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bebe1Minha filha faz coisas esquisitas. Já comentei aqui no APENAS que ela, para minha surpresa, gosta de ópera. Quando descobri isso, acreditei que a coisa pararia por aí, mas tenho me surpreendido a cada dia com seu gosto, digamos, peculiar para uma criança de apenas 3 anos. O óbvio seria ela pedir para assistir a DVDs da Galinha Pintadinha, Aline Barros e similares. Não que ela não goste de coisinhas produzidas para crianças da sua idade, ela gosta, mas o que me espanta é que a pequena tem demonstrado apreciar o que eu jamais imaginaria. A verdade é que ela muitas vezes faz escolhas que me surpreendem. Recentemente ela viu o balé “O quebra-nozes”. Não só amou como, desde então, fica cantarolando temas musicais e comentando cenas desse balé de Tchaikovsky. Recentemente vimos, também, uma apresentação de nado sincronizado e ela passou a pedir sempre para ver mais. Ou patinação no gelo. Saltos ornamentais. Ginástica de solo. Apresentações de orquestras sinfônicas. Montagens do grupo Stomp. Blue Man Group. Exposições de moedas antigas (!) em museus. E por aí vai. Eu acreditava que, a esta altura da vida dela, eu só estaria lhe contando histórias da Carochinha, mas a Chapeuzinho Vermelho e os três porquinhos já não a atraem mais há um bom tempo. De onde minha filha tira esses gostos esquisitos, que contrariam a lógica de sua idade, eu não sei. Apenas vejo que faz parte de sua natureza apreciar manifestações culturais, artísticas e esportivas que costumam dar sono ou tédio a crianças de 3 anos.

Será que Deus também nos considera esquisitos? Essa realidade de minha filha me faz cogitar o que Deus pensa das preferências de seus filhos. Será que ele olha para mim e se pergunta “Que escolha bizarra, de onde o Maurício tirou isso?!”. Bem, claro que, sendo ele onisciente, não precisa se fazer esse tipo de questionamento, Deus sabe tudo. Mas, nas minhas reflexões esquisitas, me pego pensando o que o Pai acha da forma como procuro ocupar meu tempo.

Evidente que isso exige uma enorme dose de imaginação, mas tente pensar com a mente de Deus. O que você crê que ele considera formas normais de ocuparmos nosso tempo? Procure comparar aquilo que o Pai imaginaria que gostaríamos de fazer como filhos do Deus vivo e aquilo que de fato fazemos. Na sua opinião, você gasta as horas de seu dia fazendo o que o Senhor espera de você? Confesso que, quando penso nisso, me vejo decepcionando muito a Deus. Eu não usaria a palavra “surpreendendo”, pois nada surpreende o Onisciente, mas creio que entre aquilo que ele consideraria óbvio que eu fizesse e o que de fato faço deve haver uma enorme distância. Pensemos nisso.

bebe2A primeira coisa que um Pai espera de seus filhos é que se relacionem com ele, por amor. No entanto, diariamente priorizamos atividades que nos roubam dos momentos de comunhão com Deus. Quando eu deveria estar orando ou estudando a Palavra, mas opto por ver um filme qualquer na televisão, imagino que o Senhor olhe para mim e pense: “Esse meu filho é esquisito… que escolha mais sem sentido…”. Outra forma de ocuparmos nosso tempo de modo surpreendente para um cristão é ao darmos as costas para atividades que beneficiem o próximo. Leio Mateus 25 e vejo com clareza quanto o Pai valoriza que seus filhos priorizem ações em favor das outras pessoas. E aí paro para pensar quantas vezes, digamos, no último mês, eu dediquei minhas forças a fazer o que tem como objetivo abençoar meus irmãos e minhas irmãs… e morro de vergonha, por ter feito tão pouco. Sou ou não um filho de Deus muito esquisito?

É esperado que um filho do Rei ocupe a maior parte de seus tempo e de suas energias com as coisas do reino, com aquilo que tem mais valor para o reino. Não exclusivamente, mas prioritariamente. Lazer, descanso, compras no supermercado, consultas médicas… tudo isso é lícito e tem o seu espaço e o seu momento. O que nos torna cristãos muito esquisitos é quando atividades que nada têm a ver com nossa cidadania celestial tomam o tempo e as forças que deveriam estar sendo utilizadas nas coisas mais importantes aos olhos do nosso Pai. Isso fica claro para mim quando vejo que o adolescente Jesus ficou no templo de Jerusalém debatendo com os mestres sobre as coisas de Deus. José e Maria acharam sua atitude muito esquisita, mas o que o jovem Cristo estava fazendo era simplesmente priorizar aquilo que seria óbvio para alguém como ele: cuidar das coisas de seu Pai.

tempoPenso que devemos fazer o mesmo. É muito fácil a rotina e o corre-corre do dia a dia nos distraírem e desviarem nossas atenções para longe das coisas de Deus. Mas Jesus foi bem claro ao estabelecer as prioridades: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça… ” (Mt 6.33). Será que temos feito isso? Será que priorizar o reino e a sua justiça se resume a ir à igreja uma ou duas vezes por semana e a ouvir musicas evangélicas? É isso que faz de nós filhos exemplares ou apenas filhos esquisitos aos olhos de Deus?

Precisamos entender o que um filho de Deus é chamado para fazer. Em outras palavras, o que é esperado de nós. Mais precisamente: o que Deus espera de você.

Amo minha filha e desejo que tudo o que ela faça sejam ações que me encham de orgulho. É natural que seja assim, é o que qualquer pai espera de seus filhos. Inclusive o Pai celestial. Agora, analise como tem ocupado suas horas, seus dias. Se você fosse o Senhor, se orgulharia da forma como vem priorizando seu tempo ou acharia as suas prioridades muito esquisitas? Será que você tem feito aquilo que Deus gostaria que você estivesse fazendo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

dieta do perdao1O que é preciso fazer para perder peso? Se você já se dedicou a uma dieta, sabe que ela exige que sigamos, essencialmente, três passos. Primeiro, é necessário compreender bem a dinâmica do emagrecimento, ou seja, inteirar-se do que diz a teoria: necessidade de ingerir menos calorias do que se gasta, importância do controle metabólico, explicação de por que se deve comer menos e mais vezes por dia etc. Sem compreender como se perde peso você jamais conseguirá emagrecer. Segundo, uma vez que entende a teoria, é hora de pôr em prática o que aprendeu. E quem já se dedicou a perder peso sabe que essa etapa não é nem um pouco fácil, pois o aspecto mais importante para emagrecer é abrir mão da sua vontade de comer o que não deve (às vezes é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que recusar aquele suculento brigadeiro, não é?). Ou seja: dizer não a si mesmo é fundamental. Terceiro, além da correta escolha dos alimentos, também é preciso exercer disciplinas complementares e indispensáveis, como exercícios físicos.

Assim, se você consegue: 1) Compreender a teoria do emagrecimento; 2) abrir mão de suas vontades; e 3) praticar as disciplinas complementares tem grandes chances de atingir o objetivo e conquistar a tão almejada silhueta esbelta.

Neste ponto, gostaria de fazer um paralelo entre a dificuldade de emagrecer e a de… perdoar. Muitas pessoas não conseguem perdoar alguém que lhes tenha ferido; outras não conseguem perdoar a si mesmas por algum pecado que tenham cometido. Isso se deve a uma razão muito simples: perdoar não é fácil, é uma atitude que exige muito de nós. Contraria nossa natureza humana, muito mais inclinada a entregar-se a culpa, raiva, ressentimento, ira, mágoa, rancor e sentimento de vingança. Só que sem perdão não há vida com Cristo. Dizer-se cristão e não perdoar é uma contradição. Mais do que isso: é uma impossibilidade. Portanto, se você até hoje precisa perdoar alguém ou mesmo se perdoar por algo que tenha feito, saiba que sua vida espiritual depende disso.

Se você vive uma situação em que precisa estender perdão, mas considera muito difícil, o que deve fazer? Bem, a Bíblia trata muito sobre esse assunto e seria preciso um livro para abordar a questão com a amplidão que tem, é impossível resumir tudo em um pequeno post de blog. Mas, em síntese, posso dizer que perdoar e emagrecer têm algo em comum: os três pontos que mencionei no início deste texto.

dieta do perdao01. Assim como nas dietas é preciso conhecer a teoria, para perdoar não é diferente. Em geral, tenho visto que os irmãos e as irmãs com dificuldade de perdoar não conhecem em sua totalidade o que a Bíblia fala sobre o assunto. Têm um conhecimento parcial e, por isso, acabam sem as orientações básicas que as Escrituras sagradas dão a respeito de o que exatamente é perdoar, como perdoar, as consequências de não perdoar, os benefícios de perdoar e muito mais. Entenda: é conhecendo a verdade sagrada que somos libertos das amarras da falta de perdão e de suas terríveis consequências. Assim, o primeiro passo para conseguir perdoar e se perdoar é conhecer as diferentes informações sobre o tema contidas na Bíblia. “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.31-32).

Falo por experiência. Há alguns anos vivi uma grande necessidade de praticar o perdão – perdoar outros e perdoar a mim mesmo. Foi quando percebi a gigantesca importância desse tema para nossa saúde espiritual, bem-estar e felicidade, por isso dediquei-me a uma pesquisa ampla e detalhada na Bíblia sobre o assunto perdão. Essa investigação nas Escrituras acabou se tornando meu próximo livro, chamado Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar, que será lançado em outubro pela editora Mundo Cristão. Nesse processo pessoal, vi como me ajudou enormemente saber o que a Bíblia fala sobre o assunto – na verdade, foi indispensável, pois, sem as verdades bíblicas, eu nunca conseguiria fazer isso por vontade própria. Sem esse conhecimento, é impossível qualquer um se ver livre do pesadíssimo fardo da falta de perdão. Peço a Deus que o resultado dessa minha pesquisa venha a ajudar pessoas que precisam de mais informações e entendimento sobre o assunto, para que, assim, também consigam se ver livres do amargo fardo da falta de perdão.

dieta do perdao22. Ao adquirir o conhecimento bíblico necessário, consegui partir para o segundo passo: pôr em prática o perdão. Foi, então, possível perdoar e me perdoar. Só que, para que esse perdão se tornasse realidade, foi preciso negar a mim mesmo. Do mesmo modo que fazer dieta exige abrir mão de suas vontades, perdoar exige abrir mão do seu eu e assumir a natureza de Cristo, que nos perdoa sem que haja qualquer mérito nosso. O nome disso é graça. Sem negar as inclinações, as vontades e os impulsos que nos dominam, não conseguiremos jamais ser como Jesus nem agir como ele agiu. “Então Jesus disse aos seus discípulos: ‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará'” (Mt 16.24-25).

dieta do perdao33. Por fim, para conseguir perdoar, você precisa exercitar as disciplinas espirituais, como oração e jejum. Do mesmo modo que o exercício físico é fundamental no processo de perder peso, sem uma comunhão constante com Deus em oração e sem a mortificação da sua natureza carnal, por meio do jejum, torna-se muito difícil conseguir fazer aquilo que nossa vontade humana não quer fazer.

É evidente que comparar o perdão a uma dieta de emagrecimento não passa de uma analogia altamente imperfeita. Assim como as parábolas de Jesus eram ilustrações materiais de realidades espirituais profundas, essa comparação serve apenas para chamar nossa atenção para determinados aspectos da fé. Dieta emagrece o corpo, perdão agiganta a alma. O corpo ficará, a alma seguirá pela eternidade. Se você se preocupa em emagrecer, recomendo que preocupe-se ainda mais em perdoar e se perdoar. Culpa por algo que você fez e ressentimento por algo que alguém fez contra você não geram absolutamente nada de bom, pelo contrário, trazem consequências altamente negativas para sua vida.

Conheça o que a Bíblia diz sobre perdão e remova de suas costas o fardo tão pesado da falta de perdão, que você não precisaria estar carregando. Jesus te libertou desse fardo na cruz do Calvário. Conheça a realidade que a Bíblia apresenta sobre o assunto e abrace as verdades sagradas. Se tomar essa atitude, a graça de Deus se manifestará e, creio piamente, sua vida será totalmente transformada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

sal e luzSe você foi um aluno atento às aulas de física na escola vai se lembrar de um princípio chamado “impenetrabilidade”. Esse palavrão estabelece que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Ou seja: ou eu estou no lugar X neste momento ou outra pessoa está. Eu e meu próximo de maneira alguma podemos estar no mesmo lugar, no mesmo instante. Essa lei da física encontra paralelo numa lei espiritual: é impossível eu ocupar o lugar de primazia nas minhas atitudes e o meu próximo também: ou eu me priorizo ou eu priorizo o meu próximo, não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, se eu quiser ser sal da terra e luz do mundo, cumprindo o grande mandamento, que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo, terei de negar-me e preferi-lo em honra.

Em linguagem bíblica: para que eu cumpra isto: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12.30-31), é preciso que eu faça isto: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23) e também isto: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10).

Hoje ocorreu um episódio simples mas que me mostrou de forma prática essa realidade espiritual. Escrevo este texto no dia do jogo de Brasil contra México, pela Copa do Mundo de futebol. De manhã, fui levar minha filha à escola. Chegando lá, muitos de seus coleguinhas já se encontravam no pátio, brincando, a maioria vestida de verde e amarelo, com camisas e enfeites com as cores da seleção brasileira. Toda vez que vou deixar minha filha no colégio, os coleguinhas dela voam em cima de mim, comentando coisas e me chamando para brincar. Eu entrei no clima.

Começamos a falar animadamente sobre a roupa que cada um usava, os enfeites, a Copa et cetera. Foi quando Pablo se aproximou. Na turma da minha filha há dois estrangeiros: uma menina inglesa e esse menino, que chamo de Pablo (como não tenho autorização de seus pais, não faria a indelicadeza de postar na internet seu nome verdadeiro). Ocorre que Pablo é mexicano. E lá estava ele: o inimigo. O adversário. Bem no dia da batalha, infiltrado entre nós. Levado pela empolgação do momento, acabei dizendo para aquele garotinho de apenas 3 anos uma frase impensada e horrível:

- Ih, Pablo, hoje você vai perder.

Amor2Não se passaram três segundos e o Espírito Santo já dava um cartão vermelho para a minha consciência. Pablo vive em um país estranho e já enfrenta todas as dificuldades que isso gera. Fico imaginando nesse dia específico, todos os seus amigos torcendo por um país diferente do seu, gritando “Brasil! Brasil!”, enquanto em casa seus pais torcem pelo México. Que confusão isso deve gerar em sua cabecinha. E, de repente, chego eu, o adulto mais insensível e bruto da face da terra, e mando essa. “Você vai perder”. Meu Deus… nota zero para mim. A carinha de confusão e tristeza que o querido Pablo fez, assim que falei isso, rasgou meu coração. Eu me senti um animal estúpido, fazendo mal a uma criancinha.

Na mesma hora, o meu peito apertou e percebi o absurdo que cometi. Fiz um dos piores tipos de bullying. Naquele momento percebi que só havia um meio de consertar o meu erro: amar o próximo. Preferi-lo em honra. Negar a mim mesmo. Era o mínimo que podia fazer. Então, segundos após ter dito aquela frase ignorante, bárbara e altiva, tive uma ideia. Voltei-me para a criançada e conclamei:

- Pessoal, o Brasil é legal, mas o México também! Quem acha o México legal?!

E o coro:

- Eeeeeeeeuuuuu!!!

- Entao vamos lá: México! México! México! México! México! México! México! México!

E, quando me dei conta, havia um monte de crianças pulando, vibrando e se abraçando, vestidas de verde e amarelo, demonstrando afeto pelo “adversário” e amando o “inimigo” aos gritos de “México!”. O resultado me trouxe alívio: no meio deles, Pablo saltava, alegre e sorridente, não mais com aquele olhar confuso e abatido de quem sofreu desamor, mas com a felicidade de quem é amado pelo próximo. Fui antipatriota? Pode ser. Mas, naquele momento, me senti muito mais um cidadão da pátria celestial do que o cidadão do mundo que segundos antes oprimira uma pobre criancinha.

Lamento, meu irmão, minha irmã, mas muitas e muitas vezes você terá de abdicar de si caso queira amar o próximo. Terá de abrir mão de seu tempo, de seu dinheiro, das suas vontades, do seu orgulho, da sua vaidade, de seu conforto, da sua primazia e de tantas outras coisas. A boa notícia é que, se isso significa perder algo na terra, também significa ganhar muito no céu. Deus aprecia quando brasileiros gritam “México! México! México! México!” em favor de uma criancinha mexicana.

Amor3Assisti ao jogo com uma camisa amarela, mas o coração um pouco mais mexicano – e feliz por isso. Deixo aqui a sugestão: da próxima vez que você se vir diante de uma situação em que, para cumprir o mandamento de amar o próximo, veja que precisa abrir mão de vantagens pessoais, tenha em mente este grito: “México! México! México! México!”. Peço a Deus que isso lhe dê o impulso necessário para agir em favor do mexicano que cruzar o seu caminho. Seja esse mexicano seu amigo, inimigo, brasileiro, estrangeiro, cristão ou ateu. Pois, ao fazer bem a ele, você estará fazendo bem, antes de tudo, a um israelense que deu sua vida por bilhões de cidadãos de uma pátria que não era a sua.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Gays1Olá, bom dia. Meu nome é Maurício Zágari e sou um cristão protestante (ou evangélico). Gostaria de falar, se me permite, a você que é homoafetivo (ou homossexual, ou gay, ou integrante do movimento LGBT – deixo a seu critério como prefere ser chamado) e que não compartilha da minha fé. Mas, antes, permita-me dizer que não pretendo te atacar, ofender, discriminar ou rebaixar. Quero apenas dialogar, com extremo respeito pela pessoa que você é. Um papo de um ser humano para outro ser humano. Tenho visto na internet, na televisão e em outras mídias uma lamentável troca de farpas entre certos evangélicos e certos gays (em geral, líderes e políticos) e isso tem me deixado profundamente triste. Parece que há uma guerra entre todo cristão e todo homoafetivo, e isso simplesmente não é verdade – nossa luta não é essa (Ef 6.12). Então gostaria de tentar deixar de lado o que alguns têm feito e dito, e expor questões a respeito de tudo o que tem acontecido, se você tiver paciência de prosseguir mais um pouco neste texto e me honrar com a sua leitura.

A primeira coisa que eu queria fazer, amigo homoafetivo, é te pedir perdão. E falo como cristão, embora nenhum outro cristão tenha me autorizado a fazer isso. E esse é o problema: muitos cristãos têm falado em meu nome sobre a tua sexualidade, sem que eu nunca tenha autorizado. Em geral, é gente famosa, que te ataca, ofende, agride, xinga e bate na mesa, como se todos os evangélicos estivessem fazendo a mesma coisa. Bem, eu não estou. Conheço muitos que também não estão. Não quero conversar com você ou com ninguém agredindo. Então, por favor, perdoe meus irmãos que te ofenderam. Pois a mensagem do Cristo a quem amo é a da paz, da restauração, da salvação; não a da guerra, da ofensa, da agressão. Quero que você saiba que, aos meus olhos, você é um ser humano precioso e importante. De valor.

A segunda coisa é explicar algo sobre a relação entre os evangélicos e os homoafetivos nos nossos dias. Eu não tenho absolutamente nada contra você como indivíduo. Tenho conhecidos que são gays, pessoas boas, trabalhadoras, amorosas, que pagam seus impostos e são extremamente agradáveis. Então, por favor, entenda que não existe nenhuma hostilidade contra os homoafetivos pelo fato de eu ser cristão. Só que não posso ser hipócrita, então deixe-me dizer que, de fato, não concordo com a prática homossexual. Perceba que existe uma diferença entre gostar, respeitar e amar alguém e concordar com algo que ela faça. Por exemplo: amo de todo coração minha filha. Não tenho preconceito contra ela. Não sou “infantifóbico”. Mas, se ela faz algo que em minha opinião é errado, não vou concordar e direi isso a ela – eu a amo e por isso sinto-me compelido a dizer a ela a verdade sobre o que penso acerca de suas ações. Uma coisa não exclui a outra. Percebe a diferença entre a pessoa e a prática?

Esse é o problema que tem gerado tanto conflito entre gays e cristãos: muitos cristãos tratam mal seres humanos gays por discordar do que eles fazem. E muitos seres humanos gays tratam mal os cristãos porque não nos dão o direito de discordar do que eles fazem. Assim, estamos errando dos dois lados. Pois estamos confundindo as pessoas com as suas crenças e práticas. Amo minha filha, mas posso discordar de algo que ela pense ou faça.

Gays2Se você diz que assistir a um jogo de futebol é mais legal que ler um livro vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que pizza é melhor que camarão vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que o Rio de Janeiro não é a melhor cidade do mundo vou discordar, mas vou continuar amando você. Se você diz que azul é mais bonito que preto vou discordar, mas vou continuar amando você. Enfim, se você pensa ou age de modo diferente de mim vou discordar, mas vou continuar amando você. O que você faz e pensa não anula o meu respeito humano por você. Gostaria muito que o mesmo fosse igual de sua parte quanto a mim. Temos, cristãos e homoafetivos, de começar a perceber que discordar de uma prática ou crença não é motivo para odiar quem pratica aquilo ou crê naquilo. É como flamenguistas e tricolores que discordam com relação a seus times mas se encontram na saída do estádio e não se espancam, mas se abraçam.

Assim, gostaria que você entendesse que, embora eu não concorde com o fato de você se relacionar com pessoas do mesmo sexo, isso em nada muda o meu apreço pelo indivíduo que você é. Se amanhã você aparecer na minha igreja, vou te receber com um abraço apertado, sentar ao teu lado e tirar todas as dúvidas que você porventura tenha quanto às questões de fé. Vou te apresentar a meus amigos da igreja e procurar compartilhar o amor que Cristo semeou no meu coração da melhor forma que eu puder. Claro que pediria respeito mútuo, o que inclui não ficar beijando outra pessoa do mesmo sexo na hora do culto, como algumas pessoas homoafetivas fizeram no passado (como foi amplamente divulgado pela mídia). Acredito que você, como pessoa inteligente que é, entende com toda clareza por que o que essas pessoas fizeram não é algo correto do ponto de vista da boa convivência. Foi bem desrespeitoso, na verdade.

A terceira coisa que queria é discorrer sobre por que existe essa discordância entre cristãos e gays. E aqui você não tem de concordar comigo, mas, pelo menos, pediria gentilmente que procurasse compreender por que não concordamos com a prática da homossexualidade. Veja: cremos que a Bíblia apresenta a ética e a vontade de Deus. Logo, acreditamos naquilo que ali está escrito como sendo a verdade absoluta do universo – por mais que o mundo pós-existencialista odeie o termo “absoluto” e prefira “relativo”. E a Bíblia diz que a prática da homoafetividade é pecado (palavra antiga, que significa “desobediência à vontade de Deus”). Diz isso de Gênesis a Apocalipse. Veja apenas dois exemplos:

Romanos 1:26-27 “Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro.”

Levítico 18:22 “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação.”

Logo, os cristãos entendem que a prática homossexual desagrada Deus. Você tem todo o direito de discordar disso! Eu respeito sua discordância. Ninguém é obrigado a crer no que eu creio. Mas, do mesmo modo, peço, por favor, que respeite meu direito de crer no que creio. Temos de concordar em discordar, mas sempre com carinho e afeto um pelo outro. E eu creio que – embora você e todos os demais homoafetivos sejam seres humanos merecedores de abraços sinceros, respeitáveis e amáveis – estão incorrendo em pecado quando põem em prática o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo (lembrando que “tentação” e “pecado” são conceitos bem diferentes, mas essa é outra discussão). Assim, se for de fato pecado, um dia você prestará contas. Mas a Deus, não a mim.

Gays3Aproveitando, queria pedir que me permita esclarecer algo sobre duas palavras que são usadas para se referir a mim no que tange à questão da homoafetividade pelo fato de eu discordar da prática homossexual. A primeira é “preconceituoso”. Pelo dicionário, “preconceito” é  “opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos.”. Gostaria de te explicar que eu discordar do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo não faz de mim, por definição, um preconceituoso. Pois tudo em que creio tem fundamento em dados objetivos, que são afirmações feitas ao longo da Bíblia, o livro que norteia minha vida. Você pode não crer em nada do que está ali, mas, por favor, pediria que respeitasse o fato de que eu creio. E, como creio, acredito que todos os dados objetivos que estão ali são verdade. Assim, não tenho “preconceito” contra a prática homossexual, mas sim um “conceito”, firmemente baseado em uma filosofia de vida (material e espiritual).

Outro termo é “homofóbico”. Pelo dicionário, “fobia” é “medo”. Assim, “aracnofobia” é “medo de aranhas”, “agorafobia” é medo de espaços abertos”. Me faz crer que “homofobia” seria “medo de homossexuais”. Bem, eu não tenho medo de você, tenho carinho e afeto pelo ser humano que você é. Também não tenho medo do que você pratica, eu discordo, mas não temo. Logo, não vejo a lógica de ser chamado de “homofóbico”. É como se eu chamasse você de “cristofóbico” porque discorda dos cristãos. Não acredito que seria correto dizer isso.

Bem, teríamos muito ainda a dialogar, sobre temas como o amor e a graça de Deus, as dores que você sofre quando é discriminado, vida eterna e tantas outras coisas envolvidas no relacionamento entre cristãos e gays. Mas não dá pra falar tudo de uma vez. Então vou encerrar por aqui, na esperança de que você tenha compreendido o que eu quis dizer. Não te odeio. Olho para você e vejo um ser humano tão humano como um heterossexual. Mas, com base na Bíblia, acredito que a prática da homossexualidade constitui pecado e levará quem a pratica a ter de prestar contas a Deus. Respeito se você não crê nisso. Porém, mais uma vez, peço, por favor, que você respeite o fato de eu crer.

Gays5O que me motivou a escrever este texto foi essencialmente mostrar que podemos nos tratar com gentileza e amor, mesmo que discordemos. Não há razão para os cristãos te tratarem mal. Não há razão para vocês nos tratarem mal. Podemos conversar civilizadamente. Olho para parlamentares e pessoas da mídia se agredindo e se ofendendo por causa de tudo o que aqui falamos e me entristeço enormemente. Abomino esse comportamento. E isso, se formos pensar bem, não tem a ver com religião ou sexualidade: tem a ver, acima de tudo, com educação e polidez. Chega de agressividade. Chega de ódio mútuo. Peço a Deus que consigamos conviver em paz e com respeito, sabendo que cada um dará contas de si e de suas ações diante do Criador.

Sabe, amigo homoafetivo que não professa a mesma fé que eu… tenho uma certeza: Deus, que é bom e misericordioso, deseja ter um relacionamento pessoal com a humanidade – inclusive com você. Minha oração é que isso aconteça e que você seja alcançado pela maravilhosa graça de Deus. O amor de Jesus, acredite, é maior e mais arrebatador do que o de qualquer pessoa.

Te desejo muita paz. Com respeito,
Mauricio

Formiga1Um programa de rádio evangélico me convidou para responder perguntas de ouvintes sobre casamento, família, relacionamentos, sexualidade e temas correlatos. Minha reação imediata foi recusar, por me sentir totalmente incompetente e indigno de fazê-lo – e já explico por quê. Mas o pastor responsável pelo programa insistiu que fosse eu. Diante disso, orei e pensei bastante sobre o assunto. Decidi ir em frente, pelas razões que compartilho com você neste texto. É possível que a linha de raciocínio que me fez aceitar o convite lhe seja útil em alguma situação que esteja vivendo ou venha a viver.

O primeiro motivo que, de cara, me fez querer recusar o convite foi a consciência de que há muitas pessoas infinitamente mais bem preparadas do que eu para falar sobre os temas referidos. Não digo isso com nenhuma falsa modéstia, é a mais pura constatação da realidade. Há tanta gente gabaritada, que estudou psicologia, que trabalha há anos com aconselhamento familiar, pastores e líderes, pessoas qualificadas e experientes. Eu, por outro lado, não sou um “especialista” em vida familiar, não sou sexólogo, tampouco cultivo um ministério na área de casais… nem ao menos um cargo eclesiástico tenho. Sou só uma ovelhinha balindo por aí. Então, a total consciência de que não sou a melhor pessoa para falar sobre esses assuntos me levou a dizer ao pastor responsável pelo programa que eu não era o convidado certo.

Como ele insistiu, orei e comecei a pensar em tudo aquilo que aparece em nosso caminho e que não nos sentimos qualificados para fazer. Isso já aconteceu com você? Em geral, é algo que ocorre em qualquer área de nossa vida (já teve de trocar uma tomada sem saber nada de eletricidade ou consertar a descarga do vaso sanitário sem entender a diferença de um parafuso para uma mola? Esse sou eu…). E, na vida eclesiástica, em especial, isso acontece com muita frequência. É quando, por exemplo, seu pastor te chama para liderar um departamento na igreja sem que você se sinta capaz. Ou quando um irmão te convida para participar do evangelismo e você não acha que dá conta. Ou mesmo quando a líder da escolinha infantil lhe oferece a possibilidade de ajudá-la no cuidado com os pequenos e você percebe que nunca educou uma única criança sequer na vida. Tarefas que você se sente incompetente para executar, mas que são postas nas suas mãos: e aí, o que fazer?

Formiga musculaçãoNão tenha absolutamente nenhuma dúvida de que o melhor é você ser um especialista, alguém que se preparou, estudou, leu muito sobre o assunto. Claro que há dons naturais, concedidos por Deus, mas se aprofundar no que precisa ser feito é o melhor dos mundos. Se o pastorado surge em seu caminho, melhor é que faça um seminário teológico, leia tudo o que puder e se dedique a cuidar de vidas humanas. Se é chamado para dar aulas, o ideal é que faça cursos e especializações pedagógicas. Se te convidaram para tocar no grupo de louvor e você sente que poderia ser um músico ainda melhor, procure estudar com um professor. E por aí vai. Seja qual for a atividade que te chamaram para realizar, o ideal é que você se aprofunde, leia livro atrás de livro sobre o assunto, estude, dedique-se, pratique, faça o que estiver ao seu alcance para se desenvolver. Mas, e se você não for um especialista e Deus, ainda assim, te chamar para realizar uma tarefa? Será que Deus errou? Não creio. Então, se o Senhor entregou algo em suas mãos, não fuja de Nínive: faça. Ou você pode acabar na barriga de um grande peixe.

Pedro era pescador, mas Deus o chamou para ser pregador. José não nasceu governador do Egito, certamente. Davi era pastor de ovelhas, mas o Senhor o convocou para se tornar guerreiro e rei. Moisés… bem, basta ler o diálogo dele com o Senhor em Êxodo 3-4 para ver quanto aquele homem se sentia despreparado para realizar a missão que lhe era confiada. Os exemplos são muitos. Conheço pastores que nunca cursaram um seminário teológico mas são cuidadores de almas infinitamente mais gabaritados, sábios e competentes do que muitos outros com doutorado em teologia. Se Deus te convocou para realizar algo, não se sinta incapaz: mãos à obra. E, uma vez que esteja com a mão no arado, faça de tudo para se especializar – leia muito sobre o assunto, estude, peça conselhos, vá à luta.

Formiga insignificanteMas houve uma segunda razão para eu querer, de cara, recusar quando o pastor me chamou para falar sobre vida familiar, relacionamentos e sexualidade. A questão é que eu mesmo já falhei tanto nessas áreas que me senti realmente indigno de abordar tais assuntos. Depois de 15 anos de casamento, não pense você que nunca tive problemas familiares. Claro que tive. Sou tão humano, falho e pecador como qualquer outra pessoa. Não serei hipócrita: já errei muitas e muitas vezes e deixei a desejar em incontáveis situações – como filho, como marido e como pai.

Estou aprendendo, errando e acertando, pecando e buscando não mais pecar. Tentando melhorar sempre, mais ainda longe, muito longe, da perfeição. Você também é assim? Eu sou, da cabeça aos pés. Pergunte a minha mãe sobre meus defeitos como filho e ela passará horas falando sem parar. Pergunte a minha esposa quantas vezes já pequei contra ela, a ofendi, entristeci e falhei em meu papel de marido e eu não teria coragem de ficar por perto para ouvir a resposta. Pergunte a minha filha meus deslizes como pai e… bem, graças a Deus a bebê ainda não percebeu que papai não é infalível, mas volte daqui a alguns anos e garanto que o relatório será extenso. Então este é o problema: a clareza sobre todos os meus muitos erros e pecados na vida familiar me fizeram pensar instantaneamente que não tenho nenhuma moral para opinar sobre o assunto. Quem sou eu para comentar sobre áreas em que já falhei tanto?

Mas, então, na oração que fiz após receber o convite, veio ao meu coração a lembrança de que Deus chamou pecadores para pregar contra o pecado. Convocou homens imperfeitos para pregar a perfeição. Intimou gente abatida para proclamar a alegria. Conclamou doentes a orar pelos enfermos. Constrangeu carentes a anunciar a plenitude. “O SENHOR olha dos céus para os filhos dos homens, para ver se há alguém que tenha entendimento, alguém que busque a Deus. Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.2-3). Deus nunca chamou pessoas irretocáveis para fazer sua obra – ele só usa gente capenga.

SuperformigaOu você acha mesmo que existem supercrentes? Cristãos infalíveis? Não viemos de Krypton, minha irmã, meu irmão: em pecado fomos gerados e, embora tenhamos sido justificados pela graça, seguimos atrelados ao “corpo sujeito a esta morte”: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?” (Rm 7.18-24), confessou o sincero Paulo, pecador que Deus chamou na estrada de Damasco para realizar exatamente o oposto daquilo que ele fez a vida inteira.

O pecado que habita em nós cisma em não ir embora e nossa natureza aguarda a ressurreição em glória, quando, só então, estaremos livres de errar. Até lá a coisa está feia. Mas, mesmo em meio a toda essa feiura, Deus nos convoca para proclamar a beleza das virtudes cristãs. Não conheço um único pregador que suba ao púlpito sem pecados, erros, falhas e fraquezas nas costas. Nenhum. Tampouco palestrantes – nacionais ou internacionais. Ou professores de seminário teológico ou de escola bíblica. Nenhum. Absolutamente todo ser humano que prega o evangelho e os valores cristãos tem montes e montes de defeitos e escorrega constantemente em sua falibilidade. Se você conhece alguém que ensine, aconselhe, pregue ou trabalhe na obra de Deus e seja impecável em suas ações, desconfie que é Jesus Cristo disfarçado – porque só ele é puro, só ele é digno. “Vi um anjo poderoso, proclamando em alta voz: ‘Quem é digno de romper os selos e de abrir o livro?’ Mas não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que pudesse abrir o livro, ou sequer olhar para ele. Eu chorava muito, porque não se encontrou ninguém que fosse digno de abrir o livro e de olhar para ele. Então um dos anciãos me disse: ‘Não chore! Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos’” (Ap 5.2-5). Nem uma única alma está isenta de indignidade. Quem nos dignifica é Cristo.

Vasos de barroQuando essa ficha caiu, percebi que não era a minha dignidade ou a minha infalibilidade que me tornaria apto a falar verdades bíblicas: o que tem efeito são a dignidade e a infalibilidade de Jesus e da Palavra de Deus. A leitura de 2Coríntios fechou para mim a questão: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a nós como escravos de vocês, por causa de Jesus. Pois Deus, que disse: ‘Das trevas resplandeça a luz’, ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2Co 4.5-7).

Por isso, meus muitos erros não devem me impedir de proclamar a verdade inerrante das Escrituras. É evidente e até desnecessário dizer que você deve sempre fugir do pecado e procurar com todas as suas forças manter-se em santidade – isso sempre, sempre e sempre. Sua falibilidade jamais deve ser uma desculpa para falhar. Mas entenda, meu irmão, minha irmã, que o fato de você ser falho não deve impedi-lo de pregar sobre Aquele que não falha. O fato de você errar não pode calar teus lábios para anunciar o único que não erra. A certeza da sua pecaminosidade jamais pode fazer com que você não pregue contra o pecado e exalte Aquele que nos livra do pecado. Em resumo, mesmo sabendo que não valemos nada, Deus nos chamou para disseminar a verdade, a pureza, o amor, a graça, a restauração, a união, o perdão e tudo aquilo em que falhamos tantas vezes e continuaremos a falhar.

Se Deus fosse esperar que pessoas perfeitas pregassem e ensinassem acerca do evangelho, jamais as boas-novas teriam sido pregadas ou ensinadas. Jamais. Mas é claro que o Diabo vai tentar usar a sua indignidade para calar você. Ele te acusará e tentará convencê-lo de que seus erros o tornam incapacitado para fazer qualquer coisa para Deus. Se você acreditar nisso, as trevas terão derrotado a luz. Não permita que isso aconteça. Judas permitiu e se enforcou. Pedro não permitiu e se tornou o grande apóstolo aos judeus.

E foi assim, com total consciência de que não sou a pessoa mais bem preparada do mundo e de que sou totalmente indigno de fazê-lo, que aceitei participar do programa de rádio. Espero que tenha abençoado algumas vidas. Espero que tenha servido aos propósitos do reino de Deus.

Dependente de DeusAproveito essa minha experiência para perguntar: quantas vezes você deixou de servir a Deus por se sentir despreparado? Quantas vezes você deixou de pregar sobre algo, ensinar, aconselhar, evangelizar, amparar, ajudar, edificar porque se sentia indigno de fazê-lo? Se Deus chamou, meu irmão, minha irmã, vá em frente. Se tem dúvidas de que foi Deus, busque o esclarecimento em oração. Mas, se sente aquela paz sobrenatural no seu coração, então seja forte e corajoso, não tema nem desanime. Porque, se o Senhor convocou você a fazer algo, ele garante. Acredite: o Todo-poderoso não é bobo nem toma decisões impensadas. Se é você o escolhido, nada nem ninguém impedirá Deus de usar a sua vida em prol de seus grandes, graciosos e eternos propósitos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Morte0De vez em quando eu me pego pensando sobre o exato momento em que deixaremos esta vida e ingressaremos na eternidade. Como será? Já parou para imaginar isso? Normalmente, as pessoas fogem de falar sobre a transição desta vida para a sua continuação no plano espiritual – o que costumamos chamar de “morte”. Consideram um assunto lúgubre, sombrio, deprimente, algo até mesmo agourento. Eu não. Claro que penso sobre isso com expectativa e um certo temor pelo desconhecido, mas, quando leio na Bíblia todas as promessas sobre a vida eterna, alento e ansiedade brotam em meu coração. Então, sim, por vezes me pego pensando em como será o momento exato da morte, de maneira parecida com um jovem que sente um calafrio ao imaginar o primeiro dia na faculdade, uma mocinha que cogita como será engravidar, um menino ansioso pela expectativa do primeiro emprego, um casal trêmulo antes da noite de núpcias. Não há descrições claras e objetivas nas Escrituras que nos permitam ter certeza de como será com exatidão o instante da morte, essa é uma área que a Bíblia mantém nas sombras. Mas temos algumas pistas bíblicas que nos dão paz e nos trazem consolo quanto à partida dos nossos entes queridos e a nossa própria, se morremos em Cristo.

Primeiro é importante percebermos que a Bíblia aponta a eternidade como uma existência totalmente desprovida de sofrimento, tristeza, preocupações, estresse. A entrada no reino final é sinônimo de paz. A tão falada “paz do Senhor” será experimentada plenamente no porvir. João registrou em Apocalipse informações que, de forma bem generalista, anunciam como será o estado eterno dos salvos: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.1-4).

No porvir, os salvos não sentirão mais tristeza nem sofrerão. Isso nos revela uma realidade sobre o momento da morte: a maneira como você morre não faz nenhuma diferença, se dormindo, acordado, atropelado, afogado, de embolia, de pneumonia, de infarto, escorregando no banheiro, de câncer, numa queda de avião, em decorrência da Aids. Seja da forma que for, pela causa que for, sofrendo nos instantes finais o quanto se sofra… no exato instante em que seu espírito fechar atrás de si a porta do corpo decaído e falido e der o primeiríssimo passo dentro do reino eterno, tudo aquilo que causa dor e tristeza vai acabar. Imediatamente. Instantaneamente. Num piscar de olhos. Não há injeção de morfina que se compare ao fim do sofrimento que entrar na eternidade causará.

Mergulho0Se você parar para pensar, perceberá que, todas as vezes em que alguém fala sobre a própria partida desta vida, o que se traz à tona são os instantes que antecedem a morte e raramente você ouve alguém mencionar os instantes que a sucedem. Fala-se muito sobre como se preferia morrer, dormindo, sem sofrimento, assim ou assado. Sempre o que se destaca é o antes – e geralmente com certo receio e temor (natural, afinal, quem quer sofrer em seus instantes finais?). Pouco se fala da alegria que atravessar a cortina da vida vai proporcionar. Por isso, queria convidar você a dar asas a sua imaginação junto comigo. Em meus devaneios, costumo fazer uma analogia desse momento. Imagine que você está em um calor sufocante e salta em uma piscina gelada. No segundo em que seu corpo transpõe a linha d’água, a sensação de frio instantaneamente toma conta de si. É uma entrada imediata em uma realidade que muda tudo. Assim, imagino o mergulho na morte não pela perspectiva do “calor” que se sentia momentos antes, mas do “frio” que se sentirá momentos depois. Nesse sentido, a história bíblica do mendigo Lázaro é muito significativa e esclarecedora.

O próprio Jesus fez esse relato, que uns dizem ser uma parábola e outros, uma realidade – eu não sei, ninguém sabe com absoluta certeza. Mas, seja uma ilustração ou não, essa história é magnífica no que tange à esperança pós-morte. Disse o Senhor: “Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão” (Lc 16.20-22). Lázaro vivia em pobreza extrema, não tinha trabalho nem condições de comprar um pouco de comida que fosse. Além disso, era doente. Se você tem uma ferida dolorosa sabe o incômodo que é, então tente imaginar o que é ser “coberto” de chagas. Fica claro que ele tinha ferimentos dos pés à cabeça, o que devia causar uma dor constante que beirava a agonia. Meu irmão, minha irmã, é muito sofrimento. Aquele cidadão vivia, da hora em que acordava até a de dormir, em meio a uma dor que não dá pra imaginar. Talvez tivesse insônia. E, não bastasse a fome, a escassez, a dor e o sofrimento, ele ainda era obrigado a conviver com a humilhação de ficar sendo lambido por um bando de animais.  Será que você consegue dimensionar quanto aquele pobre homem sofreu – fisicamente e emocionalmente – durante anos?

Morte2Até que Lázaro deu o passo para fora deste mundo. Fico pensando com fascinação sobre aquele instante. Seu corpo chega ao limite, sem suportar mais. Entra em falência. Ele morre. Visualize o preciso segundo daquela morte. De olhos abertos, talvez em meio a muitas lágrimas, ele sente aquela dor lancinante provocada pela soma de muitas úlceras, da fome, da miséria humana. Um trapo. Então Deus sussurra: “Vem…”. Lázaro fecha os olhos. Um segundo depois, abre-os novamente. Como alguém que entra em uma piscina gelada e deixa instantaneamente de sentir calor, num piscar de olhos as dores físicas, o senso de humilhação, o vazio no estômago, toda a desgraça daquele mendigo simplesmente desaparece. Ele fecha os olhos no último suspiro e, quando os abre, já numa sensação de total paz e ausência de sofrimento, vê um grupo de anjos diante de si. “Levado pelos anjos…”, afirma Jesus. Suponho que estarão sorrindo, porque a alegria que sentem ao receber mais um salvo que chega à casa do Pai deve ser enorme. Pense em como Lázaro não deve ter se sentido ao ver aquele comitê de boas-vindas! O pedinte doente e sofredor é recebido por seres celestiais. Da miséria absoluta à mais plena glória!

A partir daqui é puro voo da minha imaginação. É quando já não vejo Lázaro nessa situação, penso em mim mesmo. Penso em você. Penso em cada um de nós. Fico supondo que aqueles anjos nos tomarão pela mão, ou nos envolverão num abraço, para nos conduzir à tão esperada e ansiada presença do Criador do universo, o Autor da vida, o Rei dos reis e Senhor dos Senhores. O nosso Pai. Nos meus sonhos especulativos, creio que esse encontro nos porá em nosso devido lugar, porque, diante daquela tão pura essência de santidade, a lembrança de nossa multidão de pecados nos lançará em terra e cravará o rosto no chão, em adoração a tão magnífico ser e em contrição pelo nosso histórico de pecados e falhas, transgressões e desobediências. Mas, então, penso eu, ouviremos de seus divinos lábios:

- Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

Surpreso com essa declaração injusta, uma vez que teria total consciência de quem fui na terra e da multidão de pecados que estaria carregando, eu diria:

- Mas, Senhor, eu não sou digno…

E o Pai sorrirá. Então ele trará à luz por que nos chamou de “bom e fiel” se somos tão maus e infiéis – a razão da cruz, o motivo da encarnação do Verbo e da morte do Cordeiro:

- Eu sei que você não é digno, filho, mas você não está aqui pela sua dignidade. Está aqui pela graça. Pelo amor. Pela cruz. Pelo sangue de Jesus, derramado pelos seus pecados. Nenhuma condenação há para quem chegou aqui por meio de Cristo, daquilo que meu Filho fez no Calvário.

Morte3Pronto, está consumado, entramos na eternidade. Não há mais choro, nem dor. Só a presença do Senhor, desvendado em toda a sua glória. O que virá depois disso eu não sei, é um absoluto mistério. Mas me apego às palavras de Paulo, o homem que foi arrebatado ao coração dos segredos do Senhor e viu coisas inefáveis: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9).

A morte chegará. Para os salvos, não é um tema sombrio. É um passo dentro de um reino sem sofrimento, para o abraço dos anjos, para a presença daquele que então veremos face a face e que nos amou desde antes da fundação do mundo. E, ao final de todas as coisas, todos os que derem aquele passo se reunirão e, juntos, dirão: “Aleluia!, pois reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-poderoso. Regozijemo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória!” (Ap 19.6-7).

Que linda esperança…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício