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Ted1Para que o Verbo se fez carne? A Bíblia diz, entre outras coisas, que o Cristo veio para perdoar pecadores, resgatar almas, curar os doentes, dar esperança ao desesperançado, conceder paz ao aflito, compartilhar sua graça, buscar a ovelha desgarrada, cuidar dos desesperados, zelar por Sua noiva. Só que, infelizmente, em grande parte nós, seus embaixadores na terra, parece que nos esquecemos disso. Estou escrevendo este texto ainda sob o impacto de um documentário a que assisti, chamado “O Julgamento de Ted Haggard” – que, admito, emocionou-me profundamente. Pela inequívoca constatação de que uma grande parcela da Igreja evangélica está pecando gravemente na missão que Jesus nos confiou: a de cuidar, tratar e restaurar pecadores. Não afundá-los ainda mais na lama, mas conduzi-los ao Pai em reconciliação. Felizmente, a Igreja como um todo não é assim, é misericordiosa e amorosa. Mas, ao ver esse filme, o que se descortinou ante meus olhos foi uma parcela feia da igreja: uma igreja impiedosa, egoísta e deficiente em seus propósitos. Uma igreja descartável e sem nenhuma semelhança com o Reino de Deus. Em outras palavras: uma igreja que não serve para nada.

Confesso que o nome Ted Haggard me era familiar, mas eu não sabia nada da história desse pastor. Em resumo, ele era um famoso pregador nos Estados Unidos, do tipo que dá entrevistas na televisão, é recebido na Casa Branca e enche estádios com suas cruzadas. Fundou a New Life Church, em Colorado Springs, no estado do Colorado, uma congregação com mais de 14 mil membros. Até o dia em que veio a público a notícia explosiva: Pr. Haggard, um homem casado e pai de dois filhos adolescentes, teve um encontro  homossexual com um garoto de programa, que, para piorar, lhe vendeu drogas.

O que me deixou de queixo caído foi o que fizeram com ele. O homem foi excomungado (expulso) da igreja que fundou e os demais líderes da igreja simplesmente o proibiram de continuar vivendo no estado do Colorado. Isso mesmo: a igreja o baniu não só da congregação, mas do estado! Não ficou claro para mim como o fez, mas fez.

Isso me chocou porque sempre achei que, horizontalmente, uma igreja serve para tratar pecadores. Para acompanhá-los, acolhê-los, exortá-los, ministrar o Evangelho a eles e, como decorrência do seu amor cristão, pôr o caído novamente de pé – e, assim, conduzi-lo a Cristo. É o que as três parábolas de Lucas 15, por exemplo, me ensinam. A atitude correta e bíblica que a liderança da igreja deveria ter tido com Pr. Haggard? O afastado do cargo, tratado de sua alma como se faz com qualquer ovelha ferida, acompanhado e amparado sua família, mantido o suporte para não piorar sua situação e, quando ele estivesse restaurado e totalmente recuperado de seu pecado, o reinstituído na obra do Senhor. Mas o que a liderança da New Life Church fez com Haggard me lembrou muito mais a ditadura bolchevique de Stálin, que exilava seus desafetos na Sibéria para definhar e morrer por lá sem criar problemas.

Ted2Entenda que em momento nenhum estou defendendo o pecado desse homem. O que ele fez contraria a santidade de Deus, é grave, vai contra os ensinamentos de Jesus e cheira mal às narinas do Senhor. Meu objetivo com essa reflexão não é em momento algum justificar o pecado. Foi errado e ponto. Não há discussão sobre isso. O circo da mídia já explorou à exaustão o erro de Haggard, até mesmo com piadinhas sujas e sádicas – que foram vistas na TV pela família do pastor, inclusive – não preciso fazer mais isso aqui. Minha reflexão é sobre como a New Life Church agiu – como muitas igrejas agem, assim como eu e você – quando descobriu que esse cristão incorreu em um pecado.

A propósito, quantos pecados eu e você cometemos mesmo desde nossa conversão? Atiremos, pois, a primeira pedra. Mas nessas horas ninguém se lembra disso…

Voltando ao caso Haggard, o documentário mostra como o pastor, sua magnífica mulher (que manteve-se ao seu lado, o apoiando, apesar de tudo) e seus filhos tiveram de sair do estado em que moravam com uma mão na frente e outra atrás, totalmente desamparados pela igreja, para viver em casas emprestadas e hotéis de beira de estrada. Não houve um mínimo de cuidado com sua vida, se não por amor e misericórdia cristãos, pelo menos por reconhecimento a seus muitos anos colaborando para o crescimento da congregação (que fundou, lembre-se). Anos e anos de dedicação de repente foram apagados do mapa devido a um pecado. E nenhum de seus ex-colegas de ministério lhe deu sequer um mísero telefonema para saber como ele estava. Simplesmente lhe viraram as costas.

Ted4Em certo momento, a diretora do filme pergunta: “Onde estão seus amigos?”. E Haggard, num sorriso amarelo, responde: “Foram embora”. A próxima pergunta: “Como é o exílio?”. E ele: “Estamos infelizes”. Depois é a vez de a esposa dele falar: “Não acredito em banir pessoas porque cometeram erros, simplesmente porque a Bíblia ensina justamente o contrário”. Elementar. Básico do básico. É o que nos ensinam na escolinha bíblica infantil. Mas nessa hora o Evangelho não teve peso algum na decisão dos líderes da New Life. Bíblia? Que Bíblia? Perdoar setenta vezes sete? Deixar as 99 ovelhas para buscar a desgarrada? Não devolver mal com mal? Ao próximo como a mim mesmo? Amor? Compaixão? Preocupação com o destino eterno daquela alma? Ficou tudo na teoria. Banam o pecador leproso, para que morra no deserto, será menos incômodo para nós.

Chamou minha atenção que em todo momento Haggard reconhece seu pecado. Ele não culpa ninguém. Não ataca quem o expulsou. Não atribui dolo a seus colegas de ministério ou aos “amigos” que sumiram. Sempre assume sua posição como aquele que cometeu o erro. Mas em um momento de profunda depressão ele deixa escapar como se deu sua saída da New Life Church: “Me disseram para ir pro inferno e decidiram me exilar”.

Ted5 Desamparado, para tentar dar um pouco de dignidade a sua família Haggard começou a buscar empregos seculares, até mesmo como motorista de ônibus. Após 6 meses de exílio, ele continuava desempregado. Decidiu, então, ingressar numa faculdade de Psicologia. Quando indagado pela entrevistadora sobre a razão de escolher esse caminho, ele diz: “A igreja não fez nada por mim após minha queda, mas os terapeutas fizeram. Por isso resolvi estudar psicologia”. O peso dessas palavras me arrebentou: “A igreja não fez nada por mim”. Jesus no céu deve estar orgulhoso dessa igreja, que larga a ovelha doente e ferida para morrer no degredo. Meu Deus… meu Deus…

Um ano depois de o pecador ter sido expulso, conseguiu seu primeiro emprego: começou a vender seguros de vida de porta em porta. E confessou: “Quando estou sozinho eu choro. Neste momento de minha vida sou um perdedor de primeira classe”. E aí comparo esse sentimento com o que deve ter sentido a mulher flagrada em adultério ao ouvir de Jesus: “Nem eu te condeno, vai e não peque mais”. Que diferença é quando Jesus trata o pecador e quando o homem trata o pecador…

O filme intercala cenas de pregações que ele fez na época de ouro de seu ministério com imagens atuais de sua vida após ter sido enxotado da igreja. Curiosamente, as cenas do documentário que mostram imagens de arquivo de sermões de Haggard são sempre voltadas ao perdão, à restauração de pecadores, nunca propõem execuções sumárias. O homem que pregava que o papel de cada cristão é pegar o caído e botá-lo de pé teve seu crânio esmagado quando chegou sua vez de cair. Que triste ironia. Ah, se os líderes da New Life estivessem lá quando ele pregou aquelas mensagens… bem, provavelmente estavam.

Ted6Só 18 meses depois de ter sido exilado do estado, a benigna e amorosa liderança da New Life Church (foto) permitiu que Haggard, sua mulher e os filhos voltassem a sua casa, no Colorado. O filme termina com a informação de que agora ele está se sustentando vendendo seguros de vida – um emprego digno, nada contra. Mas o que me deixou assombrado ao extremo foi a atitude dos líderes da New Life, tendo passado todo esse tempo, para restaurá-lo, ajudá-lo enquanto alma necessitada, carregar seu fardo, erguer o caído. Sabe qual?

Nada mais, nada menos do que proibi-lo de pisar na igreja. Vou repetir: ele foi proibido de pisar na igreja.

Richard Foster escreveu que “a maldição de nossos tempos” é a superficialidade. Com todo respeito e deferência que tenho por esse brilhante escritor e pensador, acredito que ele está errado. A grande maldição do século 21 é o descumprimento do Grande Mandamento. Muitos não amam de fato o próximo como a si mesmos. Todo o resto é consequência disso. A Igreja de Cristo é maravilhosa, essencial, benigna, amorosa e compassiva. Só que uma parcela gigantesca dela transborda de belos discursos mas não tem feito ao próximo o que gostaria que fizessem a si. Não trata o pecador da forma que gostaria de ser tratada. E as multidões de feridos, desiludidos, desigrejados e deprimidos como consequência desse desamor aumentam enormemente a cada dia. É por isso que só podemos depender mesmo da graça do Deus que se fez homem para nos reconciliar com o Pai. A maravilhosa graça da cruz, que pega pecadores como Ted Haggard, eu e você, nos purifica, nos restaura, veste-nos de branco e escreve nosso nome no livro da vida.

Em silêncio,
Maurício

Se você está pensando que vou falar aqui sobre PL 122 ou qualquer coisa do gênero desde já peço desculpas por desapontá-lo. Não é sobre esse tipo de mordaça que desejo falar. Não vou tratar da censura que setores externos ao Corpo de Cristo tentam impor a nós, como a história já tão debatida sobre poder ou não pregar que homoafetividade é pecado. Isso eu deixo para os políticos da bancada “evangélica” e para os telepastores em busca de ibope. Preocupa-me muito mais do que isso a mordaça que os próprios cristãos impõem a si próprios.

Naturalmente, os fatos que ocorrem em nosso dia a dia nos levam a refletir e dessas reflexões nascem artigos para nossos blogs.  Sou um observador do mundo e o que ocorre ao meu redor me leva a pensar. E, em seguida, a escrever. O que me levou a escrever este post foi o fato de que recentemente fui severamente criticado nos comentários do APENAS por um irmão em Cristo que – certamente movido pelas melhores intenções, tenho total certeza – me acusou, em resumo, de expor irresponsavelmente os males da Igreja no blog como um todo e em especial no post A pecaminosa intolerância dos evangélicos. Ele chegou a questionar meu cristianismo, ao dizer “Alguém que se diz: Membro da Igreja Cristã Nova Vida de Copacabana, RJ. e Formado em Teologia pelo IBRMEC e pelo IBADIG. Deveria ter mais sabedoria e ser mais CRISTÃO.“. Eu nem entrarei por esse mérito, por entender que a profundidade e a sinceridade de minha fé são um assunto que só compete a mim e a Deus e ninguém tem a capacidade ou mesmo o direito de medi-la. Então simplesmente passo por cima dessa parte infeliz do comentário.

Mas aí vêm as partes que merecem observações e que podem levar você, leitor, a reflexões saudáveis. Primeiro, faço questão de ressaltar que o meu crítico fez o que biblicamente é o correto: veio até mim e confrontou minhas opiniões, como Jesus determina em Mateus 18.15. Palmas sinceras para ele. Exortou-me o mano: “Pensa se você está atrapalhando a vontade de Deus“. Logo depois, esse querido irmão prosseguiu: “Pensa nos recém convertidos lendo seu blog, pensa nos ateus lendo seu blog, pensou?“. Hmmm. Aí começamos a entrar na área problemática. Pelos argumentos desse caríssimo irmão, um ateu ou um novo convertido que lessem meu blog poderiam ser levados a se afastar de Cristo ou coisa parecida. E isso merece sérias considerações.

Resolvi escrever sobre o tema porque a atitude desse querido irmão não é isolada. Muitos e muitos cristãos acreditam piamente que os erros da Igreja deveriam ser mantidos nas sombras e que muitas das verdades incômodas que envolvem nossa fé deveriam permanecer escondidas. Não sou um deles. Justamente porque amo Cristo e amo a Igreja e, em vez de perpetuar os absurdos, as heresias e os erros teológicos, prefiro denunciar e DIALOGAR sobre eles, numa tentativa de gerar reflexão e, quiçá, mudança de rumos. Sem ofender pessoas, sem citar nomes, mas debatendo práticas e ideias.

E olha que isso contraria minhas origens. Fui ensinado cedo na minha caminhada de fé que devemos ser omissos em certas verdades em nome de não afastar os ateus ou os novos convertidos do Evangelho. Logo que Jesus me converteu, o Pastor da minha então igreja me ensinou que “há verdades que não se dizem de púlpito”. Como, por exemplo, o fato de Marcos 16 não estar entre alguns dos mais respeitados manuscritos da Biblia, bem como a passagem da mulher adúltera (João 8). Que a história do anjo que agitava as águas do tanque de Betesda (João 5.4) não consta dos textos originais, mas foi uma explicação posta na margem da página para justificar  a crença que havia na época entre o povo de Jerusalém.

Outro exemplo: nunca se pode dizer em determinadas denominações (nas quais, em geral, se amaldiçoa o hábito de fazer versões cristãs de músicas “do mundo”) que o hino 185 da Harpa Cristã (“Vem tu, ó Rei dos reis, buscar os teus fieis…“) é uma versão gospel de uma música do mundo (“God save the queen“) ou que o tradicionalíssimo hino “Os guerreiros se preparam” é uma versão gospel do hino nacional (“mundano”) das Ilhas Fiji. Assim como muitas outras músicas da Harpa, do Cantor Cristão e de outros hinários considerados acima do bem e do mal. Sabe “Vencendo vem Jesus” (“Glória, glória, aleluia! Vencendo vem Jesus!“)? Era uma música cantada pelo exército americano na época da guerra civil. Mais especificamente uma canção chamada “John Brown’s Body” (“O Corpo de John Brown”), uma música que contava a história da morte de John Brown com alguns dos seus filhos, num violento esforço individual para acabar com a escravidão. Aí veio uma mulher chamada Julia Howe e pôs uma letra cristã sobre aquela música “do mundo”. Pronto, ganhamos essa pérola da musicografia cristã, cantada há décadas nas nossas igrejas. Mas que é uma versão de uma música “do mundo” (mas shhhhhh, isso não se pode comentar com um novo convertido, fala baixo. Vai que ele se desvia).

O que me ensinaram naquela época é que essas coisas não se comentam, pois podem afastar as pessoas da igreja.

E como fica?

Eu acredito na verdade. Acredito que conheceremos a Verdade e ela nos libertará. Verdade sempre dita, é claro, com educação, respeito e amor pelo próximo. Nunca, jamais, com agressividade. Pois é isso o que diferencia um diálogo de um bate-boca. Se eu quiser ver bate-bocas gospel eu ligo a TV nos programas supostamente “evangélicos” das manhãs de sábado ou em programas matutinos diários da web. Mas eu prefiro o diálogo.

Também entendo o seguinte: aqueles que verdadeiramente foram alcançados por Cristo, que de fato foram chamados das trevas do pecado para Sua maravilhosa luz, aqueles que farão parte do pequeno rebanho que habitará o Céu, esses não são abalados quando ouvem a verdade. Se alguém se afasta de Cristo porque descobriu verdades sobre a Biblia ou sobre a Harpa Cristã que preferia não saber, ou porque leu num blog tão pouco importante como o meu algumas realidades sujas que enlameiam a Igreja de Cristo… então essa pessoa nunca pertenceu ao Corpo de Cristo, nunca foi justificada nem regenerada. Apenas frequentava uma igreja. E se um ateu precisa ouvir mentiras, engodos ou meias-verdades para “se converter”… que permaneça na lama (Ap 22.11). Pois o Espirito Santo é o Espirito da Verdade e trará os seus sem que tenhamos de esconder as sujeiras nem varrê-las para baixo do tapete. Mentira você sabe de quem é filha.

Tempos atrás fui praticamente forçado a me desligar do seminário teológico em que dei aula por nove anos porque, entre outras coisas, comentei a verdade na sala de aula sobre uma certa unção financeira anunciada na TV: que era antibíblica, demoníaca e herética. A direção do seminário preferia que ficássemos em silêncio, deixando os lobos continuarem a dilapidar as ovelhas do Senhor. Eu não, eu preferia proteger o rebanho de Jesus. E olha que era um curso de bacharelado, não de novos convertidos! Mas o fato de eu ter dito a verdade criou tal celeuma que me vi forçado a sair. Só que isso gerou em mim uma consequência: de lá para cá assumi o compromisso com Deus de lutar sempre pela verdade, de falar e proclamar a verdade e deixar o Espirito Santo trabalhar essas verdades nos corações dos homens conforme melhor lhe aprouver. Pois “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (At 5.29b).

Não, não temos de esconder a verdade. Nós, cristãos, somos intolerantes sim. Há sujeira em muitas práticas da igreja sim. E esconder essa sujeira nos torna tão sujos como aqueles que a promovem, faz de nós cúmplices, comparsas. Se um ateu não se converter é porque não respondeu ao chamado de Cristo e não porque eu escrevi no meu desimportante blog certas verdades. Se o novo convertido se desviar é porque não soube andar na graça de Cristo. Meu blog? Irrelevante nesse processo.

E nós, que somos antigos na fé, lidemos com isso com graça, amor, paz e sempre – sempre – a verdade. Isso é ser cristão: ensinar a verdade em amor, discipular os novos, proclamar o ano aceitável do Senhor. Com uma instrução adequada, não será a verdade que afastará qualquer pessoa de Cristo. Na grande comissão de Mateus 28.19, o Mestre nos ordena: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações”. Fazer discípulos significa formar cristãos sólidos, construídos sobre a rocha, inabaláveis, que resistem a qualquer vento na certeza de estarem alicerçados da Verdade. Não precisamos esconder as verdades e as poluições da Igreja para formar cristãos assim. Precisamos pregar a Verdade, a tempo e fora de tempo. Aquele que são do Senhor a acolherão. Os que não são, a rejeitarão. Sempre foi assim e sempre continuará sendo, pelos séculos dos séculos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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