Arquivo de janeiro, 2013

Eu e você certamente já escutamos todo tipo de oração: por casa, emprego, casamento, causas na justiça, recebimento de dons, curas e por aí vai, a lista é interminável. Mas rarissimamente você vai ouvir alguém pedir a Deus por… amigos. Amigos? Sim, bons e verdadeiros amigos. Em nossa vida eles são extremamente importantes, desempenham um papel fundamental, são colunas na alegria e na tribulação, mas, ainda assim, parece que não damos muita atenção a isso. Não se vê igrejas organizando “correntes de sete semanas por amigos”, “reunião de intercessão por amigos”, “grande clamor por obtenção de amigos” ou nada do gênero. E penso que essa é uma falha grave em nossa devocionalidade. Pois estamos deixando de solicitar do Pai um dos artigos mais indispensáveis para a caminhada humana.

Em 1996, eu trabalhava no jornal O Globo, um jovem e promissor jornalista, cheio de “amigos”. Afinal, muitos viam em mim alguém que teria um grande futuro profissional: em menos de dois anos de formado tinha passado pelo Jornal do Brasil e sido convidado para ir para O Globo pelo dobro do salário (e não, não estou me gabando, é que no JB eu ganhava muito mal mesmo). Assim, ser meu “amigo” parecia que traria muitas vantagens para quem estivesse por perto quando eu tivesse um upgrade profissional. Só que o inesperado aconteceu: fiquei doente e fui obrigado a deixar o emprego, visto que não conseguia mais usar um computador. A notícia correu pelas redações: Zágari não poderia mais trabalhar, estava inválido para sempre. Não tinha mais nada a oferecer. E foi então que percebi que as dezenas de pessoas que me convidavam para sair, viajar, fazer mil coisas… não eram minhas amigas de fato. Para elas eu era um “contato”. Desempregado e deprimido, fui para casa com a certeza de que muitos e muitos me dariam apoio naquela hora tão difícil. Lembro até hoje quantos amigos me deram um telefonema que fosse para saber como eu estava:

2.

E só.

Bem diz Provérbios 14.20 que “O pobre é odiado até do vizinho, mas o rico tem muitos amigos”. Isso fala de aproximação por interesse, por aquilo que você pode proporcionar. Naquele momento aprendi o que NÃO É um amigo de verdade. Não é quem te bajula, nem quem está por perto para se divertir ou pelo que você possa oferecer. Não é quem precisa de você porque a bola do jogo é sua ou fica sempre falando somente de si. Não é o que te pergunta se está tudo bem sem real interesse de ouvir a resposta. Tampouco conviver todos os dias, muitas horas por dia, garante algo – passar muito tempo junto também não faz um amigo, faz colegas. Não, nada disso é amizade. E, naquela época, vi de perto a falta que o calor humano faz.

Tudo isso voltou à minha mente quando um irmão querido que conheci por meio do APENAS me escreveu um email contando como se sente solitário e sem amigos. E lembrei então da oração que fiz naquela época, quando, deprimido e só, resolvi erguer a Deus o clamor tão inusitado: “Senhor, dá-me amigos…”. E Ele deu. Conheci pessoas em pouco tempo que até hoje, 16 anos depois, são capazes de tirar a roupa do corpo para me vestir. E eu a elas. E de lá para cá o Pai tem acrescentado mais alguns a essa lista, que faço questão de manter seleta e restrita. Hoje só entram nela aqueles que nos momentos de maior adversidade em minha vida doaram-se por amor sem pensar em si mesmos. Ou aqueles por quem eu pude fazer isso. Pois descobri que essa é a grande e maior prova de amizade que existe. Biblicamente falando.

Amigos, pela ótica bíblica, são pessoas que gostam de você de graça (ou com graça), isto é, a despeito de qualquer coisa. Com quem não vai concordar em tudo, mas que continuará amando do mesmo jeito. Que estarão do teu lado apesar de todos os teus defeitos, tuas falhas e teus pecados. São aqueles que servem de coluna na sua vida, que saem no meio da noite do calor de sua casa para te ajudar no frio da escuridão da rua. Amigos são vidas que abrem mão de  algo importante para elas por você.

Sim, fui à Bíblia tentar entender o padrão divino de amizade. E percebi que, acima de tudo, segundo as Escrituras é isso o que determina de fato o que é um amigo: é alguém que abre mão de si por você. Palavras do próprio Jesus, em João 15.13: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos”. Abdicar de si. Deixar o próprio conforto pelo outro. Dispor do seu tempo em favor do amigo. Ouvir com interesse e empatia. Suportar os defeitos. Amparar. Brigar por ele. E nunca virar as costas, não importa o quê – em especial nos momentos de maior tribulação. Pois é nessa hora que você descobre quem de fato é seu amigo, como diz Provérbios 17.17: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”. Nada como um bom momento de angústia para você peneirar quem de fato te considera um amigo.

Aprendi lendo a Bíblia que amizade se prova na hora em que temos tudo para abandonar o amigo e não o fazemos. Aprendi com Salomão, em Provérbios 27.10: “Não abandones o teu amigo, nem o amigo de teu pai, nem entres na casa de teu irmão no dia da tua adversidade. Mais vale o vizinho perto do que o irmão longe”. Sim, eu já tinha descoberto na prática o que não é um amigo. Depois descobri na Bíblia o que É.

Essa é um recomendação que faço com ênfase: se você nunca orou a Deus pedindo amigos verdadeiros, não perca tempo e ore. Peça amizades reais, desinteressadas e que não desaparecem quando vem a ventania.

Jesus tinha doze amigos. Mas na hora em que ele mais precisou, cada um pensou só em si mesmo, escondendo-se para salvar a própria pele. Todos o abandonaram… com exceção de um. Sim, só um, João, ficou aos pés da cruz, sofrendo com Cristo, correndo o risco de ser preso, torturado e morto também. Prova de que o perigo pessoal importava para ele menos do que prestar solidariedade e carinho ao seu amigo naquela hora de dor.

E eu acredito ser essa a razão de ele ter sido, dentre todos, “aquele a quem Jesus amava”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Unge1Nos nossos dias, todos têm explicação para tudo. Como herdeiros do Iluminismo, parece que afirmar “eu não sei” tornou-se vergonhoso. Pois bem, vou fazer uma confissão: cursei dois seminários teológicos, já fui a mais congressos do que posso me lembrar, li dezenas e dezenas de livros e, ainda assim, quando penso em Deus, constato que não sei nada ou, no máximo, que há muito mais sobre Ele que não sei do que aquilo que eu sei. Sou frequentemente confrontado com minhas limitações e ignorâncias e os pontos de interrogação são meus companheiros inseparáveis. Quando não sei algo… simplesmente não sei. Gosto muito de investigar a Bíblia, procurar minuciosamente explicações para o que não tenho. Foi assim, por exemplo, que nasceu o livro A Verdadeira Vitória do Cristão, quando eu quis entender exatamente o que as Escrituras afirmam ser a vitória dos filhos de Deus. Nesse caso achei as respostas, mas, muitas e muitas vezes, acabo num beco sem saída. O texto de hoje se encaixa nisso: não trará nenhuma resposta para nada, nenhum insight, nenhuma certeza, nenhuma explicação. Apenas vou compartilhar uma questão e deixar a resposta no ar, para que cada um de nós ore ao Senhor e peça iluminação. Um dos maiores mistérios para mim no que tange à fé é o conceito, na Nova Aliança, de unção.

Naturalmente já ouvi de tudo. Sei que unção é uma capacitação especial de Deus para desempenhar uma tarefa específica. Mas como ela capacita? Quem? De que modo ela age? Depende somente de Deus? Pode ser removida? Enfim, embora tenha noções do básico bíblico sobre o que é a unção do Senhor em nossos dias, há muitas e muitas perguntas que faço sobre isso. É extraordinário como Deus me surpreende e constantemente ri de minhas convicções. Recentemente isso aconteceu de forma muito forte.

Fui visitar um amigo que está enfrentando um problema de saúde e ele me mostrou o vídeo abaixo. Confesso que nunca tinha ouvido falar do cantor que você verá, não assisto ao programa de Raul Gil, de Aline Barros só conheço o DVD infantil dela que ponho para minha filha assistir, enfim… assisti com zero de conhecimento sobre tudo o que estava vendo. Então, se puder, assista a este curto vídeo e depois prosseguiremos:

Quem me acompanha aqui pelo APENAS já deve ter percebido que sou um chorão. Meu sangue italiano me faz chorar por qualquer coisa. Ao final desse vídeo eu chorei e chorei e chorei, inundado pela presença de Deus, por percepções de contrição, de humildade, de quanto preciso ser mudado, do desejo arrebatador de ser instrumento para glorificar Deus e levar amor aos homens. A letra dessa música é exatamente a oração que faço há meses e, de repente, a vi sendo cantada por esse cavalheiro. Bíblica, é baseada no salmo 139 e traz uma letra com licença poética e metáforas corretas sobre o papel do cristão no mundo pecador.

Foi quando perguntei ao meu amigo de que igreja era esse cantor. E ele me disse que Ricky Vallen não é cristão.

Unge2Como pode? Como um cantor sem vida com Jesus conseguiu ser um instrumento para me conduzir a um estado de alma de tanta humilhação, gratidão e intimidade com o Senhor? E, acredite, não foi um mero emocionalismo gerado por uma bela música, como ocorre ao se ir a um show musical secular: foi uma real experiência com Deus, um momento racional de comunhão e intimidade com o Senhor que acabou me levando à emoção. Na minha ignorância, enquanto assistia ao vídeo eu pensava “meu Deus, que unção…”. Mas, então, descobri que o artista não é cristão. Deus unge não cristãos? Como… por quê… quando… o quê… ? Em busca de uma explicação, de cara vieram à minha mente conceitos como graça comum, lembrei da mula de Balaão, pensei em emocionalismo provocado por uma bela canção, recordei que o sol nasce para bons e maus e a chuva desce sobre justos e injustos… enfim, todas as explicações racionais e teológicas possíveis.

Consegue perceber o nó nos neurônios? Tenho convicções firmes sobre a questão da música cristã x música do mundo x música secular, como já expus em posts como O que é boa música evangélica? e Cristão deve ouvir música do mundo?, mas se você reparar, em nenhum desses textos abordei a questão da unção. Simplesmente porque não sei. Elvis Presley, mesmo depois de ter se afastado do Evangelho, cantava hinos cristãos em suas apresentações e era absolutamente lindo ouvi-lo. Como explicar isso à luz da ideia de que a unção sobre o cantor faz diferença na hora em que uma música é entoada?

Embora não tenha conseguido chegar a uma conclusão sobre a unção de Deus no caso de Ricky Vallen, tive uma certeza: Deus usou aquele homem não cristão. Sem dúvida alguma agiu por intermédio dele para falar ao meu coração, para me conduzir a uma oração cantada que estabeleceu um religare autêntico com o Senhor. Enquanto Ricky Vallen cantava eu orava com ele as palavras daquela música. E minha comunhão com Deus naquele momento ocorreu de fato. A verdade é que fui inundado e transbordei daquela santa presença. Só que o homem não é cristão.

Enquanto meu cérebro lutava contra o que minha alma vivia, meu amigo mostrou-me uma versão estendida do vídeo, que mostra o diálogo entre o artista e Aline Barros após ele terminar de cantar. Ali pude ver que ele próprio foi tocado profundamente pelas verdades que aquela música transmite e tive a oportunidade de ver essa cantora evangélica falar de Deus para ele de um modo extremamente carinhoso, amoroso e semeador, sem confrontá-lo, sem fugir da Bíblia para querer agradá-lo. Enfim, ela compartilhou com ele (e com os milhares que estavam assistindo ao programa) verdades da fé com toda a delicadeza que um evangelista cristão deve ter – sem ofender, sem confrontar, sem humilhar, mas sim com amor. Você pode ver essa segunda parte no vídeo abaixo, a partir de 6:o5 (se não quiser ouvir a música toda de novo):

Saí da casa de meu amigo com temor e tremor. Guardei minhas certezas bem guardadas no embornal da minha ignorância e só o que eu conseguia comentar com o Senhor era o quanto eu me sentia pequeno por ser tão arrogante e presunçoso. A única verdade que tinha em meu coração naquele momento é que Deus é soberano, faz o que quer, quando quer, onde quer… com quem quer. E, enquanto ficamos petulantemente estabelecendo fórmulas, Ele sorri e segue fazendo as coisas ao seu modo. Não é à toa que Deus se apresentou a Moisés como o “Eu sou”. Pois Ele é. Simples assim. Nada do que eu possa fazer ou crer mudará isso. Ele é o que Ele é, a despeito de nossas certezas tão soberbas e limitadas. Como disse o filósofo Sócrates, “só sei que nada sei”. E essa é a verdade que tem me acompanhado desde aquele dia: a certeza de que minhas certezas não passam de possibilidades. De que agora vejo como por espelho e só na eternidade verei face a face.

Obrigado, Senhor, por pôr este pequeno arrogante que sou em meu devido lugar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Foto1Tenho pensado muito sobre fotografias. Já reparou como ninguém fotografa momentos tristes? Você já viu alguém ficar tirando fotos em velórios, registrando o instante em que recebeu zero na prova, compartilhando no Instagram a imagem do pai em coma no hospital ou fazendo álbum de fotos dos piores momentos da festa de aniversário? Se eu pego uma câmera e aponto para você, qual é sua reação imediata? Deixe ver se acertei: dar um sorriso. O dia pode estar um inferno, mas se alguém vira uma lente em sua direção… você mostra logo os dentes. Depois do clique, seu rosto volta ao normal e aquela cara de felicidade obrigatória desmonta em um segundo. Curioso isso. Alguma vez já parou para refletir por que temos essa obrigação inconsciente de mostrar para o mundo como somos inevitavelmente felizes e irremediavelmente sorridentes?

Pegue por exemplo um álbum de fotos (ainda existe isso fora do computador?)  da vida de alguém. Se você folhear da primeira à última página vai jurar que a existência daquela pessoa foi um desfile interminável de bons momentos. Sempre sorrindo. Quando a foto é em grupo, todos juntam as cabeças e… sorrisos transbordam. Pelo menos até o fotógrafo falar “pronto”. Aí aqueles rostos perenemente sorridentes vão se lembrar da conta Foto2a pagar, do desemprego, do casamento infeliz, da dor de cabeça que não passa, do namorado que te trocou por outra, da rotina, do tédio, da depressão, da crise do petróleo, do aquecimento global, do apocalipse maia! Em outras palavras; sorrisos em fotos muitas e muitas vezes não significam nada. Não representam uma felicidade real. São um mero hábito, uma formalidade. São fachadas pintadas com o único objetivo de deixar para a posteridade a impressão de que você é e sempre foi feliz.

Mas… por quê? Por que temos a obrigação de ser felizes 24 horas por dia, sete dias por semana? Curiosamente, a infelicidade é vista como uma derrota pessoal. Demonstrar para os outros que a felicidade foi ali e já volta parece uma falha de caráter. E somos tão despreparados para lidar com nossas próprias infelicidades que também não sabemos como lidar com a infelicidade dos outros – por isso há tantos infelizes sem consolo nas igrejas. O despreparo é generalizado. Se você está triste, repare que a maioria das pessoas não vai te abraçar em silêncio ou chorar com você, mas dizer frases feitas que tentam impor felicidade: “Que isso, levanta esse astral!”, “Tá triste por que, a vitória é tua!”, “Não reclama de barriga cheia, pensa nas criancinhas da Etiópia que estão morrendo de fome”, “Fica assim não, rapaz, bola pra frente, ânimo!”. Palavras, palavras e palavras… que de fato nessas horas não servem de nada – ninguém fica feliz de repente só porque alguém chegou e disse “Não fica triste não”.

Foto3Repare que Jesus não gastava muitas palavras para consolar: ele agia para gerar consolo. O Mestre, “movendo-se de íntima compaixão”, empatizava com os infelizes, chorava com eles e não fazia nenhuma questão de dizer “chora não, vai passar”. Pois Ele era “um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima” (Is 53.3). Jesus não forjava uma falsa felicidade. Em Mateus 26, vemos o Mestre, em um momento de extrema infelicidade, dizer no Getsêmani a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, entristecido e angustiado: “A minha alma está profundamente triste até à morte”. Meu Deus… que declaração! De uma honestidade e transparência que em nossos dias seria considerada vinda de um derrotado, um fracassado, um ser de segunda classe: jamais de um servo de Deus, pois, afinal, somos mais do que vencedores! Sorria, você é filho do Rei! Sim, mas… o unigênito Filho do Rei chorou de compaixão da infelicidade dos que estavam junto ao sepulcro de Lázaro e viveu sua própria infelicidade na agonia do cálice que beberia em sua plenitude: seu sorriso de agonia era banhado pelo suor de sangue que emoldurava aquele rosto de amor.

“A minha alma está profundamente triste até à morte”. Uau. Que tapa na cara da nossa obrigação de parecer sempre feliz.

Foto4Podemos considerar que a Bíblia é o álbum de fotografias de Jesus de Nazaré. Nela estão registrados os principais momentos da vida do Cordeiro de Deus. Mas, ao contrário dos nossos álbuns humanos, Ele não tentou nunca simular uma felicidade inextinguível, uma vida de alegria todo dia. No álbum de fotos de Jesus vemos sim momentos felizes, como a festa de casamento em Caná, seus muitos encontros com seus amigos, sua entrada triunfal em Jerusalém. Mas esse álbum é também o registro de sua humilhação. O vemos cuspido. O vemos apanhando com chibatas. O vemos sendo esbofeteado. O vemos sendo ofendido e caluniado. O vemos nu. Com sua pele sangrenta totalmente exposta numa cruz, os genitais à mostra, sem ter como cobrir sua vergonha porque suas mãos estavam cravadas na madeira. Não, o álbum de fotos do Pão da Vida não teve nunca a intenção de simular uma felicidade interminável e onipresente, mas sim a intenção de desnudar a verdade da Verdade, para que nós mesmos possamos desnudar a nossa verdade. Ante os homens e ante o Pai. Seja ela de felicidade ou infelicidade. Que lição para seres que sentem-se na obrigação de estar sempre aparentando felicidade!

Não simule uma existência paradisíaca e extraordinariamente feliz, meu irmão, minha irmã. Celebre sim e muito os momentos bons e alegres, isso é importante. Diria até que é vital. Mas nunca perca a honestidade de reconhecer seus períodos de infelicidade, pois eles são lamentavelmente muito preciosos. Eles moldam nosso caráter, nos fazem refletir, nos levam a mudar de rumo, nos dão a humildade de chegar em oração a Deus e confessar que só nele temos felicidade acima de qualquer circunstância.

Meu desejo sincero é que no álbum de fotografias da sua  vida haja mais fotos de sorrisos do que de lágrimas. Desde que os sorrisos sejam sinceros – a mera contração de músculos do rosto não atesta um coração sorridente. Mas, se as lágrimas vierem, não as esconda por trás de um sorriso forçado e obrigado. Fotografe-as na sua lembrança para nunca se esquecer delas. Quem só quer se lembrar dos momentos felizes está abrindo mão da sua verdade enquanto homem. Assuma seus momentos infelizes. Deixe-os desempenhar seu papel em sua vida. E jamais se esqueça deles – pelo contrário, ponha-os na melhor moldura que puder.

Foto5No Jardim das Oliveiras, o coração de Jesus se encheu de infelicidade. No caminho do Calvário, o coração de Jesus se encheu de infelicidade. Suspenso na cruz, o coração de Jesus se encheu de infelicidade. Só que, mais à frente, depois do calvário e da crucificação, houve uma sepultura vazia. Lembre-se que o pão e o vinho são uma foto dessa sepultura. São a lembrança honestamente sorridente da vitória eterna. E é a foto desse sepulcro que nos garante uma felicidade que durará para sempre, a partir do momento em que dermos nosso primeiro passo na eternidade. E é por isso que, creio eu, no Céu não haverá fotografias: pois lá não precisaremos simular uma felicidade aparente. Lá, a felicidade não dependerá de a demonstrarmos. Na eternidade, a felicidade simplesmente é. A presença de Deus descartará no Céu o que será inútil, como revela Apocalipse 21: não haverá templo algum, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo.  Tampouco haverá sol nem lua, pois a glória de Deus será a luz do Céu – e o Cordeiro, a sua candeia.  Suas portas jamais se fecharão de dia, pois ali não haverá noite.

Sim, creio que no Céu não haverá fotos, pois serão desnecessárias num lugar em que as melhores lembranças que pudermos ter da vida terrena não deixarão saudades e onde caminharemos ao lado de um Deus que enxugará dos nossos olhos toda lágrima. E lá não haverá mais morte. Nem tristeza. Nem choro. Nem dor.

Só felicidade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo
Maurício

Marjoe1Nos últimos meses tenho evitado escrever no APENAS sobre polêmicas na Igreja, Teologia da Prosperidade, heresias e outras questões macro. Já há gente demais fazendo isso, com discursos inflamados e agressões incompreensíveis. Esse universo não tem me atraído tanto, tenho preferido refletir mais sobre a alma humana, suas dores, as questões do indivíduo, por entender que esse sim era o foco de Jesus Cristo. Ao ler os evangelhos, ficou muito claro para mim que Jesus não veio para fazer apologética, mas para curar os doentes de alma e corpo, libertar os cativos, sarar corações, perdoar pecados. Por isso tenho me concentrado em pensar sobre isso. Apologética evidentemente tem sua importância, mas na escala de prioridades de Jesus – analisando tudo o que Ele falou e fez – percebo que ela está lá em baixo, enquanto as questões da alma humana estão batendo no teto. No entanto, não vivo em alienação e, por isso, peço que me permita eventualmente falar sobre aspectos macro da Igreja. É o que farei hoje.

Recebi de um amigo o link para um documentário a que assisti com tanta dor no coração que foi difícil ver até o final. Seu nome é “Marjoe”, um filme de 1972 que recebeu o Oscar de Melhor Documentário. Conta a história de um pregador que, depois de usar o Evangelho por anos para enriquecer, decidiu abandonar a farsa e vir a público contar todos os seus esquemas, suas técnicas para enganar os fiéis e para simular a ação do Espírito Santo. Para quem ama o Evangelho, assistir a esse documentário entristece, deprime, enche os olhos de lágrimas. Pois fato é que, assim como o “evangelista” Marjoe Gortner, há muitos por aí que fazem o mesmo que ele. Graças a falsos pregadores como esse homem, que usam o nome de Jesus para faturar, os servos realmente tementes a Deus têm colhido o fruto da rejeição e da chacota do mundo.

Marjoe2Durante sua infância, os pais de Marjoe usaram o filho para arrecadar milhões de dólares como “pregador-mirim”. Depois que alcançou a maioridade, mesmo sem ter fé ele continuou a fazer a única coisa que sabia e ganhou tanto dinheiro que conseguia “trabalhar” por seis meses e ficar seis meses de férias. Na época do lançamento do documentário, a distribuidora optou por restringir sua exibição no Sul dos Estados Unidos (região mais cristã do país) com medo da reação do público.

Marjoe5Não tenho muito a dizer, creio que o documentário fala por si. Apesar de ter sido feito no ano em que nasci, é extremamente atual. Apenas peço que não julgue toda a Igreja pelo que você verá. Assim como há a banda podre, há o remanescente fiel. Compartilho esse documentário com a única intenção de despertar cautela e provocar reflexões, não para denegrir a religião verdadeira. A conclusão é que nem tudo o que reluz é ouro.

Marjoe4Sei que muitos têm dificuldade de assistir a um filme em inglês sem legendas. Por isso, procurei o documentário legendado, mas só encontrei uma versão editada, que vem com muitas opiniões pessoais do irmão em Cristo que o legendou e editou (num total de 25 minutos). Posto a seguir o vídeo legendado, em três partes (os comentários do irmão são opiniões pessoais dele e não necessariamente representam a minha) e, em seguida, posto o documentário na íntegra, em inglês sem legendas (duração: 1h23). Se você consegue assistir sem legendas, prefira o filme na íntegra. Caso contrário, a versão editada dá uma ideia do principal.

Que Deus tenha misericórdia de sua Igreja.

DOCUMENTÁRIO “MARJOE”, VERSÃO EDITADA EM TRÊS PARTES, LEGENDADO EM PORTUGUÊS (25min):

Parte 1

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Parte 2

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Parte 3

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DOCUMENTÁRIO “MARJOE”, VERSÃO NA ÍNTEGRA, ORIGINAL EM INGLÊS, SEM LEGENDAS (1h23):

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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Paz1Treze quilos. Esse é o peso da paz.

Calma. Antes que você ache que perdi o juízo ou algo do gênero, deixe-me explicar. Passei tempos atrás por um período muito difícil, com uma crise de estresse e outros problemas. Sempre ouvi falar de pessoas que perdem o apetite e achava aquilo estranho, pois sou um bom garfo, que come bem faça sol ou chuva. Então foi bizarro quando, no meio daquela crise de estresse, ansiedade e tristeza, percebi que o apetite simplesmente desapareceu. Meus almoços se restringiam a três garfadas. Jantar? Uma fruta. A verdade é que a falta de paz me roubou a fome, cuja ausência levou embora 13 quilos. De 82 passei para 69 sem fazer nenhum esforço, nenhuma dieta e sem praticar nenhum exercício físico. Impressionante. Foi quando cheguei à conclusão de que a paz pesa 13 quilos: quando ela foi embora esse é o peso que levou consigo.

O tempo passou, a vida prosseguiu e a paz de espírito voltou. Demorou meses, é verdade, mas aos poucos Deus agiu e a restaurou. O resultado é que hoje estou com 76 quilos. Sumiram os sulcos da face, voltou o sorriso com maçãs do rosto e ainda saí com um bônus: minha barriga nada elegante hoje está dentro de proporções aceitáveis. Em tudo isso posso dizer que senti literalmente na pele o que acontece quando uma pessoa perde a paz em sua vida.

Paz não é um artigo supérfluo nem um luxo. Tanto que é fruto do Espírito (Gl 5.22), o que demonstra sua importância como parte da natureza divina. Isso se confirma em Romanos 16.20 quando Paulo refere-se ao Senhor como “o Deus da paz”. A paz de Jesus é um elemento tão fundamental que serve para nós inclusive como juiz. Colossenses 3.15 deixa isso claro: “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo”.

Paz2Os evangelhos nos mostram que quando Jesus chegava em algum lugar, ele não desejava às pessoas prosperidade, amor, vida longa, bons ventos, um bom dia ou saúde pra dar e vender: desejava paz. Esse fato revela de maneira inequívoca como paz está entre as prioridades de Cristo. Podemos ver esse fato em muitas passagens, como Lucas 10.5 (“Ao entrardes numa casa, dizei antes de tudo: Paz seja nesta casa!”), Lucas 24.36 (“Falavam ainda estas coisas quando Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: Paz seja convosco!”), João 20.21 (“Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco!”), João 20.19 (“Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco!”) e João 20.26 (“Passados oito dias, estavam outra vez ali reunidos os seus discípulos, e Tomé, com eles. Estando as portas trancadas, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco!”).

O mesmo se repete com os apóstolos. Paulo repetidamente deseja paz às pessoas a quem saúda, como em Romanos 15.33 (“E o Deus da paz seja com todos vós”), em 2 Tessalonicenses 3.16 (“Ora, o Senhor da paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias”) e Efésios 6.23 (“Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo.”). O discípulo amado João também replica a seus conhecidos o desejo do Senhor:  “A paz seja contigo. Os amigos te saúdam” (3 Jo 1.15). E o apóstolo Pedro termina sua primeira epístola desejando aos seus destinatários o mesmo que sempre desejo a quem me lê pelo APENAS: “Paz a todos vocês que estão em Cristo” (1 Pe 5.14).

No Antigo Testamento encontramos numerosas passagens em que vemos pessoas que se saudavam desejando que tivessem paz. Encontramos isso, por exemplo, em 1 Samuel 25.6, Juízes 6.23, Juízes 19.20, Daniel 4.1, Daniel 6.25, Daniel 10.19 e outras passagens.

Paz3O desejo de que tenhamos paz é recorrente no coração de Deus. Já vimos que o Filho se dirige aos seus amados sempre desejando paz. Descobrimos que esse também é o desejo do Pai, em passagens como Daniel 10.19, quando Ele fala ao profeta: “Não temas, homem muito amado! Paz seja contigo! Sê forte, sê forte”. E, em 1 Crônicas 12.18 podemos ver que o Espírito Santo também se manifesta dessa forma: “Então, entrou o Espírito em Amasai, cabeça de trinta, e disse: Nós somos teus, ó Davi, e contigo estamos, ó filho de Jessé! Paz, paz seja contigo! E paz com os que te ajudam!”.

Bem… qual é a conclusão de tudo isso? Essencialmente que Deus tem um desejo sincero de que vivamos em paz. Portanto, se você está sem paz no seu coração, deve recorrer ao Senhor em busca dela. Pois seria absolutamente incoerente que aquilo que o Pai, o Filho e o Espírito desejam aos homens seja contrário a sua soberana vontade. O Senhor sabe que nem sempre teremos paz, mas tê-la em nós é o estado ideal que o Senhor almeja para seus filhos.

Perdi a paz por um tempo e com ela se foram 13 quilos. Mas o Pai me dá por herança uma “paz que excede todo o entendimento” (Fp 4.7). o Filho está comigo todos os dias, até a consumação do século (Mt 28.20). E o Espírito Santo que habita em mim tem como uma das virtudes de seu fruto justamente a paz (Gl 5.22). Com tudo isso, tenho certeza que a paz é o estado desejável daquele que é salvo.

E, se você está sem paz neste momento de sua vida, lembre-se sempre que, se o peso terreno da paz são 13 quilos, a Bíblia também nos revela, em 2 Coríntios 4.17, o peso da paz eterna. E ele é exatamente aquele que nossa leve e momentânea tribulação produz para nós: um peso eterno de glória, acima de toda comparação.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Marcos1Há pessoas que simbolizam valores importantes em nossa vida. Quando falamos de Jesus logo pensamos em perdão, graça e amor. Ao mencionarmos Salomão, automaticamente o associamos à sabedoria. Quando lembramos de Sansão vem à nossa mente força bruta. Jó nos remete à paciência. E por aí vai. Três pessoas são marcos em minha caminhada, pois simbolizam aspectos fundamentais da minha vida e da minha jornada como cristão. Mesmo que você não os conheça, permita-me por favor falar um pouco sobre esses três marcos.

O primeiro chama-se Marcos José. Para mim ele é o símbolo da amizade. O conheci quando eu era novo convertido. Ele era pastor, líder de mocidade, e fui sua ovelha, seu aluno e discípulo. Aprendi muito com ele em longos papos sobre as coisas de Deus e a Igreja. Ele celebrou meu casamento e fui padrinho de casamento dele. Viramos amigos. Devido a discordâncias teológicas e outras bobagens da vida ficamos meses sem um contato mais íntimo. Mas, na minha mais recente crise pessoal, seu comportamento – junto com o de sua esposa e minha maninha Marta – foi o de um verdadeiro amigo. Sem pensar em si, aturou com paciência meus momentos de baixo astral (e só Deus sabe como fico chato quando estou para baixo), me aguentou até 5h da madrugada em uma longa conversa, me buscou em casa e me trouxe de volta mais de uma vez (e moramos longe um do outro) e se fez presente em telefonemas, encontros e almoços que se estenderam por mais de seis horas. Relevou todas as diferenças, discordâncias e quaisquer outros poréns para abraçar o amigo, acima de qualquer outra preocupação. Sua forma de agir numa hora como essa solidificou essa amizade em meu coração num nível até então inédito. Se ele me pedir um dedo eu dou o braço, feliz.

O segundo chama-se Marco Antônio. É meu pastor. Para mim ele simboliza a espiritualidade. Seu cuidado com as ovelhas, sua compreensão e aplicação do Evangelho e sua forma de tratar as situações mais cabeludas sob seu pastoreio me ensinaram muito mais sobre vida cristã do que os dois seminários teológicos que cursei juntos. Se hoje há um pinguinho de graça e misericórdia em meu coração devo ao que aprendi com ele em palavra e atitude. Sei que ele não é perfeito, que é apenas um homem, mas um dia quero ser um homem como ele é: um homem… de Deus. E que age como tal acima de qualquer coisa.

O terceiro é um irmão de minha igreja, Marcos Sá, o “Marquinhos”. Ele, para mim, simboliza a santidade e o amor pelo próximo. Conviver com ele é deliciar-me com seu coração pastoral, transbordante de preocupação genuína pelas pessoas, com afeto desinteressado, abnegação, alma pura e dedicação incansável. Recentemente oramos juntos após um culto e pude sentir suas lágrimas sinceras pingarem em minha mão – o que para mim não foi um incômodo: foi uma honra. Quando penso em Marquinhos sinto vergonha de mim mesmo, tão distante estou de ter um coração bondoso e temente como o dele. Já ouvi pessoas o criticarem por seu excesso de zelo com as coisas de Deus e seu jeito metódico de cuidar da obra do Senhor, mas queria eu conhecer alguém que tivesse dez por cento de sua intimidade com Jesus e amor pelo próximo. E, sinceramente, não conheço quem chegue nem perto.

Três marcos, três símbolos de virtudes essenciais à vida cristã: amizade, espiritualidade, santidade e amor ao próximo. Claro que esses três “Marcos” compartilham das demais virtudes: Marcos Filho tem espiritualidade, Marco Antônio tem santidade e Marquinhos tem amizade, por exemplo, mas destaquei o que pula de imediato em minha mente quando penso em cada um. Assim como esse trio, há outras pessoas em minha história que me servem de inspiração, em aspectos os mais variados. Poderia gastar páginas falando sobre Evandro, Alexandre, Alessandra, Cláudio, Irene, Wilson, Marcelo, Jovana e tantos outros. Mas se fosse discorrer sobre cada um seria um livro enorme e não um post.

A essa altura, você deve estar se perguntando o que afinal de contas lhe interessa saber sobre essas pessoas que nem ao menos conhece. Bem, do mesmo modo que tenho em minha história esses três Marcos que me remetem a aspectos fundamentais da vida, penso que cada um de nós deve se cercar de pessoas que nos ensinem a ser cristãos melhores, com suas qualidades, virtudes, atitudes e até defeitos. Como somos extremamente falhos e inconstantes, é fundamental ter quem nos faça recordar daquilo de que não podemos nos esquecer se quisermos ter uma vida com Deus. Muitas vezes, sem que precisem dizer uma só palavra para isso.

Sem a comunhão da amizade não há Igreja. Sem a espiritualidade não há relacionamento com Jesus. Sem santidade ninguém verá a Deus. Sem amor ao próximo nossa fé é inútil. E louvado seja o Senhor por me lembrar sempre de buscar e exercer essas virtudes ao tomar irmãos como modelos e parâmetros que me lembrem de que tenho de ser a cada dia uma pessoa melhor.

De quem você se cerca? Quais são as virtudes que aqueles que convivem com você te levam a almejar? Será que você tem modelos de vida que te façam querer subir de nível como pessoa e como cristão? Se não tem, sugiro que busque ter. Alguém para quem possa olhar e dizer “quero ser como ele quando crescer”. Isso não é idolatria, não é bajulação: é reconhecimento. E que seja dada honra a quem tem honra.

“Eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15). Temos em Jesus o modelo pleno e perfeito de quem devemos ser. É nosso melhor amigo, totalmente espiritual, santo dos santos, padrão de entrega pelo próximo. Mas Eliseu olhou para Elias como um referencial de alguém tão digno que ter “porção dobrada” do que ele tinha seria o dom mais desejado. Timóteo viu em Paulo alguém que merecia sua intensa atenção. Davi viu em Jônatas a expressão daquilo que lhe acrescentava como ser humano. E você? Em quem você se espelha? Quem são seus referenciais? São homens e mulheres amorosos, alegres, pacíficos, pacientes, amáveis, bondosos, mansos e temperantes? Ou são iracundos, carnais, agressivos, arrogantes, vaidosos, egocêntricos, pueris, bobos, inexperientes, vulgares, boquirrotos ou mais amigos de si do que amigos de Deus?

Oro ao Senhor que você encontre pessoas que o inspirem. Que o motivem. Que o impulsionem. E ouso ainda mais nessa oração: peço a Deus que você chegue ao ponto em que as pessoas apontem para você e digam:”Quando eu crescer, quero ser igual a ele”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Memo1Há algum tempo tive o privilégio de conversar com idosos que vivem em uma casa de repouso. Marcou-me uma senhora em especial, de seus oitenta e muitos anos. Estávamos falando  sobre sua vida, quando lhe perguntei se tinha arrependimentos de coisas do passado. Ela lançou um olhar no vazio e, depois de pensar um pouco, respondeu: “Sim… eu me arrependo de ter passado tanto tempo pensando no passado”. Demorei algum tempo tentando entender exatamente o que ela quis dizer. Quando viu que eu estava parado, com cara de pastel e uma interrogação na testa, emendou: “Não é que não tenhamos de nos arrepender das besteiras que fizemos. Mas é que, se a gente olha pro futuro e não pro passado, não vamos ter arrependimento de nada, entendeu? Porque o que passou machuca, mas o que está pela frente deixa sempre a gente empolgado”. Fiquei pensativo. O que ela disse me fez lembrar de uma frase que li em um livro de C. S. Lewis: “Existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás”.

Está na moda o versículo de Lamentações de Jeremias 3.21: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. É um desejo inteligente. Mas eu confesso que, depois de muito meditar nas palavras daquela senhora, tenho tentado aplicar a minha vida uma nova disciplina espiritual: trazer à esperança aquilo que pode se tornar uma boa memória. Olhar para o futuro na expectativa das coisas boas que Deus pode trazer. Porque as dores do passado… doem. E de sentir dor quem gosta?

Por isso, é importante valorizarmos o passado sim, mas cada vez mais tenho descoberto que o passado só tem função se ele ajuda a compor nosso futuro. Porque, no final das contas, isso é o que interessa: de que modo posso pegar as experiências boas e ruins do passado para construir um futuro melhor? Pois o passado é como uma pintura estática, engessada, paralisada, limitada por suas molduras. Já o futuro é uma tela em branco, à espera das tintas, cheia de possibilidades e com grande potencial. E o presente é o pincel que toca ao mesmo tempo a mão e a tela, em processo de construção de algo novo. Se as novas gerações de pintores se contentassem em ficar apreciando os quadros no museu nada novo seria pintado. E aí viveríamos de ruminar alimento antigo e não de produzir alimento novo. A civilização ficaria congelada numa eterna contemplação do que já passou.

Memo2Eu gosto do passado. Coleciono livros com fotos do Rio Antigo, tenho um gramofone na minha sala e dois telefones antigos, um com 100 e outro com 56 anos de idade. Gosto de antiguidades. Mas, depois dessa experiência com aquela senhora, me peguei outro dia sentado no sofá, olhando para esses objetos e pensando, tentando entender por que eles me fascinam. Cheguei a uma conclusão: aquilo que não vivemos nos entristece porque gostaríamos de ter vivido e por isso buscamos estar perto desses artefatos do passado, para diminuir a distância entre nós e o que não vivemos. Eu gostaria de viver na época dos gramofones. Apesar de todos os badulaques eletrônicos que o século 21 nos oferece, aquela era uma época mais cavalheiresca, mais nobre, de pessoas mais educadas e cerimoniosas. Confesso que gosto disso, tenho saudades de quando os homens cediam o lugar no ônibus para senhoras e puxavam suas cadeiras para se sentar à mesa. Até a arquitetura era mais elegante, com estilo  rococó e elegantes filigranas. Me agrada o século 19, por exemplo. Sinto pena de não ter vivido na época de Machado de Assis, com todos os atrasos que havia, a febre amarela e a ausência da Internet. Só que… de que adianta pensar nisso? Eu vivo é na época das bugigangas, dos ipads e iphones, dos ônibus espaciais e do feissebuqui, quando as pessoas sentam à mesa do restaurante e, em vez de conversar e sorver da maravilhosa experiência que é o contato humano, fica cada um imerso em seu smartphone. Quem já teve a chatíssima oportunidade de sair com amigos e ter que ficar vendo todos mexendo em seus “feisses”, “tuíters” e sms em vez de se dedicar à antiquada e ultrapassada arte de conversar com quem está à sua frente sabe o que estou dizendo. Só que não adianta nada lamentar a desumanização dos dias atuais ou nutrir a tristeza pelo que não vivi ou mesmo o que vivi e me fez sofrer. Os tempos são o que são e só o que podemos trazer é desejar que sejam algo mais próximo do que o passado foi.

As boas e más experiências do passado são as matérias que cursamos na escola da vida. Mas ninguém cursa uma escola para viver eternamente nela, cursa com vistas à formatura. A faculdade idem, cursamos com vistas ao mercado de trabalho. A vida idem idem, cursamos de olho na eternidade.

Aquela senhora estava certa: o que importa não é a cerimônia de casamento, é a vida a dois pelos anos que virão. O que importa não é a festa de formatura, é o mercado de trabalho. O que importa não é o parto, é a vida inteira daquele ser humano. O que importa não é o pecado, é o que se pode fazer com seu aprendizado após o arrependimento. Todos são como ritos de passagem para algo melhor. Muitas vezes os ritos de passagem não saem como queremos, já fui a um casamento em que o noivo desmaiou no altar, já vi formaturas chatas que me fizeram dormir, o parto de minha filha foi tenso e estressante, já cometi pecados que me fazem querer sumir. Mas o que veio depois foi ótimo: uma vida conjugal feliz, um emprego que realiza, uma filha saudável que me faz sorrir, uma caminhada em novidade de vida. Futuro.

Memo3Aquela senhora não sabia, mas suas poucas e sábias palavras cutucaram meus paradigmas.  Tenho olhado o futuro com olhos melhores. Sem desprezar o passado, venho refletindo sobre ele com uma certa frieza inédita. Dores demais. Cicatrizes em excesso. Decepções além da conta. O futuro, por incerto que seja, está todo nas mãos do Pai, que segura o pincel em sua mão. E olho para o que virá com a esperança de que vire boas memórias. Muitas das que tenho hoje apagaria, se fosse possível viver o brilho eterno de uma mente sem lembranças. Já as memórias que terei amanhã são um mundo novo, misterioso e empolgante. O grande autor Gabriel Garcia Marquez já escreveu que “a vida é uma sucessão contínua de oportunidades”. Isso nos fala de uma existência em que a cada dia temos a chance de fazer algo novo, que construa um futuro memorável. Eu gostaria de colecionar em minha sala objetos do futuro, para que diminuíssem minha distância dele. O passado é limitado, já o futuro… é infinito.

Chega de saudade. Quero ter saudade do que ainda não vivi. Penso que essa é a proposta bíblica e por isso vou vivendo a cada dia o seu mal. Olhar demais para trás faz doer o pescoço. Temos é de seguir de olhos no horizonte, persistindo em correr a carreira que nos está proposta pelo nosso Senhor.

Memo4“Portanto, [...] corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.1,2).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
mz

LuaPaoMoro num apartamento simples, pequeno, sem luxos, no Rio de Janeiro, num prédio velho, sem playground nem garagem. Mas meu cantinho tem uma característica que o torna especial para mim: as janelas. A de meu quarto dá para um pequeno bosque que fica no condomínio de trás, o que me permite despertar com o trinado dos passarinhos e o farfalhar da copa das árvores. Já a da sala me permite ver o Pão-de-Açúcar e a baía de Guanabara, uma paisagem encantadora de dia e especialmente bela e iluminada à noite. No ano-novo ela oferece um benefício a mais: sem precisar me espremer junto à multidão para assistir aos shows de fogos, posso ver da minha janela ao mesmo tempo os da Urca, de Niterói, da Enseada de Botafogo e uma boa parte dos de Copacabana. Essa virada de ano foi igual à de todos os anos anteriores. Mas com um diferencial: no céu, bem acima do Pão-de-Açúcar, brilhava uma Lua cheia lindíssima, como há muito eu não via.

Os parentes que admiravam os fogos ao meu lado não cessavam de comentar a beleza deles, com olhos que se voltavam ávidos de um lado para o outro, de um pedaço do céu para o outro, à procura de um espocar que fosse mais surpreendente do que o anterior. Mas confesso que, pela primeira vez, os fogos não me chamaram tanto a atenção. Não sei se a chegada de meu 41o aniversário ou mesmo um sentimento de melancolia que essa data sempre me traz têm a ver com isso, mas quando dei por mim eu simplesmente havia recuado, me sentado no sofá da sala e estava com o olhar fixo naquela lindíssima lua, que pairava imóvel no céu, por cima das cabeças de todos. E não pude me furtar de pensar naquele instante que, não importa o que os homens façam: a beleza da obra das mãos do Criador será sempre maior.

Lua2A prefeitura deve ter gasto alguns milhares de reais para organizar as queimas de fogos, ao custo de grande parte dos nossos impostos. Já Deus nos presenteou com a Lua por sua graça, a custo zero. A cada ano o investimento do Município na pirotecnia é maior, para incrementar o turismo e, consequentemente, aumentar a arrecadação municipal. Tudo não passa, no fundo, de uma questão financeira. Já o Senhor não nos pede nada em troca: a Lua não foi feita tão bela para que déssemos qualquer coisa como pagamento ao grande tapeceiro do universo. Foi um presente, dado por amor.

O amor de Deus se exprime em pequenas coisas, muitas das quais nem reparamos de tão triviais que se tornam: não notamos como é gostoso o cheiro de café pela manhã, a artística mistura de cores em uma árvore florida, o som do mar batendo nas pedras do Arpoador, a Lua emocionante desbancando o que de melhor o homem pode fazer. Como outdoors sem importância, essas pequenas maravilhas cotidianas normalmente desfilam ante nossos olhos de forma fugaz, sem que prestemos muita atenção a elas e lhes tributemos o devido valor. A poesia de Deus geralmente passa despercebida por nós, homens de concreto que somos, cheios de preocupações pragmáticas e tão dedicados ao dinheiro que temos de ganhar e com nossas vaidades inúteis.

Lua3Neste ano que começa, nada será novo. Continuaremos seguindo com nossas vidas, sem grandes mudanças porque o calendário virou. As passagens de ano são meras convenções cronológicas baseadas em astronomia, mas na prática absolutamente nada muda. Einstein já descobriu décadas atrás que o tempo é curvo e não linear. Mas gostamos da ideia de que o placar zerou e podemos começar tudo de novo – o que não vai acontecer. O tempo não para. A vida segue. O fluxo é constante. É bonita a alegria da virada de ano, mas no dia 2 de janeiro nos damos conta de que tudo segue como disse o sábio em Eclesiastes: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós” (Ec 1.9,10).

Os fogos um dia vão cessar. Mas a Lua seguirá embelezando o céu até o fim dos tempos. A vaidade humana passará, mas a bondade de Deus permanecerá indefinidamente. Os anos deixarão de ser contados, mas a eternidade prosseguirá com infinitude. As obras das nossas mãos serão carcomidas pela traça e a ferrugem, mas as realizações do Senhor serão lembradas pelos anjos e pelos santos para todo o sempre. Por isso, enquanto todos se deslumbram com aquilo que é temporal e fugaz, dou dois passos para trás, sento-me no sofá e contemplo o que perdurará pelos séculos dos séculos. E não, não estou falando da Lua. Falo de algo que brilhará eternamente, desbancando tudo o que o homem venha a realizar: a resplandecente graça de Jesus Cristo e a ofuscante glória do Criador do universo.

Lua1Que nunca nos esqueçamos que nada sobre Jesus pode ser substituído por algo ligado aos homens. Não há beleza humana comparável à divina. Não há fama, fortuna, glamour, benefício ou prazer proporcionados por este mundo que se comparem a um abraço do Pai celestial. E, acima de tudo, não há nada nem ninguém que suplante em nossas vidas a presença de Jesus de Nazaré. Que a Lua nunca nos deixe esquecer disso. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). Tal como a Ceia nos lembra do que o Senhor fez por nós e o arco-íris nos lembra do que o Senhor não fará mais a nós, sempre que eu olhar para a Lua cheia me lembrarei de quem o Senhor é – apesar de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio