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aflicao1Existem momentos na vida em que parece que você está se afogando no seco. Já passou por alguma fase assim? É como se o ar faltasse, se a pressão em cima de você fosse maior do que é capaz de suportar, como se estivesse afundando rumo a profundezas escuras da sua alma. Debater-se não adianta. O grito é abafado e parece que a voz não sai. A palavra que melhor define esses momentos é aflição. É muito significativo que o dicionário liste como sinônimos de aflição justamente os termos “tribulação” e “tormento”, que têm, ambos, grande relevância bíblica. Dá para compreender quão angustiante é esse estado de ânimo perturbado quando percebemos em que circunstâncias as Escrituras utilizam essas duas palavras.

Tribulação é exatamente o vocábulo utilizado para designar o período escatológico que antecede a segunda vinda de Cristo. Será a época de maior sofrimento na história da humanidade. “Nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais. Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados” (Mt 24.21-22). Como os dois termos são sinônimos, a famosa expressão escatológica poderia ser substituída de “grande tribulação” por “grande aflição”. Já tormento é a palavra utilizada para falar do estado de sofrimento que as pessoas vivenciam no inferno, como no relato de Jesus sobre o rico e Lázaro: “No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio” (Lc 16.23).

Assim, podemos dizer que, biblicamente, uma pessoa aflita é a que está vivenciando os maiores estágios possíveis de sofrimento: Aflição é o que o povo de Israel enfrentou quando teve de suportar a escravidão no Egito. “Viste a aflição de nossos pais no Egito, e lhes ouviste o clamor junto ao mar Vermelho” (Ne 9.9). Aflição também é o que experimentou Jó, o homem que perdeu todos os filhos, os bens e a saúde: “Agora, dentro de mim se me derrama a alma; os dias da aflição se apoderaram de mim” (Jó 30.16). No original em hebraico, inclusive, a palavra usada nessas duas passagens é exatamente a mesma, ‛ŏnı̂y.

Será que você está passando por um momento de aflição? A sensação é a de estar se afogando no seco, debaixo de muita pressão, envolto em escuridão? Parece que ninguém ouve seu clamor por socorro? Você não sabe mais o que fazer, para onde correr, como sair dessa situação? As dores são muitas, as esperanças são poucas, as lágrimas tornaram-se companheiras inseparáveis? Então permita-me mostrar o que a Bíblia diz a quem está passando por aflições.

aflicao2Primeiro, é importante compreender por que Deus permite que sejamos afligidos. O Pai não é sádico. Tampouco nos odeia. Também não está alheio a nós. Muito pelo contrário: se sabemos que o Senhor é soberano e, ao mesmo tempo, só quer o que é melhor para cada um de nós, devemos sempre compreender que nossa aflição faz parte de um propósito divino mais elevado, que resultará em algo benéfico que na hora não entendemos. Se não fosse assim, ou nossa aflição denunciaria maldade no coração de Deus ou desdém da parte dele pela nossa vida. Mas ambas suposições são incompatíveis com o caráter do Senhor. Logo, devemos entender nossa aflição como a compreendeu o salmista: como algo que, de algum modo, contribui para o nosso crescimento e nossa aproximação de Deus. “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos [...] Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste” (Sl 119.71,75).

Deus é bom e cuida dos que lhe pertencem. Lembra da aflição do povo de Israel no Egito? Por 400 anos aquelas pessoas poderiam supor que o Senhor não estava vendo sua aflição nem ouvindo seu clamor, tampouco ciente de seu sofrimento. É de se imaginar que pensassem isso, afinal, não é o que muitos que estão afligidos pensam em nossos dias? Bem, então veja qual era a realidade dos fatos: “Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel” (Êx 3.7-8).

aflicao0A Palavra de Deus nos dá alento e esperança. Assim como o povo de Israel nunca foi ignorado pelo Senhor em sua aflição – que tinha um propósito -, nós, hoje, permanecemos incessantemente debaixo de atenção do Todo-poderoso. E, para os nossos dias, temos uma promessa que traz esperança e revigora os ânimos. Meu irmão, minha irmã, muitas são as suas aflições? Então saiba disto: “Muitas são as aflições do justo, mas o SENHOR de todas o livra” (Sl 34.19).

Se as lutas estão muito fortes, se você se sente como se estivesse se afogando no seco, se está passando por aflições… lembre-se de que Jesus confirmou: “No mundo, passais por aflições…”, mas, mais importante, nunca se esqueça do que ele declarou: “…tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). Está passando por aflições? Pois tenha bom ânimo, meu irmão, minha irmã. Nos piores momentos, nunca se esqueça: Jesus venceu o mundo e suas aflições. E, nele, você é herdeiro dessa vitória.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

felicidade1O mundo ficou chocado com o anúncio do suicídio do genial ator Robin Williams. Uma série de fatores contribuíram para que sua morte fosse especialmente chocante, mas creio que podemos resumir tudo a uma causa só: Williams tinha tudo o que o mundo diz que devemos almejar em nossa vida e, mesmo assim, esse tudo não foi suficiente para que ele desejasse seguir vivendo. Que contradição estranha! Veja se não é verdade: quando você pensa em felicidade, que conceitos vêm à sua mente? Em geral, nossa sociedade prega que, para sermos felizes, devemos ser ricos, famosos, bem-sucedidos profissionalmente e ter uma pessoa ao nosso lado a quem amemos e que nos ame. Robin Williams tinha tudo isso. Era milionário, conhecido internacionalmente, reconhecido na carreira, casado com uma esposa que o amava… ele cumpria todos os requisitos para ser considerado uma pessoa feliz. Mesmo assim se matou. Quem explica?

O comediante sempre era visto sorrindo e fazendo piadas, numa aparente alegria que se revelou ser apenas uma máscara. Mas, se você for além das aparências e examinar os bastidores da vida de Robin Williams, vai descobrir que ele sofria de depressão, lutava contra o alcoolismo e era dependente de drogas. Seu casamento já era o terceiro. Algo estava errado no coração daquele ser humano.

felicidade2O suicídio de Williams me fez pensar também no de outras pessoas que, aparentemente, tinham tudo o que o mundo considera fundamental para a felicidade, como bens materiais e notoriedade. Lembra, por exemplo, de Kurt Cobain? O astro da banda de rock Nirvana tirou a própria vida com um tiro na cabeça e deixou um bilhete explicando que se matava por algumas razões, entre as quais ser uma pessoa triste e não se divertir mais quando estava no palco. Ele tinha mulher, filha, fama, fortuna e era uma rock star (o sonho de milhões de pessoas por todo o planeta). Ainda assim, aquilo não foi suficiente.

Dá para explicar o suicídio de pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain, que têm tudo o que o mundo diz ser sinônimo de felicidade e ainda assim não basta? Sim, dá. É que, na verdade, o mundo está errado. Sua proposta de felicidade é mentirosa, uma ficção. Essas coisas simplesmente não fazem ninguém ser verdadeiramente feliz. São valores que valem muito pouco ou quase nada. Se você acredita na proposta mundana de que, para ser realizado na vida, precisa ganhar muito dinheiro, aparecer na capa de revistas famosas, viver distribuindo autógrafos, ter três carros na garagem e coisas do gênero… está acreditando numa mentira. “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6.19-21)

É por isso que me preocupo muito quando vejo cristãos correndo atrás de tudo isso. Sim, cristãos. Afinal, os valores do mundo contaminam todos. Preocupo-me porque, como provam as histórias de Williams e Cobain, se acreditarmos nessa definição de felicidade – que não é bíblica – viveremos sempre infelizes. Quando vejo irmãos e irmãs em Cristo ter como alvo a fama, por exemplo, meu coração se enche de tristeza, por perceber que sucumbiram ao engano. “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens — não provém do Pai, mas do mundo. O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1Jo 2.15-17).

felicidade3A notoriedade deve ser consequência de algo bem feito, jamais a causa que nos motiva a fazer esse algo. Se você é, por exemplo, um pregador, artista ou escritor e se torna muito conhecido, deve tomar todos os cuidados possíveis para não se deixar levar pela maldita vaidade, que conduz à autoidolatria e, portanto, é uma desgraça. “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.” (Fp 2.3-7). Entenda: ser famoso não é o problema, não é crime nem pecado. Se você é alguém conhecido, entende que essa realidade não tem valor real e usa a visibilidade que Deus te deu para a glória desse mesmo Deus, amém. Jesus foi famoso em seus dias, o que ajudou a propagar sua mensagem. Mas se você deixa essa fama contaminar seu coração com sentimentos equivocados… ai de você.

Para não falar dos outros, deixe-me pôr na berlinda. Eu escrevo livros e tenho um blog. Isso não faz de mim alguém famoso, mas acaba gerando uma certa visibilidade. De vez em quando, viajo a outros estados do país e encontro pessoas que já me conheciam devido ao que escrevo. Tomo muitos cuidados para não deixar isso afetar meu coração, pois, no dia em que a minha escrita tiver como motivação a projeção pessoal e não o desejo sincero de abençoar vidas, eu terei fracassado monumentalmente. Estarei a um passo da infelicidade. Jamais posso permitir que a vaidade domine meu coração, caso contrário todo o propósito de meus livros e deste blog estará pervertido e me tornarei alguém digno de pena. Deus, nunca permita que isso ocorra, por favor. Que toda a atenção voltada para mim sirva sempre para projetar Cristo, jamais o mensageiro pecador, imperfeito e falho que sou eu. Não é falsa modéstia: é a pura constatação da realidade.

Mature businessman holding scrunched moneyQue dizer, então, do dinheiro? Muitos abrem mão do que de fato tem valor por amar mais o dinheiro, que, como você bem sabe, gera problemas seriíssimos. “De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos” (1Tm 6.6-10). Conheço cristãos bons e sinceros que acabaram cometendo atrocidades por causa de dinheiro, que praticaram atos de desamor por amar as riquezas. Quando vidas caem em segundo plano e são desamparadas, enganadas ou vilipendiadas por aquilo que o dinheiro pode proporcionar é sinal que Jesus não está mais no barco, apenas observa da praia, com muito pesar. “Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque Deus mesmo disse: ‘Nunca o deixarei, nunca o abandonarei’” (Hb 13.5).

Convido você a analisar o seu coração, por uma razão fundamental: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida” (Pv 4.23). O que tem motivado suas ações? Será o dinheiro? Será a vontade de aparecer? Por que você prega? Pelas ofertas e pela notoriedade que estar no púlpito pode te dar? Por que você louva? Pela venda dos CDs e para receber elogios? Por que você faz o que faz? Se a resposta não for “para a glória de Deus”, recomendo que reavalie urgentemente as prioridades e os valores da sua vida. “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Caso a proposta de felicidade do mundo tenha conquistado o seu coração, mude tudo, rápido. Caso contrário, você pode acabar rico, famoso, vazio e infeliz.

??????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Meu irmão, minha irmã, sei que você já ouviu isso muitas outras vezes, mas nunca é demais repetir: só Cristo satisfaz. Só nele encontramos a verdadeira felicidade. É no relacionamento com o Senhor que recebemos paz, alento, tranquilidade e contentamento real. É nas demonstrações de piedade, nas ações de amor ao próximo, que experimentamos alegria inigualável. Regozije-se não por ter um salário alto e muito dinheiro no banco ou por ser reconhecido por onde passa e muitos te convidam para eventos, mas porque você fez o deprimido sorrir, o faminto se alimentar, o atribulado encontrar a paz, o perdido enxergar a luz. Que a sua vida seja devotada não a tornar-se uma pessoa como Robin Williams e Kurt Cobain, mas a levar o amor e a graça de Deus a pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain – só então você será verdadeiramente feliz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Morte0De vez em quando eu me pego pensando sobre o exato momento em que deixaremos esta vida e ingressaremos na eternidade. Como será? Já parou para imaginar isso? Normalmente, as pessoas fogem de falar sobre a transição desta vida para a sua continuação no plano espiritual – o que costumamos chamar de “morte”. Consideram um assunto lúgubre, sombrio, deprimente, algo até mesmo agourento. Eu não. Claro que penso sobre isso com expectativa e um certo temor pelo desconhecido, mas, quando leio na Bíblia todas as promessas sobre a vida eterna, alento e ansiedade brotam em meu coração. Então, sim, por vezes me pego pensando em como será o momento exato da morte, de maneira parecida com um jovem que sente um calafrio ao imaginar o primeiro dia na faculdade, uma mocinha que cogita como será engravidar, um menino ansioso pela expectativa do primeiro emprego, um casal trêmulo antes da noite de núpcias. Não há descrições claras e objetivas nas Escrituras que nos permitam ter certeza de como será com exatidão o instante da morte, essa é uma área que a Bíblia mantém nas sombras. Mas temos algumas pistas bíblicas que nos dão paz e nos trazem consolo quanto à partida dos nossos entes queridos e a nossa própria, se morremos em Cristo.

Primeiro é importante percebermos que a Bíblia aponta a eternidade como uma existência totalmente desprovida de sofrimento, tristeza, preocupações, estresse. A entrada no reino final é sinônimo de paz. A tão falada “paz do Senhor” será experimentada plenamente no porvir. João registrou em Apocalipse informações que, de forma bem generalista, anunciam como será o estado eterno dos salvos: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.1-4).

No porvir, os salvos não sentirão mais tristeza nem sofrerão. Isso nos revela uma realidade sobre o momento da morte: a maneira como você morre não faz nenhuma diferença, se dormindo, acordado, atropelado, afogado, de embolia, de pneumonia, de infarto, escorregando no banheiro, de câncer, numa queda de avião, em decorrência da Aids. Seja da forma que for, pela causa que for, sofrendo nos instantes finais o quanto se sofra… no exato instante em que seu espírito fechar atrás de si a porta do corpo decaído e falido e der o primeiríssimo passo dentro do reino eterno, tudo aquilo que causa dor e tristeza vai acabar. Imediatamente. Instantaneamente. Num piscar de olhos. Não há injeção de morfina que se compare ao fim do sofrimento que entrar na eternidade causará.

Mergulho0Se você parar para pensar, perceberá que, todas as vezes em que alguém fala sobre a própria partida desta vida, o que se traz à tona são os instantes que antecedem a morte e raramente você ouve alguém mencionar os instantes que a sucedem. Fala-se muito sobre como se preferia morrer, dormindo, sem sofrimento, assim ou assado. Sempre o que se destaca é o antes – e geralmente com certo receio e temor (natural, afinal, quem quer sofrer em seus instantes finais?). Pouco se fala da alegria que atravessar a cortina da vida vai proporcionar. Por isso, queria convidar você a dar asas a sua imaginação junto comigo. Em meus devaneios, costumo fazer uma analogia desse momento. Imagine que você está em um calor sufocante e salta em uma piscina gelada. No segundo em que seu corpo transpõe a linha d’água, a sensação de frio instantaneamente toma conta de si. É uma entrada imediata em uma realidade que muda tudo. Assim, imagino o mergulho na morte não pela perspectiva do “calor” que se sentia momentos antes, mas do “frio” que se sentirá momentos depois. Nesse sentido, a história bíblica do mendigo Lázaro é muito significativa e esclarecedora.

O próprio Jesus fez esse relato, que uns dizem ser uma parábola e outros, uma realidade – eu não sei, ninguém sabe com absoluta certeza. Mas, seja uma ilustração ou não, essa história é magnífica no que tange à esperança pós-morte. Disse o Senhor: “Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão” (Lc 16.20-22). Lázaro vivia em pobreza extrema, não tinha trabalho nem condições de comprar um pouco de comida que fosse. Além disso, era doente. Se você tem uma ferida dolorosa sabe o incômodo que é, então tente imaginar o que é ser “coberto” de chagas. Fica claro que ele tinha ferimentos dos pés à cabeça, o que devia causar uma dor constante que beirava a agonia. Meu irmão, minha irmã, é muito sofrimento. Aquele cidadão vivia, da hora em que acordava até a de dormir, em meio a uma dor que não dá pra imaginar. Talvez tivesse insônia. E, não bastasse a fome, a escassez, a dor e o sofrimento, ele ainda era obrigado a conviver com a humilhação de ficar sendo lambido por um bando de animais.  Será que você consegue dimensionar quanto aquele pobre homem sofreu – fisicamente e emocionalmente – durante anos?

Morte2Até que Lázaro deu o passo para fora deste mundo. Fico pensando com fascinação sobre aquele instante. Seu corpo chega ao limite, sem suportar mais. Entra em falência. Ele morre. Visualize o preciso segundo daquela morte. De olhos abertos, talvez em meio a muitas lágrimas, ele sente aquela dor lancinante provocada pela soma de muitas úlceras, da fome, da miséria humana. Um trapo. Então Deus sussurra: “Vem…”. Lázaro fecha os olhos. Um segundo depois, abre-os novamente. Como alguém que entra em uma piscina gelada e deixa instantaneamente de sentir calor, num piscar de olhos as dores físicas, o senso de humilhação, o vazio no estômago, toda a desgraça daquele mendigo simplesmente desaparece. Ele fecha os olhos no último suspiro e, quando os abre, já numa sensação de total paz e ausência de sofrimento, vê um grupo de anjos diante de si. “Levado pelos anjos…”, afirma Jesus. Suponho que estarão sorrindo, porque a alegria que sentem ao receber mais um salvo que chega à casa do Pai deve ser enorme. Pense em como Lázaro não deve ter se sentido ao ver aquele comitê de boas-vindas! O pedinte doente e sofredor é recebido por seres celestiais. Da miséria absoluta à mais plena glória!

A partir daqui é puro voo da minha imaginação. É quando já não vejo Lázaro nessa situação, penso em mim mesmo. Penso em você. Penso em cada um de nós. Fico supondo que aqueles anjos nos tomarão pela mão, ou nos envolverão num abraço, para nos conduzir à tão esperada e ansiada presença do Criador do universo, o Autor da vida, o Rei dos reis e Senhor dos Senhores. O nosso Pai. Nos meus sonhos especulativos, creio que esse encontro nos porá em nosso devido lugar, porque, diante daquela tão pura essência de santidade, a lembrança de nossa multidão de pecados nos lançará em terra e cravará o rosto no chão, em adoração a tão magnífico ser e em contrição pelo nosso histórico de pecados e falhas, transgressões e desobediências. Mas, então, penso eu, ouviremos de seus divinos lábios:

- Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

Surpreso com essa declaração injusta, uma vez que teria total consciência de quem fui na terra e da multidão de pecados que estaria carregando, eu diria:

- Mas, Senhor, eu não sou digno…

E o Pai sorrirá. Então ele trará à luz por que nos chamou de “bom e fiel” se somos tão maus e infiéis – a razão da cruz, o motivo da encarnação do Verbo e da morte do Cordeiro:

- Eu sei que você não é digno, filho, mas você não está aqui pela sua dignidade. Está aqui pela graça. Pelo amor. Pela cruz. Pelo sangue de Jesus, derramado pelos seus pecados. Nenhuma condenação há para quem chegou aqui por meio de Cristo, daquilo que meu Filho fez no Calvário.

Morte3Pronto, está consumado, entramos na eternidade. Não há mais choro, nem dor. Só a presença do Senhor, desvendado em toda a sua glória. O que virá depois disso eu não sei, é um absoluto mistério. Mas me apego às palavras de Paulo, o homem que foi arrebatado ao coração dos segredos do Senhor e viu coisas inefáveis: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9).

A morte chegará. Para os salvos, não é um tema sombrio. É um passo dentro de um reino sem sofrimento, para o abraço dos anjos, para a presença daquele que então veremos face a face e que nos amou desde antes da fundação do mundo. E, ao final de todas as coisas, todos os que derem aquele passo se reunirão e, juntos, dirão: “Aleluia!, pois reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-poderoso. Regozijemo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória!” (Ap 19.6-7).

Que linda esperança…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

PecadoQual é a primeira palavra que a história da mulher adúltera traz à sua mente? Que conceito é o mais chamativo no relato da queda daquela israelita? Pare um momento. Pense no caso. Imagine a cena. Aquela transgressora é pega em flagrante delito. Nua. Deitada com outro homem. Seduzida pelas próprias paixões. Entregue aos prazeres da carne. Desviada dos caminhos de Deus. Distante da santidade. O que isso traz à sua mente? Que palavra resume a história daquela adúltera? Eu arriscaria dizer que o conceito que imediatamente vem ao seu pensamento é pecado. Estou certo? Afinal, o que ela fez foi cometer um terrível pecado. A punição solicitada para ela foi por causa do pecado. O que entrou em discussão com Jesus foi a respeito do que se faria com ela devido ao pecado. Só o que os mestres da lei e os fariseus enxergavam quando olhavam para ela era seu pecado. Ela cheirava a pecado. Tinha aparência de pecado. Transpirava pecado. Seu nome passou a ser pecadora. Então o foco do relato de João 8.1-11, sem dúvida alguma, é este: pecado.

Bem, na verdade, não. Para os homens é possível que sim. Mas, para Deus… será?

Acredito que a primeira palavra que a história da mulher adúltera traz à mente do Senhor é graça.

Pecado1A relação entre pecado e graça sempre deve ser vista segundo a análise do ponto de partida e do ponto de chegada. Para os mestres da lei e os fariseus, o pecado daquela mulher era o ponto de chegada. Nada mais importava. A vida dela não vinha ao caso. Seus erros e acertos do passado não faziam diferença. O arrependimento era inócuo. As possibilidades de seu futuro eram irrelevantes. Tudo o que tinha a ver com a existência daquele ser humano, naquele momento, era o pecado. Esqueçam se ela sempre foi uma serva fiel do Senhor. Que importa se viveu uma vida piedosa até então?! Nem perguntem a opinião do marido. Esqueçam tudo. Aos olhos daqueles homens, o pecado tornou-se corpo, alma e espírito; passado, presente e futuro daquela mulher. E só o que viam nela. Seu pecado. O ponto de chegada daquela alma. The end.

Jesus não. O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo viu o pecado daquela mulher como o ponto de partida. Para os olhos divinos, aquela transgressão não representava o topo da edifício, mas apenas mais um degrau da escada. No alto do pódio daquela história estava a graça de Deus. O pecado foi absorvido pela graça. Aquela vida arrependida era o náufrago e a graça, o bote salva-vidas. O pecado era a noite e a graça, o amanhecer. Pecado. Arrependimento. Perdão. Restauração. “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado” (v. 11). Graça.

A história da mulher adúltera é um magnífico retrato da graça de Deus. Do olhar do Senhor sobre nossas vidas. Um Deus que é santo, que ordena que abandonemos a vida de pecado, mas que também diz que não condena o pecador arrependido. Aquele episódio é uma síntese do plano de salvação: o homem peca, ele torna-se alvo do acusador, seu pecado o faz digno de punição, mas Jesus entra com graça e “já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Pecado0Deus não deseja nos punir. Ele quer nos perdoar. Quer nos restaurar. Quer nos salvar. Quer arrependimento e esforço para abandonar o pecado. Onde nós, pecadores, enxergamos pecados sem volta, Deus vislumbra as maiores oportunidades de exercer sua graça. Os homens amam a punição. Deus ama o perdão. “Consequentemente, assim como uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens. Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (Rm 5.18-19).

Você pecou? O que mais chama a atenção em sua vida é o pecado? Pois então saiba que Deus olha para você e vislumbra o ponto de chegada: a graça. O segundo templo. A glória da salvação. De igual modo, ele olha para os pecadores que mais escandalizam você e vê neles uma excelente oportunidade de exercer sua graça, de fazer a cruz entrar em ação na vida de mais uma alma.

Nós olhamos para o pecado e queremos sangue. Deus olha para o pecado e se lembra do sangue de seu próprio Filho.

A caso da mulher adúltera não é uma história sobre pecado, é uma história sobre graça. O pecado triunfou no início, no Éden, no ponto de partida. Mas no ponto de chegada, na Jerusalém celestial, é Cristo quem triunfará, quando todos os que foram lavados no sangue do Cordeiro estiverem reunidos aos pés do Senhor, louvando e exaltando seu amor sem fim, seu perdão imerecido e sua maravilhosa graça.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Legado1José Wilker morreu no último dia 5 de abril. Este texto sai com um certo atraso, mas tive de ruminar um pouco em cima do pensamento que compartilho aqui antes de pôr no papel. Trabalhei com Wilker durante nove anos, quando eu era editor de um programa da Globosat do qual ele era comentarista de cinema. Nunca fomos íntimos, nosso relacionamento era estritamente profissional, mas admito que a notícia da sua morte me impactou, é estranho imaginar que alguém com quem convivemos regularmente por tanto tempo não caminha mais sobre a terra. Eu não esperava. Alguém esperava? Não. Mas morte, em geral, tem mesmo esta característica: arromba a porta sem pedir licença. Claro que, ao meditar sobre a partida do Wilker, muito veio à minha mente sobre quão frágil é nossa vida, mas, além dessa questão óbvia, sua morte me fez pensar muito sobre outro conceito: legados.

Se você não está familiarizado com o termo, “legado” é “aquilo que é transmitido às gerações que se seguem”.

O Wilker se foi e deixou um legado que será lembrado ainda por muitas décadas, na forma de filmes, peças de teatro, novelas e outros tantos trabalhos artísticos. Foi um homem dedicado ao que sabia fazer e que conquistou um espaço na memória cultural do nosso país. Nesse sentido, sua passagem pela vida deixou uma marca. Por meio de suas atuações, ele provocou risos, lágrimas e outras emoções, como só a arte é capaz de fazer – e isso em, literalmente, milhões de pessoas.

Legado2Pensar no legado do Wilker me fez refletir sobre o que eu vou deixar após a minha partida. De que adianta eu ter nascido? Quando eu me for, qual terá sido o sentido de minha vida? Que herança deixarei para outras pessoas? Valeu a pena ter vivido ou minha passagem pela terra foi vazia de significado? Pensei muito sobre isso. Gostaria de aproveitar e estender a reflexão também a você: que legado você vai deixar? Ao final de sua jornada, quantas pessoas terá tocado, influenciado, aperfeiçoado, edificado, abençoado? Como será lembrado? Claro que, como cristão, o seu legado não será algo estritamente material. Todo aquele que tem Cristo como o centro de sua vida sabe que não há legado mais importante do que o espiritual. Jesus disse: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.19-21). Podemos extrapolar essa afirmação para além de riquezas materiais. A meu ver, essa ordem do Senhor refere-se a priorizar em tudo as coisas eternas em detrimento das passageiras.

Isso se confirma em outras passagens. Logo depois de pronunciar essas palavras, Jesus diz: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). Assim, o legado que precisamos deixar na terra após nossa partida deve ter relação com o reino de Deus.

Legado3Nosso dia a dia terreno não é desprezível. Temos coisas importantes a fazer para a manutenção de nossa jornada. Construir uma casa, ter uma vida profissional honesta, crescer nos estudos, deixar uma segurança financeira para a família… tudo isso é relevante e devemos nos dedicar para sermos bem-sucedidos nas necessidades da matéria. Mas nada disso configura legado à luz do evangelho. Pois tudo o que construímos aqui em termos materiais ficará aqui. Passará. Tudo virará pó. Só o que permanecerá é aquilo que é feito para glorificar Deus e abençoar o próximo – pois é o que ecoará pela eternidade.

A Bíblia é clara quando diz que o legado que terá relevância após nossa vida está diretamente ligado ao que fizemos ao nosso próximo. Sei que você conhece bem essa passagem, mas, se puder, leia mais uma vez e diga se não tenho razão: “Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’. Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram’. Eles também responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?’ Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo’. E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt 25.31-46).

Com isso em mente, volto à pergunta: o que você deixará como legado? O que tem feito na sua vida que glorifica a Deus por meio de atos de dedicação ao próximo, ao desenvolvimento de maior intimidade entre as pessoas e Cristo, ao bem-estar dos seres humanos que te cercam, ao crescimento espiritual das almas à sua volta? Você tem levado consolo aos tristes, edificação aos destruídos, alimento aos famintos, paz aos atribulados, carinho aos doentes, Jesus aos perdidos? Tem chorado com os que choram? Tem doado tempo para quem está mal? Afinal, que marcas de amor está imprimindo na vida do próximo?

Legado4Todo mundo tem talentos e dons que podem ser usados para edificar e levar amor a outros seres humanos. No meu caso, o Senhor concedeu a habilidade de escrever o que se passa em meu coração. Por isso mantenho este blog, publiquei livros, sigo escrevendo outros que ainda serão lançados. Talvez seja o meio principal pelo qual procuro deixar legado: edificação por meio do que escrevo, para abençoar a sua vida. Você não tem, necessariamente, o mesmo dom que eu, a Igreja de Cristo é muito plural em suas capacidades. Por isso, precisa buscar descobrir junto ao Senhor qual é a sua capacitação. E, quando descobrir, importa pôr em prática. Se é bom de pregar, pregue. Se tem facilidade de evangelizar, evangelize. Se é talentoso na música, abençoe pela arte. Se é aconselhando que exercerá a bênção sobre as pessoas, empreste os ouvidos e lábios para o próximo. Se é amparando, chore com os que choram. Algum talento você tem, que precisa usar com a finalidade de deixar um legado para a eternidade. Deus não faria você vazio. Cada um tem seu dom, que serve para amar o próximo e amar a Deus.

O Wilker se foi. Eu partirei um dia. Você também. Que legado deixará? Que marcas ficarão, pelas suas mãos, nas gerações que virão e que, naturalmente, terão reflexos na eternidade?

A hora é esta. Há almas precisando de você. Há lágrimas a ser enxugadas. Há feridas a ser tratadas. E Deus conta com a sua disponibilidade para deixar um legado de bênçãos e amor. É só entrar em ação. O que está esperando?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Misericordia1Um homem matou a facadas a tia, o primo e a prima de 12 anos. Esta última com 30 punhaladas. Preso, o triplo assassino caiu em lágrimas durante o interrogatório, confessou o crime e falou que simplesmente não sabia por que tinha feito aquilo. Ouvi quando ele disse “eu não quero ser preso, porque, senão, vou morrer na prisão e vou para o inferno. E não quero arder no fogo do inferno!”. Que cena. Que tragédia. Que tristeza. Mas houve algo que me chamou a atenção em meio a tudo isso. Assim que, aos prantos, ele fez essas afirmações, a delegada responsável pelo caso disparou um comentário: “Ele não teve misericórdia e agora quer que tenham misericórdia dele, que absurdo…”. Peraí. Há algo estranho com essa frase. Uma contradição que ficou martelando em minha cabeça. Reflitamos um pouco sobre misericórdia, um dos conceitos mais fundamentais da fé cristã.

Não vou entrar pelo mérito daquele crime em si. Foi tão abominável que dispensa comentários. Mas a questão da misericórdia bateu em meu peito como 30 facadas. Repare bem as palavras da policial. Ela está condicionando o recebimento de misericórdia à prática de misericórdia. Em outras palavras, “é dando que se recebe”. Só que esse pensamento contraria frontalmente o evangelho, conforme disse o próprio Jesus: “Há maior felicidade em dar do que em receber” (At 20.35). Aquela delegada não compreende o sentido de misericórdia – nem de longe.

Também conhecida como “compaixão” ou “piedade”, misericórdia significa dar a alguém algo que não merece. É o contrário de “justiça”, que é dar a alguém algo que merece. Cristo deu exemplos contundentes do que isso significa. Veja o caso da mulher adúltera. Pela Lei judaica, ela deveria ser apedrejada até a morte. Isso seria justo. Era o que ela merecia. Mas Jesus preferiu não agir com justiça, mas com misericórdia, e deu a ela o que aquela mulher não merecia: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado” (Jo 8.11). Sim, Jesus foi misericordioso e a perdoou. Foi magnânimo. Foi divino. E não só pregou de púlpito sobre misericórdia: ele agiu conforme pregou.

Outro exemplo de Cristo é a parábola do servo impiedoso (repare no termo, “impiedoso”, ou seja, “sem piedade”, “sem misericórdia”). Sei que você já a leu inúmeras vezes, mas, se puder, por favor, leia novamente: Misericordia2“Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu: ‘Eu lhe digo: Não até sete, mas até setenta vezes sete. Por isso, o Reino dos céus é como um rei que desejava acertar contas com seus servos. Quando começou o acerto, foi trazido à sua presença um que lhe devia uma enorme quantidade de prata. Como não tinha condições de pagar, o senhor ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que ele possuía fossem vendidos para pagar a dívida. O servo prostrou-se diante dele e lhe implorou: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo’. O senhor daquele servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou ir.

“Mas quando aquele servo saiu, encontrou um de seus conservos, que lhe devia cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Pague-me o que me deve!’ Então o seu conservo caiu de joelhos e implorou-lhe: ‘Tenha paciência comigo, e eu lhe pagarei’. Mas ele não quis. Antes, saiu e mandou lançá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Quando os outros servos, companheiros dele, viram o que havia acontecido, ficaram muito tristes e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido. Então o senhor chamou o servo e disse: ‘Servo mau, cancelei toda a sua dívida porque você me implorou. Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu tive de você?’ Irado, seu senhor entregou-o aos torturadores, até que pagasse tudo o que devia. Assim também lhes fará meu Pai celestial, se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão’” (Lc 18.21-35).

Claro como água. O trecho central da parábola é este: “O senhor daquele servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou ir”. A justiça era cumprir a lei, vender os parentes do devedor como escravos e pegar o dinheiro. Justo. Mas aquele senhor não fez isso. Antes, teve compaixão dele. E, com isso, cancelou a dívida e o deixou ir. Isso é misericórdia: cancelar a dívida.

Misericordia3Quando eu e você fomos chamados pela graça de Deus, ele cancelou nossa dívida. Zero. Misericórdia em ação. A justiça exigia que eu ardesse no fogo do inferno, como aquele triplo assassino lembrou muito bem. Você também. Toda a humanidade, sofrendo pela eternidade distante do Criador. Mas, então… um Cordeiro é agarrado, surrado, cuspido, humilhado e levado ao matadouro. Ali, o holocausto oferecido numa cruz pinga sangue. E quando sai da sepultura, a terra treme com um som que diz: “Recebam minha misericórdia!”.

Ao contrário de Cristo, hoje muitos cristãos pregam sobre piedade mas não a vivem em suas vidas. Amam a misericórdia da boca para fora, mas não a praticam em suas ações. Agem exatamente como aquela delegada.

O grande erro daquela policial foi crer que misericórdia é algo que se merece. É exatamente o contrário. Misericórdia só existe quando não há absolutamente nenhum merecimento. Aquele assassino cruel vai cumprir a justiça humana e ficará preso, possivelmente até o fim de sua vida. Ele merece isso. É justo. Mas, se, em algum momento dos anos que lhe restam, o homem que chacinou a própria família sem misericórdia alguma vier a ser tocado pela graça do Cordeiro, prostrar seu espírito de joelhos e pedir a Deus perdão sincero pelos seus pecados… ele alcançará misericórdia. E irá para o céu.

Vivemos dias em que há tanta iniquidade ao redor que o nosso senso de justiça clama por punição. Só que repare uma coisa: Jesus não disse “bem-aventurados os justos”, tampouco “bem-aventurados os que cumprem a lei”. Ele afirmou: “Bem-aventurados os misericordiosos” (Mt 5.7). Essa ênfase não quer dizer, é claro, que justiça e o cumprimento da lei não importam. Claro que importam. São fundamentais e indispensáveis. Mas, se o Senhor enfatizou a misericórdia, isso nos leva a uma reflexão. Será que ela não tem mais peso? Será que ela não recebeu essa menção especial porque Deus a considera especial? “Desejo misericórdia, e não sacrifícios” (Os 6.6), diz o Senhor.

Acredito que Deus ama os justos. Mas ouso especular que ele tem um olhar diferente sobre os misericordiosos.

Sejamos bem-aventurados. Tenhamos um coração mais perdoador, compassivo, piedoso, misericordioso. Essa, meu irmão, minha irmã, é a única forma de termos um coração como o de Jesus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Ganho1A época em que vivemos é a era do ganho. Nossa sociedade é capitalista, materialista, consumista e existencialista. Se você não entende algum desses conceitos, basta compreender o que está no centro de todas essas filosofias de vida: o eu. O meu. O que posso ganhar. O lucro pessoal. O benefício próprio. Os nossos tempos estimulam um individualismo exacerbado, que nos arrasta como um carro de Fórmula 1 pelas ruas pedregosas da vida. Acabamos destroçados pela necessidade de ganhar, ganhar, ganhar. Só seremos vistos como pessoas bem-sucedidas se ganharmos muito dinheiro, ganharmos o coração do menino mais cobiçado, ganharmos um cargo de destaque na igreja, ganharmos uma cobiçada vaga de emprego, ganharmos status, ganharmos títulos, ganharmos celebridade, ganhar, ganhar, ganhar! Somos levados pelo mundo ao nosso redor a crer que a vida é uma grande competição, em que ganhar diariamente (seja lá o que for) é a grande razão de estarmos sobre a terra. Mas não é isso o que a Bíblia nos ensina.

É fácil reparar como essa forma de ver a vida invadiu a igreja e tomou conta de nós, do mesmo modo que um câncer se espalha silenciosamente por nossos organismo. A maior prova disso é que nossa caminhada de fé tornou-se permeada pelo conceito de vitória. E só tem vitória quem triunfa, vence… ganha. “A vitória é tua!”, dizemos aos irmãos. “Deus, nos dê a vitória!”, oramos. “Faça tal campanha na igreja e Deus te dará a vitória!”, mentimos. Falamos mais a palavra “vitória” em nossas orações e nos cultos do que “Jesus”. Parece que, para muitos de nós, uma vida sem “vitória” é uma vida sem fé, sem bênção, sem a presença do Senhor. Em outras palavras, cremos que, se não ganhamos diariamente, nossa espiritualidade é mirrada, raquítica.

Para cumprir a vontade de Deus, Abraão perdeu a terra Natal e a parentela; Jó perdeu tudo o que tinha; Moisés perdeu a pacata vida de pastor; Jeremias perdeu a paz; Noé perdeu o respeito dos vizinhos; Paulo perdeu tudo aquilo em que cria; João perdeu a liberdade; Raabe perdeu sua cidade; Jesus perdeu a própria vida. A lista de personagens da Bíblia que perderam muito nesta vida é gigantesca. Mas, na gramática de Deus, perder por amor a ele é ganhar para a vida eterna.

Martir“Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hb 11.35-40). Essa parece uma lista de “vitoriosos”? Ou parece mais a descrição de gente que sofreu perdas enormes? Tenha a certeza de que foram perdas que resultaram num ganho muito superior – por ser um ganho eterno e não terreno. É impossível viver para Deus sem perder para si.

“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25), disse Jesus. Ele afirmou, ainda: “Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 10.39). E, nesta era em que somos instigados a ganhar o mundo inteiro, precisamos ouvir as palavras do Mestre a seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.25-26).

Se não temos de ganhar o mundo inteiro, o que, afinal, precisamos ganhar? Paulo responde: “O que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.7-8).

Cristo. Eis o que precisamos ganhar. Pois, como disse Paulo, “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). São o Rei, seu reino e sua justiça que devemos buscar antes de tudo mais, sabendo que, assim, tudo mais nos será acrescentado.

E como se ganha Cristo?

cruzPerdendo. Abrindo mão de si. Perco prazeres terrenos a fim de ganhar Cristo. Perco oportunidades, porém fraudulentas, a fim de ganhar Cristo. Perco o casamento com aquele partidão que não é cristão a fim de ganhar Cristo. Perco aquele negócio da China, mas que exigiria liberação de propina, a fim de ganhar Cristo. Perco a fama e deixo outros brilharem a fim de ganhar Cristo. Perco dinheiro justo que eu deveria receber, para não escandalizar a igreja, a fim de ganhar Cristo. Perco respeito de quem considera minha fé uma fábula e minhas crenças, fanatismo, a fim de ganhar Cristo. Perco a vingança e dou a outra face a fim de ganhar Cristo. Perco o emprego em que teria de me corromper, a fim de ganhar Cristo. Perco o que desejo a fim de ganhar Cristo. Perco minha felicidade a fim de ganhar Cristo. Perder, perder, perder.

Mas o que ganhamos por essa perda, acredite, vale a pena.

O que você está disposto a perder a fim de ganhar Cristo? É a resposta a essa pergunta que vai determinar quem vem em primeiro lugar na sua vida. Será você mesmo? Ou Jesus? Suas ações responderão. E Deus estará bem atento a elas.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício