervisão (o “bispo”, conforme mencionado nas epístolas a Tito e Timóteo. Os apóstolos tinham um papel de liderança, basta ver no episódio de Ananias e Safira e basta reparar como Paulo dá determinações às igrejas em suas epístolas. E aqui cabe uma observação: hierarquia não quer dizer que alguém é melhor do que outro ou mais especial. Simplesmente que desempenha uma função com maior poder de decisão. É como o capitão de um time de futebol: ele é igual aos demais, mas dentro de campo é quem dá as decisões. E, acima dele, está o técnico, que tem, inclusive, o poder de decidir substituir o capitão.

Já a liturgia fica clara quando Jesus institui a Ceia. É um cerimonial litúrgico por natureza: tem ordem, as etapas seguem uma ordem, há um modo de proceder, há a repetição da forma de fazer a cada vez que se celebra. A História conta que os encontros da Igreja no primeiro século seguiam uma liturgia não muito diferente dos cultos de hoje, com louvores cantados, a leitura das cartas ou textos considerados canônicos e uma exposição do Evangelho por quem liderava o encontro. Logo, hierarquia e liturgia não foram, como alguns equivocadamente afirmam, instituídos pelo imperador Constantino ao oficializar a fé cristã como religião oficial do Estado: são bem anteriores – no mínimo 200 anos anteriores.

- “Posso ser cristão em casa, sozinho, sem congregar” – esse é um erro vindo do desconhecimento sobre a essência de nossa fé. O Evangelho é, por essência, um estilo de vida coletivo. 1 Coríntios 12 deixa claro que somos um corpo. Um membro decepado de um corpo é uma anomalia grotesca. Jesus nunca propôs o isolamento como padrão e, mesmo quando se retirava para orar sozinho, levava consigo alguns de seus apóstolos. Portanto um cristão que não congrega está desobedecendo o padrão divino.

- “Não existe pecadinho ou pecadão” – existe sim. A partir do momento em que existe um pecado (a blasfêmia contra o Espirito Santo) que não tem perdão e que a Bíblia diz que há pecados que são para a morte e outros que não são (independente da interpretação que se dê a isso, há muitas: “Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore. Toda a iniquidade é pecado, e há pecado que não é para morte” – 1 Jo 5.16,17.), automaticamente  fica claro que há gradações. Só haver um pecado imperdoável já é prova disso. No sentido de que qualquer pecado é desobediência a Deus… naturalmente todo pecado é equivalente, mas isso não desmerece que em suas consequências há sim níveis. A Bíblia é clara quanto a isso.

- “Manto!” – essa só pentecostal entende. Se bem que eu sou pentecostal e até hoje não entendi isso.

Por enquanto é isso. Se você se lembrar de mais algum clichê dos nossos dias usado nas igrejas, entre desigrejados, entre tradicionais ou pentecostais…não importa, entre cristãos em geral, basta acrescentar nos comentários. Só peço uma coisa: explique por que aquela palavra, expressão ou frase está biblicamente incorreta. Apenas mencioná-la não vai acrescentar. Se for o caso, faremos uma apreciação em cima do seu comentário.

Quem sabe assim, parando para pensar sobre o que falamos sem pensar… paremos um pouco para pensar sobre o que falamos! E, talvez, seja o caso de eliminarmos certas frases feitas do nosso meio que parecem corretas mas na verdade só servem para confundir. Ou não servem para nada mesmo. Tão ligados na fiação, varão e varoa dos mantos de fogo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Uma das maiores invenções da humanidade foram os livros. Não foi à toa que Deus escolheu tinta sobre papel para se revelar aos homens, pela Bíblia. Graças à literatura você consegue perpetuar conhecimento por milênios, passar ideias e emoções de geração a geração, fazer rir, chorar, se emocionar, aprender, crescer, viver. Sim, pois graças à Bíblia temos vida: é por ela que descobrimos o caminho da vida eterna, Jesus Cristo. Por isso amo livros e – confesso – tenho pena de quem diz que não gosta de ler, pois não sabe o que está perdendo. Foi esse amor pela literatura que me leva a passar para o papel aquilo que Deus põe em meu coração. Assim surgiram seis livros que escrevi: O Enigma da Bíblia de Gutemberg, 7 Enigmas e um Tesouro e O Mistério de Cruz das Almas (livros de ficção cristã publicados pela editora Anno Domini na série Geração Ação), A Verdadeira Vitória do Cristão (obra teológica que mostra qual é o real conceito bíblico de “vitória”, lançado no início deste ano), “O Ritual” (quarto livro da série Geração Ação, que será publicado no segundo semestre) e um último já escrito e aguardando aprovação da editora. Minha motivação para escrever todos esses livros foi unicamente edificar a Igreja, sem mais expectativas. Qual não foi então minha surpresa quando O Enigma da Bíblia de Gutemberg recebeu ano passado o Prêmio Areté de excelência em literatura cristã na categoria “Melhor Livro de Ficção/Romance”, 7 Enigmas e um Tesouro foi indicado na mesma categoria (e perdeu para o meu outro livro, pois curiosamente concorri contra mim mesmo) e ainda recebi o troféu de “Autor Revelação do Ano”, absolutamente imprevisto. E é sobre isso que quero falar: os imprevistos de Deus. Pois este ano o Senhor me surpreendeu novamente quando descobri que O Mistério de Cruz das Almas também foi indicado para o Prêmio Areté, o que pôs toda a trilogia inicial da série Geração Ação entre os melhores livros de ficção cristã do país, entre centenas de títulos. E aí eu digo aquilo que você muitas vezes já deve ter dito: “Por essa eu não esperava”.

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Na oração do Pai Nosso me chama muito a atenção a frase “…e livra-nos do mal”. Pode parecer um pedido normal. Mas você já parou para pensar quantas e quantas vezes Deus lhe livrou de perigos, situações desagradáveis, riscos, doenças e muito mais só por ter pedido isso a Ele… sem que você nem tomasse conhecimento? Aquele ônibus que passa direto, você ainda xinga o motorista mas sem que tenha conhecimento lá na frente ele será assaltado? Ou o pneu que fura, você fica irado e irritado, mas que se isso não tivesse ocorrido teria sido pego por um caminhão no próximo cruzamento? Ou ainda uma doença que te fez faltar àquela prova da escola e evitou que saísse na rua onde um vaso de plantas caído de uma janela do décimo andar de um prédio esmagaria sua cabeça?

Quando a Bíblia diz que os anjos do Senhor acampam ao nosso redor e nos livram isso não é brincadeira. Não os estamos vendo, mas constantemente Deus dá ordens a eles a nosso respeito, para que atuem e provoquem imprevistos. Situações que não esperamos. Mudanças de planos. Surpresas. Mas que se reverterão a nosso favor. Decisões divinas que nunca saberemos até que cheguemos à eternidade.

Os mistérios de Deus são insondáveis. Por que Ele decide por uma coisa e não outra compete única e exclusivamente a sua soberania. É um enigma. Ele é um Pai que dá peixe e pão aos seus filhos e não serpente e pedra. Primeiro porque Ele é bom e nos ama. Segundo porque aprouve a Ele fazê-lo. Explicações racionais não há. Por que o Criador do universo decide tocar os corações de um grupo de jurados da Associação Brasileira de Editores Cristãos para que todos os três livros que lancei de uma mesma série estivessem entre os considerados melhores do país? Não faço a mínima ideia. Certamente não é por vanglória ou para despertar vaidade no autor, pois isso iria contra os princípios bíblicos. Fiquei pensando nisso. Talvez porque Deus queira que com isso os livros se tornem mais conhecidos e, assim, sua mensagem de edificação alcance mais pessoas? Talvez. Mas a certeza eu nunca terei. A única certeza que isso me dá é que Ele é imprevisível e faz coisas que nunca imaginaríamos em nossa vida.

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Sei que Deus se preocupa conosco. E sei que Deus zela pela sua Igreja. O Enigma da Bíblia de Gutemberg aborda questões como o que significou o sacrifício de Cristo, respeito a pais e autoridades, nunca mentir, a importância da familia, não julgar pessoas por seu passado ignorando os frutos do presente e outros temas bíblicos. Já 7 Enigmas e um Tesouro trata de importância da amizade, não julgar as pessoas pela aparência, não fazer acepção de pessoas, namoro em jugo desigual, o peso do arrependimento quando se peca e outras coisas mais. E O Mistério de Cruz das Almas mostra biblicamente o risco de livros como “Harry Potter” e a série “Crepúsculo”, mostra o que a Bíblia diz sobre feitiçaria e criaturas das trevas, aborda a importância de missões, destaca como ter fé inabalável em Deus mesmo quando tudo vai mal é fundamental revela como estar antenado nos planos do Senhor para nossa vida e muito mais. E, algo essencial: toda a trilogia enfatiza a importância da oração e do estudo da Bíblia. Então, diante de tudo isso, suponho que essas indicações e prêmios vieram para que todos esses valores cristãos e todas essas mensagens que visam a levar a igreja a voltar a ser Igreja sejam mais difundidas, lidas, assimiladas e postas em prática na vida de milhares e milhares de cristãos e mesmo não cristãos.

Aliás, esse ponto é mais uma prova dos imprevistos de Deus. Escrevi essa série com cristãos em mente. Para edificação do Corpo de Cristo. Para ajudar no discipulado. Tanto que muitas igrejas os estão usando para trabalhar as questões que abordam com seus jovens e adolescentes. Tenho palestrado em algumas e visto o fruto da leitura dos livros: irmãos e irmãs que me procuram ao final para dizer que terminaram namoros equivocados, fizeram pazes com pessoas, compreenderam melhor o sacrifício de Cristo e muitas outras bênçãos vindas da reflexão que a leitura da trilogia provocou. Mas para minha surpresa…eis que Deus me surpreende novamente e descubro que há jovens e pastores usando os livros como instrumento de evangelismo. Nunca imaginei isso. Escrevi para cristãos. Mas muitos jovens têm presenteado amigos da escola, parentes, colegas da faculdade e outras pessoas com os livros em amigos ocultos, aniversários e ocasiões similares – uma forma sutil de passar a mensagem da Cruz embutida em obras que entretém, divertem e prendem a atenção por toda a ficção e a adrenalina que provocam. O imprevisto de Deus de novo em ação.

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Compartilhei com você a partir da minha experiência com a série Geração Ação como Deus tem me mostrado que Ele age de formas absolutamente imprevisível. Certamente você tem experiências para contar nesse sentido. Se nunca prestou atenção a isso, comece a ver no seu dia a dia fatos que ocorrem de modo totalmente sem expectativas e que mudam o rumo da sua vida. Se tiver o discernimento para isso, perceberá Deus intervindo na tua História. No meu caso, o maior ganho com as indicações e os prêmios recebidos pelos livros não foram os troféus de plástico e mármore (um até se espatifou no chão e teve de ser substituído). Pois essas coisas são perecíveis. O maior ganho foram as vidas que tomaram conhecimento dos livros por causa da premiação e a experiência que isso me proporcionou com Deus. Aprendi a entender melhor os imprevistos.

E descobri algo fundamental para a vida cristã: que aquilo que chamamos de “imprevistos”, para Deus é exatamente o que Ele tinha previsto fazer.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Sempre que lemos a passagem do bezerro de ouro em Êxodo 32 temos um sentimento ruim com relação ao povo de Israel. Deus o tinha livrado do Egito, fez aquele incrível milagre da abertura do Mar Vermelho (você consegue imaginar a experiência de ter visto e vivido aquilo?) e ainda assim aquelas pessoas tomaram as rédeas de sua vontade, passaram por cima da vontade do Senhor e fizeram o que lhes parecia mais conveniente. Dá para entender a decepção de Moisés ao ver aquilo, traduzida numa fúria que o fez quebrar as tábuas com os mandamentos. Sim, aquelas pessoas foram de uma falta de fé, de um imediatismo e de um egoísmo atroz. Mas… por que as condenamos? Já parou para pensar que se estivesse entre eles você faria parte da multidão idólatra? E a explicação é simples: faz parte da má natureza humana não ter paciência de esperar em Deus  e resolver tomar as rédeas de seu destino, sem aguardar por aquilo que o Senhor planejou fazer. Israel erigiu o bezerro de ouro simplesmente porque não teve fé suficiente para esperar o tempo de Deus. Só que o tempo chegou e Moisés desceu do monte. O resultado você sabe.

Nas palavras de Deus, quem não tem fé para esperar por Sua ação e erra pela autossuficiência é “corrupto” e “desviado”. Ouça o que Ele diz a Moisés:  “Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado”.  O desagrado do Todo-Poderoso é claro. A partir do versículo 9, Ele deixa claro que não há como abençoar quem assim o faz: “Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que se acenda contra eles o meu furor, e eu os consuma”.

Duro. Uma leitura superficial nos leva a crer que a ira do Pai se acende apenas pela idolatria. Mas se formos fundo nessa passagem veremos o que havia no coração do povo, a origem dessa idolatria. Em Êxodo 1, as causas de todo o problema ficam bem claras: “Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós”. Aí está. O povo queria respostas rápidas. Não soube esperar. Queria que Moisés já tivesse descido. Estava impaciente. Não teve fé de que a demora tinha uma razão divina. Como quem esperava “tardou”, o povo decidiu resolver da sua forma, à sua maneira, com suas próprias mãos. Pecado. Aquele povo sem fé, sem paciência e sem esperança estava tão ávido por resolver logo as coisas – da sua maneira – que veja a hora em que a Bíblia revela que começaram a adorar o bezerro: “No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se”. Repare a pressa: eles madrugaram.

A avidez daqueles que eram chamados de “povo de Deus” fez com que acordassem de madrugada para cometer seu pecado, tão impacientes que estavam. Se Deus não resolve, vamos nós mesmos tomar a frente! E logo! Esperar o sol nascer para quê?

A partir do versículo 21, temos a explicação ainda mais profunda da falta de fé, impaciência, autossuficiência e consequente idolatria do povo de Deus: “Perguntou Moisés a Arão: Que te fez este povo, que trouxeste sobre ele tamanho pecado? Respondeu-lhe Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que o povo é propenso para o mal”. Eis aí, meu irmão, minha irmã. O mal que carregamos em nosso coração é o grande culpado. Somos maus e por isso não acreditamos que Deus pode fazer o melhor para nós se apenas esperarmos mais um pouco. Somos maus e por isso nos guiamos por vista e não por fé. Somos maus e por isso tomamos das mãos de Deus a solução para nossas dúvidas e questões. Somos maus e por isso praticamos a idolatria: seja a de um bezerro de ouro, seja a de nós mesmos, quando nos pomos no lugar de Deus, o atropelamos e dizemos “seja feita a MINHA vontade”.

Tomamos as decisões no tempo que achamos conveniente de forma “desenfreada”, como diz o versículo 25. Isto é, sem freios, sem nada que nos faça parar: a razão, conselhos, pregações, testemunhos, exortações, nada. Nada nos freia. Nada nos para. Queremos e por isso fazemos, mesmo que saibamos que deveríamos esperar o tempo de Deus. Moisés era a pessoa certa. Era por Moisés que deviam esperar. Mas, pela impaciência e falta de fé de que Moisés chegaria, o povo pegou um substituto, Arão, e com ele fez o bezerro de ouro. Pobres miseráveis.

A Bíblia nos revela o desfecho daquele pecado: desgraça.  Três mil homens foram mortos a espada. E mais: “Feriu, pois, o Senhor ao povo”. Falta de fé. Impaciência. Autossuficiência. Idolatria. Pecado. Uma coisa leva à outra. A última etapa dessa sequência é morte e sofrimento.

Meu irmão, minha irmã. Se você deseja algo de Deus, não deixe que as aparências o enganem. Não se deixe conduzir pelas circunstâncias ou pelo que humanamente falando parece ser. Deus não trabalha segundo padrões humanos. Deus não age no tempo do homem. A lógica de Deus não é a nossa lógica. Deus cria situações aparentemente sem solução, verdadeiros becos sem saída, apenas para saber até onde vai a sua fé nEle. Você confia ou não? Crê no que parece impossível ou não? Na maioria das vezes o mal que há em nós nos leva a esquecer nossa fé e agir de modo que possamos “ver”, “controlar”. Mas sem fé é impossível agradar a Deus. E aí não esperamos Moisés. Pegamos um Arão qualquer e dizemos: “Você serve. Pois você estamos vendo e com você à vista temos como controlar nossas vidas. Agora faça o bezerro de ouro”. Pronto. A desgraça está feita.

Tenha fé. Tenha paciência. Tenha confiança. Jesus não é só alguém em quem fingimos confiar quando cantamos “Rompendo em fé” nos cultos. Isso é mole de fazer. Cantar e não fazer é facílimo. Facílimo e mentiroso. Pois na hora que precisamos romper em fé mesmo… será que o fazemos? Ou assumimos o controle da situação, nos aliançamos com Arão e pecamos?

Deus não se interessa por um povo que não confia nele. Os que não souberam esperar acabaram mortos ou feridos. É assim que você quer acabar?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Normalmente aqui no APENAS eu discuto as coisas de Deus e da nossa fé. Mas este post será um pouco diferente: quero hoje viver a fé e não debater sobre ela. Você já vai entender. Farei isso após ter vivido uma experiência que me mostrou uma vez mais que Deus é absurdamente imprevisível. Ocorre que fui convidado para dar uma palestra sobre três livros que escrevi para a editora Anno Domini, voltados para jovens e adolescentes, no Congresso Anual do Ministério Despera Débora, que conta com 80 mil mulheres em todo o mundo em oração por seus filhos. Nina Targino, uma das pessoas mais doces que já conheci, é a coordenadora nacional desse ministério e escreveu o prefácio do quarto livro da série, chamado O RITUAL, que será lançado ainda este ano. Fiquei muito lisonjeado quando ela, e louvo a Deus por isso, leu os quatro livros e mostrou-se encantada pela série (chamada Série Geração Ação), disse-me que esses livros eram resposta de oração e me convidou para palestrar para as cerca de 500 coordenadoras do Desperta Débora em todo o país. Sendo assim, saí do Rio rumo a Belo Horizonte certo de que estava indo para falar. Mas mal sabia eu que estava indo para ouvir.

Cheguei ao evento, fiz a palestra sobre a série e ainda sorteamos exemplares de O Enigma da Bíblia de Gutemberg (livro vencedor dos prêmios Areté de excelência em literatura cristã nas categorias “Melhor Livro de Ficção/Romance” e também “Autor Revelação do Ano”), 7 Enigmas e um Tesouro (finalista do Prêmio Areté na mesma categoria) e O Mistério de Cruz das Almas. Estava feliz, foi uma grande festa, aquela alegria tradicional que ocorre em sorteios. Terminada minha participação, sentei ao lado de Nina para escutar a próxima preletora, uma senhora chamada Ivanise Espiridião da Silva. Eu não a conhecia. Como meu voo só saía dali a algumas horas, resolvi permanecer e ouvir o que ela falaria. Eu não sabia, mas dentro de poucos minutos Ivanise tiraria o sorriso de meu rosto e me faria chorar copiosamente.

Ela é ninguém menos que a presidente do Movimento Mães da Sé. É um grupo formado por pais cujos filhos desapareceram. Sumiram do mapa. E simplesmente as autoridades fazem pouco ou nada para encontrá-los. Como me contaria depois – na carona que lhe dei ao aeroporto -, quando sua filha Fabiana, de 13 anos, desapareceu, Ivanise procurou uma delegacia. O delegado simplesmente virou-se para ela e disse que não procuraria a jovem pois “ela deve estar em algum motel com o namoradinho”. E não fez nada. Nisso se passaram 16 anos e Fabiana continua desaparecida. Não. Fabiana não estava em motel algum: ela incorporou-se às cerca de estimadas 200 mil pessoas que somem por ano no Brasil (como Ivanise me contou, existem estatísticas oficiais no país até sobre roubo de carros, mas nenhuma sobre o desaparecimento de seres humanos. O que há são especulações a partir de dados de 13 anos atrás).

Ivanise fez sua palestra. Ela escreveu o texto e o leu, em meio a pausas e lágrimas. Ao final eu estava tão tocado e comovido que pedi a ela se poderia me ceder o texto para que eu o publicasse aqui no APENAS. Serei muito direto: meu objetivo é que você seja tocado como eu fui, entre no website do Mães da Sé e invista minutos do seu dia para ver se você consegue ajudar a identificar algum dos desaparecidos, cujos pais estão em desespero. Ouça agora as palavras que foram lidas com voz embargada por Ivanise e que silenciaram todos os presentes. É uma pena que sem o tom usado na leitura perca-se a prosódia dessa mãe desesperada:

“Dizem que sou uma mulher forte e corajosa, porém me sinto muitas vezes fragilizada pelas peças que a vida me pregou. Mas sou uma mulher abençoada por Deus, afinal Ele me deu dois grandes tesouros, minhas filhas, Fabiana e Fagna – lindas, inteligentes, tudo o que um dia sempre desejei: ter uma família formada com marido e filhos, já que venho de uma família de 10 irmãos. Filha de agricultores, nasci numa cidade no interior de Alagoas, hoje com 30 mil habitantes.

Nunca tive nenhum privilégio, trabalhei na roça até os 18 anos, quando casei e fui morar em São Paulo, uma megalópole. Como meu esposo trabalhava e eu ficava sozinha, logo quis ter filhos. Primeiro nasceu a Fabiana e, 11 meses depois, veio a Fagna. Minhas filhas foram o maior presente que ganhei do Senhor Jesus. E na minha concepção de felicidade eu tinha uma família feliz.

Até que, em 23 de dezembro de 1995, minha filha Fabiana saiu de casa acompanhada de uma colega de escola para visitar uma amiga que fazia aniversário aquele dia. No retorno para casa, desapareceu a cerca de 120 metros de distância de onde morávamos. Fabiana estava com 13 anos. Hoje minha filha tem 30 anos.

A partir daí minha vida transformou-se em um pesadelo. Iniciei minha busca. Durante três meses procurei minha filha sozinha, visitando hospitais, IML, hospitais psiquiátricos, pelas ruas e viadutos, principalmente na região central de São Paulo. Essa busca foi me desgastando física e psicologicamente. Cheguei à beira da loucura. A vida não tinha mais sentido para mim sem minha filha. Até que, num dia de desespero e muita dor, pedi ao Senhor Jesus que me mostrasse uma forma de poder esperar até o momento em que Ele achasse que estava preparada para encontrar minha filha, viva ou morta. Por acaso, uma amiga da faculdade me passou o telefone de uma organização que havia no Rio de Janeiro, o Centro Brasileiro em Defesa da Criança e do Adolescente, onde cadastrei minha filha.

Algumas semanas depois fui convidada para participar de uma novela que juntou ficção e realidade e mostrou depoimentos de mães que tinham os filhos desaparecidos. Durante as gravações, conheci outras mães que estavam passando pelo mesmo drama que eu. Juntamente com outra mãe que foi comigo gravar a novela demos início ao Movimento Mães da Sé, que nasceu em 31 de março de 1996.

Transformei minha dor em uma luta constante, não só pela minha filha, mas para ajudar outras mães que vivem o mesmo drama. Tenho aprendido muito com essa família numerosa que Deus me deu. Somos irmanadas pelo mesmo objetivo, que é encontrar nossos filhos. Afinal, o Estado nos deve essa resposta. Nossa luta é uma luta isolada, sofremos o total abandono do poder público.

Aprendi a sobreviver e não desistir, pois como mãe não posso jamais desistir da busca do único bem mais precioso que Deus me deu. Tenho travado uma longa e triste batalha com a vida, mas aprendi também que não existe causa perdida, pois a única causa perdida é aquela que você abandona.

Ainda não encontrei a minha Fabiana, mas já devolvi a alegria a 2.657 casos localizados com vida e 211 óbitos. Se Deus me levar hoje, irei em paz. Pois minha filha vive em cada uma dessas crianças e adultos que ajudei a voltar para suas famílias.

Ao longo desses 16 anos de luta, aprendi que é enfrentando as dificuldades que me fortaleço, é superando meus limites que cresço como pessoa, é tentando resolver os problemas que amadureço, é desafiando o perigo que encontro coragem para enfrentá-lo e descubro o quanto cresço quando exigem de mim mais do que as minhas próprias forças – o que muitas vezes está além dos meus limites.

Aprendi a valorizar cada  minuto que a vida me dá, pois ele é único: sendo bom ou ruim, jamais haverá outro igual. Por isso nunca penso naquilo que acabou, mas sim naquilo que valeu a pena enquanto durou.

Lembrar os 16 anos do Movimento Mães da Sé é, acima de tudo, um ato de continuidade da busca por justiça, dignidade e verdade. A nossa luta não se perdeu no caminho, tampouco é em vão. De tudo fica um pouco, que será suficiente para tecer o fio da memória – que serve para alimentar a luta por justiça e contar a violência do Estado.

É tempo de lembrar. E fazer da lembrança dos nossos filhos o combustível para a luta que continua até encontrarmos uma resposta. O resultado desse esquecimento vemos hoje, quando execuções sumárias, torturas e desaparecimentos forçados continuam a ser praticados, em número muito maior e atingindo muito mais pessoas, por agentes estatais. Nos recusamos a mais um esquecimento nessa triste história.

Há 16 anos iniciamos, dando os primeiros passos onde muitas mães, pais, irmãos e amigos que nos seguiram – mostrando que não podemos mais esperar por justiça deixando tudo por conta do Estado.

A dor integra a natureza de nosso trabalho. É em meio a nossa dor e nosso sofrimento que buscamos e recolhemos a solidariedade e o alento de nossos parceiros em nosso trabalho, que não só alivia nossa caminhada como amplia nossas vitórias e impõe-nos o compromisso de com eles nos congratularmos, ainda perguntando: para onde estão indo nossas crianças? Mantemos acesa a chama da esperança de um reencontro único, mesmo sem saber o dia e a hora em que ele possa acontecer.”

Aqui acabou o testemunho de Ivanise. Seguiram-se alguns instantes de silêncio e ela completou, de improviso:

- E você pode estar se perguntando o que tem isso a ver com o Congresso do Desperta Débora e por que eu vim aqui. Eu vim buscar forças. Eu vim buscar colo.

Desnecessário dizer a enorme comoção que se seguiu a essas palavras.

Se você puder, meu irmão, minha irmã, entre no website do Mães da Sé. Quem sabe você não será o responsável por devolver um filho aos seus pais desesperados? Use bem seu tempo na web. E divulgue esse trabalho. Quanto mais pessoas olharem as fotos dos desaparecidos, mais chance há de eles serem encontrados.

Na nossa ida ao aeroporto perguntei a Ivanise (foto) qual era a melhor forma de ajudar. E ela respondeu que era olhando o site para, quem sabe, se lembrar de alguém que você tenha visto em algum lugar e cujos pais estão destruídos pela falta de informações.

Esse é o melhor colo que você pode oferecer. E, ao ouvir o testemunho de Ivanise, vi que hoje era dia de o APENAS não falar sobre o Evangelho, mas vivê-lo em sua plentiude: amando o próximo.

Ame o próximo. Acesse agora www.maesdase.org.br. Você pode salvar vidas e devolver a alegria a famílias destruídas. Para qualquer informação, o telefone da sede do Movimento é (11) 3337-3331.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Devemos nos chamar de “evangélicos” ou não? Dentro dos debates que tenho visto e vivido sobre se um cristão assumir a terminologia “evangélico” faz dele um religioso vazio e distante do Evangelho de Cristo, um mau fariseu (para não ser generalista e injusto com os bons fariseus, como Paulo e Gamaliel), um legalista etc, reproduzo abaixo um magnífico texto escrito pelo reverendo John Stott a esse respeito. Sugiro que você leia, reflita, dispa-se dos preconceitos e jargões e deleite-se nas reflexões desse que é considerado um dos maiores teólogos das últimas décadas – até seu falecimento recente. Segue o que o saudoso Pastor Stott falou sobre denominar-se ou não “evangélico”, a partir da perspectiva correta: a bíblica e histórica. É uma análise curta, porém magnífica, do significado desse conceito, sem a influência que nós, brasileiros, recebemos do mau exemplo de um punhado de maus líderes e igrejas que se chamam “evangélicas” mas que praticam e pregam barbaridades do ponto de vista bíblico. Ouçamos então essa voz que tanto edificou os cristãos dos séculos 20 e 21 com seu conhecimento sobre as coisas de Deus.

(Agradeço ao irmão João Paulo Silva, que me encaminhou o texto).

A Tradição Evangélica
John Stott

Gostaria de argumentar, embora corra o risco de simplificar em demasia e de ser acusado de arrogante, que a fé evangélica não é outra senão a fé cristã histórica. O cristão evangélico não é aquele que diverge, mas que busca ser leal em sua procura pela graça de Deus, a fim de ser fiel à revelação que Deus fez de si mesmo em Cristo e nas Escrituras.

A fé evangélica não é uma visão peculiar ou esotérica da fé cristã – ela é a fé cristã. Não é uma inovação recente. A fé evangélica é o cristianismo original, bíblico e apostólico. A marca dos evangélicos não é tanto um conjunto impecável de palavras quanto um espírito submisso, a saber, a resolução a priori de crer e de obedecer ao que quer que seja que as Escrituras ensinem.

Eles estão, de antemão, comprometidos com as Escrituras, independentemente do que se possa descobrir que elas digam. Eles afirmam não ter liberdade para lançar seus próprios termos para sua crença e comportamento. Percebem essa perspectiva de humildade e de obediência como uma implicação essencial do senhorio de Cristo sobre eles.

As tradições católica e liberal tendem a exaltar a inteligência e a bondade humana e, portanto, esperam que os seres humanos contribuam de alguma forma para a iluminação e salvação deles mesmos. Os evangélicos, de outro lado, embora afirmem veementemente a imagem divina que a nossa humanidade carrega, têm a tendência de enfatizar nossa finitude humana e queda e, portanto, de insistir que sem a revelação não podemos conhecer Deus e sem a redenção não podemos alcançá-lo.

Essa é a razão pela qual os aspectos essenciais do evangelho focam a Bíblia e a cruz, bem como a indispensabilidade delas, uma vez que foi por meio delas que a Palavra de Deus nos foi comunicada e que a obra de Deus em favor de nós foi realizada. Na verdade, sua graça apresenta a forma trinitária. Primeiro, Deus tomou a iniciativa em ambas as esferas, ensinando-nos o que não poderíamos saber de outra forma, bem como dando-nos o que não poderia nos ser dado de outra maneira. Segundo, em ambas as esferas o Filho desempenha um papel singular, como o único mediador por meio de quem a iniciativa do Pai foi tomada. Ele é a Palavra que se fez carne, por meio de quem a glória do Pai foi manifestada. Ele é o imaculado que se tornou pecado por nós para que o Pai pudesse nos reconciliar com ele mesmo.

Além disso, a Palavra de Deus falada por meio de Cristo e a obra de Deus realizada por intermédio de Cristo eram ambas hapax , completadas de uma vez por todas. Nada pode ser acrescentado a nenhuma delas, sem que com isso se deprecie a perfeição da palavra e da obra de Deus realizada por meio de Cristo. Depois, em terceiro lugar, tanto na revelação quanto na redenção, o ministério do Espírito Santo é essencial. É ele que ilumina nossa mente para compreender o que Deus revelou em Cristo, e é ele quem move nosso coração para receber o que Deus alcançou por meio de Cristo.

Assim, nessas duas esferas, o Pai agiu por meio do Filho e continua a agir por meio do Espírito Santo. Os evangélicos consideram essencial crer não apenas no evangelho revelado na Bíblia, mas também em toda a revelação da Bíblia; crer não apenas que “Cristo morreu por nós”, mas também que ele morreu “por nossos pecados” e, de forma que Deus, em amor santo, pode perdoar os crentes penitentes; crer não apenas que recebemos o Espírito, mas também que ele faz uma obra sobrenatural em nós, algo que, de variadas formas, foi retratado no Novo Testamento como “regeneração”, “ressurreição” e “recriação”.

Eis aqui três aspectos da iniciativa divina: Deus revelou-se em Cristo e no testemunho bíblico total sobre Cristo; Deus redimiu o mundo por meio de Cristo e tornou-se pecado e maldição por nós; e Deus transformou radicalmente os pecadores pela operação interna de seu Espírito.

A fé evangélica, assim afirmada, é o cristianismo histórico, maior e trinitário, e não um desvio excêntrico dele. Pois não vemos a nós mesmos oferecendo um novo cristianismo, mas chamando a Igreja ao cristianismo original.

Se “evangélico” descreve uma teologia, essa teologia é a teologia bíblica. Os evangélicos argumentam que são cristãos bíblicos plenos e que, para ser um cristão bíblico, é necessário ser cristão evangélico. Explicando dessa forma, isso pode soar como arrogância e exclusivismo, mas essa é uma crença sincera. Certamente, o desejo sincero dos evangélicos é não ser um cristão mais ou menos bíblico. A intenção deles não é ser sectário. Isto é, eles não se apegam a certos princípios apenas para manter a identidade deles como um “grupo”. Ao contrário, sempre expressaram sua prontidão para modificar, até mesmo abandonar, quaisquer das crenças que estimam, ou, se necessário, todas elas, se lhes for demonstrado que não são bíblicas.

Os evangélicos, portanto, consideram como a única possível via para a reunião das igrejas a via da reforma bíblica. De acordo com o ponto de vista deles, a única esperança firme para as igrejas que desejam se unir é a disposição comum para se sentarem juntas sob a autoridade da Palavra de Deus, a fim de serem julgadas por ela.

O significado da palavra “conservador” quando aplicada aos evangélicos, é que nos apegamos veementemente aos ensinos de Cristo e dos apóstolos, conforme apresentados no Novo Testamento, e que estamos determinados a “conservar” toda a fé bíblica. Isso foi o que o apóstolo determinou que Timóteo fizesse: “Guarde o que lhe foi confiado”, conserve isso, preserve isso, jamais abandone seu apego a isso, nem deixe que isso caia de suas mãos.

* * *

O Rev. John Stott , Ministro Anglicano e escritor, foi ex-Capelão da Rainha da Inglaterra e Reitor Emérito da Paróquia de All Souls, em Londres.  Fonte: “Cristianismo Autêntico – 968 Textos Selecionados da Obra de John Stott” , compilação pelo Bispo aposentado Anglicano Timothy Dudley-Smith (Autor dos dois volumes já publicados de sua Biografia Autorizada), Vida Acadêmica: São Paulo, 2006, www.editoravida.com.br , www.vidaacademica.net , pp.413-420.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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“Como eu sei os planos de Deus para minha vida? Como sei se estou cumprindo a vontade dEle para mim?”. No período seguinte à minha conversão, essas perguntas me assombraram. Eu era néscio, novo convertido, mal tinha pego um ou dois bons livros teológicos para ler (já tinha lido muita besteira teológica, como livros de pastores da TV e de editoras evangélicas ruins: bons livros, quase nada) e essa questão me intrigava. Todos diziam que eu tinha de seguir a vontade de Deus. Mas como fazer isso se o Altíssimo não aparecia para mim em meio a um raio de luz ou uma sarça ardente e dizia o que esperava para a minha vida? Era um mistério para um neocristão como eu. E eu vivia perguntando a Ele. Eu, um pentecostal sem instrução, aguardava uma revelação, uma profecia ou algo do gênero que viesse a me mostrar se deveria virar para a esquerda ou a direita. Até um anjo aparecer à noite em meu quarto servia. Mas nada. Nem uma resposta. Nenhum dom sobrenatural. Nenhuma aparição divina entre gelo seco. Só o silêncio.

A resposta veio. Mas não como eu esperava. Não por meio de um fenômeno sobrenatural. Não trazida pelo varão de branco numa bandeja de prata andando no meio da congregação enquanto a igreja cantava um corinho de fogo. E quando ela veio eu aprendi o que todo pentecostal – como eu sou até hoje – deve aprender: as respostas de Deus aos nossos questionamentos só numa minoria ínfima das vezes chegam por meio de “vasos” ou “varoas de fogo”. Elas vêm pela ministração da Palavra. Ou seja: pela pregação e a exposição da Bíblia.

Não é muito empolgante, eu sei, nos emocionamos, choramos e nos arrepiamos muito mais quando alguém dá um berro, põe a mão em nosso ombro e nos fulmina com aquela voz empostada que só um profeta dos mantos de fogo sabe fazer:”Eeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiissss que te diiiiiiiiiigo, servo meu!!!”. Ah! Quem não gosta? O Altíssimo em linha direta conosco! Coisa boa demais. Só que em 99,99% das vezes não será assim que você terá as respostas de Deus: será pelas Escrituras. Creio nos dons? Claro, são bíblicos. Creio que Deus fala por profecia ou pela palavra de conhecimento (a popular “revelação”)? Claro, é bíblico. Mas também creio que as maiores respostas Deus já deixou preparadas e embrulhadas para nós na Bíblia Sagrada. E o tempo que muitos perdem indo atrás de profetas e similares seria muito mais bem aplicado se dedicado à leitura estudada da Palavra revelada de Deus. Quando o Senhor quer falar por meio dos dons Ele fala. Nós não temos que correr atrás. Ele tomará a iniciativa. Ficar correndo atrás disso deixando a Bíblia na prateleira pegando poeira denuncia um cristão mal discipulado.

Mas voltemos ao meu questionamento de novo convertido. Entenda que saber para onde Deus queria que eu fosse, qual era sua vontade para minha vida, que rumo eu devia tomar, qual seu plano para mim era algo muito importante na minha concepção, algo que eu vivia me perguntando e perguntando a Deus. Eu queria saber o futuro! Queria saber os desígnios do Todo-Poderoso para os anos a seguir! Queria ser o dono do conhecimento. Afinal, conhecimento é poder e eu me sentia aflito por não deter o poder de saber o meu futuro. Que bobo eu era.

Como disse, a resposta veio. Mas quando, onde e da forma que eu menos esperava. E junto com uma bela lição. Jesus me converteu em 1996. Em 1999 viajei a Nova York num passeio de férias. Repare: foram três anos perguntando ao Senhor como saber a Sua vontade e os Seus planos para a minha vida, sem obter uma resposta. Ao chegar à cidade, fiquei hospedado na casa de um amigo. Meu sonho e objetivo de longa data era visitar as igrejas de negros do Harlem, onde queria ver o canto gospel de raízes, sentir o cheiro do povão, me mesclar com a celebração em templos onde as mulheres se vestem como Whoopi Goldberg no filme “Ghost” e os homens gritam “Hallellujahhhhhhhh!” e “Amennnnn!!!” (pronuncia-se “êi-mén”) com aquelas vozes poderosas de Ray Charles. Esse era meu sonho. Poder gritar “Oh, yes, Lord!!!” no meio deles. Sim, eu tinha sonhado muito com aquilo.

Estava de férias, desligado da questão de “Deus, para onde eu vou?”. Minha dúvida naquele momento era saber em que estação de metrô descer para chegar ao World Trade Center (sim, eu subi ao terraço-mirante de uma das Torres Gêmeas dois anos antes de elas desaparecerem). Estava prestando atenção apenas no meu passeio. Domingo se aproximou e perguntei ao meu amigo como fazia para encontrar uma boa igreja no Harlem onde pudesse experimentar o gospel de raízes. Ele me respondeu que não fazia ideia. Mas que havia uma igreja muito visitada no centro de Manhattan, a Times Square Church, e me deu as dicas de como chegar lá. Eu queria ir para o Harlem, mas, pela falta de informações, me conformei e acabei mesmo indo para aquele antigo teatro da Broadway, onde anos antes havia estreado o musical “Jesus Cristo Superstar” e que agora havia sido comprado, mal sabia eu, por ninguém menos que David Wilkerson, o celebrado pastor e autor do clássico “A Cruz e o Punhal”. Era a sua igreja.

Só descobri isso quando, chegando domingo de manhã ao santuário, vi aquele senhor de cabelos brancos atravessando a rua ao meu lado. “Caramba, é o David Wilkerson!”, me assustei. E fui em frente. Pensei com meus botões:”Se é essa celebridade quem vai pregar, de um famosão desses só pode vir uma palavra fogo puro! Ô Glória!”. Entrei naquele lindíssimo santuário, com membresia da alta sociedade novaiorquina, só gente muito bem vestida, as cortinas vermelhas fechadas. De repente elas se abriram e um belo coral trajando becas amarelas e roxas começou a cantar, as letras projetadas num vidro preso no alto do santuário. Eu só me impressionava pela grandiosidade do lugar, pela tecnologia, e derramava lágrimas ouvindo aqueles gringos cantando “Jesus, lover of my soul”. Não estava nem aí naquele momento para “saber quais são os planos de Deus para minha vida”. Estava deslumbrado com tudo ao redor e excitadíssimo por poder ouvir David Wilkerson pregar. Chegou enfim a hora da pregação e eis que sobe ao púlpito… quem?! Quem?! Quem?!

O pastor auxiliar.

Hm. Tá. Ok. É, né, fazer o quê. Afundei na cadeira.

Wilkerson sentado, eu decepcionado e o Pastor Carter Conlon (foto) ao microfone. E foi quando aconteceu. Aquele homem sem fama ou best-sellers escritos, no meio de minhas férias, a milhares de quilômetros dos profetas mais usados da minha igreja local, sem que eu estivesse nem aí no momento para os planos de Deus para minha vida… pregou a resposta à pergunta que eu vinha fazendo há 3 anos. Foi uma mensagem simples. Sem grandes argumentos. Sem muito brilhantismo. Puro feijão com arroz espiritual. Mas que saciou uma fome que durava cerca de mil dias. Não houve um grande coral de anjos cantando enquanto o Céu se abria, fogos espocavam e a grande revelação vinha direto do sétimo, oitavo ou nono Céu numa carruagem puxada por cavalos de fogo e escoltada por arcanjos e querubins. Nada disso. Em voz calma e baixa, Pastor Conlon simplesmente disse, como quem comenta um fato corriqueiro com um amigo:

- Você quer que os planos de Deus para tua vida se cumpram? Quer que a vontade dEle para você torne-se realidade? Saber é difícil, nós mesmos nunca saberemos. Mas Deus sabe. Não é uma questão de saber, mas de deixá-la se cumprir. Então, se você quer sair daqui e ir para o Brooklyn sem saber o caminho, o que você faz? Pega um ônibus que tenha ao volante um motorista com as informações sobre como chegar lá. Depois basta ficar ali, perto dele, até que chegue ao seu destino. Do mesmo modo, se você quer cumprir o plano de Deus para sua vida, tudo o que tem a fazer é ficar perto de quem sabe como te conduzir até seu destino. Fique sempre perto de Jesus e todos os planos dEle se cumprirão na sua vida. Você não precisa saber. Basta estar junto a Deus e esperar, pois, um dia após o outro, todas as coisas cooperarão para que a vontade dEle se cumpra em você.

Simples. Bíblico. Silencioso. Pura explanação eficiente e inteligente das verdades bíblicas. Naquele momento, eu congelei. Primeiro, porque percebi que Deus tinha respondido à minha pergunta. Segundo, porque foi de modo totalmente diferente de como eu esperava. Terceiro, porque mostrou-me que eu estava fazendo a pergunta errada: o importante não era “saber”, mas “o que fazer”. Fiquei estarrecido.

Fui embora da Times Square Church com um livro com pregações de David Wilkerson e uma fita k-7 com mensagens dele debaixo do braço, cortesia para os visitantes de primeira vez. Mas, mais importante do que isso, saí dali com uma autêntica experiência com Deus. Sim, Deus tinha falado. E me dado uma bronca ao mesmo tempo. Fiquei feliz por finalmente conhecer a resposta à minha pergunta: para cumprir o plano, a vontade de Deus em minha vida, tudo o que eu tinha de fazer era estar junto a Ele a cada dia. Mas saí humilhado por ver o tamanho da minha prepotência. Por achar que seria da minha forma que a resposta viria. E foi quando entendi algo que é indissociável da pessoa do Senhor: sua absoluta soberania sobre tudo o que ocorre no mundo, as coisas boas e as coisas más.

Saí dali sem ter realizado o sonho de ouvir o gospel dos negros do Harlem, pois a Times Square Church é uma igreja de brancos, com louvores para brancos ao estilo dos brancos. Mas dei de cara com uma estação do metrô. Parei. Pensei. E disse a Deus: “É com o Senhor”. Embarquei e fui para o Harlem, sem ter noção de onde ia e totalmente às cegas. Era hora do almoço, chance mínima de realizar meu sonho, de ouvir o autêntico canto gospel de raízes. Saí sozinho, no meio do bairro, e comecei a andar por suas ruas. Em pensamento, orei: “Senhor, não conheço nada ao meu redor. Não tenho ideia de onde ir. Mas estou contigo, conduze-me”. Foi quando dobrei uma esquina e dei de cara não com uma igreja, mas com um palco montado numa rua interditada, onde 20 igrejas haviam se reunido para um dia de louvor a Deus, com corais, grupos, duetos, quintetos, solistas e os mais variados tipos de autênticos músicos gospel negro de raízes se sucedendo na plataforma. Sentei quietinho e isolado numa cadeira, o único latino em meio a centenas de negros, e vivi ali em êxtase um dos dias mais inesquecíveis da minha vida, com todo tipo de louvor do Harlem sendo entoado ao longo de toda uma tarde. Gozo para minha alma e a realização de um sonho, multiplicado por 20.

Não precisei saber para onde ir. Mas Deus conhecia meu desejo e tinha seus planos para minha tarde: dar-me de presente muito mais do que eu tinha pedido. Deleitei-me no Senhor e ele concedeu o desejo do meu coração. Tudo o que precisei fazer foi estar junto a Ele, dar um passo após o outro e dizer: “Pai, eis-me aqui. Leva-me aonde Tu quiseres e cumpre em mim a Tua vontade”.

Desde então não busco saber o meu futuro, vivo um dia após o outro. E se hoje olho para trás e vejo como Deus conduziu minha vida nos últimos 13 anos, desde aquele dia de maio de 1999, sorrio e percebo claramente como os planos dEle para mim têm todos se cumprido. O que Ele reserva para meus próximos 13 anos? Sinceramente não sei. E sinceramente não faço questão de saber. Apenas entrego meu caminho ao Senhor, confio nEle e sei que o mais… Ele fará. Confie nisso também.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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