Arquivo da categoria ‘Pastores’

Tempo1Sempre que assisto a um filme procuro mais do que mero entretenimento. Gosto de estar atento a que mensagens posso tirar dele, que aprendizados as entrelinhas da história podem somar à minha vida, de que modo aquela produção artística tem a contribuir além da superfície da tela. Revi recentemente um longa-metragem de 1989, chamado “Tempo de glória” (foto), baseado na história real de um batalhão de soldados negros comandado por um coronel branco durante a racista guerra civil dos Estados Unidos. Muitos aspectos da trama são comoventes,  mas um em especial captou minha atenção: o tema da liderança.

No começo do filme, os soldados negros são tratados como inferiores, o tempo inteiro, pelo próprio exército a que servem. Não recebem uniformes, têm os pés feridos porque o governo não lhes fornece botas e meias, são obrigados a saquear cidades em vez de ir para o combate. Tudo aquilo joga a moral do 54º Batalhão lá para baixo. Os soldados desprezam seu líder, o coronel Robert Shaw (na foto, o verdadeiro e o ator Matthew Broderick, que o interpreta no filme). Isso aconTempo5tece porque não enxergam nele autoridade real, pois sabem que está ali apenas porque seu pai é um político influente. Shaw vê o problema e percebe que, se não fizer algo, terá de lidar com o eterno desprezo dos liderados, que só o obedecem por força da autoridade do cargo (e não por enxergarem nele alguém capaz).

É dia de pagamento. Para surpresa geral, chega a informação oficial de que, por serem negros, aqueles soldados receberiam um soldo de dez dólares, em vez dos treze prometidos quando se alistaram. O coronel sobe em um palanque e informa a tropa desse fato. A – justa – revolta é geral: os soldados começam a bradar, gritar, reclamar e a rasgar seus contracheques em sinal de protesto.  A confusão impera. Motim à vista. Todos olham de forma desafiadora para o líder a quem desprezam, já esperando dele a inevitável reprimenda ou a previsível punição por aquela sublevação. Diante da balbúrdia total, o coronel toma a iniciativa inesperada. Em alta voz ele dirige-se aos soldados:

— Se vocês não vão receber o salário prometido… ninguém vai!

E, para espanto deles, rasga o próprio contracheque, na frente de todos. Após um instante de silêncio e estupefação, todo o batalhão vibra com a atitude de seu líder e começa a aclamá-lo. Ao apoiar seus liderados e tomar as dores deles em favor da justiça, aquele homem, até então alvo de chacota e desrespeito, passa a ser honrado pelos subordinados, que começam a segui-lo pelo valor que tem e não porque ocupa um cargo hierarquicamente superior.

Tempo2Ao final do filme, numa investida contra um forte dominado pelo inimigo, em vez de seguir o que o protocolo do exército ditava e permanecer montado em seu cavalo, na retaguarda (o lugar mais protegido da batalha), o coronel desce de sua montaria para o nível do chão e posiciona-se à frente de todos, trocando o lugar mais seguro justamente pelo mais vulnerável. Aquele magnífico exemplo de liderança choca, emociona e motiva os soldados. Desculpe estragar o final do filme, mas preciso dizer: o líder que desceu para o nível dos liderados, comprou suas dores e expôs-se ao perigo pessoal para motivá-los acaba tombando no campo de batalha. Morre. E, nos créditos finais, somos informados de que, na vida real, os atos de bravura daquele batalhão, inspirados por seu líder, mudaram toda a postura do exército com relação aos soldados negros, o que incentivou o alistamento de milhares de homens e a consequente vitória na Guerra Civil.

Tudo fruto de um líder que soube liderar. E que, por isso, mudou os rumos da história.

Tempo3Não é difícil ser um líder. Para isso basta as circunstâncias da vida te porem em uma posição de autoridade. A partir daí é só dar ordens. O que é muito, mas muito fácil. Minha filha de 2 anos sabe dar ordens a suas bonecas. O difícil, isso sim, é ser um bom líder. Aquele que não precisa fazer força para que seus liderados o sigam. Que é seguido por vontade e não por obrigação. Ao longo de minha vida já vi líderes que, bastava virar as costas, todos os liderados começavam a falar mal dele. Dignos de pena. Não eram respeitados ou reconhecidos, a única coisa que fazia deles um líder era o posto que ocupavam. E um líder que é obedecido em vez de ser seguido é uma pálida sombra do que deveria ser.

O líder ideal não é temido, é amado. Não se impõe, é servido com prazer. Entende que sua liderança existe em função dos liderados e não o contrário. Quem acredita que os liderados estão ali em função de si será sempre um homem com uma miragem. O bom líder é imitado por seus subordinados, é um exemplo, um modelo. Suas decisões não são questionadas porque “quem manda aqui sou eu”, mas porque ele tem a confiança dos que lidera.

O bom líder não é o que usa artifícios e estratégias para se impor, mas é reconhecido espontaneamente como alguém que sabe apontar caminhos. É o alfa do bando não porque voou na jugular dos outros machos que disputavam a liderança, mas porque os subordinados o reconhereram como tal e lhe entregaram o cetro sem que ele precisasse mexer um dedo. Quer saber se o líder é bom ou não? Esconda-se no banheiro e ouça o que os liderados falam sobre ele pelas costas. Você vai se surpreender com o que vai ouvir. E tudo isso vale para líderes de ambientes seculares e também da igreja.

Tempo4Jesus é o modelo supremo. Ele rasgou o contracheque de sua glória para descer ao nível de seus liderados. Dispensou o cavalo de seu conforto celestial e a retaguarda da proteção do céu e se pôs de peito aberto na frente de batalha. Morreu. E, assim como o coronel do filme, com sua morte ele mudou os rumos da história. Porque, em última instância, o grande líder é aquele que será lembrado por ter aberto mão de si mesmo por aqueles que liderava e deixado um exemplo a ser seguido por gerações e gerações. O líder ordinário, o que pensa mais em si do que nos liderados, é irrelevante. É dispensável. É supérfluo. E, pouco tempo depois de morrer, será esquecido. Esse, se for lembrado, será não como um referencial, mas como um tirano, um déspota ou um pobre coitado.

Robert Shaw era um homem que, antes da guerra, só cuidava de si e sua família – depois de morrer, ganharia no máximo uma lápide como qualquer outra. Mas o líder Robert Shaw tornou-se um referencial a ser imitado; inRobert Shawspirou vidas; foi tema de livros, poesias e de um filme que recebeu três Oscars; ganhou um monumento em sua homenagem na cidade de Boston; outro em Nova York; seu nome consta de uma placa no hall de honra da Universidade Harvard; na Galeria de Arte Nacional de Washington há uma escultura em platina que relembra seus feitos (foto); todo um bairro em Washington hoje chama-se Shaw, em sua memória; e aqui estamós nós, exatos 150 anos após sua morte, falando sobre ele.  Tudo isso é um reconhecimento ao magnífico líder e ao legado que deixou com suas atitudes – mais centradas nos liderados do que nele mesmo.

Que tipo de líder é você? E que tipo de líder você segue? As respostas a essas perguntas podem alterar os rumos da sua história. Ainda há tempo de tomar coragem e mudar. A decisão é sua.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Ted1Para que o Verbo se fez carne? A Bíblia diz, entre outras coisas, que o Cristo veio para perdoar pecadores, resgatar almas, curar os doentes, dar esperança ao desesperançado, conceder paz ao aflito, compartilhar sua graça, buscar a ovelha desgarrada, cuidar dos desesperados, zelar por Sua noiva. Só que, infelizmente, em grande parte nós, seus embaixadores na terra, parece que nos esquecemos disso. Estou escrevendo este texto ainda sob o impacto de um documentário a que assisti, chamado “O Julgamento de Ted Haggard” – que, admito, emocionou-me profundamente. Pela inequívoca constatação de que uma grande parcela da Igreja evangélica está pecando gravemente na missão que Jesus nos confiou: a de cuidar, tratar e restaurar pecadores. Não afundá-los ainda mais na lama, mas conduzi-los ao Pai em reconciliação. Felizmente, a Igreja como um todo não é assim, é misericordiosa e amorosa. Mas, ao ver esse filme, o que se descortinou ante meus olhos foi uma parcela feia da igreja: uma igreja impiedosa, egoísta e deficiente em seus propósitos. Uma igreja descartável e sem nenhuma semelhança com o Reino de Deus. Em outras palavras: uma igreja que não serve para nada.

Confesso que o nome Ted Haggard me era familiar, mas eu não sabia nada da história desse pastor. Em resumo, ele era um famoso pregador nos Estados Unidos, do tipo que dá entrevistas na televisão, é recebido na Casa Branca e enche estádios com suas cruzadas. Fundou a New Life Church, em Colorado Springs, no estado do Colorado, uma congregação com mais de 14 mil membros. Até o dia em que veio a público a notícia explosiva: Pr. Haggard, um homem casado e pai de dois filhos adolescentes, teve um encontro  homossexual com um garoto de programa, que, para piorar, lhe vendeu drogas.

O que me deixou de queixo caído foi o que fizeram com ele. O homem foi excomungado (expulso) da igreja que fundou e os demais líderes da igreja simplesmente o proibiram de continuar vivendo no estado do Colorado. Isso mesmo: a igreja o baniu não só da congregação, mas do estado! Não ficou claro para mim como o fez, mas fez.

Isso me chocou porque sempre achei que, horizontalmente, uma igreja serve para tratar pecadores. Para acompanhá-los, acolhê-los, exortá-los, ministrar o Evangelho a eles e, como decorrência do seu amor cristão, pôr o caído novamente de pé – e, assim, conduzi-lo a Cristo. É o que as três parábolas de Lucas 15, por exemplo, me ensinam. A atitude correta e bíblica que a liderança da igreja deveria ter tido com Pr. Haggard? O afastado do cargo, tratado de sua alma como se faz com qualquer ovelha ferida, acompanhado e amparado sua família, mantido o suporte para não piorar sua situação e, quando ele estivesse restaurado e totalmente recuperado de seu pecado, o reinstituído na obra do Senhor. Mas o que a liderança da New Life Church fez com Haggard me lembrou muito mais a ditadura bolchevique de Stálin, que exilava seus desafetos na Sibéria para definhar e morrer por lá sem criar problemas.

Ted2Entenda que em momento nenhum estou defendendo o pecado desse homem. O que ele fez contraria a santidade de Deus, é grave, vai contra os ensinamentos de Jesus e cheira mal às narinas do Senhor. Meu objetivo com essa reflexão não é em momento algum justificar o pecado. Foi errado e ponto. Não há discussão sobre isso. O circo da mídia já explorou à exaustão o erro de Haggard, até mesmo com piadinhas sujas e sádicas – que foram vistas na TV pela família do pastor, inclusive – não preciso fazer mais isso aqui. Minha reflexão é sobre como a New Life Church agiu – como muitas igrejas agem, assim como eu e você – quando descobriu que esse cristão incorreu em um pecado.

A propósito, quantos pecados eu e você cometemos mesmo desde nossa conversão? Atiremos, pois, a primeira pedra. Mas nessas horas ninguém se lembra disso…

Voltando ao caso Haggard, o documentário mostra como o pastor, sua magnífica mulher (que manteve-se ao seu lado, o apoiando, apesar de tudo) e seus filhos tiveram de sair do estado em que moravam com uma mão na frente e outra atrás, totalmente desamparados pela igreja, para viver em casas emprestadas e hotéis de beira de estrada. Não houve um mínimo de cuidado com sua vida, se não por amor e misericórdia cristãos, pelo menos por reconhecimento a seus muitos anos colaborando para o crescimento da congregação (que fundou, lembre-se). Anos e anos de dedicação de repente foram apagados do mapa devido a um pecado. E nenhum de seus ex-colegas de ministério lhe deu sequer um mísero telefonema para saber como ele estava. Simplesmente lhe viraram as costas.

Ted4Em certo momento, a diretora do filme pergunta: “Onde estão seus amigos?”. E Haggard, num sorriso amarelo, responde: “Foram embora”. A próxima pergunta: “Como é o exílio?”. E ele: “Estamos infelizes”. Depois é a vez de a esposa dele falar: “Não acredito em banir pessoas porque cometeram erros, simplesmente porque a Bíblia ensina justamente o contrário”. Elementar. Básico do básico. É o que nos ensinam na escolinha bíblica infantil. Mas nessa hora o Evangelho não teve peso algum na decisão dos líderes da New Life. Bíblia? Que Bíblia? Perdoar setenta vezes sete? Deixar as 99 ovelhas para buscar a desgarrada? Não devolver mal com mal? Ao próximo como a mim mesmo? Amor? Compaixão? Preocupação com o destino eterno daquela alma? Ficou tudo na teoria. Banam o pecador leproso, para que morra no deserto, será menos incômodo para nós.

Chamou minha atenção que em todo momento Haggard reconhece seu pecado. Ele não culpa ninguém. Não ataca quem o expulsou. Não atribui dolo a seus colegas de ministério ou aos “amigos” que sumiram. Sempre assume sua posição como aquele que cometeu o erro. Mas em um momento de profunda depressão ele deixa escapar como se deu sua saída da New Life Church: “Me disseram para ir pro inferno e decidiram me exilar”.

Ted5 Desamparado, para tentar dar um pouco de dignidade a sua família Haggard começou a buscar empregos seculares, até mesmo como motorista de ônibus. Após 6 meses de exílio, ele continuava desempregado. Decidiu, então, ingressar numa faculdade de Psicologia. Quando indagado pela entrevistadora sobre a razão de escolher esse caminho, ele diz: “A igreja não fez nada por mim após minha queda, mas os terapeutas fizeram. Por isso resolvi estudar psicologia”. O peso dessas palavras me arrebentou: “A igreja não fez nada por mim”. Jesus no céu deve estar orgulhoso dessa igreja, que larga a ovelha doente e ferida para morrer no degredo. Meu Deus… meu Deus…

Um ano depois de o pecador ter sido expulso, conseguiu seu primeiro emprego: começou a vender seguros de vida de porta em porta. E confessou: “Quando estou sozinho eu choro. Neste momento de minha vida sou um perdedor de primeira classe”. E aí comparo esse sentimento com o que deve ter sentido a mulher flagrada em adultério ao ouvir de Jesus: “Nem eu te condeno, vai e não peque mais”. Que diferença é quando Jesus trata o pecador e quando o homem trata o pecador…

O filme intercala cenas de pregações que ele fez na época de ouro de seu ministério com imagens atuais de sua vida após ter sido enxotado da igreja. Curiosamente, as cenas do documentário que mostram imagens de arquivo de sermões de Haggard são sempre voltadas ao perdão, à restauração de pecadores, nunca propõem execuções sumárias. O homem que pregava que o papel de cada cristão é pegar o caído e botá-lo de pé teve seu crânio esmagado quando chegou sua vez de cair. Que triste ironia. Ah, se os líderes da New Life estivessem lá quando ele pregou aquelas mensagens… bem, provavelmente estavam.

Ted6Só 18 meses depois de ter sido exilado do estado, a benigna e amorosa liderança da New Life Church (foto) permitiu que Haggard, sua mulher e os filhos voltassem a sua casa, no Colorado. O filme termina com a informação de que agora ele está se sustentando vendendo seguros de vida – um emprego digno, nada contra. Mas o que me deixou assombrado ao extremo foi a atitude dos líderes da New Life, tendo passado todo esse tempo, para restaurá-lo, ajudá-lo enquanto alma necessitada, carregar seu fardo, erguer o caído. Sabe qual?

Nada mais, nada menos do que proibi-lo de pisar na igreja. Vou repetir: ele foi proibido de pisar na igreja.

Richard Foster escreveu que “a maldição de nossos tempos” é a superficialidade. Com todo respeito e deferência que tenho por esse brilhante escritor e pensador, acredito que ele está errado. A grande maldição do século 21 é o descumprimento do Grande Mandamento. Muitos não amam de fato o próximo como a si mesmos. Todo o resto é consequência disso. A Igreja de Cristo é maravilhosa, essencial, benigna, amorosa e compassiva. Só que uma parcela gigantesca dela transborda de belos discursos mas não tem feito ao próximo o que gostaria que fizessem a si. Não trata o pecador da forma que gostaria de ser tratada. E as multidões de feridos, desiludidos, desigrejados e deprimidos como consequência desse desamor aumentam enormemente a cada dia. É por isso que só podemos depender mesmo da graça do Deus que se fez homem para nos reconciliar com o Pai. A maravilhosa graça da cruz, que pega pecadores como Ted Haggard, eu e você, nos purifica, nos restaura, veste-nos de branco e escreve nosso nome no livro da vida.

Em silêncio,
Maurício

Sata2A proclamação do Evangelho deve ter como centro Jesus. A cruz. As boas-novas da salvação. Sempre. Sempre. Sempre. Podemos pregar sobre qualquer assunto correlato, desde que tenha ligação com o epicentro de nossa fé: Cristo. Pregações sobre dízimo devem ter foco em Jesus. Pregações sobre casamento devem ter foco em Jesus. Pregações sobre vida sexual devem ter foco em Jesus. Pregações sobre arrependimento devem ter foco em Jesus. Por isso, existe uma grande resistência em alguns setores da Igreja a se pregar sobre o inferno, o diabo e os demônios. Em grande parte, isso ocorre como reação à ênfase despropositada que certas denominações dão à chamada “libertação”, em todas as suas variáveis – “descarrego”, “batalha espiritual”, expulsão de demônios etc. -,  o que leva muitos a tomar uma postura contrária, eliminando totalmente do púlpito mensagens que tenham a ver com as hostes espirituais da maldade. Essa postura acaba se refletindo em todas as esferas da vida cristã dos que assim procedem, como a rejeição por livros que falem do assunto ou mesmo nas orações que fazem e nas músicas que cantam. Por muito tempo compartilhei desse pensamento. Falar sobre isso era como jogar uma barata dentro de uma refeição refinada num restaurante chique. Mas tenho revisto essa posição. Hoje estou convencido de que devemos sim pregar sobre o inferno e os perigos das forças espirituais do mal – desde que as pregações sobre o assunto tenham foco em Jesus.

A primeira razão que me fez rever essa posição foi a releitura do Novo Testamento. Lendo as Escrituras e alguns bons livros descobri, espantado, que Jesus de Nazaré falou muito nos Evangelhos sobre o inferno. Ou seja: o próprio Senhor abriu o precedente. Afirmar que não se pode pregar sermões que tratem do mundo espiritual maligno – com foco em Cristo, sempre – seria dizer que Jesus não poderia ter falado o que falou. E repreender Deus é, no mínimo, complicado. Se por um lado, o Senhor nos disse para não ficarmos eufóricos com esse assunto (“Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” – Lc 10.20), por outro nos instrui muitas vezes sobre ele (como em “Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino [...]  Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e perguntaram: “Por que não conseguimos expulsá-lo? “  Ele respondeu: [...] esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” -  Mt 17.18-22).

Sata3Trabalho como editor de livros cristãos. Meu último projeto – sobre o qual não posso falar muito, por enquanto, por questões éticas – é uma obra de um importante pastor presbiteriano brasileiro e chanceler de uma universidades  cristã. Tradicional. Histórico. E brilhante. Surpreendeu-me, portanto, quando li em seu texto o seguinte:  “Alguém já disse que pregar sobre o inferno não é um caminho muito bom para levar pecadores ao arrependimento, porque, nesse caso, as pessoas se converteriam por medo da perdição eterna. Pessoalmente, entendo que é preferível que seja assim ao fato de o indivíduo não se converter de maneira nenhuma. Se alguém se converteu porque tem medo de ir para o inferno, isso é ótimo, mas se a conversão ocorreu por amor a Jesus é melhor ainda. Não faz mal o crente se assustar com a realidade da justiça divina”.

Cada vez mais tenho percebido a importância de alertar a Igreja, como fez o próprio apóstolo Pedro, de que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando a quem possa tragar” (1 Pe 5.8). Forças do mal estão se infiltrando nas igrejas. Nas empresas cristãs. Ensinamentos diabólicos estão conquistando espaço nos corações e nas mentes dos jovens e adolescentes evangélicos. Temos guardado os portões da frente de nossas vidas pela proclamação indispensável do Evangelho de Cristo, mas, ao fecharmos os lábios contra “as ciladas do diabo” (Ef 6.11), deixamos a porta dos fundos escancarada para a entrada dos sabotadores de nossa espiritualidade.

Sata4Deus é infinitamente mais poderoso que o diabo. A velha ideia de que Satanás e Jeová disputam as almas humanas como num cabo-de-guerra, em igualdade de condições, é um erro de proporções (anti)bíblicas. O Deus criador é tão superior ao diabo criatura que, com um piscar de olhos, Ele poderia, se quisesse, eliminar todos os demônios, todo o inferno, tudo, tudo, tudo. Então, imaginar que o diabo é inimigo direto do Todo-poderoso chega a ser engraçado, pois o querubim caído não pode absolutamente nada contra o criador do universo. Na-da. Ele é inimigo, isso sim, dos homens, a quem consegue astutamente enganar. Em especial aqueles que não estão alertas contra esse engano  e que se julgam imunes à tentação maligna.

Portanto, é por isso que Paulo, o apóstolo, prega à igreja de Éfeso: “A nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). E deixar de fora das nossas preocupações, do nosso discurso e da nossa pregação essa realidade seria ignorar um assunto tratado extensamente por Jesus e por seus discípulos nos evangelhos, nas epístolas e em Apocalipse. Seria uma irresponsabilidade.

Sata5A literatura cristã está repleta de livros sérios que alertam para o tema, seja de forma direta ou por meio da ficção. Um exemplo que imediatamente me vem à mente é o do grande C.S.Lewis, que escreveu as obras ficcionais “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, “O Grande Abismo” e “As crônicas de Nárnia”, que mostram explicita ou implicitamente a ação de demônios e – graças a Deus – despertam o fascínio sobre o tema. Aliás, dedicar tempo e tinta para alertar a Igreja contra o inferno, o diabo e seus ardis fez parte da preocupação de grandes homens de Deus desde o princípio. Além do próprio Jesus e dos autores canônicos, os primeiros escritos da época patrística trazem textos sobre o assunto de alguns pais da Igreja, como Orígenes (“De principiis”), Gregório de Nissa e outros. Assim foi e prosseguiu pelo período da escolástica (com Erasmo) e da Reforma (com Lutero e Zuínglio), seguindo por John Wesley, John Bunyan e outros (a série do website Voltemos ao Evangelho sobre “A História do Inferno” fornece uma boa bibliografia sobre o assunto). A conclusão é que sempre houve na Igreja cristã saudável a preocupação de pregar e escrever sobre Satanás, os demônios e o inferno – de Jesus a John Piper e Paul Washer. Basta procurar.

Em nossos dias, livros e relatos de ficção apresentados como verídicos, como as histórias de Rebecca Brown e similares, prestaram um desserviço à Igreja, por dois ângulos: de um lado houve quem cresse em seus contos como se fossem realidade e passasse a viver segundo suas ficções. Do outro, quem percebeu que se tratava de uma farsa passou a ter um preconceito refratário a qualquer coisa do gênero, qualquer livro que toque no assunto, qualquer música que mencione o diabo ou o inferno. O satanismo, uma realidade tão presente e infiltrada nas igrejas, ministérios e outros ambientes cristãos, tornou-se um assunto sobre o qual não se deveria falar. Com isso, saiu perdendo a importância bíblica e histórica de se tratar e de pregar sobre a questão. E quem saiu ganhando? Preciso responder?

Até mesmo na música. O tradicional hino “Castelo Forte”, composto pelo reformador Martinho Lutero,  dedica quase metade de suas linhas ao diabo e os demônios (depois que ele afirmou, veja você: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!”):

“Castelo forte é nosso Deus,
Amparo e fortaleza:
Com seu poder defende os seus
Na luta e na fraqueza.
Nos tenta Satanás,
Com fúria pertinaz,
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na Terra.

A nossa força nada faz:
Estamos, sim, perdidos.
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos.
Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz
O Senhor dos altos céus.
E sendo também Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está:
Vencido cairá
Por uma só palavra.

Que Deus a luta vencerá,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, poder,
E, embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu reino.”

.

Sata6O inferno existe e é um assunto sério. Bíblico. Jesus falou e pregou sobre ele – e muito. Devemos fazer o mesmo. Satanás e os demônios são um assunto sério. Bíblico. Jesus lidou pessoalmente, expulsou constantemente e falou sobre eles – e muito. Devemos fazer o mesmo. Se for preciso despertar o fascínio sobre o assunto, que assim seja. Pois, no pesar da balança, é melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Pois o que está em jogo aqui são almas humanas. Precisamos saber lidar de forma bíblica e correta com as hostes espirituais da maldade, que tanto dano provocam no seio da Igreja. E isso só vai acontecer se nossos líderes nos ensinarem a fazê-lo biblicamente. Enquanto acreditarem na inverdade que “não se prega falando sobre o inferno, Satanás e os demônios”, estarão na contramão do que fez Jesus, os escritores canônicos, os pais da Igreja, os escolásticos, os reformadores, os expoentes dos grandes despertamentos e importantes pregadores reformados de nossos dias. E, com isso, só quem lucra é o diabo, que pode usar e abusar dos cristãos que não sabem lidar com o mal porque nunca lhes ensinaram a fazer isso de forma sadia.

É ingenuidade acreditar que basta pregar sobre Cristo sem falar nada sobre o diabo e estaremos isentos das artimanhas e dos ataques do maligno. Já ouvi o bom argumento de que para aprender a identificar a nota falsa basta conhecer bem a verdadeira – só que, se a tinta da nota falsa gera prurido e alergia em nossa pele, somente conhecer a verdadeira não vai adiantar muito, depois que já manuseamos a falsificada. A luz espanta as trevas, é verdade, mas me diga um cristão com Jesus no coração que não peca porque aqui e ali se deixou enganar pelas forças do mal. Como vigiaremos se não sabemos como é o inimigo? Como estaremos alertas às “ciladas do diabo” se não temos conhecimento de como ele age, o que faz, como se combate? Muitas tecnologias fajutas de “batalha espiritual” ganham notoriedade em nossos dias justamente porque houve muitos que ensinaram errado enquanto os que poderiam ensinar certo deram as costas ao assunto.

Sata7Pregar sobre Jesus é o centro, o foco e a essência. Mas o que muitos lamentavelmente não enxergam é que pregar mensagens de alerta sobre o inferno, Satanás, o satanismo, as hostes espirituais da maldade – de forma bíblica! – também é fazer exatamente isso: ressaltar a altura da montanha pela profundidade do vale. Mostrar a luz pela contraposição com as trevas. Posicionar o bem a partir de um referencial maligno. Exilar o mal de nossa proclamação do Evangelho é remover o diabo da tentação de Jesus no deserto; é tirar a história do rico e Lázaro da Bíblia; é contar a parábola do semeador pela metade; é amputar os primeiros capítulos do livro de Jó; é rasgar páginas e mais páginas das epístolas; é anular todo o sentido de Apocalipse; é jogar no lixo trechos como Lc 11.14, Mc 7.29, Jo 8.49, Mt 9.33, Mt 17.18, Mc 7.26, Lc 4.33 e muitos outros. Mais importante ainda: é arrancar da história da salvação o relato da Queda. E, sem o que a serpente fez no Éden, por que mesmo precisaríamos da cruz?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Vivemos na era do cristianismo de massa. Boas igrejas são as enormes. As com milhares de membros. A celebrada congregação do Pr. David Yonggi Cho, na Coreia do Sul, é tão monumental que quem se senta nos lugares mais altos tem à disposição televisores individuais  para enxergar o pregador. Vivemos a era dos grandes eventos evangelísticos, dos enormes shows na praia de Copacabana, da separação pastor-na-plataforma/membro-na-plateia. É um cristianismo externamente vibrante e ululante mas internamente vazio e frágil. Essa é nossa era. Um pastor é considerado “bom” se a congregação dele cresce a cada dia em número de membros – e ele é tão “bom” que nem conhece o nome de seu gigantesco rebanho. O pastor que cuida de perto das ovelhas, as visita, sabe o nome de seus filhos mas não gera um crescimento numérico recebe a ordem de retornar à sede, pois “não está sabendo fazer o trabalho”. Ou “não tem ministério”. Ou “não tem unção”. Em resumo, não é “bom”. Essa é a nossa era. Mas… quero lhe fazer um convite. Vamos viajar a uma outra era e analisá-la em comparação com a nossa.

O ano é cerca de 57 d.C. Um pregador escreve uma carta para uma igreja da qual é mentor. Seu nome é Paulo de Tarso. Um homem do mais elevado grau dentro da hierarquia eclesiástica da época, apóstolo, doutor da lei, chamado pessoalmente pelo Senhor, alguém que conversou de boca com o próprio Jesus, eleito entre milhares para ser arrebatado ao céu e ver coisas inefáveis. Um indivíduo que tinha tudo para subir no salto alto, exigir ser chamado de mil adjetivos alimentadores de vaidade, entrar pela porta dos fundos para não sofrer o assédio dos membros e olhar para a massa como… a massa – um amontoado de rostos sem nome. E para que saber seus nomes, não é? O que importa é subir no púlpito, pregar e descer do púlpito pela portinha lateral. Importante demais para se misturar, que isso fique ao cargo dos auxiliares.

A carta que ele escreve vai para a igreja de Roma. Se fosse hoje, não seria uma carta, mas uma transmissão pela TV, um editorial na revista da denominação, um devocional matinal na rádio de propriedade da igreja. Seria dirigida aos “irmãos e irmãs” ou a “meu amigo, minha amiga”. Mas naquela época não havia essa tecnologia. Só havia cartas. É de se supor, pela mentalidade de nossa era, que o grande apóstolo Paulo escreveu então para o líder máximo da igreja romana, seja ele o pastor, o bispo, o presbítero. Será?

Te convido para analisar Romanos 16, o último capítulo da epístola. Vamos ver como aquele importante homem de Deus tratou as massas sem nome da igreja Romana:

“Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive”. Hmmm, nada mal, Febe deve ser uma alta dignatária da igreja romana, para merecer ter seu nome mencionado por tão reverendo homem. Prossigamos:

“Saudai Priscila e Áqüila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram a sua própria cabeça; e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios”. Mais dois nomes. Mas, também, o casal arriscou a vida pelo grande apóstolo, não é de admirar que os tenha citado nominalmente. Mas deve parar por aí, Paulo é muito ocupado, não tem tempo de se dedicar a indivíduos, tem uma enorme rede de igrejas espalhadas pela Ásia Menor para administrar. Não é…? Continuemos.

“Saudai meu querido Epêneto, primícias da Ásia para Cristo”. Estranho. Outro que Paulo conhece pelo nome.

“Saudai Maria, que muito trabalhou por vós”. Hmmm.

“Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos e estavam em Cristo antes de mim”. (Silêncio)

“Saudai Amplíato, meu dileto amigo no Senhor”. (O-O)

“Saudai Urbano, que é nosso cooperador em Cristo”.

“E também meu amado Estáquis”.

“Saudai Apeles, aprovado em Cristo”.

“Saudai os da casa de Aristóbulo. Saudai meu parente Herodião. Saudai os da casa de Narciso, que estão no Senhor. Saudai Trifena e Trifosa, as quais trabalhavam no Senhor. Saudai a estimada Pérside, que também muito trabalhou no Senhor. Saudai Rufo, eleito no Senhor, e igualmente a sua mãe, que também tem sido mãe para mim. Saudai Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas e os irmãos que se reúnem com eles. Saudai Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas e todos os santos que se reúnem com eles”.

Até aqui contei pelo menos 27 nomes. Há algo errado. Quem explica? Como pode? Como compreender à luz do cristianismo da nossa era essa intimidade, essa proximidade, esse carinho, esse afeto, esse…

…amor?

Como entender que um pregador de tal envergadura ministerial conheceria as pessoas da igreja pelo nome? Seriam grandes dizimistas? Dignatários do governo? Intelectuais e artistas famosos? Não, eram pessoas comuns. Então como explicar tanto amor vindo de um homem com tamanha intimidade com Jesus?!

A explicação é exatamente essa: Paulo era um homem de tamanha intimidade com Jesus.

Quem conhece intimamente Cristo preocupa-se em conhecer intimamente sua noiva. A noiva por quem Ele deu a própria vida numa cruz. Quem é intimo do Senhor preocupa-se com aqueles que lhe são caros. Um ministro do presidente do Brasil não está no cargo para servir somente o presidente, mas para servir também os brasileiros. É algo indissociável. Dizer que ama Deus e não amar cada um de Seus filhos é uma prova de que, na verdade, só ama Deus da boca para fora.

Deus conhece você pelo nome. Importa que quem pastoreie sua vida também o conheça pelo nome. Se foi por falta de oportunidade ou porque você chega e sai do culto sem nunca ter se apresentado… faça isso. Vá até seu pastor e lhe diga: “Quero ser discipulado”. Megaigrejas não permitem isso. Quem avalia um pastor pelo crescimento numérico da congregação que ele pastoreia não entendeu nada do que Paulo ensinou. Em vez de apenas contar o número de membros ou batizados na igreja que ele lidera, para se perceber seu tônus ministerial deve-se conversar com as ovelhas dele. Perguntar se o pastor já foi a sua casa. Se já conversou sobre sua vida. Se já o amparou em momentos de angústia. Se desce da torre de marfim para o nível do chão. Se sua com o povo. Se chora com os pequenos. Se abraça os malcheirosos. Se beija os pecadores arrependidos. Se os conhece pelo nome. Esse é o bom pastor. Os outros podem ser bons pregadores ou bons qualquer-outra-coisa. Mas pastores?

O bom pastor sabe a razão de conhecer as ovelhas pelo nome: pois, ao fazer isso, está glorificando com sua vida – como bem mostra Romanos 16.27 – o “Deus único e sábio”, a quem “seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos”.

Amém…

Paz a todos vocês que estão em Cristo: Eliana, Marco, Luiz Felipe, Bianca, Lelê, Carla, Robson, Nanda, Alexandre, Isabelle, Poliana, Luiz Fernando, Cranudo, Fábio, Solange, Felipe, João, Danila, Ricardo, Jacy, Amanda, José, Gamaliel, Elinton, Luciene, Gutemberg, Alfredo, Tarciso, Alex, Dayana, Rodrigo, Juliana, Teresa, Edson, Artimes, Willian, Ruben, Marcos, Líbia, Anderson, Luiz Henrique, Carina, Regina, Katia, Katiana, Elias, Renan, Daniel, Gessé, Davi, Gleiscon, Raquel, Simone e tantos outros que só não menciono aqui por falta de espaço.

O mano, Maurício.

Existe um problema extremamente sério quando falamos sobre pecado/perdão: é muito comum encontrarmos pessoas que foram perdoadas por Deus mas que não conseguem perdoar a si mesmas. Junte-se a isso recaídas no mesmo pecado e uma Igreja que em sua grande maioria infelizmente ainda não aprendeu a perdoar… e o resultado final é devastador: irmãos e irmãs em Cristo achatados pela própria pecaminosidade, que se veem como indivíduos menores, indignos da graça de Deus, sem possibilidade de perdão. E, quando isso ocorre, o peso da própria natureza pecadora torna-se tão esmagador e a percepção equivocada de um Pai que fechou as comportas da graça tão presente que muitos acabam abandonando a fé e se afastando de Jesus por se julgarem incapazes de viver o Evangelho. Se é o seu caso, leia com muita atenção: você está enganado. Graças a Deus, literalmente.

O que me motivou a abordar esse assunto foram dois comentários postados no APENAS que me deixaram com o coração apertado. Os reproduzo abaixo. O primeiro é de um irmão:

“Partindo da analogia, estou completamente infectado. O sistema ainda consegue operar, mas estou sentindo-o a beira de uma pane completa. Ainda consigo ler seus escritos e de outros poucos sites sérios, mas de fato, a contaminação é tamanha que não consigo colocar em prática os conselhos, admoestações, alertas que posso considerar, sem medo de errar, inspirados por Deus. Já estou tão machucado de cair de abismo em abismo, que não me sinto seguro com ninguém, visto que deixei a igreja e mesmo o convívio com alguns irmãos mais chegados eu abandonei. Seu texto me ajudou a enxergar uma necessidade imensa da qual eu já havia esquecido, a de chamar pelo Pai e sobretudo acreditar. Mas me sinto tão sujo e amaldiçoado, envergonhado que nem sei se se consigo acreditar que ele venha. A dúvida já tomou a minha mente há algum tempo: será que Ele desistiu de mim?”

O segundo desabafo veio de uma irmã:

“Mauricio, não tenho conseguido aceitar essa graça. Eu tenho caído sempre. Não me lembro de um compromisso ou voto que fiz ao Senhor que tenha cumprido. Toda vez eu me coloco diante da presença do Senhor e me arrependo, choro, sinto o perdão Dele. Mas basta passar alguns dias para eu cair e deixar de orar ler como antes. Então hoje eu me sinto cansada. Cansada de sempre me arrepender e depois começar tudo novamente. Não consigo me manter firme, apesar dos cargos na igreja, apesar do respeito dos irmãos pela minha conduta. Que na verdade diante de Deus não é a mesma coisa. A minha vida tem sido dividida em duas, entre a minha conduta cristã na igreja e entre os familiares e finalmente a realidade diante de Deus, que não passa de uma pessoa inconstante em seus caminhos.”

Assim como esses irmãos, muitos e muitos estão tão feridos pelas próprias falhas que perderam as forças. Mais do que eu responder a isso, preciso mostrar o que a Palavra de Deus fala a esse respeito. O salmo 103 dá muitas informações:

“É ele que perdoa todos os seus pecados e cura todas as suas doenças, que resgata a sua vida da sepultura e o coroa de bondade e compaixão, que enche de bens a sua existência, de modo que a sua juventude se renova como a águia. O Senhor é compassivo e misericordioso, mui paciente e cheio de amor. Não acusa sem cessar nem fica ressentido para sempre; não nos trata conforme os nossos pecados nem nos retribui conforme as nossas iniquidades. Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem; e como o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões. Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem; pois ele sabe do que somos formados; lembra-se de que somos pó” (Salmos 103.3-5; 8-14)

Vemos, assim, que:

1. Deus perdoa TODOS os pecados (exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo);
2. Deus nos coroa com bondade e compaixão. E compaixão significa agir conosco como não merecemos;
3. Deus é paciente, ao contrário do homem Ele não perde a paciência: se nos manda perdoar 70X7, imagine o quanto Ele não nos perdoa;
4. Deus é cheio de amor. E a maior expressão de seu amor é a graça que salva (Jo 3.16);
5. Deus não é acusador. Isso é papel do diabo (Ap 12.10);
6. Deus não nos trata conforme nossos pecados, mas segundo a Cruz de Cristo;
7. Deus não é vingativo, Ele não retribui conforme nossos pecados, mas segundo Sua graça;
8. Deus nos perdoa a tal ponto de nossos pecados que os afasta de nós, metaforicamente, como o Oriente do Ocidente. Creia: é muita distância;
9. Deus conhece seus filhos e entende a nossa natureza. Embora odeie o pecado, compreende o poder que ele tem sobre nós. Por isso perdoa constantemente, vez após vez. Ele não se conforma com nossos pecados, mas nunca, jamais, se cansa de exercer sua misericórdia e graça.

Diante desses pontos, responda você: Deus desiste de alguém?

O próprio Jesus responde isso, em João 6.37: “Todo o que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei”. Não, Jesus não rejeita aqueles que vão a Ele pela graça. Isso significa que Ele não desiste de nenhum dos seus. E você, meu irmão, se acha que o Cordeiro de Deus que veio justamente para tirar os pecados do mundo desistiu de você por causa dos seus pecados… saiba que essa não é uma verdade. Pense melhor sobre isso. Mas não pense com base na atitude impiedosa de muitos irmãos, que tratam o pecador como lixo. Pense com base na Palavra de Deus, que trata o pecador sempre com o intuito de botá-lo de pé, com perdão e reconciliação, e nunca visando à segregação e ao isolamento. Quem pisa no ferido é o homem: Jesus nunca faz isso. Nunca.

O propósito de Jesus ter vindo à terra é exatamente reconciliar a humanidade caída com o Todo-Poderoso. “Eu lhes digo que, da mesma forma, haverá mais alegria  no céu por um pecador que se arrepende do que por  noventa e nove justos que não precisam arrepender-se”, disse Jesus em Lucas 15.7. Isso soa a você como vindo de alguém que está disposto a reter a sua graça e a estabelecer limites para seu perdão?

Isso é o básico. Agora gostaria de tratar pontualmente algumas questões contidas no desabafo do irmão citado acima:

1. “A contaminação é tamanha que não consigo colocar em prática os conselhos, admoestações, alertas”- a contaminação cessa quando há arrependimento sincero e confissão de pecados. Provérbios 28.13 deixa claro:  “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”.  O caminho para se “descontaminar” é o arrependimento seguido de confissão, com o firme propósito de não mais cometer aquele pecado. Um exemplo claro são as palavras de Davi no salmo 51, escrito após seu adultério seguido de assassinato. Repare que ele se derrama em arrependimento e confissão sinceros e na parte final do que transcrevo aqui ele demonstra saber que a “descontaminação” vem e o deixa “mais branco do que a neve”:

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me. Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe. Sei que desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei”. 

2. “Já estou tão machucado de cair de abismo em abismo…” – esse é um grande problema. A sucessão de pecados mina as forças. Mas Paulo nos diz, ao falar sobre o famoso espinho na carne, em 2 Coríntios 12: “Mas ele [Deus] me disse: ‘Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza’. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.  Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”. Paulo deixa claro que nosso momento de maior fraqueza é a maior oportunidade que temos para nos abrirmos para Deus, confessarmos a Ele nossa incapacidade humana e rogarmos para que ele assuma as rédeas de nossa vida. Nossos momentos de queda nos mostram o quanto não somos nada e o Senhor é tudo.

Assim, buscamos nele a força que não temos. Somos machucados por nós mesmos, minamos nossas próprias forças, mas o bálsamo celestial está sempre pronto para ser derramado em nossas feridas. É promessa de Cristo: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”. (Mateus 11.28). Há descanso em Cristo. Há cura. Há restauração. Há novas possibilidades. O abismo nunca é o ponto final: é a vírgula antes de se chegar aos pastos verdejantes.

3. “Deixei a igreja e mesmo o convívio com alguns irmãos mais chegados eu abandonei” – esse é um dos grandes erros que podemos cometer. Embora a maior parte das igrejas esteja cheia de pessoas que não sabem perdoar e de irmãos que tratam quem peca como leprosos em vez de fazer o que Jesus ensinou – estar perto, ajudar na restauração, amar, doar-se pelo outro – ainda assim é ali que podemos ouvir a boa Palavra, onde celebraremos a Ceia, onde poderemos ser úteis ao próximo. “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia” (Hb 10.25). Nunca podemos permitir que o pecado nos afaste da família de fé. Só quem quer isso é o diabo.

4. “Mas me sinto tão sujo e amaldiçoado, envergonhado que nem sei se se consigo acreditar que ele [o Pai] venha” – o cristão que peca precisa ter consciência de que, se ele verdadeiramente se arrepende de seu pecado por mérito da cruz, “agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Aqui cabe a leitura de todo o capítulo 15 do evangelho segundo Lucas, onde Jesus conta três parábolas sobre o mesmo tema: a da ovelha perdida, a da dracma perdida e a do filho pródigo. Todas versam sobre a alegria do Pai em reencontrar aquele único filho que se havia desgarrado.

Não existe sujeira ou maldição para quem se sente envergonhado pelo que fez, disposto a mudar de atitude, pois essa vergonha demonstra que há arrependimento. E, se há arrependimento, tudo o que o Pai espera é que o filho volte para casa, onde será recebido com um abraço e lágrimas de alegria, uma roupa nova, um anel no dedo e um grande banquete celestial. “Há alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.10).

5. “Será que Ele desistiu de mim?” – Não. Deus não desiste de nenhum dos seus, por mais que eles estejam comendo a comida dos porcos. Cabe novamente frisar João 6.37: “Todo o que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei”.

No caso do depoimento tão sincero e dolorido da irmã, a vemos enfrentar aquilo que todos nós enfrentamos: os “pecados de cabeceira”, aqueles que são os mais difíceis de evitarmos. Os que mais nos seduzem, que mais nos arrastam de novo e de novo para longe de Deus. Nesse caso, além das disciplinas espirituais (oração, leitura das Escrituras e jejum, entre outras), é importante ter um confessor. Essa precisa ser uma pessoa de confiança, muito bem escolhida, alguém que vai te amparar, te ouvir, orar com você, te aconselhar, estar perto nos momentos de tentação. Alguém que vai segurar sua mão e se recusará a largá-la enquanto você não estiver totalmente de pé pelos pecados que te derrubaram e pronto para enfrentar os que estão pela frente.

Evite buscar como confessores os indiscretos, os inconstantes ou os néscios. Busque irmãos ou irmãs sólidos e corretos, pessoas que serão colunas ao seu lado, que vão fortalecê-lo e ajudá-lo a estar firme. Se você encontrar alguém assim (pode ser seu pastor ou um(a) amigo(a) espiritualmente maduro), terá ao seu lado uma  bênção enviada pelos céus para ajudá-lo a se manter longe dos pecados.

A caminhada cristã não é fácil, meu irmão, minha irmã. O pecado nos espreita dentro de nós. O diabo está ao derredor buscando quem possa tragar. E a união da nossa própria natureza pecaminosa com as forças espirituais da maldade são nitroglicerina, prestes a explodir a qualquer momento. Mas nossos olhos devem estar além, na cruz, na graça, no perdão ilimitado de Deus. Se você está mal por enfrentar pecados dos quais não consegue se livrar, busque ajuda. Primeiro e antes de tudo, no Senhor. Segundo, em irmãos sólidos na fé, que vão te aconselhar, amparar e caminhar com você. Tentar lutar suas lutas sozinho por vezes é muito difícil e, sem Deus e o amparo da Igreja piedosa, temos tudo para falhar e cair.

Oro por cada irmão e irmã que está em guerra contra os próprios pecados. Que consigam encontrar em Cristo e em confessores e mentores abnegados a força que lhes falta. Que consigam vencer a si mesmos. Que entendam que a Deus não interessa nos abandonar – Deus não é como os homens e nunca vê nos pecadores casos perdidos, mas indivíduos que têm tudo para serem bem-sucedidos. Oro para que compreendam a dinâmica de arrependimento-confissão-abandono de pecados-perdão-restauração. E que, em vez de entregarem os pontos por se sentirem amaldiçoados e incapazes, encontrem na graça de Deus a paz que Ele está sempre pronto a dar.

Deus te perdoa, meu irmão, minha irmã. Ele não é um carrasco, mas um Pai bondoso e amoroso. Deus não age impiedosamente como os homens, Deus é piedoso e age com misericórdia – e temos de enxergá-lo como tal. Siga em frente, de cabeça erguida. E desfrute do amor daquele que te fez filho não para desistir de você, mas para caminhar contigo todos os dias, bons e maus, até a consumação do século.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

O blog APENAS, após 1 ano e 6 meses no ar, alcançou a marca de meio milhão de acessos. Isso significa que foram realizadas mais de 500 mil leituras dentre as 204 reflexões aqui postadas (sem considerar os irmãos que assinam e recebem os posts direto por e-mail). Como tudo isso são números, é uma excelente oportunidade para pensarmos sobre o assunto, tão controverso no que tange à Igreja: números são relevantes para o Evangelho? Muitos seguem a linha de que o importante é ganhar o maior número possível de almas para Cristo, portanto igrejas abarrotadas de gente e grandes eventos seriam sinal de sucesso na obra de Deus. Assim, se certa igreja ou ministério cresce em quantidade de membros, tamanho do santuário, número de congregações ou conta bancária, então supõe-se estar agradando a Deus. Já outros tantos defendem que o que importa é a qualidade dos discípulos, que é preferível ter grupos, comunidades ou igrejas pequenas e bem pastoreadas, de modo que o líder possa estar mais próximo de cada ovelha, mesmo que não haja tanta multiplicação de membresia. Afinal: em se tratando do Evangelho o que importa é quantidade ou qualidade?

O grande erro que muitos cometem é achar que temos de escolher entre um ou outro. Mas não temos. Essa não é uma questão de escolha, mas de prioridade. Ou seja: o que tem mais peso.

Claro que quantidade importa, no sentido que todos queremos que o maior número possível de almas seja resgatado do inferno. Negar isso seria hipocrisia. Mas defendo que a qualidade é infinitamente mais importante – e explico por quê. Não fico impressionado por shows e cruzadas que reúnem milhares de pessoas. Catedrais suntuosas também não enchem meus olhos, só me mostram que certo grupo eclesiástico teve dinheiro suficiente para realizar aquela obra. Megaigrejas não me geram interjeições: são paredes grandes e só. Meu blog ter tantos mil acessos em xis meses muito menos me faz sentir especial – nada de bom que escrevo seria escrito sem a iluminação do Espírito Santo. Nada disso me toca, e por uma simples razão: não consigo enxergar na Bíblia base para dizer que arrebatar multidões é o propósito do Reino de Deus.

Repare: em Mateus 22.14 descobrimos que “muitos são chamados, mas poucos, escolhidos”. Já em Mateus 7.13,14, Jesus escancara: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela”. Leia com calma e veja que verdade fulminante: poucos são os escolhidos. Poucos são os que entram pela porta da vida. Em outras palavras: poucos são os que vão para o Céu. E, se há milhões nas igrejas, isso só significa que muitos dos que estão ali não vão entrar na Glória de Cristo. São membros de igrejas mas não são salvos. Isso me entistece tanto quanto a você, mas é uma dedução lógica e óbvia, a partir do que Jesus afirmou – e da qual não há como fugir simplesmente porque me dói.

Que diferença entre essas afirmações de Jesus e as frases triunfalistas que dizem que vamos “ganhar o Brasil para Cristo”, não é? Chocado? Você ainda acha difícil crer que poucos serão salvos? Então preste atenção ao que o próprio Cristo diz a esse respeito, em Lucas 13.23-27: “Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos? Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão. Quando o dono da casa se tiver levantado e fechado a porta, e vós, do lado de fora, começardes a bater, dizendo: Senhor, abre-nos a porta, ele vos responderá: Não sei donde sois. Então, direis: Comíamos e bebíamos na tua presença, e ensinavas em nossas ruas. Mas ele vos dirá: Não sei donde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais iniquidades”. É uma verdade dura: muitos dos que frequentam igrejas e se acham salvos não são. As catedrais podem estar abarrotadas, mas o Paraíso terá bem menos gente do que se supõe. Você, atônito, pergunta então: “Mas e aí? O que essa percepção deve provocar em nós?”.

Primeiro, em nada isso deve diminuir nosso fervor evangelístico. Pois você nunca sabe quem será salvo. Então temos que seguir pregando a tempo e fora de tempo para toda criatura. Mas… não só pregar, como Marcos 16 parece sugerir. Pois Mateus 28.19,20 nos mostra a Grande Comissão como um todo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”.

A grande missão da Igreja não é, assim, ganhar almas: é fazer discípulos. E discípulos não são pessoas que frequentam aulas pré-batismais. Discípulos são gente que vai caminhar por anos, ombro a ombro, com cristãos mais experientes, aprendendo na convivência a ser um servo bom e fiel de Jesus de Nazaré. Para se formar um discípulo é preciso tempo, dedicação, atenção, abnegação. E não é possível fazer isso com multidões sem nome. Só se faz isso em grupos onde há possibilidade de os irmãos se relacionarem intimamente.

Nas igrejas faraônicas isso não ocorre. Grandes números impossibilitam isso. Imagine que cada pessoa que lê os posts que escrevo no APENAS me mandasse um e-mail com questões pessoais ligadas a cada texto. Só no dia em que publiquei, por exemplo, o recente artigo  “Perfeito amor“, teria de responder a mais de 3.100 e-mails – o que é virtualmente impossível. Imagine então, o pastor de uma igreja com 3.100 membros… como os pastoreará? Como dará atenção a cada um? Como os visitará em casa? Como os conhecerá pelo nome e sarará suas feridas?

Uma pergunta fundamental que envolve essa discussão e que, portanto, devemos nos fazer é: o que faremos ao chegar no Céu? Muitos têm aquela imagem de que vamos nos deitar em edredons de nuvens fofas e ficar de papo pro ar pela eternidade. Não creio. Nós passamos nove meses na barriga de nossa mãe sendo formados e preparados não para permanecer ali, mas para desempenharmos bem nossa vida pós-nascimento. E penso que passamos 70 anos, em média, nesta terra sendo formados e preparados para desempenharmos bem nossa vida pós-morte. Haverá coisas a se fazer no Céu. E penso que esta vida existe tão somente como uma preparação para a próxima. Meus erros e acertos nesta terra servem para formar o caráter que terei no dia em que, pela graça de Deus, entrar pelos portões do Paraíso – despido, já, da natureza pecaminosa corruptível.

Por tudo isso penso que Deus quer salvar pessoas para que sejamos bem preparados, nos tornando, assim, discípulos fieis. Não consigo ver o Senhor convocando um enorme exército despreparado para estar com ele na eternidade. O vejo mais separando para si um destacamento de elite, como era a guarda pretoriana na antiga Roma. Poucos, mas bem preparados. Poucos, mas espirituais. Poucos, mas santos. Poucos, mas cheios do fruto do Espírito. Poucos, mas que demonstram um autêntico amor pelo próximo. Poucos, mas que carregam consigo as cicatrizes de uma vida de aprendizado adquirido com muito suor, dor, pecados seguidos de arrependimento, perdões, humilhações e outros fatores que formam nosso caráter cristão.

Não, números não me enchem os olhos. Simplesmente porque não creio que encham os de Deus. Pastor querido, você se gaba de que sua igreja tem muitos membros? A pergunta certa é: como é a qualidade da vida espiritual deles? Quando quebro um braço, prefiro ter um único médico bem preparado ao meu lado do que mil pessoas que não sabem engessá-lo.

Chegamos a meio milhão de acessos. Louvo a Deus por isso. Mas se há qualquer mérito neste blog não está nem nas qualidades extremamente questionáveis do pecador que aqui escreve textos e muito menos no número de assinantes ou de cliques. Pois, se as milhares de pessoas que passaram por aqui leram algum texto mas nada mudou para melhor em suas vidas, o APENAS tem como único número relevante o seu valor: zero à esquerda. Mas se houve 1 só alma que foi abençoada, edificada, incomodada, transformada ou levada ao arrependimento pelas palavras aqui escritas… então o blog teve algum valor para o Reino de Deus. Qualidade acima de tudo. E, se houver quantidade com qualidade, ótimo.

Pois o que importa para qualquer espaço onde se fale do Evangelho – seja uma igreja, um livro, uma revista ou um blog – é aproximar almas humanas de Deus e torná-los mais íntimos um do outro. Se um blog tem 500 mil acessos e não aproxima ninguém de Deus nem ajuda a sarar as feridas da alma humana, seria preferível ter tido apenas 1 acesso com consequência. Pois, ao fazer isso, teria cumprido a razão da existência do homem e de tudo o que fazemos: glorificar Deus. Porque nada que você faça na vida vai glorificar mais ao Senhor do que amar o próximo e conduzi-lo à intimidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio.

De uns tempos para cá, muito tem se falado sobre como pastores são desnecessários. Que com o sacerdócio universal dos santos o ministério pastoral tornou-se um desvio, um anacronismo descartável. Pastor de tempo integral? Não precisa, dizem. Basta ter um “irmão mais experiente na fé” que nos ajude na caminhada e está tudo certo. Entendo as causas desse fenômeno, típico do século 21, mas sou obrigado a discordar dele. A verdade é que escândalos públicos envolvendo pastores fizeram essa “categoria” cair em descrédito. Quem antes era reverendo hoje é suspeito até que se prove o contrário. E, para muitos, é melhor matar o corpo todo do que amputar um dedo gangrenado. Então, na dúvida, cortem a cabeça do ministério pastoral institucional. Só que isso é pecar pela generalização e descartar o que Deus não descartou.

Tomo como parâmetro meus três pastores. São homens tementes a Deus, comedidos com dinheiro, que tratam as ovelhas de modo extremamente amoroso – seja disciplinando, seja restaurando. São pessoas verdadeiramente vocacionadas, homens de Deus visivelmente preparados para desempenhar suas funções eclesiásticas. Sacerdotes que, mais do que julgar o erro alheio e punir pecadores, como verdadeiros cristãos que são se preocupam com o que Jesus de fato se preocupou: não condenar pessoas,  mas conduzi-las ao Céu.

Recentemente, enfrentei um processo pessoal muito difícil. E meu pastor foi essencial para que eu me mantivesse de pé. Testemunhei da primeira fila a diferença que alguém que exerce o ministério por um real chamado divino é capaz de fazer na vida de uma pessoa. Devido a esse processo tinha perdido o ânimo de escrever no APENAS, como já relatei aqui. Abandonei o blog, por crer ter pouco a oferecer e muito a aprender. Mas foi meu pastor quem me incentivou a prosseguir. Sei que vou escrever menos, pois, hoje, minhas atenções estão bem mais distantes da Internet. Mas voltar a escrever aqui  é a cereja do bolo daquilo que devo a meu pastor.

Nesse período da minha vida, vi amor em quem poderia adotar aquela postura carrasca que vemos em muitos pastores com mais notoriedade. Sim, meus pastores são anônimos, você possivelmente nunca ouviu falar deles. Mas, de dentro de seu anonimato, fizeram mais pela minha alma do que todos os pastores famosos juntos. Vi compaixão e um interesse legítimo de cuidar das ovelhas. Vi meu pastor ligar de outro país para saber como eu estava. Vi esperança para o tão criticado ministério pastoral. E que ninguém fale mal de meus pastores ou de sua atividade tão claramente estabelecida por Deus quando eu estiver por perto, pois serei sempre um defensor ferrenho. Por pura gratidão e por reconhecimento daquilo que é feito por tão visível chamado divino.

Esse processo pelo qual passei me fez repensar muitas, muitas coisas. Entre elas, notei, para minha surpresa, que me sinto mais tolerante. Percebi que não me chateio mais com quem critica a figura do “pastor institucional”. Depois de tudo o que enfrentei e de ter visto a diferença que um pastor de verdade faz em nossa vida espiritual, o que sinto por quem abdica do privilégio de ser pastoreado é, confesso, um pouco de pena – e espero que ninguém se ofenda com isso. Possivelmente o crítico é alguém que teve experiências ruins com maus pastores, que foi magoado por sacerdotes mal preparados, foi ferido ou ignorado por ministros do Evangelho sem entendimento do amor de Deus. Se é o seu caso, meu irmão, minha irmã, minha oração é que encontre bons pastores. Aqueles que deixam as 99 ovelhas no aprisco em busca da única perdida. Que cumprem com modéstia seu chamado. Que amam a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.  Efésios 4.11 menciona que “Deus deu uns para pastores”, logo, existem os verdadeiramente chamados para isso. E menosprezá-los seria culpar quem Deus não culpa.  Meus pastores, afirmo, não são “irmãos mais experientes na fé”. São PASTORES, no sentido mais estrito e bíblico da palavra.

Vivi na pele a importância de ter um bom pastor. Que, mais do que um juiz ou um déspota, é um pai. E, como tal, disciplina quem ama, se for o caso. Oferece o abraço, se for o caso. Dá orientações bíblicas e aponta caminhos, se for o caso. E – em todos os casos – tem sempre uma única preocupação em mente: conduzir cada ovelha que lhe foi confiada por desígnio divino no caminho do Céu.

Saiba que seu pastor é seu aliado. Se ele não é perfeito… e daí? Você é? Pastores têm o direito de errar, dê um desconto. São humanos. E não super-humanos. Pastores pecam tanto quanto você e são perdoados por Deus tanto quanto você. O que não faz deles menos pastores. Portanto, não menospreze um bom sacerdote. Se o seu não é “bom” e você não reconhece nele autoridade, busque outra igreja e outro pastor, isso não é pecado. O importante é você ter um homem vocacionado por Deus para zelar por sua alma.

Hoje, mais do que nunca, sei o quanto um pastor é importante em nossa vida. Se deixarmos de lado a puerilidade ou o senso de rebeldia característico da era pós-moderna e reconhecermos nos homens verdadeiramente chamados pelo Senhor para o sacerdócio pessoas confiáveis, teremos à disposição instrumentos maravilhosos de Deus para nos auxiliar em nossa pedregosa caminhada nesta terra.

Sou grato a Cristo pelos pastores que tenho. Homens que me abençoaram e me abençoam enormemente. E oro a Deus todos os dias por eles, em gratidão. Pois só o Senhor sabe como foram importantes nas minhas crises passadas, na minha vida hoje e no futuro da minha jornada. Muitas vezes sem que eles nem ao menos soubessem: por uma palavra, uma orientação em gabinete, uma visita ao hospital (no meu caso, mais de uma), uma pregação, longas conversas, um abraço dado no momento certo.

Ame o seu pastor. Pois o fato de você ter um pastor é uma das provas de que Deus te ama.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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