É muito interessante como somos mestres em “achar” alguma coisa. Já tive a oportunidade de me deparar com situações em que uma exposição bíblica é feita – com argumentos hermenêuticos, exegéticos, históricos, culturais – mas, mesmo assim, há pessoas cuja resposta é algo na linha “Ah, mas eu não acho isso não”. Impressiona como o poder do “achismo” consegue muitas vezes ser superior ao que a própria Bíblia diz. Ao que a História prova. Ao que é fato teológico. Sem saber, as pessoas que inserem no texto bíblico suas opiniões pessoais, em vez de extrair dele o que de fato ele afirma, estão praticando o que se chama na Teologia de eisegese, ou seja, injetar o que “eu acho” no que “Deus acha”. É o contrário da exegese, que, a grosso modo, é extrair exatamente o significado original do texto. E, ao fazer a eisegese, o incauto leitor da Bíblia está literalmente pondo palavras na boca de Deus.
O maior responsável por isso é o apego exagerado a uma pseudoverdade pré-concebida. Um exemplo: lembro de quando dava aula na Escola Dominical da igreja em que me converti. Certa vez fui ministrar uma lição sobre louvor e contei à turma que muitas das músicas da Harpa Cristã (o hinário das Assembleias de Deus) eram originalmente canções de prostíbulo cujas letras foram mudadas, que o Hino 185 (“Vem tu, ó Rei dos Reis, buscar os teus fieis…”) é uma versão do Hino Nacional da Inglaterra, que o Hino “Os Guerreiros se Preparam” é uma versão do Hino Nacional das Ilhas Fiji e por aí vai. E isso é pura História, é um fato, não há como se mudar isso: muitas músicas de hinários tradicionais são de origem secular e, logo, pagã. Não inventei nada, apenas reportei algo que é de conhecimento público e notório. Mas, de repente, uma aluna levantou-se, fula da vida, e disse: “O irmão está falando isso tudo aí mas eu não acho que seja assim não, porque a Harpa Cristã é inspirada por Deus”. Virou-se e abandonou a sala.
Ou seja: ela estava tão arraigada à ideia de que a Harpa Cristã é um hinário que desceu do Céu numa bandeja de prata que a verdade foi totalmente repudiada, uma vez que afetava uma crença que ela trazia de anos. E ela “achava” que fatos históricos não eram “bem assim”. Ou seja, para ela a realidade era menos real do que o que ela “achava”.
Ou, ainda, é muito comum o professor do seminário teológico expôr o que a Bíblia diz sobre determinado assunto e os alunos simplesmente não aceitarem. Enfrentei isso um bom número de vezes. Aqui no APENAS o fenômeno é igual. Um exemplo: há algum tempo postei um texto sobre o uso de tatuagens. Não sou contra nem a favor, acho um assunto secundário, como expus no artigo, não tenho tatuagem nem pretendo me tatuar mas, a pedidos, fiz uma exposição bíblica, histórica e cultural da questão. E fato é que, queiram ou não, a Bíblia não proíbe explicitamente a tatuagem (LEIA O POST AQUI). Expliquei por que Levítico 19.28, o versículo usado por muitos para afirmar que tatuagem é pecado, não se aplica às tatoos de nossos dias, apresentei as razões históricas de o meio cristão rejeitar tanto a prática… e, ainda assim, houve comentários como:
“Temos-nos uma forte inclinação para acomodarmos as escrituras as nossas vontades, se começarmos a contextualizar os textos antigos teremos que por toda a bíblia sobre a prateleira dado a data em que foram escritos os livros. Se Deus nos proíbe de fazermos marcas em nosso corpo, por que eu irei mudar isso, na verdade torna-se desobediência ou pecado, mas foi isso que o diabo disse para Eva. Não e bem assim não morrereis. E de fato eles não morreram na mesma ora. As distorções bíblicas não passam de astucias satânicas“
Ou seja, uma regra elementar de hermenêutica (sem a qual é impossível compreender corretamente a Bíblia) foi solenemente ignorada pelo amado irmão que fez tal comentário. É patente a qualquer estudante das Escrituras que cada passagem deve ser analisada à luz do contexto em que foi escrita (lugar, época, contexto sócio-político, autor etc). Mas o irmão “achou” que essa norma basilar do entendimento bíblico era “pôr toda a Bíblia sobre a prateleira”. E, assim, multidões de cristãos vivem uma vida de fé “achista”.
Repare este outro comentário postado aqui no APENAS sobre a questão das tatuagens:
“Você fez uma análise bíblica, histórica e cultural da questão num foi? bem,mais você já chegou pra Deus e perguntou se ele permiti de um cristão fazer tatuagem? Sabe o que é interessante é que tem muitas pessoas que fazem uma exegese das Escrituras Sagradas no caso de um texto bíblico,mais esquece de perguntar a Deus se a interpretação está certa no seu caso bom seria que ao chegar nessa conclusão de que um cristão pode fazer tatuagem,você simplesmente chegasse pra Deus e perguntasse se ele permite sim ou não.Creio quando um cristão é autêntico e tem intimidade com Deus ele perguntaria a Deus se ele permiti fazer uma tatuagem sim ou não.Tem muita gente que quer colocar Deus nos seus próprios conceitos e vontades.Não sei quem é você mais,eu não concordo com sua exegese! Fique na paz do Senhor!”
Interessante é que meu texto não faz exegese alguma. E me impreessionou como a análise hermenêutica (essa sim) da Bíblia foi posta em segundo plano em função da experiência pessoal, “eu não concordo”. Ou seja, do “eu acho que Deus me falou isso sobre a questão”. Sim, pois Deus não se teofanisa na nossa sala de estar e conversa conosco sobre os temas que já revelou na Bíblia, então suponho que a pessoa que postou o comentário está falando de um sentimento pessoal acerca do que crê que “Deus está me falando”. De novo, “achismo”. Detalhe: isso, acerca de um texto neutro, que não se posiciona nem contra nem a favor do uso de tatuagens, apenas faz uma exposição de fatos.
Menciono apenas um último comentário, de uma irmã que expôs sua opinião sobre o tema: “Não concordo com tatuagens.. Só queria dizer isso mesmo.. E percebo que é um assunto que as pessoas (evangélicas) que curtem procuram na Bíblia fundamentos para manter essa opinião, então prefiro não discutir o tema.. Eu não concordo mas sei que tem gente que acha embasamento para concordar, então.. Cada um com sua opinião, né?“.
Minha resposta seria “não, não é”. Pois Bíblia não é uma questão de opinião. Precisamos ouvir o que ela diz e agir de acordo com suas verdades, em vez de tentar amoldá-la a “opiniões”. E aqui vem o desafio deste post (e não estou falando de tatuagens, esqueçamos agora esse assunto, ele foi apenas um exemplo de algo maior), mas de tudo em nossa vida de fé. O desafio é mudar. Abandonar antigas crenças ao perceber que estávamos errados e, consequentemente, antigas práticas. Eu sei, não é fácil, já passei por isso. Durante muitos anos me ensinaram muitas coisas. Mas aí você começa a ler bons livros, estudar, ter discipuladores conhecedores da Palavra e de História da Igreja, bons confessores e conselheiros… e começa a perceber algo que dói demais:
Você estava errado.
Há algum tempo estive na Conferência Teológica da Sepal, uma das principais do Brasil, e o Pastor Bill Hybels, da megaigreja (foto) de Willow Creek (EUA), palestrou. Hybels causou uma enorme polêmica ao reconhecer publicamente que o modelo de megaigrejas não é o mais adequado à vida cristã, depois de anos investindo nele. Que se tivesse de começar novamente o ministério teria feito tudo diferente, investindo em pequenas igrejas, em que as pessoas pudessem ser mais bem pastoreadas e discipuladas mais adequadamente. Ou seja: ele teve peito para reconhecer o seu erro.
E, se formos pensar, a essência do Evangelho nos remete justamente a isso: reconhecer os erros, arrepender-se deles e mudar de rumo. Mas achamos que isso se restringe a pecados. Pergunto eu: por quê? Qua mal há em reconhecer “eu estava errado”? Por que não reconhecer “eu estava errado nessa ideia teológica”? E mudar de rota. Penso que reconhecer um erro e passar a agir diferente é um gesto nobre. Mais que isso: cristão.
Não, não devemos permitir que nosso orgulho seja maior nas questões de fé do que reconhecer a verdade. Se um dia você percebe que cantava “louvores” mundanos e antropocêntricos e que isso é errado… abandone esses “louvores”. Se observa que a igreja onde congrega adotou teologias espúrias (como a Teologia da Prosperidade, a Teologia Relacional, a Teologia Liberal e distorções bíblicas do gênero) e, logo, virou herética… mude de igreja. Se nota que aquele pastor que venerava está falando heresias ou não vive o que prega… passe a ignorar seus ensinos, por mais que tenha amado suas pregações por anos – mas, se ele mudou, por que você não pode mudar também e parar de ouvi-lo?
Mudar não desmerece ninguém. Reconhecer erros menos ainda. Na verdade, é o que devemos fazer constantemente em nossa caminhada de fé. Mais ainda: é o que Deus espera de nós. “Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade, sem lançar novamente o fundamento do arrependimento de atos que conduzem à morte da fé em Deus” (Hb 6.1).
Logo, isso não é o que eu acho - é o que a Bíblia diz.
Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício








































































