Arquivo da categoria ‘Vaidade’

sal e luzSe você foi um aluno atento às aulas de física na escola vai se lembrar de um princípio chamado “impenetrabilidade”. Esse palavrão estabelece que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Ou seja: ou eu estou no lugar X neste momento ou outra pessoa está. Eu e meu próximo de maneira alguma podemos estar no mesmo lugar, no mesmo instante. Essa lei da física encontra paralelo numa lei espiritual: é impossível eu ocupar o lugar de primazia nas minhas atitudes e o meu próximo também: ou eu me priorizo ou eu priorizo o meu próximo, não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, se eu quiser ser sal da terra e luz do mundo, cumprindo o grande mandamento, que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo, terei de negar-me e preferi-lo em honra.

Em linguagem bíblica: para que eu cumpra isto: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12.30-31), é preciso que eu faça isto: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23) e também isto: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10).

Hoje ocorreu um episódio simples mas que me mostrou de forma prática essa realidade espiritual. Escrevo este texto no dia do jogo de Brasil contra México, pela Copa do Mundo de futebol. De manhã, fui levar minha filha à escola. Chegando lá, muitos de seus coleguinhas já se encontravam no pátio, brincando, a maioria vestida de verde e amarelo, com camisas e enfeites com as cores da seleção brasileira. Toda vez que vou deixar minha filha no colégio, os coleguinhas dela voam em cima de mim, comentando coisas e me chamando para brincar. Eu entrei no clima.

Começamos a falar animadamente sobre a roupa que cada um usava, os enfeites, a Copa et cetera. Foi quando Pablo se aproximou. Na turma da minha filha há dois estrangeiros: uma menina inglesa e esse menino, que chamo de Pablo (como não tenho autorização de seus pais, não faria a indelicadeza de postar na internet seu nome verdadeiro). Ocorre que Pablo é mexicano. E lá estava ele: o inimigo. O adversário. Bem no dia da batalha, infiltrado entre nós. Levado pela empolgação do momento, acabei dizendo para aquele garotinho de apenas 3 anos uma frase impensada e horrível:

- Ih, Pablo, hoje você vai perder.

Amor2Não se passaram três segundos e o Espírito Santo já dava um cartão vermelho para a minha consciência. Pablo vive em um país estranho e já enfrenta todas as dificuldades que isso gera. Fico imaginando nesse dia específico, todos os seus amigos torcendo por um país diferente do seu, gritando “Brasil! Brasil!”, enquanto em casa seus pais torcem pelo México. Que confusão isso deve gerar em sua cabecinha. E, de repente, chego eu, o adulto mais insensível e bruto da face da terra, e mando essa. “Você vai perder”. Meu Deus… nota zero para mim. A carinha de confusão e tristeza que o querido Pablo fez, assim que falei isso, rasgou meu coração. Eu me senti um animal estúpido, fazendo mal a uma criancinha.

Na mesma hora, o meu peito apertou e percebi o absurdo que cometi. Fiz um dos piores tipos de bullying. Naquele momento percebi que só havia um meio de consertar o meu erro: amar o próximo. Preferi-lo em honra. Negar a mim mesmo. Era o mínimo que podia fazer. Então, segundos após ter dito aquela frase ignorante, bárbara e altiva, tive uma ideia. Voltei-me para a criançada e conclamei:

- Pessoal, o Brasil é legal, mas o México também! Quem acha o México legal?!

E o coro:

- Eeeeeeeeuuuuu!!!

- Entao vamos lá: México! México! México! México! México! México! México! México!

E, quando me dei conta, havia um monte de crianças pulando, vibrando e se abraçando, vestidas de verde e amarelo, demonstrando afeto pelo “adversário” e amando o “inimigo” aos gritos de “México!”. O resultado me trouxe alívio: no meio deles, Pablo saltava, alegre e sorridente, não mais com aquele olhar confuso e abatido de quem sofreu desamor, mas com a felicidade de quem é amado pelo próximo. Fui antipatriota? Pode ser. Mas, naquele momento, me senti muito mais um cidadão da pátria celestial do que o cidadão do mundo que segundos antes oprimira uma pobre criancinha.

Lamento, meu irmão, minha irmã, mas muitas e muitas vezes você terá de abdicar de si caso queira amar o próximo. Terá de abrir mão de seu tempo, de seu dinheiro, das suas vontades, do seu orgulho, da sua vaidade, de seu conforto, da sua primazia e de tantas outras coisas. A boa notícia é que, se isso significa perder algo na terra, também significa ganhar muito no céu. Deus aprecia quando brasileiros gritam “México! México! México! México!” em favor de uma criancinha mexicana.

Amor3Assisti ao jogo com uma camisa amarela, mas o coração um pouco mais mexicano – e feliz por isso. Deixo aqui a sugestão: da próxima vez que você se vir diante de uma situação em que, para cumprir o mandamento de amar o próximo, veja que precisa abrir mão de vantagens pessoais, tenha em mente este grito: “México! México! México! México!”. Peço a Deus que isso lhe dê o impulso necessário para agir em favor do mexicano que cruzar o seu caminho. Seja esse mexicano seu amigo, inimigo, brasileiro, estrangeiro, cristão ou ateu. Pois, ao fazer bem a ele, você estará fazendo bem, antes de tudo, a um israelense que deu sua vida por bilhões de cidadãos de uma pátria que não era a sua.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

teologia1Tive uma conversa com um amigo que me incomodou profundamente. Já conto o que aconteceu, mas antes me permita dizer algo, por favor. Eu amo teologia. Poucas atividades me dão tanto prazer quanto sentar com amigos e discutir as coisas de Deus, falar sobre livros de bons autores cristãos, discorrer sobre aspectos variados da fé, remoer sobre filosofias, ideologias e sistemas de pensamento. Tanto que cursei com muito prazer dois seminários teológicos, dei aulas em uma instituição acadêmica cristã por nove anos e sinto enorme alegria em ler com constância obras teológicas. Penso que tentar viver uma vida de fé sem conhecimento teológico é como dirigir um carro sem ter estudado as leis do trânsito – um perigo. Portanto, quero deixar bem claro que considero o estudo da teologia enriquecedor, prazeroso e, por que não dizer, indispensável. Incentivo que todos estudem a boa teologia ortodoxa. Mas vou te confidenciar uma coisa: tenho andado um pouco cansado de certas discussões teológicas que não me parecem ter nenhuma aplicação prática na vida de fé das pessoas e aparentam ter como principal objetivo mostrar que as pessoas que se envolvem nos referidos debates sabem muito. Sem falar que muitos desses debates e exposições são feitos num tom tão arrogante de superioridade intelectual que não consigo enxergar neles, de jeito nenhum, um espírito cristão – pois Cristo não tem parte com quem usa de arrogância e/ou agressividade no falar, mesmo que seja para defender Jesus e a sã doutrina.

Jesus falou o tempo inteiro sobre teologia. O Sermão do Monte é um belíssimo tratado teológico. A leitura atenta das palavras de Cristo nos evangelhos mostra que ele abordou temas de diferentes áreas da teologia sistemática: eclesiologia, escatologia, cristologia, pneumatologia, soteriologia, hamartiologia… o Senhor foi, de fato, um grande Mestre, um pensador, um teólogo. Portanto, viva a teologia! Mas há uma particularidade que chama minha atenção: tudo o que ele disse tem uma função. Uma aplicação no dia a dia. E ele fugia constantemente do rebuscamento: Jesus simplificava sempre o seu discurso: explicava profundas realidades teológicas por meio de simples parábolas, usava aspectos do dia a dia do povo como metáfora de conceitos teológicos complexos, e agia de fato a partir do que falava.

teologia2Este, aliás, é um ponto nevrálgico das atitudes do grande teólogo Jesus de Nazaré: seus ensinamentos “em sala de aula” eram sempre seguidos de “aulas práticas”. Jesus punha a mão na massa: andava com as pessoas, sentia o cheiro do povo, comia com os pecadores, dialogava com mestres da lei e com prostitutas, botava cuspe nos olhos do cego… ele suava a camisa. Mais ainda: o Senhor vivia a teologia que ensinava e, com isso, demonstrava a todos ao seu redor que ela fazia sentido e existia por uma razão consequente. Não eram apenas belas palavras formuladas e debatidas por um cérebro privilegiado: eram vida.

É por ver esse exemplo magnífico de Jesus que me espanta a enorme frequência com que vejo irmãos entrarem em debates, discussões e assuntos que te levam a pensar: “Tá, mas… e daí?”. Muitas vezes são até temas bem saborosos, dos que fazem o cérebro trabalhar a mil por hora, mas que não têm nenhuma consequência para o mundo real. E, diante disso, confesso meu nefasto pecado: por vezes, chego a supor que o único interesse dessas pessoas é mostrar que sabem muito e, com isso, alimentar sua vaidade. É maldade minha, eu sei, não deveria pensar isso. Mas penso. Perdoe-me.

Já me perguntaram algumas vezes por que uso neste blog uma linguagem tão popular. Esta semana fui questionado por um amigo acadêmico, em uma conversa, acerca do que escrevi no último post que publiquei aqui no APENAS, O futebol e a religião. Como citei no texto alguns aspectos teológicos relacionados ao pensamento de Anselmo de Cantuária sobre fé e razão, esse amigo querido disse coisas como “Finalmente você falou sobre teologia em um texto seu”, “Já que você é formado em Teologia, por que você não entra em questões teológicas mais acadêmicas?” e “Você não deveria estar escrevendo coisas mais profundas?”. Bem… eu explico: é porque não consigo enxergar nada que seja mais profundo do que refletir sobre verdades bíblicas fundamentais numa linguagem e num formato que sejam compreendidos por todos e que conduzam à transformação de vidas e a uma aproximação de Cristo na prática diária. Não me contento com nada menos do que isso.

PlatãoNo meu pequeno círculo de amigos amantes de teologia deixamos a mente voar solta e as conversas trafegam em outros trilhos, vamos de Karl Barth aos irmãos Boff, passando por Platão e Schaeffer; debatemos de Tertuliano a McGrath, trafegando por Tozer e Dallas Willard. Mas em situações e ambientes públicos como a internet, em palestras, pregações, programas de rádio, livros voltados para o grande público e similares eu não consigo me ver me posicionando de forma que as pessoas não me compreendam. Todas. Minha vaidade teológica nessas horas precisa permanecer muito bem trancafiada e amordaçada, porque ela impediria que eu fosse um proclamador do evangelho e me restringiria ao triste e deplorável papel de um intelectual que quer mostrar que sabe muito e usa palavras difíceis.

Na conversa que tive esta semana, ouvi que eu deveria “entregar os pontos”, porque “é impossível discutir teologia de forma acessível a todos”. Bem, eu discordo. Claro que é possível. Não é exatamente o que fazemos aqui no APENAS? E, se você leu o livro A Verdadeira Vitória do Cristão, viu que procurei fazer uma abordagem de conteúdo extremamente teológico e histórico, mas com uma linguagem conscientemente escolhida para ser a mais coloquial possível – pois desejo que qualquer pessoa entenda o que quero dizer e, assim, que meus escritos tenham consequência real em sua vida. Não me interessa ser aplaudido por poucos intelectuais, entrar em um pequeno círculo de notáveis, participar de eventos e debates teológicos se nada disso gerar frutos concretos para o reino de Deus. Se os resultados forem concretos, podem me chamar e debateremos com alegria. Mas se for apenas para ficar discutindo o sexo dos anjos, prefiro usar esse tempo para chorar abraçado a um homem que perdeu um filho num acidente de moto ou para falar do amor de Cristo a uma mulher que pensa em cometer suicídio.

O que me parece é que muitos excelentes pensadores perdem grandes oportunidades de se fazer entender porque se recusam a abandonar o academicismo de seu discurso. São teólogos falando para teólogos e não para pessoas comuns. Fico pensando em como seria se Jesus tivesse optado por falar numa linguagem tão elitizada que só os mestres da lei o compreenderiam. Você acha que ele não era capaz disso? Claro que era. Mas Jesus sabia que seria ineficaz, e ele não estava ali para mostrar apenas o que sabia, estava ali para mostrar, acima de tudo, quem era e o que fazia – salvar, perdoar, amar, curar, restaurar e por aí vai.

william_holman_hunt-the_shadow_of_deathEm círculos restritos, como na sala de aula, em uma conferência teológica ou em um evento de uma universidade, é compreensível que se adote o “teologuês”. Faz sentido e é natural que nesses ambientes seja assim, não tenho absolutamente nada contra. Faz parte do contexto. Mas, em foro público, em ambientes abertos a quantidades maiores de pessoas… para quê? Que voltemos à simplicidade do evangelho. Às palavras compreensíveis. Amo a teologia, ela é indispensável. Mas se vier a tornar-se um fim em si mesma, passa a ser dispensável. Embora eu ame teologia, sei que jamais devemos amá-la mais do que amamos Cristo – pois, se assim fizermos, nos tornamos idólatras teológicos. E quem ama Cristo usa a teologia meramente como uma ferramenta a serviço do reino de Deus, o que pressupõe proclamar o reino de modo que o próximo compreenda. Palavras bonitas, ideias complexas e discursos rebuscados jamais levaram ninguém para perto de Deus: a simplicidade da cruz é que leva.

A proclamação do evangelho, para ocorrer como Jesus fez, deve vir montada num jumentinho. Mais ainda: deve ser feita na linguagem de um carpinteiro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Justo1“Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Esse pequeno trecho da carta de Paulo aos romanos deveria ser alvo de reflexões diárias de todo cristão. Mostra que toda a humanidade faz parte do mesmo grupo de indivíduos: gente imperfeita, errada, pecadora e desesperadamente carente de Deus. Da cruz. De Cristo. Ninguém é justo por si mesmo, mas somos feitos justos por meio do sangue de Jesus. Essa percepção deveria nos levar a uma posição de extrema humildade e misericórdia; afinal nenhum de nós é melhor do que o outro. “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Meu irmão, minha irmã, eu e você somos culpados de transgredir toda a lei de Deus. Toda. Consequentemente, não somos melhores que o ladrão da cruz, Pilatos, Judas, os fariseus, Herodes, Charles Manson, Adolf Hitler, Mussolini… quem você quiser. Aliás, eu, você, seu pastor, o líder de jovens da sua igreja, os cantores mais famosos, os líderes da sua denominação, a dirigente do círculo de oração, madre Teresa de Calcutá… não importa: estamos todos no mesmo barco, que mina água todos os dias e afunda no mar de pecados. A salvação está exclusivamente em Jesus. Só. Ele é o único caminho. O único justo por mérito próprio. Ser humano nenhum vale alguma coisa por mérito pessoal, o enorme valor que temos vem por graça, justificação, misericórdia, adoção, concessão divina. Nosso valor não é uma característica inata, é um presente que recebemos. Somos galhos secos, o que temos de bom vem da seiva que corre para nós a partir da árvore em que fomos enxertados: Cristo. Uma leitura recente me fez enxergar isso com uma clareza ainda maior do que antes.

David Yonggi ChoAo ler o último exemplar da revista Cristianismo Hoje, me deparei com reportagens que me chamaram a atenção. Primeiro, o pastor sul-coreano David Yonggi Cho (foto), líder da maior igreja evangélica do mundo, a Yoido Full Gospel Church, foi preso e condenado a três anos de prisão pelo desvio do equivalente a R$ 30 milhões da igreja. Ele admitiu que cometeu o crime “movido pelo interesse de suprir dificuldades financeiras da obra missionária”. Segundo, o papa católico romano Francisco confessou publicamente que furtou um crucifixo do corpo de um colega morto, em pleno velório, quando era bispo em Buenos Aires. “Enquanto espalhava as flores, peguei a cruz que estava sobre o rosário”, admitiu.

Em comum, as duas histórias nos falam de líderes religiosos (independente da teologia ou doutrina que professam) que são referência em suas linhas de atuação e exemplos para seus seguidores e que cometeram pecados que nenhum de nós esperava que cometessem. Muita gente fica chocada ao tomar conhecimento de situações como essas. Ouço comentários do tipo “como pode, mas logo ele!”. A mim, porém, nada disso espanta. Pelo simples e bíblico fato de que, assim como eu e você, todos os líderes religiosos são pecadores, cometem atrocidades, acertam e erram, escorregam e caem. Pois são humanos. Necessitam diariamente de perdão por seus pecados. São iguaizinhos a mim. E a você.

Justo2Cada vez que leio relatos como esses, simplesmente me entristeço e penso “É, a Bíblia está certa mesmo”. Somos pó. Nossa natureza humana é má. Precisamos desesperadamente de Jesus de Nazaré. Vejo grandes homens de Deus confessarem pecados que comprovam que são simplesmente homens e isso me leva a ouvir com cada vez maior tristeza discursos de pessoas que se consideram cristãos mais santos do que outros e que, por isso, falam do próximo com superioridade. A queda de gigantes me mostra que devemos sempre amparar-nos, do maior ao menor, pois estamos todos no mesmo nível. Dos que ocupam os mais elevados cargos na hierarquia eclesiástica aos iniciantes na fé, todos equivalemos: somos aglomerados de pele, ossos, sangue e pecados e carecemos da piedade de nossos irmãos e da misericórdia de Deus. Todos exalamos o odor da desobediência e precisamos desesperadamente do perfume de Cristo.

Entenda que a compreensão acerca de nossa falibilidade não deve nos tornar abertos ao pecado ou confortáveis com ele. A transgressão à vontade divina deve ser sempre evitada, precisa constantemente ser alvo de nossas pregações, exortações e alertas. Sempre. Sempre. Sempre. Santidade não se negocia. O que considero triste é a postura de superioridade que alguns de nós assumem, por se considerarem espiritualmente menos falíveis do que os outros. E não tenho o olhar entristecido para essa postura a partir de mim mesmo: sigo o exemplo de Jesus, que criticou diversas vezes a hipocrisia dos mestres da lei e fariseus durante seu ministério terreno. O que Cristo sempre denunciava nesses doutores da teologia era a hipocrisia: serem pecadores não arrependidos e ficarem rebaixando, discriminando e atacando outros pecadores. É a velha história da trave e do cisco no olho, que você já conhece. E hoje, dois mil anos depois, a história se repete.

Justo3Quando leio relatos da queda de homens de Deus, meu coração rasga. Não só pelo pecado em si desses líderes, mas por ver muitos e muitos irmãos que – inacreditavelmente – parecem se alegrar com a queda deles. Como se tombos alheios valorizassem estarmos de pé. Podemos, por favor, chorar por eles? Será que você consegue orar por cada indivíduo pecador como você e pedir ao Santo dos Santos que os restaure e use de compaixão para com suas vidas? Se eles fossem membros da sua igreja ou pessoas de sua convivência diária, o que você faria? Será que os procuraria e lhes levaria palavras de conforto, amor, graça e reconstrução? Ou daria as costas, se afastaria, os largaria à própria sorte? A resposta a essa pergunta revela se você vive a hipocrisia ou a piedade – peço a Deus que seja a piedade.

E sempre devemos inserir na equação sobre como vemos esses homens que pecaram o fator arrependimento. Uma vez que cada um deles se arrepende do erro, confessa e deixa o pecado, está perdoado por Deus. Como poderíamos nós não perdoá-los se o próprio Criador os perdoou? Se Jesus foi à cruz por eles? Esses indivíduos, quando restaurados, podem e devem continuar exercendo seu ministério. Continuam sendo úteis para o Senhor. Seus livros continuam sendo valiosos e importantes, sua pregação segue sendo relevante, sua vida e seu ministério não morreram. Se você tem dificuldades de concordar com isso, lembre-se dos seus próprios pecados. Nada disso é graça barata: é graça, em sua essência mais pura e bíblica.

Precisamos compreender que o evangelho não são boas-novas de hipocrisia ou de superioridade: são boas-novas de salvação. Pois o que a cruz nos mostra acima de qualquer outra coisa é que a humanidade é toda perdida, nasceu igualmente destinada à miséria espiritual e só pode encontrar o caminho da paz em Jesus de Nazaré. Isso nos faz elevar os olhos para os montes, para o único que é digno de abrir os selos. Nossa pecaminosidade coletiva destaca a gloriosa pureza do Cordeiro de Deus.

OXYGEN Volume 22Meu irmão, minha irmã, fuja do pecado. Esforce-se no poder de Deus para se libertar de práticas pecaminosas, de pensamentos maldosos e de tudo o que fere o Senhor. Viva uma vida dedicada à proclamação da santidade. Isso é bíblico e é o certo. Mas, em nome de Cristo, viva também uma vida devotada a levar indivíduos a se aproximar de Jesus. E isso não acontece falando mal ou pondo o dedo na cara: Cristo se manifesta por meio do amparo, do auxilio, do aconselhamento, da mútua sustentação, do chorar com quem chora, da piedade, da compaixão, do perdão, da restauração. Não acredito no evangelho do irmão do filho pródigo. Acredito no evangelho do pai do filho pródigo. Comparo a atitude daquele pai com a do seu obediente e leal filho mais velho e enxergo um retrato fiel das nossas atitudes hoje: de um lado, os que abraçam o pecador que retorna; de outro o que se entristece porque o pecador foi restaurado – é mais interessante apenas criticá-lo (afinal, nos sentimos menos pecadores do que ele). Uns querem promover o banquete; outros se recusam a entrar na mesma casa. Um é o evangelho do “Não há justo, nem um sequer”; o outro é a religião do “raça de víboras!”.

Podemos escolher que tipo de cristãos seremos: hipócritas ou graciosos. Jesus foi gracioso e repreendeu os hipócritas. Os fariseus e mestres da lei foram hipócritas e repreenderam o Gracioso. E você, como será?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Gostaria de convidar você hoje a imaginar duas situações:

Situação 1:

A irmã chega ao gabinete para pedir aconselhamento pastoral. Ela começa a derramar seu coração e a conversar com o pastor:
– Pastor, estou muito triste.
– Veja bem, amada, se a irmã observar os pontos TULIP, de Calvino, vai poder compreender melhor as razões de sua situação.
– Ahn?!
– Analisando a depravação total do homem, torna-se factível compreendemos os reflexos hamartiológicos que lhe afligem.
– Sei… não, pastor, na verdade… bem, é que estou muito deprimida, sabe?
– Minha irmã, quando Tomás de Aquino cristianizou Aristóteles, ele sistematizou, à luz da revelação específica de Deus, a metodologia científica. Destarte, ciência e fé coadunam numa unidade que tem seu auge nas cinco vias em que Aquino deu provas imanentes do transcendente.
– Ahn… pastor, eu… éééé… Na verdade, pastor, tem horas em que o sofrimento é tanto que minha fé é abalada.
– Imagina, minha irmã! Segundo o pensamento do movente não movido, associado à ideia dos graus de perfeição e à contingência dos seres, fica transparente que sua cosmovisão distorcida carece de fundamento.
– (…)
– Não faça essa cara, amada! Anselmo de Cantuária foi claro sobre isso em seu “Credo ut intellegam”.
– Sei… Na verdade, pastor, eu queria saber se o senhor podia me dar uma palavra de esperança, entende? Alguma palavra da Bíblia…
– Sem dúvida, minha irmã. Perceba: segundo as melhores teologias sistemáticas, no que tange à esperança escatológica, podemos ter a segurança de que, a despeito da crença assumida, seja amilenista, pré-milenista ou pós-milenista, dentro da cosmovisão cristã é certo que o reino de Deus (que encontra sua expressão no “já” e no “ainda não”), se fará pragmatismo em sua vida, irmã!
– Ahn… Tá, pastor… Bom, sabe, obrigada, eu vou ali na outra igreja conversar com o pastor de lá.
– Que isso, irmã, não faça isso! Segundo a eclesiologia, a…
– Deixa, pastor, deixa. Obrigada, viu?
– Imagina, amada! Sempre que precisar, estou ao seu dispor! E que o Totalmente Outro apontado por Karl Barth manifeste sua graça sobre a irmã!
– Amém… eu acho…

Situação 2:

A irmã chega ao gabinete para pedir aconselhamento pastoral. Ela começa a derramar seu coração e a conversar com o pastor:
– Pastor, estou muito triste.
– Que isso, irmã! A vitória é tua!
– Ahn?!
– Claro! Toma posse da tua bênção e segue nessa fé pra Canaã!
– Sei… não, pastor, na verdade… bem, é que estou muito deprimida, sabe?
– Que falta de fé é essa, minha irmã! Tá amarrado! Repreende essa seta! Se a irmã tiver fé do tamanho do grão de mostarda Deus abrirá as águas e o varão de branco vai trazer numa bandeja de prata a tua vitóóóória!
– Sei… não, pastor, na verdade… bem, é que estou muito deprimida, sabe?
– Xiiii… A irmã deve estar em pecado. Crente de verdade não tem depressão, isso é coisa do Inimigo. É falta de fé, é opressão! Isaías 53, irmã, Isaías 53! Toma posse! A irmã tá muito carnal! Vamos agendar umas sessões de libertação.
– Ahn… pastor, eu… éééé… Na verdade, pastor, tem horas em que o sofrimento é tanto que minha fé é abalada.
– Então feche os olhos e cante comigo: “Rompendo em fééééé, minha vida se revestirá do teu poder!!! Rompendo em fééééé!!!!”. Canta, irmã! Isso! E vai dando glória! Dá glória, irmã! Dá glória!!!
– (…)
– Irmã de pouca fé! Solta o cabo da nau! E navega com fé em Jesus! E dá glória, irmã, dá glória!
– Sei… Na verdade, pastor, eu queria saber se o senhor podia me dar uma palavra de esperança, entende? Alguma palavra da Bíblia…
– Claro, amada! Lembre-se que não cai uma folha da árvore se Deus não deixar!
– Ahn… Tá, pastor… Bom, sabe, obrigada, eu vou ali na outra igreja conversar com o pastor de lá.
– Que isso, irmã! Tá desviada? Vou ter de botar a irmã em disciplina! A irmã anda vendo filmes da Disney?! Que história é essa de outra igreja, lá só tem crente frio, não tem poder de Deus!
– Deixa, pastor, deixa. Obrigada, viu?
– Amém, irmã, vai cantando vitória!!! Você é a menina dos olhos de Deus!!! Aleluiasss!!! E dá glória, irmã, dá glória!!!
– Amém… eu acho…

* * *

O objetivo da reflexão de hoje é pensar sobre a importância do estudo da Teologia para a nossa vida prática de fé. As duas situações acima são uma caricatura do que vejo hoje em muitos e muitos âmbitos da Igreja brasileira: de um lado, os que idolatram a Teologia. De outro, os que demonizam a Teologia.

Acredito que o estudo da Teologia é essencial. Mas tenho certeza que só Teologia não basta. Teologia nos diz quem é o Curador das feridas, o Salvador das almas, o Restaurador; mas só o conhecimento sobre Ele não é suficiente: é preciso aplicação prática. Que só vem mediante o amor, lágrimas derramadas pelo próximo, mãos cheias de calos e pés sujos de barro.

Por outro lado, sem Teologia a devoção do crente é mirrada. A falta de estudo teológico nos deixa à mercê de um Deus que não sabemos quem é e, por isso, não sabemos como Ele deseja que nos relacionemos consigo e com o próximo. Só a prática não basta, visto que Deus se revelou pela Palavra e ela precisa ser compreendida e estudada. Isso só é possível mediante o conhecimento da Teologia.

Portanto, só Teologia é intelectualismo inútil e infantil; mas zero Teologia é misticismo inútil e infantil. Um coração cheio de Teologia mas destituído de amor é vaidoso, arrogante e egocêntrico. Um coração vazio de Teologia é ignorante, errático e perdido.

Há três tipos de indivíduos no meio dos cristãos e devemos escolher qual deles queremos ser:

1. Quem não ama pessoas prega só Teologia.

2. Quem odeia Teologia prega frases feitas e vazias.

3. Mas quem ama pessoas e também ama Teologia prega… o evangelho.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Maquiagem correta pode ajudar a destacar o sorriso na correria cotidianaAlegria é uma das virtudes que somos capazes de vivenciar quando o Espírito Santo manifesta em nós o seu fruto (Gl 5.22-23). A princípio, quando tomamos conhecimento desse fato, temos a sensação de que seguir Cristo significa, naturalmente, ser constantemente alegre. Só que tem um porém: Jesus jamais prometeu que seríamos. Não seremos, e, se alguém lhe garante uma alegria interminável nesta vida, pode ter certeza: é uma promessa que não se cumprirá. Abraçar o evangelho implica em negar a si mesmo, tomar a sua cruz diariamente e seguir Cristo (Lc 9.23). Isso fala de dificuldades, de esforço, de sofrimento. Todos os salvos sofrerão. Todos os salvos terão momentos de agonia, lamento, dor, luto… tristeza. Isso é líquido e certo. É um fato bíblico e um fato da vida. Bem, diante disso, é possível explicar essa aparente contradição? Temos o Espírito de Deus em nós, ele manifesta seu fruto em nossa vida, seu fruto inclui alegria, mas, estranhamente… vivemos muitos momentos de profunda tristeza. Isso tem explicação? Creio que sim, e te convido a pensar junto comigo.

Jesus não foi alegre o tempo todo. Pedro não foi alegre o tempo todo. João não foi alegre o tempo todo. Paulo não foi alegre o tempo todo. Nenhum dos apóstolos foi alegre o tempo todo. Os mártires da Igreja primitiva não foram alegres o tempo todo. Agostinho não foi alegre o tempo todo. Lutero não foi alegre o tempo todo. Calvino não foi alegre o tempo todo. Eu não sou alegre o tempo todo. Você não é alegre o tempo todo. Ninguém é alegre o tempo todo. Bem, o que tudo isso tem em comum?

“O tempo todo”.

Esse é o xis da questão. O fruto do Espírito inclui virtudes como paz, paciência e domínio próprio, por exemplo, mas ninguém tem paz o tempo todo, nem é paciente o tempo todo, tampouco domina-se o tempo todo. Assim, o grande problema é associar a crença em Jesus à manifestação constante e ininterrupta dessas virtudes. Elas se manifestarão, mas não… o tempo todo.

Alegria2Só que nós vivemos em uma sociedade hedonista, que prega que nossa vida tem obrigatoriamente de ser uma felicidade que não acaba. Basta olhar as redes sociais – ou qualquer outra forma de exposição da pseudovida privada – dos seus amigos. Você não tem a impressão, por aquilo que eles dizem e, principalmente, pelas fotos que postam, de que todos vivem uma existência espetacular, recheada de beleza, emoções, viagens, aventuras, celebrações, alegrias inacabáveis? Acredite: não vivem. Mas, inconscientemente, sentem-se obrigados socialmente a expor ao mundo como são alegres o tempo inteiro, caso contrário seriam considerados fracassados, incompetentes, amaldiçoados ou qualquer coisa do gênero. Não quero que ninguém descubra que eu não vivo uma vida espetacularmente alegre, logo, a forma que tenho de fazer isso é postar onde todos possam ver meu sorriso constante, inapagável, feliz e contente. E, muitas vezes, artificial. Fazemos isso praticamente sem pensar, sem maldade, no automático, simplesmente porque nos ensinaram a vida inteira que viver é estar 24 horas por dia encharcado de endorfinas, desfrutando cada segundo numa ascendente de emoção, realização, euforia, gozo, júbilo. Assim, uma vida bem vivida seria como estar de domingo a domingo em um parque de diversões: exultante, feliz, alegre!

Só que não é assim que acontece.

Toda e qualquer pessoa vive em altos e baixos. Tem picos de humor. Momentos de tristeza. Quedas nos níveis de adrenalina. Problemas. Tribulações. Falta de alegria. Isso é normal. Não é agradável, mas é normal e previsível. Só que todos nos dizem que temos de estar sempre, sempre e sempre alegres! Não tem como não entrar numa crise existencial diante disso. “Todos dizem que uma vida plena é marcada por uma alegria sem fim, mas isso não acontece comigo; logo, minha vida é uma droga e minha fé, um fracasso”.

Errado.

Se você vive uma vida marcada pela alternância de momentos alegres e tristes, parabéns: você é humano como qualquer outro. E é aí que entra a alegria que é fruto do Espírito.

Alegria4Pense bem. Você acha de fato que a alegria que Paulo descreve como resultado de uma vida de intimidade com o Espírito Santo é aquela que se manifesta numa montanha russa, numa festa, numa viagem a um local paradisíaco, num jantar com amigos recheado de piadas, ao assistir a um filme de comédia? Essa é a alegria natural, inerente ao ser humano. Tanto que qualquer indivíduo, cristão ou não cristão, sente esse tipo de alegria. Seria como dizer que a paz que sentimos deitados numa rede, pegando um ventinho e tomando água de coco é sobrenatural. Não é. É natural e humana. Creio que o fruto do Espírito se manifesta sobrenaturalmente quando precisamos de uma injeção de algo que vai além de nossas forças. É quando não tenho domínio próprio e estou quase caindo em tentação que Deus me dá uma temperança que parece ir além do que eu conseguiria. É quando estou atribulado que sinto a paz espiritual, fruto da presença divina. É quando quero matar meu inimigo aos chutes e pontapés que o Espírito manifesta em mim amor e, só com essa infusão sobrenatural, consigo fazer-lhe o bem.

Assim, creio que a alegria que é fruto do Espírito é aquela que vem quando temos tudo para estar tristes. É sobrenatural. Como isso é possível? Porque ela brota da certeza de que no mundo teremos aflições mas Jesus venceu o mundo (Jo 16.33). De saber que ele está conosco todos os dias, mesmo nos mais terríveis, até a Alegria3consumação do século (Mt 28.20), e que não está alheio a absolutamente nada do que estamos passando. De ter a certeza de que “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá” (Sl 139.8-10). É alegrar-se como resultado de sermos galhos enxertados na videira verdadeira. A certeza da presença de Cristo em nós, junto com a certeza de que ele jamais  remove seus olhos de nossa vida… eis a razão de nossa alegria. E alegria eterna, que independe das circunstâncias da vida.

Por isso, mesmo nos momentos de mais desesperante tristeza, essa alegria que flui do Espírito de Deus para nós estará presente. Parece contraditório? Acredite, não é. É uma alegria não eufórica, mas pacífica. Calma. Amena. É uma brisa, não um vendaval. Não é sair saltando de júbilo como qualquer pessoa numa balada, aos gritos de euforia, é… um suave sorriso. Aquela alegria que nos faz suspirar em meio às lágrimas. A alegria humana é inerente ao homem e se manifesta naturalmente quando é óbvio que estaremos alegres. A alegria espiritual é inerente ao Espírito e se manifesta sobrenaturalmente em momentos inesperados.

E, acima de tudo, a alegria que é fruto do Espírito é aquela que vem de saber que, como estamos em Cristo, temos a vida eterna. Ouça as palavras dos lábios de Jesus: “Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus” (Lc 10.20). Está sofrendo? Alegre-se, você tem a vida eterna. Está com dor? Alegre-se, você tem a vida eterna. Está triste? Alegre-se, você tem a vida eterna. Tá tudo ruim? Alegre-se, você tem a vida eterna! É uma alegria que existe em meio à tristeza, como uma flor que brota no solo seco do sertão.

A vida na terra é difícil, muito difícil. Numerosos momentos ruins estão pela frente. Situações de enorme aflição virão. Nessas horas você ficará triste. Mas, olha… tenha bom ânimo. Jesus venceu. E a vitória dele te dá a vida eterna. Aí vem o Espírito Santo e manifesta o fruto dele na tua vida. É quando você se lembra que Jesus está com os olhos postos em ti e que ele tem morada preparada no céu, com teu nome na porta. Seria isso motivo de alegria?

Alegria6Não busque a alegria segundo o mundo, essa é vaidade e correr atrás do vento. Alegria segundo o mundo é aquela que demonstramos em fotografias posadas e com sorrisos ensaiados. A alegria que é fruto do Espírito é aquela que não fotografamos, pois ela é muito maior do que uma lente pode captar. E, em geral, se manifesta nas horas em que não estamos acostumados a fotografar: no hospital, no orfanato, no desemprego, no susto, na dor, na crise matrimonial, no velório, na casa de recuperação, na depressão, no sofrimento. Pois é nas horas mais terríveis que Jesus sussurra em nosso ouvido: “Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13).

Você ainda terá muita alegria. Mas não o tempo todo. A tristeza dará as caras com frequência. Mas o Espírito Santo te alegrará muitas vezes, frutificando em tua lembrança que Jesus é contigo e te dá a vida eterna. Afinal, “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.17).

A alegria humana passa. A alegria divina dura para sempre. E ela está ao teu alcance – basta viver dia após dia aos pés de Jesus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

A área de administração do APENAS é rica em estatísticas. Permite que eu saiba quais foram os posts mais lidos, quem escreve mais comentários, a que horas do dia houve mais acessos, esse tipo de coisa. Alguns blogueiros são motivados e movidos pelas estatísticas, já eu confesso que raramente acesso essa seção. Esta semana o blog ultrapassou os 800 mil acessos desde sua criação e, por isso, acabei entrando nessa área do site. Movido pela curiosidade, pela primeira vez espiei qual é o link mais clicado de todos. Confesso que eu esperava que fosse o de algum dos livros que escrevi, de alguma das indicações dos links recomendados, dos vídeos do Youtube com os evangelhos de Mateus e Marcos em áudio ou algo assim. Algo de fato relevante. Para minha surpresa e espanto, porém, com alguns milhares de cliques, o link mais acessado do APENAS é…

…minha foto.

Ahn?! Minha foto? Com tantas coisas mais importantes, com links para livros extremamente edificantes, para blogs e sites de alta qualidade, para posts antigos que podem abençoar, para tanta coisa útil, o que foi mais clicado é a imagem do meu rosto. Eu até entenderia se fosse a página do “Quem sou eu”, afinal é importante saber quem é a pessoa que escreve aquilo que lemos, qual é sua formação e em que crê. Mas não: é a imagem de minha face que, disparado, tem milhares de acessos. Não quero dizer quantos por razões pessoais, mas, para você ter ideia, o segundo link mais clicado do blog tem somente 25% da quantidade de cliques da minha foto.

A inesperada constatação me fez pensar: por quê? Por que em um blog em que o principal são as palavras, as ideias, as reflexões e os conceitos, o que mais desperta a curiosidade das pessoas é uma imagem? Que, convenhamos, não diz nada. Que diferença faz se tenho orelhas de abano ou se uso óculos fundo de garrafa? A realidade é que vivemos numa época em que o visual é extremamente valorizado. A meu ver, muito mais do que deveria. Vivemos numa civilização que dá um peso gigantesco àquilo que nossos sentidos captam, muito mais do que àquilo que nosso cérebro formula e que nosso coração move.

Lembro-me de quando, poucos anos atrás, cientistas usaram um software para tentar recriar como teria sido o rosto de Jesus, a partir de informações étnicas dos homens israelitas do primeiro século. E me recordo de ter pensado “para quê?”. Pois que diferença faz se Jesus foi alto ou baixo, de nariz arrebitado ou adunco, com barba rala ou comprida, de queixo pontudo ou quadrado? Os traços do invólucro físico em que encarnou o Filho de Deus é irrelevante, muito mais importam suas boas novas, sua mensagem, seu sacrifício, sua história. A aparência física pouco proveito tem. Mas ainda assim há quem invista dezenas de horas e muito dinheiro para tentar imaginar como teria sido o rosto de Cristo (e, certamente, o resultado é a mais pura especulação). Quanta vaidade…

Damos excessivo valor à aparência de nossos santuários em detrimento do que acontece ali dentro. Saímos dos shows gospel comentando os efeitos visuais e nos esquecemos de falar de Jesus. Nos importamos demais com as camisas do congresso jovem da igreja e de menos com a preparação em oração para o evento. Julgamos a santidade de um cristão pelo aspecto externo em vez de pelo coração e os frutos. Em muitas denominações ainda discriminamos o irmão pelo que veste. A verdade é que nossa civilização é escrava do visual. Dependente dos sentidos. Amante das aparências. Isso fora ou dentro das igrejas.

Devemos nos perguntar: será que eu e você estamos nos deixando levar por isso? Será que temos apreciado mais a casca do que o miolo? Até que ponto nossa espiritualidade está atrelada a imagens e aparências? Pior: tratamos de forma diferente quem entra pelas portas da igreja dependendo de como a pessoa aparenta? Discriminamos o feio? Priorizamos o rico? Menosprezamos o pregador de terno mal ajustado? Acolhemos de igual modo o elegante e o maltrapilho?

Eu realmente fiquei triste por minha foto ser o link mais clicado do blog. Estou pensando seriamente em removê-la. Porque, sinceramente, num espaço sobre as coisas de Deus, meu rosto é o que menos importa. Nos quatro livros de minha autoria já publicados me recusei a pôr minha foto na contracapa, pois meus traços físicos não importam, o que tem relevância são as palavras e ideias ali contidas. No APENAS, o princípio é o mesmo. Afinal, será que se eu fosse vesgo, banguela ou careca isso mudaria o valor daquilo que penso? Porque, se analisarmos bem, é o que pensamos e cremos que dita nossas ações. E são nossas ações que demonstram quem somos. Pois são os frutos, e não a cor das folhas, que revelam quem é a árvore.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

P.S. Este post não está sem fotos por acaso.

Li recentemente em um blog um texto em que o autor falava algo sobre “ser autêntico”. O irmão estava revoltado com uma discussão que teve com alguém e, por isso, escreveu o seguinte: “Ser ‘sincero’, ‘autêntico’ ou ‘você mesmo’ não é desculpa para ser uma pessoa nojenta, desagradável ou idiota. Pare de se orgulhar de ser um completo @$&#% e vê se aprende a viver em sociedade” (o @$&#% é por minha conta, o comentário trazia o palavrão explicitamente). Não concordo com a escolha de vocábulos que ele adotou,  pois antipatizo com o uso de palavrões (se para toda palavra torpe há um sinônimo menos agressivo, por que usar?). Mas estou de acordo com o conteúdo do que ele disse.

Anos atrás eu acreditava que tinha de ser autêntico, de falar o que viesse à cabeça, custasse o que custasse. Mas percebi que, se vivermos sob o pretexto de que “eu sou assim mesmo” e “esse é o meu jeito”, vamos andar na contramão do Evangelho. Por quê? Pois a verdade é que não interessa como você é. Interessa como Cristo é. E se “não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), o verdadeiro cristão não pode usar a desculpa de que “eu sou assim” e machucar outras pessoas. Pois Jesus não machucaria.

Já ouvi alguns pregadores usarem em suas mensagens um sofisma que, de tanto ser repetido, acabou virando uma pseudoverdade teológica, ou, para usar um vocábulo mais aceito pela sociedade, apenas mais um clichê gospel. Dizem: “Deus muda o caráter mas não o temperamento“. Já ouviu isso? Só que essa afirmação simplesmente não é verdade. Basta olhar as virtudes contidas no fruto do Espírito exposto em Gálatas 5.22,23a: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”.

Pare para pensar. Isso é o fruto que o Espírito Santo gera no salvo. Agora: se essa frase fosse verdade, todas essas virtudes teriam a ver apenas com caráter. Mas muitas falam de mudança de temperamento. Observe: Amor: caráter e temperamento. Alegria: temperamento. Paz: caráter e temperamento.  Longanimidade (ou paciência, em outras traduções): temperamento. Benignidade (ou amabilidade, em outras traduções): caráter e temperamento. Bondade: caráter. Fidelidade (ou fé, em outras traduções): caráter. Mansidão: temperamento. Domínio próprio: caráter e temperamento. Ou seja, a atuação do Espírito de Deus na vida do que é salvo se dá no nível da transformação do caráter mas também no do temperamento. É uma transformação do todo e não de 2/3 do indivíduo que foi chamado da morte para a vida. Ninguém é regenerado por Cristo parcialmente: ou nasce todo ou não nasce.

Naturalmente, existe o processo de santificação, uma dinâmica cotidiana. Só que santificação representa melhorar a cada dia. Subir um degrau da escada, depois outro, depois outro. Não é estagnação. Não é retrocesso. É avanço. E justificar uma forma anticristã de ser como sendo parte de um processo de santificação é alegar que estar satisfeito consigo mesmo de modo estagnado é se santificar. E não é nada disso. O cristão que fala “eu sou assim mesmo, me aguentem” não está em processo de santificação, está parado no sinal verde com o freio de mão puxado. E não adianta buzinar, pois ele não sai do lugar. E ainda berra pela janela: “Eu não vou andar, pois sou autêntico!”.

Assim, justificar, como disse o irmão do blog, atitudes desagradáveis ou ofensivas com o argumento de que é “seu jeito de ser” não é nada bíblico. O verdadeiro salvo é quem se arrependeu de todos os seus males, inclusive a sua forma de ser, se ela é socialmente desagradável. Não entendo, por exemplo, um pastor que viva falando de Jesus mas cujo temperamento seja constantemente irascível. Todos temos arroubos de raiva, mas quando o seu “jeito de ser” é naturalmente agressivo, para mim isso não demonstra autenticidade, mas falta de intimidade com o Jesus que prega.

Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou sincero” e sair desrespeitando os irmãos. Não, não é bíblico ou cristão dizer “sou autêntico” e sair agredindo verbalmente as pessoas. Não, não é bíblico ou cristão dizer “esse é o meu jeito, se não gostar azar o seu”, pois isso contraria frontalmente o “amar o próximo como a si mesmo”. Dizer essas coisas só faz de você, como disse o mano do blog, “uma pessoa desagradável”. Não há mérito algum nisso. Não é bonito. Não creio que agrade Deus. Não demonstra fruto do Espírito.

Não cabe a mim dizer como você tem que ser, isso é entre você e Deus. Mas se posso fazer uma recomendação, é: não seja como você é. Não orgulhe-se de ser quem você é. Se eu fosse ser quem eu sou iria querer muita distância de mim mesmo. Mas Cristo vive em você? Então dê de beber ao teu inimigo sedento, pague um almoço ao inimigo faminto. Ame quem te fez mal. Contrarie sua natureza e seus impulsos. Alimente a natureza de Cristo em si. Isso sim é ser cristão.

Essa é a proposta do Evangelho. Se você percebeu que se encaixou nessas palavras, clame a Deus para que Ele te transforme. Acredite: Ele faz isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Cada civilização contém conceitos que são considerados as maiores virtudes entre as pessoas que a formam. Na Grécia antiga, por exemplo, o poder de argumentação era tão valorizado que existiam escolas voltadas especificamente para ensinar a debater. Em certas tribos aborígenes, trair alguém antes de matá-la dava status, como revela o livro O totem da paz. Também não são poucas as sociedades ao longo da História em que os mais fortes fisicamente são e foram os mais louvados. A espiritualidade e a obediência ao Alcorão são bem vistas em culturas islâmicas. Em certas sociedades orientais, a honra era vista como o valor principal de um homem. E na nossa? O que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21, em que eu e você estamos imersos? Basicamente o que chamo de “os três F”: fama, fortuna e físico. Quer ser o maior entre os seus semelhantes no Brasil de hoje? Então seja famoso: destaque-se, apareça mais que os outros, seja venerado, que muitos olhos se voltem para você. Ou então ganhe muito dinheiro, ostente carros caríssimos, more numa mansão, demonstre como você é bem-sucedido financeiramente. Por fim, tenha um aspecto físico invejável, seja por uma beleza natural ou por recursos como malhação, cirurgias plásticas, implante de silicone, botox, cabelos bem cortados – ou ainda, por roupas e sapatos caríssimos e da grife que está na moda. Pronto. Você será visto com destaque, valorizado, bajulado, invejado, amado. Mas… e no Reino de Deus? O que destaca alguém? Acredite: o exato oposto daquilo que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21:

Humildade.

O pecado de Satanás foi a arrogância. Ele quis ser mais do que era. Deu no que deu. Podemos contrastar sua atitude com a do grande profeta João Batista, sobre quem o próprio Jesus disse: “Eu lhes digo que entre os que nasceram de mulher não há ninguém maior do que João” (Lc 7.28). Sendo João isso tudo, ele mesmo afirmou: “Depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias” (Mc 1.7). João sabia quem era. Mas, mesmo sendo o maior de todos os que haviam nascido em toda a história da humanidade, ele conhecia seu lugar. Sabia que era pó. Que exemplo para todos nós…

Nossa civilização nos condicionou a querer sempre um lugar de destaque. Um emprego que nos projete. Títulos. Nosso nome escrito em letras de neon. Elogios. Um ego muito bem nutrido por palavras que mostrem como nós somos grandiosos. Mas o que Jesus ensina contraria de frente essa mentalidade: “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. (Mt 5.5). Que diferença! E a afirmação que não deixa dúvida alguma (peço que você leia essas palavras de Jesus com muita atenção): Quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mt 18.4). Humildade na terra, grandeza no Céu. Diminuir para crescer.

Jesus é o único digno de abrir o livro, Jesus é o maior, Jesus é maravilhoso, Jesus é o Altíssimo, Jesus é Criador, Jesus é o Caminho, Jesus é amor, Jesus é o santíssimo, Jesus é o Onipotente, Jesus é tudo. No entanto: “Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder, e que viera de Deus e estava voltando para Deus;  assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura.  Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura.  [...] Disse Pedro: “Não; nunca lavarás os meus pés”. Jesus respondeu: “Se eu não os lavar, você não terá parte comigo”.  [...] Então lhes perguntou: “Vocês entendem o que lhes fiz?  [...] Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros.  Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.1-15).

Permita-me perguntar: qual foi a última vez que você seguiu esse exemplo e “lavou os pés” de alguém menor do que você?

Entre nós, cristãos, certas características nos dão destaque no meio dos irmãos. O santo se acha mais santo do que os outros. O que ora muito crê que isso o torna mais especial do que os demais. O pecador condena quem julga que é mais pecador do que ele. O que tem um cargo na igreja se acha mais do que o que não tem. O que manifesta um dom se acha mais agraciado por Deus. Em resumo, eu e você não estamos isentos de nos acharmos os tais porque fazemos ou somos algo que nos põe numa posição de destaque.

Já parou para pensar por que os cristãos são tão fascinados por escândalos? Já parou para pensar por que amamos falar sobre aquele pastor famoso que caiu em adultério? Já parou para pensar por que comentamos salivando que a cantora gospel famosa rastejou no palco? Já parou para pensar por que temos um prazer indizível em comentar o último pecado que fulano cometeu? Em suma, já parou para pensar por que temos o prazer sádico de tricotar entre nós quando algum outro cristão incorre em desgraça?

Porque isso faz com que nós nos sintamos superiores.

Pura e simplesmente isso. É um sentimento mesquinho que, até inconscientemente, nos faz pensar “não sou tão mau assim, afinal fulano é um tremendo pecador, muito mais do que eu, que vivo tão corretamente”. É por isso que a maioria prefere segregar o pecador e não lhe dar um único telefonema para saber como ele está em vez de se aproximar, amar, dar ombro, dar afeto, ajudar em sua restauração: porque gostamos demais de nós mesmos para gostarmos dos outros.

Certa vez entrevistei o ator e comediante Jerry Lewis. Perguntei a ele como explicava seu sucesso. Sua resposta foi simples: “Todo filme que faço se baseia num princípio: um homem em apuros.  E cada pessoa do público fica feliz porque quem está naquela situação embaraçosa ou complicada é outro e não ela mesma”. Ou seja: rimos da desgraça do outro porque isso nos faz nos sentirmos melhor conosco. Não fosse assim, como explicar o sucesso das videocassetadas? Pessoas se arrebentando no chão, levando tombos, sendo atropeladas, pegando fogo… e nós daqui caindo na gargalhada. Os cristãos, inclusive – sejamos honestos. Como explicar esse contrassenso absoluto? Simples: a desgraça alcançou o outro e não nós.

Quando o outro peca isso faz dele inferior aos olhos dos cristãos. Portanto, um pecado que tornou alguém um escândalo faz com que eu, que também peco todos os dias mas não virei escândalo, me sinta melhor, mais feliz comigo mesmo. Superior. Maior. Sinto orgulho de mim mesmo, essa é a grande verdade. No entanto, as palavras de Paulo atravessam nosso sentimento de superioridade como uma espada afiada: “Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza” (2 Co 11.30).

Essa é a proposta do Evangelho. Reconhecer nossa fraqueza. Reconhecer nossa falibilidade. Pois, enquanto nos achamos mais especiais do que os demais, sofreremos do traiçoeiro pecado do “orgulho santo” – o orgulho do que há de bom em nós, o orgulho até de nossa “santidade”, tão maior do que a dos demais. Mas se nos achamos tão melhores do que os outros, não abrimos espaço para nos escancararmos para Deus, como Paulo fez: “Miserável homem que eu sou!” (Rm 7.24). Não. Diremos em nosso íntimo (sem falar em voz alta, para não pegar mal): “Magnífico homem que eu sou!”. Assim, nos sentiremos mais. Nos sentiremos os eleitos, os profetas, os escolhidos, os queridinhos do Pai. Nos sentiremos superiores. E nos sentiremos aliviados por não sermos tão ruins como os outros. Só que… com isso, não reconhecemos nossas fraquezas e não reconhecemos que o pior dos pecadores não é pior do que nós. E no dia em que estivermos diante do trono de Deus para prestar contas de tudo o que fizemos e falamos, será que o que ouviremos dele é “você é realmente o tal”?

Prefiro ficar com Paulo, que em Romanos 7.18 confessa com uma humildade que não encontramos em quase ninguém em nossos dias: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo”. Não é à toa que Paulo foi Paulo. Pois, talvez lembrado pelo espinho na carne, reconhecia que só a graça lhe bastava e que só a graça fazia dele um vaso de barro com a excelência do fôlego de vida em si.

Fico muito triste ao ver cristãos que se acham mais do que outros, seja por que razões forem. E oro por muitos que conheço e que são assim. Ore por mim também, por favor, pois não sou melhor do que meus pais. Em vez de nos acusarmos, nos rebaixarmos e nos segregarmos, amemo-nos mais e oremos mais uns pelos outros. No grande e terrível dia em que estaremos diante do Justo Juiz, que ele olhe para nós e veja a cruz de Cristo. Porque, se Ele olhar para quem nós realmente somos (e não para quem achamos que somos) nada nos restará a não ser choro e ranger de dentes.

Sou um pecador, mas se puder fazer algo por você, meu irmão pecador, minha irmã pecadora, tentarei. E não te desprezarei pelo fato de que você pecou um pecado diferente do meu e que ingenuamente considero pior. Pois… quem sou eu? “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Quem sou eu…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.