Arquivo da categoria ‘História da Igreja’

teologia1Tive uma conversa com um amigo que me incomodou profundamente. Já conto o que aconteceu, mas antes me permita dizer algo, por favor. Eu amo teologia. Poucas atividades me dão tanto prazer quanto sentar com amigos e discutir as coisas de Deus, falar sobre livros de bons autores cristãos, discorrer sobre aspectos variados da fé, remoer sobre filosofias, ideologias e sistemas de pensamento. Tanto que cursei com muito prazer dois seminários teológicos, dei aulas em uma instituição acadêmica cristã por nove anos e sinto enorme alegria em ler com constância obras teológicas. Penso que tentar viver uma vida de fé sem conhecimento teológico é como dirigir um carro sem ter estudado as leis do trânsito – um perigo. Portanto, quero deixar bem claro que considero o estudo da teologia enriquecedor, prazeroso e, por que não dizer, indispensável. Incentivo que todos estudem a boa teologia ortodoxa. Mas vou te confidenciar uma coisa: tenho andado um pouco cansado de certas discussões teológicas que não me parecem ter nenhuma aplicação prática na vida de fé das pessoas e aparentam ter como principal objetivo mostrar que as pessoas que se envolvem nos referidos debates sabem muito. Sem falar que muitos desses debates e exposições são feitos num tom tão arrogante de superioridade intelectual que não consigo enxergar neles, de jeito nenhum, um espírito cristão – pois Cristo não tem parte com quem usa de arrogância e/ou agressividade no falar, mesmo que seja para defender Jesus e a sã doutrina.

Jesus falou o tempo inteiro sobre teologia. O Sermão do Monte é um belíssimo tratado teológico. A leitura atenta das palavras de Cristo nos evangelhos mostra que ele abordou temas de diferentes áreas da teologia sistemática: eclesiologia, escatologia, cristologia, pneumatologia, soteriologia, hamartiologia… o Senhor foi, de fato, um grande Mestre, um pensador, um teólogo. Portanto, viva a teologia! Mas há uma particularidade que chama minha atenção: tudo o que ele disse tem uma função. Uma aplicação no dia a dia. E ele fugia constantemente do rebuscamento: Jesus simplificava sempre o seu discurso: explicava profundas realidades teológicas por meio de simples parábolas, usava aspectos do dia a dia do povo como metáfora de conceitos teológicos complexos, e agia de fato a partir do que falava.

teologia2Este, aliás, é um ponto nevrálgico das atitudes do grande teólogo Jesus de Nazaré: seus ensinamentos “em sala de aula” eram sempre seguidos de “aulas práticas”. Jesus punha a mão na massa: andava com as pessoas, sentia o cheiro do povo, comia com os pecadores, dialogava com mestres da lei e com prostitutas, botava cuspe nos olhos do cego… ele suava a camisa. Mais ainda: o Senhor vivia a teologia que ensinava e, com isso, demonstrava a todos ao seu redor que ela fazia sentido e existia por uma razão consequente. Não eram apenas belas palavras formuladas e debatidas por um cérebro privilegiado: eram vida.

É por ver esse exemplo magnífico de Jesus que me espanta a enorme frequência com que vejo irmãos entrarem em debates, discussões e assuntos que te levam a pensar: “Tá, mas… e daí?”. Muitas vezes são até temas bem saborosos, dos que fazem o cérebro trabalhar a mil por hora, mas que não têm nenhuma consequência para o mundo real. E, diante disso, confesso meu nefasto pecado: por vezes, chego a supor que o único interesse dessas pessoas é mostrar que sabem muito e, com isso, alimentar sua vaidade. É maldade minha, eu sei, não deveria pensar isso. Mas penso. Perdoe-me.

Já me perguntaram algumas vezes por que uso neste blog uma linguagem tão popular. Esta semana fui questionado por um amigo acadêmico, em uma conversa, acerca do que escrevi no último post que publiquei aqui no APENAS, O futebol e a religião. Como citei no texto alguns aspectos teológicos relacionados ao pensamento de Anselmo de Cantuária sobre fé e razão, esse amigo querido disse coisas como “Finalmente você falou sobre teologia em um texto seu”, “Já que você é formado em Teologia, por que você não entra em questões teológicas mais acadêmicas?” e “Você não deveria estar escrevendo coisas mais profundas?”. Bem… eu explico: é porque não consigo enxergar nada que seja mais profundo do que refletir sobre verdades bíblicas fundamentais numa linguagem e num formato que sejam compreendidos por todos e que conduzam à transformação de vidas e a uma aproximação de Cristo na prática diária. Não me contento com nada menos do que isso.

PlatãoNo meu pequeno círculo de amigos amantes de teologia deixamos a mente voar solta e as conversas trafegam em outros trilhos, vamos de Karl Barth aos irmãos Boff, passando por Platão e Schaeffer; debatemos de Tertuliano a McGrath, trafegando por Tozer e Dallas Willard. Mas em situações e ambientes públicos como a internet, em palestras, pregações, programas de rádio, livros voltados para o grande público e similares eu não consigo me ver me posicionando de forma que as pessoas não me compreendam. Todas. Minha vaidade teológica nessas horas precisa permanecer muito bem trancafiada e amordaçada, porque ela impediria que eu fosse um proclamador do evangelho e me restringiria ao triste e deplorável papel de um intelectual que quer mostrar que sabe muito e usa palavras difíceis.

Na conversa que tive esta semana, ouvi que eu deveria “entregar os pontos”, porque “é impossível discutir teologia de forma acessível a todos”. Bem, eu discordo. Claro que é possível. Não é exatamente o que fazemos aqui no APENAS? E, se você leu o livro A Verdadeira Vitória do Cristão, viu que procurei fazer uma abordagem de conteúdo extremamente teológico e histórico, mas com uma linguagem conscientemente escolhida para ser a mais coloquial possível – pois desejo que qualquer pessoa entenda o que quero dizer e, assim, que meus escritos tenham consequência real em sua vida. Não me interessa ser aplaudido por poucos intelectuais, entrar em um pequeno círculo de notáveis, participar de eventos e debates teológicos se nada disso gerar frutos concretos para o reino de Deus. Se os resultados forem concretos, podem me chamar e debateremos com alegria. Mas se for apenas para ficar discutindo o sexo dos anjos, prefiro usar esse tempo para chorar abraçado a um homem que perdeu um filho num acidente de moto ou para falar do amor de Cristo a uma mulher que pensa em cometer suicídio.

O que me parece é que muitos excelentes pensadores perdem grandes oportunidades de se fazer entender porque se recusam a abandonar o academicismo de seu discurso. São teólogos falando para teólogos e não para pessoas comuns. Fico pensando em como seria se Jesus tivesse optado por falar numa linguagem tão elitizada que só os mestres da lei o compreenderiam. Você acha que ele não era capaz disso? Claro que era. Mas Jesus sabia que seria ineficaz, e ele não estava ali para mostrar apenas o que sabia, estava ali para mostrar, acima de tudo, quem era e o que fazia – salvar, perdoar, amar, curar, restaurar e por aí vai.

william_holman_hunt-the_shadow_of_deathEm círculos restritos, como na sala de aula, em uma conferência teológica ou em um evento de uma universidade, é compreensível que se adote o “teologuês”. Faz sentido e é natural que nesses ambientes seja assim, não tenho absolutamente nada contra. Faz parte do contexto. Mas, em foro público, em ambientes abertos a quantidades maiores de pessoas… para quê? Que voltemos à simplicidade do evangelho. Às palavras compreensíveis. Amo a teologia, ela é indispensável. Mas se vier a tornar-se um fim em si mesma, passa a ser dispensável. Embora eu ame teologia, sei que jamais devemos amá-la mais do que amamos Cristo – pois, se assim fizermos, nos tornamos idólatras teológicos. E quem ama Cristo usa a teologia meramente como uma ferramenta a serviço do reino de Deus, o que pressupõe proclamar o reino de modo que o próximo compreenda. Palavras bonitas, ideias complexas e discursos rebuscados jamais levaram ninguém para perto de Deus: a simplicidade da cruz é que leva.

A proclamação do evangelho, para ocorrer como Jesus fez, deve vir montada num jumentinho. Mais ainda: deve ser feita na linguagem de um carpinteiro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Ganho1A época em que vivemos é a era do ganho. Nossa sociedade é capitalista, materialista, consumista e existencialista. Se você não entende algum desses conceitos, basta compreender o que está no centro de todas essas filosofias de vida: o eu. O meu. O que posso ganhar. O lucro pessoal. O benefício próprio. Os nossos tempos estimulam um individualismo exacerbado, que nos arrasta como um carro de Fórmula 1 pelas ruas pedregosas da vida. Acabamos destroçados pela necessidade de ganhar, ganhar, ganhar. Só seremos vistos como pessoas bem-sucedidas se ganharmos muito dinheiro, ganharmos o coração do menino mais cobiçado, ganharmos um cargo de destaque na igreja, ganharmos uma cobiçada vaga de emprego, ganharmos status, ganharmos títulos, ganharmos celebridade, ganhar, ganhar, ganhar! Somos levados pelo mundo ao nosso redor a crer que a vida é uma grande competição, em que ganhar diariamente (seja lá o que for) é a grande razão de estarmos sobre a terra. Mas não é isso o que a Bíblia nos ensina.

É fácil reparar como essa forma de ver a vida invadiu a igreja e tomou conta de nós, do mesmo modo que um câncer se espalha silenciosamente por nossos organismo. A maior prova disso é que nossa caminhada de fé tornou-se permeada pelo conceito de vitória. E só tem vitória quem triunfa, vence… ganha. “A vitória é tua!”, dizemos aos irmãos. “Deus, nos dê a vitória!”, oramos. “Faça tal campanha na igreja e Deus te dará a vitória!”, mentimos. Falamos mais a palavra “vitória” em nossas orações e nos cultos do que “Jesus”. Parece que, para muitos de nós, uma vida sem “vitória” é uma vida sem fé, sem bênção, sem a presença do Senhor. Em outras palavras, cremos que, se não ganhamos diariamente, nossa espiritualidade é mirrada, raquítica.

Para cumprir a vontade de Deus, Abraão perdeu a terra Natal e a parentela; Jó perdeu tudo o que tinha; Moisés perdeu a pacata vida de pastor; Jeremias perdeu a paz; Noé perdeu o respeito dos vizinhos; Paulo perdeu tudo aquilo em que cria; João perdeu a liberdade; Raabe perdeu sua cidade; Jesus perdeu a própria vida. A lista de personagens da Bíblia que perderam muito nesta vida é gigantesca. Mas, na gramática de Deus, perder por amor a ele é ganhar para a vida eterna.

Martir“Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hb 11.35-40). Essa parece uma lista de “vitoriosos”? Ou parece mais a descrição de gente que sofreu perdas enormes? Tenha a certeza de que foram perdas que resultaram num ganho muito superior – por ser um ganho eterno e não terreno. É impossível viver para Deus sem perder para si.

“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25), disse Jesus. Ele afirmou, ainda: “Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 10.39). E, nesta era em que somos instigados a ganhar o mundo inteiro, precisamos ouvir as palavras do Mestre a seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.25-26).

Se não temos de ganhar o mundo inteiro, o que, afinal, precisamos ganhar? Paulo responde: “O que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.7-8).

Cristo. Eis o que precisamos ganhar. Pois, como disse Paulo, “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). São o Rei, seu reino e sua justiça que devemos buscar antes de tudo mais, sabendo que, assim, tudo mais nos será acrescentado.

E como se ganha Cristo?

cruzPerdendo. Abrindo mão de si. Perco prazeres terrenos a fim de ganhar Cristo. Perco oportunidades, porém fraudulentas, a fim de ganhar Cristo. Perco o casamento com aquele partidão que não é cristão a fim de ganhar Cristo. Perco aquele negócio da China, mas que exigiria liberação de propina, a fim de ganhar Cristo. Perco a fama e deixo outros brilharem a fim de ganhar Cristo. Perco dinheiro justo que eu deveria receber, para não escandalizar a igreja, a fim de ganhar Cristo. Perco respeito de quem considera minha fé uma fábula e minhas crenças, fanatismo, a fim de ganhar Cristo. Perco a vingança e dou a outra face a fim de ganhar Cristo. Perco o emprego em que teria de me corromper, a fim de ganhar Cristo. Perco o que desejo a fim de ganhar Cristo. Perco minha felicidade a fim de ganhar Cristo. Perder, perder, perder.

Mas o que ganhamos por essa perda, acredite, vale a pena.

O que você está disposto a perder a fim de ganhar Cristo? É a resposta a essa pergunta que vai determinar quem vem em primeiro lugar na sua vida. Será você mesmo? Ou Jesus? Suas ações responderão. E Deus estará bem atento a elas.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Campo2Um dos conceitos mais falados na igreja mas menos compreendidos é o de avivamento. Há muitas ideias erradas sobre o que isso significa exatamente – como, por exemplo, o pensamento de que uma igreja avivada é aquela com muito barulho ou muito movimento. E não é nada disso. Para compreendermos exatamente o que avivamento significa, precisamos analisar muito bem o que esse fenômeno envolve. Não vou listar aqui histórias de avivamentos ou coisa parecida. Não desejo falar de “Pecadores nas mãos de um Deus irado”, de John Wesley ou de George Whitefield. Tampouco quero discorrer acerca dos grandes despertamentos da era moderna, muito menos do que ocorreu na rua Azuza ou em Pensacola. Se você quiser se aprofundar no tema, recomendo que leia o excelente livro “O Verdadeiro Avivamento”, de John Armstrong (editora Vida) – a meu ver, o melhor já publicado no Brasil sobre o assunto. O meu objetivo neste texto é apenas fazer uma síntese de como enxergo o fenômeno do avivamento cristão e as principais consequências disso para a sua vida.

A primeira pista está no próprio nome. A maioria de nós entende “avivamento” como “o ato de tornar vivo”. Ou seja, pegar algo morto e avivar, dar vida. Só que essa não é a única definição. O dicionário explica que “avivar” também é “dar vivacidade a algo”, “tornar mais vivo”, “renovar”.

Campo1Então, “avivamento” não se refere somente a dar vida a algo morto. Se isso fosse verdade, avivamentos espirituais viriam apenas sobre o mundo – que está morto em seus delitos e pecados – e não sobre a Igreja. Só que avivamentos acontecem justamente no Corpo de Cristo. Portanto, o conceito essencial de avivamento cristão é “dar vivacidade à Igreja”, “tornar a Igreja mais viva”. Assim, uma igreja que precisa de avivamento é aquela que está viva por estar enxertada na Videira mas que se encontra sem vivacidade – isto é, sem fulgor, energia, vigor.

A morte do mundo é não ter Deus. A “morte” no seio dos cristãos é viver como se não tivesse Deus.

Todo cristão crê que Deus existe. Mas daí a viver como se ele existisse… a distância é enorme. Eu posso crer que Jesus é meu Senhor e Salvador mas isso não ter consequência alguma na minha vida. Seja franco e olhe ao redor: você não vê isso acontecer aos montes? Assim, creio em Cristo mas vivo pecando sem me arrepender; amo ao Senhor sem compartilhar esse amor com os perdidos; valorizo a oração mas não tenho uma vida de oração; carrego a Biblia para cima e para baixo mas jamais estudo o texto sagrado; sei da importância do próximo mas não faço nada por ele… enfim, a perda de vivacidade do cristão ocorre não no que tange à perda da salvação, mas sim a um relacionamento tão mirrado com Deus e o próximo que o indivíduo torna-se espiritualmente esquelético. Pele e osso.

Campo3A imagem que vem à minha mente quando penso no cristão que precisa de um avivamento é a dos sobreviventes dos campos de concentração nazistas na 2a Guerra Mundial. Olhe para as fotos daqueles homens e mulheres raquíticos e me responda, sinceramente: parecem pessoas plenamente vivas ou sem nenhuma vivacidade… mortas em vida? Quase zumbis?

Aqueles homens e mulheres estavam vivos, o ar entrava em seus pulmões e o sangue circulava por suas artérias, mas… encontravam-se sem vida. Apáticos. Acordavam de manhã sem propósitos. Sobreviviam, sem viço e sem vigor. Compreende o que quero dizer? Do que aqueles sobreviventes do holocausto precisavam assim que foram resgatados dos campos de concentração? De vida. Ser avivados.

Ou seja: avivamento.

Aqueles esqueletos ambulantes saíram do cativeiro famintos e sedentos, desesperados por comer e beber e, assim, nutrir seu corpo. De igual modo, cristãos espiritualmente esqueléticos que são tocados pelo Espírito Santo tornam-se famintos e sedentos de Deus, desesperados por ter mais e mais do Senhor.

Campo4Cristãos sem fulgor, energia e vigor são como pessoas anoréxicas: estão extremamente desnutridas mas não se dão conta disso. É quando chega o avivamento: Deus os toca sobrenaturalmente e desperta neles uma fome incontrolável, que antes não sentiam – e fome de Deus: avivamento leva cristãos a buscar desesperadamente nutrição espiritual. De forma prática, avivamento leva você ao joelho, numa busca ávida por relacionamento com o Senhor. Também faz com que mergulhe nas páginas das Escrituras, numa sede gigantesca por conhecer mais e mais do Criador. Desperta no seu coração um amor sem tamanho pelos perdidos, que conduz invariavelmente ao compartilhamento ousado de Cristo – evangelismo. Avivamento também acende em sua alma o fogo do amor ao próximo e o leva a atos de devoção, entrega e caridade.

Em outras palavras, o cristão avivado é o que deseja relacionar-se sempre e mais com Deus, e que transborda de amor pelo próximo.

Campo5Infelizmente, muitos de nós acreditam que avivamento é quando a congregação começa a fazer muito barulho, berrar em línguas estranhas, ficar gritando “glória a Deus” e coisas do gênero. Não é nada disso – e falo como pentecostal. Tente visualizar aqueles esqueléticos sobreviventes dos campos de concentração, sedentos e famintos por algo que lhes dê vida e, de repente, começam a rodopiar, saltar, pular e gritar. Isso os faria ter mais vida como? Acreditar que devolver a vivacidade a alguém é fazer com que ele fique gritando e pulando é não compreender o significado de “vida”. Precisamos compreender que o avivamento cristão é o surgimento sobrenatural de uma necessidade desesperada e incontrolável por se relacionar com Deus e se aproximar dele numa intimidade inédita até então. E o Senhor não é surdo: podemos fazer isso sem barulho. Pois relacionamento com barulho é relacionamento, mas barulho sem relacionamento é só barulho.

Eu disse no início do texto que “o conceito essencial de avivamento cristão é dar vivacidade à Igreja”. Ou seja, é uma manifestação interna, que brota no Corpo de Cristo. Mas há um detalhe: quando o avivamento ocorre, a vida passa a fluir com tanto vigor e força pelas veias dos cristãos avivados que torna-se impossível conter tanta presença divina dentro das paredes da igreja. Portanto, sempre que ocorre avivamento, a vida transborda para fora e acaba levando a muitas conversões. Sim, essa é outra marca de um avivamento cristão real: salvação em massa. Centenas, milhares de pessoas sendo alcançadas pela graça salvadora de Cristo. Se você ouve dizer que em certo lugar está havendo um avivamento mas não há conversões de pecadores, pode ter certeza de que não é avivamento. Olhe para as imagens dos sobreviventes dos campos de concentração. Você consegue imaginar esses seres humanos gerando novos seres humanos? Se eles mal têm disposição para manter a si mesmos em pé, quanto mais gerar novas vidas. Como uma mulher que é pele e 0sso conseguiria nutrir por nove meses um feto, se mal tem vida para si? E como amamentar um bebê, se não tem nutrientes? Mas, uma vez que essas pessoas forem nutridas, alimentadas, saciadas, aí sim terão energia e forças para gerar novas vidas. De igual modo, a igreja avivada gera muitos filhos. E, desse modo, cresce.

Haveria muito mais a dizer sobre avivamento. Mas esta é a essência: avivamento cristão é a busca desesperada por relacionamento com Jesus de Nazaré. É a injeção caudalosa de Deus nas veias de almas apáticas, improdutivas e espiritualmente esqueléticas. É a seiva da Videira fluindo com tal força que transborda e espirra para todos os lados, fazendo mais e mais galhos se ligarem ao seu tronco.

PaoHistoricamente, avivamentos ocorrem por iniciativa única e exclusiva do Senhor. É uma ação unilateral. Eu não posso “produzir” um avivamento. Mas, quando olhamos para os grandes avivamentos da história, vemos um aspecto em comum às igrejas, denominações, cidades e nações onde brotaram avivamentos: sempre havia nesses lugares um pequeno núcleo de cristãos que oravam incansavelmente, clamando a Deus que mandasse um avivamento. É só o que podemos fazer: pedir e esperar, exatamente como os sobreviventes dos campos de concentração: eles não tinham como produzir alimento ou vida a partir do nada. Mas podiam pedir. No dia em que o exército aliado libertou os sobreviventes do holocausto, a primeira coisa que aquelas pessoas lhes pediram foi comida e bebida. E receberam.

Você quer experimentar um avivamento? Ore. Peça. Clame. E, se aprouver a Deus promover um verdadeiro avivamento, prepare-se para sentir a maior fome e sede de Jesus que já sentiu em toda a sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

vc1Posso chamar Deus de “você”? Sei que essa parece ser uma pergunta boba  e sem muita importância para nossa vida espiritual, mas tanta gente começou a chegar a mim com essa dúvida nos últimos tempos que resolvi dar uma certa atenção a ela. Confesso que eu mesmo nunca tinha gasto muito tempo pensando sobre isso e fiquei curioso: será que chamar o Senhor de “você” é desrespeitoso? Será que apenas o “tu” configura honra ao Altíssimo? Para chegar a um veredicto, precisei fazer uma pesquisa sobre as origens dos termos e sobre o que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto. É o que apresento neste texto e você poderá tirar suas próprias conclusões.

É importante frisar que só decidi investir um certo tempo nessa investigação porque percebi que, de fato, o problema tem implicações práticas. O que ocorre, em geral, é que, se uma pessoa que considera desrespeitoso chamar Deus de “você” ouve um pregador se dirigir ao Todo-poderoso por essa forma de tratamento, um detalhe como esse pode prejudicar a receptividade à mensagem pregada. A preleção pode ter sido totalmente bíblica, mas o fato de o pregador ter se dirigido a Cristo como “você” fez o irmão (ou a irmã) sair do culto chateado. O mesmo ocorre no caso de um louvor, pois, se você não concorda que é digno dirigir-se a Jesus como “você”, ao ouvir um hino em que ocorra essa forma de tratamento vai se desligar do céu e fechar a cara. Acredite: não são poucas as pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis ao ouvir alguém chamar Deus de “você”, pois consideram que o “tu” sim é um tratamento digno para um rei, uma forma mais respeitosa e reverente de se dirigir à divindade.

Quero deixar bem claro que respeito totalmente quem desqualifica o “você” no tratamento de Deus. Mas permita-me apresentar minhas conclusões.

Para começar, fui investigar por que razão o uso do “tu” está tão associado na nossa mente com a forma correta de tratar Deus. E descobri que o motivo não tem absolutamente nada de bíblico. É uma razão meramente cultural. Acompanhe o raciocínio:

vc2Tudo começa em Portugal. Lá, as pessoas se tratam, essencialmente, por “tu” – há muitos séculos. No dia a dia, é extremamente raro você ver um português se dirigir a outro por “você”. Simplesmente não faz parte da cultura lusitana, ao contrário do que ocorre no Brasil. Hoje, se você viajar a Portugal, verá que as pessoas na rua sempre vão se dirigir a você como “tu”, o que poderá ser um tratamento extremamente informal. Com isso em mente, lembre-se de quem foi o primeiro tradutor da Bíblia para a nossa língua: João Ferreira de Almeida (1628-1691). Ocorre que ele era não um brasileiro, mas, sim, um português. É de se considerar que ele escolhesse na tradução das Escrituras o termo mais utilizado no país em que nasceu e cresceu.

Portanto, Almeida não usou o “tu” por qualquer razão bíblica, mas simplesmente porque fazia parte do seu jeito de falar, da cultura em que estava inserido, do jeito que era usual na sociedade onde vivia.

Com o passar do tempo, as traduções Almeida Revista e Corrigida (ARC) e Almeida Revista e Atualizada (ARA) – as mais adotadas no Brasil até a chegada da Nova Versão Internacional (NVI) e que até hoje são extremamente utilizadas nas igrejas – mantiveram o “tu”, uma herança das origens portuguesas da tradução da Bíblia para nosso idioma e do jeito de falar do tradutor português de 400 anos atrás.

Logo, em sua raiz, o “tu” não representa necessariamente nenhuma formalidade, tampouco respeito. Era simplesmente o jeito de falar do português comum da época de Almeida.

vc3Entendido isso, vamos analisar quais são as origens do termo “você”. Para nós, brasileiros do século 21, essa é uma forma de tratamento que transmite uma certa informalidade. Isso, junto ao fato de que nas traduções da Bíblia para o português Jesus sempre foi tratado por “tu” (pela razão que expliquei acima), acabou criando muita antipatia ao uso do “você” para se dirigir a Deus. Como estamos viciados em ler na Bíblia o Pai e o Filho serem tratados por “tu”, parece uma coisa estranha, fora de lugar, nos dirigirmos à divindade por “você”. Afinal, nunca vimos isso em Bíblia nenhuma (em português, ressalve-se). Mas precisamos entender o que significa, de fato, “você”, pois ela não é uma palavra que brotou do nada.

“Você” é um encurtamento de “vossa mercê”, um modo extremamente formal de tratamento, usado desde os tempos remotos em Portugal. “Mercê” significa “graça”, “misericórdia”. Com o tempo, as pessoas passaram a encurtar esse respeitoso modo de tratar, que se transformou em “vossemecê”, depois “vosmecê”, virou “vancê” e, por fim, “você”. Portanto, “você” significa “vossa graça”. E que significado mais lindo haveria numa forma de tratamento a Deus do que em algo que ressalta sua graça, sua misericórdia; aquilo que fez Jesus subir à cruz por cada um de nós? Graça, a maravilhosa graça!

vc4E veja que interessante: em sua origem, o “vossa mercê” (“você”) era utilizado somente para se dirigir a gente a quem se devia tratar com muito respeito, enquanto o “tu” era usado em ocasiões informais. Atente para esta explicação: “mercê era o elevado tratamento dado na terceira pessoa aos reis de Portugal [...] No século 15, quando os soberanos portugueses adotaram o chamamento de alteza (vossa alteza, e sua alteza) foi o título de mercê começado a ser dado às principais figuras do Reino, nas principais casas fora da Família Real, generalizando-se a dado passo como forma de tratamento adotada pelos fidalgos entre si. Este processo é lento e gradual, mantendo-se alternativamente o tratamento antigo por vós em certos setores mais elevados da sociedade portuguesa, paralelamente ao de vossa mercê. O tu já então era reservado apenas às classes burguesas, e populares, utilizado na nobreza apenas quando existisse grande grau de intimidade, geralmente intimidade familiar, e de superiores para inferiores (pais para filhos, avós para netos, fidalgos para criados e populares). Os inferiores em dignidade (sobrinhos para tios, criados para patrões etc.) respondiam ao tu com que eram tratados na terceira pessoa, ou por vós, ou pelo tratamento correspondente à dignidade reconhecida à pessoa mais importante durante o diálogo”.

O resumo da ópera é que, em sua origem e por definição, o “você” era o tratamento dado a reis, nobres, fidalgos e gente merecedora do mais alto respeito e formalidade. Já o “tu” era um termo que fazia parte da linguagem do povão, usado com gente “inferior em dignidade”. Justamente o contrário do que os opositores a chamar Deus de “tu” compreendem ser o correto e digno, não é curioso? E isso ocorre porque, no Brasil, o “vossa mercê” começou a perder o status de linguagem usada para se referir às pessoas mais importantes quando, no século 16, os reis e nobres europeus passaram a solicitar ser chamados de “vossa excelência”, o que permanece até hoje entre nossas autoridades (você já deve ter visto na televisão deputados, por exemplo, se dirigirem a outros deputados utilizando esse tratamento). Com isso, o “vossa mercê” (ou “você”) passou a ter um uso mais amplo.

Constatamos, então, que o problema todo é uma mera questão de tradução. Almeida escolheu usar o “tu” porque essa era a palavra que fazia parte de seu dia a dia e sem nenhuma relação com reverência ou respeito.

Tendo visto isso, agora precisamos buscar respostas na exegese bíblica, isto é, na análise dos originais das Escrituras. Será que os textos originais fariam algum tipo de diferenciação nesse sentido? Vejamos:

vc5Um exemplo seria a ocasião em que Pedro responde a Jesus quando o Mestre lhe pergunta três vezes se ele o ama (Jo 21.15-18). A resposta de Pedro é: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. O vocábulo original das Escrituras traduzido aqui por “tu” é su, que, no grego, refere-se à segunda pessoa do singular. Mas veja que revelador: Jesus, ao conversar com Pedro, usa exatamente a mesma palavra, su, para se dirigir a ele, como em “Respondeu Jesus: ‘Se eu quiser que ele permaneça vivo até que eu volte, o que lhe importa? Siga-me você‘” (Jo 21.22-23). Embora a tradução da NVI use “tu” quando Pedro se dirige a Jesus e “você” quando Jesus se refere a Pedro, nas línguas originais não há nenhuma diferença na forma de tratamento: é exatamente a mesma palavra, sem distinção.

Vamos pegar outros exemplos:

Na ocasião do batismo de Jesus, ele chega até João Batista, que lhe diz: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3.14). A palavra original que foi traduzida aqui por “tu” é, novamente, su. Quando Jesus está diante de Pilatos, o governador romano lhe pergunta: “Então, você é rei!” (Jo 18.37). Adivinha que termo no original em grego foi traduzido por “você”? Exato: o mesmo su. E sabe o que Jesus responde? Tu dizes que sou rei” (Jo 18.37). A palavra original? Su de novo.

O que percebemos, então, é que o tempo todo Jesus era tratado por su e tratava os outros por su (evidentemente estou me referindo ao grego em que foi escrito o Novo Testamento e não ao aramaico que Jesus e seus discípulos usavam para conversar entre si ou ao latim que Pilatos falava).

Você poderia argumentar que Jesus estava sendo tratado assim porque ele não era visto como divino pelas pessoas, naquele momento e, por isso, não seria considerado digno de um tratamento mais elevado. Bem, esse argumento desmorona quando vemos a forma como o próprio Cristo se dirige ao Pai. Quando o Mestre está no Getsêmani, antes de sua prisão, ele ora e diz ao Todo-poderoso: “Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mc 14.36). Basta olharmos nos originais e veremos que a forma de tratamento permanece a mesma: su.  E o Pai é tratado dessa forma ainda em outras passagens, como João 17.21, e não só por Jesus. Vemos, por exemplo, em Atos 4.24, Pedro e João conduzirem uma oração ao Pai, em que dizem “Ó Soberano, tu fizeste os céus, a terra, o mar e tudo o que neles há!”. Por que pronome eles o tratam? Su.

A que conclusão podemos chegar? Constatamos que, na língua original em que foi escrito o Novo Testamento, o mesmo pronome de tratamento era utilizado quando Jesus se dirigia a um ser humano, quando um ser humano se dirigia a Jesus, quando Jesus se dirigia ao Pai ou quando um ser humano se dirigia ao Pai. Não havia distinção em nenhuma situação.

Logo, será que há algum mal em eu usar o mesmo pronome para me dirigir a um ser humano, ao Pai, ao Filho ou ao Espírito Santo? Bem… se na língua original do Novo Testamento não havia, por que haveria hoje?

Meu irmão, minha irmã, não chamamos Deus de “tu” por nenhuma razão bíblica, mas por pura herança cultural do vocábulo escolhido pelo português João Ferreira de Almeida quando ele passou o texto bíblico para o português 400 anos atrás. Se ele tivesse escolhido “você”, isso não representaria nenhum desrespeito. Muito pelo contrário, teria adotado o mesmo tratamento que era usado para se dirigir a reis, fidalgos e autoridades.

vc6Por tudo isso, fica aqui minha carinhosa recomendação: se você não se sente bem dirigindo-se a Deus por “você”, não se dirija. “Tu” é igualmente válido pois, segundo as línguas originais da Bíblia, não há absolutamente nenhuma diferença. Mas, por favor, não condene quem chama o Senhor de “você”, porque tem a mesma validade na tradução e, além disso, historicamente é uma palavra que se usava para se dirigir aos mais elevados representantes da sociedade. Tem um belíssimo e digníssimo significado. Não criemos discórdias entre nós por causa disso.

“Você” significa “vossa mercê”, que, por sua vez, significa “vossa graça”. Que privilégio é poder chamar o Abba, o nosso paizinho celestial, de “você” e saber que,  ao nos dirigirmos a ele, estamos ressaltando, no que dizemos, essa característica tão magnífica e salvadora do amor divino: sua maravilhosa graça.

Por isso, eu oro: Deus, que tu, você, vossa mercê, vossa misericórdia, vossa graça… em tudo seja glorificado!

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Biblia1Você já parou para pensar por que Deus decidiu se revelar justamente por meio de um livro – a Bíblia? Haveria centenas de maneiras diferentes de ele se apresentar à humanidade e de expôr o plano de salvação, mas a estratégia adotada pelo Senhor foi justamente tinta sobre papel. Claro, ao longo dos 1.500 anos em que as Escrituras foram escritas, não havia o formato de livro que conhecemos hoje, com páginas coladas ou costuradas, capa e quarta capa. A coisa era mais rústica, os textos eram registrados em pergaminho ou em pele de animais curtida, em rolos enormes. A coisa evoluiu e o formato chegou ao que temos em nossos dias. Mas, independente da forma, o fato é que o conteúdo do que Deus tinha a transmitir à humanidade foi gravado para as gerações futuras com tinta sobre uma superfície. Contextualizando: livros. Teria sido à toa? Será que o Senhor não é criativo o suficiente para ter bolado montes de outras maneiras de se apresentar? Essa realidade nos desperta para a importância que têm os livros. E não, este não é um post literário, o assunto é altamente espiritual.

Recebi um comentário aqui no APENAS de um irmão, que, democraticamente, expôs sua visão – que respeito, mas da qual discordo com absoluta veemência. Escreveu ele: “NÃO LEIAM O QUE ” HERNANDES DIAS LOPES ” OU QUALQUER OUTRO ” SUPOSTO ” AUTOR CRISTÃO DIZEM ESTAR NA ESCRITURA , MAS LEIAM AS ” ESCRITURAS SEM NENHUM — A C R É S C I M O — OU SEJA : ” SEM COMENTÁRIOS , SEM ESTUDOS OU QUALQUER OUTRO ACRÉSCIMO QUE TE SUGIRAM QUE ISTO ACRESCENTAR LHE Á UM ACRÉSCIMO A SUA VIDA ESPIRITUAL ! ! ! ISTO É UMA GRANDE MENTIRA ! ! !” (sic). Confesso que pisquei bastante olhando isso, refleti por um longo tempo e fiquei realmente triste por ver que ainda há aqueles que têm esse tipo de visão. Por isso, decidi compartilhar alguns pensamentos sobre esse assunto tão vital.

Primeiro, vamos falar sobre literatura em si, para depois tratarmos da questão espiritual.

Biblia2Sem livros, a humanidade ainda caçaria com lanças e se vestiria de pele de animais. Não teríamos medicamentos, muito menos tecnologia, a educação seria extremamente limitada e viveríamos em cavernas ou, se muito, em tendas. Por uma simples razão: a escrita é o meio que permite transmitir conhecimento entre as gerações. Se hoje conseguimos mapear o genoma humano e o dos animais é porque as descobertas na área da genética ficaram registradas em livros desde que Mendel analisou suas ervilhas. A coisa funciona assim: eu dou um passo no conhecimento sobre algo, e registro em livros. Daqui a pouco eu morro e meu filho vai pegar aquele conhecimento e levá-lo um pouco mais além. Em seguida, ele morre e meu neto usa o conhecimento registrado e o leva a um novo patamar. É assim que a humanidade evoluiu: conhecimento transmitido em livros para futuras gerações, que pegaram aquelas informações, leram e as levaram a novos níveis. Como bem analisou Alberto Moravia, “Um livro não é um livro, mas sim um homem que fala através do livro”. Já Jorge Luis Borges disse, com muita sabedoria: “O livro é a grande memória dos séculos… se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem”.

Sem livros, não teríamos a medicina, viagens espaciais, arquitetura, engenharia, computadores, cinema, automóveis… nada! Pois a transmissão oral é limitada: as pessoas se esquecem do que ouviram, transmitem com erros naturais do telefone-sem-fio e a coisa não avança muito. É preciso registrar o conhecimento adquirido de forma precisa: livros são a solução. Histórias do passado, poesia, avanços da matemática, até mesmo as historinhas que você lê para seus filhos. Tudo chegou a nossos dias graças aos livros.

Monteiro Lobato escreveu: “Um país se faz com homens e livros”. Homem sábio.

Biblia3Além da óbvia preservação do conhecimento, a leitura proporciona um benefício adicional. Malba Tahan escreveu: “Quem não lê mal fala, mal ouve, mal vê”. O hábito de ler tem efeitos diretos sobre o nosso cérebro e, logo, sobre as estruturas e os modelos de pensamento. Ler sobre matemática desenvolve seu raciocínio lógico, treina sua mente na solução de problemas da vida cotidiana. A leitura de obras de poesia estimula nosso lado emocional e treina as habilidades mentais em uma série de áreas. Ler romances de ficção trabalha nosso poder imaginativo, criativo e lúdico. E por aí vai. Quando você assiste a um filme na TV, por exemplo, tudo já está ali, pronto, exige-se pouquíssimo do cérebro, é como se o puséssemos em pause. Não é necessário imaginar nada quando vemos um longa-metragem. Mas, quando você lê em um livro palavras que descrevem uma paisagem, uma pessoa, um cenário ou uma situação, seu cérebro trabalha profundamente para construir todo esse mundo inexistente em sua mente: literalmente, você cria um universo a partir do nada, constrói realidades inteiras a partir de palavras, tira seu pensamento do zero e o leva a 2.000 km/h no virar de uma página. A ciência já conhece os efeitos benéficos da leitura, tanto que pessoas em idade avançada são estimuladas a ler livros, escrever e até fazer palavras-cruzadas, como forma de manter pleno o seu vigor mental.

Em resumo: ler é essencial para a vida – do indivíduo e da sociedade. E, claro, da igreja.

É por isso que sou um crítico bem ranheta no que se refere ao abandono de ler livros para ficar ciscando textinhos inócuos e minúsculos em redes sociais. Esse hábito vai resultar em uma geração (ou mais de uma) mentalmente flácida, sem capacidade crítica, destituída de novas ideias, que não vai avançar seus sistemas de pensamento. Uma tragédia para a humanidade. E muitos não enxergam isso, infelizmente. Ironicamente, o próprio Bill Gates afirmou: “Meus filhos terão computadores, mas antes terão livros”. Claro, ele não é bobo.

Pois bem, tendo visto a importância da leitura para a perpetuação do conhecimento na humanidade e para o nosso desenvolvimento mental, lógico, criativo e dedutivo, abordemos agora a questão espiritual.

biblia0Sim, a revelação de Deus está completa na Bíblia. Nenhum outro livro acrescenta nenhuma nova revelação, crer nisso seria uma heresia. Só que tem uma coisa: ler a Bíblia sem que haja quem a explique gera milhões de erros de entendimento. Como você vai compreender para quem cada profeta escreveu, em que período, em que contexto, sem ter alguém que lhe ensine isso? E, creia, o grande comentarista bíblico John Gill não retornará do túmulo para lhe explicar. Mas se você ler os escritos que ele deixou vai compreender muito. Livros cristãos trazem insights valiosos e formas de abordagens que jamais teríamos tido sozinhos. A percepção de irmãos acerca das coisas de Deus, registradas no papel, são extremamente úteis para edificação, conserto, crescimento espiritual. A Editora Mundo Cristão, onde trabalho como editor, tem como filosofia que cada livro que publicamos tenha o propósito de transformar vidas à luz do evangelho. E basta ler um pouco sobre a história da humanidade para ver o quanto livros transformaram vidas, países, culturas e civilizações inteiras. E seguirão transformando.

Lendo “O livro dos mártires”, de John Foxxe, fui para sempre impactado acerca do tipo de espiritualidade que eu deveria viver mas não vivo. Lendo “O sorriso escondido de Deus”, de John Piper, percebi quanto o Senhor age em nós em meio às maiores dificuldades da vida. Lendo “Cristianismo puro e simples”, de C.S.Lewis, meus olhos foram abertos para a essência da vida cristã. Lendo “O cristianismo através dos séculos”, de Earle E. Cairns, acompanhei a evolução da Igreja desde a era apostólica até nossos dias. Cada livro que lemos é uma galáxia a mais que acrescentamos ao nosso universo.

Esta semana, uma irmã que conheci algum tempo atrás, quando ela estava em crise espiritual, me escreveu um e-mail que muito me emocionou. Ela relatou que hoje está viva na sua fé, crescendo cada vez mais, e que o estopim para essa transformação em sua espiritualidade foi a leitura do livro que escrevi, “A Verdadeira Vitória do Cristão”. Isso é nada menos do que vidas sendo tocadas por Deus por meio da literatura cristã. Desprezar esse potencial transformador seria uma insanidade.

Biblia01A Bíblia é um livro que se basta. Mas – entenda bem o que vou dizer, para não soar como heresia – que, muitas vezes, não traz em si explicações importantes para sua compreensão. Como entender a geografia bíblica sem ler bons livros sobre o assunto? O que aconteceu entre Malaquias a Mateus? Como assim, Israel era dominado por Roma (até Malaquias, Roma não tinha nenhuma expressividade)? A quem Jeremias está falando e sobre o quê? Por que Esdras e Neemias entram no cânon fora da ordem cronológica? Com que motivação João escreveu as suas três epístolas? Colossenses foi escrito a partir de um contexto local específico, como entendê-lo sem entender o que se passava em Colossos naquela época? Os hábitos e os costumes bíblicos serão compreendidos como, sem bons livros que os expliquem a nós? O que significa aquela confusão toda de taças e selos de Apocalipse? Xerxes e Assuero eram a mesma pessoa? Etc., etc., etc. São milhões de pontos de interrogação que ficariam no ar se não houvesse instrução, transmitida por pessoas que estudaram por anos e se especializaram em suas áreas de conhecimento bíblico. E que nos presenteiam com seu conhecimento por meio de… livros.

Tal qual o irmão que deixou o comentário reproduzido acima, já ouvi outras pessoas criticarem, por exemplo, Bíblias de estudo. Acreditam que não se deveriam publicar “Bíblias de estudo femininas”, por exemplo. Que bobagem… É extremamente produtivo ler o texto bíblico acompanhado de estudos que nos clarifiquem as ideias, que nos mostrem como podemos viver uma vida espiritual mais sadia e rica a partir do que lemos com focos específicos. Direcionar a leitura das Escrituras não é pecado, é rico, é esclarecedor. Já contei em outros posts que cerca de um ano e meio atrás reli os evangelhos com foco nas palavras de Jesus, para tentar compreender o cerne da mensagem de Cristo. E se eu tivesse escrito as minhas conclusões, as inserido no rodapé do texto bíblico e publicado uma Bíblia focada nas palavras do Senhor? Que mal haveria nisso, exceto se eu escrevesse heresias?

Devo muito a autores como Luiz Sayão, Alister McGrath, C.S.Lewis, John Piper, Darren Patrick, Dallas Willard, Augustus Nicodemus Lopes, Martin Lloyd-Jones, Charles Spurgeon, Tim Keller, David Wraight, John Wesley, Max Lucado, Jonathan Edwards, John Foxxe, John MacArthur, Mark Driscoll e tantos e tantos outros, que se dispuseram a investir tempo e esforço para pôr no papel conhecimento, ensinamentos, reflexões, exortações, consolações e outras virtudes importantes para a fé cristã. São homens que, a partir da Bíblia, criaram obras literárias extraordinárias, que ajudaram a forjar muito do pouco que há de bom em mim. A eles só tenho gratidão.

Meu irmão, minha irmã, não deixe que nada roube de você o tesouro que são os livros. Nada. Pois a literatura cristã é um tesouro que vai contribuir para que você se torne um servo de Deus melhor; mais versado na Palavra; mais sólido na fé; mais refratário aos falsos ensinamentos; mais capacitado para evangelizar; mais frutífero para a obra de Deus; e, em última mas não menos importante instância, mais íntimo de Deus.

“Além de ser sábio, o mestre também ensinou conhecimento ao povo. Ele escutou, examinou e colecionou muitos provérbios. Procurou também encontrar as palavras certas, e o que ele escreveu era reto e verdadeiro. As palavras dos sábios são como aguilhões, a coleção dos seus ditos como pregos bem fixados, provenientes do único Pastor” (Ec 12.9-11).

Leia. E leia muito! Leia o máximo de livros que puder. Leia sem parar, um atrás do outro. Invista seu dinheiro em livros, pois são um investimento em você mesmo e no reino de Deus. Você só tem a ganhar – e, com isso, a contribuir para a qualidade da Igreja de Nosso Senhor Jesus.

Acredito que a diferença entre ler livros e não ler livros é a mesma diferença entre a grandeza e a mediocridade. Pense grande. Aja grande. Leia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

20130622-000720.jpg
.
Assisti absolutamente estarrecido aos telejornais na sexta-feira passada. As imagens da barbárie que foi a violência em diferentes cidades do Brasil, com atos de vandalismo, depredações, ofensas, agressões, confrontos, roubos de lojas, ataques a bancos e o cerceamento do direito de ir e vir dos cidadãos de bem me deixaram paralisado e de olhos marejados. O país que eu amo está em uma guerra civil descontrolada. Quando manifestações pacíficas por causas sociais justas degringolam e viram um caos primitivo e sanguinário é sinal de que o país precisa urgentemente de socorro. Assisti ao pronunciamento de nossa presidenta, em cadeia nacional de rádio e TV, em que ela desfilou uma lista bastante colorida de ações que pretende tomar para resolver os problemas. Achei tudo ótimo. Afinal, quem não gostaria, por exemplo, de ver todos os royalties do petróleo destinados à educação? Sou filho de professores do estado aposentados, há décadas anseio por escolas públicas melhores. Em 1987 fui às ruas – em manifestações pacíficas – pedir por isso e pela meia passagem para estudantes. Eu fui um cara-pintada da era Collor. Só que, depois de ouvir as possíveis soluções de nossa presidenta com um pouquinho de alegria dentro de mim, meu lado reflexivo me lembrou de uma triste realidade: nada do que ela propõe vai resolver nada.

Parei para pensar, quando terminou o show dos telejornais, que o que está acontecendo pelo Brasil afora não é um “a que ponto chegamos”, mas sim um “e lá vamos nós de novo”. O que vi na TV foi Caim matando Abel. Sodoma se corrompendo. Exércitos destroçando os povos vizinhos na antiga Palestina. Davi assassinando Urias. Diná sendo estuprada. Sansão estraçalhando filisteus. A Babilônia pondo Jerusalém abaixo. Jefté matando a própria filha. Jael cravando a cabeça de Sísera no chão com uma estaca. Jacó enganando seu irmão e seu pai e sendo enganado pelo sogro. Os irmãos vendendo José como escravo. Os primeiros cristãos sendo atirados aos leões. Inocentes queimados na fogueira da Inquisição. A igreja corrupta vendendo indulgências. As guerras entre católicos e protestantes. O papa de Roma amaldiçoando o patriarca de Constantinopla e o patriarca amaldiçoando o papa. As trevas da Idade Média. A corrupção do clero. O holocausto nazista. As invasões bárbaras. A Jihad islâmica. O martírio dos huguenotes na Guanabara. Índios dizimados. Negros escravizados. Pedofilia de padres. Teologia da Prosperidade de pastores. Gays querendo matar cristãos e cristãos querendo apedrejar gays. Cristãos ofendendo cristãos nas redes sociais.

Sim, minha conclusão, ao final dos telejornais, foi a mesma de Salomão três mil anos atrás: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós.” (Ec 1.9-10). Porque tudo o que está acontecendo no Brasil tem uma única causa, uma única explicação, uma única origem. Que é a mesma para toda essa lista de barbaridades e atos de violência que ocorrem desde que um homem chamado Adão e uma mulher chamada Eva caminharam sobre a terra:

Pecado.

Fiquei estarrecido, chocado, emocionado e abatido por tudo o que vi na TV. Mas não fiquei surpreso. Pois sei bem do que nós, seres humanos, somos capazes. Eu e você somos portadores dessa gangrena espiritual chamada pecado, que gera em nós sintomas como os que estão se manifestando entre as hordas de monstros que disseminaram a barbárie nos últimos dias pelo Brasil. Sim, o pecado faz de nós animais, bestas selvagens cuja única racionalidade é a irracionalidade. Todo pecado faz isso, todo. Eu ouvi cético às explicações dos jornalistas, comentaristas e entrevistados sobre as causas dos atos de brutalidade ocorridos em Salvador, Belém, Rio, São Paulo e tantas outras cidades. As análises são todas muito interessantes, mas a verdade é que a raiz de tudo o que vi, cada vidraça quebrada, cada gota de sangue derramado, cada poste derrubado, cada cabine da polícia incendiada… é esse terror invisível que carregamos dentro de nós chamado pecado.

E, por mais que tenha ficado alegre com as medidas que a presidenta diz que tomará, no fundo sei que nada adiantará. Porque tudo o que é feito no âmbito social fica no exterior do homem e, portanto, é paliativo. Qualquer atitude que se tome só vai amainar as coisas, nenhuma solução humana é solução. Pois o problema, a raiz, a origem de tudo isso é o pecado. E pecado não se resolve com canetadas, decretos ou mobilizações sociais. Só se resolve com Jesus de Nazaré.

Diante disso, fiquei pensando: qual é o nosso papel, como cristãos, diante desse cenário infernal que viraram nossas ruas? O que a Igreja (eu e você) devemos fazer? Organizar manifestações? Emitir notas públicas de repúdio? Eleger mais pastores em cargos públicos? Gritar palavras de ordem? Criar hashtags no Twitter? Escrever mais posts sobre a violência no Brasil em blogs? Nada disso. Tudo isso é correr contra o vento. Simplesmente porque nada disso elimina o pecado da humanidade. Se a Igreja quiser ser Igreja tem de lutar com as armas de quem foi “chamado para fora”. Ou seja: tem de lutar com armas diferentes das que usam os que “estão dentro”. Deixemos as marchas, passeatas, entrevistas coletivas, notas oficiais em sites institucionais e outras coisas do gênero para a sociedade não cristã. O nosso papel é proclamar Cristo. Pregar o evangelho. Anunciar as boas novas de salvação.

A lógica é simples e existe há dois mil anos: só existe uma cura para o pecado. O remédio se chama Jesus. Eu e você sabemos disso. O mundo não sabe. Por isso temos de levar essa cura aos que estão doentes. Contra os violentos levemos o Príncipe da Paz. Contra os sanguinários levemos o manso Cordeiro. Contra os depredadores levemos o reconstrutor. Contra os que matam levemos quem dá vida. Os royalties do petróleo não vão salvar do pecado os baderneiros mascarados. Nem bombas de gás lacrimogêneo. Tampouco tropas de choque. Projetos sociais menos ainda. A Copa do Mundo também não. Grupos de trabalho da presidência não tiram o pecado do mundo. Toda solução possível é apenas assoprar o ferimento, não arranca a raiz do problema.

Propor Jesus como solução para a crise no Brasil não é ser simplório. Não é ser ingênuo. Não é espiritualizar uma realidade concreta. Não é ser bobo. Propor Jesus como a solução do caos no Brasil é ser bíblico. É ser cristão. É propor a única cura possível para a única causa de tudo o que está acontecendo. Quer colaborar para o fim da violência em nosso país, meu irmão, minha irmã? Pregue a Cristo, e ele crucificado. Anuncie o evangelho verdadeiro. Proclame a salvação da cruz. Abra a boca! Homens livres do pecado, redimidos, restaurados, nascidos de novo não depredam, não roubam, não batem, não apedrejam, não incendeiam, não agridem, não ofendem, não machucam, não brigam, não matam. Homens livres do pecado são pacificadores, humildes de espírito; têm domínio próprio, amor, benignidade, bondade, olhos meigos e um tom de voz suave. São a imagem de Cristo.

As imagens da violência e da brutalidade em nosso país conclamam a mim e a você para a ação (recomendo a leitura do post “É tempo de orar”). Mas, se eu e você somos cristãos, a nossa ação não pode ser a mesma do mundo. O mundo sabe organizar manifestações, fazer grupos de trabalho e convocar mais policiais. Deixe o mundo fazer o que o mundo sabe fazer, pois essas são as soluções que ele conhece. Eu e você temos de fazer aquilo que o mundo não sabe: proclamar Deus. Brilhar a luz de Cristo nas trevas. Apresentar a cruz. Você é um embaixador do reino. Então aja como tal. O pecado está pondo as garras para fora e todos estão vendo, pois está sendo exibido em rede nacional de TV. Mas será que alguém está vendo Jesus? Não, não está. Porque isso os telejornais não mostram. Logo, mostrar Cristo e divulgar sua mensagem compete a mim e a você.

E aí, o que você vai fazer a esse respeito? Ver mais um jogo de futebol?

Paz a todos vocês que estão em Cristo – para que possam levar essa mesma paz a todos aqueles que não estão.
Maurício

Vivemos uma época da História da Igreja em que é muito fácil nos deixar levar pela tentação de voltar nossas atenções para discussões acerca das instituições e estruturas eclesiásticas e nos esquecermos de questões que – pelo relato dos evangelhos – preocuparam e ocuparam muito mais o tempo de Jesus. Em nossos dias, “apologética” está muito na moda e sobram ambientes em que, em nome de uma suposta “defesa da fé”, se fala bastante contra igrejas, denominações e grupos eclesiásticos (e escrevo entre aspas porque 90% do que se apresenta na Internet hoje como “apologética” na verdade são só agressões e fofocas que não contribuem de fato para a saúde espiritual da Igreja). O que tenho refletido muito nos últimos tempos é sobre o risco real em que caímos de nos preocuparmos tanto em discutir aspectos relacionados às instituições eclesiásticas que pecamos por desviar nossas atenções do que mais importa para Deus: o indivíduo.

É evidente que discutir questões ligadas à instituição é importante. Afinal, se não combatemos a Teologia da Prosperidade, os desmandos de certas igrejas neopentecostais, as heresias e outros graves problemas que deformam a Igreja de Nosso Senhor estamos permitindo que milhares de pessoas sejam enganadas e mal discipuladas. Mas quando voltamos excessivamente os olhos para isso, acabamos tão preocupados com o macro que os detalhes que mais importam tornam-se periféricos, quando deveria ser o contrário.

Recentemente decidi reler todo o Novo Testamento. E tive uma percepção bem interessante. Se formos prestar atenção no foco das preocupações de Jesus e dos apóstolos, se formos ao cerne do Sermão do Monte, das epístolas paulinas, das gerais e dos livros de Atos e Apocalipse, veremos que a esmagadora maioria dos problemas apontados, os grandes desmandos, as orientações, as pregações e palestras eram quase que em sua totalidade voltadas para questões pessoais. Raramente vemos exortações contra grupos ou instituições. É a alma humana que está em debate na maior parte do Novo Testamento. Evidentemente, à luz da pessoa de Cristo e da glória do Pai.

Jesus diz uma única vez que um enfermo foi curado para a glória de Deus. Se formos ver os outros milagres de Cristo perceberemos que estavam ligados a um aspecto da personalidade do Senhor: compaixão.  Jesus perdoa pecadores. Jesus sara os que clamam a Ele em lágrimas. Jesus ensina sobre o Reino sempre em relação ao aspecto humano e individual. Jesus está o tempo todo preocupado com pessoas. Que têm nome, cheiro, dores, depressões, noites insones, desesperança, falta de paz. Mesmo quando fala dos publicanos e fariseus Ele não está criticando o grupo como um todo ou questionando sua existência, mas sim atacando aspectos falhos do coração daqueles homens, como a hipocrisia e a ganância. Tanto que chama Paulo, um fariseu, não para abandonar o farisaísmo, mas para se converter de seus caminhos pessoais equivocados.

Não vemos Jesus investir seu tempo criticando o governo romano, a organização do templo ou as sinagogas. Pelo contrário, manda pagar o tributo aos dominadores, vai às sinagogas e segue religiosamente a liturgia de culto praticada nas mesmas, não discute sobre a legitimidade do partido fariseu contra o saduceu (ou vice-versa) ou levanta bandeiras contra os essênios. Sempre vemos Jesus falar sobre questões concernentes ao indivíduo. Ele quer ensinar pessoas, se preocupa em alimentá-las, se condói do enfermo, tem misericórdia do possesso, deseja que João, Maria, Antônio, Beto e Sheila sejam alcançados pelas boas novas, perdoados e salvos. Ele não quer salvar um grupo impessoal. Quer dar vida a almas.

O mesmo vemos nas motivações de Paulo. Repare que em suas epístolas ele se preocupa não em saudar ou enviar saudações dos “adeptos da Missão Integral”, dos “ortodoxos”, os “membros da igreja emergente”, os “irmãozinhos pentecostais” ou “os que congregam nas igrejas históricas”. Ele saúda pelo nome. Menciona Estéfanas, Fortunato, Acaio, Tíquico, Onésimo, Aristarco, Marcos, Epafra, Lucas, Ninfa, Prisca, Áquila, Onesíforo, Erasto, Trófimo, Êubulo, Prudente, Lino, Cláudia e tantos outros. Do mesmo modo, não critica grupos organizados ou escolas de pensamento nefastas, mas dirige suas tristezas a pessoas como Demas e Alexandre, o latoeiro. Nomes. Gente. Almas.

Sou de Paulo. Sou de Apolo. E o que disse Paulo sobre isso? “Acaso Cristo está dividido?” (1 Co 1.13a).  João escreveu suas epístolas para combater os gnósticos, grupo herético dito cristão que pregava que Jesus não era Deus feito carne. Mesmo assim sua primeira carta, por exemplo, é extremamente pessoal. “Filhinhos” e “amados” são as duas formas mais usadas pelo apóstolo para se dirigir aos seus destinatários. E se você lê com atenção tudo o que ele escreve contra os ensinamentos dos gnósticos é sempre tendo em vista aspecto individuais dos ensinamentos espúrios e como eles afetavam pessoas. Essa carta, que podemos considerar como sendo a mais motivada por aspectos institucionais de todo o Novo Testamento, é extremamente preocupada com o indivíduo.  A releia com atenção e você verá. Os “filhinhos”. Os “amados”. E nenhuma escola de pensamento ou doutrinária é filha ou amada de ninguém. Pessoas são.

Nas sete cartas à igrejas de Apocalipse vemos referências institucionais, isso é fato (prova que essa discussão não pode ser menosprezada): aos nicolaítas e aos que seguem a doutrina de Balaão. Mas, de resto, fala a todo tempo sobre questões do coração, como o abandono do primeiro amor, a fidelidade, obras, amor, fé, serviço, perseverança. Menciona até mesmo uma tal Jezabel pelo nome, por estar pervertendo os irmãos.

A conclusão é que Deus está preocupado com pessoas. Comigo. Com você. Com quem você ama. Com quem você odeia. Com arrependimento e redenção de indivíduos. Jesus não vai salvar os membros desta ou daquela denominação, mandar todos os calvinistas para o Céu ou condenar todos os adeptos da equivocada Confissão Positiva para o inferno. O que está escrito no Livro da Vida são nomes de indivíduos. Nomes de gente. Nomes com rosto, CPF, é o filho do Zezinho da padaria e a mãe da sua amiga Carla, da escola. Gente que tem mau hálito ou que acorda de mau humor, indivíduos que falam “pobrema” e almas que moram em condomínios de luxo. O porteiro do seu prédio. O lixeiro da sua rua. O jardineiro que você nunca cumprimentou. O empregado que você jamais abraça.  O manobrista que todo dia guarda a chave do seu carro mas você nem sabe seu nome. Quando pensa em nós, o que a Bíblia transparece não é que Ele pensa em “nós”: pensa no “eu” e no “você”, cujos fios de cabelo Deus sabe de cor quantos temos.

Por muito tempo devotei muita atenção para grupos. Não que eles não sejam importantes, repito, mas hoje estou muitíssimo mais preocupado com o indivíduo. Quero chegar antes de o culto começar na igreja e cumprimentar aquela irmã cheia de olheiras sentada na última fila da igreja. Perguntar se está tudo bem – e ouvir sua resposta de fato e não por uma obrigação pseudopiedosa. Quero gastar tempo que seria meu para ir na casa da senhora doente e que não tem amigos, doar-me e não apenas aparentar estar preocupado. Quero ir ao hospital orar com o irmão de uma conhecida que está padecendo de Aids – contraída numa relação homossexual. Órfãos e viúvas em suas tribulações são pessoas. É o Carlinhos, que perdeu os pais num acidente de carro, e a Dona Rute, cujo marido teve um infarte fulminante.

Nossas igrejas estão abarrotadas de pessoas carentes, solitárias, pecadoras, infelizes. Meu papel como cristão é refletir o amor de Cristo dando-lhes calor humano. Estendendo perdão. Pacificando as animosidades. Me fazendo presente nos períodos de sofrimento. Pois aprendi o que é passar momentos terríveis, depressivos e assustadoramente solitários e nem um único cristão telefonar para saber como estou. E isso é igreja que diz glorificar Deus mas só o faz da boca para fora, pois se esqueceu do próximo – que não é uma entidade autômata, com número de série: é uma alma humana.

Enquanto não amarmos de fato, perdoarmos de fato, nos doarmos de fato e enxergarmos de fato a dor do ser humano que cruza conosco no corredor da igreja ou do supermercado… estamos frequentando a igreja para que mesmo? Glorificar Deus? Como se fosse possível uma coisa sem a outra.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

* Uma versão reduzida deste artigo foi publicada originalmente na revista Igreja.

Sata2A proclamação do Evangelho deve ter como centro Jesus. A cruz. As boas-novas da salvação. Sempre. Sempre. Sempre. Podemos pregar sobre qualquer assunto correlato, desde que tenha ligação com o epicentro de nossa fé: Cristo. Pregações sobre dízimo devem ter foco em Jesus. Pregações sobre casamento devem ter foco em Jesus. Pregações sobre vida sexual devem ter foco em Jesus. Pregações sobre arrependimento devem ter foco em Jesus. Por isso, existe uma grande resistência em alguns setores da Igreja a se pregar sobre o inferno, o diabo e os demônios. Em grande parte, isso ocorre como reação à ênfase despropositada que certas denominações dão à chamada “libertação”, em todas as suas variáveis – “descarrego”, “batalha espiritual”, expulsão de demônios etc. -,  o que leva muitos a tomar uma postura contrária, eliminando totalmente do púlpito mensagens que tenham a ver com as hostes espirituais da maldade. Essa postura acaba se refletindo em todas as esferas da vida cristã dos que assim procedem, como a rejeição por livros que falem do assunto ou mesmo nas orações que fazem e nas músicas que cantam. Por muito tempo compartilhei desse pensamento. Falar sobre isso era como jogar uma barata dentro de uma refeição refinada num restaurante chique. Mas tenho revisto essa posição. Hoje estou convencido de que devemos sim pregar sobre o inferno e os perigos das forças espirituais do mal – desde que as pregações sobre o assunto tenham foco em Jesus.

A primeira razão que me fez rever essa posição foi a releitura do Novo Testamento. Lendo as Escrituras e alguns bons livros descobri, espantado, que Jesus de Nazaré falou muito nos Evangelhos sobre o inferno. Ou seja: o próprio Senhor abriu o precedente. Afirmar que não se pode pregar sermões que tratem do mundo espiritual maligno – com foco em Cristo, sempre – seria dizer que Jesus não poderia ter falado o que falou. E repreender Deus é, no mínimo, complicado. Se por um lado, o Senhor nos disse para não ficarmos eufóricos com esse assunto (“Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” – Lc 10.20), por outro nos instrui muitas vezes sobre ele (como em “Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino [...]  Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e perguntaram: “Por que não conseguimos expulsá-lo? ”  Ele respondeu: [...] esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” -  Mt 17.18-22).

Sata3Trabalho como editor de livros cristãos. Meu último projeto – sobre o qual não posso falar muito, por enquanto, por questões éticas – é uma obra de um importante pastor presbiteriano brasileiro e chanceler de uma universidades  cristã. Tradicional. Histórico. E brilhante. Surpreendeu-me, portanto, quando li em seu texto o seguinte:  “Alguém já disse que pregar sobre o inferno não é um caminho muito bom para levar pecadores ao arrependimento, porque, nesse caso, as pessoas se converteriam por medo da perdição eterna. Pessoalmente, entendo que é preferível que seja assim ao fato de o indivíduo não se converter de maneira nenhuma. Se alguém se converteu porque tem medo de ir para o inferno, isso é ótimo, mas se a conversão ocorreu por amor a Jesus é melhor ainda. Não faz mal o crente se assustar com a realidade da justiça divina”.

Cada vez mais tenho percebido a importância de alertar a Igreja, como fez o próprio apóstolo Pedro, de que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando a quem possa tragar” (1 Pe 5.8). Forças do mal estão se infiltrando nas igrejas. Nas empresas cristãs. Ensinamentos diabólicos estão conquistando espaço nos corações e nas mentes dos jovens e adolescentes evangélicos. Temos guardado os portões da frente de nossas vidas pela proclamação indispensável do Evangelho de Cristo, mas, ao fecharmos os lábios contra “as ciladas do diabo” (Ef 6.11), deixamos a porta dos fundos escancarada para a entrada dos sabotadores de nossa espiritualidade.

Sata4Deus é infinitamente mais poderoso que o diabo. A velha ideia de que Satanás e Jeová disputam as almas humanas como num cabo-de-guerra, em igualdade de condições, é um erro de proporções (anti)bíblicas. O Deus criador é tão superior ao diabo criatura que, com um piscar de olhos, Ele poderia, se quisesse, eliminar todos os demônios, todo o inferno, tudo, tudo, tudo. Então, imaginar que o diabo é inimigo direto do Todo-poderoso chega a ser engraçado, pois o querubim caído não pode absolutamente nada contra o criador do universo. Na-da. Ele é inimigo, isso sim, dos homens, a quem consegue astutamente enganar. Em especial aqueles que não estão alertas contra esse engano  e que se julgam imunes à tentação maligna.

Portanto, é por isso que Paulo, o apóstolo, prega à igreja de Éfeso: “A nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). E deixar de fora das nossas preocupações, do nosso discurso e da nossa pregação essa realidade seria ignorar um assunto tratado extensamente por Jesus e por seus discípulos nos evangelhos, nas epístolas e em Apocalipse. Seria uma irresponsabilidade.

Sata5A literatura cristã está repleta de livros sérios que alertam para o tema, seja de forma direta ou por meio da ficção. Um exemplo que imediatamente me vem à mente é o do grande C.S.Lewis, que escreveu as obras ficcionais “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, “O Grande Abismo” e “As crônicas de Nárnia”, que mostram explicita ou implicitamente a ação de demônios e – graças a Deus – despertam o fascínio sobre o tema. Aliás, dedicar tempo e tinta para alertar a Igreja contra o inferno, o diabo e seus ardis fez parte da preocupação de grandes homens de Deus desde o princípio. Além do próprio Jesus e dos autores canônicos, os primeiros escritos da época patrística trazem textos sobre o assunto de alguns pais da Igreja, como Orígenes (“De principiis”), Gregório de Nissa e outros. Assim foi e prosseguiu pelo período da escolástica (com Erasmo) e da Reforma (com Lutero e Zuínglio), seguindo por John Wesley, John Bunyan e outros (a série do website Voltemos ao Evangelho sobre “A História do Inferno” fornece uma boa bibliografia sobre o assunto). A conclusão é que sempre houve na Igreja cristã saudável a preocupação de pregar e escrever sobre Satanás, os demônios e o inferno – de Jesus a John Piper e Paul Washer. Basta procurar.

Em nossos dias, livros e relatos de ficção apresentados como verídicos, como as histórias de Rebecca Brown e similares, prestaram um desserviço à Igreja, por dois ângulos: de um lado houve quem cresse em seus contos como se fossem realidade e passasse a viver segundo suas ficções. Do outro, quem percebeu que se tratava de uma farsa passou a ter um preconceito refratário a qualquer coisa do gênero, qualquer livro que toque no assunto, qualquer música que mencione o diabo ou o inferno. O satanismo, uma realidade tão presente e infiltrada nas igrejas, ministérios e outros ambientes cristãos, tornou-se um assunto sobre o qual não se deveria falar. Com isso, saiu perdendo a importância bíblica e histórica de se tratar e de pregar sobre a questão. E quem saiu ganhando? Preciso responder?

Até mesmo na música. O tradicional hino “Castelo Forte”, composto pelo reformador Martinho Lutero,  dedica quase metade de suas linhas ao diabo e os demônios (depois que ele afirmou, veja você: “Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!”):

“Castelo forte é nosso Deus,
Amparo e fortaleza:
Com seu poder defende os seus
Na luta e na fraqueza.
Nos tenta Satanás,
Com fúria pertinaz,
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis,
Que iguais não há na Terra.

A nossa força nada faz:
Estamos, sim, perdidos.
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos.
Defende-nos Jesus,
O que venceu na cruz
O Senhor dos altos céus.
E sendo também Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos podiam assustar,
Nem somos derrotados.
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está:
Vencido cairá
Por uma só palavra.

Que Deus a luta vencerá,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, poder,
E, embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu reino.”

.

Sata6O inferno existe e é um assunto sério. Bíblico. Jesus falou e pregou sobre ele – e muito. Devemos fazer o mesmo. Satanás e os demônios são um assunto sério. Bíblico. Jesus lidou pessoalmente, expulsou constantemente e falou sobre eles – e muito. Devemos fazer o mesmo. Se for preciso despertar o fascínio sobre o assunto, que assim seja. Pois, no pesar da balança, é melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Pois o que está em jogo aqui são almas humanas. Precisamos saber lidar de forma bíblica e correta com as hostes espirituais da maldade, que tanto dano provocam no seio da Igreja. E isso só vai acontecer se nossos líderes nos ensinarem a fazê-lo biblicamente. Enquanto acreditarem na inverdade que “não se prega falando sobre o inferno, Satanás e os demônios”, estarão na contramão do que fez Jesus, os escritores canônicos, os pais da Igreja, os escolásticos, os reformadores, os expoentes dos grandes despertamentos e importantes pregadores reformados de nossos dias. E, com isso, só quem lucra é o diabo, que pode usar e abusar dos cristãos que não sabem lidar com o mal porque nunca lhes ensinaram a fazer isso de forma sadia.

É ingenuidade acreditar que basta pregar sobre Cristo sem falar nada sobre o diabo e estaremos isentos das artimanhas e dos ataques do maligno. Já ouvi o bom argumento de que para aprender a identificar a nota falsa basta conhecer bem a verdadeira – só que, se a tinta da nota falsa gera prurido e alergia em nossa pele, somente conhecer a verdadeira não vai adiantar muito, depois que já manuseamos a falsificada. A luz espanta as trevas, é verdade, mas me diga um cristão com Jesus no coração que não peca porque aqui e ali se deixou enganar pelas forças do mal. Como vigiaremos se não sabemos como é o inimigo? Como estaremos alertas às “ciladas do diabo” se não temos conhecimento de como ele age, o que faz, como se combate? Muitas tecnologias fajutas de “batalha espiritual” ganham notoriedade em nossos dias justamente porque houve muitos que ensinaram errado enquanto os que poderiam ensinar certo deram as costas ao assunto.

Sata7Pregar sobre Jesus é o centro, o foco e a essência. Mas o que muitos lamentavelmente não enxergam é que pregar mensagens de alerta sobre o inferno, Satanás, o satanismo, as hostes espirituais da maldade – de forma bíblica! – também é fazer exatamente isso: ressaltar a altura da montanha pela profundidade do vale. Mostrar a luz pela contraposição com as trevas. Posicionar o bem a partir de um referencial maligno. Exilar o mal de nossa proclamação do Evangelho é remover o diabo da tentação de Jesus no deserto; é tirar a história do rico e Lázaro da Bíblia; é contar a parábola do semeador pela metade; é amputar os primeiros capítulos do livro de Jó; é rasgar páginas e mais páginas das epístolas; é anular todo o sentido de Apocalipse; é jogar no lixo trechos como Lc 11.14, Mc 7.29, Jo 8.49, Mt 9.33, Mt 17.18, Mc 7.26, Lc 4.33 e muitos outros. Mais importante ainda: é arrancar da história da salvação o relato da Queda. E, sem o que a serpente fez no Éden, por que mesmo precisaríamos da cruz?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício