Arquivo da categoria ‘Pecado’

escravo1Você é a favor da escravidão? Pode parecer estranho e até ofensivo eu te perguntar isso, afinal, nenhum ser humano civilizado considera a escravidão humana algo correto, não é mesmo? Bem, na verdade, até pouco mais de um século, aqui mesmo no Brasil, milhões de pessoas civilizadas e cultas acreditavam que ter escravos humanos era algo totalmente normal e cabível. Como pode? Como pode tantos indivíduos bons e até mesmo cristãos terem visto essa prática abominável como aceitável? Eu estava vendo fotos do acervo do Instituto Moreira Salles que mostram escravos no Brasil há apenas cerca de 130 anos. As imagens me impactaram e comecei a refletir sobre a escravidão. Meu primeiro impulso foi o de condenar aquela sociedade, que abraçava como natural a ideia de que pessoas podem ser donas de outras e fazer com elas o que quiserem. Mas, pensando mais um pouco, acabei chegando à conclusão de que, se eu vivesse no Brasil daquela época, também não teria problemas com a escravidão. Possivelmente, eu mesmo teria alguns escravos. Por quê? Porque estaria tão inserido naquela realidade que nem gastaria muito tempo pensando sobre a validade daquilo. Na verdade, estaria tão acostumado com aquela situação que minha mentalidade seria: sempre foi assim, sempre será; é como é, não há o que questionar. E essa constatação me conduziu a uma percepção espiritual: eu sou a favor da escravidão. Permita-me explicar.

Você já assistiu ao filme “O show de Truman”? Se não, recomendo que o faça, é um dos longa-metragens mais interessantes a que já assisti. Narra a história de um homem que viveu toda sua vida num gigantesco estúdio de televisão. Todas as pessoas com quem convive são atores, num grande reality show. Sua vida não passa de uma enorme mentira, mas ele vive anos nessa loucura sem perceber. Em certo momento do filme, um repórter pergunta para o diretor e idealizador do show: “Por que o senhor acredita que Truman nunca percebeu que está num programa de televisão?”. A resposta dele é muito significativa: “Nós aceitamos a realidade do mundo conforme nos é apresentada”. Isso explica com clareza por que milhões de pessoas boas acatavam a escravidão como normal: elas nasceram numa realidade em que aquilo era natural, cresceram aprendendo que não havia nada de mais na escravidão e, por isso, nunca questionaram aquela barbárie.

escravo0Nascemos escravos do pecado. Crescemos escravos do pecado. No mundo, enxergamos a escravidão ao pecado como algo aceitável. Enquanto as correntes da transgressão prendem nossos pés, não questionamos essa situação. Vemos como algo natural a desobediência a Deus, afinal, a realidade que nos foi apresentada pela sociedade ao nosso redor é a da escravidão ao pecado – e a temos como normal. Até que, um dia, uma alternativa se descortina diante de nossos olhos: Jesus nos dá carta de alforria. Percebemos, então, que é viável uma vida que se desagrada do pecado. É impossível nos livrarmos totalmente das algemas que nos prendem à transgressão, mas o Espírito Santo nos mostra que podemos não nos conformar a ela. “Porque, se fomos unidos com ele [Jesus] na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos [...] Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6.5-6, 17-18).

Até aqui nenhuma novidade. Tenho certeza de que você já sabia que a salvação em Cristo no torna livres da escravidão do pecado. Você é chamado pela graça de Deus e, com isso, torna-se absolutamente, totalmente, inquestionavelmente livre, certo?

Errado.

Eis o ponto fundamental: na verdade, a salvação não vem para nos tornar livres da escravidão. Ela vem apenas para mudar o nosso dono. Continuamos escravos, mas não mais do pecado: de Cristo. “O que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo” (1Co 7.22). Ou seja: deixamos de ser escravos do pecado para nos tornarmos escravos de Jesus. Nesse sentido, sou, sim, totalmente a favor da escravidão e me contento com essa realidade, apresentada não mais pelo mundo, mas pelas Escrituras sagradas. “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22).

A grande diferença entre esses dois tipos de escravidão é que o pecado nos torna apenas escravos – seres abatidos, sem vontade própria, destituídos de liberdade. Porém, ao nos tornarmos escravos de Cristo, recebemos também outros títulos: somos feitos filhos de Deus, amigos de Jesus, herdeiros da eternidade, verdadeiramente livres! “Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.34-36). Ser escravo de Cristo significa receber alforria não para ser um indivíduo autônomo e independente, mas totalmente acorrentado à liberdade que a vida eterna nos concede. Portanto, aceite a escravidão, ela é uma realidade inevitável.

escravo2Infelizmente, mesmo ao nos tornarmos escravos de Cristo algumas correntes de nosso antigo senhor continuam atadas aos nossos membros. Por isso, embora tenhamos sido chamados pela graça à servidão a Deus, continuamos sendo puxados de volta à senzala do pecado. É o que Paulo escreveu: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.14-25).

Não tem jeito, meu irmão, minha irmã, você é e será sempre escravo. A questão é: de quem? Se Cristo te chamou pela graça, você pertence ao Senhor, mas saiba que o pecado não ficou feliz com essa mudança. O pecado quer você de volta. Não permita que isso aconteça, lute pela sua servidão ao único amo que oferece a paz, Jesus Cristo. A cruz te libertou, mas o Diabo quer manter você acorrentado. O que te manterá longe da senzala da transgressão é a sua santidade. Muitas vezes fraquejamos, caímos, perdemos a batalha, nos arrastamos como cães ao antigo vômito da escravidão ao pecado. Mas Jesus não se conforma com isso, pois você pertence a ele. Então ele te chama constantemente ao arrependimento e, se você rende sua vontade a ele, o perdão sempre está ao seu alcance.

Você é cristão mas tem cedido ao pecado? As correntes da desobediência o têm arrastado de volta ao lugar de onde saiu? Você tem praticado novamente aquilo de que Jesus já te libertou? Então a hora é esta: ouça a voz do Bom Pastor chamando-o de volta. Peça perdão. Abandone essa prática. Você pertence a Cristo e foi chamado para habitar não mais nas imundas senzalas do pecado, mas nas puras mansões celestiais. Você é escravo da liberdade. Não abra mão disso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

 

dieta do perdao1O que é preciso fazer para perder peso? Se você já se dedicou a uma dieta, sabe que ela exige que sigamos, essencialmente, três passos. Primeiro, é necessário compreender bem a dinâmica do emagrecimento, ou seja, inteirar-se do que diz a teoria: necessidade de ingerir menos calorias do que se gasta, importância do controle metabólico, explicação de por que se deve comer menos e mais vezes por dia etc. Sem compreender como se perde peso você jamais conseguirá emagrecer. Segundo, uma vez que entende a teoria, é hora de pôr em prática o que aprendeu. E quem já se dedicou a perder peso sabe que essa etapa não é nem um pouco fácil, pois o aspecto mais importante para emagrecer é abrir mão da sua vontade de comer o que não deve (às vezes é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que recusar aquele suculento brigadeiro, não é?). Ou seja: dizer não a si mesmo é fundamental. Terceiro, além da correta escolha dos alimentos, também é preciso exercer disciplinas complementares e indispensáveis, como exercícios físicos.

Assim, se você consegue: 1) Compreender a teoria do emagrecimento; 2) abrir mão de suas vontades; e 3) praticar as disciplinas complementares tem grandes chances de atingir o objetivo e conquistar a tão almejada silhueta esbelta.

Neste ponto, gostaria de fazer um paralelo entre a dificuldade de emagrecer e a de… perdoar. Muitas pessoas não conseguem perdoar alguém que lhes tenha ferido; outras não conseguem perdoar a si mesmas por algum pecado que tenham cometido. Isso se deve a uma razão muito simples: perdoar não é fácil, é uma atitude que exige muito de nós. Contraria nossa natureza humana, muito mais inclinada a entregar-se a culpa, raiva, ressentimento, ira, mágoa, rancor e sentimento de vingança. Só que sem perdão não há vida com Cristo. Dizer-se cristão e não perdoar é uma contradição. Mais do que isso: é uma impossibilidade. Portanto, se você até hoje precisa perdoar alguém ou mesmo se perdoar por algo que tenha feito, saiba que sua vida espiritual depende disso.

Se você vive uma situação em que precisa estender perdão, mas considera muito difícil, o que deve fazer? Bem, a Bíblia trata muito sobre esse assunto e seria preciso um livro para abordar a questão com a amplidão que tem, é impossível resumir tudo em um pequeno post de blog. Mas, em síntese, posso dizer que perdoar e emagrecer têm algo em comum: os três pontos que mencionei no início deste texto.

dieta do perdao01. Assim como nas dietas é preciso conhecer a teoria, para perdoar não é diferente. Em geral, tenho visto que os irmãos e as irmãs com dificuldade de perdoar não conhecem em sua totalidade o que a Bíblia fala sobre o assunto. Têm um conhecimento parcial e, por isso, acabam sem as orientações básicas que as Escrituras sagradas dão a respeito de o que exatamente é perdoar, como perdoar, as consequências de não perdoar, os benefícios de perdoar e muito mais. Entenda: é conhecendo a verdade sagrada que somos libertos das amarras da falta de perdão e de suas terríveis consequências. Assim, o primeiro passo para conseguir perdoar e se perdoar é conhecer as diferentes informações sobre o tema contidas na Bíblia. “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.31-32).

Falo por experiência. Há alguns anos vivi uma grande necessidade de praticar o perdão – perdoar outros e perdoar a mim mesmo. Foi quando percebi a gigantesca importância desse tema para nossa saúde espiritual, bem-estar e felicidade, por isso dediquei-me a uma pesquisa ampla e detalhada na Bíblia sobre o assunto perdão. Essa investigação nas Escrituras acabou se tornando meu próximo livro, chamado Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar, que será lançado em outubro pela editora Mundo Cristão. Nesse processo pessoal, vi como me ajudou enormemente saber o que a Bíblia fala sobre o assunto – na verdade, foi indispensável, pois, sem as verdades bíblicas, eu nunca conseguiria fazer isso por vontade própria. Sem esse conhecimento, é impossível qualquer um se ver livre do pesadíssimo fardo da falta de perdão. Peço a Deus que o resultado dessa minha pesquisa venha a ajudar pessoas que precisam de mais informações e entendimento sobre o assunto, para que, assim, também consigam se ver livres do amargo fardo da falta de perdão.

dieta do perdao22. Ao adquirir o conhecimento bíblico necessário, consegui partir para o segundo passo: pôr em prática o perdão. Foi, então, possível perdoar e me perdoar. Só que, para que esse perdão se tornasse realidade, foi preciso negar a mim mesmo. Do mesmo modo que fazer dieta exige abrir mão de suas vontades, perdoar exige abrir mão do seu eu e assumir a natureza de Cristo, que nos perdoa sem que haja qualquer mérito nosso. O nome disso é graça. Sem negar as inclinações, as vontades e os impulsos que nos dominam, não conseguiremos jamais ser como Jesus nem agir como ele agiu. “Então Jesus disse aos seus discípulos: ‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará'” (Mt 16.24-25).

dieta do perdao33. Por fim, para conseguir perdoar, você precisa exercitar as disciplinas espirituais, como oração e jejum. Do mesmo modo que o exercício físico é fundamental no processo de perder peso, sem uma comunhão constante com Deus em oração e sem a mortificação da sua natureza carnal, por meio do jejum, torna-se muito difícil conseguir fazer aquilo que nossa vontade humana não quer fazer.

É evidente que comparar o perdão a uma dieta de emagrecimento não passa de uma analogia altamente imperfeita. Assim como as parábolas de Jesus eram ilustrações materiais de realidades espirituais profundas, essa comparação serve apenas para chamar nossa atenção para determinados aspectos da fé. Dieta emagrece o corpo, perdão agiganta a alma. O corpo ficará, a alma seguirá pela eternidade. Se você se preocupa em emagrecer, recomendo que preocupe-se ainda mais em perdoar e se perdoar. Culpa por algo que você fez e ressentimento por algo que alguém fez contra você não geram absolutamente nada de bom, pelo contrário, trazem consequências altamente negativas para sua vida.

Conheça o que a Bíblia diz sobre perdão e remova de suas costas o fardo tão pesado da falta de perdão, que você não precisaria estar carregando. Jesus te libertou desse fardo na cruz do Calvário. Conheça a realidade que a Bíblia apresenta sobre o assunto e abrace as verdades sagradas. Se tomar essa atitude, a graça de Deus se manifestará e, creio piamente, sua vida será totalmente transformada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

felicidade1O mundo ficou chocado com o anúncio do suicídio do genial ator Robin Williams. Uma série de fatores contribuíram para que sua morte fosse especialmente chocante, mas creio que podemos resumir tudo a uma causa só: Williams tinha tudo o que o mundo diz que devemos almejar em nossa vida e, mesmo assim, esse tudo não foi suficiente para que ele desejasse seguir vivendo. Que contradição estranha! Veja se não é verdade: quando você pensa em felicidade, que conceitos vêm à sua mente? Em geral, nossa sociedade prega que, para sermos felizes, devemos ser ricos, famosos, bem-sucedidos profissionalmente e ter uma pessoa ao nosso lado a quem amemos e que nos ame. Robin Williams tinha tudo isso. Era milionário, conhecido internacionalmente, reconhecido na carreira, casado com uma esposa que o amava… ele cumpria todos os requisitos para ser considerado uma pessoa feliz. Mesmo assim se matou. Quem explica?

O comediante sempre era visto sorrindo e fazendo piadas, numa aparente alegria que se revelou ser apenas uma máscara. Mas, se você for além das aparências e examinar os bastidores da vida de Robin Williams, vai descobrir que ele sofria de depressão, lutava contra o alcoolismo e era dependente de drogas. Seu casamento já era o terceiro. Algo estava errado no coração daquele ser humano.

felicidade2O suicídio de Williams me fez pensar também no de outras pessoas que, aparentemente, tinham tudo o que o mundo considera fundamental para a felicidade, como bens materiais e notoriedade. Lembra, por exemplo, de Kurt Cobain? O astro da banda de rock Nirvana tirou a própria vida com um tiro na cabeça e deixou um bilhete explicando que se matava por algumas razões, entre as quais ser uma pessoa triste e não se divertir mais quando estava no palco. Ele tinha mulher, filha, fama, fortuna e era uma rock star (o sonho de milhões de pessoas por todo o planeta). Ainda assim, aquilo não foi suficiente.

Dá para explicar o suicídio de pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain, que têm tudo o que o mundo diz ser sinônimo de felicidade e ainda assim não basta? Sim, dá. É que, na verdade, o mundo está errado. Sua proposta de felicidade é mentirosa, uma ficção. Essas coisas simplesmente não fazem ninguém ser verdadeiramente feliz. São valores que valem muito pouco ou quase nada. Se você acredita na proposta mundana de que, para ser realizado na vida, precisa ganhar muito dinheiro, aparecer na capa de revistas famosas, viver distribuindo autógrafos, ter três carros na garagem e coisas do gênero… está acreditando numa mentira. “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6.19-21)

É por isso que me preocupo muito quando vejo cristãos correndo atrás de tudo isso. Sim, cristãos. Afinal, os valores do mundo contaminam todos. Preocupo-me porque, como provam as histórias de Williams e Cobain, se acreditarmos nessa definição de felicidade – que não é bíblica – viveremos sempre infelizes. Quando vejo irmãos e irmãs em Cristo ter como alvo a fama, por exemplo, meu coração se enche de tristeza, por perceber que sucumbiram ao engano. “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens — não provém do Pai, mas do mundo. O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1Jo 2.15-17).

felicidade3A notoriedade deve ser consequência de algo bem feito, jamais a causa que nos motiva a fazer esse algo. Se você é, por exemplo, um pregador, artista ou escritor e se torna muito conhecido, deve tomar todos os cuidados possíveis para não se deixar levar pela maldita vaidade, que conduz à autoidolatria e, portanto, é uma desgraça. “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.” (Fp 2.3-7). Entenda: ser famoso não é o problema, não é crime nem pecado. Se você é alguém conhecido, entende que essa realidade não tem valor real e usa a visibilidade que Deus te deu para a glória desse mesmo Deus, amém. Jesus foi famoso em seus dias, o que ajudou a propagar sua mensagem. Mas se você deixa essa fama contaminar seu coração com sentimentos equivocados… ai de você.

Para não falar dos outros, deixe-me pôr na berlinda. Eu escrevo livros e tenho um blog. Isso não faz de mim alguém famoso, mas acaba gerando uma certa visibilidade. De vez em quando, viajo a outros estados do país e encontro pessoas que já me conheciam devido ao que escrevo. Tomo muitos cuidados para não deixar isso afetar meu coração, pois, no dia em que a minha escrita tiver como motivação a projeção pessoal e não o desejo sincero de abençoar vidas, eu terei fracassado monumentalmente. Estarei a um passo da infelicidade. Jamais posso permitir que a vaidade domine meu coração, caso contrário todo o propósito de meus livros e deste blog estará pervertido e me tornarei alguém digno de pena. Deus, nunca permita que isso ocorra, por favor. Que toda a atenção voltada para mim sirva sempre para projetar Cristo, jamais o mensageiro pecador, imperfeito e falho que sou eu. Não é falsa modéstia: é a pura constatação da realidade.

Mature businessman holding scrunched moneyQue dizer, então, do dinheiro? Muitos abrem mão do que de fato tem valor por amar mais o dinheiro, que, como você bem sabe, gera problemas seriíssimos. “De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos” (1Tm 6.6-10). Conheço cristãos bons e sinceros que acabaram cometendo atrocidades por causa de dinheiro, que praticaram atos de desamor por amar as riquezas. Quando vidas caem em segundo plano e são desamparadas, enganadas ou vilipendiadas por aquilo que o dinheiro pode proporcionar é sinal que Jesus não está mais no barco, apenas observa da praia, com muito pesar. “Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque Deus mesmo disse: ‘Nunca o deixarei, nunca o abandonarei’” (Hb 13.5).

Convido você a analisar o seu coração, por uma razão fundamental: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida” (Pv 4.23). O que tem motivado suas ações? Será o dinheiro? Será a vontade de aparecer? Por que você prega? Pelas ofertas e pela notoriedade que estar no púlpito pode te dar? Por que você louva? Pela venda dos CDs e para receber elogios? Por que você faz o que faz? Se a resposta não for “para a glória de Deus”, recomendo que reavalie urgentemente as prioridades e os valores da sua vida. “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Caso a proposta de felicidade do mundo tenha conquistado o seu coração, mude tudo, rápido. Caso contrário, você pode acabar rico, famoso, vazio e infeliz.

??????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Meu irmão, minha irmã, sei que você já ouviu isso muitas outras vezes, mas nunca é demais repetir: só Cristo satisfaz. Só nele encontramos a verdadeira felicidade. É no relacionamento com o Senhor que recebemos paz, alento, tranquilidade e contentamento real. É nas demonstrações de piedade, nas ações de amor ao próximo, que experimentamos alegria inigualável. Regozije-se não por ter um salário alto e muito dinheiro no banco ou por ser reconhecido por onde passa e muitos te convidam para eventos, mas porque você fez o deprimido sorrir, o faminto se alimentar, o atribulado encontrar a paz, o perdido enxergar a luz. Que a sua vida seja devotada não a tornar-se uma pessoa como Robin Williams e Kurt Cobain, mas a levar o amor e a graça de Deus a pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain – só então você será verdadeiramente feliz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

mancha1Tenho uma mancha nas costas. Embora seja uma ligeira pigmentação na pele, não é uma mancha pequena, tem aproximadamente o tamanho de um gomo de tangerina. Por isso, ela não passa despercebido facilmente. Mas, acredite, eu só descobri que tinha essa marca de nascença quando já era adulto. Parece estranho? E é mesmo, mas tem uma explicação: ela fica localizada em um local das costas que não se vê facilmente no espelho, por isso eu nunca a tinha percebido antes (e ficar espiando minhas costas não é algo que eu costume fazer com frequência). Mas o que mais me chamou a atenção quando descobri que a mancha existia é que ninguém nunca havia me dito antes que eu a tinha. Quem comentou comigo pela primeira vez sobre ela foi um médico, já quando eu tinha uns 24 anos. Ele questionou há quanto tempo ela estava ali e eu, intrigado, respondi: “Mancha? Que mancha?”. Fui perguntar a meus pais, que, então, me disseram que eu nasci com ela. Fiquei chocado. Como era possível que em mais de vinte anos de vida eu nunca tivesse tomado conhecimento de que havia uma mancha nas minhas costas? Bem, a verdade é que ninguém jamais se preocupou em me falar nada sobre aquela penetra indesejável – talvez por desinteresse, talvez por constrangimento – por isso ela ficou ali, escondida de meus olhos, habitando minha vida sem meu conhecimento, por anos e anos. Pensando sobre isso, vejo como é importante haver por perto pessoas que tenham a liberdade de apontar as manchas que temos não só no corpo, mas, principalmente, na alma. Em outras palavras: críticos.

Uma das maneiras mais eficientes de errarmos em nossas atitudes e decisões é estabelecermos uma barreira que impeça críticas. No dia em que você não estiver aberto a ouvir dos outros o que eles veem de errado em você pode ter certeza de que aí é que as coisas começarão a dar errado mesmo. Afinal, é muito fácil não nos enxergarmos com clareza. Já reparou que a sua mão esquerda torna-se a direita no reflexo do espelho? Isso também acontece quando olhamos para nós mesmos: não costumamos ter uma visão precisa de quem somos e de quão corretas são nossas escolhas e atitudes. Podem ser muitas as razões para isso: egocentrismo, amor-próprio exacerbado, egoísmo, arrogância, autossuficiência e muitos outros pecados. Sim, isso mesmo: pecados. Pois considerar-se acima de erros é uma forma de idolatria. E não são poucas as pessoas que idolatram as próprias opiniões e atitudes, tornando-se aversas a qualquer tipo de crítica.

mancha2Eu tenho muitas manchas que não estão na minha pele, mas dentro de mim. São valores distorcidos, conceitos mal trabalhados, opiniões equivocadas, pecados, atitudes injustas, pensamentos incorretos, maus sentimentos e uma enormidade de outras marcas que interferem na pureza de minha alma. Muitas e muitas vezes esses problemas se escondem em lugares para mim difíceis de enxergar, cantos escuros do meu senso crítico, espaços sombrios do meu ego, regiões pouco iluminadas da minha autocrítica. São regiões que não consigo ver com clareza, o que possibilita que muitas dessas falhas de caráter ou imperfeições fiquem escondidas por períodos de tempo enormes sem que eu me dê conta de que estão ali.

mancha3Nessas horas, é fundamental que haja pessoas de confiança a quem possamos dar a liberdade de nos dizer que há manchas em nós e na nossa vida. Felizes são aqueles que escutam esses alertas com humildade e conseguem perceber que precisam fazer algo a respeito. Quem ouve críticas, exortações e toques legítimos e reage com indignação em vez de gratidão está sendo insensato. É muito comum vermos reações não muito amáveis a quem nos critica, a ponto de chegarmos a pensar: “Eu é que sou o dono do meu nariz!”. É verdade, mas… faça uma experiência. Tente olhar para o seu nariz, sem ser no espelho. Você o enxerga com nitidez? Será que alguém que está à sua frente não o vê melhor do que você? Assim é com relação à nossa vida: muitas vezes acreditamos saber o que é o melhor e, por isso, ignoramos a visão de quem está próximo, quando, muitas vezes, outros estão vendo a situação com muito mais clareza do que nós mesmos.

A paixão cega, logo, não seria melhor ouvir o conselho de alguém de fora sobre aquele namorado? Muitas pessoas reclamam de você, logo, será que não há algo em que esteja errando? Suas atitudes geram montes de críticas, logo, será que algumas delas não estão corretas? Ninguém do seu grupo apoia o que está fazendo, logo, será que não é hora de reconsiderar? O pastor já chamou a sua atenção sobre o que a Bíblia diz a respeito de algo que você vem fazendo, logo, será que não seria bom lhe dar ouvidos? Em resumo, devemos estar abertos para perguntas que sugerem a existência de manchas em nossa alma: “Será que realmente estou certo?”. “Será que errei?”. “Será que estou pecando?”. “Será?”.

Saul é um exemplo de alguém que não deixou os outros lhe apontarem as próprias manchas. Roboão também ignorou o conselho de quem apontava problemas em suas decisões. Sansão preferiu seguir suas próprias vontades a ouvir a sabedoria dos que o amavam. Assim como eles, vemos na Bíblia muitos que fecharam os ouvidos à percepção alheia – em outras palavras, que repudiaram a crítica – e que tiveram de colher frutos amargos dessa atitude. Peço a Deus que não cometamos o mesmo erro.

mancha4Há, porém, duas precauções que você deve tomar. Primeiro, analise como chega a crítica. Paulo deu a fórmula: “Pois vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata seus filhos, exortando, consolando e dando testemunho, para que vocês vivam de maneira digna de Deus, que os chamou para o seu Reino e glória” (1Ts 2.11-12). Assim, vemos que a exortação deve vir sempre junto com consolo e testemunho, não apenas com um dedo na cara e palavras de ataque. A exortação que vem envolta em amor e suavidade é a chamada “critica construtiva” e deve receber toda a nossa atenção; já a que vem meramente com acusações é fruto do Acusador – e deve ser ignorada. Segundo, pondere o que exatamente está sendo dito: embora suas pupilas sejam uma mancha negra no meio de seus olhos, não representam um problema. Do mesmo modo, nem toda exortação ou crítica faz sentido. “E o que fazer, então?”, você poderia perguntar. A resposta: é preciso ter conhecimento de Deus e discernimento.

Tudo o que chega até nós e que configura uma exortação, uma crítica, um olhar sobre manchas que carregamos em nossa alma deve ser confrontado com a Bíblia. É pela comparação entre o que nos é dito por quem aponta nossas manchas e o que Deus diz em sua Palavra que vamos ver se a crítica faz sentido. Assim, em tudo devemos buscar o conselho do justo e onisciente Juiz. Junto a isso, precisamos ter discernimento para saber se o que nos é dito tem por objetivo nosso bem ou não. E discernimento só se obtém mediante intimidade com o Espírito Santo, o único que conhece as intenções do coração.  Portanto, se você quer blindar-se contra as críticas nocivas sem se fechar às construtivas, o caminho é conhecer os pensamentos do Senhor revelados nas Escrituras e viver em intimidade com ele por meio de oração e outras disciplinas espirituais.

mancha5Algumas manchas em nossa pele são inofensivas; outras são tumores malignos, capazes de nos levar à morte. Eu não sei discernir umas de outras, por isso preciso de gente de fora que me diga aquilo que não tenho capacidade de ver sozinho. Também preciso de humildade para ouvir o que me disserem e entendimento para saber o que fazer a partir do momento em que ficar a par da realidade. Quando tomei conhecimento de que havia uma mancha em minhas costas, recorri ao dermatologista, que me disse que aquilo não era nada de mais e não oferecia qualquer risco. Mas pode ter certeza de que, se ele tivesse dito que se tratava de algo nocivo, eu teria procurado extirpar aquela mancha o mais rápido possível. E ai de mim se não tivesse dado ouvidos àquele médico – talvez eu não estivesse aqui hoje para contar a história.

E você? Como tem reagido quando alguém aponta as manchas da sua alma?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

compaixao1Não há nada mais distante da realidade do que a ideia de um Jesus distante da nossa realidade. Imaginar Deus como alguém distante é um dos maiores erros que podemos cometer em nossa vida de fé. Essa concepção equivocada, aliás, gera muitos problemas, como a suposição de que ele não ouve nossa oração, de que não está conosco, de que os olhos do Senhor não estão atentos a nós, de que estamos sozinhos no mundo, de que o pecado é capaz de surpreender Cristo e montes de outras ideias erradas que assombram milhares de milhares de cristãos. Sabe quando Jesus fica distante de nós e alheio a nossos problemas? Nunca. Jamais. Em nem um único instante de nossa vida.

A presença diária de Cristo é um fato incontestável da Bíblia, uma realidade que não tem um bilionésimo de possibilidade de ser incorreta. “E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.20), assegurou o Deus encarnado, em sua última fala antes de subir aos céus. Ele é Emanuel, “Deus conosco”. Sua permanência onipresente é uma garantia. Uma promessa. E Deus não mente. “Deus não é homem para que minta” (Nm 23.19). Se Jesus falou, tá falado.

Esse mesmo Jesus que deu sua palavra imutável de que nunca estaria longe de nós passou por tudo aquilo que eu e você passamos nesta vida. Frio? Jesus sentiu. Dor? Jesus sentiu. Abandono? Jesus sentiu. Tristeza? Jesus sentiu. Mais ainda: Cristo foi tentado em tudo. E sabe o que significa tudo? Significa… tudo. Portanto, “visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.” (Hb 4.14-17). Se Jesus passou por todo tipo de tentação, não seria pecado dizer que ele foi tentado para roubar, fornicar, sonegar, corromper, faltar com a ética, trair, amar o dinheiro… a lista é interminável. Foi tentado, sim, mas não pecou. Ele conhece bem o doce gosto da venenosa tentação, que é o amargo sabor de se tornar humano.

A grande conclusão: Jesus entende você totalmente. Ele sentiu na pele tudo o que você sente. Ele sentiu na alma tudo o que te machuca. E Jesus está com você, perto. Portanto, o Deus que tudo pode compreende com absoluta clareza o que você está enfrentando e ele está ao seu lado para auxiliá-lo. Você poderia se perguntar se Deus se identifica com sua humanidade. Sobre isso escreveu Paulo: “… embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fp 2.6-7). Sim, Deus sabe o que é ser gente.

compaixao2E aqui entra uma das maiores realidades sobre o Deus que se fez homem: a palavra grega usada em diferentes passagens dos evangelhos para se referir a compaixão é splanchnizomai. É curioso que, na medicina, “esplancnologia” é o estudo das vísceras, das entranhas. Os conceitos têm a mesma raiz. Assim, a compaixão de Jesus por pessoas como eu e você não é comum: Jesus sente a nossa dor em suas entranhas. Como escreveu Max Lucado, ele “sentiu a deficiência dos mancos, a dor dos enfermos, a solidão do leproso, o constrangimento dos pecadores”. Por isso, quando Jesus encontra pessoas que estão sofrendo, ele sente a dor delas nas próprias entranhas.

Sabe a sua dor? Tenha certeza de que o Cordeiro de Deus a está sentindo no mais íntimo de seu ser divino e humano. Se dói em você dói nele. Se te aflige, aflige o Mestre. Sabe o seu abatimento, a decepção, a solidão, o amor-próprio ferido, a falta de paz e tudo mais que você está sentindo? Jesus sente também. Você foi traído? Jesus soltou um gemido. Você foi esquecido? Jesus sofreu. Você foi desamparado? Jesus cerrou os dentes. Você foi agredido? Jesus sentiu o golpe. Doeu? Jesus disse “Ai…”.

Isso só ocorre porque ele sente splanchnizomai. Compaixão. Co-paixão, paixão compartilhada. Ele compartilha sua dor.

Assim que Jesus sente o seu sofrimento, porém, ele se lembra do Calvário. Recorda-se dos cravos e da coroa de espinhos. E, por fim, lança sobre a cruz toda essa enorme carga de sofrimento – as suas mágoas, tristezas, aflições, decepções. Você tem carregado suas aflições nas costas? Então siga o exemplo do compassivo Deus: lance-as sobre a cruz, pois há dois mil anos ela espera por cada uma de suas dores.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

casar1É enorme a quantidade de casamentos problemáticos entre cristãos. Alguns dos posts mais lidos e comentados aqui do APENAS são os que versam sobre problemas matrimoniais. Muitos dos livros mais vendidos pelas editoras cristãs são os que tratam do assunto. Um dos tipos de ministério “direcionado” que mais surgem é o voltado a famílias e casamentos. Esses fatos denunciam que cristãos enfrentam problemas conjugais tanto quanto não cristãos. Pelo espaço dos comentários do blog chegam até mim muitos casos de pessoas que buscam respostas para problemas conjugais, em situações as mais variadas (se é o seu caso, procure seu pastor, ele é quem melhor pode aconselhá-lo). Em programas de rádio e palestras de que já participei sobre o assunto vejo tipos de problemas que jamais imaginaria, que vão da chamada “incompatibilidade de gênios” a casos de incesto. O que fica muito claro é que o casamento é uma das áreas mais visadas nos ataques espirituais contra os cristãos e por uma simples razão: ao se destruir uma família, ocorre a desestruturação dos cônjuges em diversos âmbitos, os filhos ficam traumatizados, as comunidades são abaladas e, com tudo isso, fere-se a Igreja de Cristo. Assim, qualquer ataque a um casamento é uma afronta direta a Deus. Para quem vive desilusões e problemas no matrimônio, muitas vezes o divórcio é a solução. Já para mim, uma das soluções para problemas matrimoniais é uma mudança na sua compreensão acerca do verdadeiro propósito do casamento.

Como todo mundo, eu me casei acreditando naquelas frases feitas, como “Casei para ser feliz” ou “Casei para fazer o meu cônjuge feliz”. De um modo ou de outro, o que por anos foi muito claro é que o matrimônio tem – no imaginário popular – como finalidade levar o casal à felicidade. É o que nos ensinam nos contos de fadas, em que príncipe e princesa necessariamente têm de “ser felizes para sempre” e ninguém ensina a nossos filhos que príncipes e princesas não vivem deitados eternamente em berço esplêndido, tampouco são lindos de morrer (lembra do príncipe Charles, por exemplo?). Pelo contrário, eles têm obrigações, cotidianos corridos e estressantes, assuntos complicadíssimos do reino para resolver, responsabilidades graves, estresse constante pelo assédio da imprensa (lembra de como foi a morte da princesa Diana, fugindo dos paparazzi?), que exigem demais deles. Mas a imagem ensinada aos pequenos é que príncipes e princesas são bonequinhos lindos e cheirosos, sempre felizes, eternamente de bem com a vida, numa utopia destrutiva para a formação de identidade de um ser humano – é por isso que sinto pânico quando ouço crianças serem chamadas por cargos da monarquia, como “reizinho” e “princesinha”. E, assim, somos adestrados desde os primeiros anos de vida a acreditar que o casamento tem de nos conduzir a esse estado de “ser feliz para sempre”. O que, aliás, é impossível, nunca acontecerá com ninguém e é propaganda enganosa. Mas todo mundo sobe ao altar acreditando nisso.

princesasA princesinha da mamãe um dia vai se casar com um ogro, que, por mais esforçado que seja, terá todos os defeitos que ela não espera (afinal, tirando o Shrek, os príncipes dos contos de fadas nunca têm defeitos). O principezinho do papai um dia se casará com uma mulher que não é delicadinha e obediente como a princesa dos desenhos animados (ou você acha que a rainha Elsa, de “Frozen”, nunca vai engordar, criar pelanca e dar ataques de TPM?). A realidade é a realidade, mas aprendemos de nossos pais e ensinamos a nossos filhos que nosso casamento tem de ser exatamente como na ficção. Que, como diz o nome, é ficção. A realidade tem cores, cheiros e um peso enormemente diferentes.

Adestrados por essa mentalidade equivocada, hedonista e antibíblica de que casamento foi feito para nossa felicidade ininterrupta, subimos correndo ao altar com essa ideia totalmente irreal em mente. Seguimos para a lua de mel com ela. E, pior de tudo, prosseguimos pela vida tomando-a como o critério para julgar se um casamento é bem-sucedido ou não. Só que, por acreditarmos no conto de fadas da felicidade ininterrupta, quando somos confrontados pela realidade é impossível não se frustrar com o cônjuge, não se desapontar, não se chocar com a enorme distância entre ele e aquele lindo príncipe sem espinhas, nariz escorrendo ou cheiro de suor que desperta a Branca de Neve de seu sono com um lindo beijo nos lábios (já imaginou o hálito da Branca de Neve depois de tanto tempo dormindo, sem escovar os dentes?).

washerEu acreditei por muitos anos na mentira da felicidade como critério para julgar a solidez de um casamento. E, assim como você, tive muitas infelicidades ao longo de minha vida matrimonial justamente porque em muitos momentos me vi infeliz. E, assim, a infelicidade alimenta a infelicidade, num ciclo que parece não ter fim. “Se quero ser feliz no casamento mas não sou sempre feliz na vida a dois, então meu casamento é um desastre”, cheguei a penar. Tudo mudou quando ouvi há poucos anos uma pregação do pastor Paul Washer, no YouTube, que causou uma grande transformação na minha forma de enxergar o matrimônio. Recomendo enfaticamente que você assista (clique AQUI). Como toda pregação eficaz e bíblica, ela mexeu com minhas estruturas e modificou minha forma de ver tudo.

Essencialmente, o que Washer ressalta, com muita correção bíblica, é que o casamento não foi criado por Deus para nos fazer felizes, ao contrário do que prega a sociedade em que vivemos. “O verdadeiro propósito do casamento é que ambos sejam conformes à imagem de Jesus Cristo”, diz. Essa percepção mudou totalmente a minha visão sobre o casamento. Ouvir essa pregação foi como uma cortina que se levantasse diante de meus olhos e me fez compreender enormemente coisas que antes eu não compreendia. Meus paradigmas foram transformados. E Deus promoveu em mim a metanoia, a renovação da mente de que Paulo fala em Romanos 12.2.

Meu casamento tornou-se perfeito depois disso? Claro que não. Eu não sou perfeito e minha esposa também não é, lógico que nosso matrimônio jamais seria (ou será) perfeito. Mas o entendimento do verdadeiro propósito do casamento fez com que meus esforços e minhas percepções começassem a me conduzir por caminhos completamente diferentes. Quando você compreende que não se casa para ficar sorrindo, dançando e pulando o tempo inteiro, com dentes brilhantes sob a luz do luar, passa a ter atitudes muito contrárias às que tinha antes.

casalEntenda algo. Se seu cônjuge é turrão e cabeça dura mas você acredita que ele teria de ser diferente para você ser feliz, então você viverá eternamente insatisfeito (ou você ainda acredita na ideia de que as pessoas mudam conforme o seu querer? A sua vontade de que mudem não mudará ninguém). Mas, se entende que seu cônjuge turrão faz com que você se torne alguém mais paciente, então enxerga que o seu casamento com alguém cabeça dura te conforma mais à imagem de Cristo. Outro exemplo: se o seu marido (ou a sua esposa) é meio brigão, comece a tentar ver que isso pode desenvolver em você um lado pacificador cada vez maior. Ou, ainda, se o seu cônjuge é do tipo que de vez em quando busca iniciar briguinhas e discussões, perceba quanto isso te leva a crescer em domínio próprio. Em outras palavras, cada defeito da pessoa com quem você se casou pode ser visto de duas maneiras: ou como um obstáculo à sua felicidade e à sua ideia de casamento conto de fadas, ou como um meio que Deus estabeleceu para que você seja cada vez mais assemelhado a Cristo. Como disse Paul Washer, “Ele [Deus] quer prová-lo e testá-lo de forma que você será conformado à imagem de Jesus Cristo”.

Sei que muitos não concordarão de imediato com essa visão, o que é totalmente compreensível. Não é fácil mudar décadas de uma ideia formatada, que foi inserida na sua cabeça desde que você usava fraldas. Mas, se você consegue adquirir a percepção de que seu cônjuge não é um adversário imperfeito que chegou para atazanar sua vida, mas, sim, um aliado imperfeito que chegou para criar mais e mais intimidade entre você e o Cordeiro de Deus… tudo muda. Em mim mudou.

aliançaO Senhor quer nos fazer crescer em misericórdia, graça e amor incondicional. Deus deseja que cresçamos a partir das fraquezas de nosso cônjuge – e ele, das nossas – para que cuidemos e amemos nossos maridos e nossas esposas mesmo quando eles não atenderem às nossas expectativas. Sei que você vai questionar muito o que escrevi aqui quando olhar seu cônjuge, lembrar de todos os defeitos, falhas e pecados dele – repetidos dezenas de vezes, muitas delas sem arrependimento. Vai achar loucura que ter de enfrentar isso seja algo que venha para o seu crescimento. E é mesmo: “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18). Sim, é loucura a olhos humanos. Mas é crescimento espiritual aos olhos divinos. “‘Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos’, declara o SENHOR. ‘Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos'” (Is 55.8-9).

Desde que ouvi essa pregação, volto a ela com frequência. Ouço e ouço de novo. A demolição de ideias que nos acompanharam por décadas nunca é algo rápido ou fácil. Exige humildade e dói. Mas a reconstrução é libertadora. Só Deus sabe como essa nova percepção da realidade bíblica mudou totalmente a forma de enxergar meu casamento e minha esposa e, com isso, mudou muito em mim. O que antes eu via como defeito agora enxergo como canal de bênção. O que antes eu acreditava que subtraía hoje eu vejo que soma. Ainda estou no processo, mas já é possível observar a diferença que faz o abandono da teoria irreal de que casamento tem como finalidade a felicidade eterna. Pois essa teoria necessariamente pressupõe a existência de um cônjuge que seja perfeito a ponto de ser capaz de nos proporcionar felicidade eterna e, também, na existência de perfeição em nós, para que possamos proporcionar felicidade eterna a nosso cônjuge. Só que isso não existe, jamais existiu e nunca existirá. Ninguém jamais será perfeito, meu irmão, minha irmã. Você jamais será perfeito. Logo, o cônjuge ideal só existe nos nossos sonhos irreais. É por isso que você é um cônjuge tão imperfeito. A realidade é o que está dentro de sua casa – seu cônjuge e você. E é a partir dessa realidade que Deus quer conformar ambos à imagem de Cristo.

casal0Sei que deve ser muito duro para você ler isso. Acredite, não escrevo este texto com o coração leve. Pois entendo perfeitamente o que é alguém que vive realidades muito difíceis em sua vida conjugal olhar para elas e aceitar que Deus as permite para seu crescimento espiritual. Compreendo se você se revoltar contra esse pensamento, embora lamente caso não consiga enxergar a profundidade espiritual que ele carrega em si. Mas a sabedoria bíblica que essa mensagem compartilha é fulminante. Como diz Pr. Washer com extremo discernimento espiritual, “Como Deus te ama muito, ele não lhe dá alguém compatível com você. Isso ocorre porque Deus é muito melhor do que você e os seus presentes são muito maiores do que aqueles que você poderia sequer dar a si mesmo. Você ia querer uma vida fácil e com perfeita compatibilidade. Deus não vai te dar isso, porque isso nunca produz caráter cristão, piedade verdadeira ou conformidade com a imagem de Jesus Cristo”.

Vi em outro vídeo – de uma curta conversa entre John Piper, Tim Keller e D.A.Carson – que o  pastor, teólogo e mártir cristão Dietrich Bonhoeffer disse que “a aliança entre marido e mulher sustenta o amor e não o amor sustenta a aliança” (veja o vídeo AQUI). O pacto que fazemos no altar é, acima de tudo, de respeito a uma aliança, antes de ser de amor. Quando você compreende isso, tudo muda. E, pode acreditar, você passa a amar muito mais. E, se você rompe esse pacto, tudo torna-se muito pior. Por isso, fica aqui o conselho enfático: se você falhou nas promessas estabelecidas na aliança, não descarte esse casamento, pelo contrário, busque na graça de Deus o restabelecimento da aliança e prossiga em frente. Houve erros e pecados que feriram os termos da aliança entre você e seu cônjuge? Então recorra ao Senhor em busca da restauração – pois ele deseja, pode e vai restaurar seu casamento se você tão somente se dispuser a isso.

cruz de cristoPeço a Deus que todas as dificuldades de sua vida matrimonial venham a fazer você e seu cônjuge crescerem em intimidade com Deus. Que as falhas e imperfeições suas e de seu cônjuge sirvam para conformá-los cada vez mais à imagem de Cristo. Pois “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho…” (Rm 8.28-29). Você não é perfeito. Seu cônjuge não é perfeito. E, para tentar aproximar vocês dois um pouco mais da perfeição, o Ser perfeito criou essa estranha ferramenta chamada casamento. Use-a e torne-se a cada dia um pouco mais como Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício