Arquivo da categoria ‘Vaidade’

toxicas2É triste mas é verdade: existem pessoas tóxicas. São indivíduos que, por onde passam, deixam uma sensação muito ruim no ar, seja de mal-estar, tristeza, mágoa, derrotismo, antipatia, dissensões… suas palavras e/ou ações acabam provocando muitas sensações ruins e gerando situações incômodas. Essas pessoas me lembram um pouco o personagem Cascão, da Turma da Mônica, que por onde anda deixa o rastro de seu cheirinho desagradável. No caso de gente tóxica, o que fica não é mau odor, mas um clima muito estranho no ambiente, algo ruim, falta de paz. Você conhece gente assim? Provavelmente sim. E o que fazer com pessoas que causam mal-estar por onde passam? Melhor: como proceder, como cristão, quando pessoas tóxicas atravessam seu caminho?

Não fui eu quem inventou o conceito de “pessoa tóxica”, ele já existe e foi elaborado com mais cuidado pelo escritor e psicólogo argentino Bernardo Stamateas. “Tóxico” significa ser “venenoso”. Assim como uma substância tóxica que, despejada em um rio, mata peixes, plantas e outros seres vivos que tiverem contato com aquela água, um indivíduo “tóxico” é aquele que envenena os arredores – seja pelo que fala, seja pelo que faz, seja pelo que transmite. Ele causa abatimento de alma, conflitos, irritação, uma sensação incômoda e, invariavelmente, provoca falta de paz. Essa, aliás, é uma característica comum a todo tipo de pessoa tóxica: parece que ela contamina a paz que existe ao seu redor, como a fumaça tóxica de cigarros parece tornar o ar à sua volta irrespirável. Não é alguém que você tenha prazer de encontrar. A má notícia é que todo lugar tem sua cota de pessoas tóxicas – até mesmo as igrejas. Por isso, temos de aprender a lidar com esse problema, biblicamente.

toxicas3O melhor dos mundos é que esse indivíduo perceba que tem influenciado negativamente seu entorno, arrependa-se e abandone esse modo de ser. Você, meu irmão, minha irmã, pode ser o canal para essa transformação. Por isso, se houver ocasião e você tiver liberdade para isso, advirta com amor e carinho essa pessoa. Procure mostrar as consequências ruins de suas atitudes. Mas, se ela prosseguir em sua postura incômoda e desagradável, só há um caminho: afastar-se, para que você não acabe sendo contaminado e reproduza em seu comportamento aquilo que Deus aborrece ou abomina: “Seis coisas o SENHOR aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6.16-19). Fuja de tudo isso. Não deixe que ninguém o influencie a trilhar esses caminhos.

Portanto, se não houver mudança de comportamento, a melhor maneira de se lidar com pessoas tóxicas é manter-se distante delas e, se necessário, cortar o contato. Paulo dá um exemplo de pessoa tóxica que deveria ser evitada, quando recomenda a Timóteo: “Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras. Tu, guarda-te também dele, porque resistiu fortemente às nossas palavras” (2Tm 4.14). Com esse afastamento, tais indivíduos não conseguirão exercer sua influência nociva sobre você.

toxicas4Portanto, não se deixe contaminar. Pois é fácil, por exemplo, virar um fofoqueiro quando se convive muito com fofoqueiros. Ou tornar-se um reclamão, quando cercado por reclamões. Ou adotar uma postura pessimista, se andar na companhia de pessimistas. A língua é terrível, nesse sentido, como Tiago destacou bem em sua epístola. Nas igrejas, geralmente uma pessoa maledicente acaba conduzindo quem está ao redor à maledicência. Ela fala mal de um irmão e, em pouco tempo, atrai para si um grupo de “discípulos” que passa a multiplicar aquilo que ela diz. Então, se você detectar que uma determinada pessoa consegue infectar as demais com a nuvenzinha negra que transporta sobre sua cabeça, evite reproduzir o que ela faz. Se ela chega para fofocar sobre a vida alheia, criticar negativamente os outros, meter o malho sem nada edificar, arrastar você para um estado de espírito depressivo, transformar seu dia para pior… simplesmente se recuse a participar da conversa. Em outras palavras, fuja das rodas tóxicas, sejam elas dos escarnecedores ou de quaisquer outros influenciadores de comportamentos perniciosos – mesmo que essa influência ocorra “em nome de Jesus”.

Em nossos dias, infelizmente muitas pessoas tóxicas conseguiram ampliar o alcance de seu veneno graças ao advento da televisão e, principalmente, da internet. Quem antes só destilava mal-estar para quem o cercava agora consegue estender esse clima ruim para milhares de pessoas por meio de todo tipo de mídia: programas de TV, redes sociais, YouTube, blogs, sites… as possibilidades são muitas. Pode reparar: se você criar o hábito de consumir o azedume destilado por esses irmãos, vai acabar destilando o mesmo azedume. Se não tomar cuidado, em pouco tempo estará adotando o mesmo tipo de discurso, assumindo postura agressiva semelhante, deixando-se deformar pela influência do veneno que chega até você pelo computador e pela televisão – e isso será péssimo. “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes. Tornai-vos à sobriedade, como é justo, e não pequeis; porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa” (1Co 15.33-33). Conhece quem esteja vivendo sob a influência de gente tóxica on-line ou via satélite? Pois cuidado para não se deixar envenenar também.

toxicas5As pessoas tóxicas que estão nas mais variadas mídias são diferentes das que convivem com você, no sentido que raramente você conseguirá chegar até elas para alertá-las em amor acerca do mal que estão disseminando. E, se conseguir, geralmente o seu posicionamento será repudiado como errado, menos espiritual ou menos embasado teologicamente. A distância virtual blinda. Pessoas com, por exemplo, fama ou muitos seguidores e “amigos” em redes sociais muitas vezes confundem isso com sinal verde para se tornarem altivos. Nesses casos, meu irmão, minha irmã, bater de frente não vai adiantar nada. A atitude deve ser fugir dessas pessoas. Falo por experiência. Há um bom tempo eu simplesmente fujo de toda e qualquer coisa que pessoas tóxicas postem na web ou falem na TV. Não leio mais o que escrevem em redes sociais; não assisto mais a suas pregações, a seus podcasts ou programas on-line; ignoro o que publicam em seus sites e blogs; fujo de seus programas de web TV. Se alguém me manda por e-mail o que as tais divulgam, eu simplesmente deleto sem olhar. E como valeu a pena! Por isso falo de algo que tenho posto em prática: fugir desse tipo de influência deixa você mais leve, saudável, em paz. É bom para a saúde – física, emocional e espiritual. E, livre dessas influências, o que você passa a falar torna-se muito mais agradável e edificante e a sua vida passa a dar muito mais frutos. Como alguém que para de fumar e, aos poucos, torna-se mais saudável e bem disposto, remover essas influências da sua vida só vai te fazer bem. Busque consumir somente aquilo que some e te faça ser alguém melhor.

Uma das grandes dificuldades para se conseguir manter-se distante da influência das pessoas tóxicas que estão na internet e na TV é a curiosidade. Você vai chegar na igreja e todos vão começar a comentar o que o famoso fulano de tal disse e que está disponível no YouTube. É natural sentir aquele comichão para buscar assistir ao que está na boca do povo. Mas, como alguém que enfia a mão em uma toca de cascavel, abrir-se a essa influência só te fará mal. Se você está nas redes sociais, fatalmente montes de seus amigos vão compartilhar o texto daquele irmão tóxico que destila mal-estar, tensão, polêmicas, dissensões e amargura por onde passa. É preciso ter domínio próprio para não abrir o link e ler aquilo que te fará mal. A boa notícia: é possível. Basta você querer.

Para muitos, fugir dessas influências significaria alienar-se das coisas que estão acontecendo no mundo e na igreja. Só que não. Com o tempo e a desintoxicação, você vai perceber que o que pessoas tóxicas produzem não faz nenhuma falta – assim como fumaça de cigarro não faz falta, apenas vicia e gera um certo prazer tóxico a quem é adepto. O veneno das tais provoca efeitos como tristeza, depressão, escândalo, polêmicas, chateações e facções. Não precisamos de nada disso em nossa vida. Precisamos de paz. Cristo passa longe de bate-bocas entre irmãos, das indiretas on-line, de agressões via satélite, picuinhas “gospel”, maledicências, confrontos nocivos, sarcasmo e coisas similares. “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos. Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gl 5.13-16).

Fuja de todo veneno, mesmo o que vem de irmãos em Cristo. É provável até que os tais lancem seu veneno na maior das boas intenções e crendo estar agradando a Deus (como os fariseus e mestres da lei criam na época de Jesus). Mas isso não faz o veneno deles ser menos venenoso. Assim como você naturalmente mantém distância se encontra uma aranha venenosa, afaste-se de pessoas tóxicas. Se puder contribuir para que mudem, ótimo. Se elas não quiserem te dar ouvidos, deixe – e não permita que o veneno que destilam por suas palavras e atitudes chegue até você. “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida. Desvia de ti a falsidade da boca e afasta de ti a perversidade dos lábios” (Pv 4.23-24).

toxicas6Se não conseguimos influenciar positivamente as pessoas tóxicas, devemos, então, nos preocupar com quem temos a capacidade de mudar: nós mesmos. Sobre isso, reflita comigo: até que ponto não sou eu quem tem envenenado o próximo? Será que levo a paz a todos? Será que minhas palavras são sempre edificantes e temperadas com sal? Será que ajo em tudo com mansidão, amabilidade e carinho? Será que sou dos que edificam ou dos que prejudicam? Será que tenho defendido o evangelho como um pacificador ou como um gladiador? Em suma, tenho incensado os ambientes reais e virtuais por onde passo com o suave perfume de Cristo ou os tenho intoxicado com um jeito de agir e de falar que envenena corações e mentes? Se você perceber que, de alguma forma, tem sido tóxico, peço a Deus que aceite minha exortação em amor – e faça de tudo para mudar. No dia em que percebi que eu estava sendo um cristão tóxico, comecei a buscar em Deus a transformação, então falo com conhecimento de causa. Sim, eu já envenenei muito, e a percepção disso me abateu enormemente e me conduziu a um doloroso processo de arrependimento. Tenho me esforçado diariamente para mudar e ser alguém que direciona suas energias para edificar e abençoar, então sei que é possível lutar nesse sentido. E, se é possível para mim, é possível para qualquer um.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari

Perdao Total_News cortado

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baiacu1Muitos animais têm um mecanismo de defesa interessante quando se sentem ameaçados por predadores ou se veem em alguma situação de risco: eles tentam parecer maiores do que são. Você já deve ter visto em documentários da televisão, por exemplo, cenas de sapos que incham diante de uma serpente, baiacus que inflam quando dão de cara com uma moreia, cobras naja que abrem uma espécie de capuz de pele diante de inimigos ameaçadores ou ursos que se erguem sobre as patas traseiras quando atacados por outros machos da espécie. É uma estratégia instintiva desses bichos, uma forma de autopreservação, como se quisessem se proteger parecendo maiores do que de fato são. Em outras palavras, é uma reação ao medo. Essa é uma atitude que muitos de nós, seres humanos, também tomamos, embora num contexto diferente, como já veremos.

Claro que, ao contrário dessas outras espécies, não possuímos a capacidade de nos agigantarmos fisicamente. Não temos como inflar o tórax até ficarmos com as dimensões de um elefante, tampouco nosso cabelo se arrepia para se assemelhar ao pelo eriçado de um gato selvagem. Deus simplesmente não nos concedeu a habilidade de alterarmos nossa compleição física para crescermos diante de uma ameaça. Mesmo assim, inconscientemente (ou não), em nosso dia a dia tomamos uma série de atitudes que nos fazem tentar “crescer” aos olhos dos demais. Só que, ao contrário dos animais, o que nos faz querer ser maiores do que os outros não é o medo ou o instinto de defesa: é a vaidade.

baiacu4Por que você acha, por exemplo, que homens se preocupam tanto com o carro ou a moto que compram? Só porque é o mais econômico da praça? Ou porque o status que ter aquela máquina proporciona o faz sentir-se maior do que as demais pessoas? O mais capaz, o mais bem-sucedido, o alfa do bando? E não só veículos, isso vale para smartphones, roupas, bolsas, relógios, videogames, imóveis, quantidade de seguidores nas redes sociais… a lista de elementos usados como artifício para dizer, sem palavras, “eu sou melhor que você” é inumerável. Outro exemplo são os títulos. Se eu e você saímos nus do ventre de nossa mãe e chegamos absolutamente equiparados a este mundo, o que fará você se sobressair a mim? Fácil: comendas, honrarias, títulos, pós-ultra-PhD-doutorado, cargos pomposos. Se você parar para pensar, o prazer que um indivíduo ostenta por ter adjetivos e predicados à frente de seu nome nada mais é do que um meio de tentar se agigantar diante dos demais. É como se dissesse: “Veja como sou maior ou mais importante do que você, afinal sou um conde, um visconde, um barão!”. Por que você acha que durante tantos séculos os títulos de nobreza custaram tão caro e foram tão cobiçados? Simplesmente porque tê-los era uma maneira de tentar sobressair.

Em nossos dias, até mesmo os jogos de futebol revelam com clareza esse fenômeno. Sejamos sinceros: não basta nosso time ganhar, temos de pegar no pé dos amigos que torcem para a equipe que perdeu. A troça futebolística faz parte da nossa cultura de querer ser superior aos outros. E por aí vai, em tudo aquilo que fazemos. A realidade é que todo ser humano busca, inconscientemente, destacar-se dos demais. Eu sou assim, você é assim, todos somos assim. Queremos fama. Queremos notoriedade. Queremos o lugar mais alto do pódio. Esqueça o Barão de Coubertin: o importante é ser o maioral e ganhar, sim, senhor.

Mas, então…

Então chega Jesus e diz “aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus” (Mt 18.4). Ouvimos isso e, se queremos ser como Cristo ensina, nos vemos obrigados a desinflar o peito, abaixar a crista, nos posicionar de cabeça baixa; assumir a postura submissa de um cordeiro. Pôr nosso ego nas dimensões de uma criancinha. Diminuirmos para que ele cresça. Considerarmos os outros maiores em honra.

baiacu3A aproximação de Cristo nos distancia da nossa realidade animal e nos atrai para a espiritual. Nosso animal, nossa carne, quer buscar glórias, fama, títulos, cargos na igreja, o lugar de maior destaque, a roupa mais pomposa, elogios, adjetivos, comendas, honrarias, o pináculo do templo. Tudo isso nos infla como um baiacu. Nossa humanidade quer desesperadamente nos agigantar. No entanto, Jesus vem e nos desestrutura: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.3). E, se ainda resta alguma dúvida, Paulo dá o ultimato: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3). Em outras palavras: abaixe a crista. Deixe o outro sobressair. Difícil? Sim, mas cristão.

Vaidade sob controle não é pecado. Mas quando ela passa a ditar seus valores, a maneira como se comporta, as suas decisões e, especialmente, o modo como trata as pessoas, cuidado: você pode não estar sendo muito melhor do que um baiacu. E Deus sabe que você vale muito mais do que um peixe amedrontado.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari

felicidade1O mundo ficou chocado com o anúncio do suicídio do genial ator Robin Williams. Uma série de fatores contribuíram para que sua morte fosse especialmente chocante, mas creio que podemos resumir tudo a uma causa só: Williams tinha tudo o que o mundo diz que devemos almejar em nossa vida e, mesmo assim, esse tudo não foi suficiente para que ele desejasse seguir vivendo. Que contradição estranha! Veja se não é verdade: quando você pensa em felicidade, que conceitos vêm à sua mente? Em geral, nossa sociedade prega que, para sermos felizes, devemos ser ricos, famosos, bem-sucedidos profissionalmente e ter uma pessoa ao nosso lado a quem amemos e que nos ame. Robin Williams tinha tudo isso. Era milionário, conhecido internacionalmente, reconhecido na carreira, casado com uma esposa que o amava… ele cumpria todos os requisitos para ser considerado uma pessoa feliz. Mesmo assim se matou. Quem explica?

O comediante sempre era visto sorrindo e fazendo piadas, numa aparente alegria que se revelou ser apenas uma máscara. Mas, se você for além das aparências e examinar os bastidores da vida de Robin Williams, vai descobrir que ele sofria de depressão, lutava contra o alcoolismo e era dependente de drogas. Seu casamento já era o terceiro. Algo estava errado no coração daquele ser humano.

felicidade2O suicídio de Williams me fez pensar também no de outras pessoas que, aparentemente, tinham tudo o que o mundo considera fundamental para a felicidade, como bens materiais e notoriedade. Lembra, por exemplo, de Kurt Cobain? O astro da banda de rock Nirvana tirou a própria vida com um tiro na cabeça e deixou um bilhete explicando que se matava por algumas razões, entre as quais ser uma pessoa triste e não se divertir mais quando estava no palco. Ele tinha mulher, filha, fama, fortuna e era uma rock star (o sonho de milhões de pessoas por todo o planeta). Ainda assim, aquilo não foi suficiente.

Dá para explicar o suicídio de pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain, que têm tudo o que o mundo diz ser sinônimo de felicidade e ainda assim não basta? Sim, dá. É que, na verdade, o mundo está errado. Sua proposta de felicidade é mentirosa, uma ficção. Essas coisas simplesmente não fazem ninguém ser verdadeiramente feliz. São valores que valem muito pouco ou quase nada. Se você acredita na proposta mundana de que, para ser realizado na vida, precisa ganhar muito dinheiro, aparecer na capa de revistas famosas, viver distribuindo autógrafos, ter três carros na garagem e coisas do gênero… está acreditando numa mentira. “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6.19-21)

É por isso que me preocupo muito quando vejo cristãos correndo atrás de tudo isso. Sim, cristãos. Afinal, os valores do mundo contaminam todos. Preocupo-me porque, como provam as histórias de Williams e Cobain, se acreditarmos nessa definição de felicidade – que não é bíblica – viveremos sempre infelizes. Quando vejo irmãos e irmãs em Cristo ter como alvo a fama, por exemplo, meu coração se enche de tristeza, por perceber que sucumbiram ao engano. “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens — não provém do Pai, mas do mundo. O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1Jo 2.15-17).

felicidade3A notoriedade deve ser consequência de algo bem feito, jamais a causa que nos motiva a fazer esse algo. Se você é, por exemplo, um pregador, artista ou escritor e se torna muito conhecido, deve tomar todos os cuidados possíveis para não se deixar levar pela maldita vaidade, que conduz à autoidolatria e, portanto, é uma desgraça. “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.” (Fp 2.3-7). Entenda: ser famoso não é o problema, não é crime nem pecado. Se você é alguém conhecido, entende que essa realidade não tem valor real e usa a visibilidade que Deus te deu para a glória desse mesmo Deus, amém. Jesus foi famoso em seus dias, o que ajudou a propagar sua mensagem. Mas se você deixa essa fama contaminar seu coração com sentimentos equivocados… ai de você.

Para não falar dos outros, deixe-me pôr na berlinda. Eu escrevo livros e tenho um blog. Isso não faz de mim alguém famoso, mas acaba gerando uma certa visibilidade. De vez em quando, viajo a outros estados do país e encontro pessoas que já me conheciam devido ao que escrevo. Tomo muitos cuidados para não deixar isso afetar meu coração, pois, no dia em que a minha escrita tiver como motivação a projeção pessoal e não o desejo sincero de abençoar vidas, eu terei fracassado monumentalmente. Estarei a um passo da infelicidade. Jamais posso permitir que a vaidade domine meu coração, caso contrário todo o propósito de meus livros e deste blog estará pervertido e me tornarei alguém digno de pena. Deus, nunca permita que isso ocorra, por favor. Que toda a atenção voltada para mim sirva sempre para projetar Cristo, jamais o mensageiro pecador, imperfeito e falho que sou eu. Não é falsa modéstia: é a pura constatação da realidade.

Mature businessman holding scrunched moneyQue dizer, então, do dinheiro? Muitos abrem mão do que de fato tem valor por amar mais o dinheiro, que, como você bem sabe, gera problemas seriíssimos. “De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos” (1Tm 6.6-10). Conheço cristãos bons e sinceros que acabaram cometendo atrocidades por causa de dinheiro, que praticaram atos de desamor por amar as riquezas. Quando vidas caem em segundo plano e são desamparadas, enganadas ou vilipendiadas por aquilo que o dinheiro pode proporcionar é sinal que Jesus não está mais no barco, apenas observa da praia, com muito pesar. “Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque Deus mesmo disse: ‘Nunca o deixarei, nunca o abandonarei’” (Hb 13.5).

Convido você a analisar o seu coração, por uma razão fundamental: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida” (Pv 4.23). O que tem motivado suas ações? Será o dinheiro? Será a vontade de aparecer? Por que você prega? Pelas ofertas e pela notoriedade que estar no púlpito pode te dar? Por que você louva? Pela venda dos CDs e para receber elogios? Por que você faz o que faz? Se a resposta não for “para a glória de Deus”, recomendo que reavalie urgentemente as prioridades e os valores da sua vida. “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Caso a proposta de felicidade do mundo tenha conquistado o seu coração, mude tudo, rápido. Caso contrário, você pode acabar rico, famoso, vazio e infeliz.

??????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Meu irmão, minha irmã, sei que você já ouviu isso muitas outras vezes, mas nunca é demais repetir: só Cristo satisfaz. Só nele encontramos a verdadeira felicidade. É no relacionamento com o Senhor que recebemos paz, alento, tranquilidade e contentamento real. É nas demonstrações de piedade, nas ações de amor ao próximo, que experimentamos alegria inigualável. Regozije-se não por ter um salário alto e muito dinheiro no banco ou por ser reconhecido por onde passa e muitos te convidam para eventos, mas porque você fez o deprimido sorrir, o faminto se alimentar, o atribulado encontrar a paz, o perdido enxergar a luz. Que a sua vida seja devotada não a tornar-se uma pessoa como Robin Williams e Kurt Cobain, mas a levar o amor e a graça de Deus a pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain – só então você será verdadeiramente feliz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

sal e luzSe você foi um aluno atento às aulas de física na escola vai se lembrar de um princípio chamado “impenetrabilidade”. Esse palavrão estabelece que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Ou seja: ou eu estou no lugar X neste momento ou outra pessoa está. Eu e meu próximo de maneira alguma podemos estar no mesmo lugar, no mesmo instante. Essa lei da física encontra paralelo numa lei espiritual: é impossível eu ocupar o lugar de primazia nas minhas atitudes e o meu próximo também: ou eu me priorizo ou eu priorizo o meu próximo, não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, se eu quiser ser sal da terra e luz do mundo, cumprindo o grande mandamento, que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo, terei de negar-me e preferi-lo em honra.

Em linguagem bíblica: para que eu cumpra isto: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12.30-31), é preciso que eu faça isto: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23) e também isto: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10).

Hoje ocorreu um episódio simples mas que me mostrou de forma prática essa realidade espiritual. Escrevo este texto no dia do jogo de Brasil contra México, pela Copa do Mundo de futebol. De manhã, fui levar minha filha à escola. Chegando lá, muitos de seus coleguinhas já se encontravam no pátio, brincando, a maioria vestida de verde e amarelo, com camisas e enfeites com as cores da seleção brasileira. Toda vez que vou deixar minha filha no colégio, os coleguinhas dela voam em cima de mim, comentando coisas e me chamando para brincar. Eu entrei no clima.

Começamos a falar animadamente sobre a roupa que cada um usava, os enfeites, a Copa et cetera. Foi quando Pablo se aproximou. Na turma da minha filha há dois estrangeiros: uma menina inglesa e esse menino, que chamo de Pablo (como não tenho autorização de seus pais, não faria a indelicadeza de postar na internet seu nome verdadeiro). Ocorre que Pablo é mexicano. E lá estava ele: o inimigo. O adversário. Bem no dia da batalha, infiltrado entre nós. Levado pela empolgação do momento, acabei dizendo para aquele garotinho de apenas 3 anos uma frase impensada e horrível:

- Ih, Pablo, hoje você vai perder.

Amor2Não se passaram três segundos e o Espírito Santo já dava um cartão vermelho para a minha consciência. Pablo vive em um país estranho e já enfrenta todas as dificuldades que isso gera. Fico imaginando nesse dia específico, todos os seus amigos torcendo por um país diferente do seu, gritando “Brasil! Brasil!”, enquanto em casa seus pais torcem pelo México. Que confusão isso deve gerar em sua cabecinha. E, de repente, chego eu, o adulto mais insensível e bruto da face da terra, e mando essa. “Você vai perder”. Meu Deus… nota zero para mim. A carinha de confusão e tristeza que o querido Pablo fez, assim que falei isso, rasgou meu coração. Eu me senti um animal estúpido, fazendo mal a uma criancinha.

Na mesma hora, o meu peito apertou e percebi o absurdo que cometi. Fiz um dos piores tipos de bullying. Naquele momento percebi que só havia um meio de consertar o meu erro: amar o próximo. Preferi-lo em honra. Negar a mim mesmo. Era o mínimo que podia fazer. Então, segundos após ter dito aquela frase ignorante, bárbara e altiva, tive uma ideia. Voltei-me para a criançada e conclamei:

- Pessoal, o Brasil é legal, mas o México também! Quem acha o México legal?!

E o coro:

- Eeeeeeeeuuuuu!!!

- Entao vamos lá: México! México! México! México! México! México! México! México!

E, quando me dei conta, havia um monte de crianças pulando, vibrando e se abraçando, vestidas de verde e amarelo, demonstrando afeto pelo “adversário” e amando o “inimigo” aos gritos de “México!”. O resultado me trouxe alívio: no meio deles, Pablo saltava, alegre e sorridente, não mais com aquele olhar confuso e abatido de quem sofreu desamor, mas com a felicidade de quem é amado pelo próximo. Fui antipatriota? Pode ser. Mas, naquele momento, me senti muito mais um cidadão da pátria celestial do que o cidadão do mundo que segundos antes oprimira uma pobre criancinha.

Lamento, meu irmão, minha irmã, mas muitas e muitas vezes você terá de abdicar de si caso queira amar o próximo. Terá de abrir mão de seu tempo, de seu dinheiro, das suas vontades, do seu orgulho, da sua vaidade, de seu conforto, da sua primazia e de tantas outras coisas. A boa notícia é que, se isso significa perder algo na terra, também significa ganhar muito no céu. Deus aprecia quando brasileiros gritam “México! México! México! México!” em favor de uma criancinha mexicana.

Amor3Assisti ao jogo com uma camisa amarela, mas o coração um pouco mais mexicano – e feliz por isso. Deixo aqui a sugestão: da próxima vez que você se vir diante de uma situação em que, para cumprir o mandamento de amar o próximo, veja que precisa abrir mão de vantagens pessoais, tenha em mente este grito: “México! México! México! México!”. Peço a Deus que isso lhe dê o impulso necessário para agir em favor do mexicano que cruzar o seu caminho. Seja esse mexicano seu amigo, inimigo, brasileiro, estrangeiro, cristão ou ateu. Pois, ao fazer bem a ele, você estará fazendo bem, antes de tudo, a um israelense que deu sua vida por bilhões de cidadãos de uma pátria que não era a sua.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

teologia1Tive uma conversa com um amigo que me incomodou profundamente. Já conto o que aconteceu, mas antes me permita dizer algo, por favor. Eu amo teologia. Poucas atividades me dão tanto prazer quanto sentar com amigos e discutir as coisas de Deus, falar sobre livros de bons autores cristãos, discorrer sobre aspectos variados da fé, remoer sobre filosofias, ideologias e sistemas de pensamento. Tanto que cursei com muito prazer dois seminários teológicos, dei aulas em uma instituição acadêmica cristã por nove anos e sinto enorme alegria em ler com constância obras teológicas. Penso que tentar viver uma vida de fé sem conhecimento teológico é como dirigir um carro sem ter estudado as leis do trânsito – um perigo. Portanto, quero deixar bem claro que considero o estudo da teologia enriquecedor, prazeroso e, por que não dizer, indispensável. Incentivo que todos estudem a boa teologia ortodoxa. Mas vou te confidenciar uma coisa: tenho andado um pouco cansado de certas discussões teológicas que não me parecem ter nenhuma aplicação prática na vida de fé das pessoas e aparentam ter como principal objetivo mostrar que as pessoas que se envolvem nos referidos debates sabem muito. Sem falar que muitos desses debates e exposições são feitos num tom tão arrogante de superioridade intelectual que não consigo enxergar neles, de jeito nenhum, um espírito cristão – pois Cristo não tem parte com quem usa de arrogância e/ou agressividade no falar, mesmo que seja para defender Jesus e a sã doutrina.

Jesus falou o tempo inteiro sobre teologia. O Sermão do Monte é um belíssimo tratado teológico. A leitura atenta das palavras de Cristo nos evangelhos mostra que ele abordou temas de diferentes áreas da teologia sistemática: eclesiologia, escatologia, cristologia, pneumatologia, soteriologia, hamartiologia… o Senhor foi, de fato, um grande Mestre, um pensador, um teólogo. Portanto, viva a teologia! Mas há uma particularidade que chama minha atenção: tudo o que ele disse tem uma função. Uma aplicação no dia a dia. E ele fugia constantemente do rebuscamento: Jesus simplificava sempre o seu discurso: explicava profundas realidades teológicas por meio de simples parábolas, usava aspectos do dia a dia do povo como metáfora de conceitos teológicos complexos, e agia de fato a partir do que falava.

teologia2Este, aliás, é um ponto nevrálgico das atitudes do grande teólogo Jesus de Nazaré: seus ensinamentos “em sala de aula” eram sempre seguidos de “aulas práticas”. Jesus punha a mão na massa: andava com as pessoas, sentia o cheiro do povo, comia com os pecadores, dialogava com mestres da lei e com prostitutas, botava cuspe nos olhos do cego… ele suava a camisa. Mais ainda: o Senhor vivia a teologia que ensinava e, com isso, demonstrava a todos ao seu redor que ela fazia sentido e existia por uma razão consequente. Não eram apenas belas palavras formuladas e debatidas por um cérebro privilegiado: eram vida.

É por ver esse exemplo magnífico de Jesus que me espanta a enorme frequência com que vejo irmãos entrarem em debates, discussões e assuntos que te levam a pensar: “Tá, mas… e daí?”. Muitas vezes são até temas bem saborosos, dos que fazem o cérebro trabalhar a mil por hora, mas que não têm nenhuma consequência para o mundo real. E, diante disso, confesso meu nefasto pecado: por vezes, chego a supor que o único interesse dessas pessoas é mostrar que sabem muito e, com isso, alimentar sua vaidade. É maldade minha, eu sei, não deveria pensar isso. Mas penso. Perdoe-me.

Já me perguntaram algumas vezes por que uso neste blog uma linguagem tão popular. Esta semana fui questionado por um amigo acadêmico, em uma conversa, acerca do que escrevi no último post que publiquei aqui no APENAS, O futebol e a religião. Como citei no texto alguns aspectos teológicos relacionados ao pensamento de Anselmo de Cantuária sobre fé e razão, esse amigo querido disse coisas como “Finalmente você falou sobre teologia em um texto seu”, “Já que você é formado em Teologia, por que você não entra em questões teológicas mais acadêmicas?” e “Você não deveria estar escrevendo coisas mais profundas?”. Bem… eu explico: é porque não consigo enxergar nada que seja mais profundo do que refletir sobre verdades bíblicas fundamentais numa linguagem e num formato que sejam compreendidos por todos e que conduzam à transformação de vidas e a uma aproximação de Cristo na prática diária. Não me contento com nada menos do que isso.

PlatãoNo meu pequeno círculo de amigos amantes de teologia deixamos a mente voar solta e as conversas trafegam em outros trilhos, vamos de Karl Barth aos irmãos Boff, passando por Platão e Schaeffer; debatemos de Tertuliano a McGrath, trafegando por Tozer e Dallas Willard. Mas em situações e ambientes públicos como a internet, em palestras, pregações, programas de rádio, livros voltados para o grande público e similares eu não consigo me ver me posicionando de forma que as pessoas não me compreendam. Todas. Minha vaidade teológica nessas horas precisa permanecer muito bem trancafiada e amordaçada, porque ela impediria que eu fosse um proclamador do evangelho e me restringiria ao triste e deplorável papel de um intelectual que quer mostrar que sabe muito e usa palavras difíceis.

Na conversa que tive esta semana, ouvi que eu deveria “entregar os pontos”, porque “é impossível discutir teologia de forma acessível a todos”. Bem, eu discordo. Claro que é possível. Não é exatamente o que fazemos aqui no APENAS? E, se você leu o livro A Verdadeira Vitória do Cristão, viu que procurei fazer uma abordagem de conteúdo extremamente teológico e histórico, mas com uma linguagem conscientemente escolhida para ser a mais coloquial possível – pois desejo que qualquer pessoa entenda o que quero dizer e, assim, que meus escritos tenham consequência real em sua vida. Não me interessa ser aplaudido por poucos intelectuais, entrar em um pequeno círculo de notáveis, participar de eventos e debates teológicos se nada disso gerar frutos concretos para o reino de Deus. Se os resultados forem concretos, podem me chamar e debateremos com alegria. Mas se for apenas para ficar discutindo o sexo dos anjos, prefiro usar esse tempo para chorar abraçado a um homem que perdeu um filho num acidente de moto ou para falar do amor de Cristo a uma mulher que pensa em cometer suicídio.

O que me parece é que muitos excelentes pensadores perdem grandes oportunidades de se fazer entender porque se recusam a abandonar o academicismo de seu discurso. São teólogos falando para teólogos e não para pessoas comuns. Fico pensando em como seria se Jesus tivesse optado por falar numa linguagem tão elitizada que só os mestres da lei o compreenderiam. Você acha que ele não era capaz disso? Claro que era. Mas Jesus sabia que seria ineficaz, e ele não estava ali para mostrar apenas o que sabia, estava ali para mostrar, acima de tudo, quem era e o que fazia – salvar, perdoar, amar, curar, restaurar e por aí vai.

william_holman_hunt-the_shadow_of_deathEm círculos restritos, como na sala de aula, em uma conferência teológica ou em um evento de uma universidade, é compreensível que se adote o “teologuês”. Faz sentido e é natural que nesses ambientes seja assim, não tenho absolutamente nada contra. Faz parte do contexto. Mas, em foro público, em ambientes abertos a quantidades maiores de pessoas… para quê? Que voltemos à simplicidade do evangelho. Às palavras compreensíveis. Amo a teologia, ela é indispensável. Mas se vier a tornar-se um fim em si mesma, passa a ser dispensável. Embora eu ame teologia, sei que jamais devemos amá-la mais do que amamos Cristo – pois, se assim fizermos, nos tornamos idólatras teológicos. E quem ama Cristo usa a teologia meramente como uma ferramenta a serviço do reino de Deus, o que pressupõe proclamar o reino de modo que o próximo compreenda. Palavras bonitas, ideias complexas e discursos rebuscados jamais levaram ninguém para perto de Deus: a simplicidade da cruz é que leva.

A proclamação do evangelho, para ocorrer como Jesus fez, deve vir montada num jumentinho. Mais ainda: deve ser feita na linguagem de um carpinteiro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Justo1“Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Esse pequeno trecho da carta de Paulo aos romanos deveria ser alvo de reflexões diárias de todo cristão. Mostra que toda a humanidade faz parte do mesmo grupo de indivíduos: gente imperfeita, errada, pecadora e desesperadamente carente de Deus. Da cruz. De Cristo. Ninguém é justo por si mesmo, mas somos feitos justos por meio do sangue de Jesus. Essa percepção deveria nos levar a uma posição de extrema humildade e misericórdia; afinal nenhum de nós é melhor do que o outro. “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Meu irmão, minha irmã, eu e você somos culpados de transgredir toda a lei de Deus. Toda. Consequentemente, não somos melhores que o ladrão da cruz, Pilatos, Judas, os fariseus, Herodes, Charles Manson, Adolf Hitler, Mussolini… quem você quiser. Aliás, eu, você, seu pastor, o líder de jovens da sua igreja, os cantores mais famosos, os líderes da sua denominação, a dirigente do círculo de oração, madre Teresa de Calcutá… não importa: estamos todos no mesmo barco, que mina água todos os dias e afunda no mar de pecados. A salvação está exclusivamente em Jesus. Só. Ele é o único caminho. O único justo por mérito próprio. Ser humano nenhum vale alguma coisa por mérito pessoal, o enorme valor que temos vem por graça, justificação, misericórdia, adoção, concessão divina. Nosso valor não é uma característica inata, é um presente que recebemos. Somos galhos secos, o que temos de bom vem da seiva que corre para nós a partir da árvore em que fomos enxertados: Cristo. Uma leitura recente me fez enxergar isso com uma clareza ainda maior do que antes.

David Yonggi ChoAo ler o último exemplar da revista Cristianismo Hoje, me deparei com reportagens que me chamaram a atenção. Primeiro, o pastor sul-coreano David Yonggi Cho (foto), líder da maior igreja evangélica do mundo, a Yoido Full Gospel Church, foi preso e condenado a três anos de prisão pelo desvio do equivalente a R$ 30 milhões da igreja. Ele admitiu que cometeu o crime “movido pelo interesse de suprir dificuldades financeiras da obra missionária”. Segundo, o papa católico romano Francisco confessou publicamente que furtou um crucifixo do corpo de um colega morto, em pleno velório, quando era bispo em Buenos Aires. “Enquanto espalhava as flores, peguei a cruz que estava sobre o rosário”, admitiu.

Em comum, as duas histórias nos falam de líderes religiosos (independente da teologia ou doutrina que professam) que são referência em suas linhas de atuação e exemplos para seus seguidores e que cometeram pecados que nenhum de nós esperava que cometessem. Muita gente fica chocada ao tomar conhecimento de situações como essas. Ouço comentários do tipo “como pode, mas logo ele!”. A mim, porém, nada disso espanta. Pelo simples e bíblico fato de que, assim como eu e você, todos os líderes religiosos são pecadores, cometem atrocidades, acertam e erram, escorregam e caem. Pois são humanos. Necessitam diariamente de perdão por seus pecados. São iguaizinhos a mim. E a você.

Justo2Cada vez que leio relatos como esses, simplesmente me entristeço e penso “É, a Bíblia está certa mesmo”. Somos pó. Nossa natureza humana é má. Precisamos desesperadamente de Jesus de Nazaré. Vejo grandes homens de Deus confessarem pecados que comprovam que são simplesmente homens e isso me leva a ouvir com cada vez maior tristeza discursos de pessoas que se consideram cristãos mais santos do que outros e que, por isso, falam do próximo com superioridade. A queda de gigantes me mostra que devemos sempre amparar-nos, do maior ao menor, pois estamos todos no mesmo nível. Dos que ocupam os mais elevados cargos na hierarquia eclesiástica aos iniciantes na fé, todos equivalemos: somos aglomerados de pele, ossos, sangue e pecados e carecemos da piedade de nossos irmãos e da misericórdia de Deus. Todos exalamos o odor da desobediência e precisamos desesperadamente do perfume de Cristo.

Entenda que a compreensão acerca de nossa falibilidade não deve nos tornar abertos ao pecado ou confortáveis com ele. A transgressão à vontade divina deve ser sempre evitada, precisa constantemente ser alvo de nossas pregações, exortações e alertas. Sempre. Sempre. Sempre. Santidade não se negocia. O que considero triste é a postura de superioridade que alguns de nós assumem, por se considerarem espiritualmente menos falíveis do que os outros. E não tenho o olhar entristecido para essa postura a partir de mim mesmo: sigo o exemplo de Jesus, que criticou diversas vezes a hipocrisia dos mestres da lei e fariseus durante seu ministério terreno. O que Cristo sempre denunciava nesses doutores da teologia era a hipocrisia: serem pecadores não arrependidos e ficarem rebaixando, discriminando e atacando outros pecadores. É a velha história da trave e do cisco no olho, que você já conhece. E hoje, dois mil anos depois, a história se repete.

Justo3Quando leio relatos da queda de homens de Deus, meu coração rasga. Não só pelo pecado em si desses líderes, mas por ver muitos e muitos irmãos que – inacreditavelmente – parecem se alegrar com a queda deles. Como se tombos alheios valorizassem estarmos de pé. Podemos, por favor, chorar por eles? Será que você consegue orar por cada indivíduo pecador como você e pedir ao Santo dos Santos que os restaure e use de compaixão para com suas vidas? Se eles fossem membros da sua igreja ou pessoas de sua convivência diária, o que você faria? Será que os procuraria e lhes levaria palavras de conforto, amor, graça e reconstrução? Ou daria as costas, se afastaria, os largaria à própria sorte? A resposta a essa pergunta revela se você vive a hipocrisia ou a piedade – peço a Deus que seja a piedade.

E sempre devemos inserir na equação sobre como vemos esses homens que pecaram o fator arrependimento. Uma vez que cada um deles se arrepende do erro, confessa e deixa o pecado, está perdoado por Deus. Como poderíamos nós não perdoá-los se o próprio Criador os perdoou? Se Jesus foi à cruz por eles? Esses indivíduos, quando restaurados, podem e devem continuar exercendo seu ministério. Continuam sendo úteis para o Senhor. Seus livros continuam sendo valiosos e importantes, sua pregação segue sendo relevante, sua vida e seu ministério não morreram. Se você tem dificuldades de concordar com isso, lembre-se dos seus próprios pecados. Nada disso é graça barata: é graça, em sua essência mais pura e bíblica.

Precisamos compreender que o evangelho não são boas-novas de hipocrisia ou de superioridade: são boas-novas de salvação. Pois o que a cruz nos mostra acima de qualquer outra coisa é que a humanidade é toda perdida, nasceu igualmente destinada à miséria espiritual e só pode encontrar o caminho da paz em Jesus de Nazaré. Isso nos faz elevar os olhos para os montes, para o único que é digno de abrir os selos. Nossa pecaminosidade coletiva destaca a gloriosa pureza do Cordeiro de Deus.

OXYGEN Volume 22Meu irmão, minha irmã, fuja do pecado. Esforce-se no poder de Deus para se libertar de práticas pecaminosas, de pensamentos maldosos e de tudo o que fere o Senhor. Viva uma vida dedicada à proclamação da santidade. Isso é bíblico e é o certo. Mas, em nome de Cristo, viva também uma vida devotada a levar indivíduos a se aproximar de Jesus. E isso não acontece falando mal ou pondo o dedo na cara: Cristo se manifesta por meio do amparo, do auxilio, do aconselhamento, da mútua sustentação, do chorar com quem chora, da piedade, da compaixão, do perdão, da restauração. Não acredito no evangelho do irmão do filho pródigo. Acredito no evangelho do pai do filho pródigo. Comparo a atitude daquele pai com a do seu obediente e leal filho mais velho e enxergo um retrato fiel das nossas atitudes hoje: de um lado, os que abraçam o pecador que retorna; de outro o que se entristece porque o pecador foi restaurado – é mais interessante apenas criticá-lo (afinal, nos sentimos menos pecadores do que ele). Uns querem promover o banquete; outros se recusam a entrar na mesma casa. Um é o evangelho do “Não há justo, nem um sequer”; o outro é a religião do “raça de víboras!”.

Podemos escolher que tipo de cristãos seremos: hipócritas ou graciosos. Jesus foi gracioso e repreendeu os hipócritas. Os fariseus e mestres da lei foram hipócritas e repreenderam o Gracioso. E você, como será?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Gostaria de convidar você hoje a imaginar duas situações:

Situação 1:

A irmã chega ao gabinete para pedir aconselhamento pastoral. Ela começa a derramar seu coração e a conversar com o pastor:
– Pastor, estou muito triste.
– Veja bem, amada, se a irmã observar os pontos TULIP, de Calvino, vai poder compreender melhor as razões de sua situação.
– Ahn?!
– Analisando a depravação total do homem, torna-se factível compreendemos os reflexos hamartiológicos que lhe afligem.
– Sei… não, pastor, na verdade… bem, é que estou muito deprimida, sabe?
– Minha irmã, quando Tomás de Aquino cristianizou Aristóteles, ele sistematizou, à luz da revelação específica de Deus, a metodologia científica. Destarte, ciência e fé coadunam numa unidade que tem seu auge nas cinco vias em que Aquino deu provas imanentes do transcendente.
– Ahn… pastor, eu… éééé… Na verdade, pastor, tem horas em que o sofrimento é tanto que minha fé é abalada.
– Imagina, minha irmã! Segundo o pensamento do movente não movido, associado à ideia dos graus de perfeição e à contingência dos seres, fica transparente que sua cosmovisão distorcida carece de fundamento.
– (…)
– Não faça essa cara, amada! Anselmo de Cantuária foi claro sobre isso em seu “Credo ut intellegam”.
– Sei… Na verdade, pastor, eu queria saber se o senhor podia me dar uma palavra de esperança, entende? Alguma palavra da Bíblia…
– Sem dúvida, minha irmã. Perceba: segundo as melhores teologias sistemáticas, no que tange à esperança escatológica, podemos ter a segurança de que, a despeito da crença assumida, seja amilenista, pré-milenista ou pós-milenista, dentro da cosmovisão cristã é certo que o reino de Deus (que encontra sua expressão no “já” e no “ainda não”), se fará pragmatismo em sua vida, irmã!
– Ahn… Tá, pastor… Bom, sabe, obrigada, eu vou ali na outra igreja conversar com o pastor de lá.
– Que isso, irmã, não faça isso! Segundo a eclesiologia, a…
– Deixa, pastor, deixa. Obrigada, viu?
– Imagina, amada! Sempre que precisar, estou ao seu dispor! E que o Totalmente Outro apontado por Karl Barth manifeste sua graça sobre a irmã!
– Amém… eu acho…

Situação 2:

A irmã chega ao gabinete para pedir aconselhamento pastoral. Ela começa a derramar seu coração e a conversar com o pastor:
– Pastor, estou muito triste.
– Que isso, irmã! A vitória é tua!
– Ahn?!
– Claro! Toma posse da tua bênção e segue nessa fé pra Canaã!
– Sei… não, pastor, na verdade… bem, é que estou muito deprimida, sabe?
– Que falta de fé é essa, minha irmã! Tá amarrado! Repreende essa seta! Se a irmã tiver fé do tamanho do grão de mostarda Deus abrirá as águas e o varão de branco vai trazer numa bandeja de prata a tua vitóóóória!
– Sei… não, pastor, na verdade… bem, é que estou muito deprimida, sabe?
– Xiiii… A irmã deve estar em pecado. Crente de verdade não tem depressão, isso é coisa do Inimigo. É falta de fé, é opressão! Isaías 53, irmã, Isaías 53! Toma posse! A irmã tá muito carnal! Vamos agendar umas sessões de libertação.
– Ahn… pastor, eu… éééé… Na verdade, pastor, tem horas em que o sofrimento é tanto que minha fé é abalada.
– Então feche os olhos e cante comigo: “Rompendo em fééééé, minha vida se revestirá do teu poder!!! Rompendo em fééééé!!!!”. Canta, irmã! Isso! E vai dando glória! Dá glória, irmã! Dá glória!!!
– (…)
– Irmã de pouca fé! Solta o cabo da nau! E navega com fé em Jesus! E dá glória, irmã, dá glória!
– Sei… Na verdade, pastor, eu queria saber se o senhor podia me dar uma palavra de esperança, entende? Alguma palavra da Bíblia…
– Claro, amada! Lembre-se que não cai uma folha da árvore se Deus não deixar!
– Ahn… Tá, pastor… Bom, sabe, obrigada, eu vou ali na outra igreja conversar com o pastor de lá.
– Que isso, irmã! Tá desviada? Vou ter de botar a irmã em disciplina! A irmã anda vendo filmes da Disney?! Que história é essa de outra igreja, lá só tem crente frio, não tem poder de Deus!
– Deixa, pastor, deixa. Obrigada, viu?
– Amém, irmã, vai cantando vitória!!! Você é a menina dos olhos de Deus!!! Aleluiasss!!! E dá glória, irmã, dá glória!!!
– Amém… eu acho…

* * *

O objetivo da reflexão de hoje é pensar sobre a importância do estudo da Teologia para a nossa vida prática de fé. As duas situações acima são uma caricatura do que vejo hoje em muitos e muitos âmbitos da Igreja brasileira: de um lado, os que idolatram a Teologia. De outro, os que demonizam a Teologia.

Acredito que o estudo da Teologia é essencial. Mas tenho certeza que só Teologia não basta. Teologia nos diz quem é o Curador das feridas, o Salvador das almas, o Restaurador; mas só o conhecimento sobre Ele não é suficiente: é preciso aplicação prática. Que só vem mediante o amor, lágrimas derramadas pelo próximo, mãos cheias de calos e pés sujos de barro.

Por outro lado, sem Teologia a devoção do crente é mirrada. A falta de estudo teológico nos deixa à mercê de um Deus que não sabemos quem é e, por isso, não sabemos como Ele deseja que nos relacionemos consigo e com o próximo. Só a prática não basta, visto que Deus se revelou pela Palavra e ela precisa ser compreendida e estudada. Isso só é possível mediante o conhecimento da Teologia.

Portanto, só Teologia é intelectualismo inútil e infantil; mas zero Teologia é misticismo inútil e infantil. Um coração cheio de Teologia mas destituído de amor é vaidoso, arrogante e egocêntrico. Um coração vazio de Teologia é ignorante, errático e perdido.

Há três tipos de indivíduos no meio dos cristãos e devemos escolher qual deles queremos ser:

1. Quem não ama pessoas prega só Teologia.

2. Quem odeia Teologia prega frases feitas e vazias.

3. Mas quem ama pessoas e também ama Teologia prega… o evangelho.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício