Arquivo da categoria ‘Fruto do Espírito’

casar1É enorme a quantidade de casamentos problemáticos entre cristãos. Alguns dos posts mais lidos e comentados aqui do APENAS são os que versam sobre problemas matrimoniais. Muitos dos livros mais vendidos pelas editoras cristãs são os que tratam do assunto. Um dos tipos de ministério “direcionado” que mais surgem é o voltado a famílias e casamentos. Esses fatos denunciam que cristãos enfrentam problemas conjugais tanto quanto não cristãos. Pelo espaço dos comentários do blog chegam até mim muitos casos de pessoas que buscam respostas para problemas conjugais, em situações as mais variadas (se é o seu caso, procure seu pastor, ele é quem melhor pode aconselhá-lo). Em programas de rádio e palestras de que já participei sobre o assunto vejo tipos de problemas que jamais imaginaria, que vão da chamada “incompatibilidade de gênios” a casos de incesto. O que fica muito claro é que o casamento é uma das áreas mais visadas nos ataques espirituais contra os cristãos e por uma simples razão: ao se destruir uma família, ocorre a desestruturação dos cônjuges em diversos âmbitos, os filhos ficam traumatizados, as comunidades são abaladas e, com tudo isso, fere-se a Igreja de Cristo. Assim, qualquer ataque a um casamento é uma afronta direta a Deus. Para quem vive desilusões e problemas no matrimônio, muitas vezes o divórcio é a solução. Já para mim, uma das soluções para problemas matrimoniais é uma mudança na sua compreensão acerca do verdadeiro propósito do casamento.

Como todo mundo, eu me casei acreditando naquelas frases feitas, como “Casei para ser feliz” ou “Casei para fazer o meu cônjuge feliz”. De um modo ou de outro, o que por anos foi muito claro é que o matrimônio tem – no imaginário popular – como finalidade levar o casal à felicidade. É o que nos ensinam nos contos de fadas, em que príncipe e princesa necessariamente têm de “ser felizes para sempre” e ninguém ensina a nossos filhos que príncipes e princesas não vivem deitados eternamente em berço esplêndido, tampouco são lindos de morrer (lembra do príncipe Charles, por exemplo?). Pelo contrário, eles têm obrigações, cotidianos corridos e estressantes, assuntos complicadíssimos do reino para resolver, responsabilidades graves, estresse constante pelo assédio da imprensa (lembra de como foi a morte da princesa Diana, fugindo dos paparazzi?), que exigem demais deles. Mas a imagem ensinada aos pequenos é que príncipes e princesas são bonequinhos lindos e cheirosos, sempre felizes, eternamente de bem com a vida, numa utopia destrutiva para a formação de identidade de um ser humano – é por isso que sinto pânico quando ouço crianças serem chamadas por cargos da monarquia, como “reizinho” e “princesinha”. E, assim, somos adestrados desde os primeiros anos de vida a acreditar que o casamento tem de nos conduzir a esse estado de “ser feliz para sempre”. O que, aliás, é impossível, nunca acontecerá com ninguém e é propaganda enganosa. Mas todo mundo sobe ao altar acreditando nisso.

princesasA princesinha da mamãe um dia vai se casar com um ogro, que, por mais esforçado que seja, terá todos os defeitos que ela não espera (afinal, tirando o Shrek, os príncipes dos contos de fadas nunca têm defeitos). O principezinho do papai um dia se casará com uma mulher que não é delicadinha e obediente como a princesa dos desenhos animados (ou você acha que a rainha Elsa, de “Frozen”, nunca vai engordar, criar pelanca e dar ataques de TPM?). A realidade é a realidade, mas aprendemos de nossos pais e ensinamos a nossos filhos que nosso casamento tem de ser exatamente como na ficção. Que, como diz o nome, é ficção. A realidade tem cores, cheiros e um peso enormemente diferentes.

Adestrados por essa mentalidade equivocada, hedonista e antibíblica de que casamento foi feito para nossa felicidade ininterrupta, subimos correndo ao altar com essa ideia totalmente irreal em mente. Seguimos para a lua de mel com ela. E, pior de tudo, prosseguimos pela vida tomando-a como o critério para julgar se um casamento é bem-sucedido ou não. Só que, por acreditarmos no conto de fadas da felicidade ininterrupta, quando somos confrontados pela realidade é impossível não se frustrar com o cônjuge, não se desapontar, não se chocar com a enorme distância entre ele e aquele lindo príncipe sem espinhas, nariz escorrendo ou cheiro de suor que desperta a Branca de Neve de seu sono com um lindo beijo nos lábios (já imaginou o hálito da Branca de Neve depois de tanto tempo dormindo, sem escovar os dentes?).

washerEu acreditei por muitos anos na mentira da felicidade como critério para julgar a solidez de um casamento. E, assim como você, tive muitas infelicidades ao longo de minha vida matrimonial justamente porque em muitos momentos me vi infeliz. E, assim, a infelicidade alimenta a infelicidade, num ciclo que parece não ter fim. “Se quero ser feliz no casamento mas não sou sempre feliz na vida a dois, então meu casamento é um desastre”, cheguei a penar. Tudo mudou quando ouvi há poucos anos uma pregação do pastor Paul Washer, no YouTube, que causou uma grande transformação na minha forma de enxergar o matrimônio. Recomendo enfaticamente que você assista (clique AQUI). Como toda pregação eficaz e bíblica, ela mexeu com minhas estruturas e modificou minha forma de ver tudo.

Essencialmente, o que Washer ressalta, com muita correção bíblica, é que o casamento não foi criado por Deus para nos fazer felizes, ao contrário do que prega a sociedade em que vivemos. “O verdadeiro propósito do casamento é que ambos sejam conformes à imagem de Jesus Cristo”, diz. Essa percepção mudou totalmente a minha visão sobre o casamento. Ouvir essa pregação foi como uma cortina que se levantasse diante de meus olhos e me fez compreender enormemente coisas que antes eu não compreendia. Meus paradigmas foram transformados. E Deus promoveu em mim a metanoia, a renovação da mente de que Paulo fala em Romanos 12.2.

Meu casamento tornou-se perfeito depois disso? Claro que não. Eu não sou perfeito e minha esposa também não é, lógico que nosso matrimônio jamais seria (ou será) perfeito. Mas o entendimento do verdadeiro propósito do casamento fez com que meus esforços e minhas percepções começassem a me conduzir por caminhos completamente diferentes. Quando você compreende que não se casa para ficar sorrindo, dançando e pulando o tempo inteiro, com dentes brilhantes sob a luz do luar, passa a ter atitudes muito contrárias às que tinha antes.

casalEntenda algo. Se seu cônjuge é turrão e cabeça dura mas você acredita que ele teria de ser diferente para você ser feliz, então você viverá eternamente insatisfeito (ou você ainda acredita na ideia de que as pessoas mudam conforme o seu querer? A sua vontade de que mudem não mudará ninguém). Mas, se entende que seu cônjuge turrão faz com que você se torne alguém mais paciente, então enxerga que o seu casamento com alguém cabeça dura te conforma mais à imagem de Cristo. Outro exemplo: se o seu marido (ou a sua esposa) é meio brigão, comece a tentar ver que isso pode desenvolver em você um lado pacificador cada vez maior. Ou, ainda, se o seu cônjuge é do tipo que de vez em quando busca iniciar briguinhas e discussões, perceba quanto isso te leva a crescer em domínio próprio. Em outras palavras, cada defeito da pessoa com quem você se casou pode ser visto de duas maneiras: ou como um obstáculo à sua felicidade e à sua ideia de casamento conto de fadas, ou como um meio que Deus estabeleceu para que você seja cada vez mais assemelhado a Cristo. Como disse Paul Washer, “Ele [Deus] quer prová-lo e testá-lo de forma que você será conformado à imagem de Jesus Cristo”.

Sei que muitos não concordarão de imediato com essa visão, o que é totalmente compreensível. Não é fácil mudar décadas de uma ideia formatada, que foi inserida na sua cabeça desde que você usava fraldas. Mas, se você consegue adquirir a percepção de que seu cônjuge não é um adversário imperfeito que chegou para atazanar sua vida, mas, sim, um aliado imperfeito que chegou para criar mais e mais intimidade entre você e o Cordeiro de Deus… tudo muda. Em mim mudou.

aliançaO Senhor quer nos fazer crescer em misericórdia, graça e amor incondicional. Deus deseja que cresçamos a partir das fraquezas de nosso cônjuge – e ele, das nossas – para que cuidemos e amemos nossos maridos e nossas esposas mesmo quando eles não atenderem às nossas expectativas. Sei que você vai questionar muito o que escrevi aqui quando olhar seu cônjuge, lembrar de todos os defeitos, falhas e pecados dele – repetidos dezenas de vezes, muitas delas sem arrependimento. Vai achar loucura que ter de enfrentar isso seja algo que venha para o seu crescimento. E é mesmo: “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18). Sim, é loucura a olhos humanos. Mas é crescimento espiritual aos olhos divinos. “‘Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos’, declara o SENHOR. ‘Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos’” (Is 55.8-9).

Desde que ouvi essa pregação, volto a ela com frequência. Ouço e ouço de novo. A demolição de ideias que nos acompanharam por décadas nunca é algo rápido ou fácil. Exige humildade e dói. Mas a reconstrução é libertadora. Só Deus sabe como essa nova percepção da realidade bíblica mudou totalmente a forma de enxergar meu casamento e minha esposa e, com isso, mudou muito em mim. O que antes eu via como defeito agora enxergo como canal de bênção. O que antes eu acreditava que subtraía hoje eu vejo que soma. Ainda estou no processo, mas já é possível observar a diferença que faz o abandono da teoria irreal de que casamento tem como finalidade a felicidade eterna. Pois essa teoria necessariamente pressupõe a existência de um cônjuge que seja perfeito a ponto de ser capaz de nos proporcionar felicidade eterna e, também, na existência de perfeição em nós, para que possamos proporcionar felicidade eterna a nosso cônjuge. Só que isso não existe, jamais existiu e nunca existirá. Ninguém jamais será perfeito, meu irmão, minha irmã. Você jamais será perfeito. Logo, o cônjuge ideal só existe nos nossos sonhos irreais. É por isso que você é um cônjuge tão imperfeito. A realidade é o que está dentro de sua casa – seu cônjuge e você. E é a partir dessa realidade que Deus quer conformar ambos à imagem de Cristo.

casal0Sei que deve ser muito duro para você ler isso. Acredite, não escrevo este texto com o coração leve. Pois entendo perfeitamente o que é alguém que vive realidades muito difíceis em sua vida conjugal olhar para elas e aceitar que Deus as permite para seu crescimento espiritual. Compreendo se você se revoltar contra esse pensamento, embora lamente caso não consiga enxergar a profundidade espiritual que ele carrega em si. Mas a sabedoria bíblica que essa mensagem compartilha é fulminante. Como diz Pr. Washer com extremo discernimento espiritual, “Como Deus te ama muito, ele não lhe dá alguém compatível com você. Isso ocorre porque Deus é muito melhor do que você e os seus presentes são muito maiores do que aqueles que você poderia sequer dar a si mesmo. Você ia querer uma vida fácil e com perfeita compatibilidade. Deus não vai te dar isso, porque isso nunca produz caráter cristão, piedade verdadeira ou conformidade com a imagem de Jesus Cristo”.

Vi em outro vídeo – de uma curta conversa entre John Piper, Tim Keller e D.A.Carson – que o  pastor, teólogo e mártir cristão Dietrich Bonhoeffer disse que “a aliança entre marido e mulher sustenta o amor e não o amor sustenta a aliança” (veja o vídeo AQUI). O pacto que fazemos no altar é, acima de tudo, de respeito a uma aliança, antes de ser de amor. Quando você compreende isso, tudo muda. E, pode acreditar, você passa a amar muito mais. E, se você rompe esse pacto, tudo torna-se muito pior. Por isso, fica aqui o conselho enfático: se você falhou nas promessas estabelecidas na aliança, não descarte esse casamento, pelo contrário, busque na graça de Deus o restabelecimento da aliança e prossiga em frente. Houve erros e pecados que feriram os termos da aliança entre você e seu cônjuge? Então recorra ao Senhor em busca da restauração – pois ele deseja, pode e vai restaurar seu casamento se você tão somente se dispuser a isso.

cruz de cristoPeço a Deus que todas as dificuldades de sua vida matrimonial venham a fazer você e seu cônjuge crescerem em intimidade com Deus. Que as falhas e imperfeições suas e de seu cônjuge sirvam para conformá-los cada vez mais à imagem de Cristo. Pois “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho…” (Rm 8.28-29). Você não é perfeito. Seu cônjuge não é perfeito. E, para tentar aproximar vocês dois um pouco mais da perfeição, o Ser perfeito criou essa estranha ferramenta chamada casamento. Use-a e torne-se a cada dia um pouco mais como Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

material1Fico imaginando se os materiais de construção pudessem falar. Pense como seria se o cimento, por exemplo, começasse a gritar de dentro da betoneira: “Pare de me agitar! Não aguento tanto sacolejo! Chega de todo esse movimento em minha vida!”. Se você fosse o mestre de obras, o que responderia a ele? Possivelmente, diria algo como “Desculpe, amigo cimento, mas, para que você cumpra aquilo para que foi criado, é preciso que eu deixe você sacudir bastante aí dentro, caso contrário, será  impossível utilizá-lo para cumprir os meus propósitos”. Ou, então, imagine que o tijolo que fica na base de um edifício começasse a gemer e reclamar: “Por favor, me tire daqui! A pressão é muito forte, tem muito peso em cima de mim, não está dando!”. Se eu fosse o engenheiro, daria a única resposta possível: “Veja bem, caro tijolo, se eu removê-lo, de que você servirá? Eu o criei e instalei nesse lugar para que sustentasse toda essa pressão. Se eu tirá-lo daí, além de prejudicar toda a estrutura do prédio você se tornará inútil, pois para isso foi criado. Fora daí você não tem função. E perceba que, embora esteja incômodo, você é perfeitamente capaz de suportar todo esse peso, eu o projetei para isso mesmo”. Você responderia algo diferente? A verdade é que se o responsável pela obra atendesse a todos os pedidos de todos os materiais de construção insatisfeitos com as dificuldades que sua existência prevê… seria impossível construir o prédio.

Vidros dos andares mais altos reclamariam das forças do vento, sem saber que o vidraceiro os fabricou com a resistência necessária para suportar os impactos do ar. Os fios elétricos murmurariam porque estão muito apertados dentro do conduit, sem perceber que, se fossem removidos dali, poderiam se partir com muito mais facilidade. O piso estaria insatisfeito porque tanta gente o pisa, mas… bem, para que serve um piso que ninguém pode pisar? O teto se abateria porque está muito longe das pessoas e por isso se sente solitário, mas não percebe que, se ele não estivesse ali, aquelas mesmas pessoas ficariam desprotegidas das intempéries. E por aí vai.

tijolo2Tudo o que aconteceu na sua vida até hoje tinha como finalidade construir a pessoa que você é, para que o Senhor cumpra a vontade dele na sua trajetória. Deus, em sua multiforme sabedoria, constrói cada um de nós de maneira diferente e com propósitos distintos das demais pessoas. Dependendo de quem você era anos atrás e de como o Senhor deseja que você se torne, ele vai trabalhar de determinada maneira. Um edifício não é formado de um único material e cada um é tratado de modo diferente: o cimento precisa ser constantemente agitado, o tijolo precisa ser assado para suportar grandes pressões, os fios precisam ser bem acondicionados, os alicerces precisam ser muito socados, a tinta precisa ser bem misturada… Cada material tem suas características, um modo diferente de ser tratado, um tempo específico de preparo antes de ser assentado, uma possibilidade diferente de ser utilizado. Mas absolutamente nenhum é visto como menos importante ou é tratado de certa maneira porque o construtor deseja que ele sofra ou seja prejudicado: tudo tem um único propósito, que é fazer o edifício ser erguido com solidez.

Seríamos muito mais felizes se compreendêssemos que as dificuldades da vida fazem parte do propósito para o qual fomos criados, e que a cada um é dado justamente o que faz parte de sua natureza e finalidade. A revolta contra Deus porque ele permite que passemos por dores e momentos difíceis é bem semelhante à reclamação de uma porção de cimento por estar sendo agitada. Aquilo faz parte de sua trajetória, formação, realidade e finalidade neste mundo. Revoltar-se com Deus porque estamos passando pelo processo necessário para nos formar enquanto peças da grande engrenagem do universo simplesmente não faz sentido.

pedra-angular-0e_smA Bíblia usa uma metáfora ligada a materiais de construção para falar sobre Jesus e, também, sobre nós, a Igreja. “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito” (Ef 2.19-22). Nas construções antigas, a pedra angular era a principal, a primeira a ser assentada na esquina do edifício, e formava um ângulo reto entre duas paredes. Servia para definir a colocação das outras pedras e alinhar toda a construção. A pedra angular é o elemento essencial que dá existência àquilo que se chama de fundamento da construção. Portanto, uma pedra angular é a base sólida de que um edifício necessita para conseguir chegar à altura programada, sem cair.

Até mesmo para que Cristo se tornasse a pedra angular – a base fundamental na qual se assenta toda a construção da Igreja – ele teve de sofrer. Foi preciso que fosse humilhado, entristecido, espancado e morto na cruz. E se ele, que é Senhor, precisou passar por isso para cumprir sua finalidade enquanto o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo… quanto mais nós não teremos de enfrentar dificuldades para cumprir aquilo para que fomos criados.

???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Rejeitar as pressões e os sacolejos da vida é como rejeitar o processo necessário para que nos tornemos o que Deus nos criou para ser. Portanto, se você costuma dizer para o Senhor “eis-me aqui”, ou “usa-me”, prepare-se, pois algo será necessário a fim de que você esteja no ponto certo para ser usado pelos propósitos divinos. Dispor-se a ser usado por Deus e depois opor-se ao processo necessário para ser usado seria um contrassenso. Portanto, é importante que você saiba disto com muita clareza: se você quer ser tijolo no grande edifício do qual Cristo é a pedra angular, terá de ser assado, transportado, assentado, cimentado e suportar muita pressão.

A boa notícia é que naquele grande e terrível dia que nos espera, todos os prédios vão desmoronar. O único que ficará de pé é aquele do qual Cristo faz parte. Minha pergunta, então, seria: o que você acha, vale a pena aguentar a pressão, os ventos, o sacolejo e tudo mais que vier pela frente?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

copa do mundo1Assim que o Brasil perdeu para a Alemanha por 7 x 1, nas semifinais da Copa do Mundo, comecei a ver muitas pessoas questionando qual seria a explicação para uma derrota tão inexplicável. Justamente por ser “inexplicável”, todos buscavam explicar. Qual seria a explicação por tantos erros? A pergunta foi feita aos jogadores logo na saída do gramado, na zona mista, na primeira coletiva com Felipão, na segunda coletiva com Felipão, nos jornais e telejornais, nas entrevistas com pessoas nas ruas do país e do exterior e em todo ambiente em que a questão era levantada. Até na entrevista coletiva com Neymar, em sua visita à Granja Comary após a goleada, fizeram a mesma pergunta, a que ele respondeu “Foi uma coisa inacreditável, inexplicável. Eu não consigo explicar, não tem o que explicar”. Em meio a todas as opiniões, ouvi de tudo: a culpa foi da escalação, do estado emocional dos jogadores, do esquema tático, do fato de o Brasil jogar em casa, da ausência de Neymar e Thiago Silva… enfim, na ânsia de explicar aquela sucessão de erros, as pessoas buscaram todo tipo de resposta, como é natural ao ser humano – afinal, não basta um evento ter ocorrido, ele tem sempre de ser explicado de forma lógica e racional. Eu preferi ouvir bem o falatório e refletir antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto. Depois de ter escutado tantas explicações para tantos erros, cheguei às minhas próprias conclusões e acredito ter encontrado a resposta bíblica para o fato de uma seleção formada por jogadores profissionais, que atuam nos melhores times do mundo, treinada por uma comissão técnica que conta com os últimos dois técnicos campeões do mundo pelo Brasil, ter perdido de forma tão avassaladora, cometendo tantos erros.

E a explicação é simples. Eles erraram tanto pela mesma razão que eu e você erramos tanto: errar faz parte da natureza humana.

O ser humano é imperfeito. Somos pecadores. Deslizes, transgressões e falhas são consequência natural da queda da humanidade. Nesse ponto, a derrota da seleção brasileira aponta para uma grande realidade de toda e qualquer pessoa: não importa o quão preparado você esteja, não importa quanto você tenha acertado antes, não importa se você já saiu vitorioso de tantas situações que no passado chegou ao topo do pódio muitas vezes, não importa nem mesmo se você tem uma vida de fidelidade a Deus e de santidade (como muitos dos jogadores da nossa seleção, que são cristãos fiéis a Cristo). Nada importa. Porque a realidade é que, se você é gente, um dia vai errar. E pode ser que erre muito feio.

copa do mundo3Davi (não o zagueiro, o rei) levantou a taça na disputa contra Golias, em seu comportamento com relação a Saul, em suas muitas vitórias contra os inimigos, em sua atitude diante de Abigail… ele era o cara. Um craque. Só que chegou o dia em que mostrou que, como absolutamente todo ser humano, era capaz de errar. Resultado: tomou de 7 x 1 quando mandou matar Urias e se deitou com Bate-Seba. O tempo se passou e, tempos depois, nova derrota de lavada: 7 x 1 no episódio do recenseamento. Os repórteres da época podem ter realizado mesas redondas para discutir a causa daquilo, em busca de uma explicação. Nas manchetes de jornal, se lia “Vexame: Davi perde de 7 x 1″. Como explicar o inexplicável? Como explicar que o homem segundo o coração de Deus, que fora campeão tantas vezes no passado, perdera de forma tão vexaminosa? A resposta: Davi era humano. E Davi errava.

O mesmo aconteceu com cada grande homem de Deus que já falhou ao longo da história. Abraão tomou de 7 x 1 ao fingir que Sara não era sua esposa. Jacó perdeu de 7 x 1 ao enganar seu irmão. Moisés perdeu de 7 x 1 no episódio das águas de Meribá. Sansão perdeu de 7 x 1 ao se casar com uma estrangeira. Pedro perdeu de 7 x 1 ao negar Cristo. Paulo perdeu de 7 x 1 tantas vezes que se apresentava como “o pior dos pecadores”. Eu e você perdemos muitas vezes de 7 x 1 em nossa caminhada de fé, mesmo depois de nossa conversão. Todos perdem de 7 x 1 pela mesmíssima razão: somos pecadores, erramos.

copa do mundo2Não parece inexplicável que um cristão que verdadeiramente ama a Cristo e que por décadas viveu de forma correta um dia cometa erros terríveis? Não nos deixa chocados e com cara de arquibancada derrotada saber que um pastor famoso pagou propina a fiscais ou faltou com seu sigilo pastoral? Não nos lança em lágrimas tomar conhecimento que aquele irmão exemplar da igreja falhou em seus votos matrimoniais? Não nos abate e nos dá vontade de sair do estádio antes do fim do primeiro tempo quando percebemos que nós mesmos perdemos de 7 x 1 para o pecado de forma que não sabemos explicar? A verdade é que, quando essas coisas acontecem, buscamos e até mesmo encontramos muitas explicações. Só que, na raiz de tudo, a explicação é só uma: somos miseráveis pecadores, perdidos, falhos, transgressores. Erramos.

A seleção brasileira perdeu de forma vergonhosa. Não tem mais volta, a Copa acabou e aquela derrota acachapante ficará para sempre marcada na história. Nossos netos nos perguntarão sobre aquele dia e jamais se poderá fazer nada para mudar o que aconteceu. O 7 x 1 para a Alemanha é eterno. Mas há uma diferença entre esse 7 x 1 e o nosso 7 x 1. No nosso caso, essa derrota não precisa marcar nosso futuro. Pois, no campeonato da cruz, existe uma regra que diz que, se a graça de Jesus nos alcança, a partida em que perdemos de goleada pode ser eliminada da tabela de nossa vida. Se nos arrependermos de nossos pecados, os confessarmos e nos dispusermos de todo coração a não mais os cometermos, aquele jogo é deletado do nosso histórico de partidas. “Quem é comparável a ti, ó Deus, que perdoas o pecado e esqueces a transgressão do remanescente da sua herança? Tu, que não permaneces irado para sempre, mas tens prazer em mostrar amor. De novo terás compaixão de nós; pisarás as nossas maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar” (Mq 7.18-19).

Jesus convida cada um de nós a retomar a trajetória que pode nos levar ao lugar mais alto do pódio, por meio de uma regra chamada perdão. Em última análise, ficar buscando explicações para o seu pecado não adianta nada, ele é inexplicável. O pecado é uma força avassaladora que nos arrasta e nos faz cometer atitudes inexplicáveis, como Paulo explicou muito bem: “Tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7.18-20).

Você tomou de 7 x 1 de sua natureza falível e pecaminosa? Foi humilhado, sente-se envergonhado, não tem coragem de olhar as pessoas ou mesmo Deus nos olhos? Assim como David Luiz, você só tem vontade de sair de campo, repetindo vez após vez “Desculpe… desculpe… desculpe…. desculpe…”? Então saiba que Jesus olha para você, com uma taça daquele ouro que não derrete estendida para te entregar. Ele olha no fundo de seus olhos e diz: “Está arrependido? Então esse jogo de 7 x 1 será apagado da sua história. Eu te perdoo. Eu não te condeno. Agora vá e não peque mais”.

copa do mundo4Você toma a taça nas mãos e, mesmo tendo perdido de 7 x 1, descobre que, pela graça, pode erguê-la acima de sua cabeça, em direção aos céus, de sorriso no rosto e coração leve. Bem-vindo à vida eterna, campeão. Você não merece, pois não foi você quem venceu o mundo, mas ainda assim a taça é sua. Qual é a explicação? Parece inexplicável que pecadores tão terríveis como nós consigamos ser campeões e herdar a vida eterna? Bem, nesse caso, a explicação é só uma: Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o 7 x 1 do mundo. Ele venceu o mundo. E, se você foi convocado para jogar no time dele, isso faz de você um eterno vencedor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Julio CesarO goleiro Julio César, da seleção brasileira de futebol, deu uma entrevista ao final do jogo de Brasil e Chile, pela Copa do Mundo, em que transmitiu uma enxurrada de emoções (veja AQUI). Duramente criticado na Copa de 2010 por sua atuação na partida em que fomos eliminados, contra a Holanda, agora ele se viu numa posição de redenção ao defender dois pênaltis e manter a seleção canarinho na competição. Nessa referida entrevista ele transmitiu todo o sentimento represado que esmagava seu peito. Se você acompanha o APENAS há algum tempo, sabe que não sou muito fã de futebol e, por isso, não costumo assistir a jogos. Esse meu desinteresse pessoal me fez assistir às três primeiras partidas do Brasil na Copa com certa estoicidade, a ponto de ter chegado em casa aos 25 minutos de jogo na disputa contra o México (aproveitei as ruas vazias para resolver algo que precisava fazer). Assim, a possibilidade de os jogos do Brasil mexerem com minhas emoções era bem reduzida. Mas aí chegou Julio César. E, quando ele chorou, eu chorei junto.

Fiquei pensando sobre esse fato depois. O que levou a mim, alguém que não dá muita atenção a futebol, a derramar lágrimas junto com Julio? Eu não passei pelo que ele passou. Não vivenciei na pele suas noites insones, o ostracismo profissional, os olhares maldosos, as críticas ferrenhas. Não tenho ideia do sentimento que assolou aquele homem pelos últimos quatro anos. E, embora tenha vivido uma pequena parcela da emoção dele quando defendeu os pênaltis e, assim, manteve o Brasil na Copa, certamente minha emoção não resvalou a sola da chuteira da dele em termos de intensidade. Então por que eu chorei? Por que solucei ao ver os olhos vermelhos, a falta de palavras, os lábios trêmulos, a explosão contida de sentimentos daquele homem?

Empatia.

Empatia é o fenômeno emocional de identificação com uma pessoa. É quando conseguimos entrar na pele do outro e sentir o que ele sente. Sentir empatia pela dor alheia faz você chorar abraçado a um amigo que perdeu um parente que você nem ao menos conhecia, faz você levar doações a uma cidade distante após uma enchente por ter ficado tocado pela tragédia de terceiros, faz você sentar no meio-fio ao lado de um mendigo para bater papo enquanto ele come uma refeição que você entregou, faz você abrir mão de benefícios próprios em função do outro. Em linguagem bíblica, empatia é o que Paulo definiu muito bem em Romanos: “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram.” (Rm 12.15).

choro1É impossível ser cristão se você não tem empatia. Jesus falou sobre isso na parábola do bom samaritano. Os religiosos de então não sentiram empatia pelo homem que vivia aquele momento de sofrimento, mas o samaritano sentiu. “Um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele” (Lc 10.33). A  piedade que leva à ação é prova de que houve empatia. E sublinhe “que leva à ação”, porque piedade no discurso mas que não gera nenhuma atitude concreta é, na verdade, hipocrisia maquiada de boas intenções. Foi impossível para aquele samaritano deixar o outro homem caído, desassistido. Ele sentiu em si a dor do próximo, o amou e agiu em favor dele. Com isso, cumpriu o grande mandamento, de amar o próximo como a si mesmo. Fica claro, então, que só consegue amar o próximo quem consegue sentir a dor dele. Chorar com ele. Quem não sente empatia pelo sofrimento alheio não passou pelo novo nascimento: é absolutamente impossível alguém que foi regenerado pelo Espírito Santo dar as costas à dor do próximo. Impossível.

Sem empatia não haveria a encarnação de Cristo e, tampouco, salvação. A Bíblia fala que a motivação de Deus ao enviar o Filho em sacrifício por muitos foi a empatia do Criador por suas criaturas: “Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). A Trindade se compadeceu da humanidade, sentiu em si a dor do pecado e da perdição e agiu em nosso favor. Não é à toa que a redenção veio mediante toda a dor que Jesus sentiu, ao ser abandonado, humilhado, espancado, cuspido, açoitado, crucificado. É como se ele nos dissesse “Quero sentir em mim a dor que o pecado causa em vocês”.

Os evangelhos nos mostram que a empatia de Jesus pelos sofredores o acompanhou durante todo seu ministério terreno. Podemos ver que ele agiu muitas vezes em favor dos necessitados movido unicamente pela íntima compaixão que sentia por eles (Cf. Mt 9.36; 14.14; 15.32; 20.34; Mc 1.41; 6.34; 8.2; Lc 7.13). Assim, a empatia de Cristo pela humanidade é a raiz daquilo que devemos ter em nós como fruto, para nos conformarmos à imagem de Jesus. Alguém que não consegue se alegrar com os que se alegram e, principalmente, chorar com os que choram precisa urgentemente buscar a face de Deus, porque algo não está bem em sua espiritualidade. Fé cristã pressupõe empatia.

“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’” (Mt 25.37-40). A Bíblia é clara: só quem chora com quem chora tem parte com Cristo.

cruzÉ devido à empatia pelo próximo que somos levados a doar para os necessitados, pregar para os perdidos, amparar os pobres, abraçar os solitários, amar os inimigos, perdoar os que nos ofenderam, dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. A empatia é o princípio da solidariedade, da caridade, do amor cristão. Nada mais triste do que ver um cristão egoísta ou sovina, pois isso revela muito sobre a sua fé. Quer saber a resposta para a pergunta do título deste texto? Quer saber como anda a sua fé? Basta se lembrar de quando foi a última vez que você sentiu em si a dor do outro e agiu desinteressadamente em benefício de alguém. De quando abriu mão de si pelo próximo. De quando derramou lágrimas junto com o triste, o fraco, o abatido – simplesmente porque ele também estava derramando lágrimas. Tem muito tempo? Fez isso muitas vezes? Pense nessas perguntas e, quando tiver uma resposta, você terá uma boa medida de como anda a sua fé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

JudasSempre que lemos a Bíblia, nos identificamos mais com certos personagens e assumimos uma postura de oposição a outros. Isso é natural e todos fazemos isso. Como conhecemos bem as histórias das Escrituras, já sabemos a forma como os relatos acabam e, por isso, criamos empatia com os heróis – em geral, nos colocamos no lugar dos grandes homens e mulheres de Deus. O que não notamos é que, se estivéssemos no lugar dos vilões, muitas vezes provavelmente agiríamos exatamente como eles. Se você consegue perceber esse fato, muita coisa muda na sua forma de ser, você cresce em humildade e, assim, se aproxima de Deus. Deixe-me dar alguns exemplos, para deixar mais claro o que estou dizendo.

Na parábola do bom samaritano (Lc 10) todos olhamos torto e falamos mal daqueles malvados sem coração que passaram pela estrada e não prestaram socorro ao pobre homem que estava largado à beira do caminho. Todos cremos que agiríamos exatamente como o samaritano, que parou, cuidou do ferido, doou seu tempo e seu dinheiro a ele. Jamais nos identificamos com o sacerdote e o levita que foram cuidar de sua vida e de seus próprios interesses e não deram atenção ao homem que jazia ali, necessitado de uma mão estendida. Bem, agora pensemos na vida real. Tente calcular quantas vezes você viu alguém literalmente caído na rua, dormindo sob uma marquise ou desabado de embriaguez e parou para ajudá-lo. Foram muitas? Agora faça as contas de quantas vezes viu gente nessas situações e simplesmente continuou em seu caminho, sem fazer absolutamente nada pelos tais. Ouso dizer que você deu as costas ao seu semelhante muitas, mas muitas vezes mais do que parou para prestar auxílio. Estou errado? Se estou, você é uma pessoa bem melhor do que eu, que deixei pessoas caídas à beira do caminho infinitamente mais vezes do que parei para ajudar. Isso sem falar naquelas que, metaforicamente, estão feridas e desesperadas por amparo e socorro e que fingimos não ver e largamos para lá. A realidade é que não somos muito diferentes daquele sacerdote e do levita.

Mulher adulteraOutro exemplo: no caso da mulher adúltera (Jo 8), sempre olhamos para os escribas e fariseus com olhar condenatório. Como podem aqueles legalistas desalmados não perdoar a pobre mulher? Mas… sejamos sinceros. Ponha-se naquele lugar, naquele contexto. Se você estivesse no meio da multidão, será que não teria uma pedra em sua mão? Será que não olharia para aquela pecadora e pensaria que ela merecia mesmo aquela punição? Qual de nós, se estivesse naquela situação, pensaria em dizer “nem eu te condeno, vá e não peques mais”? Ouso dizer que a grande maioria cumpriria a lei e quebraria alguns dos ossos dela com prazer. Afinal, é o que fazemos hoje também. Sejamos francos: não somos muito adeptos do perdão, em nossa vida diária cremos que condenações sumárias e apedrejamento dos “pecadores” é o que agrada a Deus. Em geral, quando sabemos que um irmão pecou, exigimos juízo acima de tudo e não nos lembramos muito da graça, da restauração. Na internet, então, o que mais se vê hoje em dia são cristãos que vivem jogando pedras para todos os lados, acusando, atacando, ofendendo, alfinetando, lançando indiretas, apedrejando. Basta olhar redes sociais, blogs, sites e streams de vídeo de cristãos para perceber que há multidões de irmãos em Cristo que passam os dias tacando pedregulhos virtuais – numa postura de pretensa superioridade espiritual, exatamente como aqueles escribas e fariseus. A realidade é que não somos muito diferentes daqueles homens.

Vamos além. Pense no rico e em Lázaro (Lc 16). Todos condenamos aquele rico desumano e louvamos o mendigo. Mas, na vida cotidiana, quem de nós deixa de lado nem que seja por um tempo o conforto e os bens para dar aos pobres e necessitados algo que vá além das migalhas que caem de nossa mesa? Seria muito atrevimento meu dizer que não somos tão mais generosos assim do que aquele homem rico?

Davi e GoliasDavi e Golias, então, nos oferecem uma reflexão peculiar. Nenhum de nós jamais se considera o filisteu da história. Vivemos dizendo coisas como “temos de derrotar os gigantes”, ou “Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?” e em 100% das vezes nos pomos no lugar de Davi. Jamais no de Golias. Mas pense um pouco. Quantas vezes você foi o mais forte em uma situação e humilhou o mais fraco? Quantas vezes usou de sarcasmo na sua fala contra quem discorda de você? Quantas vezes abusou do poder de que dispõe para rebaixar os menores? Em nossa superioridade, muitos cristãos oprimem os mais fracos. A realidade é que não somos muito diferentes de Golias.

Marta sempre é criticada por sua postura no relato de Lucas 10. Mas já perdi a conta de quantas vezes preferi enveredar pelo ativismo em vez de priorizar a intimidade com Jesus. Na teoria, sempre nos vemos como Maria, mas, na prática, agimos em incontáveis situações como Marta. Optamos por trabalhar para Deus em detrimento de comungar com ele. A realidade é que não somos muito diferentes de Marta.

E poderíamos prosseguir indefinidamente. Sempre admiramos Abigail e criticamos Nabal, sem reparar a quantidade de vezes em que nos negamos a ajudar quem nos pede auxílio. Sempre cremos que nunca agiríamos como Pedro e Judas, mas traímos diariamente Jesus com nossas atitudes pecaminosas e escolhas equivocadas. Sempre condenamos Pilatos, mas lavamos as mãos numerosas vezes diante de situações em que poderíamos interferir mas permanecemos apáticos em benefício próprio. Sempre achamos que somos exatamente como Estevão mas na primeiro risco que corremos saímos correndo covardemente e deixamos os outros para lá, como fizeram os discípulos no Getsêmani.

A realidade é que agimos diariamente como os vilões da história.

mea culpaNão há crescimento na fé ou vida com Cristo sem o reconhecimento deste fato: nós erramos. Somos transgressores, mentirosos, egoístas, sovinas, egocêntricos, medrosos, ativistas, maus. Nossa natureza nos afasta do ideal cristão. Agimos exatamente como Paulo – não como o grande apóstolo Paulo, mas o grande pecador Paulo -, que revela sua natureza falha numa das confissões mais lindas da Bíblia (que não me canso de reproduzir nas reflexões que compartilho no APENAS, tamanho é o exemplo de humildade e transparência que Paulo dá por meio destas palavras):

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.14-25).

cruz de CristoNosso valor vem de Cristo. É ele quem nos justifica, santifica, edifica. É somente por ele que somos mais que vencedores. Longe de Jesus somos perdedores da pior espécie. Sem ele nada podemos fazer. Peço a Deus que essa percepção nos conduza sempre aos pés do Senhor, em humildade e reconhecimento de que somos pó. Só o Cordeiro nos livra do merecido inferno. O céu é um presente gracioso de Pai para filho. Somos os vilões da história da humanidade, mas Cristo tem o poder de nos regenerar, amenizando nossa culpa e absolvendo-nos de nossa vilania.

Meu irmão, minha irmã, seja sempre amoroso e gracioso com seu próximo. Lembre-se de que você não é tão melhor assim do que ele. Pense que muitas e muitas vezes as suas atitudes são iguaizinhas às dos vilões da Bíblia. Se você reconhecer esse fato, Deus vai exaltá-lo, ampará-lo e lhe dar graça. E, no último dia, você ouvirá do Pai: “Muito bem, servo bom e fiel…” (Mt 25.21).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

paciencia1Vivemos dias de grande impaciência. A fila do supermercado nos irrita; esperar mais do que trinta segundos pelo download nos chateia; o engarrafamento nos transtorna; “KD VC?!”, cobramos, pelo celular, da pessoa que ainda não chegou onde marcamos; meu Deus, nove meses para nascer o bebê! Não sabemos mais esperar. Em poucas décadas, a humanidade aprendeu que tudo está ao alcance de um botão, que a food pode ser fast, que a pipoca de microondas estoura mais rápido, que um clique do mouse resolve tudo na hora; que esperar é perder tempo. Só que não temos tempo a perder! Aliás, tempo temos, nós é que não queremos mais perder tempo. Tudo é pra já. Nada mais em nossa vida nos treina para sermos pacientes, pelo contrário, a rapidez de tudo nos adestra, na verdade, para sermos especialistas em impaciência. Não sabemos esperar com tranquilidade. Infelizmente, a cultura do “é pra ontem” tem cobrado um preço alto de nossa vida espiritual e de nosso relacionamento com Deus.

“Esperei com paciência no SENHOR, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor” (Sl 40.1). As palavras do salmista soam bastante fora de moda, pois esperamos com cada vez menos paciência que Deus cumpra seus propósitos. Oramos sempre na expectativa de uma cura instantânea – se ela vier daqui a uma semana é porque o Onipotente está meio fora de forma. Barganhamos fé em troca de pressa. Seis meses desempregado? Que Deus é esse? A oração precisa ter resposta imediata. O amor que ainda não apareceu? Anda logo, Onipotente! O parente que ainda não foi salvo? Acho que não tem mais jeito para ele. Chegamos ao Senhor como quem chega ao balcão do McDonald’s, exigindo uma bênção crocante e quentinha – se chegar fria ameaçamos mudar para a concorrência, como muitos que abandonam o evangelho porque não foram atendidos na hora em que queriam. Nossa impaciência tem nos levado a viver um cristianismo bem diferente daquele que a Bíblia ensina. É o cristianismo do Deus express.

paciencia2Só que o Deus da Bíblia não é assim e seus servos não devem esperar que ele seja de outro jeito. Na vida de Abraão, por exemplo, sempre destacamos a sua fé, mas o autor de Hebreus mostra que a paciência foi indispensável para o êxito do patriarca: “E assim, depois de esperar com paciência, obteve Abraão a promessa” (Hb 6.15). Queremos que a promessa se cumpra, mas não temos paciência de esperar por ela. Fé, meu irmão, minha irmã, é algo ligado intimamente à paciência. Paulo deixou isso claro: “Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.25). Não basta ter fé se ela só durar até o limite da paciência. Entenda que ter fé significa ter a certeza de algo que virá (Hb 11.1) e, se é uma certeza, você espera por toda a eternidade que ocorra. Fé que acaba ou que se abandona depois de algum tempo não é fé, pois certeza implica em paciência para se aguardar quanto tempo for preciso.

Paciência não é uma opção em nossa vida espiritual: ela é indispensável. O cristão que não sabe esperar com paz no coração aquilo que almeja acabará vivendo crises difíceis. Pois ter paciência significa ser capaz de tolerar contrariedades, dissabores e infelicidades. É esperar o que se deseja em sossego e com perseverança. “Mas, se somos atribulados, é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso conforto, o qual se torna eficaz, suportando vós com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos” (2Co 2.1-6).

paciencia3Paciência, aliás, faz parte da essência do Senhor: “Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus (Rm 15.5). Que expressão linda: “Deus da paciência”. Não é de se espantar que uma das virtudes do fruto do Espírito seja, exatamente, paciência (Gl 5.22-23), pois, para nos conformarmos à imagem de Cristo, precisamos ter em nós aquilo que ele é. E é fundamental lembrar sempre que fazemos parte de um povo que baseia toda sua crença religiosa numa esperança que exige de nós paciência: “Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas. Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima. Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas. Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais falaram em nome do Senhor. Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo” (Tg 5.7-11). Se não tivermos paciência para esperar pelo retorno do Senhor, de que adianta tudo o que vivemos?

Sei que eu e você fomos criados para viver em uma sociedade que não sabe esperar, que deseja tudo para ontem, que tem respostas e comodidades a um botão de distância. Mas o evangelho nos convida a contrariar essa ideia. Se queremos viver plenamente segundo a esperança que nos foi proposta, precisamos aprender a esperar com paz na alma. A respirar fundo e deixar Deus ser Deus, isto é, a agir no tempo que tem planejado. É por ser impacientes que muitos de nós enfiamos os pés pelas mãos e, tal qual Saul sacrificou sem ter esperado a chegada de Samuel, agimos precipitadamente e tomamos escolhas erradas – com consequências que podem ser desastrosas. Muitas vezes, temos de abrir mão de algo por anos se desejamos que Deus aja. O preço da impaciência costuma ser muito alto.

A Bíblia nos mostra que o Senhor age quando quer agir e não quando nós queremos. Jesus não chegou à casa de Lázaro quando Marta e Maria queriam, mas quando o defunto já cheirava mal. Embora não parecesse aos homens, era o momento certo para Deus. O cativeiro babilônico durou 70 anos. A escravidão no Egito, 400. Às vezes, o calendário divino demanda bastante tempo. Entre a primeira e a segunda vindas de Jesus já se passaram mais de dois mil anos, e a ampulheta segue escorrendo areia. Por que essa ansiedade toda? Por que essa impaciência toda? Você não confia? Será que Deus não é a melhor pessoa para dizer a hora certa de algo acontecer?

paciencia4Calma. Paciência. Paciência, meu irmão, minha irmã. Deixe-se guiar sempre pelas palavras de Davi: “Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará. Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito, como o sol ao meio-dia. Descansa no SENHOR e espera nele [...] Deixa a ira, abandona o furor; não te impacientes…” (Sl 37.5-8). Que o Deus da paciência acalme o seu coração, a fim de que você olhe cada vez menos para o relógio e cada vez mais para a cruz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

sal e luzSe você foi um aluno atento às aulas de física na escola vai se lembrar de um princípio chamado “impenetrabilidade”. Esse palavrão estabelece que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Ou seja: ou eu estou no lugar X neste momento ou outra pessoa está. Eu e meu próximo de maneira alguma podemos estar no mesmo lugar, no mesmo instante. Essa lei da física encontra paralelo numa lei espiritual: é impossível eu ocupar o lugar de primazia nas minhas atitudes e o meu próximo também: ou eu me priorizo ou eu priorizo o meu próximo, não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, se eu quiser ser sal da terra e luz do mundo, cumprindo o grande mandamento, que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo, terei de negar-me e preferi-lo em honra.

Em linguagem bíblica: para que eu cumpra isto: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12.30-31), é preciso que eu faça isto: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23) e também isto: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10).

Hoje ocorreu um episódio simples mas que me mostrou de forma prática essa realidade espiritual. Escrevo este texto no dia do jogo de Brasil contra México, pela Copa do Mundo de futebol. De manhã, fui levar minha filha à escola. Chegando lá, muitos de seus coleguinhas já se encontravam no pátio, brincando, a maioria vestida de verde e amarelo, com camisas e enfeites com as cores da seleção brasileira. Toda vez que vou deixar minha filha no colégio, os coleguinhas dela voam em cima de mim, comentando coisas e me chamando para brincar. Eu entrei no clima.

Começamos a falar animadamente sobre a roupa que cada um usava, os enfeites, a Copa et cetera. Foi quando Pablo se aproximou. Na turma da minha filha há dois estrangeiros: uma menina inglesa e esse menino, que chamo de Pablo (como não tenho autorização de seus pais, não faria a indelicadeza de postar na internet seu nome verdadeiro). Ocorre que Pablo é mexicano. E lá estava ele: o inimigo. O adversário. Bem no dia da batalha, infiltrado entre nós. Levado pela empolgação do momento, acabei dizendo para aquele garotinho de apenas 3 anos uma frase impensada e horrível:

- Ih, Pablo, hoje você vai perder.

Amor2Não se passaram três segundos e o Espírito Santo já dava um cartão vermelho para a minha consciência. Pablo vive em um país estranho e já enfrenta todas as dificuldades que isso gera. Fico imaginando nesse dia específico, todos os seus amigos torcendo por um país diferente do seu, gritando “Brasil! Brasil!”, enquanto em casa seus pais torcem pelo México. Que confusão isso deve gerar em sua cabecinha. E, de repente, chego eu, o adulto mais insensível e bruto da face da terra, e mando essa. “Você vai perder”. Meu Deus… nota zero para mim. A carinha de confusão e tristeza que o querido Pablo fez, assim que falei isso, rasgou meu coração. Eu me senti um animal estúpido, fazendo mal a uma criancinha.

Na mesma hora, o meu peito apertou e percebi o absurdo que cometi. Fiz um dos piores tipos de bullying. Naquele momento percebi que só havia um meio de consertar o meu erro: amar o próximo. Preferi-lo em honra. Negar a mim mesmo. Era o mínimo que podia fazer. Então, segundos após ter dito aquela frase ignorante, bárbara e altiva, tive uma ideia. Voltei-me para a criançada e conclamei:

- Pessoal, o Brasil é legal, mas o México também! Quem acha o México legal?!

E o coro:

- Eeeeeeeeuuuuu!!!

- Entao vamos lá: México! México! México! México! México! México! México! México!

E, quando me dei conta, havia um monte de crianças pulando, vibrando e se abraçando, vestidas de verde e amarelo, demonstrando afeto pelo “adversário” e amando o “inimigo” aos gritos de “México!”. O resultado me trouxe alívio: no meio deles, Pablo saltava, alegre e sorridente, não mais com aquele olhar confuso e abatido de quem sofreu desamor, mas com a felicidade de quem é amado pelo próximo. Fui antipatriota? Pode ser. Mas, naquele momento, me senti muito mais um cidadão da pátria celestial do que o cidadão do mundo que segundos antes oprimira uma pobre criancinha.

Lamento, meu irmão, minha irmã, mas muitas e muitas vezes você terá de abdicar de si caso queira amar o próximo. Terá de abrir mão de seu tempo, de seu dinheiro, das suas vontades, do seu orgulho, da sua vaidade, de seu conforto, da sua primazia e de tantas outras coisas. A boa notícia é que, se isso significa perder algo na terra, também significa ganhar muito no céu. Deus aprecia quando brasileiros gritam “México! México! México! México!” em favor de uma criancinha mexicana.

Amor3Assisti ao jogo com uma camisa amarela, mas o coração um pouco mais mexicano – e feliz por isso. Deixo aqui a sugestão: da próxima vez que você se vir diante de uma situação em que, para cumprir o mandamento de amar o próximo, veja que precisa abrir mão de vantagens pessoais, tenha em mente este grito: “México! México! México! México!”. Peço a Deus que isso lhe dê o impulso necessário para agir em favor do mexicano que cruzar o seu caminho. Seja esse mexicano seu amigo, inimigo, brasileiro, estrangeiro, cristão ou ateu. Pois, ao fazer bem a ele, você estará fazendo bem, antes de tudo, a um israelense que deu sua vida por bilhões de cidadãos de uma pátria que não era a sua.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Xingamento1Depois que postei o texto O futebol e a religião, muitos irmãos e irmãs me escreveram fazendo perguntas sobre assuntos relacionados a como deve ser o comportamento do cristão ante uma série de questões relacionadas à Copa do Mundo e aos protestos que vêm ocorrendo pelo país. Normalmente eu evito que as reflexões que compartilho no APENAS sejam pautadas pelo que está nas manchetes dos jornais, mas, desta vez, entendo que vale a pena compartilhar pensamentos sobre um dos temas que mais me foram perguntados: os xingamentos que a presidenta Dilma sofreu no jogo de abertura da competição, de Brasil contra a Croácia. Pois esse é um assunto importante e que está diretamente ligado a duas questões bíblicas fundamentais: o respeito à autoridade e o amor ao próximo. Afinal, a insatisfação com atitudes de nossos superiores hierárquicos nos permite reagir a eles com ímpeto semelhante ao demonstrado no Itaquerão?

Não.

E gostaria de explicar por quê.

O episódio reflete uma característica dos nossos tempos. Vivemos uma época de total desrespeito pela autoridade, seja ela qual for. Filhos têm desrespeitado os pais. Alunos têm desrespeitado professores. Empregados têm desrespeitado patrões. Cidadãos têm desrespeitado seus governantes. O desrespeito tem ido muito além de apenas não acatar as decisões, ele se manifesta em ofensas, agressões, confrontos e, até, ameaças. É sempre bom lembrar que a rebelião contra a autoridade foi o que levou Satanás a ser expulso da presença de Deus e a ser condenado ao lago de fogo e enxofre por toda a eternidade. Insubmissão e desrespeito pelos superiores hierárquicos são consequência de arrogância, postura sobre a qual a Bíblia afirma: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniqüidade” (Sl 5.5) (veja mais sobre arrogância clicando aqui).

Essa arrogância nada mais é do que sinal de que vivemos os últimos dias, como Paulo profetizou dois milênios atrás: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes” (2Tm 3.1-5).

Xingamento2Nessa passagem há uma referência direta a um dos Dez Mandamentos, que fala do respeito e da obediência à autoridade paterna: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá” (Êx 20.12). O século 21 tem sido marcado por uma geração de filhos rebeldes, que destratam pai e mãe, não acatam suas determinações, se consideram independentes daqueles que os criaram. Não é de se estranhar, portanto, que o desrespeito exercido no lar seja repetido em relação a outras autoridades – no trabalho, na igreja, na sociedade, na nova família. E isso é gravíssimo. Se você não tem honrado seu pai ou sua mãe, saiba que incorre em um pecado perigoso – a despeito de eles merecerem ou não o respeito; o mandamento não é condicional.

E aqui chegamos a um ponto essencial. Um dos grandes problemas de nossos dias se refere à ideia equivocada de que só devemos cumprir as ordens divinas “se”. Como assim? “Só vou respeitar meu marido se ele fizer isso e aquilo”; “Só respeitarei meu patrão se…”; “Só respeitarei o governante se…”. Mas a Bíblia não põe “se” nessa história. Devemos honrar pai e mãe independentemente de eles merecerem. As esposas devem se submeter ao marido independentemente de ele amá-las como Cristo amou a Igreja. Os empregados devem obedecer os patrões independentemente de eles serem gente fina. Os cidadãos devem ser respeitosos aos governantes independentemente de concordarem politicamente com suas decisões. O único “se” bíblico à autoridade é caso ela esteja obrigando você a fazer algo que contraria a vontade de Deus. Assim, não devem ser acatados arbítrios, por exemplo, de maridos que propõem práticas sexuais ilícitas, patrões que exigem de você atitudes fraudulentas ou desonestas no trabalho, leis que obrigam a fazer o contrário do que está nas Escrituras. A Lei de Deus sempre vem antes da lei dos homens, justamente porque sua autoridade é superior.

Xingamento3Mas nada justifica o desrespeito. Cristo demonstrou isso na prática. Repare que Jesus em momento algum de seu julgamento desrespeita Pilatos ou os mestres da lei e os sacerdotes. Esse é o xis da questão. Nossa postura deve ser sempre de muito respeito. O que fizeram com a presidenta da república foi uma desonra ao ser humano que ela é e ao cargo que ocupa de forma legítima e democrática – e isso independentemente de concordarmos ou não com seu governo e suas ações. E entenda que isso não tem absolutamente nada a ver com política ou com apoiar o partido de que ela faz parte, tem a ver com a Bíblia. Nada justifica aquela barbaridade. Você quer agir conforme a vontade de Deus mas não está satisfeito com o governo? Então, o que você deve fazer é, primeiro, orar: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador” (1Tm 2.1-3). Em seguida, pode fazer duas coisas: manifestar-se de forma pacífica e/ou expor seu protesto nas urnas, por meio do seu voto.

Xingar com aquele nível de agressividade e ofensa é algo inadmissível da parte de qualquer ser humano e para qualquer ser humano. Foi um ato que de cristão não tem nada – logo, foi satânico. “O Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo, especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos” (2Pe 2.9-12). Xingamento4Repare que Pedro não coloca nenhum “se” ao que diz aqui. Parece que muitos cristãos que defendem (e/ou praticam) a agressão, a ofensa e o desrespeito à autoridade se esquecem de uma verdade universal: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (Rm 13.1-7).

Meu irmão, minha irmã, a Bíblia é claríssima. O respeito à autoridade é um princípio que permeia as Escrituras desde Gênesis até Apocalipse. O conceito do respeito aos hierarquicamente superiores está presente o tempo todo na Palavra de Deus, da desobediência de Adão, no Éden, até o anjo que não permite que João se prostre diante de si. Outro princípio é o da paz, que é uma das virtudes do fruto do Espírito e é uma qualidade de pessoas que Jesus apontou como bem-aventuradas – prova de que devemos sempre buscar promover a paz. Por fim, o principio do amor ao próximo tem de estar presente em cada atitude nossa. Portanto, você sempre deve se perguntar, quando tiver alguma dúvida sobre seu posicionamento em relação a alguma autoridade: a forma como estou agindo condiz com os princípios do respeito, do amor e da paz? Se perceber que não, não é bíblico.

Quero enfatizar: esta não é uma reflexão política, muito menos político-partidária. É espiritual. Uma vez que isso esteja claro, preciso dizer que os xingamentos a Dilma foram uma postura errada, deselegante, mal-educada, infeliz, desrespeitosa e antibíblica. E assim teria sido se quem estivesse ali fosse qualquer outro presidente, de esquerda ou de direita; ou se fôssemos eu, você ou outra pessoa sem cargo ou posição. O caminho não é esse. A solução não é essa. A atitude não é essa. Respeito, sempre. Amor, sempre. Paz, sempre.

Xingamento5Discordar não é pecado. Manifestar insatisfação não é pecado. Mas isso deve ser feito com mansidão e honra – com qualquer um e em qualquer circunstância. O Sermão do Monte deixa isso extremamente evidente. A agressão à presidenta aconteceu porque quem a xingou acredita que ela tem errado em suas ações. Gostaria de lembrar que eu e você erramos em nossas ações todos os dias. Apesar disso, Deus não nos tratou como merecíamos, mas enviou Jesus para morrer pelos nossos erros. Que estendamos a todos a mesma graça que o Senhor manifestou a nós. Fora disso não há cristianismo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Futebol e religiãoA Copa do Mundo começou. Assisti a um excelente programa de televisão estrangeiro, em que o apresentador John Oliver analisa esse evento de forma coerente e divertida. Se você fala inglês, recomendo assistir ao vídeo inteiro, é muito bom (veja AQUI). O que mais me chamou a atenção foi a explicação que Oliver dá ao fato de que, apesar dos inúmeros absurdos envolvidos na realização desta Copa e dos descalabros praticados pela FIFA, ainda assim as pessoas estão empolgadas com a competição e ansiosas pelos jogos. Para ele, a razão é que “futebol é como uma religião”. Fiquei pensando sobre isso e gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o assunto. O que leva alguém a comparar um simples esporte a algo tão sublime, transcendente e celestial como uma religião? (E entenda que me refiro a religião como o religare do homem com Deus e não a um sistema engessado de práticas e liturgias. Se desejar entender melhor essa diferença você pode ler este post).

Primeiro, porque a fé religiosa é algo que mexe com o mais íntimo de nosso ser, desperta paixões, produz debates acalorados. A religiosidade afeta tudo em nós: influencia nossos valores, pensamentos, ações; enfim, tudo aquilo que somos e fazemos. Isso é bem visível, também, no futebol: quem aprecia veste a camisa e a defende como a um manto sagrado. Por exemplo, é preciso muita paciência para lidar com torcedores que, toda segunda-feira, parece que não têm assunto além do jogo da véspera. Durante certo tempo, um vizinho invariavelmente encontrava comigo no elevador e engrenava uma conversa animadíssima sobre o mais recente desempenho do Flamengo. “E o mengão, hein, rapaz, que garfada!” E eu: “É… am-ham…”, com aquele sorriso amarelo no rosto e sem fazer ideia do que ele estava falando. No dia em que confessei a ele que não acompanho futebol e não assisto a jogos, nossos próximos encontros passaram a ser sempre silenciosos – parecia que, se não fosse para falar de bola, não havia assunto. Deixei de ser um bom papo para ele, uma vez que futebol era o que mexia com tudo à sua volta. E não foram poucas as vezes em que fiquei avulso em rodinhas de amigos amantes do esporte bretão, tão inteirado eu estava acerca do que eles falavam como uma girafa numa conversa sobre física quântica.

Brazilian attorney, Nelson Paviotti, poses with his two Volkswagen Beetles painted with the colors of the national flag in CampinasSegundo, porque futebol e religião criam fanáticos. Assisti a um vídeo recentemente de um advogado (foto) que fez a promessa, em 1994, de só se vestir de verde e amarelo pelo resto da vida caso a seleção brasileira fosse campeã. Dito e feito. Agora, ele promete só comer alimentos que tenham essas cores caso a seleção vença. Fiquei chocado. Mas o fanatismo está aí, e veio para ficar. É o crente que se torna um chato, por exemplo, por querer impor sua fé de qualquer modo aos não cristãos, sem compreender que quem converte é o Espírito Santo e não a nossa insistência. Fanatismo tem um quê de desequilíbrio. É diferente de ser radical. O radical é alguém equilibrado, que não negocia aquilo em que acredita por ter raízes muito bem fincadas no que crê; já o fanático é quem transborda sua fé de forma exuberante e, muitas vezes, excêntrica e, até mesmo, incômoda para quem está em volta. Radicalismo é elegante, fanatismo é extravagante. No futebol, o fanatismo por vezes torna-se assustador. Da última vez que fui ao Maracanã, para acompanhar parentes que moram no exterior, tive de sair com minha filha pequena das cadeiras e ir passear perto das lanchonetes, de tão assustada que ela ficou com os gritos, os gestos agressivos e os palavrões berrados pelos fanáticos que nos rodeavam.

EstatuaTerceiro, porque futebol e religião têm a capacidade de conduzir pessoas desequilibradas a um passo além do fanatismo, que é a intolerância. Você pode ser fanático por algo sem que isso te torne alguém agressivo a quem pensa diferente de você. Há o que poderíamos chamar de “fanáticos do bem”, ou seja, aqueles que são extremamente emotivos quanto ao que amam, mas que não fazem mal a quem pensa diferente de si. Já os intolerantes são os “fanáticos do mal”. Muitos se tornam irracionais, como os vândalos que recentemente quebraram e urinaram em uma estátua da Virgem Maria, um absurdo fruto de ignorância e da falta de entendimento acerca do que é o evangelho da graça e da paz. No futebol, isso também é assim. Torcedores espancam e matam seres humanos que torcem para outro time simplesmente porque… bem, porque torcem para outro time. A intolerância leva pessoas a agredir outras somente porque se enganaram e entraram com a camisa do outro time no meio da torcida organizada, assim como leva cristãos desequilibrados a agredir homossexuais e espíritas. Em ambos os casos, a intolerância fere o princípio do amor e o da graça.

Há outros pontos que identificam futebol e religião, mas, para não me alongar demais, eu gostaria de tratar de um aspecto que, em vez de assemelhar o futebol à religião, os diferencia: a racionalidade. E acredito que foi nesse ponto que John Oliver se baseou em seu programa para fazer a comparação entre futebol e religião. Na visão dele (e na de muitos), tanto o esporte quanto as crenças religiosas seriam alimentados por irracionalidade. Só que isso não é verdade. Sem racionalidade, a fé cristã não é fé cristã.

BrasilO amor pelo futebol, em qualquer nível, é irracional. Seja você um saudável e comedido apreciador desse esporte ou um intolerante e agressivo torcedor, seu envolvimento com o time do seu coração não se dá de forma racional. Eu explico: você saberia racionalizar por que torce para este ou aquele time? Será que é porque ele é o melhor de todos? Bem, o campeão de hoje estará na segunda divisão amanhã, então o conceito de “melhor” é relativo. A verdade é que você torce para quem torce por razões emocionais e não racionais. Como alguém que se apaixona por um amor impossível, você se apaixonou por uma equipe e passou a torcer por ela sem que haja uma explicação lógica imediata – talvez tenha adotado como seu o time que era de seus pais, por exemplo, ou vai ver que gostou das cores da camisa na sua infância. Não se sabe exatamente o que leva alguém a escolher este ou aquele time para ser o seu. Se não fosse assim, eu não teria torcido para a seleção brasileira até 1994, quando a vi ser campeã pela primeira vez. Eu e você torcemos para o Brasil porque tem a ver com a nossa relação emocional com nossa pátria.

leitura biblicaNa religião, entretanto, se as decisões são irracionais, isso só vai gerar problemas – em todos os âmbitos. “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados de suas calúnias. É melhor sofrer por fazer o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal” (1Pe 3.15-17). Repare: “razão da esperança”. Pedro está falando de racionalidade. A fé necessariamente tem de ter um componente racional. A sua conversão aconteceu no dia em que a graça de Deus se manifestou em sua vida e o Espírito Santo conduziu você a perceber, racionalmente, que o evangelho faz sentido. O teólogo Anselmo de Cantuária (1033-1109) apontou dois conceitos que se tornaram célebres na história do pensamento cristão: Credo ut intelligam (“creio para que possa entender”) e Fides quaerens intellectum (“a fé em busca de compreensão”). Com isso, Anselmo quis dizer que a tarefa da teologia é mostrar que crer é também pensar, ou seja, que não há uma oposição entre fé e reflexão intelectual (embora a fé tenha lugar de primazia). O que isso significa? Que não há como afastar a fé da racionalidade. Você crê porque Jesus e as boas-novas da salvação fazem sentido para você. Quando Paulo escreveu que “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18), estava mostrando que o cristianismo não faz sentido para os que não são salvos, mas, para nós, é totalmente compreensível e nos soa até estranho que alguém não creia no que nós cremos.

Se passarmos a viver nossa fé de modo irracional, isso criará enormes distorções. Passaremos a acreditar em falsas doutrinas, adotaremos práticas bizarras em nossos cultos, agiremos de modo diferente do que a Bíblia nos orienta a agir, nos comportaremos de modo antibíblico com o próximo… são muitos os absurdos que podem ser praticados pela irracionalidade religiosa. Por isso, é extremamente necessário que nossa fé siga a lógica bíblica – pois fora da Bíblia a fé torna-se ilógica. E, se é ilógica, não é fé cristã. Muitos dizem que não há lógica em se ter fé, mas isso não é verdade. Há a lógica do mistério. Seguimos um Cristo que revelou seus mistérios até o limite que poderíamos compreender (observe que “compreender” exige racionalidade). Se assim não fosse, não poderíamos conhecer a vontade de Deus por meio de um livro. Pois leitura é um processo lógico e racional. Tudo o que propõe uma vida cristã baseada em pressupostos irracionais do ponto de vista bíblico… não é bíblico. Logo, não é cristianismo.

Amor ao proximoReligião e futebol têm, sim, muito em comum. Mas a nossa religião exige de nós um conhecimento bíblico que gera o equilíbrio. E esse equilíbrio vem mediante a prática do amor, da graça, da justiça, do perdão, da reconciliação e de muitas outras virtudes que o evangelho destaca. Por isso é tão importante estudarmos a Palavra. Se apenas vivermos a fé sem nos aprofundarmos em seu aspecto racional, acabaremos urinando em estátuas da Virgem Maria e nos tornando a “torcida organizada de Jesus”, que vive aquilo em que crê de forma ignorante, intolerante e irracional, espancando os diferentes e agredindo os que nos agridem. Se não vivenciarmos a fé racional, nos uniremos aos que tacam coquetéis molotov, paus e pedras nos que não concordam conosco. A História da Igreja mostra que esse é um caminho que leva para longe, muito longe, do único Caminho.

A Copa está começando. Vivamos este momento com amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.22-23). Vivamos a alegria do jogo junto com a irritação por tudo o que a realização dessa competição gerou em termos negativos, mas vivamos racionalmente, controladamente, com equilíbrio, como seguidores de Jesus e à luz dos ensinamentos bíblicos. Porque não há nenhum outro modo de se conformar à imagem de Cristo neste momento que não seja agindo como Cristo agiria: buscando a justiça, mas com alegria.

Sejamos diferentes, como todo cristão deve ser. Curtamos a Copa do Mundo de futebol em paz. Não permitamos que nada nem ninguém nos tire neste momento do caminho da serenidade, da santidade, da graça e do amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

 

 

Hipocrisia1Ninguém gosta de viver crises. Eu não gosto. Você não gosta. Crises são ruins, doem, machucam, entristecem, abatem. Elas podem vir com as mais variadas aparências: desemprego, doenças, divórcio, alcoolismo, opressão, escassez, pecados, agressões e por aí vai. Deus nos livre das crises. Mas… eis que vem a má notícia: elas são inevitáveis. Certeiras. Elas virão. Ninguém está isento de crises. Jesus as enfrentou, todos os apóstolos foram afligidos por elas, a Igreja primitiva as teve como companheiras constantes, os reformadores praticamente as convidaram ao peitar os religiosismos de então, você e eu tropeçamos nelas a cada esquina. Crises virão e são inevitáveis. Mas, sabe… crises têm um aspecto positivo, do qual devemos desfrutar: elas revelam quem cada pessoa realmente é.

Foi na hora da crise que Pedro mostrou que ainda pensava mais em si do que nos outros. Foi na crise que Judas revelou que, embora tivesse passado anos com Cristo, não compreendia o perdão divino. Quando a crise veio, Paulo e Pedro mostraram que não eram grandes especialistas em conciliação. À sombra da crise, Caim revelou onde estava seu coração com relação a Deus e a seu irmão. A crise expôs mais de uma vez que Abraão tinha uma indisfarçável covardia, ao fingir que sua esposa era sua irmã – diante de faraó e de Abimeleque. Os exemplos bíblicos são muitos e todos levam à mesma conclusão: crises revelam seu verdadeiro eu.

Hipocrisia3Na fome você descobre os caridosos. Na angústia aparecem os empáticos. Na dor se revelam aqueles que choram com quem chora. No escândalo caem as máscaras dos egocêntricos. Na pobreza somem os interesseiros. Na derrota permanecem os parceiros. Quando você não tem mais nada a oferecer se destacam seus verdadeiros amigos e desaparecem os falsos. “As riquezas multiplicam os amigos; mas, ao pobre, o seu próprio amigo o deixa” (Pv 19.4) – repare que “riquezas”, aqui, não se refere apenas a dinheiro, mas a tudo o que você pode oferecer aos demais. A crise peneira os que de fato têm amor no coração dos que têm apenas aparência de piedade.

No meio cristão merece nossa atenção especial a crise do pecado, uma vez que ela é a que mais mexe com cada um de nós. Na igreja, ela é uma das mais reveladoras que há. Quando alguém comete um daqueles pecados bem cabeludos, arrepende-se e seus irmãos em Cristo tomam conhecimento, é bom que ele se prepare, pois vai conhecer de fato quão santos, piedosos e verdadeiros são aqueles que o cercam. Os salvos o apoiarão e ajudarão na sua restauração. Os que não têm a natureza de Cristo lançarão pedras. Os medrosos sairão de perto. Os mansos e humildes de coração o abraçarão e o puxarão para cima. Em suma, é no pecado que se descobre quem realmente ama ao próximo como a si mesmo e quem ama a si mesmo como a si mesmo.

Por exemplo, você sistematicamente desonra pai e mãe, mas ninguHipocrisia2ém sabe disso. No dia em que esse pecado abominável vem à tona, muitos se afastam. Outros que te chamam de “amigo” deletam você de sua convivência – afinal, não pega bem associar seu nome a alguém que desonra pai e mãe. E por aí vai. É quando você chega diante da igreja e confessa publicamente que tem amado o dinheiro acima de seres humanos que muitos passam a atravessar para o outro lado da rua ao te avistar de longe, começam a te boicotar e demonstram que sua vida não lhes importava tanto assim.

Parece ruim? Então ouça a boa noticia: não é. Pois bendita é a crise que mostra quão cristãos os cristãos que te cercam são. Porque (preste bem atenção a isto)  o que demonstra se você é  cristão de verdade não é apenas se você peca ou não, mas como reage diante do pecado dos outros. Porque pecar 100% dos cristãos pecam, mas reagir como Cristo diante do pecado alheio… não é virtude de uma maioria.

A piedade de impiedosos não sobrevive na hora da crise. Nesse sentido, a crise é uma maravilha, pois ajuda você a enxergar com mais clareza ao seu redor. “Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos, muito embora ele tenha abandonado o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14) é um versículo que poucos conhecem e menos ainda o vivem no dia a dia.

Hipocrisia4Mas a crise não só revela a hipocrisia: ela põe os holofotes sobre os magnânimos. Pois é quando explode na igreja o escândalo de que você é um terrível preguiçoso que muitos chegarão até você com abraços amigos, palavras de consolo e restauração. É ao revelar publicamente que você não merece o céu porque é um glutão de primeira linha que os amorosos, pacificadores, bondosos e amáveis brotarão com braços abertos, mãos estendidas, ombros ofertados, colos à disposição, palavras de apoio e encorajamento e, acima de tudo, com aquilo que mais pesa nessas horas: sua presença. Pois os salvos permanecem na hora crise. Os que são amantes do próprio ventre vão cuidar de si.

Doença, pobreza, pecado, dificuldades, carência, depressão… são muitas as crises que podem pular à nossa frente. Possivelmente, ao longo da leitura desta reflexão, você imaginou pessoas que conhece e que se encaixam naquilo que foi descrito aqui. Eu perguntaria, então, se me permite: e você? Como você se comporta quando é o seu próximo que está em crise? Você permanece, apoia, ama, dá a cara a tapa, abre mão de seu tempo pelo outro, fortalece, diz palavras de amor… perdoa? Você dá as costas ou age em prol da restauração? O que a crise do seu próximo revela sobre você? Sobre sua fé? Sobre quanto ama as outras pessoas? Sobre seu cristianismo? Sobre sua vida com Cristo?

A crise virá, não tem jeito. Mas, quando ela for embora, tenha a certeza de que você terá recebido um magnífico presente do Pai que o ama: a revelação de como é de fato o coração daqueles que te chamam de “amigo”. Passada a crise, muitos “amigos” terão desaparecido – dê graças a Deus por isso. E os poucos que ficarem não serão mais seus amigos: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão” (Pv 17.17). Sim, louve a Deus pelas crises, pois elas farão brotar ao seu lado verdadeiros irmãos. E, dependendo de como você se comportar na crise do seu amigo, o Senhor lhe mostrará muito a respeito de como anda o seu próprio coração.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício