Arquivo da categoria ‘Felicidade’

aflicao1Existem momentos na vida em que parece que você está se afogando no seco. Já passou por alguma fase assim? É como se o ar faltasse, se a pressão em cima de você fosse maior do que é capaz de suportar, como se estivesse afundando rumo a profundezas escuras da sua alma. Debater-se não adianta. O grito é abafado e parece que a voz não sai. A palavra que melhor define esses momentos é aflição. É muito significativo que o dicionário liste como sinônimos de aflição justamente os termos “tribulação” e “tormento”, que têm, ambos, grande relevância bíblica. Dá para compreender quão angustiante é esse estado de ânimo perturbado quando percebemos em que circunstâncias as Escrituras utilizam essas duas palavras.

Tribulação é exatamente o vocábulo utilizado para designar o período escatológico que antecede a segunda vinda de Cristo. Será a época de maior sofrimento na história da humanidade. “Nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais. Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados” (Mt 24.21-22). Como os dois termos são sinônimos, a famosa expressão escatológica poderia ser substituída de “grande tribulação” por “grande aflição”. Já tormento é a palavra utilizada para falar do estado de sofrimento que as pessoas vivenciam no inferno, como no relato de Jesus sobre o rico e Lázaro: “No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio” (Lc 16.23).

Assim, podemos dizer que, biblicamente, uma pessoa aflita é a que está vivenciando os maiores estágios possíveis de sofrimento: Aflição é o que o povo de Israel enfrentou quando teve de suportar a escravidão no Egito. “Viste a aflição de nossos pais no Egito, e lhes ouviste o clamor junto ao mar Vermelho” (Ne 9.9). Aflição também é o que experimentou Jó, o homem que perdeu todos os filhos, os bens e a saúde: “Agora, dentro de mim se me derrama a alma; os dias da aflição se apoderaram de mim” (Jó 30.16). No original em hebraico, inclusive, a palavra usada nessas duas passagens é exatamente a mesma, ‛ŏnı̂y.

Será que você está passando por um momento de aflição? A sensação é a de estar se afogando no seco, debaixo de muita pressão, envolto em escuridão? Parece que ninguém ouve seu clamor por socorro? Você não sabe mais o que fazer, para onde correr, como sair dessa situação? As dores são muitas, as esperanças são poucas, as lágrimas tornaram-se companheiras inseparáveis? Então permita-me mostrar o que a Bíblia diz a quem está passando por aflições.

aflicao2Primeiro, é importante compreender por que Deus permite que sejamos afligidos. O Pai não é sádico. Tampouco nos odeia. Também não está alheio a nós. Muito pelo contrário: se sabemos que o Senhor é soberano e, ao mesmo tempo, só quer o que é melhor para cada um de nós, devemos sempre compreender que nossa aflição faz parte de um propósito divino mais elevado, que resultará em algo benéfico que na hora não entendemos. Se não fosse assim, ou nossa aflição denunciaria maldade no coração de Deus ou desdém da parte dele pela nossa vida. Mas ambas suposições são incompatíveis com o caráter do Senhor. Logo, devemos entender nossa aflição como a compreendeu o salmista: como algo que, de algum modo, contribui para o nosso crescimento e nossa aproximação de Deus. “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos [...] Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste” (Sl 119.71,75).

Deus é bom e cuida dos que lhe pertencem. Lembra da aflição do povo de Israel no Egito? Por 400 anos aquelas pessoas poderiam supor que o Senhor não estava vendo sua aflição nem ouvindo seu clamor, tampouco ciente de seu sofrimento. É de se imaginar que pensassem isso, afinal, não é o que muitos que estão afligidos pensam em nossos dias? Bem, então veja qual era a realidade dos fatos: “Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel” (Êx 3.7-8).

aflicao0A Palavra de Deus nos dá alento e esperança. Assim como o povo de Israel nunca foi ignorado pelo Senhor em sua aflição – que tinha um propósito -, nós, hoje, permanecemos incessantemente debaixo de atenção do Todo-poderoso. E, para os nossos dias, temos uma promessa que traz esperança e revigora os ânimos. Meu irmão, minha irmã, muitas são as suas aflições? Então saiba disto: “Muitas são as aflições do justo, mas o SENHOR de todas o livra” (Sl 34.19).

Se as lutas estão muito fortes, se você se sente como se estivesse se afogando no seco, se está passando por aflições… lembre-se de que Jesus confirmou: “No mundo, passais por aflições…”, mas, mais importante, nunca se esqueça do que ele declarou: “…tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). Está passando por aflições? Pois tenha bom ânimo, meu irmão, minha irmã. Nos piores momentos, nunca se esqueça: Jesus venceu o mundo e suas aflições. E, nele, você é herdeiro dessa vitória.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

felicidade1O mundo ficou chocado com o anúncio do suicídio do genial ator Robin Williams. Uma série de fatores contribuíram para que sua morte fosse especialmente chocante, mas creio que podemos resumir tudo a uma causa só: Williams tinha tudo o que o mundo diz que devemos almejar em nossa vida e, mesmo assim, esse tudo não foi suficiente para que ele desejasse seguir vivendo. Que contradição estranha! Veja se não é verdade: quando você pensa em felicidade, que conceitos vêm à sua mente? Em geral, nossa sociedade prega que, para sermos felizes, devemos ser ricos, famosos, bem-sucedidos profissionalmente e ter uma pessoa ao nosso lado a quem amemos e que nos ame. Robin Williams tinha tudo isso. Era milionário, conhecido internacionalmente, reconhecido na carreira, casado com uma esposa que o amava… ele cumpria todos os requisitos para ser considerado uma pessoa feliz. Mesmo assim se matou. Quem explica?

O comediante sempre era visto sorrindo e fazendo piadas, numa aparente alegria que se revelou ser apenas uma máscara. Mas, se você for além das aparências e examinar os bastidores da vida de Robin Williams, vai descobrir que ele sofria de depressão, lutava contra o alcoolismo e era dependente de drogas. Seu casamento já era o terceiro. Algo estava errado no coração daquele ser humano.

felicidade2O suicídio de Williams me fez pensar também no de outras pessoas que, aparentemente, tinham tudo o que o mundo considera fundamental para a felicidade, como bens materiais e notoriedade. Lembra, por exemplo, de Kurt Cobain? O astro da banda de rock Nirvana tirou a própria vida com um tiro na cabeça e deixou um bilhete explicando que se matava por algumas razões, entre as quais ser uma pessoa triste e não se divertir mais quando estava no palco. Ele tinha mulher, filha, fama, fortuna e era uma rock star (o sonho de milhões de pessoas por todo o planeta). Ainda assim, aquilo não foi suficiente.

Dá para explicar o suicídio de pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain, que têm tudo o que o mundo diz ser sinônimo de felicidade e ainda assim não basta? Sim, dá. É que, na verdade, o mundo está errado. Sua proposta de felicidade é mentirosa, uma ficção. Essas coisas simplesmente não fazem ninguém ser verdadeiramente feliz. São valores que valem muito pouco ou quase nada. Se você acredita na proposta mundana de que, para ser realizado na vida, precisa ganhar muito dinheiro, aparecer na capa de revistas famosas, viver distribuindo autógrafos, ter três carros na garagem e coisas do gênero… está acreditando numa mentira. “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6.19-21)

É por isso que me preocupo muito quando vejo cristãos correndo atrás de tudo isso. Sim, cristãos. Afinal, os valores do mundo contaminam todos. Preocupo-me porque, como provam as histórias de Williams e Cobain, se acreditarmos nessa definição de felicidade – que não é bíblica – viveremos sempre infelizes. Quando vejo irmãos e irmãs em Cristo ter como alvo a fama, por exemplo, meu coração se enche de tristeza, por perceber que sucumbiram ao engano. “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens — não provém do Pai, mas do mundo. O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1Jo 2.15-17).

felicidade3A notoriedade deve ser consequência de algo bem feito, jamais a causa que nos motiva a fazer esse algo. Se você é, por exemplo, um pregador, artista ou escritor e se torna muito conhecido, deve tomar todos os cuidados possíveis para não se deixar levar pela maldita vaidade, que conduz à autoidolatria e, portanto, é uma desgraça. “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.” (Fp 2.3-7). Entenda: ser famoso não é o problema, não é crime nem pecado. Se você é alguém conhecido, entende que essa realidade não tem valor real e usa a visibilidade que Deus te deu para a glória desse mesmo Deus, amém. Jesus foi famoso em seus dias, o que ajudou a propagar sua mensagem. Mas se você deixa essa fama contaminar seu coração com sentimentos equivocados… ai de você.

Para não falar dos outros, deixe-me pôr na berlinda. Eu escrevo livros e tenho um blog. Isso não faz de mim alguém famoso, mas acaba gerando uma certa visibilidade. De vez em quando, viajo a outros estados do país e encontro pessoas que já me conheciam devido ao que escrevo. Tomo muitos cuidados para não deixar isso afetar meu coração, pois, no dia em que a minha escrita tiver como motivação a projeção pessoal e não o desejo sincero de abençoar vidas, eu terei fracassado monumentalmente. Estarei a um passo da infelicidade. Jamais posso permitir que a vaidade domine meu coração, caso contrário todo o propósito de meus livros e deste blog estará pervertido e me tornarei alguém digno de pena. Deus, nunca permita que isso ocorra, por favor. Que toda a atenção voltada para mim sirva sempre para projetar Cristo, jamais o mensageiro pecador, imperfeito e falho que sou eu. Não é falsa modéstia: é a pura constatação da realidade.

Mature businessman holding scrunched moneyQue dizer, então, do dinheiro? Muitos abrem mão do que de fato tem valor por amar mais o dinheiro, que, como você bem sabe, gera problemas seriíssimos. “De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos” (1Tm 6.6-10). Conheço cristãos bons e sinceros que acabaram cometendo atrocidades por causa de dinheiro, que praticaram atos de desamor por amar as riquezas. Quando vidas caem em segundo plano e são desamparadas, enganadas ou vilipendiadas por aquilo que o dinheiro pode proporcionar é sinal que Jesus não está mais no barco, apenas observa da praia, com muito pesar. “Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque Deus mesmo disse: ‘Nunca o deixarei, nunca o abandonarei’” (Hb 13.5).

Convido você a analisar o seu coração, por uma razão fundamental: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida” (Pv 4.23). O que tem motivado suas ações? Será o dinheiro? Será a vontade de aparecer? Por que você prega? Pelas ofertas e pela notoriedade que estar no púlpito pode te dar? Por que você louva? Pela venda dos CDs e para receber elogios? Por que você faz o que faz? Se a resposta não for “para a glória de Deus”, recomendo que reavalie urgentemente as prioridades e os valores da sua vida. “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Caso a proposta de felicidade do mundo tenha conquistado o seu coração, mude tudo, rápido. Caso contrário, você pode acabar rico, famoso, vazio e infeliz.

??????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Meu irmão, minha irmã, sei que você já ouviu isso muitas outras vezes, mas nunca é demais repetir: só Cristo satisfaz. Só nele encontramos a verdadeira felicidade. É no relacionamento com o Senhor que recebemos paz, alento, tranquilidade e contentamento real. É nas demonstrações de piedade, nas ações de amor ao próximo, que experimentamos alegria inigualável. Regozije-se não por ter um salário alto e muito dinheiro no banco ou por ser reconhecido por onde passa e muitos te convidam para eventos, mas porque você fez o deprimido sorrir, o faminto se alimentar, o atribulado encontrar a paz, o perdido enxergar a luz. Que a sua vida seja devotada não a tornar-se uma pessoa como Robin Williams e Kurt Cobain, mas a levar o amor e a graça de Deus a pessoas como Robin Williams e Kurt Cobain – só então você será verdadeiramente feliz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

grandes pequenas maravilhas1Você já parou para pensar sobre que invenção espetacular é a escada? Uma tecnologia simples, barata, econômica e extremamente eficaz. Consegue transportar pessoas a alturas enormes usando apenas a técnica do um-passo-de-cada-vez. Ou, então, o guarda-chuva: a pessoa que o inventou deveria receber um prêmio Nobel, tão útil é esse objeto de apenas cinco reais. Pense ainda em outra fantástica invenção humana, os óculos. Eficientes, ágeis, leves, pequenos e que mudam a vida de quem precisa deles. Sou fascinado, ainda, pelo asfalto – só quem já teve de encarar uma estrada de terra esburacada ou de cascalho é capaz de valorizar a genialidade do asfalto. Isso para não falar dos livros, a meu ver a maior criação do ser humano: conhecimento, entretenimento, crescimento e fascinação que cabem embaixo do braço. Essas e outras invenções estão tão integradas ao nosso dia a dia que nem damos muita atenção a elas, mas tornaram-se essenciais à vida (dá para imaginar um mundo sem coisas como desodorantes, sapatos, fraldas, folhas de papel ou travesseiros?). Isso ocorre, também, com as grandes pequenas maravilhas da nossa vida espiritual.

O cotidiano de cada pessoa não é formado, em sua essência, por eventos magistrais, grandiosos; pelo contrário, é a soma de uma enorme quantidade de fatos e elementos muito simples. Entre um dia extraordinário e outro há muitos dias comuns e cheios de alegria, felicidade, paz, transformação e a manifestação da graça de Deus. Da hora que você acorda até o momento em que dorme, se for parar para ver a quantidade incontável de objetos e outros recursos que utiliza naquilo que chama de dia a dia, verá que a vida é formada muito mais por coisas aparentemente insignificantes (mas indispensáveis) do que por grandiosas.

A Copa do Mundo de futebol, por exemplo, só ocorre a cada quatro anos, mas entre uma e outra dá para jogar dezenas de peladas bastante divertidas com os amigos. Nem todo filme ganha um Oscar, mas muitos deles são produções simples que nos envolvem e encantam. Nem todo livro é uma Bíblia, mas há muita literatura transformadora contida em livros aparentemente muito simples. Você pode não morar num castelo no Vale do Loire, mas a sua casinha é o seu castelo. Camarão com catupiry é sensacional, mas como desprezar a delícia de um bom feijão com arroz? Elementos simples que existem em meio a outros grandiosos e que juntos formam um mundo de maravilhas – mas que, por vezes, são desprezados. Se ficamos só esperando a alegria das coisas espetaculares perderemos a maior parte da felicidade da vida.

grandes pequenas maravilhas2Do mesmo modo, em nossa caminhada de fé muitas vezes deixamos de usufruir dos grandes pequenos milagres de Deus por valorizar apenas eventos e fatos espirituais estrondosos. Enquanto ficamos esperando o paralítico se levantar da cadeira de rodas, deixamos de nos maravilhar com o milagre que é Deus ter dado aos homens o conhecimento suficiente para criar um remédio como um anti-inflamatório ou um analgésico. Enquanto muitos se angustiam porque o Senhor não faz as multidões se converterem quando eles pregam, deixam de se assombrar porque uma única alma preciosíssima entregou-se a Cristo. Se deixamos de nos encantar com as grandes pequenas maravilhas da fé, acabamos entristecidos por não conseguir desfrutar das enormes realizações que poderíamos ter ao nos encantarmos com dádivas pouco chamativas. Assim, do mesmo modo que não consideramos nada de mais uma estrada asfaltada ou uma escada (sem perceber quão difícil seria a vida diária sem elas), temos o mau hábito de desprezar as coisas menos espetaculares da vida espiritual.

Com isso, deixamos de desfrutar do melhor de Deus porque passamos os anos esperando pelo extraordinário de Deus.

Pequenas orações são respondidas, mas não glorificamos o Senhor por isso. Uma pessoa é perdoada por uma ofensa cometida, porém consideramos esse um fato qualquer. Um faminto recebe alimentos de uma pessoa caridosa, mas é “só” uma atitude corriqueira. Um filho respeita os pais e acata, em honra, o que eles disseram e esse gesto não parece ser nada de mais. Um pai ensina o filho a dobrar os joelhos antes de dormir e essa ação não emociona ninguém. Recebemos o direito de chamar o Criador de tudo de “Pai” e um bocejo sai de nossa boca ao fazê-lo. O deprimido encontra um ombro amigo onde chorar e não damos atenção a isso. Eventos e fatos como esses são milagres diários, todavia não damos o devido valor a eles.

Não perca a oportunidade de valorizar e se assombrar com tudo o que o Onipotente faz e com tudo o que nossa fé nos permite viver. Gênesis diz que Deus criou os magníficos e gigantescos astros celestes, mas, também, as magníficas e insignificantes sementes das plantas (Gn 1.11). Sim, o Criador do universo é o Criador dos átomos microscópicos. Ele faz milagres de cair o queixo, mas, também, milagres cotidianos bastante singelos. Procure abrir seus olhos para as grandes pequenas maravilhas e você será capaz de viver muito mais próximo do Senhor, com uma fé fortalecida não só porque um morto ressuscitou ou o mar se abriu, mas porque o sol nasceu de manhã, um pássaro cantou na sua janela e uma brisa suave refrescou a sua pele.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

mancha1Tenho uma mancha nas costas. Embora seja uma ligeira pigmentação na pele, não é uma mancha pequena, tem aproximadamente o tamanho de um gomo de tangerina. Por isso, ela não passa despercebido facilmente. Mas, acredite, eu só descobri que tinha essa marca de nascença quando já era adulto. Parece estranho? E é mesmo, mas tem uma explicação: ela fica localizada em um local das costas que não se vê facilmente no espelho, por isso eu nunca a tinha percebido antes (e ficar espiando minhas costas não é algo que eu costume fazer com frequência). Mas o que mais me chamou a atenção quando descobri que a mancha existia é que ninguém nunca havia me dito antes que eu a tinha. Quem comentou comigo pela primeira vez sobre ela foi um médico, já quando eu tinha uns 24 anos. Ele questionou há quanto tempo ela estava ali e eu, intrigado, respondi: “Mancha? Que mancha?”. Fui perguntar a meus pais, que, então, me disseram que eu nasci com ela. Fiquei chocado. Como era possível que em mais de vinte anos de vida eu nunca tivesse tomado conhecimento de que havia uma mancha nas minhas costas? Bem, a verdade é que ninguém jamais se preocupou em me falar nada sobre aquela penetra indesejável – talvez por desinteresse, talvez por constrangimento – por isso ela ficou ali, escondida de meus olhos, habitando minha vida sem meu conhecimento, por anos e anos. Pensando sobre isso, vejo como é importante haver por perto pessoas que tenham a liberdade de apontar as manchas que temos não só no corpo, mas, principalmente, na alma. Em outras palavras: críticos.

Uma das maneiras mais eficientes de errarmos em nossas atitudes e decisões é estabelecermos uma barreira que impeça críticas. No dia em que você não estiver aberto a ouvir dos outros o que eles veem de errado em você pode ter certeza de que aí é que as coisas começarão a dar errado mesmo. Afinal, é muito fácil não nos enxergarmos com clareza. Já reparou que a sua mão esquerda torna-se a direita no reflexo do espelho? Isso também acontece quando olhamos para nós mesmos: não costumamos ter uma visão precisa de quem somos e de quão corretas são nossas escolhas e atitudes. Podem ser muitas as razões para isso: egocentrismo, amor-próprio exacerbado, egoísmo, arrogância, autossuficiência e muitos outros pecados. Sim, isso mesmo: pecados. Pois considerar-se acima de erros é uma forma de idolatria. E não são poucas as pessoas que idolatram as próprias opiniões e atitudes, tornando-se aversas a qualquer tipo de crítica.

mancha2Eu tenho muitas manchas que não estão na minha pele, mas dentro de mim. São valores distorcidos, conceitos mal trabalhados, opiniões equivocadas, pecados, atitudes injustas, pensamentos incorretos, maus sentimentos e uma enormidade de outras marcas que interferem na pureza de minha alma. Muitas e muitas vezes esses problemas se escondem em lugares para mim difíceis de enxergar, cantos escuros do meu senso crítico, espaços sombrios do meu ego, regiões pouco iluminadas da minha autocrítica. São regiões que não consigo ver com clareza, o que possibilita que muitas dessas falhas de caráter ou imperfeições fiquem escondidas por períodos de tempo enormes sem que eu me dê conta de que estão ali.

mancha3Nessas horas, é fundamental que haja pessoas de confiança a quem possamos dar a liberdade de nos dizer que há manchas em nós e na nossa vida. Felizes são aqueles que escutam esses alertas com humildade e conseguem perceber que precisam fazer algo a respeito. Quem ouve críticas, exortações e toques legítimos e reage com indignação em vez de gratidão está sendo insensato. É muito comum vermos reações não muito amáveis a quem nos critica, a ponto de chegarmos a pensar: “Eu é que sou o dono do meu nariz!”. É verdade, mas… faça uma experiência. Tente olhar para o seu nariz, sem ser no espelho. Você o enxerga com nitidez? Será que alguém que está à sua frente não o vê melhor do que você? Assim é com relação à nossa vida: muitas vezes acreditamos saber o que é o melhor e, por isso, ignoramos a visão de quem está próximo, quando, muitas vezes, outros estão vendo a situação com muito mais clareza do que nós mesmos.

A paixão cega, logo, não seria melhor ouvir o conselho de alguém de fora sobre aquele namorado? Muitas pessoas reclamam de você, logo, será que não há algo em que esteja errando? Suas atitudes geram montes de críticas, logo, será que algumas delas não estão corretas? Ninguém do seu grupo apoia o que está fazendo, logo, será que não é hora de reconsiderar? O pastor já chamou a sua atenção sobre o que a Bíblia diz a respeito de algo que você vem fazendo, logo, será que não seria bom lhe dar ouvidos? Em resumo, devemos estar abertos para perguntas que sugerem a existência de manchas em nossa alma: “Será que realmente estou certo?”. “Será que errei?”. “Será que estou pecando?”. “Será?”.

Saul é um exemplo de alguém que não deixou os outros lhe apontarem as próprias manchas. Roboão também ignorou o conselho de quem apontava problemas em suas decisões. Sansão preferiu seguir suas próprias vontades a ouvir a sabedoria dos que o amavam. Assim como eles, vemos na Bíblia muitos que fecharam os ouvidos à percepção alheia – em outras palavras, que repudiaram a crítica – e que tiveram de colher frutos amargos dessa atitude. Peço a Deus que não cometamos o mesmo erro.

mancha4Há, porém, duas precauções que você deve tomar. Primeiro, analise como chega a crítica. Paulo deu a fórmula: “Pois vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata seus filhos, exortando, consolando e dando testemunho, para que vocês vivam de maneira digna de Deus, que os chamou para o seu Reino e glória” (1Ts 2.11-12). Assim, vemos que a exortação deve vir sempre junto com consolo e testemunho, não apenas com um dedo na cara e palavras de ataque. A exortação que vem envolta em amor e suavidade é a chamada “critica construtiva” e deve receber toda a nossa atenção; já a que vem meramente com acusações é fruto do Acusador – e deve ser ignorada. Segundo, pondere o que exatamente está sendo dito: embora suas pupilas sejam uma mancha negra no meio de seus olhos, não representam um problema. Do mesmo modo, nem toda exortação ou crítica faz sentido. “E o que fazer, então?”, você poderia perguntar. A resposta: é preciso ter conhecimento de Deus e discernimento.

Tudo o que chega até nós e que configura uma exortação, uma crítica, um olhar sobre manchas que carregamos em nossa alma deve ser confrontado com a Bíblia. É pela comparação entre o que nos é dito por quem aponta nossas manchas e o que Deus diz em sua Palavra que vamos ver se a crítica faz sentido. Assim, em tudo devemos buscar o conselho do justo e onisciente Juiz. Junto a isso, precisamos ter discernimento para saber se o que nos é dito tem por objetivo nosso bem ou não. E discernimento só se obtém mediante intimidade com o Espírito Santo, o único que conhece as intenções do coração.  Portanto, se você quer blindar-se contra as críticas nocivas sem se fechar às construtivas, o caminho é conhecer os pensamentos do Senhor revelados nas Escrituras e viver em intimidade com ele por meio de oração e outras disciplinas espirituais.

mancha5Algumas manchas em nossa pele são inofensivas; outras são tumores malignos, capazes de nos levar à morte. Eu não sei discernir umas de outras, por isso preciso de gente de fora que me diga aquilo que não tenho capacidade de ver sozinho. Também preciso de humildade para ouvir o que me disserem e entendimento para saber o que fazer a partir do momento em que ficar a par da realidade. Quando tomei conhecimento de que havia uma mancha em minhas costas, recorri ao dermatologista, que me disse que aquilo não era nada de mais e não oferecia qualquer risco. Mas pode ter certeza de que, se ele tivesse dito que se tratava de algo nocivo, eu teria procurado extirpar aquela mancha o mais rápido possível. E ai de mim se não tivesse dado ouvidos àquele médico – talvez eu não estivesse aqui hoje para contar a história.

E você? Como tem reagido quando alguém aponta as manchas da sua alma?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

casar1É enorme a quantidade de casamentos problemáticos entre cristãos. Alguns dos posts mais lidos e comentados aqui do APENAS são os que versam sobre problemas matrimoniais. Muitos dos livros mais vendidos pelas editoras cristãs são os que tratam do assunto. Um dos tipos de ministério “direcionado” que mais surgem é o voltado a famílias e casamentos. Esses fatos denunciam que cristãos enfrentam problemas conjugais tanto quanto não cristãos. Pelo espaço dos comentários do blog chegam até mim muitos casos de pessoas que buscam respostas para problemas conjugais, em situações as mais variadas (se é o seu caso, procure seu pastor, ele é quem melhor pode aconselhá-lo). Em programas de rádio e palestras de que já participei sobre o assunto vejo tipos de problemas que jamais imaginaria, que vão da chamada “incompatibilidade de gênios” a casos de incesto. O que fica muito claro é que o casamento é uma das áreas mais visadas nos ataques espirituais contra os cristãos e por uma simples razão: ao se destruir uma família, ocorre a desestruturação dos cônjuges em diversos âmbitos, os filhos ficam traumatizados, as comunidades são abaladas e, com tudo isso, fere-se a Igreja de Cristo. Assim, qualquer ataque a um casamento é uma afronta direta a Deus. Para quem vive desilusões e problemas no matrimônio, muitas vezes o divórcio é a solução. Já para mim, uma das soluções para problemas matrimoniais é uma mudança na sua compreensão acerca do verdadeiro propósito do casamento.

Como todo mundo, eu me casei acreditando naquelas frases feitas, como “Casei para ser feliz” ou “Casei para fazer o meu cônjuge feliz”. De um modo ou de outro, o que por anos foi muito claro é que o matrimônio tem – no imaginário popular – como finalidade levar o casal à felicidade. É o que nos ensinam nos contos de fadas, em que príncipe e princesa necessariamente têm de “ser felizes para sempre” e ninguém ensina a nossos filhos que príncipes e princesas não vivem deitados eternamente em berço esplêndido, tampouco são lindos de morrer (lembra do príncipe Charles, por exemplo?). Pelo contrário, eles têm obrigações, cotidianos corridos e estressantes, assuntos complicadíssimos do reino para resolver, responsabilidades graves, estresse constante pelo assédio da imprensa (lembra de como foi a morte da princesa Diana, fugindo dos paparazzi?), que exigem demais deles. Mas a imagem ensinada aos pequenos é que príncipes e princesas são bonequinhos lindos e cheirosos, sempre felizes, eternamente de bem com a vida, numa utopia destrutiva para a formação de identidade de um ser humano – é por isso que sinto pânico quando ouço crianças serem chamadas por cargos da monarquia, como “reizinho” e “princesinha”. E, assim, somos adestrados desde os primeiros anos de vida a acreditar que o casamento tem de nos conduzir a esse estado de “ser feliz para sempre”. O que, aliás, é impossível, nunca acontecerá com ninguém e é propaganda enganosa. Mas todo mundo sobe ao altar acreditando nisso.

princesasA princesinha da mamãe um dia vai se casar com um ogro, que, por mais esforçado que seja, terá todos os defeitos que ela não espera (afinal, tirando o Shrek, os príncipes dos contos de fadas nunca têm defeitos). O principezinho do papai um dia se casará com uma mulher que não é delicadinha e obediente como a princesa dos desenhos animados (ou você acha que a rainha Elsa, de “Frozen”, nunca vai engordar, criar pelanca e dar ataques de TPM?). A realidade é a realidade, mas aprendemos de nossos pais e ensinamos a nossos filhos que nosso casamento tem de ser exatamente como na ficção. Que, como diz o nome, é ficção. A realidade tem cores, cheiros e um peso enormemente diferentes.

Adestrados por essa mentalidade equivocada, hedonista e antibíblica de que casamento foi feito para nossa felicidade ininterrupta, subimos correndo ao altar com essa ideia totalmente irreal em mente. Seguimos para a lua de mel com ela. E, pior de tudo, prosseguimos pela vida tomando-a como o critério para julgar se um casamento é bem-sucedido ou não. Só que, por acreditarmos no conto de fadas da felicidade ininterrupta, quando somos confrontados pela realidade é impossível não se frustrar com o cônjuge, não se desapontar, não se chocar com a enorme distância entre ele e aquele lindo príncipe sem espinhas, nariz escorrendo ou cheiro de suor que desperta a Branca de Neve de seu sono com um lindo beijo nos lábios (já imaginou o hálito da Branca de Neve depois de tanto tempo dormindo, sem escovar os dentes?).

washerEu acreditei por muitos anos na mentira da felicidade como critério para julgar a solidez de um casamento. E, assim como você, tive muitas infelicidades ao longo de minha vida matrimonial justamente porque em muitos momentos me vi infeliz. E, assim, a infelicidade alimenta a infelicidade, num ciclo que parece não ter fim. “Se quero ser feliz no casamento mas não sou sempre feliz na vida a dois, então meu casamento é um desastre”, cheguei a penar. Tudo mudou quando ouvi há poucos anos uma pregação do pastor Paul Washer, no YouTube, que causou uma grande transformação na minha forma de enxergar o matrimônio. Recomendo enfaticamente que você assista (clique AQUI). Como toda pregação eficaz e bíblica, ela mexeu com minhas estruturas e modificou minha forma de ver tudo.

Essencialmente, o que Washer ressalta, com muita correção bíblica, é que o casamento não foi criado por Deus para nos fazer felizes, ao contrário do que prega a sociedade em que vivemos. “O verdadeiro propósito do casamento é que ambos sejam conformes à imagem de Jesus Cristo”, diz. Essa percepção mudou totalmente a minha visão sobre o casamento. Ouvir essa pregação foi como uma cortina que se levantasse diante de meus olhos e me fez compreender enormemente coisas que antes eu não compreendia. Meus paradigmas foram transformados. E Deus promoveu em mim a metanoia, a renovação da mente de que Paulo fala em Romanos 12.2.

Meu casamento tornou-se perfeito depois disso? Claro que não. Eu não sou perfeito e minha esposa também não é, lógico que nosso matrimônio jamais seria (ou será) perfeito. Mas o entendimento do verdadeiro propósito do casamento fez com que meus esforços e minhas percepções começassem a me conduzir por caminhos completamente diferentes. Quando você compreende que não se casa para ficar sorrindo, dançando e pulando o tempo inteiro, com dentes brilhantes sob a luz do luar, passa a ter atitudes muito contrárias às que tinha antes.

casalEntenda algo. Se seu cônjuge é turrão e cabeça dura mas você acredita que ele teria de ser diferente para você ser feliz, então você viverá eternamente insatisfeito (ou você ainda acredita na ideia de que as pessoas mudam conforme o seu querer? A sua vontade de que mudem não mudará ninguém). Mas, se entende que seu cônjuge turrão faz com que você se torne alguém mais paciente, então enxerga que o seu casamento com alguém cabeça dura te conforma mais à imagem de Cristo. Outro exemplo: se o seu marido (ou a sua esposa) é meio brigão, comece a tentar ver que isso pode desenvolver em você um lado pacificador cada vez maior. Ou, ainda, se o seu cônjuge é do tipo que de vez em quando busca iniciar briguinhas e discussões, perceba quanto isso te leva a crescer em domínio próprio. Em outras palavras, cada defeito da pessoa com quem você se casou pode ser visto de duas maneiras: ou como um obstáculo à sua felicidade e à sua ideia de casamento conto de fadas, ou como um meio que Deus estabeleceu para que você seja cada vez mais assemelhado a Cristo. Como disse Paul Washer, “Ele [Deus] quer prová-lo e testá-lo de forma que você será conformado à imagem de Jesus Cristo”.

Sei que muitos não concordarão de imediato com essa visão, o que é totalmente compreensível. Não é fácil mudar décadas de uma ideia formatada, que foi inserida na sua cabeça desde que você usava fraldas. Mas, se você consegue adquirir a percepção de que seu cônjuge não é um adversário imperfeito que chegou para atazanar sua vida, mas, sim, um aliado imperfeito que chegou para criar mais e mais intimidade entre você e o Cordeiro de Deus… tudo muda. Em mim mudou.

aliançaO Senhor quer nos fazer crescer em misericórdia, graça e amor incondicional. Deus deseja que cresçamos a partir das fraquezas de nosso cônjuge – e ele, das nossas – para que cuidemos e amemos nossos maridos e nossas esposas mesmo quando eles não atenderem às nossas expectativas. Sei que você vai questionar muito o que escrevi aqui quando olhar seu cônjuge, lembrar de todos os defeitos, falhas e pecados dele – repetidos dezenas de vezes, muitas delas sem arrependimento. Vai achar loucura que ter de enfrentar isso seja algo que venha para o seu crescimento. E é mesmo: “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18). Sim, é loucura a olhos humanos. Mas é crescimento espiritual aos olhos divinos. “‘Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos’, declara o SENHOR. ‘Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos'” (Is 55.8-9).

Desde que ouvi essa pregação, volto a ela com frequência. Ouço e ouço de novo. A demolição de ideias que nos acompanharam por décadas nunca é algo rápido ou fácil. Exige humildade e dói. Mas a reconstrução é libertadora. Só Deus sabe como essa nova percepção da realidade bíblica mudou totalmente a forma de enxergar meu casamento e minha esposa e, com isso, mudou muito em mim. O que antes eu via como defeito agora enxergo como canal de bênção. O que antes eu acreditava que subtraía hoje eu vejo que soma. Ainda estou no processo, mas já é possível observar a diferença que faz o abandono da teoria irreal de que casamento tem como finalidade a felicidade eterna. Pois essa teoria necessariamente pressupõe a existência de um cônjuge que seja perfeito a ponto de ser capaz de nos proporcionar felicidade eterna e, também, na existência de perfeição em nós, para que possamos proporcionar felicidade eterna a nosso cônjuge. Só que isso não existe, jamais existiu e nunca existirá. Ninguém jamais será perfeito, meu irmão, minha irmã. Você jamais será perfeito. Logo, o cônjuge ideal só existe nos nossos sonhos irreais. É por isso que você é um cônjuge tão imperfeito. A realidade é o que está dentro de sua casa – seu cônjuge e você. E é a partir dessa realidade que Deus quer conformar ambos à imagem de Cristo.

casal0Sei que deve ser muito duro para você ler isso. Acredite, não escrevo este texto com o coração leve. Pois entendo perfeitamente o que é alguém que vive realidades muito difíceis em sua vida conjugal olhar para elas e aceitar que Deus as permite para seu crescimento espiritual. Compreendo se você se revoltar contra esse pensamento, embora lamente caso não consiga enxergar a profundidade espiritual que ele carrega em si. Mas a sabedoria bíblica que essa mensagem compartilha é fulminante. Como diz Pr. Washer com extremo discernimento espiritual, “Como Deus te ama muito, ele não lhe dá alguém compatível com você. Isso ocorre porque Deus é muito melhor do que você e os seus presentes são muito maiores do que aqueles que você poderia sequer dar a si mesmo. Você ia querer uma vida fácil e com perfeita compatibilidade. Deus não vai te dar isso, porque isso nunca produz caráter cristão, piedade verdadeira ou conformidade com a imagem de Jesus Cristo”.

Vi em outro vídeo – de uma curta conversa entre John Piper, Tim Keller e D.A.Carson – que o  pastor, teólogo e mártir cristão Dietrich Bonhoeffer disse que “a aliança entre marido e mulher sustenta o amor e não o amor sustenta a aliança” (veja o vídeo AQUI). O pacto que fazemos no altar é, acima de tudo, de respeito a uma aliança, antes de ser de amor. Quando você compreende isso, tudo muda. E, pode acreditar, você passa a amar muito mais. E, se você rompe esse pacto, tudo torna-se muito pior. Por isso, fica aqui o conselho enfático: se você falhou nas promessas estabelecidas na aliança, não descarte esse casamento, pelo contrário, busque na graça de Deus o restabelecimento da aliança e prossiga em frente. Houve erros e pecados que feriram os termos da aliança entre você e seu cônjuge? Então recorra ao Senhor em busca da restauração – pois ele deseja, pode e vai restaurar seu casamento se você tão somente se dispuser a isso.

cruz de cristoPeço a Deus que todas as dificuldades de sua vida matrimonial venham a fazer você e seu cônjuge crescerem em intimidade com Deus. Que as falhas e imperfeições suas e de seu cônjuge sirvam para conformá-los cada vez mais à imagem de Cristo. Pois “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho…” (Rm 8.28-29). Você não é perfeito. Seu cônjuge não é perfeito. E, para tentar aproximar vocês dois um pouco mais da perfeição, o Ser perfeito criou essa estranha ferramenta chamada casamento. Use-a e torne-se a cada dia um pouco mais como Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

material1Fico imaginando se os materiais de construção pudessem falar. Pense como seria se o cimento, por exemplo, começasse a gritar de dentro da betoneira: “Pare de me agitar! Não aguento tanto sacolejo! Chega de todo esse movimento em minha vida!”. Se você fosse o mestre de obras, o que responderia a ele? Possivelmente, diria algo como “Desculpe, amigo cimento, mas, para que você cumpra aquilo para que foi criado, é preciso que eu deixe você sacudir bastante aí dentro, caso contrário, será  impossível utilizá-lo para cumprir os meus propósitos”. Ou, então, imagine que o tijolo que fica na base de um edifício começasse a gemer e reclamar: “Por favor, me tire daqui! A pressão é muito forte, tem muito peso em cima de mim, não está dando!”. Se eu fosse o engenheiro, daria a única resposta possível: “Veja bem, caro tijolo, se eu removê-lo, de que você servirá? Eu o criei e instalei nesse lugar para que sustentasse toda essa pressão. Se eu tirá-lo daí, além de prejudicar toda a estrutura do prédio você se tornará inútil, pois para isso foi criado. Fora daí você não tem função. E perceba que, embora esteja incômodo, você é perfeitamente capaz de suportar todo esse peso, eu o projetei para isso mesmo”. Você responderia algo diferente? A verdade é que se o responsável pela obra atendesse a todos os pedidos de todos os materiais de construção insatisfeitos com as dificuldades que sua existência prevê… seria impossível construir o prédio.

Vidros dos andares mais altos reclamariam das forças do vento, sem saber que o vidraceiro os fabricou com a resistência necessária para suportar os impactos do ar. Os fios elétricos murmurariam porque estão muito apertados dentro do conduit, sem perceber que, se fossem removidos dali, poderiam se partir com muito mais facilidade. O piso estaria insatisfeito porque tanta gente o pisa, mas… bem, para que serve um piso que ninguém pode pisar? O teto se abateria porque está muito longe das pessoas e por isso se sente solitário, mas não percebe que, se ele não estivesse ali, aquelas mesmas pessoas ficariam desprotegidas das intempéries. E por aí vai.

tijolo2Tudo o que aconteceu na sua vida até hoje tinha como finalidade construir a pessoa que você é, para que o Senhor cumpra a vontade dele na sua trajetória. Deus, em sua multiforme sabedoria, constrói cada um de nós de maneira diferente e com propósitos distintos das demais pessoas. Dependendo de quem você era anos atrás e de como o Senhor deseja que você se torne, ele vai trabalhar de determinada maneira. Um edifício não é formado de um único material e cada um é tratado de modo diferente: o cimento precisa ser constantemente agitado, o tijolo precisa ser assado para suportar grandes pressões, os fios precisam ser bem acondicionados, os alicerces precisam ser muito socados, a tinta precisa ser bem misturada… Cada material tem suas características, um modo diferente de ser tratado, um tempo específico de preparo antes de ser assentado, uma possibilidade diferente de ser utilizado. Mas absolutamente nenhum é visto como menos importante ou é tratado de certa maneira porque o construtor deseja que ele sofra ou seja prejudicado: tudo tem um único propósito, que é fazer o edifício ser erguido com solidez.

Seríamos muito mais felizes se compreendêssemos que as dificuldades da vida fazem parte do propósito para o qual fomos criados, e que a cada um é dado justamente o que faz parte de sua natureza e finalidade. A revolta contra Deus porque ele permite que passemos por dores e momentos difíceis é bem semelhante à reclamação de uma porção de cimento por estar sendo agitada. Aquilo faz parte de sua trajetória, formação, realidade e finalidade neste mundo. Revoltar-se com Deus porque estamos passando pelo processo necessário para nos formar enquanto peças da grande engrenagem do universo simplesmente não faz sentido.

pedra-angular-0e_smA Bíblia usa uma metáfora ligada a materiais de construção para falar sobre Jesus e, também, sobre nós, a Igreja. “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito” (Ef 2.19-22). Nas construções antigas, a pedra angular era a principal, a primeira a ser assentada na esquina do edifício, e formava um ângulo reto entre duas paredes. Servia para definir a colocação das outras pedras e alinhar toda a construção. A pedra angular é o elemento essencial que dá existência àquilo que se chama de fundamento da construção. Portanto, uma pedra angular é a base sólida de que um edifício necessita para conseguir chegar à altura programada, sem cair.

Até mesmo para que Cristo se tornasse a pedra angular – a base fundamental na qual se assenta toda a construção da Igreja – ele teve de sofrer. Foi preciso que fosse humilhado, entristecido, espancado e morto na cruz. E se ele, que é Senhor, precisou passar por isso para cumprir sua finalidade enquanto o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo… quanto mais nós não teremos de enfrentar dificuldades para cumprir aquilo para que fomos criados.

???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Rejeitar as pressões e os sacolejos da vida é como rejeitar o processo necessário para que nos tornemos o que Deus nos criou para ser. Portanto, se você costuma dizer para o Senhor “eis-me aqui”, ou “usa-me”, prepare-se, pois algo será necessário a fim de que você esteja no ponto certo para ser usado pelos propósitos divinos. Dispor-se a ser usado por Deus e depois opor-se ao processo necessário para ser usado seria um contrassenso. Portanto, é importante que você saiba disto com muita clareza: se você quer ser tijolo no grande edifício do qual Cristo é a pedra angular, terá de ser assado, transportado, assentado, cimentado e suportar muita pressão.

A boa notícia é que naquele grande e terrível dia que nos espera, todos os prédios vão desmoronar. O único que ficará de pé é aquele do qual Cristo faz parte. Minha pergunta, então, seria: o que você acha, vale a pena aguentar a pressão, os ventos, o sacolejo e tudo mais que vier pela frente?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

reclama1Você já observou como nós somos reclamões? Às vezes me impressiono com o tamanho da ingratidão que temos pelas coisas que Deus nós dá. Criticamos o povo israelita por ter murmurado no deserto após a libertação do Egito mas fazemos a exata mesma coisa. Pare para prestar atenção às coisas que os seus conhecidos falam ou que seus “amigos” publicam nas redes sociais e você perceberá a enorme quantidade de pessoas insatisfeitas com aquilo que têm e são. Chama especial atenção quando a ingratidão e as reclamações ocorrem em relação a algo que recebemos depois de muito pedir em oração.

Uma das áreas em que esse fenômeno mais acontece é a profissional. Todo universitário sonha com o dia em que entrará no mercado de trabalho; todo estagiário anseia por ser efetivado; todo desempregado fica ansioso por conseguir um emprego. Se for cristão, então, ele ora, jejua, chora aos pés do Senhor e faz todo tipo de barganha e promessa a Deus. Tem gente que chega a fazer campanha, subir monte, se engajar em correntes de oração e tudo o que se possa imaginar. Aí vem Deus e abre a tão sonhada “porta de emprego”. Seria de se esperar que a pessoa agradecesse diariamente por esse trabalho e exaltasse constantemente o Criador por sua generosidade. Só que basta o irmão começar a trabalhar que têm início as murmurações, pelos mais variados motivos: precisa acordar muito cedo para chegar ao trabalho, gasta muito tempo no trânsito, chega ao final do dia cansado, reclama diariamente do chefe, faz careta quando recebe o contracheque porque ganha menos do que gostaria, louva a sexta-feira porque terminou mais uma “terrível semana de trabalho”. Pediu a Deus o emprego e, quando recebe, tudo é só reclamação. Quem entende tamanha ingratidão?

reclama2Outra área em que isso acontece muito é o casamento. A moça sonha com seu “príncipe”. O rapaz clama pela sua “bênção”. Haja oração para que Deus envie logo a sua “metade”. Aí vem Deus e possibilita que você suba ao altar. Nos primeiros dois ou três anos é sempre uma maravilha, o conto de fadas que se realizou. Só que daqui a pouco começam as murmurações. É o marido que vê futebol demais. É a esposa que não gosta de cozinhar para o marido. Ele fica andando pela casa de meias e cueca. Ela deixa a calcinha pendurada no chuveiro. As reclamações crescem cada vez mais. As orações deixam de ser por agradecimento a Deus por, finalmente, lhe ter dado um cônjuge, e passam a ser para que ele transforme o marido ou para que ele faça a esposa tomar jeito. Reclamações se tornam a tônica. Pediu-se tanto um cônjuge e depois parece que ele é um presente de grego. Quem entende tamanha ingratidão?

Tem gente que sonha em ter filhos. Ora e jejua pedindo ao Senhor que lhe dê uma criança saudável e cria toda uma expectativa para a chegada do pimpolho. Aí vem Deus e concede ao casal a maravilhosa bênção da paternidade. Na primeira noite insone por causa do bebê surge o mau humor. Nos choros, a reclamação. A criança cresce e já vi pais que, inacreditavelmente, murmuram porque têm, por exemplo, de abrir mão de ver programas de televisão para brincar com o filho. Em vez de ser sempre celebrados como bênçãos do Senhor, muitos filhos levam os pais a reclamações constantes simplesmente porque os pequenos ainda estão aprendendo a ser gente e fazem traquinagens. Na hora da teimosia deles, muitos pais não encontram o prazer de ensinar o procedimento certo, mas sim vivem a tristeza de “aturar o pestinha”. Aqueles que foram tão ansiados acabam sendo vistos como fardos por quem deveria agradecer todos os dias a Deus, em lágrimas, por ter sido agraciado com o presente de valor incalculável que é uma criança. Quem entende tamanha ingratidão?

murmuraçãoO pecador estava perdido, sem Deus, sem salvação. Vive no atoleiro do pecado, caindo de transgressão em transgressão, caminhando a passos largos para o inferno. Aí vem Deus, estende a ele a sua graça, o adota como filho, o perdoa de seus erros, justifica, regenera e lhe abre as portas da vida eterna. Do inferno para o céu, motivo mais que suficiente para exaltar e glorificar o Senhor por todos os segundos de sua vida. Só que daqui a pouco o salvo começa a reclamar da vida de fé. A igreja de repente tem montes de defeitos. O pastor poderia pregar melhor. Os irmãos não são tão perfeitos como se pensava no início. O culto não é tão animado como a daquela outra igreja. Deus não atende a oração. A bênção não chega. Quero a minha cura e pra ontem! É um resmungo só. De repente a vida com Deus e na comunidade de fé se torna motivo não de alegria, mas de reclamação. Quem entende tamanha ingratidão?

Você não existia. O mundo estava muito bem, obrigado, sem você. Na verdade, você não fazia nenhuma falta. Aí vem Deus e resolve te dar de presente a vida. Te gera no ventre materno, te nutre, sustenta, forma, prepara, ama. Só que você cresce e descobre que a vida é dura, que há dores e sofrimentos, que as pessoas são más e há muita infelicidade no planeta, que viver inclui canseira e enfado. Por isso, se torna alguém que reclama da vida o tempo todo, para quem parece que nada nunca está bom. Suas palavras, em vez de celebrar a vida que Deus te concedeu como um presente de sua graça, se tornam um lamaçal de constantes murmurações. Você age como a hiena Hardy Har Har, do desenho animado, resmungando o tempo todo “ó, céus, ó, vida, ó azar…”. Parece que tudo sempre está ruim. Quem ouve suas palavras tem a sensação de que nada presta e que viver é um fardo desesperador. O Senhor te presenteou com a vida e você vive reclamando desse extraordinário presente. Quem entende tamanha ingratidão?

Reclama6Deus é bom, meu irmão, minha irmã. Logo, as coisas que ele nos dá são boas – muito embora não sejam perfeitas. É claro que há casos extremos, que devem ser tratados individualmente e que nos abatem, mas devemos ser gratos ao Senhor diariamente por cada uma de suas bênçãos – o emprego, o casamento, os filhos, o cônjuge, a igreja, a vida, tudo! Entenda: absolutamente tudo o que vem de Deus é bom, até mesmo o que nos parece mau. Pois, se dói mas vem de Deus, é bom, mesmo que não entendamos. É impossível o Pai te dar algo que seja ruim em suas finalidades últimas. Isso é absolutamente incompatível com a fé cristã. Se Deus deu, agradeça! Não reclame, não seja ingrato, não fique insatisfeito. Ele te dá o melhor e na medida certa. Agradeça. Em tudo dê graças. E se você desconfia de que, de repente, “não foi Deus quem deu”, procure desenvolver um relacionamento próximo e íntimo com o Senhor, pois dessa intimidade virão as respostas. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão” (Jo 10.27-28).

Quando vier a vontade de reclamar, procure fazer esta dinâmica: lembre-se das suas orações. Lembre-se daquilo que você pediu e o Pai lhe deu. Traga à memória tudo o que orou ao Senhor e recebeu. Se perceber que hoje você vive resmungando e reclamando de presentes da graça divina, está mais do que na hora de substituir a murmuração por louvor e ação de graças.

Antes de murmurar porque há uma goteira em sua casa, lembre-se de que Deus te deu uma casa. Antes de reclamar porque seu cônjuge está doente, lembre-se de que ele está vivo. Antes de reclamar que seu voo atrasou horas, lembre-se de que você poderia ter de viajar centenas de quilômetros de carro. Antes de reclamar que seu carro quebrou, lembre-se de que você poderia ter de andar sempre a pé. E antes de reclamar que você tem de andar sempre a pé, lembre-se de que você tem pés que andam. Celebre a vida. Celebre cada pequena coisa que Deus te deu, pois, se foi Deus quem deu, não é pequena. Seja grato, sempre.

cruz“Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). Em outras palavras, aprenda a viver contente em todo tipo de circunstância. Pare de olhar sempre o buraco que há no centro da rosquinha, antes olhe a rosquinha que há em volta do buraco. Você tem Deus e ele te fortalece; e, tendo ele, você pode encarar o que é bom e o que é ruim – e superar ou suportar as contrariedades da vida.

As fases más vêm e há, sim, momento para chorar e se lamentar. Isso é humano e normal – e bíblico. O problema é quando o lamento se torna um estilo de vida. Viva, simplesmente, e seja grato por tudo o que tem. Santa insatisfação, santa murmuração, santa ingratidão? Não, nada disso. Porque murmuração, insatisfação e ingratidão… de santas não têm nada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Julio CesarO goleiro Julio César, da seleção brasileira de futebol, deu uma entrevista ao final do jogo de Brasil e Chile, pela Copa do Mundo, em que transmitiu uma enxurrada de emoções (veja AQUI). Duramente criticado na Copa de 2010 por sua atuação na partida em que fomos eliminados, contra a Holanda, agora ele se viu numa posição de redenção ao defender dois pênaltis e manter a seleção canarinho na competição. Nessa referida entrevista ele transmitiu todo o sentimento represado que esmagava seu peito. Se você acompanha o APENAS há algum tempo, sabe que não sou muito fã de futebol e, por isso, não costumo assistir a jogos. Esse meu desinteresse pessoal me fez assistir às três primeiras partidas do Brasil na Copa com certa estoicidade, a ponto de ter chegado em casa aos 25 minutos de jogo na disputa contra o México (aproveitei as ruas vazias para resolver algo que precisava fazer). Assim, a possibilidade de os jogos do Brasil mexerem com minhas emoções era bem reduzida. Mas aí chegou Julio César. E, quando ele chorou, eu chorei junto.

Fiquei pensando sobre esse fato depois. O que levou a mim, alguém que não dá muita atenção a futebol, a derramar lágrimas junto com Julio? Eu não passei pelo que ele passou. Não vivenciei na pele suas noites insones, o ostracismo profissional, os olhares maldosos, as críticas ferrenhas. Não tenho ideia do sentimento que assolou aquele homem pelos últimos quatro anos. E, embora tenha vivido uma pequena parcela da emoção dele quando defendeu os pênaltis e, assim, manteve o Brasil na Copa, certamente minha emoção não resvalou a sola da chuteira da dele em termos de intensidade. Então por que eu chorei? Por que solucei ao ver os olhos vermelhos, a falta de palavras, os lábios trêmulos, a explosão contida de sentimentos daquele homem?

Empatia.

Empatia é o fenômeno emocional de identificação com uma pessoa. É quando conseguimos entrar na pele do outro e sentir o que ele sente. Sentir empatia pela dor alheia faz você chorar abraçado a um amigo que perdeu um parente que você nem ao menos conhecia, faz você levar doações a uma cidade distante após uma enchente por ter ficado tocado pela tragédia de terceiros, faz você sentar no meio-fio ao lado de um mendigo para bater papo enquanto ele come uma refeição que você entregou, faz você abrir mão de benefícios próprios em função do outro. Em linguagem bíblica, empatia é o que Paulo definiu muito bem em Romanos: “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram.” (Rm 12.15).

choro1É impossível ser cristão se você não tem empatia. Jesus falou sobre isso na parábola do bom samaritano. Os religiosos de então não sentiram empatia pelo homem que vivia aquele momento de sofrimento, mas o samaritano sentiu. “Um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele” (Lc 10.33). A  piedade que leva à ação é prova de que houve empatia. E sublinhe “que leva à ação”, porque piedade no discurso mas que não gera nenhuma atitude concreta é, na verdade, hipocrisia maquiada de boas intenções. Foi impossível para aquele samaritano deixar o outro homem caído, desassistido. Ele sentiu em si a dor do próximo, o amou e agiu em favor dele. Com isso, cumpriu o grande mandamento, de amar o próximo como a si mesmo. Fica claro, então, que só consegue amar o próximo quem consegue sentir a dor dele. Chorar com ele. Quem não sente empatia pelo sofrimento alheio não passou pelo novo nascimento: é absolutamente impossível alguém que foi regenerado pelo Espírito Santo dar as costas à dor do próximo. Impossível.

Sem empatia não haveria a encarnação de Cristo e, tampouco, salvação. A Bíblia fala que a motivação de Deus ao enviar o Filho em sacrifício por muitos foi a empatia do Criador por suas criaturas: “Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). A Trindade se compadeceu da humanidade, sentiu em si a dor do pecado e da perdição e agiu em nosso favor. Não é à toa que a redenção veio mediante toda a dor que Jesus sentiu, ao ser abandonado, humilhado, espancado, cuspido, açoitado, crucificado. É como se ele nos dissesse “Quero sentir em mim a dor que o pecado causa em vocês”.

Os evangelhos nos mostram que a empatia de Jesus pelos sofredores o acompanhou durante todo seu ministério terreno. Podemos ver que ele agiu muitas vezes em favor dos necessitados movido unicamente pela íntima compaixão que sentia por eles (Cf. Mt 9.36; 14.14; 15.32; 20.34; Mc 1.41; 6.34; 8.2; Lc 7.13). Assim, a empatia de Cristo pela humanidade é a raiz daquilo que devemos ter em nós como fruto, para nos conformarmos à imagem de Jesus. Alguém que não consegue se alegrar com os que se alegram e, principalmente, chorar com os que choram precisa urgentemente buscar a face de Deus, porque algo não está bem em sua espiritualidade. Fé cristã pressupõe empatia.

“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’” (Mt 25.37-40). A Bíblia é clara: só quem chora com quem chora tem parte com Cristo.

cruzÉ devido à empatia pelo próximo que somos levados a doar para os necessitados, pregar para os perdidos, amparar os pobres, abraçar os solitários, amar os inimigos, perdoar os que nos ofenderam, dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. A empatia é o princípio da solidariedade, da caridade, do amor cristão. Nada mais triste do que ver um cristão egoísta ou sovina, pois isso revela muito sobre a sua fé. Quer saber a resposta para a pergunta do título deste texto? Quer saber como anda a sua fé? Basta se lembrar de quando foi a última vez que você sentiu em si a dor do outro e agiu desinteressadamente em benefício de alguém. De quando abriu mão de si pelo próximo. De quando derramou lágrimas junto com o triste, o fraco, o abatido – simplesmente porque ele também estava derramando lágrimas. Tem muito tempo? Fez isso muitas vezes? Pense nessas perguntas e, quando tiver uma resposta, você terá uma boa medida de como anda a sua fé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

sal e luzSe você foi um aluno atento às aulas de física na escola vai se lembrar de um princípio chamado “impenetrabilidade”. Esse palavrão estabelece que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Ou seja: ou eu estou no lugar X neste momento ou outra pessoa está. Eu e meu próximo de maneira alguma podemos estar no mesmo lugar, no mesmo instante. Essa lei da física encontra paralelo numa lei espiritual: é impossível eu ocupar o lugar de primazia nas minhas atitudes e o meu próximo também: ou eu me priorizo ou eu priorizo o meu próximo, não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, se eu quiser ser sal da terra e luz do mundo, cumprindo o grande mandamento, que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo, terei de negar-me e preferi-lo em honra.

Em linguagem bíblica: para que eu cumpra isto: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12.30-31), é preciso que eu faça isto: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23) e também isto: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10).

Hoje ocorreu um episódio simples mas que me mostrou de forma prática essa realidade espiritual. Escrevo este texto no dia do jogo de Brasil contra México, pela Copa do Mundo de futebol. De manhã, fui levar minha filha à escola. Chegando lá, muitos de seus coleguinhas já se encontravam no pátio, brincando, a maioria vestida de verde e amarelo, com camisas e enfeites com as cores da seleção brasileira. Toda vez que vou deixar minha filha no colégio, os coleguinhas dela voam em cima de mim, comentando coisas e me chamando para brincar. Eu entrei no clima.

Começamos a falar animadamente sobre a roupa que cada um usava, os enfeites, a Copa et cetera. Foi quando Pablo se aproximou. Na turma da minha filha há dois estrangeiros: uma menina inglesa e esse menino, que chamo de Pablo (como não tenho autorização de seus pais, não faria a indelicadeza de postar na internet seu nome verdadeiro). Ocorre que Pablo é mexicano. E lá estava ele: o inimigo. O adversário. Bem no dia da batalha, infiltrado entre nós. Levado pela empolgação do momento, acabei dizendo para aquele garotinho de apenas 3 anos uma frase impensada e horrível:

- Ih, Pablo, hoje você vai perder.

Amor2Não se passaram três segundos e o Espírito Santo já dava um cartão vermelho para a minha consciência. Pablo vive em um país estranho e já enfrenta todas as dificuldades que isso gera. Fico imaginando nesse dia específico, todos os seus amigos torcendo por um país diferente do seu, gritando “Brasil! Brasil!”, enquanto em casa seus pais torcem pelo México. Que confusão isso deve gerar em sua cabecinha. E, de repente, chego eu, o adulto mais insensível e bruto da face da terra, e mando essa. “Você vai perder”. Meu Deus… nota zero para mim. A carinha de confusão e tristeza que o querido Pablo fez, assim que falei isso, rasgou meu coração. Eu me senti um animal estúpido, fazendo mal a uma criancinha.

Na mesma hora, o meu peito apertou e percebi o absurdo que cometi. Fiz um dos piores tipos de bullying. Naquele momento percebi que só havia um meio de consertar o meu erro: amar o próximo. Preferi-lo em honra. Negar a mim mesmo. Era o mínimo que podia fazer. Então, segundos após ter dito aquela frase ignorante, bárbara e altiva, tive uma ideia. Voltei-me para a criançada e conclamei:

- Pessoal, o Brasil é legal, mas o México também! Quem acha o México legal?!

E o coro:

- Eeeeeeeeuuuuu!!!

- Entao vamos lá: México! México! México! México! México! México! México! México!

E, quando me dei conta, havia um monte de crianças pulando, vibrando e se abraçando, vestidas de verde e amarelo, demonstrando afeto pelo “adversário” e amando o “inimigo” aos gritos de “México!”. O resultado me trouxe alívio: no meio deles, Pablo saltava, alegre e sorridente, não mais com aquele olhar confuso e abatido de quem sofreu desamor, mas com a felicidade de quem é amado pelo próximo. Fui antipatriota? Pode ser. Mas, naquele momento, me senti muito mais um cidadão da pátria celestial do que o cidadão do mundo que segundos antes oprimira uma pobre criancinha.

Lamento, meu irmão, minha irmã, mas muitas e muitas vezes você terá de abdicar de si caso queira amar o próximo. Terá de abrir mão de seu tempo, de seu dinheiro, das suas vontades, do seu orgulho, da sua vaidade, de seu conforto, da sua primazia e de tantas outras coisas. A boa notícia é que, se isso significa perder algo na terra, também significa ganhar muito no céu. Deus aprecia quando brasileiros gritam “México! México! México! México!” em favor de uma criancinha mexicana.

Amor3Assisti ao jogo com uma camisa amarela, mas o coração um pouco mais mexicano – e feliz por isso. Deixo aqui a sugestão: da próxima vez que você se vir diante de uma situação em que, para cumprir o mandamento de amar o próximo, veja que precisa abrir mão de vantagens pessoais, tenha em mente este grito: “México! México! México! México!”. Peço a Deus que isso lhe dê o impulso necessário para agir em favor do mexicano que cruzar o seu caminho. Seja esse mexicano seu amigo, inimigo, brasileiro, estrangeiro, cristão ou ateu. Pois, ao fazer bem a ele, você estará fazendo bem, antes de tudo, a um israelense que deu sua vida por bilhões de cidadãos de uma pátria que não era a sua.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Futebol e religiãoA Copa do Mundo começou. Assisti a um excelente programa de televisão estrangeiro, em que o apresentador John Oliver analisa esse evento de forma coerente e divertida. Se você fala inglês, recomendo assistir ao vídeo inteiro, é muito bom (veja AQUI). O que mais me chamou a atenção foi a explicação que Oliver dá ao fato de que, apesar dos inúmeros absurdos envolvidos na realização desta Copa e dos descalabros praticados pela FIFA, ainda assim as pessoas estão empolgadas com a competição e ansiosas pelos jogos. Para ele, a razão é que “futebol é como uma religião”. Fiquei pensando sobre isso e gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o assunto. O que leva alguém a comparar um simples esporte a algo tão sublime, transcendente e celestial como uma religião? (E entenda que me refiro a religião como o religare do homem com Deus e não a um sistema engessado de práticas e liturgias. Se desejar entender melhor essa diferença você pode ler este post).

Primeiro, porque a fé religiosa é algo que mexe com o mais íntimo de nosso ser, desperta paixões, produz debates acalorados. A religiosidade afeta tudo em nós: influencia nossos valores, pensamentos, ações; enfim, tudo aquilo que somos e fazemos. Isso é bem visível, também, no futebol: quem aprecia veste a camisa e a defende como a um manto sagrado. Por exemplo, é preciso muita paciência para lidar com torcedores que, toda segunda-feira, parece que não têm assunto além do jogo da véspera. Durante certo tempo, um vizinho invariavelmente encontrava comigo no elevador e engrenava uma conversa animadíssima sobre o mais recente desempenho do Flamengo. “E o mengão, hein, rapaz, que garfada!” E eu: “É… am-ham…”, com aquele sorriso amarelo no rosto e sem fazer ideia do que ele estava falando. No dia em que confessei a ele que não acompanho futebol e não assisto a jogos, nossos próximos encontros passaram a ser sempre silenciosos – parecia que, se não fosse para falar de bola, não havia assunto. Deixei de ser um bom papo para ele, uma vez que futebol era o que mexia com tudo à sua volta. E não foram poucas as vezes em que fiquei avulso em rodinhas de amigos amantes do esporte bretão, tão inteirado eu estava acerca do que eles falavam como uma girafa numa conversa sobre física quântica.

Brazilian attorney, Nelson Paviotti, poses with his two Volkswagen Beetles painted with the colors of the national flag in CampinasSegundo, porque futebol e religião criam fanáticos. Assisti a um vídeo recentemente de um advogado (foto) que fez a promessa, em 1994, de só se vestir de verde e amarelo pelo resto da vida caso a seleção brasileira fosse campeã. Dito e feito. Agora, ele promete só comer alimentos que tenham essas cores caso a seleção vença. Fiquei chocado. Mas o fanatismo está aí, e veio para ficar. É o crente que se torna um chato, por exemplo, por querer impor sua fé de qualquer modo aos não cristãos, sem compreender que quem converte é o Espírito Santo e não a nossa insistência. Fanatismo tem um quê de desequilíbrio. É diferente de ser radical. O radical é alguém equilibrado, que não negocia aquilo em que acredita por ter raízes muito bem fincadas no que crê; já o fanático é quem transborda sua fé de forma exuberante e, muitas vezes, excêntrica e, até mesmo, incômoda para quem está em volta. Radicalismo é elegante, fanatismo é extravagante. No futebol, o fanatismo por vezes torna-se assustador. Da última vez que fui ao Maracanã, para acompanhar parentes que moram no exterior, tive de sair com minha filha pequena das cadeiras e ir passear perto das lanchonetes, de tão assustada que ela ficou com os gritos, os gestos agressivos e os palavrões berrados pelos fanáticos que nos rodeavam.

EstatuaTerceiro, porque futebol e religião têm a capacidade de conduzir pessoas desequilibradas a um passo além do fanatismo, que é a intolerância. Você pode ser fanático por algo sem que isso te torne alguém agressivo a quem pensa diferente de você. Há o que poderíamos chamar de “fanáticos do bem”, ou seja, aqueles que são extremamente emotivos quanto ao que amam, mas que não fazem mal a quem pensa diferente de si. Já os intolerantes são os “fanáticos do mal”. Muitos se tornam irracionais, como os vândalos que recentemente quebraram e urinaram em uma estátua da Virgem Maria, um absurdo fruto de ignorância e da falta de entendimento acerca do que é o evangelho da graça e da paz. No futebol, isso também é assim. Torcedores espancam e matam seres humanos que torcem para outro time simplesmente porque… bem, porque torcem para outro time. A intolerância leva pessoas a agredir outras somente porque se enganaram e entraram com a camisa do outro time no meio da torcida organizada, assim como leva cristãos desequilibrados a agredir homossexuais e espíritas. Em ambos os casos, a intolerância fere o princípio do amor e o da graça.

Há outros pontos que identificam futebol e religião, mas, para não me alongar demais, eu gostaria de tratar de um aspecto que, em vez de assemelhar o futebol à religião, os diferencia: a racionalidade. E acredito que foi nesse ponto que John Oliver se baseou em seu programa para fazer a comparação entre futebol e religião. Na visão dele (e na de muitos), tanto o esporte quanto as crenças religiosas seriam alimentados por irracionalidade. Só que isso não é verdade. Sem racionalidade, a fé cristã não é fé cristã.

BrasilO amor pelo futebol, em qualquer nível, é irracional. Seja você um saudável e comedido apreciador desse esporte ou um intolerante e agressivo torcedor, seu envolvimento com o time do seu coração não se dá de forma racional. Eu explico: você saberia racionalizar por que torce para este ou aquele time? Será que é porque ele é o melhor de todos? Bem, o campeão de hoje estará na segunda divisão amanhã, então o conceito de “melhor” é relativo. A verdade é que você torce para quem torce por razões emocionais e não racionais. Como alguém que se apaixona por um amor impossível, você se apaixonou por uma equipe e passou a torcer por ela sem que haja uma explicação lógica imediata – talvez tenha adotado como seu o time que era de seus pais, por exemplo, ou vai ver que gostou das cores da camisa na sua infância. Não se sabe exatamente o que leva alguém a escolher este ou aquele time para ser o seu. Se não fosse assim, eu não teria torcido para a seleção brasileira até 1994, quando a vi ser campeã pela primeira vez. Eu e você torcemos para o Brasil porque tem a ver com a nossa relação emocional com nossa pátria.

leitura biblicaNa religião, entretanto, se as decisões são irracionais, isso só vai gerar problemas – em todos os âmbitos. “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados de suas calúnias. É melhor sofrer por fazer o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal” (1Pe 3.15-17). Repare: “razão da esperança”. Pedro está falando de racionalidade. A fé necessariamente tem de ter um componente racional. A sua conversão aconteceu no dia em que a graça de Deus se manifestou em sua vida e o Espírito Santo conduziu você a perceber, racionalmente, que o evangelho faz sentido. O teólogo Anselmo de Cantuária (1033-1109) apontou dois conceitos que se tornaram célebres na história do pensamento cristão: Credo ut intelligam (“creio para que possa entender”) e Fides quaerens intellectum (“a fé em busca de compreensão”). Com isso, Anselmo quis dizer que a tarefa da teologia é mostrar que crer é também pensar, ou seja, que não há uma oposição entre fé e reflexão intelectual (embora a fé tenha lugar de primazia). O que isso significa? Que não há como afastar a fé da racionalidade. Você crê porque Jesus e as boas-novas da salvação fazem sentido para você. Quando Paulo escreveu que “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18), estava mostrando que o cristianismo não faz sentido para os que não são salvos, mas, para nós, é totalmente compreensível e nos soa até estranho que alguém não creia no que nós cremos.

Se passarmos a viver nossa fé de modo irracional, isso criará enormes distorções. Passaremos a acreditar em falsas doutrinas, adotaremos práticas bizarras em nossos cultos, agiremos de modo diferente do que a Bíblia nos orienta a agir, nos comportaremos de modo antibíblico com o próximo… são muitos os absurdos que podem ser praticados pela irracionalidade religiosa. Por isso, é extremamente necessário que nossa fé siga a lógica bíblica – pois fora da Bíblia a fé torna-se ilógica. E, se é ilógica, não é fé cristã. Muitos dizem que não há lógica em se ter fé, mas isso não é verdade. Há a lógica do mistério. Seguimos um Cristo que revelou seus mistérios até o limite que poderíamos compreender (observe que “compreender” exige racionalidade). Se assim não fosse, não poderíamos conhecer a vontade de Deus por meio de um livro. Pois leitura é um processo lógico e racional. Tudo o que propõe uma vida cristã baseada em pressupostos irracionais do ponto de vista bíblico… não é bíblico. Logo, não é cristianismo.

Amor ao proximoReligião e futebol têm, sim, muito em comum. Mas a nossa religião exige de nós um conhecimento bíblico que gera o equilíbrio. E esse equilíbrio vem mediante a prática do amor, da graça, da justiça, do perdão, da reconciliação e de muitas outras virtudes que o evangelho destaca. Por isso é tão importante estudarmos a Palavra. Se apenas vivermos a fé sem nos aprofundarmos em seu aspecto racional, acabaremos urinando em estátuas da Virgem Maria e nos tornando a “torcida organizada de Jesus”, que vive aquilo em que crê de forma ignorante, intolerante e irracional, espancando os diferentes e agredindo os que nos agridem. Se não vivenciarmos a fé racional, nos uniremos aos que tacam coquetéis molotov, paus e pedras nos que não concordam conosco. A História da Igreja mostra que esse é um caminho que leva para longe, muito longe, do único Caminho.

A Copa está começando. Vivamos este momento com amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.22-23). Vivamos a alegria do jogo junto com a irritação por tudo o que a realização dessa competição gerou em termos negativos, mas vivamos racionalmente, controladamente, com equilíbrio, como seguidores de Jesus e à luz dos ensinamentos bíblicos. Porque não há nenhum outro modo de se conformar à imagem de Cristo neste momento que não seja agindo como Cristo agiria: buscando a justiça, mas com alegria.

Sejamos diferentes, como todo cristão deve ser. Curtamos a Copa do Mundo de futebol em paz. Não permitamos que nada nem ninguém nos tire neste momento do caminho da serenidade, da santidade, da graça e do amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio