Arquivo da categoria ‘Inferno’

Gracas1Um dos trechos mais interessantes da Bíblia, em minha opinião, é 1 Tessalonicenses 5.18: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. Como assim, “em tudo, dai graças”? Temos de ser gratos a Deus pela dor, a tristeza, o sofrimento, a solidão, a depressão, o desamor, o abandono, a tragédia, as heresias, a falsidade, a acusação, a traição… em tudo o que ocorre de pior em nossa vida? Sejamos francos: nós não sentimos vontade nenhuma de agradecer a Deus nessas horas, queremos mais é brigar com Ele, alardear o quanto somos fiéis e não merecemos aquilo, ficar de mal com o Senhor, questionar sua bondade, sua justiça e seu amor. Soube recentemente de uma mulher, evangélica, que perdeu o irmão de 28 anos de câncer e, ao receber a notícia de sua morte, soltou um grito no hospital:

- Deus F.D.P.!

Chocou? A mim também. Como pode isso? Essa blasfêmia, esse ato impensável? Mas a verdade é que muitos não têm coragem de dizer isso quando vem a desgraça… mas que pensam, ah, isso pensam. Estou errado? Porque a verdade é que nós não conseguimos conceber Deus deixar coisas ruins acontecerem em nossa vida. Com um ímpio vá lá, mas comigo?! Eu que sou tão obediente?! Vamos pensar um pouco sobre esse versículo. Mais ainda: vamos pensar um pouco sobre gratidão.

Graca2A chave do “em tudo dai graças”, para mim, vem alguns versículos antes: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para recebermos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5.9). O que isso significa? Façamos uma parábola: imagine que você está em um navio que naufraga. Você está ali, em alto-mar, nadando com suas últimas forças para sobreviver. Sente câibras, percebe que não há salvação para você: seu destino certo é a perdição, é afundar na escuridão do abismo submerso, ser devorado pelos peixes. De repente, desponta no horizonte uma luz. É um navio! O capitão da embarcação o viu de longe, desviou seu curso e, cheio de compaixão, partiu em sua direção. Quando você já está meio metro abaixo da superfície, ele lhe lança uma bóia. Você está salvo! Foi resgatado! Assim, você sobe a bordo, exausto, desgrenhado e rasgado – e recebe, sem que esperasse, o direito à vida.

Eu lhe perguntaria: qual seria diante dessa circunstância o seu sentimento pelo resto da vida para com aquele capitão? Provavelmente você diria algo como “eu seria eternamente grato a ele”. E diria com razão, porque o que ele fez foi algo que merece que você lhe seja agradecido pelo resto de seus dias. Ao chegar a bordo, exausto e encharcado, num primeiro momento, instintivamente, você pula no pescoço dele, o abraça com todas as poucas forças que ainda tem e repete em voz fraca: “Obrigado… obrigado… obrigado… obrigado…”. Não quer soltar a mão do bondoso capitão. Aquele homem renovou a esperança de vida para alguém que tinha a certeza da morte! Você o ama! Promete devotar o resto de seus dias a sentir gratidão por ele.

Gracas3Só que aí o navio prossegue na viagem. Vocês estão a meses do porto mais próximo, então você se recupera e acaba se integrando à rotina do navio. O capitão chega e lhe dá uma atribuição: você terá de descascar pilhas de batatas por dia para alimentar a tripulação. Em princípio parece chato, mas, afinal, o homem te salvou, é o mínimo que pode fazer. Só que as semanas passam e aquilo fica cansativo. Seus dedos doem. É entendiante. E você começa a reclamar. E não é só isso: ele deu um canto cheio de graxa para você dormir no porão da embarcação. Cheira mal, é barulhento, tem ratos, o colchão é duro. Logo, logo você se pega reclamando. Foi para aquilo que ele te resgatou? Para você ter de encarar toda aquela situação deprimente? Poxa, e você estava se esforçando tanto, era-lhe tão fiel, descascava tantas batatas por dia! Era uma injustiça! Você não merecia passar por aquilo!

Você começa a desconfiar que o capitão te salvou apenas para ter mão-de-obra barata. Se junta aos tripulantes que falam mal dele. Murmura pelas costas. O acusa de injusto, de não ter amor por você por permitir que passe por aquela situação humilhante e dolorosa. Aquele capitão é um crápula. Chega a pensar em abandonar o barco na primeira oportunidade que tiver. Vida desgraçada, capitão maldito!

Graca5O que você não sabe é que o capitão tem bons informantes e sabe tudo o que você diz. Um dia ele se aproxima de você. Cheio de amor, fala: “Eu não o destinei para a ira, mas para receber a salvação por meio deste navio”. E então, diante daquelas palavras, parece que tudo faz sentido. Você percebe que a pilha de problemas – o desconforto, o trabalho, o enfado, a chateação, o sofrimento – era algo muito pequeno perto do que o capitão fez por você. Ele não precisava, não tinha obrigação nenhuma, mas lhe estendeu a mão e o recolheu da morte certa. E simplesmente porque ele quis. Não porque você merecesse. Tudo o que você estava fazendo era se debater na água. Ia afundar, era absolutamente certo. Mas ele veio. Parou. Te resgatou. Te abrigou. Te deu alimento. Te deu um lugar para repousar. Ali você teria aflições? Naturalmente! O navio era bem desconfortável. Mas aquele homem te deu vida, não seria motivo suficiente para ter bom ânimo?

Mais do que isso: não seria motivo mais do que suficiente para… em tudo dar graças?

Deus nos deu a salvação. É motivo suficiente para em tudo darmos graças. Para em todos os piores momentos da vida, quando nos sentimos os mártires do universo… agradecermos. “Obrigado, Senhor, porque estou passando pelo vale da sombra da morte. Mas, se tu não tivesses me resgatado, eu estaria morto. Afogado em meus pecados. Afundando rumo ao inferno”. Depois disso, tendo clareza dessa realidade, só nos resta dizer, em meio aos piores dos piores momentos da vida: “Deus… obrigado… obrigado… obrigado…”.

Gratidão. Que nunca nos esqueçamos disso. Deus nos deu a vida eterna. Gratidão é o mínimo que podemos dar em troca.

Graca6Hoje, 14 de maio de 2013, o blog APENAS completa dois anos de vida. Quis que o tema de hoje fosse especificamente gratidão em ação de graças a Deus por esses dois anos em que ele tem me dado forças e ideias para continuar escrevendo aqui e, quem sabe, ajudando uma vida, edificando outra, somando de algum modo. Nesses dois anos, descasquei muita batata, reclamei muito, fiz muitas besteiras e realizei algumas coisas boas. Com certeza aprendi muito. Tive o privilégio de ter as 245 singelas reflexões que já postei neste blog lidas em cerca de 710.000 ocasiões. Foram mais de 15.000 comentários deixados aqui ao longo desse período, por irmãos que aguentam minha demora em aprová-los e respondê-los, devido à constante falta de tempo (me perdoem por não conseguir moderar todos com rapidez, eu tento… mas nem sempre consigo). Ganhei até aqui quase 1.700 companheiros fiéis de caminhada, que tiveram a coragem de assinar este blog e têm a paciência de receber por e-mail uma, duas vezes por semana aquilo que aqui escrevo.

Sou grato a Deus por me permitir, como bem disse um dos irmãos que escreveram nos comentários, “ser um cano enferrujado por meio do qual corre a água da vida”. Sou grato a você por ter a paciência de ler minhas reflexões, em posts mais longos do que habitualmente são os textos de blogs – e que são fruto da minha incapacidade de sintetizar pensamentos complexos. Muito obrigado pelo seu carinho nessa caminhada internética e por vir me visitar de vez em quando aqui no meu pequeno mosteiro virtual. Sinto-me profundamente honrado.

Gratidão. Por hoje é o que basta.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Sata2A proclamação do Evangelho deve ter como centro Jesus. A cruz. As boas-novas da salvação. Sempre. Sempre. Sempre. Podemos pregar sobre qualquer assunto correlato, desde que tenha ligação com o epicentro de nossa fé: Cristo. Pregações sobre dízimo devem ter foco em Jesus. Pregações sobre casamento devem ter foco em Jesus. Pregações sobre vida sexual devem ter foco em Jesus. Pregações sobre arrependimento devem ter foco em Jesus. Por isso, existe uma grande resistência em alguns setores da Igreja a se pregar sobre o inferno, o diabo e os demônios. Em grande parte, isso ocorre como reação à ênfase despropositada que certas denominações dão à chamada “libertação”, em todas as suas variáveis – “descarrego”, “batalha espiritual”, expulsão de demônios etc. -,  o que leva muitos a tomar uma postura contrária, eliminando totalmente do púlpito mensagens que tenham a ver com as hostes espirituais da maldade. Essa postura acaba se refletindo em todas as esferas da vida cristã dos que assim procedem, como a rejeição por livros que falem do assunto ou mesmo nas orações que fazem e nas músicas que cantam. Por muito tempo compartilhei desse pensamento. Falar sobre isso era como jogar uma barata dentro de uma refeição refinada num restaurante chique. Mas tenho revisto essa posição. Hoje estou convencido de que devemos sim pregar sobre o inferno e os perigos das forças espirituais do mal – desde que as pregações sobre o assunto tenham foco em Jesus.

A primeira razão que me fez rever essa posição foi a releitura do Novo Testamento. Lendo as Escrituras e alguns bons livros descobri, espantado, que Jesus de Nazaré falou muito nos Evangelhos sobre o inferno. Ou seja: o próprio Senhor abriu o precedente. Afirmar que não se pode pregar sermões que tratem do mundo espiritual maligno – com foco em Cristo, sempre – seria dizer que Jesus não poderia ter falado o que falou. E repreender Deus é, no mínimo, complicado. Se por um lado, o Senhor nos disse para não ficarmos eufóricos com esse assunto (“Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” – Lc 10.20), por outro nos instrui muitas vezes sobre ele (como em “Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino [...]  Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e perguntaram: “Por que não conseguimos expulsá-lo? “  Ele respondeu: [...] esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” -  Mt 17.18-22).

Sata3Trabalho como editor de livros cristãos. Meu último projeto – sobre o qual não posso falar muito, por enquanto, por questões éticas – é uma obra de um importante pastor presbiteriano brasileiro e chanceler de uma universidades  cristã. Tradicional. Histórico. E brilhante. Surpreendeu-me, portanto, quando li em seu texto o seguinte:  “Alguém já disse que pregar sobre o inferno não é um caminho muito bom para levar pecadores ao arrependimento, porque, nesse caso, as pessoas se converteriam por medo da perdição eterna. Pessoalmente, entendo que é preferível que seja assim ao fato de o indivíduo não se converter de maneira nenhuma. Se alguém se converteu porque tem medo de ir para o inferno, isso é ótimo, mas se a conversão ocorreu por amor a Jesus é melhor ainda. Não faz mal o crente se assustar com a realidade da justiça divina”.

Cada vez mais tenho percebido a importância de alertar a Igreja, como fez o próprio apóstolo Pedro, de que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando a quem possa tragar” (1 Pe 5.8). Forças do mal estão se infiltrando nas igrejas. Nas empresas cristãs. Ensinamentos diabólicos estão conquistando espaço nos corações e nas mentes dos jovens e adolescentes evangélicos. Temos guardado os portões da frente de nossas vidas pela proclamação indispensável do Evangelho de Cristo, mas, ao fecharmos os lábios contra “as ciladas do diabo” (Ef 6.11), deixamos a porta dos fundos escancarada para a entrada dos sabotadores de nossa espiritualidade.

Sata4Deus é infinitamente mais poderoso que o diabo. A velha ideia de que Satanás e Jeová disputam as almas humanas como num cabo-de-guerra, em igualdade de condições, é um erro de proporções (anti)bíblicas. O Deus criador é tão superior ao diabo criatura que, com um piscar de olhos, Ele poderia, se quisesse, eliminar todos os demônios, todo o inferno, tudo, tudo, tudo. Então, imaginar que o diabo é inimigo direto do Todo-poderoso chega a ser engraçado, pois o querubim caído não pode absolutamente nada contra o criador do universo. Na-da. Ele é inimigo, isso sim, dos homens, a quem consegue astutamente enganar. Em especial aqueles que não estão alertas contra esse engano  e que se julgam imunes à tentação maligna.

Portanto, é por isso que Paulo, o apóstolo, prega à igreja de Éfeso: “A nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). E deixar de fora das nossas preocupações, do nosso discurso e da nossa pregação essa realidade seria ignorar um assunto tratado extensamente por Jesus e por seus discípulos nos evangelhos, nas epístolas e em Apocalipse. Seria uma irresponsabilidade.

Sata5A literatura cristã está repleta de livros sérios que alertam para o tema, seja de forma direta ou por meio da ficção. Um exemplo que imediatamente me vem à mente é o do grande C.S.Lewis, que escreveu as obras ficcionais “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, “O Grande Abismo” e “As crônicas de Nárnia”, que mostram explicita ou implicitamente a ação de demônios e – graças a Deus – despertam o fascínio sobre o tema. Aliás, dedicar tempo e tinta para alertar a Igreja contra o inferno, o diabo e seus ardis fez parte da preocupação de grandes homens de Deus desde o princípio. Além do próprio Jesus e dos autores canônicos, os primeiros escritos da época patrística trazem textos sobre o assunto de alguns pais da Igreja, como Orígenes (“De principiis”), Gregório de Nissa e outros. Assim foi e prosseguiu pelo período da escolástica (com Erasmo) e da Reforma (com Lutero e Zuínglio), seguindo por John Wesley, John Bunyan e outros (a série do website Voltemos ao Evangelho sobre “A História do Inferno” fornece uma boa bibliografia sobre o assunto). A conclusão é que sempre houve na Igreja cristã saudável a preocupação de pregar e escrever sobre Satanás, os demônios e o inferno – de Jesus a John Piper e Paul Washer. Basta procurar.

Em nossos dias, livros e relatos de ficção apresentados como verídicos, como as histórias de Rebecca Brown e similares, prestaram um desserviço à Igreja, por dois ângulos: de um lado houve quem cresse em seus contos como se fossem realidade e passasse a viver segundo suas ficções. Do outro, quem percebeu que se tratava de uma farsa passou a ter um preconceito refratário a qualquer coisa do gênero, qualquer livro que toque no assunto, qualquer música que mencione o diabo ou o inferno. O satanismo, uma realidade tão presente e infiltrada nas igrejas, ministérios e outros ambientes cristãos, tornou-se um assunto sobre o qual não se deveria falar. Com isso, saiu perdendo a importância bíblica e histórica de se tratar e de pregar sobre a questão. E quem saiu ganhando? Preciso responder?

Até mesmo na música. O tradicional hino “Castelo Forte”, composto pelo reformador Martinho Lutero,  dedica quase metade de suas linhas ao diabo e os demônios (depois que ele afirmou, veja você: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!”):

“Castelo forte é nosso Deus,
Amparo e fortaleza:
Com seu poder defende os seus
Na luta e na fraqueza.
Nos tenta Satanás,
Com fúria pertinaz,
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na Terra.

A nossa força nada faz:
Estamos, sim, perdidos.
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos.
Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz
O Senhor dos altos céus.
E sendo também Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está:
Vencido cairá
Por uma só palavra.

Que Deus a luta vencerá,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, poder,
E, embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu reino.”

.

Sata6O inferno existe e é um assunto sério. Bíblico. Jesus falou e pregou sobre ele – e muito. Devemos fazer o mesmo. Satanás e os demônios são um assunto sério. Bíblico. Jesus lidou pessoalmente, expulsou constantemente e falou sobre eles – e muito. Devemos fazer o mesmo. Se for preciso despertar o fascínio sobre o assunto, que assim seja. Pois, no pesar da balança, é melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Pois o que está em jogo aqui são almas humanas. Precisamos saber lidar de forma bíblica e correta com as hostes espirituais da maldade, que tanto dano provocam no seio da Igreja. E isso só vai acontecer se nossos líderes nos ensinarem a fazê-lo biblicamente. Enquanto acreditarem na inverdade que “não se prega falando sobre o inferno, Satanás e os demônios”, estarão na contramão do que fez Jesus, os escritores canônicos, os pais da Igreja, os escolásticos, os reformadores, os expoentes dos grandes despertamentos e importantes pregadores reformados de nossos dias. E, com isso, só quem lucra é o diabo, que pode usar e abusar dos cristãos que não sabem lidar com o mal porque nunca lhes ensinaram a fazer isso de forma sadia.

É ingenuidade acreditar que basta pregar sobre Cristo sem falar nada sobre o diabo e estaremos isentos das artimanhas e dos ataques do maligno. Já ouvi o bom argumento de que para aprender a identificar a nota falsa basta conhecer bem a verdadeira – só que, se a tinta da nota falsa gera prurido e alergia em nossa pele, somente conhecer a verdadeira não vai adiantar muito, depois que já manuseamos a falsificada. A luz espanta as trevas, é verdade, mas me diga um cristão com Jesus no coração que não peca porque aqui e ali se deixou enganar pelas forças do mal. Como vigiaremos se não sabemos como é o inimigo? Como estaremos alertas às “ciladas do diabo” se não temos conhecimento de como ele age, o que faz, como se combate? Muitas tecnologias fajutas de “batalha espiritual” ganham notoriedade em nossos dias justamente porque houve muitos que ensinaram errado enquanto os que poderiam ensinar certo deram as costas ao assunto.

Sata7Pregar sobre Jesus é o centro, o foco e a essência. Mas o que muitos lamentavelmente não enxergam é que pregar mensagens de alerta sobre o inferno, Satanás, o satanismo, as hostes espirituais da maldade – de forma bíblica! – também é fazer exatamente isso: ressaltar a altura da montanha pela profundidade do vale. Mostrar a luz pela contraposição com as trevas. Posicionar o bem a partir de um referencial maligno. Exilar o mal de nossa proclamação do Evangelho é remover o diabo da tentação de Jesus no deserto; é tirar a história do rico e Lázaro da Bíblia; é contar a parábola do semeador pela metade; é amputar os primeiros capítulos do livro de Jó; é rasgar páginas e mais páginas das epístolas; é anular todo o sentido de Apocalipse; é jogar no lixo trechos como Lc 11.14, Mc 7.29, Jo 8.49, Mt 9.33, Mt 17.18, Mc 7.26, Lc 4.33 e muitos outros. Mais importante ainda: é arrancar da história da salvação o relato da Queda. E, sem o que a serpente fez no Éden, por que mesmo precisaríamos da cruz?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Spams são uma das maiores pragas para os usuários de internet. Não tenho nem de explicar: se você está lendo este artigo é porque é usuário da web. E, se navega no mundo cibernético, já foi vítima de spam. “Ganhe dinheiro sem sair de casa”, “Aumente o tamanho do pênis” (desculpe se isso te escandaliza, mas esse chega todo dia), “Viagra com 50% de desconto”, “Livro da AD Santos é destaque da revista Quem” e inutilidades do gênero lotam nossa caixa de entrada de e-mails, trazendo consigo desde vírus até a mera chateação de ter que ficar deletando cada um. Mesmo o espaço de moderação de comentários do APENAS sofre com isso, acredite. A cada comentário legítimo, entram três spams, em média. Recentemente, um irmão me mandou um comentário indignado (com toda razão): “Não entendo quando vejo em blogs tal como o seu e outros de conteúdo evangélico, voltados para edificação da igreja, banners de propagandas totalmente contrárias à fé evangélica em Cristo Jesus, tal como o que vejo acima, oferecendo os serviços de um vidente de nome tupak ou tupac, e em outro caso que me vem a memória (em outro blog), quando vi ali propagandas da medalha milagrosa”. Pois é, spams nos atacam até como banners não solicitados e não aprovados em nosso blog. Como esse aqui abaixo, que acabou de aparecer na página enquanto eu fechava este texto, de “Tara, a médium visionária”. São incômodos, indesejados, prejudiciais, chegam sem que queiramos, invadem nossa privacidade, geram em nós sentimentos ruins. E em nossa vida espiritual há um tipo de spam muito pior do que esses, que não só irritam e causam confusão como nos fazem muito mal. Chama-se pecado.

Nenhum cristão quer pecar. Tenho absoluta certeza que, se você tem o coração em Cristo, a última coisa que quer fazer é desobedecer e entristecer o teu Salvador. E não estou falando de joio, mas de cristãos sinceros, tementes a Deus, honestos em sua devoção. Só que, de repente, quando menos se espera, seu firewall falha e eis que entra no inbox da sua alma um spam enviado pela sua natureza pecaminosa com auxílio de um hacker chamado Satanás. Pode vir em formas diversas: pensamentos maldosos, desejos ilícitos, cobiças impróprias, sentimento de vingança, vaidade odiosa, maledicências nocivas, invejas desnecessárias, glutonaria despropositada… são muitas. Elas invadem sua caixa de entrada na forma de tentações. Furaram as defesas, o antivírus não pegou, o antispam foi ineficaz e lá está ele. Não teve jeito, alcançou seu coração. E agora?

Agora há dois caminhos. Ao detectar o spam indesejado você pode deletá-lo apertando o botão da oração, clicando no comando da leitura bíblica, arrastando-o para a pasta do fruto do Espírito ou pondo na quarentena das disciplinas espirituais. O outro caminho é cedendo à tentação e abrindo o email, deixando que o vírus escondido dentro do spam do pecado contamine todo o software da sua alma. E aí a coisa fica feia.

Uma vez que o spam do pecado cumpriu o seu papel, a sua máquina começa a funcionar mais lentamente. Some a vontade de ir à igreja, a concentração na hora da oração se dispersa, a leitura das Escrituras diminui ou some, um abismo vai chamando outro abismo. Nenhum computador foi feito para ser contaminado, assim como nenhum cristão deseja pecar, mas se o spam foi bem-sucedido ao furar os bloqueios, mesmo o mais sincero cristão vai começar a agir segundo a programação que se infiltrou em seu código-fonte de boas obras. Aliás, isso acontece com absolutamente todos os cristãos. O hacker espiritual logrou êxito e conseguiu contaminar todos os computadores espirituais do mundo todo, de todas as eras e em todos os lugares.

Veja como o apóstolo Paulo reconhece com sinceridade e humildade que seu software estava cheio desse spam virulento: O pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. (…) Sabemos que a lei é espiritual; eu, contudo, não o sou, pois fui vendido como escravo ao pecado.  Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio.  E, se faço o que não desejo, admito que a lei é boa.  Neste caso, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.  Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo.  Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.  Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.  Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim.  Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus;  mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. (Romanos 7.11-23).

A descrição de Paulo é perfeita. O spam do pecado aproveita uma oportunidade e produz todo tipo de estragos que o computador originalmente não desejava. O software age sem entender o que faz. Não faz o que foi feito para fazer, mas “o que odeia”. Assim, quem executou o que o spam determina não é o software original, mas o vírus que habita nele. E, deste modo, o computador sai completamente da normalidade, faz o mal que não foi programado inicialmente para fazer. No íntimo, sua programação tem prazer na lei de Deus, mas uma outra força atua em seus sistemas, guerreando contra os códigos originais, tornando o computador prisioneiro do vírus que determina suas operações.

Pronto, a máquina contaminou. O estrago foi feito. Talvez muitos arquivos importantes tenham sido perdidos. Pessoas ao seu redor foram afetadas, como spams que fazem seu e-mail enviar cópias dele para sua lista de contatos. A máquina pode até mesmo travar e parar de funcionar. Páginas pornográficas vão pular na tela à sua frente. Banners de videntes vão escandalizar quem lê sua vida. Softwares de santidade deixam de abrir. Quando se dá conta, o estrago é tamanho que você cai em si, despenca em prantos e fica se perguntando o que tinha na cabeça quando clicou no arquivo executável que veio naquele spam. E tudo parece perdido. Será preciso formatar a máquina. Talvez vendê-la. Não havia backup, então tudo está perdido. Deus…

De repente, chega um e-mail enviado por  “Espírito Santo”, um amigo e conselheiro antigo com quem você costumava andar muito, mas de quem tinha se afastado há algum tempo. Escrito no “subject” vem o assunto: “Graça”. Sentado no chiqueiro da virulência, você abre a mensagem e vê um texto curto, escrito em vermelho cor de sangue, dizendo para você se lembrar que na casa de seu pai há um antivírus muito potente. Que basta você enviar um e-mail escrito “Arrependimento” e seu pai lhe mandará esse antivírus, chamado “Cruz”.

Você faz isso. Para sua surpresa, o Pai não manda o e-mail. Vem pessoalmente instalá-lo na sua máquina. Ele observa com gigantesco amor o seu olhar impotente, insere o DVD da misericórdia e procede a limpeza. Aparece uma mensagem na tela: “O sangue de Jesus está purificando sua alma de todo pecado. Aguarde o fim da limpeza”. Enquanto espera (a limpeza é muito rápida), só dá tempo de ler uma mensagem que o antivírus da Cruz estampa antre seus olhos, escrita pelo apóstolo Paulo: “Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?  Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Romanos 7.24,25a). Em segundos o software de limpeza informa o fim do procedimento. Na tela, aparece a última caixa de texto do processo: “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus,  porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte.  Porque, aquilo que a lei fora incapaz de fazer por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado” (Romanos 8.1-3).

Seu pai te abraça. Você não tem palavras para agradecer. Lágrimas rolam pelo seu rosto. Todos os programas e arquivos que você julgava ter perdido estão lá, como se tudo tivesse sido feito novo, como se o computador tivesse acabado de sair da fábrica. Você não para de agradecer, os olhos cheios d’água. E promete nunca mais clicar num daqueles spams. Seu pai se contenta em sorrir, como se soubesse que essa é uma promessa que você jamais conseguiria cumprir sozinho. E apenas lhe responde: “Tudo bem. Mas se voltar a clicar num spam não hesite em me chamar. Mesmo se for setenta vezes sete vezes”. Você diz que sim. Sabe que aquele antivírus estará à disposição todos os dias, até a consumação do século.

Seu pai se despede e faz que vai embora, mal sabendo você que ele ficou onde sempre esteve, no mesmo cômodo que você, quietinho, escondido atrás de uma cortina, vendo tudo o que você faz, o DVD na mão. Você está feliz demais. Mas… de repente, um barulhinho no seu computador chama sua atenção. Na tela, uma janela indica: “Você tem 1 nova mensagem”. Quando vai ver, adivinha: é um spam. Você se lembra da promessa feita ao seu pai. Seu dedo paira sobre o botão de deletar. Um pensamento vem: que mal poderia fazer? Vai que te dá algum prazer ou alguma vantagem ler esse e-mail, nunca se sabe. E então… clica.

Atrás da cortina, seu pai se entristece. Abaixa os olhos para o DVD e, falando de si para si mesmo, sussurra: “Antes vocês estavam separados de Deus e, em suas mentes, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês.  Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação” (Colossenses 1.21,22).

E então ele sorri um sorriso com gosto de vitória final.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Não tenho nenhuma vaidade de querer ser criativo; desejo muito mais que o APENAS seja eficiente naquilo a que se presta: alcançar corações e levar pessoas a pensar de forma crítica e construtiva nas questões ligadas à fé – para, assim, se aproximar de Deus. Por isso, hoje decidi postar uma reflexão que, embora o texto seja escrito por mim, o conteúdo não é de minha autoria. Quero compartilhar a pregação que meu pastor fez domingo passado em nossa igreja. Foi uma mensagem profunda e bíblica, dura e reconfortante. Pode falar ao teu coração, como falou ao meu. Tenho o hábito de fazer anotações dos pontos principais dos sermões que ouço para posterior meditação, portanto o que você lerá a seguir é um resumo da mensagem trazida para a igreja por meu pastor. Praticamente todas as frases transcritas aqui são, ao pé da letra, o que ele pregou. O tema: perdão.

O texto base é Mateus 8, a partir do versículo 23. É a parábola de Jesus em que Ele compara o reino dos céus com um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos. Chega um que lhe deve dez mil talentos, mas não tem como pagar. Seu senhor manda, então, que ele, toda sua família e seus bens sejam vendidos como pagamento da dívida. Desesperado, o servo prostra-se e pede paciência, perdão e misericórdia. Diz a Bíblia: “O senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida”.

Só que o mesmo servo logo depois encontra um conhecido que lhe devia uma quantia, o agride e exige que lhe pague. O conservo devedor humilha-se e implora, pedindo paciência e perdão. Em vez disso, o homem que havia sido perdoado pelo rei o lança na prisão. Ao tomar conhecimento do ocorrido, o monarca manda chamar o homem, lhe recorda do perdão que tinha recebido e o entrega aos carrascos, para que o torturem até que pague toda a dívida. E Jesus conclui: “Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão”. Segue a síntese da pregação:

“Essa passagem deixa claro que perdoar é o único caminho para se ter saúde espiritual. Quem não perdoa vive uma vida espiritual pobre e moribunda. Quem não perdoa está morto diante de Deus em seu coração. É como um sino que ressoa (1 Co 13.1): algo que faz barulho, tem aparência e volume… mas não tem vida própria. Pior: quem não perdoa não será reconhecido por Jesus no último dia, pois não está pondo em prática um dos fundamentos da fé cristã: a certeza de que o bem que quero que me façam devo fazer ao outro. Se você gosta de ser perdoado, perdoe, para que haja saúde e sua vida espiritual não se perca.

Para perdoarmos biblicamente, é importante sabermos o que significa exatamente perdoar. Romanos 12.17 nos dá a resposta:

“Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor.  Pelo contrário: ‘Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem”.

Não devolver mal com mal. Vencer o mal com o bem. Eis a resposta. Pois vingar-se significa vencer alguém mas deixar Satanás vencer você.

O grande engano dos cristãos é achar que perdão é algo emocional. Não é. Não tem a ver com “sentir” algo, mas com “fazer” algo. O perdão está relacionado a atos e atitudes. É ação. É agir como se o pecado nunca tivesse existido. As emoções, de acordo com a Bíblia e o Evangelho, estão sujeitas à razão. Assim, perdoar é um ato de sã consciência, é saber o que Deus quer. Se eu não perdoo, simplesmente isso mostra que não sou alimentado pela graça de Deus.

Então, o perdão ocorre em duas etapas: Primeiro se perdoa racionalmente (sabendo que aquilo é necessário, que é a vontade de Deus). É uma decisão mental, racional. O segundo passo são as ações. É não se alegrar com o mal que quem lhe ofendeu sofre. É orar pedindo que Deus ajude a pessoa que lhe ofendeu e que está em dificuldades. Mais ainda: é procurar quem lhe ofendeu e se oferecer para ajudá-lo no que ele precisa, com obras da graça e da bondade de Deus. E, por fim, é não causar danos ou perdas a quem lhe ofendeu.

É ao fazermos – ou não – tudo isso que demostramos quem de fato somos. Se pensamos em nós e em cumprir o que nossa justiça manda mais do que pensamos em Deus e na justiça dele, simplesmente estamos pecando. Pois nada é imperdoável quando contamos com a ajuda de Deus, nenhuma ofensa que nos fizeram é imperdoável. Tudo pode ser zerado.

A pessoa que não perdoa em forma de atitudes tem cheiro de diabo. Satanás nunca estende a mão a ninguém e quem se recusa a estender a mão está agindo como o diabo e, logo, é servo dele. Temos sempre que lembrar: não perdoar só satisfaz e alegra… o diabo.

Se dizemos que perdoamos nossos ofensores mas não retomamos a vida como tudo seguia antes da ofensa… na verdade não perdoamos. Pois isso mostra que ainda guardamos rancores, ressentimentos, medos, mágoas ou sentimento do gênero. É perdoar de boca mas não por obras. E a fé sem obras é morta. Fé sem perdão expresso em atitudes em prol de quem nos ofendeu não é fé cristã.

Não adianta eu saber orar se eu não souber perdoar. Minha oração não será respondida (Mt 6.14,15). Pois, se estou em litígio com Deus ao não perdoar meu próximo, o que posso esperar do Senhor? Nada.

A natureza desse assunto é grave. Pois Deus é perdoador. E, se eu não perdoo, não estou identificado com Deus. Não ando com Deus se não perdoo como Ele perdoa. E o perdão de Deus é absoluto, é uma quitação total da dívida e não parcial. O perdão verdadeiro nunca põe seus próprios interesses acima dos daquele que precisa de perdão (1 Co 13).

E para que perdoamos?  Primeiro, para ter paz com os outros. Segundo, para ter paz com Deus (Mt 6.15).

A renovação da mente de Romanos 12.2 passa por demonstrar perdão. Pois só tem a mente de Cristo quem perdoa, esquece das ofensas e retoma a vida a partir do ponto onde ocorreu a ofensa. Quem não o faz não perdoou, não teve a mente renovada e não age conforme a natureza de Cristo. É um cristão que não age como Cristo. Que Deus nos ensine a perdoar e a praticar o perdão. Em cada situação e a cada dia. Que Deus cure quem não perdoa. Pois a falta de perdão é uma grave doença espiritual. Quem nasceu de novo tem obrigação de perdoar.

Que Deus nos perdoe da nossa demora em fazer o que Ele quer. Que Deus nos perdoe por não perdoar. Podemos encontrar mil desculpas para não perdoar, mas não perdoar aos olhos de Deus… não tem desculpa”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
.

Muitos irmãos sofrem perseguição por sua fé em Cristo – possivelmente você já sofreu. Ela pode se manifestar de maneiras variadas, da zombaria e segregação à agressão física e morte. Como devemos lidar com isso? Como reagir quando alguém pega no nosso pé ou nos destrata pela nossa crença em Jesus? Revidamos? Abaixamos a cabeça? Há uma forma bíblica de proceder quando isso ocorre? Sim, há. E para termos convicção sobre ela e estarmos preparados para reagir biblicamente à perseguição teremos de percorrer algumas passagens das Escrituras, introjetá-las fundo em nossa alma e viver da difícil maneira a que elas nos ensinam.

Ao longo dos 2.000 anos de História do Cristianismo sempre houve perseguição, em escalas variadas. O martírio sempre foi uma constante. Nos três primeiros séculos, confessar Jesus era passaporte para ser estraçalhado por leões, incinerado na fogueira e torturado de formas inimagináveis. Os séculos se passaram e os cristãos continuaram a sofrer nas mãos dos mais variados tipos de gente, de islâmicos e cristãos de outras tradições (católicos nas mãos de protestantes e protestantes nas mãos de católicos, dependendo da época e do local) a ateus e comunistas. Ainda em nossos dias, ministérios como a Missão Portas Abertas se dedicam a denunciar a perseguição a cristãos por todo o mundo e, por meio de trabalhos como o realizado por eles, sabemos que em cerca de 90 países do mundo existe atualmente perseguição religiosa ativa (saiba mais AQUI).

No Brasil somos abençoados. Não existe, por definição, perseguição religiosa, uma vez que, segundo a Missão Portas Abertas, “o individuo é perseguido se for privado de qualquer dos elementos fundamentais da liberdade religiosa”. E mais: “Perseguição não se refere a casos individuais, mas sim, quando um sistema, político ou religioso, tira a liberdade de um cristão ou o acesso à Bíblia, restringe ou proíbe o evangelismo de jovens e crianças, atividades da igreja e de missões”. Assim, em nosso país não chegamos a esse ponto. Há uma grande intolerância, mas não “perseguição”.

Só que, se nos permitirmos fugir dessa definição e nos ativermos ao senso comum, podemos entender como perseguição até mesmo todo tipo de bullying que ocorre em muitos lugares. Ser evangélico hoje gera chacota para muitos. Rejeição da família por outros (conheci uma jovem cujos pais católicos não permitiam que ela frequentasse uma igreja evangélica). Piadas estereotipadas em programas de televisão. Proprietários que se recusam a alugar imóveis para igrejas. Eu mesmo, em certa empresa em que trabalhei, tive de ouvir que eu “não era criativo devido à minha religião”, simplesmente porque me recusei a editar uma revista corporativa de uma grande companhia fabricante de cigarros.

Verdade seja dita: por razões históricas, espirituais ou mesmo por culpa de certos setores da igreja evangélica e suas práticas questionáveis, hoje em dia dizer-se evangélico é, para enorme parcela de nossa sociedade, sinônimo de ser bitolado, massa de manobra, ignorante, ingênuo, homofóbico, medieval, supersticioso e coisas dessa linha. Eu já tive de enfrentar muitos desses adjetivos e muitas situações desagradáveis. Você já?

Feita essa constatação, voltamos à pergunta: quando nos deparamos com situações em que nos sentimos discriminados ou mesmo perseguidos devido à nossa crença em Jesus, como eu e você devemos reagir? Mais ainda: como devemos nos sentir?

Em primeiro lugar, temos de saber que é previsível que seremos perseguidos: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente  em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3.12). Paulo já sabia disso 2.000 anos atrás. E as profecias dizem que nos últimos dias a perseguição só tende a piorar. Mas isso não deve ser motivo de temor, se considerarmos que importa mais viver a eternidade ao lado de Deus sofrendo nesta vida do que viver bem e ter morte espiritual. O próprio Jesus disse que seríamos “bem-aventurados”, ou seja, “felizes”, se fossemos perseguidos por amor a Ele: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mt 5.10-12).

Sei que você já leu essa passagem tantas vezes que, de repente, o sentido e a profundidade das palavras acabaram se perdendo. Então vamos prestar muita atenção aos detalhes. Repare o que Jesus está dizendo: ser perseguido por amor a Ele é razão de felicidade. Se você for perseguido por amor a Cristo – for insultado, ofendido e até mesmo se mentirem contra você – deve se alegrar. Mais do que isso, deve se regozijar, o que significa festejar ou ter prazer, contentamento, satisfação, júbilo. Naturalmente que sua natureza humana recusa-se a sentir isso na hora em que fazem troça de você, quando te acusam de forma estereotipada, quando sofre no emprego por ter colegas que pegam no seu pé devido a sua ética cristã, quando sua  família se levanta contra você por se declarar um servo de Jesus.

Só que… quem disse que ser cristão é agir como nossa natureza humana dita? Ser cristão é agir como a natureza de Cristo dita. E, se assim o fizermos, “grande é a recompensa” que nos espera nos céus. E o parâmetro que Jesus estabelece como exemplo são os profetas perseguidos do passado. A esse respeito, Hebreus 11 é riquíssimo. Veja, por exemplo,  o que se diz acerca do príncipe do Egito que virou pastor em Midiã: “Pela fé Moisés, já adulto, recusou ser chamado filho da filha do faraó, preferindo ser maltratado com o povo de Deus a desfrutar os prazeres do pecado durante algum tempo. Por amor de Cristo, considerou a desonra riqueza maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava a sua recompensa” (Hb 11.24-26)

E não para por aí. O autor aos hebreus fala das situações horripilantes que muitos tiveram de enfrentar por fidelidade a Deus e fé nele. Transcrevo aqui esse trecho, em forma de tópicos, de forma a pontuar melhor o que ele diz:

“Alguns foram
1. torturados e
2. recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior. Outros
3. enfrentaram zombaria e açoites, outros ainda foram
4. acorrentados e colocados na prisão,
5. apedrejados,
6. serrados ao meio,
7. postos à prova,
8. mortos ao fio da espada.
9. Andaram errantes,
10. vestidos de pele de ovelhas e de cabras,
11. necessitados,
12. afligidos e
13. maltratados.
O mundo não era digno deles.
14. Vagaram pelos desertos e montes, pelas cavernas e grutas.
Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido. Deus havia planejado algo melhor para nós, para que conosco fossem eles aperfeiçoados”
(Hb 11.32-40). Aos olhos do mundo, derrotados. Aos olhos de Deus, o mundo não era digno deles.

E de modo muito prático? Você que sofre no trabalho por bullying de colegas, na escola, na universidade, na vizinhança ou em qualquer outra instância por sua fé em Jesus, como deve reagir? Mandar todo mundo pro inferno? Orar pedindo que a mão de Deus pese sobre quem te faz mal? Entrar em bate-bocas, acusações, troca de farpas, vendetas e outras formas de beligerância? Não. Nada disso. Pois isso, meu irmão, minha irmã, biblicamente é uma reação carnal e diabólica. O que Jesus nos ensina mais uma vez é contrário à natureza humana. Pois o homem natural reage com violência e ira. O homem espiritual segue o que Jesus de Nazaré ensinou: põe o outro acima de si, aceita as bofetadas e os açoites (físicos ou morais), suporta a provação e as perdas mas se recusa a agir com vingança, a se defender ou a devolver na mesma moeda. Segue em silêncio o caminho do seu calvário pessoal. E não sou eu quem diz, é ensinamento do próprio Salvador do mundo, do manso Cordeiro (novamente em tópicos, para captar mais a sua atenção):

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’.  Mas eu lhes digo:
1. Não resistam ao perverso.
2. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.
3. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
4. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas.
5. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”.
Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo:
6. Amem os seus inimigos e
7. orem por aqueles que os perseguem,
para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso!”
(Mt 5.38-47).

Mas, Zágari, não posso revidar quem me persegue nem um pouquinho? Minha vontade é de acabar com a raça daquele incircunciso! Bem… responda você mesmo: “Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem” (Rm 12.14). E mais: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor.  Pelo contrário: ‘Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’.  Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Rm 12.19-21).

Seremos perseguidos, isso é um fato bíblico inescapável. O mandamento cristão é não revidar. Nada de lançar aviões contra os edifícios de quem nos persegue. Nada de invadir países para matar os inimigos. Nada de proferir nem sequer uma palavra de maldição contra nossos perseguidores. Jesus nos ensina a abençoá-los, a amá-los, a orar por eles, a alimentá-los, a saciá-los, a fazer-lhes o bem, a adotar uma postura pacificadora, a aguentar os murros na outra face. Quem de nós faz isso? Pouquíssimos, sejamos francos. A notícia é que esses pouquissimos são os que estão agindo como Deus deseja. A boa notícia para esses é que haverá recompensa na eternidade para os que engolirem sua humanidade, sofrerem perdas e danos por amor a Cristo e tiverem a nobreza de superar a vontade humana de dar o troco ou agir com violência verbal ou física. Não é preciso ter nascido de novo para pagar a perseguição na mesma moeda. Mas só quem nasceu de novo pode, pelo poder do Espírito, suportar tudo calado, negar-se a si mesmo e carregar a cruz até o dia de sua morte.

E esses, Jesus diz, são os bem-aventurados. Os felizes. Você está sofrendo qualquer tipo de perseguição pela sua fé, meu irmão, minha irmã? Sorria em silêncio. Você é feliz aos olhos de Deus. E grande será sua recompensa na eternidade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
.

Deus fala. E fala de diferentes maneiras. A principal delas é sem dúvida a Bíblia. Para os pentecostais, também pela profecia e a palavra de conhecimento. E Deus fala enormemente ao coração. E quando Deus fala, há transformação. É impossível o Espírito Santo falar ao coração de alguém e essa pessoa permanecer igual. Você experimentou isso na sua conversão. E provavelmente muitas vezes depois. Em geral, quando tudo está bem, Deus permanece em silêncio. Mas quando Deus fala, geralmente é porque algo está errado conosco, pois, como Jesus disse, ele não veio para os sãos: veio para os doentes. E Ele não fala porque nos quer mal, fala porque deseja que nos aprumemos, porque nos ama. Ele nos quebra, nos humilha, nos confronta com o espelho. E aí temos dois caminhos: ou o ouvimos, nos quebrantamos e nos pomos na posição que Ele deseja ou permanecemos no erro. Já aconteceu isso com você? Comigo sim.

Muitas vezes Deus fala nos sacolejando. Nos esbofeteando. Foi o caso de Davi, após seu adultério com Bateseba e o assassinato de Urias. Ele errou e errou feio. Mas Deus o amou a ponto de levar o profeta Natã até ele e chamá-lo à responsabilidade. E o mais emocionante foi que Davi reconheceu seu erro. Se humilhou. Pediu perdão. Foi perdoado. Restaurado. O mal que ele fez não havia como corrigir: Urias não voltaria à vida, algo que tenho certeza que o rei carregou na consciência até o fim de sua vida. Pois os pecados que cometemos não nos abandonam, tornam-se nossa sombra, por mais que sejamos perdoados por Deus. Os homens não perdoam. Mas Deus sim. Só que as cicatrizes ficam.

De pecados não saem coisas boas. O que fica é rancor, raiva, remorso, dor, tristeza. Urias teria perdoado Davi? Talvez não. Talvez sim. Não podemos dizer. Mas quando Deus fala para te dizer o quão pecador você é e você se arrepende, depois ele também fala para dizer que te perdoou. Não vai tirar de você as cicatrizes, para que as carregue até o fim da vida como memorial do teu erro, mas com um objetivo benéfico: que você não cometa mais o mesmo erro.

O Deus Filho falou com o ladrão da cruz. E um ladrão que chega a ser condenado à cruz não roubou uma, duas ou três vezes: provavelmente cometeu o pecado do roubo inúmeras vezes. E ainda assim, quando Jesus falou com ele, suas transgressões foram apagadas e ele ouviu: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Pois é isso o que importa ao cristão arrependido: o Céu. Quando Deus fala e te confronta com o Inferno, tuas pernas tremem. Os olhos se arregalam. Os teus erros passam como um filme na tua cabeça. O diabo grita de raiva, pois estava te enganando e nele você vinha acreditando. Mas quando você vê teus pés à beira do abismo do Inferno, a voz de Deus se faz audível a ouvidos que até então estavam surdos.

Não deveria ser assim, deveríamos nos aproximar de Deus por amor, em paz, sem ter de ser confrontados com a feiúra de nossos pecados ou ameaçados com o fogo que arde eternamente. Mas a realidade do Inferno serve para nos mostrar a realidade do Céu. A profundidade do vale é diretamente proporcional à altura da montanha. Feliz é o homem que ouve a voz de Deus apenas pelas palavras suaves de Cristo, sem ter de ser esbofeteado por seus pecados. Bom seria a Davi não ter de ouvir de Natã o que ouviu. Mas que bom que o Redentor mostrou o Inferno a Davi, pois pelo menos assim ele mudou seu caminho de morte eterna a tempo de se arrepender e, com isso, ser chamado de homem segundo o coração de Deus.

Já pequei muito. E no mais profundo vale dos meus pecados mais horríveis ouvi a voz de Deus. Fui confrontado com o Inferno. Fui abalado pelos meus erros. O chão se abriu sob meus pés e vi a perdição diante de mim. Tremi. Tremi e temi pelo destino eterno de minha alma. O processo de arrependimento é doloroso, dificil e desesperante, pois as escamas caem de nossos olhos e vemos quem somos, o que estamos fazendo e então nos tocamos: matamos Urias. Roubamos inúmeras vezes. É uma percepção avassaladora. Nos abate, nos deprime, nos humilha, nos derruba. Choramos e vemos que não há como Urias voltar à vida, não há como devolver o dinheiro que ficou conosco e que não nos pertence. Já o gastamos. Resta-nos a dor de uma culpa que nunca nos deixará, mas também um alento: a certeza de que o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo estendeu a nós a sua graça, o seu perdão. Nesse momento entendemos a exata razão de Cristo ter subido à Cruz por nós. E esse é o consolo que nos dá ânimo para ficar de pé e prosseguir, apesar de Urias nunca mais voltar à vida.

Sim, já pequei muito. Sim, ouvi a voz de Deus de dentro do lamaçal em que por minha culpa me enfiei. Sim, me arrependi. Oro a Deus que Ele me dê forças para nunca mais cometer os pecados que cometi. O mal que fiz a Urias não há como voltar atrás. Está feito. Só Deus sabe as lágrimas que derramei por ele. Mas me agarro à graça que me conduziu ao arrependimento, me agarro à Cruz e me agarro aos pés de Cristo. Sou grato a Ele por ter me estendido uma misericórdia que não entendo. Que os homens não exercem. Que só um Deus bom seria capaz de conceder.

A clareza de quão falho você é tem suas vantagens. A principal é que isso te torna mais entendedor do pecado do outro. Se você teve cúmplices na morte de Urias, enxerga-os com mais graça, pois você é tão culpado como eles. Antes você olhava assassinos e desejava o pior para eles, que fossem de trem expresso para a perdição eterna. Pedia a pena de morte, com gosto de sangue na boca. Mas quando a voz de Deus vem e mostra que você sim está no corredor da morte, apenas esperando o dia da execução, como resultado da tua humanidade e pecaminosidade… tudo muda. Você passa a olhar para o assassino com olhar de piedade. O desejo de mostrar-lhe o amor de Cristo aumenta. E assim você prossegue na caminhada, cheio das cicatrizes que te lembrarão eternamente dos males que você causou, mas com amor pelo pecador e a enorme vontade de tirá-los do caminho do Inferno. Pois Deus escancarou o Inferno diante de si e você não o deseja a ninguém.

Creio que é isso que deve nos impulsionar a pregar o Evangelho: a voz que ouvimos de Deus. Não uma obrigação ativista de evangelizar e discipular. Mas o desejo de tornar conhecido a pessoas que estão matando seus Urias a voz que fez você enxergar que você matou o seu. Mostrar a elas suas cicatrizes. Proclamar o amor que te alertou a tempo. E esperar que elas não sejam obrigadas a contemplar o Inferno para se desviarem de seus maus caminhos, pois você, que andou nesses caminhos, sabe o quanto isso dói. O quanto te humilha, quando você olha Jesus nos olhos.

Se você está matando Urias, eis meu testemunho, minha confissão, para que sirva de alerta a você. Quem escreve aqui é um pecador, falando para outro pecador. Há um Céu e há um Inferno. Há a beleza de Cristo e o horror do diabo e do pecado. Se você está trilhando o caminho que trilhei, de lama, enxofre e imundície, fique atento à voz de Jesus, o Cordeiro de Deus. Ele não veio à terra a passeio, veio por amor por mim e por você, pecadores, para que ouçamos a sua voz a tempo de deixar para trás as práticas malignas e caminhar com os olhos fixos na Cruz, sem se desviar dela para a esquerda nem para a direita. Minha humanidade me empurrou para fora dela muitas vezes. Mas pela graça permanecemos no caminho estreito. Se você está fora desse caminho, como eu andei, sugiro que pare de pecar. Não culpe ninguém, mesmo quem pecava com você. Não culpe nem mesmo o diabo: assuma seus erros e confesse seus pecados a Deus, em arrependimento sincero. Aproxime-se de um bom cristão, que torne-se seu confessor, que te ampare e te ajude a ficar de pé, apesar de o peso da lembrança dos pecados que cometeu vergar as suas costas. E não volte ao vômito.

Deus falou comigo. Me confrontou com meus pecados. Cada erro que cometi passou diante de meus olhos. Vi o cadáver de Urias. Eu o matei. Não posso ressuscitá-lo. Eu roubei. Não posso devolver o dinheiro que gastei. Mea culpa. Mea tão grande culpa. Clamei a Deus por perdão. Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor. Que o Deus que perscruta os corações veja o meu a cada nova manhã e, se ainda houver manchas, que o purifique. Se houver tentações, que livre-me delas. Que me faça ouvir sua voz todos os dias. Não esquecerei a face do Inferno. Esse eu já conheço. Mas quero ver o Céu. Hoje resta-me entregar-me às mãos de Cristo, contar com sua graça imerecida e esperar ouvir dele que estaremos juntos no Paraíso.

Encerro fazendo minhas as palavras de Davi no Salmo 51.1-17, escrito após ter percebido o horror do pecado que cometeu: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me.

Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe. Sei que desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. Faze-me ouvir de novo júbilo e alegria, e os ossos que esmagaste exultarão. Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades.

Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer.  Então ensinarei os teus caminhos aos transgressores, para que os pecadores se voltem para ti. Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará a tua justiça.  Ó Senhor, dá palavras aos meus lábios, e a minha boca anunciará o teu louvor. Não te deleitas em sacrifícios nem te agradas em holocaustos, se não eu os traria. Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás“.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Se você deseja aconselhamento, recomendo que procure seu pastor e não um blogueiro.

As reflexões expressas neste blog são pessoais e não representam necessariamente a posição oficial de nenhuma igreja, denominação ou grupo religioso.

Alguns irmãos queridos vieram me perguntar por que não divulguei meus últimos posts aqui do APENAS pelo twitter e pelo Facebook, como tenho feito nesses quase 14 meses de existência do blog. Senti que precisava dar uma satisfação a quem me acompanha e se identifica com o que escrevo. Fato é que abandonei as redes sociais. Mas, antes de chegar nessa questão específica e de menor importância, gostaria de refletir um pouco sobre algo bem mais relevante no que tange a esse assunto e que está relacionado a ele: aquilo que chamo de Religião Internet.  É inegável que o surgimento da rede mundial de computadores mudou muito a vida da Igreja, em especial no Brasil. A primeira vez que surfei (sim, usávamos esse termo no século passado em vez de “naveguei”) na web foi ainda num browser Netscape Beta, por volta de 1995. Para alguém de até uns 20 anos pode ser engraçado ler isso, já que deve pensar “como era possível viver sem Internet”? Pois acredite: era. E éramos felizes sem ela. Hoje achamos que a vida sem Internet é impossível. Só que não é. Sei que meu comentário vai na contramão do que muitos advogam, mas creio que a inclusão digital não é tudo isso que dizem – tanto que a humanidade viveu milênios antes que Bill Gates ou Steve Jobs existissem. E, no caso da Igreja, quando falamos de redes sociais torna-se ainda mais irrelevante e até problemática.

Como disse John Piper, “uma das maiores utilidades do twitter e do Facebook será provar no último dia que a falta de oração não era por falta de tempo”. O que é absolutamente irônico é que li essa frase no Facebook. E sou obrigado a concordar com Piper, simplesmente porque ele tem razão. Mas concordar com isso e compartilhar essa frase no Facebook… é a contradição das contradições! A verdade é que, se acredito nessa afirmação, não adianta compartilhar a fotinho ao lado: preciso agir com a coerência que essa frase me exige. E só Deus sabe o quanto eu preciso orar mais, buscar mais intimidade com o Pai, me santificar e ser um homem a quem Jesus diga naquele dia: “Bem-vindo, servo bom e fiel”. E as redes sociais não estão me ajudando em nada nesse sentido. Mas daqui a pouco falo mais sobre isso.

Entenda, não demonizo a web. Sei todas as coisas boas que ela pode proporcionar. Cá estou eu, por exemplo, sendo lido por você via Internet. Há muitas coisas positivas, quando o seu uso e seu propósito são benignos. No entanto, o que quero abordar hoje não são as inúmeras vantagens que a rede mundial de computadores trouxe para nós, mas os males que gerou para o Corpo de Cristo.

O maior deles é a ideia de que é possível substituir a igreja local e a comunhão dos santos por uma pseudoprática de fé via web. Multidões têm se protegido misantropicamente das decepções com pastores e membros se entrincheirando na segurança de seus notebooks. Formam “igrejas” (embora se recusem, irritados, que usemos essa palavra) com indivíduos reduzidos a avatares que acham que conhecem e com quem trocam meia dúzia de palavras pela rede. Talvez bate-papos via MSN, frases curtas via twitter ou alguns textinhos pelo Facebook. Formam seu aprendizado de fé assistindo a cultos on-line, acompanhando vlogs de 5 minutos de pregadores famosos, lendo blogs como o APENAS e ouvindo bate-papos em podcasts muitas vezes – me perdoem – teologicamente ridículos. Mas meu blog, por exemplo, não substitui a igreja. Meu blog não substitui uma pregação. Meu blog não substitui a adoração. Meu blog não substitui a oração de uns pelos outros. Meu blog não substitui o aconselhamento pastoral. E quando falo do APENAS, o estou usando como arquétipo de todas as mídias que mencionei acima – e muitas outras. A Internet é a cerejinha do bolo da fé, mas há muitos que estão pondo o bolo em cima da cereja.

Há também o problema da enorme mistura de teologias, doutrinas, ensinamentos e doideiras que o internauta que substitui a vida em comunidade pela Religião Internet absorve. Lembro quando dava aula em seminário teológico, passava trabalhos para os alunos e, em vez de uma pesquisa, recebia de volta páginas impressas da Wikipédia. Que, aliás, é uma bênção e uma desgraça ao mesmo tempo, visto que pode esclarecer muitas coisas mas qualquer um pode postar o que quiser ali – o que torna essa ferramenta altamente desconfiável. Mas damos mais atenção à Wikipédia e a sites correlatos do que a livros que exigiram pesquisa, revisão, o crivo dos editores e são, eles sim, fontes confiáveis. Mas nossa preguiça e nosso imediatismo tornam mais fácil escrever uma palavrinha no Google e ver o que a loteria da pesquisa vai jogar em nosso colo como primeiras opções do search. E é nelas que confiaremos – sem ter conhecimento sobre quem escreveu, que linha segue, que teologia ou crenças nortearam aquela fonte de dados. Como ouvi certa vez, não me recordo de quem, substituímos o saber pela informação. E informação não forma ninguém, conhecimento adquirido com muito estudo e suor sim.

A Bíblia Sagrada foi trocada por versículos tuitados e frasezinhas descontextualizadas de Spurgeon, Paul Washer e outros homens de Deus. Ou então de pregadores da moda – muitos deles hereges. Na vida de muitos, o texto bíblico foi substituído por citações de pessoas que ensinam doutrinas diabólicas, como a que afirma que o que você disser com fé vai acontecer, ou que a Bíblia é um livro de homens e não de Deus, ou que Deus não exerce sua soberania nas tragédias, ou que o cristão autêntico tem que ter prosperidade material. Tudo absurdos bíblicos – mas muitos não sabem discernir, pois valorizam mais a beleza poética do que é dito do que a correção bíblica. Sejamos francos e não vamos esconder o problema sob o tapete: se não têm intimidade com as Escrituras, como discernirão o erro? Cairão fácil nos engodos.

Conheço um “pastor” que escreve frases lindas no twitter. Poderia jurar que ele é um conservador, até, não fosse o corte de cabelo modernoso. Mas, quando você vai ao blog dele, descobre que é um esotérico que acha que Jesus é um extraterrestre e que vai voltar num disco voador. Não ria, isso não é piada, é um fato. Possivelmente você o segue, visto que ele tem mais de 5.600 seguidores. O lê, o retuita, acha lindo o que ele fala e nem ao menos sabe que seus ensinamentos são tresloucados. Ou o pastor garotão que fica falando sobre a “contextualização” do Evangelho, ensinando montes de mundanismos – e a turma adora. Ou o pastor herege que joga a Bíblia no lixo. Ou o professor de pós-graduação que ensina a demoníaca Teologia Liberal e fala que o Cristo do cristianismo clássico é invenção grega – mas como ele fala tão bonito e tem uma carinha tão simpática muitos o amam, sem saber o perigo que ele representa para milhares de almas humanas por ensinar um Jesus que não é o da Bíblia.

Muita gente já me deu #FF no twitter junto com algumas dessas pessoas. E quando vejo isso me pergunto como um irmão pode dar #FF no mesmo tuíte para alguém como eu, que crê no conservadorismo bíblico, e para alguém que prega o liberalismo teológico, crença extremamente oposta à minha e que considero uma heresia. Não consigo compreender tamanho contrassenso. Sim, a Religião Internet é um perigo. Quem substitui a sólida doutrina de suas igrejas pela babel da www corre sérios riscos de absorver ensinamentos terríveis mas que têm aparência de piedade.

E aí chegamos às redes sociais. Tinham tudo para ser uma incrível ferramenta a serviço do Reino de Deus. Mas do jeito que têm sido usadas se tornaram em esmagadora parte uma perda de tempo precioso que poderia ser investido numa devocionalidade real – e que, essa sim, nos tornaria pessoas mais próximas de Deus. Posso falar por mim: as redes sociais me afastaram muito de Cristo e dou a mão à palmatória quanto a isso. Analisemos friamente e sem olhar apaixonado: o Facebook é o universo da irrelevância. Se você peneirar ali o que realmente tem utilidade verá que se resume talvez a 1% do que entra na sua tela. O twitter, com seus 140 caracteres, já é, por sua vez, o universo da superficialidade. Como é possível achar que um complexo pensamento teológico pode ser destrinchado nesse microespaço? Impossível. O Orkut? Ah, é verdade, o Orkut morreu, graças a Deus.

É por tudo isso e outros fatores pessoais que decidi me retirar, pelo menos por um longo e indefinido período sabático, das redes sociais. Minhas poucas entradas serão por exigência de meu trabalho. Na web só continuarei escrevendo no APENAS e nas minhas colunas em sites e revistas – artigos que alguns acham enormes, tão viciada a Igreja está em textos minúsculos e tão desacostumada está de ler livros (e me pergunto se alguém que reclama do tamanho de meus textos leria os 28 capítulos do evangelho segundo Mateus ou os 50 de Gênesis…).

Fato é que as redes sociais não têm feito bem à minha vida espiritual, além de me tomarem um tempo precioso, que preciso dedicar mais à leitura, à oração, a relacionamentos com pessoas tridimensionais a quem eu possa aconselhar e que possam me aconselhar e ouvir a confissão de meus pecados, gente com quem eu possa comungar sem a falta de prosódia que relacionamentos virtuais geram. Pela tela do computador ninguém consegue enxugar minhas lágrimas, nem eu consigo estender o ombro a quem precisa. Quero me recolher a minha vida real e resgatar a devocionalidade que vivia antes de entrar nas redes sociais. Quero que a frase de John Piper ganhe consequência em minha vida. Tenho sentido a imperativa  necessidade de me aproximar mais de Deus e me afastar desse universo paralelo, que me conduz a pecados que passam pela ira, o rancor e muitos outros que a irrealidade virtual gera – o que tem atrapalhado minha saúde física (num momento em que me trato de estresse) e espiritual. Sem falar de tristezas, decepções, chateações e similares que pulam dentro de minha casa pela tela do notebook.

Já tem cerca de dois anos que praticamente parei de assistir a televisão. Não tem nada a ver com crer que TV seja pecado. Simplesmente perdi o interesse pelos telejornais mentirosos, os seriados que não edificam, os documentários falaciosos. Não serei hipócrita de dizer que aboli a TV da minha vida, eventualmente assisto a uma ou outra coisa que penso que será interessante. Mas talvez não chegue a 3 horas por semana, no total. E posso afirmar a monstruosa diferença que afastar-se do vício por TV faz. Não tenho absolutamente nenhuma vontade de voltar a consumir essa mídia como fazia antes, e por uma simples constatação: depois que você se desintoxica ela não faz a mínima falta.

Agora quero fazer a mesma coisa com as redes sociais. Quando as descobri achei que seriam edificantes. Experimentei. Hoje, fazendo um balanço, vejo que não foram, pois mais me afastaram de Deus do que me aproximaram. Tirei muitas coisas positivas delas, creio ter contribuído um pouco, mas chegou a hora de parar. Preciso respirar mais do ar puro da vida real e retornar a 1995, quando os amigos marcavam um café para se encontrar, nos telefonávamos, mandávamos cartões de Natal escritos a mão. Hoje as pessoas mandam scraps impessoais no Facebook nos aniversários, trocam farpas pelo twitter, vivem relacionamentos bidimensionais. Não tem me feito bem. Creio que eu também não tenha feito bem a muitos, reconheço as críticas, aceito as que são justas e prefiro esquecer as injustas – pois na minha luta para me aproximar de Cristo me esforço para não devolver mal com mal. Quero avançar para trás e viver a vida que existe fora das telas.

Por isso, desde o dia 29 de junho parei de usar minhas redes. Não entro, não olho, não escrevo nelas, salvo uma ou outra coisa feita por questões de trabalho. Vou deixá-las congeladas – possivelmente abandonadas – por período indeterminado. Usava-as muito para divulgar posts novos do blog, o que de fato foi proveitoso, pois o APENAS acabou de completar 350.000 acessos em pouco mais de 13 meses no ar. Se você tem interesse em continuar lendo as reflexões que aqui são postadas, pode juntar-se aos 1.027 irmãos e irmãs que até a data de hoje gentilmente assinaram o blog e recebem os posts novos por e-mail. Ou, se lembrar, dar uma passadinha por aqui de vez em quando ou nas colunas que escrevo em outros sites e revistas. Mas não vou mais divulgar as postagens novas pelo twitter ou o Facebook.

Sei que o número de acessos vai diminuir (percebi que sair das redes reduz em cerca de 250 acessos por dia, em média), mas,  honestamente, não me importo, pois minha oração a Deus hoje é que conduza até o APENAS somente aqueles que Ele entende que precisam ler as palavras de edificação, consolo e exortação que aqui são publicadas. A partir de agora, é o Espírito de Deus quem fará a divulgação de novos posts.

Quero agradecer a você que teve a paciência de me aturar esses cerca de dois anos em que estive no twitter e poucos meses no Facebook. Mas a Religião Internet tem, na verdade, me afastado de Deus. Quero retomar essa proximidade. E, como disse, para isso é fundamental retroceder. Lembrar-me de como era antes de entrar em redes sociais. Creio que será melhor para mim e, acredito, para muitos que não coadunam comigo. Que Deus abençoe você, meu irmão, minha irmã, e que possa viver a sua fé no mundo real, sem as ilusões que as redes sociais, com todos os benefícios que proporcionam, oferecem – e que ameaçam a intimidade com Deus, a santidade e a comunhão com os irmãos que nós, cristãos, precisamos ter. Deixo um beijo e um abraço aos manos e manas com quem me relacionei em edificação pelas redes.

Seguirei aqui pelo blog, este meu mosteiro virtual, onde vou me enclausurar para continuar compartilhando como vaso de barro que sou o tesouro do Evangelho em que creio, o poder da graça, a denúncia de heresias, o amor de Cristo e a promessa de restauração a todo aquele que se arrepende e vai viver a eternidade ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Pois redes sociais são irrealidade. Já o Céu e o Inferno são o que há de mais real.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Se você deseja aconselhamento, recomendo que procure seu pastor e não um blogueiro.

As reflexões expressas neste blog são pessoais e não representam necessariamente a posição oficial de nenhuma igreja, denominação ou grupo religioso.

Ultimamente tenho meditado muito sobre o amor de Deus. Tenho lido sobre sua graça e sobre seu perdão, que são frutos de seu amor. Um amor tão mal-compreendido, tão humanizado em nossos louvores e concepções.  Algo tão acima da capacidade humana – de compreender, aceitar, reproduzir. A maior e, provavelmente, única forma que o ser humano tem para se aproximar do amor de Deus é vivenciando, experimentando, sendo alvo desse amor. E quando conseguimos, quando sua suave presença nos alcança, sentimos o seu perdão sobre nossa multidão de pecados e a concepção que temos sobre Cristo e sobre seu relacionamento conosco muda totalmente: entramos numa nova dimensão na nossa caminhada de fé. E nos tornamos, creio eu, cristãos melhores.

As duas passagens principais que falam sobre o amor de Deus são as conhecidíssimas João 3.16 e 1 Coríntios 13. Tenho aplicado nos últimos tempos em minha vida o método de leitura da Bíblia de meditar por vezes uma semana um único trecho, estudar sobre ele em fontes diversas, deixar-me “engravidar” daquela passagem e das lições e virtudes ali contidas. Fiz isso em João 3.16, pois esse versículo é repetido tantas vezes nas igrejas que sua magnitude se banaliza e chega a passar despercebida por nós. Leia com atenção e vamos até além, ao normalmente ignorado versículo 17:  “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele“. Que extraordinário. Que sublime. Que humilhante.

Deus amou a mim e a você de tal forma que por isso abriu mão de sua glória celestial, de estar assentado no trono sendo louvado dia e noite pelos anjos, para vir à terra, sentir frio, calor, dor, desprezo, acusações, solidão, a coroa de espinhos, o açoite, a Cruz. E qual foi a única razão que o levou a isso? Dar a seres pecadores, desprezíveis, falhos, desobedientes, egoístas e rancorosos a vida eterna. Ou seja: Deus amou a mim e a você tanto que abriu mão de castigar-nos com o fogo que nunca se apaga, como seria justo, para exercer a misericórdia, sacrificar-se e, assim, conceder-nos vida eterna: o direito de passar os bilhões de anos que virão pela frente junto a Ele. Em outras palavras, o amor de Deus fez tudo isso para que nós pudéssemos estar juntos por toda a eternidade, glorificando seu santo nome.

O Filho, ao encarnar-se, sabia que viria por quem não o merecia. Eu não mereço o amor do Senhor. Pois pequei e destituído estou da glória de Deus. Não, não mereço. Mas mesmo assim Ele olhou para este saco de ossos, pele, defeitos, doenças, podridão que eu sou e… me amou. Quem entende? Só entende quem compreende a graça. Esqueça as frases feitas que você responde de bate-pronto: “O que é graça?”. “Favor imerecido”. Ok, sabemos disso. Mas vamos tentar parar e refletir mais profundamente sobre esse conceito.

Graça é Jesus, o Santíssimo, o Puríssimo, o Cordeiro sem mancha… fazendo-se como alguém nada santo, nada puro, cheio de manchas, justamente para trazê-lo para si e dizer: “Apesar de tudo isso, se te arrependeres, ainda assim terás o meu perdão, esquecerei teus erros, desafiarei como teu advogado junto ao Pai que atirem a primeira pedra e estaremos juntos no Paraíso”. Chegam a vir lágrimas nos olhos só de pensar nisso. O conceito de graça desafia nossa inteligência, nosso senso de justiça, tudo o que é humano. Pois somos ególatras, vingativos, rancorosos, imperdoáveis. Somos impiedosos. Literalmente: sem piedade. Somos o contrário exato de Cristo. O pecado que carregamos dentro de nós nos desfigurou a esse ponto. É por isso que dependemos tanto da soberania do Senhor: porque somos tão opostos que sem Ele nada podemos fazer.

O versículo 16 por si só já é magnífico, por revelar o caráter do Cordeiro. Um caráter traduzido em domínio próprio. Mansidão. Fé. Bondade. Amabilidade. Paciência. Paz. Alegria. E… amor. E no versículo seguinte vem a coroação: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele“. Isso me emociona. A humanidade é uma desgraça. Eu e você somos atoleiros de pecados. Somos o vômito do cão. Somos dignos do inferno. Quem discorda disso não entendeu o que o pecado fez com o gênero humano, como nos tornou totalmente depravados e como somos o avesso de Cristo. Merecíamos, todos nós, o veredicto: CULPADO. Não adianta, meu irmão, minha irmã, eu e você nascemos com esse veredicto escrito em nossas testas. Nossa sentença deveria ser a mesma do diabo: o lago de fogo e enxofre. Mas aí… entra em cena o amor de Deus.

E esse amor diz que Cristo não veio para dar esse veredicto. Que Ele não veio julgar. Não veio nos condenar. Jesus não veio à terra com prego e martelo nas mãos para nos executar – como merecemos – e nos crucificar. Ele veio com as mãos e os pés expostos em oferta para que eu e você fossemos salvos por ele. Meu Deus, que amor incompreensível! Nós não sabemos nem dar a outra face, nascemos com gosto de sangue e de rancor na boca, enquanto Ele estendeu seu amor, como se dissesse: “Não mate o culpado, mate a mim, o inocente, eu me dou no lugar dele. Eu o perdoo. Eu não o condeno. E, com isso, eu o salvo. E que creiam nisso, para que este meu gesto permita o que eu mais quero: estar a eternidade ao lado dele – desse grande pecador arrependido pela minha graça”.

Não tenho como descrever, definir ou explicar o amor de Deus. Sinto-o apenas em ação, no perdão que ele me estende. O que eu fiz para merecer isso? Absolutamente nada. Nem mesmo crer nele é mérito meu, visto que o arrependimento dos meus pecados é fruto da atividade daquele que convence do pecado, da justiça e do juízo. Deus me estende a graça. Deus me dá a fé. Deus me convence do pecado. Deus intercede por mim como advogado. Deus me regenera. Deus me justifica. Deus me põe de pé. Tudo vem de Deus. Tudo. A mim resta agradecer, louvar e adorar por esse amor. Do qual tenho absoluta certeza que não sou digno.

1 Coríntios 13 apenas corrobora tudo isso. Ao contrário do que muitos pensam, o amor ali descrito não é o humano, é o ágape, o amor de Deus. Usar 1 Coríntios 13 numa carta para sua namorada, por exemplo, é um erro de interpretação bíblica. Venha lendo desde o capítulo 12 e no contexto verá que está sendo falado sobre os dons de Deus. E esse capítulo descreve o amor de Deus. Nenhum, absolutamente nenhum humano ama ou é capaz de amar daquela maneira. Só Deus. Só Deus.

Que o Cordeiro seja glorificado por esse amor, traduzido na graça que nos permitirá passar a eternidade ao lado dele… amando. Como será a vida eterna após a morte para os salvos? Não sei com certeza. A Bíblia dá algumas pistas. Mas de uma coisa tenho certeza: os eleitos de Deus viverão pelos séculos dos séculos experimentando o amor mais inexplicável que existe e já existiu em todo o universo. Um amor que hoje tem forma de Cruz, mas na eternidade terá forma de um homem com mãos e pés furados e os braços abertos para os arrependidos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Um fenômeno incompreensível no nosso meio é a alegria que muitos frequentadores de igreja demonstram quando um  cristão cai em pecado. E digo “frequentadores de igreja” não por acaso: um cristão de verdade jamais se alegra com o pecado de ninguém. A verdade é que, enquanto Jesus diz que “haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7), aqui na terra a turma se esbalda quando alguém peca. Evidentemente não estou falando só de pecados gravíssimos, terríveis, como: glutonaria, rancor, ira, maledicência, discórdia, ciúmes, egoísmo, inveja e outros dessa estirpe (ou você achava que esses pecados não eram sérios? Leia Gálatas 5.19-21). Refiro-me basicamente à tríade sexo, poder e dinheiro – os grandes pecados que elegemos para não perdoar, junto, é claro, com o álcool e o cigarro. Envolveu um desses pecados e a turma vai adorar falar por anos a fio sobre os envolvidos nessas histórias, que na cabeça do cristão brasileiro são piores que a blasfêmia contra o Espírito Santo.

Não, pecar não é correto. Não se justifica. É uma desobediência ao Rei dos Reis. É feio. É condenável. Cheira mal às narinas do Santíssimo. Mas permita-me abordar 4 aspectos da questão:

1. Absolutamente todo mundo peca. Eu e você, inclusive.

2. Todos pecados são hediondos, mesmo os que você pratica e acha que não são. O glutão é tão pecador como o assassino. O invejoso e o ciumento são tão pecadores como o estuprador. Se você acha que o seu pecado é menor do que o do bandido da boca de fumo, novamente sugiro que leia Gálatas 5.19-21 e me diga se estou errado.

3. Jesus encarnou como o Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo. Depois da Cruz, ele concede o perdão a todo pecador que se arrepende (a única exceção é a blasfêmia contra o Espírito Santo, mas nesse caso não haveria arrependimento). E, se Deus já perdoou, quem você pensa que é para continuar acusando o pecador arrependido?

4. Alegrar-se quando alguém peca é tão pecado como qualquer outro, pois vai contra o maior mandamento: amar o próximo como a si mesmo.

Apesar dessas verdades, o que vejo ao meu redor é que o frequentador de igreja em geral ama crucificar quem Deus já perdoou. Ama de paixão. Tem um prazer e uma alegria sádicos de ficar apontando o pecado alheio. É como se dissesse: “Hehehe, sou melhor do que você”. Pior: há os que amam ficar sabendo e tricotando sobre o pecado do outro. “Você não soube o que fulana fez? Vou te contar, mas é só pra você orar por ela”, diz o fofoqueiro. “Pode contar, só quero saber para interceder por beltrano”, diz o frequentador de igreja com aparência de piedade mas que por dentro está se escangalhando de se entreter com a desgraça do seu próximo.

Tudo pelo sádico prazer anticristão de ver o próximo se dar mal. Essa que é a pura verdade.

Pois o cristão de fato não se alegra com a queda do irmão: o ajuda a se reerguer, o preserva, chora com ele, proteje-o. Pois todo aquele que escorregou tem o grande potencial de se tornar um cristão melhor após ser reerguido pelo Espírito de Deus – basta ver o exemplo de Davi no caso de Bateseba. E o cristão de verdade sabe disso e luta para que o irmão que pecou torne-se um homem segundo o coração de Deus. Não pisa na cabeça dele nem o acusa. Isso já tem alguém chamado Satanás para fazer, nenhum ser humano precisa tomar do diabo aquilo que ele já fará naturalmente. Quem o faz torna-se cúmplice dele.

Como disse um sacerdote veterano certa vez, quando alguém lhe perguntou se deveria perdoar alguém que praticou grande mal: “Bem… temos duas opções: ou nós não o perdoamos ou fazemos o que a Bíblia manda”. Sim, a resposta do problema era matemática: 70 vezes 7. E a equação estava resolvida. Esse relato me lembra uma frase de Jesus quando uma certa mulher adúltera foi levada até ele, pois queriam apedrejá-la. Você conhece a história. Disse o Cordeiro de Deus: “Visto que continuavam a interrogá-lo, Jesus se levantou e lhes disse: ‘Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela’.” (João 8.7).

Meu irmão, minha irmã, perceba: você peca todo santo dia – por pensamentos, palavras, atos e omissões. Você e eu não somos menos pecadores do que o pior dos assassinos. Mas aí vem logo alguém com aquele argumento óbvio: “Ah, eu peco, só que eu não vivo pecando”. E eu perguntaria: “Não vive pecando? Ok. Então me diga um único dia da sua vida em que você não pecou”. Pois é. Você e eu pecamos TODOS os dias das nossas vidas, tirando talvez algum dia em que estivemos em coma. Fora esse, você pecou TODOS os dias.

Então, caro amigo vaidoso, glutão, fofoqueiro, invejoso, iracundo, maledicente, preguiçoso, cobiçoso, egocêntrico, que não põe Deus acima de todas as coisas, que deseja o mal ao próximo, que não prefere os outros em honra, que devolve mal com o mal, que não perdoa as dívidas e ofensas, que é rude com os outros, que desdenha os mais pobres, que inveja os mais ricos, materialista, que tem inimizades e ciúmes, que tem iras e discórdias, que promove dissensões e facções… meu querido, lamento informar, mas você e eu vivemos  SIM pecando. Di-a-ri-a-men-te. E Paulo diz em Gálatas 5 que “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam”. Então, caro, estamos mal na fita – e carecemos da graça de Deus tanto quanto quem você acha o pior dos pecadores.

É a isso que Jesus se referia quando disse para olharmos a trave em nosso olho antes de olhar o argueiro no olho do outro, caro frequentador de igreja. Diante disso, se me permite, sugiro que a partir de hoje você olhe menos para o pecado do seu próximo – em especial se por acaso você sente aquela satisfação sádica de ver o pecador se arrebentar – e passe a dirigir mais sua atenção para os seus próprios pecados e, principalmente, para a Cruz de Cristo. Pois, pode acreditar: você vai precisar muito dela no Dia do Juízo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo – e que, como eu, sabem que são miseráveis pecadores.

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