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Deus fala1Ser cristão é, acima de tudo, relacionar-se. Nossa fé tem a ver com estabelecer um relacionamento real e diário com Deus e com o próximo. Com o próximo é fácil, todos sabemos nos comunicar uns com os outros; mas quando se trata de ouvir o Todo-poderoso, aí a coisa fica complicada. Desde que nos convertemos, começamos a escutar com frequência comentários, pregações e músicas de louvor mencionarem a “voz de Deus”. Paradoxalmente, é bastante comum eu ouvir irmãos e irmãs em Cristo confessarem que não entendem muito bem como funciona isso. Afinal, o Senhor não costuma conversar conosco face a face, com uma voz que chegue a nós pela audição. E, assim, acabamos confusos e sem entender como é possível ouvir Deus falar. Gostaria de convidar você a uma reflexão sobre isso.

Todos já ouvimos pessoas testemunharem que de fato ouviram Deus falar com elas com uma voz audível, tal qual Samuel escutou quando era criança. Acredito que isso ocorra de fato, como um fenômeno sobrenatural, mas, convenhamos, são raríssimas exceções. Na maioria das vezes não ouvimos Deus falar com uma voz que se assemelhe à humana (que pudesse ser descrita como “ah, é uma voz meio grave, um pouco rouca…”). Nada disso. Na esmagadora maioria das vezes, o Senhor fala conosco de maneiras sutis, que exigem de nós estar em sintonia com ele para identificarmos que se trata realmente de uma comunicação com o Divino.

Estar em sintonia com Deus é fundamental, pois só assim conseguiremos detectar quando é ele quem está falando. Deixe-me dar um exemplo. Sabe quando você conhece tão bem seu esposo, ou sua esposa, que basta ele lançar aquele olhar e você compreende tudo o que ele quer dizer? Pois isso só ocorre com quem está em sintonia e tem bastante proximidade. Meu pai, por exemplo, tem certas expressões faciais características, que, só de eu bater o olho, sei se ele gostou de algo ou não. Isso é fruto de muita convivência e intimidade. Assim, se você quer ouvir Deus falar, precisa se aproximar dele, por meio das disciplinas espirituais – oração, jejum, estudo da Palavra, perdão, atos de amor ao próximo, entre outras. Não tem segredo: só buscando a Deus por meio dessas práticas você desenvolverá uma sintonia capaz de fazê-lo reconhecer quando ele fala.

Portanto, para ouvir alguém é preciso estar próximo, ser íntimo. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo 10.27).

Deus fala2Naturalmente, o meio mais frequente e imediato de ouvir a voz de Deus é pela leitura bíblica. A Palavra é a expressão máxima da voz do Criador. Nas páginas das Escrituras a voz de muitas águas transborda. Uma vez que você lê o texto sagrado com um coração aberto e segundo as normas corretas de hermenêutica, passagens inteiras passam a apontar caminhos, oferecer esperança, propor formas de agir, ensinar verdades do evangelho. Assim, se você quer ouvir Deus falar, eu recomendaria como indispensável ter uma rotina de relacionamento com ele em que a leitura das Escrituras tenha um lugar especial. E não apenas leia as palavras da Bíblia. Medite nelas. Reflita sobre elas. E, quando menos esperar, muito do que Deus quer te falar passará a ser realidade via letras impressas em papel. O Sola Scriptura deve sempre nortear a dinâmica de atentar à voz do Divino.

Como explica o filósofo e escritor Dallas Willard, Deus também fala gerando em nossa mente pensamentos que têm uma qualidade característica, um conteúdo espiritual específico. Esse aspecto deve ser considerado com enorme cuidado, com extrema cautela, pois é absurdamente frequente pessoas acharem que “Deus lhes disse” algo quando, na verdade, o que há é um mero pensamento humano. Desse modo, é muito fácil pôr palavras na boca de Deus, o que, lembremos, é pecado. Portanto, se vier um pensamento à sua mente e você achar que é a voz do Senhor, ore, avalie à luz da Bíblia e tenha muito temor antes de afirmar que foi “Deus quem falou”. Lembre-se de que ele jamais vai contrariar o que afirma nas Escrituras. Portanto, sempre desconfie dessa voz interior. Recomendo que você teste a suposta “voz de Deus” usando o que Frederick B. Meyer propôs: avalie as circunstâncias, verifique as impressões do Espírito e confira com o que diz a Bíblia. Também é recomendável acrescentar a recomendação de Rick Warren: avaliar o que se ouviu à luz da sabedoria divina do conselho cristão. Sempre teste o que você “ouve” e o que as outras pessoas ao seu redor afirmam ouvir. Sempre.

Deus fala3Mas existe outra forma de Deus falar, que é bem interessante: por meio das circunstâncias corriqueiras da vida, de fatos que ocorrem no dia a dia. São frases oriundas do coração do Pai que dispensam sujeito, verbo e predicado. Sim, o Senhor se expressa por meio de ações e fatos, como bem nos mostra a Bíblia: uma tempestade foi a forma de Deus dizer a Jonas que ele estava em desobediência. Dez pragas foram o discurso do Todo-poderoso ao faraó. A esterilidade foi a bronca do Senhor a Mical. Um véu rasgado foi o tratado teológico do Onipotente sobre a consumação da cruz. Vemos muitas vezes as circunstâncias representarem a voz de Deus e – novamente – precisamos estar sensíveis ao Senhor para compreendermos quais eventos representam uma afirmação divina a nós, caso contrário podemos nos tornar místicos que veem Deus na mancha de uma parede ou nas caixinhas de promessa.

Eu mesmo fui consolado pelo Senhor em uma manhã, há poucos dias. Estava sofrendo e abatido e, por isso, busquei ao Senhor em meio a lágrimas de impotência. Para minha surpresa, o que veio ao meu coração naquele momento foi o desejo de escrever um texto para o APENAS, que tratava do versículo de Lamentações 3.21 (“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”). Sentei-me, orei e escrevi o primeiro parágrafo. No preciso momento em que eu escrevia, minha esposa, que sabia pelo que eu estava passando e se encontrava a caminho do trabalho, sem que combinássemos nada ou tocássemos no assunto enviou-me um texto por SMS. Ela simplesmente escreveu: “Para refletirmos: ‘Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do veneno. Minha alma continuamente os recorda e se abate dentro de mim. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma, portanto esperarei nele.’ Lamentações 3.19-24″.

Coincidência? Claro, pode ser, se você crê no acaso. Um evento como esse pode ser visto como pura coincidência, sem sombra de dúvida. Um ateu riria se eu dissesse que aquilo foi um ato de Deus. Mas senti em minha sensibilidade espiritual que eu e minha esposa termos pensado na mesma passagem bíblica (entre tantos milhares de outras), no exato mesmo instante, sem nada específico que nos tivesse remetido a ela, somado ao fato de minha esposa ter-me enviado o texto no preciso momento em que eu mais precisava ler aquilo… não era coincidência, mas uma forma de Deus se fazer ouvir e confirmar que de fato eu deveria dar especial atenção ao que diz esse texto das Escrituras. E, sem que eu precisasse ouvir um decibel sequer pelos ouvidos, percebi no meu espírito que Deus me dizia para trazer à memória quem ele é. E isso me deu esperanças.

Meu irmão, minha irmã, Deus fala. Na absoluta maioria das vezes, ele não o fará de forma espetacular, com voz audível, mas sim por meio de trechos contextualizados da Bíblia sagrada, por uma inequívoca realidade interior ou por meio de circunstâncias da vida que tornariam a palavra “coincidência” algo difícil de crer. Cabe a mim e a você estarmos em sintonia com o Senhor para sabermos discernir corretamente se é ele quem está falando ou não. Nosso Aba interage conosco e se relaciona. Deus não é um observador estoico e indiferente, ele aprecia interagir. Como Pai que é, ele gosta de ter essa intimidade conosco. Mas é somente mediante uma vida de proximidade com ele que isso será possível.

Deus fala4Nas épocas de minha vida em que vivi mais longe de Deus, as vozes que ouvi e segui só me conduziram a caminhos de morte, e o fruto disso foram dores e arrependimento. Escutei a voz do mundo, a da minha própria carne, a do Diabo, a do pecado e muitas outras. Pois todos falam o tempo todo; a questão é: a quem daremos ouvidos? “A voz de Deus troveja maravilhosamente; ele faz coisas grandiosas, acima do nosso entendimento” (Jó 37.5). Essa é a única voz que ressoa de forma maravilhosa. Ouça-a.

Fica aqui minha recomendação: tenha uma rotina prazerosa de oração. Discipline-se para ler as Escrituras. Conforme-se ao caráter de Cristo mediante práticas como o perdão, a ajuda ao necessitado e o socorro ao que sofre (Mt 25.31-46). Em outras palavras, viva uma vida da qual Jesus fará parte ativamente. Ao praticar regularmente essas disciplinas, você se conformará à natureza de Cristo e viverá tão perto de Deus que bastará um olhar dele para que você descubra tudo o que ele deseja dizer ao seu coração.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

castigo1A Supernanny do Brasil, a educadora argentina Cris Poli, é uma das autoras da editora em que trabalho, o que me permite o privilégio de editar os livros dela. Para um pai de uma menina de 3 anos, como eu, isso é ótimo, pois posso aprender muito sobre a criação de filhos enquanto trabalho. Confesso que, apesar da gritaria contra a Lei da Palmada, não sou adepto de bater em filhos, por isso adotei com minha bebê a técnica do Cantinho da Disciplina, defendida pela Cris, que nada mais é do que uma forma elaborada do bom e tradicional castigo: se há uma desobediência e a filhota não obedece depois da primeira advertência, tem de ficar três minutos sentadinha numa cadeira de minha casa, pensando sobre o que fez (é um minuto para cada ano de vida da criança). Ao final, a pequena precisa pedir desculpas e o pai termina a disciplina dando muitos beijinhos e abraços, com afirmações de “eu te amo”. Dá muito certo, recomendo. Houve um episódio recente que me fez ir além do que está na cartilha, para ensinar à pequena mais do que apenas obedecer.

Sempre que tenho oportunidade, procuro ensinar a ela valores cristãos, naturalmente utilizando recursos e linguajar adequados à sua idade. Concordo com um pastor conhecido, que diz que costumamos em nossas igrejas valorizar muito o ensino de histórias da Bíblia para as crianças, em detrimento da ética bíblica. Eu procuro, sim, contar as historinhas de Sansão, Ester, Jonas, Daniel e Jesus, mas também me esforço para transmitir as verdades sagradas fundamentais. Afinal, as Escrituras dizem o que devemos fazer: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Pv 22.6). Repare que o texto bíblico não diz que devemos ensinar histórias, mas apontar princípios. Então é o que tento fazer, sempre que surge oportunidade.

graça1Recentemente minha filha teve um dia complicado. Dormiu pouco, estava com sono e muito ranzinza. Por isso, acabou me desobedecendo e, por sua insistência em não fazer a coisa certa, decidi que deveria pô-la no Cantinho da Disciplina. Naquele dia, ela estava especialmente cabeça dura e se recusou a ficar sentada no lugar designado, pensando. Era eu colocá-la na cadeira e ela descia, se negando a ficar no local. Cumpri toda a cartilha da Cris: reconduzi minha filha à tal cadeira algumas vezes, com paciência e sem perder o autocontrole, mas a pequena sempre voltava a sair. Foi quando tive uma ideia e resolvi subverter a estratégia, aproveitando para ir além da pedagogia, a fim de ensinar princípios cristãos fundamentais.

- Filha, esta é a última vez que eu falo: você não vai ficar no castigo?

- Não – deu o ultimato, desafiadora.

Então eu respondi:

- Então quem vai ficar no seu lugar sou eu.

Sob o olhar espantado dela, caminhei até a cadeira do castigo e me sentei. Expliquei:

- Você desobedeceu e deveria ficar em disciplina. Bem, alguém precisa ficar de castigo por causa da sua desobediência. Então eu vou ficar. E como tenho 42 anos, vou ficar 42 minutos.

Sentei e me calei.

O efeito foi imediato e surpreendente. Ela ficou me olhando, estática, sem dizer uma palavra, por um longo tempo. Como viu que eu não estava brincando, percebi que ficou muito confusa com minha atitude. Como assim, o papai ficar no castigo em meu lugar?, eu lia claramente nos seus olhos. Mas foi o que aconteceu. Como avisei que faria, ali permaneci. Ela caminhou devagarinho para fora do quarto. Não deu um minuto e ela tinha voltado, se arrastando junto à parede. Chegou à porta e ficou espiando de canto de olho. Sumiu. Voltou de novo. Eu estava ali havia alguns minutos quando ela veio, apoiou as mãos na minha perna e falou, bem baixinho:

- Pa-paaaai?

- Sim, minha filha?

- Você vai ficar aí?

- Vou, filhinha.

- Por quê?

- Porque você desobedeceu e alguém tinha de ficar de castigo por isso. Então eu decidi que vou ficar no seu lugar.

Ela piscou algumas vezes, em silêncio, e percebi que tudo aquilo parecia muito estranho. Não fazia sentido. Notei quão reflexiva ela ficou ao ver minha atitude. A pequena saiu devagarinho do quarto, de novo. Passou um tempinho e ela retornou.

- Papai, já pode sair? Quer vir brincar comigo?

Eu respondi:

- Filhinha, eu até queria sair, mas não posso. Tenho de cumprir o castigo no seu lugar até o fim. Se eu sair antes dos 42 minutos não vou ter feito a minha parte e a disciplina não terá efeito.

Ela pensou um pouco, tentando entender a lógica de tudo aquilo. Quando, finalmente, parece que captou a razão de eu estar ali em seu lugar, ela se aproximou, deitou a cabeça no meu colo e ficou fazendo carinho nos pelos da minha perna. Ficamos ali, em silêncio, por mais de dez minutos. Ela, então, novamente se virou para mim e perguntou:

- Já acabou, papai?

Olhei para o relógio e respondi:

- Não, bebê, estou só na metade do tempo do castigo.

Ela voltou a se aninhar no meu colo, desta vez se encolhendo toda. E ali ficou. Quando me dei conta, estávamos abraçados, esperando, juntos, o tempo passar. De vez em quando ela me olhava, como se quisesse dizer “Já acabou?”, e eu apenas sorria, demonstrando que ainda faltava tempo. Até que os 42 minutos chegaram ao fim.

- Pronto, filhinha, papai já pode sair do seu castigo.

Ela abriu um largo sorriso. Abraçou-me e me beijou e, para minha surpresa, disse o que eu costumo dizer a ela ao final de um momento de disciplina:

- Eu te amo, papai.

Em seguida, imediatamente se empertigou e me puxou pela mão.

- Vem, papai, vem ler um livro pra mim!

E lá fomos nós, para uma tarde bastante agradável de intimidade entre pai e filha. Passadas umas duas horas do fim da disciplina, em um momento em que ela estava menos agitada, aproveitei e lhe perguntei:

- Filha, você sabe o nome daquilo que o papai fez, quando ficou no castigo em seu lugar?

Ela olhou, em silêncio, à espera da resposta.

- Aquilo se chama “graça”. Significa que eu fiz por você o que eu não precisava fazer e que você não merecia, mas por amor eu decidi pagar o preço da sua desobediência. Sabe quem também fez isso? Jesus.

E comecei a explicar, num linguajar adequado para sua idade, o que Jesus fez na cruz pela humanidade transgressora. Eu já havia falado sobre a cruz antes, mas acredito que, dessa vez, o relato do sacrifício do Senhor teve uma compreensão muito mais aprofundada.

Eu e minha esposa temos o hábito de, sempre que a pequena come o alimento todo nas refeições, celebrar com festinha e cantando uma musiquinha que inventamos com o nome dela. Se ela come tudo, cantamos; se não come, não tem música. No dia seguinte a eu ter sofrido o castigo no lugar dela, na hora do almoço minha filha não comeu tudo o que estava no prato. Ela pediu para cantarmos a musiquinha, mas eu respondi que não, porque ainda tinha ficado papá. Foi quando ela fez uma carinha fofa e sincera e disse:

- Papai, e por graça? Por graça vocês cantam?

graca0Eu sorri. Olhei para minha esposa e cantamos a música. Percebi que minha filha, hoje, compreende melhor o conceito principal da nossa fé: a graça de Deus. Ela sabe que Jesus é mais do que um desenho em uma Bíblia infantil ou um nome que a gente fala ao final da oração, antes de comer. Ela agora percebe que Jesus é alguém que fez de fato algo concreto por ela, num gesto de amor em que ele pagou o preço por algo de ruim que ela fez. E que nós recebemos as bênçãos do alto não necessariamente por retribuição a algo de bom que façamos, mas porque o coração de Deus é cheio dessa coisa chamada graça, que o levou a sofrer o castigo que ele não merecia, por compaixão por cada um de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

propinaAs eleições estão se aproximando. Este período de campanha política costuma ser momento de muito bochicho sobre atos de corrupção nas esferas de poder, um mal que assola as instituições públicas. A verdade é que vivemos cercados de corruptos. Compre o jornal de hoje e você verá escândalos de corrupção ocuparem as primeiras páginas. Compre o de amanhã e verá também. E, provavelmente, continuará vendo por quase todos os dias de sua vida. Em geral, os casos de corrupção mais escandalosos são aqueles que ocorrem no governo, entre deputados, funcionários públicos, ministérios… esses são os que ganham mais visibilidade. E nós nos indignamos quando tomamos conhecimento disso, com toda razão. Afinal, não pagamos impostos para que nosso dinheiro vá parar numa conta na Suíça ou debaixo do colchão de algum político espertalhão – quando isso acontece é revoltante mesmo. Converse com qualquer pessoa do seu círculo de amizades e ela se mostrará indignada com a corrupção nas esferas de poder, na polícia, em empresas estatais, entre aqueles que ocupam cargos que lhes abrem grandes possibilidades de corromper e ser corrompidos. O curioso é que essas mesmas pessoas que metem o malho nos corruptos muitas vezes praticam atos de corrupção elas próprias. E, se pararmos para pensar, talvez nós mesmos sejamos corruptos e não tenhamos nos dado conta disso.

O jornal O Globo entrevistou o cientista político Alexandre Gouveia, que fez uma lista de quinze práticas de corrupção cotidiana. Veja se você pratica ou já praticou alguma(s) delas:

1. Não dar nota fiscal.

2. Vender ou comprar produtos falsificados e/ou contrabandeados.

3. Não declarar produtos comprados no exterior, para evitar o recolhimento de impostos.

4.  Não declarar rendimentos extras no Imposto de Renda.

5.  Usar o vale refeição para fazer compras no supermercado.

6. Estacionar veículos, utilizar filas prioritárias e assentos destinados exclusivamente para idosos e deficientes.

7. Vender seu voto ou trocá-lo por algum benefício pessoal, como emprego, material de construção, cesta básica etc.

8. Na escola, dar uma olhada na resposta do colega (a famosa “cola”).

9. Andar com o veículo pelo acostamento.

10. Evitar uma multa oferecendo dinheiro ao policial.

11.  Furar fila.

12. Fazer ligação ilegal de serviços como TV a Cabo, Energia Elétrica etc.

13. Apresentar atestado médico falso.

14.  Falsificar carteirinha de estudante para obter descontos e benefícios.

15.  Bater o ponto de trabalho para o amigo.

cola na escolaVocê pratica ou já praticou alguma dessas quinze ações? Se sua resposta foi positiva, tenho uma má notícia: você é um corrupto. Talvez pense que exista corrupção que seja “menos corrupção” do que outra. Biblicamente falando, não existe. “Quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente. Pois aquele que disse: ‘Não adulterarás’, também disse: ‘Não matarás’. Se você não comete adultério, mas comete assassinato, torna-se transgressor da Lei” (Tg 2.10-11). Assim, vemos que aquilo que você poderia considerar um simples “jeitinho” ou uma prática “que não faz mal a ninguém” é tão séria, ilegal, desonesta e grave como o escândalo do Mensalão, por exemplo. Por quê? Porque é uma questão de princípios, não de quantias. Se um político recebe milhões de propina para beneficiar uma determinada empresa numa licitação ou se você dá uma propina de algumas dezenas de reais a um policial para não receber multa, o erro foi o mesmo: propina. Quanto dinheiro estava envolvido? Aí já é um segundo aspecto, mas o primeiro já está definido: você corrompeu ou foi corrompido. O que faz de você um corrupto.

A casa construída porque você deu propina ao fiscal para liberar a obra é um atestado de corrupção. Sua carteirinha de estudante falsificada para pagar meia entrada é um atestado de corrupção. A nota da sua prova obtida espiando a prova do colega ao lado é um atestado de corrupção. O gato na sua casa é um atestado de corrupção. As horas de trabalho acumuladas mas não trabalhadas são um atestado de corrupção. Aquela caneta ou outro objeto que você levou do seu local de trabalho para casa sem autorização é um atestado de corrupção. Aqueles minutos que você economizou subindo com o carro pelo acostamento ou trafegando pela via exclusiva dos ônibus são um atestado de corrupção. A bandalha que você fez no trânsito é um atestado de corrupção. A comida que você comeu antes porque furou a fila do restaurante é um atestado de corrupção. Meu irmão, minha irmã, se a carapuça serviu, para mim ou para você… estamos mal na fita e não temos nenhuma moral para criticar os políticos corruptos.

propina2Claro que essa percepção não deve ter como objetivo desculpar os políticos corruptos nem deixar você com sentimento de culpa, mas conduzi-lo a uma reflexão acerca do seu comportamento. Não podemos, como Igreja de Cristo, acreditar que realizar “pequenas” transgressões (isso existe?) seja algo de menos importância e que não exija um profundo arrependimento de nossa parte. A proposta bíblica é que fujamos da corrupção que há no mundo: “Seu divino poder nos deu tudo de que necessitamos para a vida e para a piedade, por meio do pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude. Dessa maneira, ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça” (2Pe 1.3-4). O termo no original grego que Pedro usou aqui e que foi traduzido em português como “corrupção” é “phthora”, que significa “decadência”, “ruína” (literal ou figurativa), “corrupção”, “destruição”. Dá o que pensar.

Ninguém é perfeito. Você não é, eu não sou. Já cometi ao longo da minha trajetória (inclusive após a conversão) muitos atos de corrupção, que, até mesmo, não achava na hora que tinham algo de mais mas, hoje, vejo que foram atitudes totalmente erradas. Sim, já me corrompi, por isso não falo de nada que eu mesmo não tenha vivido – para minha vergonha, mas também para minha constante percepção de quanto sou um miserável pecador e careço desesperadamente e diariamente da graça de Deus. Como servos e filhos do Deus santo, não podemos nos conformar em praticar irregularidades, desonestidades e atos que configurem desrespeito ao próximo e deixar tudo por isso mesmo. Porque, senão, estaremos nos conformando com este mundo, o que contraria os ensinamentos bíblicos (cf. Rm 12.2). Furar fila não é “só” furar fila, pelo contrário, é uma ação que demonstra que você não respeita o direito do próximo. Logo, você não está demonstrando amor pelo próximo e, portanto, está transgredindo o grande mandamento.

Convido você a um exame de consciência. Pense naquilo que tem feito e em como enxerga esse tipo de pecados que se convencionou chamar de “menores”. Eles não são menores, pois demonstram falta de temor pela santidade divina. Entenda, meu irmão, minha irmã, que meu objetivo com essa reflexão não é deixar você mal, mas, se perceber que tem pecado nesse sentido, conduzi-lo ao arrependimento e à mudança de atitude. Pense e ore. Identifica “pequenos” atos de corrupção em sua vida que o tornam tão culpado como os políticos ou policiais corruptos? A hora de mudar é esta. Peça perdão a Deus e dê uma guinada na sua atitude (Pv 28.13). Se fizer isso, encontrará misericórdia, será perdoado e poderá começar do zero. E, aí sim, terá moral para condenar os que roubam milhões dos cofres públicos.

cruzO maior escândalo de corrupção que pode existir é o da nossa própria corrupção. Pois é essa que nos fará prestar contas a Deus. Então, antes de se escandalizar com o que aparece nas manchetes dos jornais, fique chocado com aquilo que você faz e ninguém sabe. Porque, na verdade, Deus sabe – e sempre pega você em flagrante, sempre. As consequências podem não ser nada agradáveis. Errou? Confesse. Deixe. Mude. E a misericórdia celestial te alcançará. Foi para isso mesmo que Jesus morreu e ressuscitou. Ah, meu irmão, minha irmã, nós somos maus e falíveis e dependemos totalmente da graça de Deus. A boa notícia? Ela está ao nosso alcance e, por isso, te garante perdão total.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

racismo0O Brasil tem acompanhado o caso do jogo de futebol entre Grêmio e Santos que foi marcado pelas atitudes racistas de parte da torcida do time gaúcho. Para provocar o goleiro santista Aranha, que é negro, muitos gremistas o ofenderam, chamando-o de “macaco” e fazendo gestos que imitavam símios. Flagrada pelas câmeras de TV xingando o atleta de “macaco”, a jovem Patrícia Moreira tornou-se imediatamente símbolo da mentalidade discriminatória que domina não só gremistas, mas gente do mundo todo – racismo é uma pandemia abominável que está longe de acabar. Na última sexta-feira, a torcedora deu uma entrevista coletiva em que afirmou, bastante emocionada, estar arrependida. Em seguida, pediu perdão ao Grêmio – eliminado da Copa do Brasil por decisão da justiça esportiva – e ao goleiro ofendido. Muito além do esporte em si, o episódio é bastante significativo para extrairmos lições sobre a questão do pecado e do perdão.

Em sua entrevista, Patrícia transpareceu sinceridade e emoção, quando disse: “Boa tarde, eu quero pedir desculpas ao goleiro Aranha. Perdão de coração. Eu não sou racista. Perdão. Perdão. Peço desculpas. Aquela palavra, ‘macaco’, não foi racismo de minha parte, foi no calor do jogo, o Grêmio estava perdendo. O Grêmio é minha paixão, minha paixão mesmo. Eu vivi sempre indo ao jogo do Grêmio. Largava tudo para ir ao jogo. Peço desculpas para o Grêmio, para a nação tricolor. Eu amo o Grêmio. Desculpas para o Aranha. Perdão, perdão, perdão mesmo”.

Essa fala de Patrícia nos conduz a quatro reflexões.

racismo4Em primeiro lugar, falemos da falibilidade do indivíduo em função da influência dos grupos a que pertence. Não há como dizer que chamar um negro de “macaco” não seja um ato racista. Pode não ter sido a intenção de Patrícia fazer uma agressão racial ostensiva, mas creio que, a reboque da multidão, ela xingaria o goleiro de qualquer coisa que configurasse uma ofensa, como historicamente as torcidas fazem. Não me lembro de absolutamente nenhum jogo de futebol a que eu tenha ido na vida em que os xingamentos não sejam a tônica do público: xingam a mãe do juiz, ofendem a honra dos jogadores do outro time, escangalham a torcida adversária, gritam impropérios contra os atletas ou técnicos do time para que torcem se esses estiverem jogando mal ou perdendo. Isso não é novidade nenhuma. A questão é que a massa optou, nesse caso específico, por um xingamento que tem uma conotação diretamente ligada à raça de Aranha e, portanto, configura, sim, racismo. Pode ser que Patricia tenha apenas ido na onda e se deixado contagiar pelo poder das massas, mas o fato objetivo é que ela cometeu um ato de racismo – que, no Brasil, configura crime.

De cara, isso nos dá um alerta: cuidado para não se deixar levar pelo que os outros fazem. Seja fiel a si mesmo e a suas convicções sempre, esteja você sozinho ou em grupo. A influência alheia é uma das principais causas de pecarmos. A ciência já sabe muito bem que os indivíduos são altamente influenciáveis pelas massas e existem muitos estudos e pesquisas que comprovam como podemos ser facilmente influenciados pelos grupos ao nosso redor. Por isso, devemos tomar extremo cuidado com quem andamos, pois más escolhas de amigos sem compromisso com o evangelho ou mesmo de cristãos que se comportam de modo equivocado podem nos arrastar junto para o erro. Ouso dizer que, se Patricia estivesse sozinha no estádio, ela jamais teria ofendido Aranha daquele jeito. Ela fez o que fez porque estava no meio da multidão. Então temos de escolher com muito critério quem serão as pessoas com quem nos relacionamos, para não praticarmos atitudes pecaminosas por influência de terceiros.

racismo3Em segundo lugar, falemos da lei: Patrícia corre o risco de ser condenada à prisão pelo crime. E, se for, mesmo que de fato esteja arrependida, é justo que cumpra a pena. Ela, aliás, já começou a ser punida extrajudicialmente por seu pecado: foi demitida, teve a casa apedrejada, sofreu muitas agressões pelas redes sociais, é chamada de “racista” por onde passa, sua vida virou um inferno. Isso nos ensina uma lição: o pecado sempre terá consequências, é ingenuidade achar que é possível transgredir e sair impune, pois a justiça divina não é como a dos homens: ela nunca falha. Um dia a punição virá, nem que seja na eternidade. Além disso, o arrependimento sincero, com a confissão do pecado, não anula a necessidade de se arcar com a consequência humanas de seus atos. Um criminoso pode estar total e verdadeiramente arrependido, mas, ainda assim, terá de responder pelo que fez ante os homens. Portanto, se você se joga de uma ponte mas depois se arrepende, seu arrependimento não evitará que se esborrache lá embaixo. Cuidado com o que você semeia, pois a colheita pode ser de frutos bem amargos.

Em terceiro lugar, falemos do amor por instituições que justificariam a falta de amor ao próximo. Chamou minha atenção a explicação que, mesmo sem perceber, Patricia deu para sua atitude. Se você notar bem, verá que ela baseou seu argumento no fato de o time que ama estar perdendo. Em outras palavras, para ajudar a instituição que ama, Patricia, no calor do jogo, considerou justificável atacar um ser humano. Assim como ela, tenho visto muitos cristãos fazerem isso ultimamente. Para defender a Igreja de ataques de grupos cujos valores são anticristãos, partimos para a agressividade. Isso está totalmente errado. A “defesa do evangelho” não justifica jamais o uso da violência. Por isso, vejo como as massas se deixam contaminar por essa abominável visão de que, para defender a Igreja de Cristo, podemos partir para o ataque a seres humanos de outras religiões ou que professam valores diferentes dos nossos. Cristo pregou o amor aos inimigos, o perdão a quem é imperdoável, a não violência, a mansidão, o não revide, a pacificação, o não fazer justiça com as nossas mãos. Mas vivemos no meio de uma multidão de cristãos que se esquecem de tudo isso e acham justificável defender a Igreja que amam agredindo os seres humanos que nos atacam – e nisso pecamos. Que o erro de Patrícia nos sirva de lição, para que não nos deixemos convencer de que a defesa do que é puro e bom seja feita com atitudes impuras e más.

aranha1Mas é para o que vem em quarto lugar que eu gostaria de chamar mais atenção. Chegou a hora de falarmos, enfim, da graça. Fiquei pensando no que faria se eu fosse o goleiro Aranha e ouvisse Patricia pedir perdão de forma tão enfática. Se você contar, verá que ela pediu “perdão” e “desculpas” ao goleiro nove vezes. Pode ser que a jovem esteja fingindo arrependimento, mas não acredito nisso. Patrícia me pareceu sincera. Creio que tudo o que ela tem passado, desde que sua imagem tornou-se o símbolo nacional do racismo, foi o tranco que a despertou para compreender a extensão do seu erro. Não posso afirmar, mas acredito nisso – afinal, quantos de nós pecam e só se dão conta da lama em que estão quando são confrontados de forma dura pelas consequências de seu pecado? Davi passou por isso e só se arrependeu de seu duplo pecado ao ser confrontado por Natã no episódio de Urias e Bate-Seba e, depois, pelo profeta Gade, no episódio do censo. Pedro só chorou amargamente após ser confrontado pelo canto do galo e pelo olhar de Jesus. Eu mesmo já cometi pecados dos quais só me dei conta de sua extensão ao ser confrontado. E acredito que isso tenha ocorrido com Patrícia: foram a reação popular e tudo o que ela sofreu que a chamaram à razão. Se sua imagem não fosse parar na TV, possivelmente no jogo seguinte ela repetiria o gesto racista. Fato é que ela, confrontada pelo seu erro, dirigiu-se à pessoa a quem ofendeu e pediu perdão. E aí, como devemos nos posicionar diante disso?

A Bíblia é clara:

“Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.21-22).

“Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós” (Cl 3.13).

“Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6.37).

“E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas” (Mc11.25).

O desejo de Jesus é que perdoemos. Mais do que um desejo, aliás, é um mandamento. Perdoar nossos ofensores é uma atitude que nos dá vida espiritual abundante e nos conforma à imagem de Cristo – que nos perdoou quando não merecíamos. O Senhor, aliás, não apenas transmitiu esse preceito de boca, ele deu o exemplo, ao perdoar o traidor Pedro, ao pedir que o Pai perdoasse seus algozes na cruz, ao perdoar a mulher adúltera e em tantas outras situações. Com base nos ensinamentos bíblicos, diante de tão enfático pedido de perdão de Patrícia, se eu fosse Aranha a perdoaria. Talvez ela não mereça. Mas perdão não tem a ver com merecimento: é fruto de graça – que, por definição, é algo que recebemos sem merecer.

A prisão de Patrícia seria uma punição exemplar, um símbolo para todos de que o racismo é algo hediondo e não pode ser praticado sem consequências? Sim, sem dúvida seria. Mas o perdão de Aranha é um símbolo para todos de que é possível vencer o mal com o bem. No dia seguinte à entrevista dela, o goleiro se pronunciou e disse que a desculpava: “Estou desculpando ela, mas infelizmente, por um erro que cometeu, vai ter de pagar. Queriam que eu desse o perdão sem ela me pedir desculpas. Acompanhei todo o caso, os amigos dela mostraram que ela não é racista, mas ela sumiu, deletou perfis das redes sociais, não falou com ninguém. Demorou muito tempo para tomar uma atitude. Como cristão, como ser humano, precisava do pedido dela para desculpar. Isso não quer dizer que eu não quero que a justiça seja feita. Ela errou, tem as consequências”, comentou. Com o perdão de Aranha creio que os céus fizeram festa, pois um pecador se arrependeu e um ofendido perdoou seu ofensor.

racismo5Acho muito estranho quando ouço as pessoas dizerem que não perdoam alguém porque esse alguém “não merece”. Pois perdão não tem a ver com o mérito do perdoado, mas, sim, com a graça de quem perdoa. Deixar de perdoar um ofensor, mesmo que ele não nos tenha pedido perdão, não prejudica ninguém além de nós mesmos, que passamos a carregar um fardo espiritual doloroso e venenoso. Enquanto não aprendermos esse fato, seremos indivíduos amargos, que não estendem perdão e, por isso, vivem longe da vontade de Deus.

Não fui ofendido por Patrícia Moreira. Mas, se tivesse sido e ela pedisse perdão nove vezes, eu teria de escolher: ou me recusava a perdoá-la ou fazia o que Deus manda. Ela poderia até vir a ser presa, para cumprir a justiça dos homens, mas, diante de Deus, teria o meu perdão. Porque o cristianismo denuncia o mal da falibilidade humana e do desamor pelo próximo, aponta o remédio paliativo da lei e revela a cura final: a graça. E aí eu te pergunto: desses elementos, qual você acha que Deus valoriza mais? E qual você valoriza mais? A resposta a essas perguntas dirá em que profundidade você compreende o evangelho e mostrará se você é, de fato, um cristão segundo o coração de Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

primeiro amor1É muito conhecida a expressão “voltar ao primeiro amor”. Ela está em Apocalipse 2.4, quando Deus puxa a orelha dos cristãos da cidade de Éfeso por terem “abandonado o primeiro amor”. É interessante que, por causa dessa passagem, é popularmente difundida a ideia de que o “primeiro amor” é o estado ideal e a meta de todo cristão. Que sentir e fazer por toda a vida o que se sentia e se fazia no início da caminhada cristã é o que Jesus espera de todos nós. Particularmente, eu discordo disso. Por estranho que possa parecer, não penso que o primeiro amor seja o estado ideal para todos os cristãos. Para muitos sim, mas não para todos. Acredito mais que, em nossa espiritualidade, devemos procurar viver o “segundo amor”. Esquisito? Permita-me explicar.

Em geral, quando nos referimos a esse “primeiro amor”, o associamos a uma certa empolgação; a um sentimento de busca profunda de Deus; a uma vontade constante de evangelizar, de pensar e agir o tempo todo por Jesus. Sabe aquele sentimento de empolgação que você sente no início de um namoro? Seria mais ou menos a isso que associamos esse estado espiritual mencionado em Apocalipse. Só que, quando analisamos com calma o texto, vemos que não é bem isso o que ele diz.

primeiro amor2Veja: “Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores. Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido. Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor. Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele” (Ap 2.2-5). Repare que Deus dá ordem para se lembrar “de onde caiu”. No contexto bíblico do processo de queda e restauração do homem, “cair” é um verbo usado como sinônimo de “viver de modo pecaminoso” (cf. 1Co 10.12-13). Se dizemos “fulano caiu”, automaticamente compreendemos que ele está vivendo em pecado e sem arrependimento. Isso é reforçado pelo que é dito a seguir aos cristãos de Éfeso: que, se os membros daquela igreja não se arrependessem, sofreriam consequências. E qual tipo de cristão precisa de arrependimento? Quem pecou.

Se a ideia popularmente difundida for correta, viver uma espiritualidade menos impulsiva, menos empolgada, menos assemelhada a uma paixão de início de namoro seria um pecado que necessita de arrependimento. Só que não é. Ninguém tem seu “candelabro” removido porque tornou-se menos empolgado. Isso ocorre se foram cometidos pecados. Portanto, conclui-se que o problema dos efésios é que estavam em um estado de transgressão e necessitavam de arrependimento, para retornar a realizar “as primeiras obras”, ou seja, as práticas de santidade que faziam parte de sua rotina antes dessa queda. Era uma igreja dedicada, sofredora e apologética – como o texto bíblico descreve com clareza -, mas que estava envolvida em algum pecado.

Entendo, então, que o problema da igreja de Éfeso não era estar vivendo uma vida espiritual menos eufórica – visto que essa interpretação é  incompatível com o que o Senhor fala nos versículos anteriores -, mas estava incorrendo em pecados de que necessitava se arrepender. Não consigo ver o “primeiro amor”, portanto, como um estado de euforia pós-conversão, como muitos apregoam, mas sim o estado de santidade que devemos viver ao longo de toda nossa vida.

primeiro amor3Tendo dito tudo isso, permita-me explicar, então, por que acredito que o “segundo amor” é mais desejável que o primeiro. E aqui o conceito que uso é o popular. Muitos creem, pela interpretação que entendo ser equivocada, de Ap 2.4, que aquela euforia do período imediatamente pós-conversão é o estado ideal de vida espiritual do crente. Não vejo assim. O início da caminhada cristã é uma fase de imaturidade e impetuosidade, ignorância bíblica e limitação teológica. Nessa fase, o cristão responde à graça de Deus, recebe o chamado do Espírito Santo, mas ainda engatinha na fé, bebe leite espiritual, o que é um estado imperfeito, como Hebreus 5.12-14; 1 Coríntios 3.1,2 e 1 Timóteo 3.6 deixam claro. Não é o padrão que Deus deseja para nós. Ele quer cristãos maduros, fortalecidos na Palavra, experientes. Somos convidados a buscar a maturidade espiritual e não a viver eternamente naquele estado inicial de impulsividade, grande emotividade e enormes limitações. Deus quer que fiquemos firmes na rocha, com solidez – não com empolgação.

Façamos uma analogia, por exemplo, com um casamento. Pessoas recém-casadas vivem numa enorme euforia, numa empolgação só, como se a vida a dois fosse uma eterna lua de mel: fazem caminhos de pétalas da porta à cama, preparam as comidas preferidas do cônjuge, deixam bilhetinhos em lugares estratégicos… vivem alegres o conto de fadas. Mas, passados os primeiros anos de casamento, se não foi desenvolvida uma maturidade naquele relacionamento ele vai se desgastar. Virão as necessidades práticas do dia a dia, as contas, a perda do pudor de soltar gases na frente do outro, a mulher descobrirá que o marido ronca, o marido descobrirá que a mulher tem mau hálito de manhã… a magia começa a ser substituída pelo mundo real. E, então, quem dependia do conto de fadas para ser feliz no matrimônio vai se decepcionar, esfriar, viver infeliz, se divorciar. Pois, se aquele “primeiro amor” é o estágio que traz felicidade, lamento informar aos sonhadores: ele não vai durar para sempre.

primeiro amor4Portanto, é o “segundo amor”, o que se solidifica passada a fase dos cuticutis iniciais de um casamento, que vai sustentá-lo. A maturidade. O amor sólido e perene. A capacidade de continuar dando a vida pelo outro pelo resto de seus dias. As gracinhas dos primeiros anos de matrimônio passam. O que permanece é o amor verdadeiro e maduro. Na vida espiritual é igual. O cristão que acha que deve buscar aquele cuticuti inicial com Deus como o modelo de vida espiritual vai viver uma espiritualidade limitada. Vai querer sempre buscar emoções. Ficará insatisfeito quando não sentir nada no culto. Vai se tornar viciado na empolgação que viveu nos primeiros tempos de convertido. Mas Deus procura verdadeiros adoradores e não adoradores empolgados.

Assim, biblicamente, “voltar ao primeiro amor” é o que precisa fazer o cristão que passou a viver na prática do pecado. Ele tem de abandonar suas transgressões, lembrar-se de onde caiu, arrepender-se e voltar a realizar as obras que praticava no início – as boas obras, fruto da fé salvífica. Já o cristão que vive em intimidade com o Senhor e que, apesar de seus pecados, não se conforma com eles e se esforça em viver em santidade, esse deve viver o “segundo amor”. Maduro. Sólido. Consistente. Consequente. Duradouro.

“Esta é a minha oração: Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção” (Fp 1.9).

Ao contrário do que diz a música, eu não quero voltar a esse “primeiro amor” que a cultura popular estabeleceu. Quero viver no “segundo amor”. Nas vezes em que eu descarrilei no meio do caminho, não só quis, mas precisei voltar ao primeiro amor. Mas, enquanto estiver nos trilhos, não. Pois desejo que minha vida com Deus seja uma linha ascendente, cada vez com mais intimidade, conhecimento, crescimento e maturidade. Uma evolução. E nunca um retrocesso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

escravo1Você é a favor da escravidão? Pode parecer estranho e até ofensivo eu te perguntar isso, afinal, nenhum ser humano civilizado considera a escravidão humana algo correto, não é mesmo? Bem, na verdade, até pouco mais de um século, aqui mesmo no Brasil, milhões de pessoas civilizadas e cultas acreditavam que ter escravos humanos era algo totalmente normal e cabível. Como pode? Como pode tantos indivíduos bons e até mesmo cristãos terem visto essa prática abominável como aceitável? Eu estava vendo fotos do acervo do Instituto Moreira Salles que mostram escravos no Brasil há apenas cerca de 130 anos. As imagens me impactaram e comecei a refletir sobre a escravidão. Meu primeiro impulso foi o de condenar aquela sociedade, que abraçava como natural a ideia de que pessoas podem ser donas de outras e fazer com elas o que quiserem. Mas, pensando mais um pouco, acabei chegando à conclusão de que, se eu vivesse no Brasil daquela época, também não teria problemas com a escravidão. Possivelmente, eu mesmo teria alguns escravos. Por quê? Porque estaria tão inserido naquela realidade que nem gastaria muito tempo pensando sobre a validade daquilo. Na verdade, estaria tão acostumado com aquela situação que minha mentalidade seria: sempre foi assim, sempre será; é como é, não há o que questionar. E essa constatação me conduziu a uma percepção espiritual: eu sou a favor da escravidão. Permita-me explicar.

Você já assistiu ao filme “O show de Truman”? Se não, recomendo que o faça, é um dos longa-metragens mais interessantes a que já assisti. Narra a história de um homem que viveu toda sua vida num gigantesco estúdio de televisão. Todas as pessoas com quem convive são atores, num grande reality show. Sua vida não passa de uma enorme mentira, mas ele vive anos nessa loucura sem perceber. Em certo momento do filme, um repórter pergunta para o diretor e idealizador do show: “Por que o senhor acredita que Truman nunca percebeu que está num programa de televisão?”. A resposta dele é muito significativa: “Nós aceitamos a realidade do mundo conforme nos é apresentada”. Isso explica com clareza por que milhões de pessoas boas acatavam a escravidão como normal: elas nasceram numa realidade em que aquilo era natural, cresceram aprendendo que não havia nada de mais na escravidão e, por isso, nunca questionaram aquela barbárie.

escravo0Nascemos escravos do pecado. Crescemos escravos do pecado. No mundo, enxergamos a escravidão ao pecado como algo aceitável. Enquanto as correntes da transgressão prendem nossos pés, não questionamos essa situação. Vemos como algo natural a desobediência a Deus, afinal, a realidade que nos foi apresentada pela sociedade ao nosso redor é a da escravidão ao pecado – e a temos como normal. Até que, um dia, uma alternativa se descortina diante de nossos olhos: Jesus nos dá carta de alforria. Percebemos, então, que é viável uma vida que se desagrada do pecado. É impossível nos livrarmos totalmente das algemas que nos prendem à transgressão, mas o Espírito Santo nos mostra que podemos não nos conformar a ela. “Porque, se fomos unidos com ele [Jesus] na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos [...] Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6.5-6, 17-18).

Até aqui nenhuma novidade. Tenho certeza de que você já sabia que a salvação em Cristo no torna livres da escravidão do pecado. Você é chamado pela graça de Deus e, com isso, torna-se absolutamente, totalmente, inquestionavelmente livre, certo?

Errado.

Eis o ponto fundamental: na verdade, a salvação não vem para nos tornar livres da escravidão. Ela vem apenas para mudar o nosso dono. Continuamos escravos, mas não mais do pecado: de Cristo. “O que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo” (1Co 7.22). Ou seja: deixamos de ser escravos do pecado para nos tornarmos escravos de Jesus. Nesse sentido, sou, sim, totalmente a favor da escravidão e me contento com essa realidade, apresentada não mais pelo mundo, mas pelas Escrituras sagradas. “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22).

A grande diferença entre esses dois tipos de escravidão é que o pecado nos torna apenas escravos – seres abatidos, sem vontade própria, destituídos de liberdade. Porém, ao nos tornarmos escravos de Cristo, recebemos também outros títulos: somos feitos filhos de Deus, amigos de Jesus, herdeiros da eternidade, verdadeiramente livres! “Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.34-36). Ser escravo de Cristo significa receber alforria não para ser um indivíduo autônomo e independente, mas totalmente acorrentado à liberdade que a vida eterna nos concede. Portanto, aceite a escravidão, ela é uma realidade inevitável.

escravo2Infelizmente, mesmo ao nos tornarmos escravos de Cristo algumas correntes de nosso antigo senhor continuam atadas aos nossos membros. Por isso, embora tenhamos sido chamados pela graça à servidão a Deus, continuamos sendo puxados de volta à senzala do pecado. É o que Paulo escreveu: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.14-25).

Não tem jeito, meu irmão, minha irmã, você é e será sempre escravo. A questão é: de quem? Se Cristo te chamou pela graça, você pertence ao Senhor, mas saiba que o pecado não ficou feliz com essa mudança. O pecado quer você de volta. Não permita que isso aconteça, lute pela sua servidão ao único amo que oferece a paz, Jesus Cristo. A cruz te libertou, mas o Diabo quer manter você acorrentado. O que te manterá longe da senzala da transgressão é a sua santidade. Muitas vezes fraquejamos, caímos, perdemos a batalha, nos arrastamos como cães ao antigo vômito da escravidão ao pecado. Mas Jesus não se conforma com isso, pois você pertence a ele. Então ele te chama constantemente ao arrependimento e, se você rende sua vontade a ele, o perdão sempre está ao seu alcance.

Você é cristão mas tem cedido ao pecado? As correntes da desobediência o têm arrastado de volta ao lugar de onde saiu? Você tem praticado novamente aquilo de que Jesus já te libertou? Então a hora é esta: ouça a voz do Bom Pastor chamando-o de volta. Peça perdão. Abandone essa prática. Você pertence a Cristo e foi chamado para habitar não mais nas imundas senzalas do pecado, mas nas puras mansões celestiais. Você é escravo da liberdade. Não abra mão disso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

 

dieta do perdao1O que é preciso fazer para perder peso? Se você já se dedicou a uma dieta, sabe que ela exige que sigamos, essencialmente, três passos. Primeiro, é necessário compreender bem a dinâmica do emagrecimento, ou seja, inteirar-se do que diz a teoria: necessidade de ingerir menos calorias do que se gasta, importância do controle metabólico, explicação de por que se deve comer menos e mais vezes por dia etc. Sem compreender como se perde peso você jamais conseguirá emagrecer. Segundo, uma vez que entende a teoria, é hora de pôr em prática o que aprendeu. E quem já se dedicou a perder peso sabe que essa etapa não é nem um pouco fácil, pois o aspecto mais importante para emagrecer é abrir mão da sua vontade de comer o que não deve (às vezes é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que recusar aquele suculento brigadeiro, não é?). Ou seja: dizer não a si mesmo é fundamental. Terceiro, além da correta escolha dos alimentos, também é preciso exercer disciplinas complementares e indispensáveis, como exercícios físicos.

Assim, se você consegue: 1) Compreender a teoria do emagrecimento; 2) abrir mão de suas vontades; e 3) praticar as disciplinas complementares tem grandes chances de atingir o objetivo e conquistar a tão almejada silhueta esbelta.

Neste ponto, gostaria de fazer um paralelo entre a dificuldade de emagrecer e a de… perdoar. Muitas pessoas não conseguem perdoar alguém que lhes tenha ferido; outras não conseguem perdoar a si mesmas por algum pecado que tenham cometido. Isso se deve a uma razão muito simples: perdoar não é fácil, é uma atitude que exige muito de nós. Contraria nossa natureza humana, muito mais inclinada a entregar-se a culpa, raiva, ressentimento, ira, mágoa, rancor e sentimento de vingança. Só que sem perdão não há vida com Cristo. Dizer-se cristão e não perdoar é uma contradição. Mais do que isso: é uma impossibilidade. Portanto, se você até hoje precisa perdoar alguém ou mesmo se perdoar por algo que tenha feito, saiba que sua vida espiritual depende disso.

Se você vive uma situação em que precisa estender perdão, mas considera muito difícil, o que deve fazer? Bem, a Bíblia trata muito sobre esse assunto e seria preciso um livro para abordar a questão com a amplidão que tem, é impossível resumir tudo em um pequeno post de blog. Mas, em síntese, posso dizer que perdoar e emagrecer têm algo em comum: os três pontos que mencionei no início deste texto.

dieta do perdao01. Assim como nas dietas é preciso conhecer a teoria, para perdoar não é diferente. Em geral, tenho visto que os irmãos e as irmãs com dificuldade de perdoar não conhecem em sua totalidade o que a Bíblia fala sobre o assunto. Têm um conhecimento parcial e, por isso, acabam sem as orientações básicas que as Escrituras sagradas dão a respeito de o que exatamente é perdoar, como perdoar, as consequências de não perdoar, os benefícios de perdoar e muito mais. Entenda: é conhecendo a verdade sagrada que somos libertos das amarras da falta de perdão e de suas terríveis consequências. Assim, o primeiro passo para conseguir perdoar e se perdoar é conhecer as diferentes informações sobre o tema contidas na Bíblia. “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.31-32).

Falo por experiência. Há alguns anos vivi uma grande necessidade de praticar o perdão – perdoar outros e perdoar a mim mesmo. Foi quando percebi a gigantesca importância desse tema para nossa saúde espiritual, bem-estar e felicidade, por isso dediquei-me a uma pesquisa ampla e detalhada na Bíblia sobre o assunto perdão. Essa investigação nas Escrituras acabou se tornando meu próximo livro, chamado Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar, que será lançado em outubro pela editora Mundo Cristão. Nesse processo pessoal, vi como me ajudou enormemente saber o que a Bíblia fala sobre o assunto – na verdade, foi indispensável, pois, sem as verdades bíblicas, eu nunca conseguiria fazer isso por vontade própria. Sem esse conhecimento, é impossível qualquer um se ver livre do pesadíssimo fardo da falta de perdão. Peço a Deus que o resultado dessa minha pesquisa venha a ajudar pessoas que precisam de mais informações e entendimento sobre o assunto, para que, assim, também consigam se ver livres do amargo fardo da falta de perdão.

dieta do perdao22. Ao adquirir o conhecimento bíblico necessário, consegui partir para o segundo passo: pôr em prática o perdão. Foi, então, possível perdoar e me perdoar. Só que, para que esse perdão se tornasse realidade, foi preciso negar a mim mesmo. Do mesmo modo que fazer dieta exige abrir mão de suas vontades, perdoar exige abrir mão do seu eu e assumir a natureza de Cristo, que nos perdoa sem que haja qualquer mérito nosso. O nome disso é graça. Sem negar as inclinações, as vontades e os impulsos que nos dominam, não conseguiremos jamais ser como Jesus nem agir como ele agiu. “Então Jesus disse aos seus discípulos: ‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará'” (Mt 16.24-25).

dieta do perdao33. Por fim, para conseguir perdoar, você precisa exercitar as disciplinas espirituais, como oração e jejum. Do mesmo modo que o exercício físico é fundamental no processo de perder peso, sem uma comunhão constante com Deus em oração e sem a mortificação da sua natureza carnal, por meio do jejum, torna-se muito difícil conseguir fazer aquilo que nossa vontade humana não quer fazer.

É evidente que comparar o perdão a uma dieta de emagrecimento não passa de uma analogia altamente imperfeita. Assim como as parábolas de Jesus eram ilustrações materiais de realidades espirituais profundas, essa comparação serve apenas para chamar nossa atenção para determinados aspectos da fé. Dieta emagrece o corpo, perdão agiganta a alma. O corpo ficará, a alma seguirá pela eternidade. Se você se preocupa em emagrecer, recomendo que preocupe-se ainda mais em perdoar e se perdoar. Culpa por algo que você fez e ressentimento por algo que alguém fez contra você não geram absolutamente nada de bom, pelo contrário, trazem consequências altamente negativas para sua vida.

Conheça o que a Bíblia diz sobre perdão e remova de suas costas o fardo tão pesado da falta de perdão, que você não precisaria estar carregando. Jesus te libertou desse fardo na cruz do Calvário. Conheça a realidade que a Bíblia apresenta sobre o assunto e abrace as verdades sagradas. Se tomar essa atitude, a graça de Deus se manifestará e, creio piamente, sua vida será totalmente transformada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício