Arquivo de setembro, 2012

Nossos dias são como videoclipes de bandas de rock: alucinados, corridos, confusos, barulhentos, nonsense. TV, internet, games, apps… a lista não acaba. Impossível não querer que isso nos afete. Afeta. E, quando vemos, fomos sequestrados pelo turbilhão da vida pós-moderna. Fomos cooptados. Sugados. É quase uma lobotomia consciente. Mas, de repente, por meios que você jamais imaginaria, Deus põe o dedo sobre os lábios e diz: “Shhhhhhh, acalma-te e cala”.  Quando vem esse tranco, cessa o acelerar do coração, estanca-se  a produção de adrenalina e, motivados pelas mais diversas razões, paramos. Chega. Hora de respirar. Retroceder. Voltar para a retaguarda. Se esconder da humanidade. Correr para longe da multidão de vozes e buscar o isolamento, deixando Deus refazer tudo. E, em meio a todo o ruído ensurdecedor do silêncio que se apresenta quando isso ocorre você descobre algo encantador: a simplicidade.

Quem passa por isso experimenta uma época única e inédita na vida. Um período de introspecção, reflexão, oração; época de repensar, refazer, mudar, reconstruir. De buscar o silêncio e fugir do barulho. Em certos momentos, farfalhar de páginas e a voz dos meus pensamentos muitas vezes é o máximo a que me permito ou me foi permitido. Simplicidade. Em nossos dias, algo raro de se conseguir e muito desvalorizado. Uns são empurrados a viver a simplicidade pelas circunstâncias. Outros, por perdas. Outros, ainda, pela depressão. Ou a descoberta de uma doença terminal. Há os que busquem a vida monástica. Ou a reclusão urbana. Seja qual for a razão ou o meio, conseguir trancar-se ou ser trancado numa bolha em meio ao corre-corre da existência nos leva a um lugar psicológico e espiritual que é puro silêncio.

Simplicidade traz paz. É comida sem requinte, bate-papos triviais, vento nos cabelos, rir de piada sem graça, a incerteza dos planos do Alto para nós e a certeza de que a vida é muito mais do que nos fizeram crer. É viver com pouco dinheiro, descobrir que um punhado de amigos que se preocupam vale mais do que multidões de amigos da boca pra fora, que Dorothy estava certa ao bater seus calcanhares. E, quando a simplicidade te alcança, ali você descobre Deus como nunca antes. Deus é o ser mais complexo do mundo. Impossível compreendê-lo, desista. Como explicar alguém que não teve começo nem terá fim, que é um e três, que é amor e fogo consumidor, que vira homem sem deixar de ser glória? Não dá. Eu não consigo. Os que tentam acabam criando ídolos. Não, não consigo.  Mas tentei, por muito tempo tentei. Busquei nos livros. Busquei nas conferências. Busquei até os neurônios fritarem. E, sem querer, foi na simplicidade involuntária que percebi que o ser mais complexo do mundo é também o mais simples.  100% complexidade, 100% simplicidade.

A simplicidade de Deus está em muitas coisas. Está, por exemplo, em podermos chamá-lo de Pai. Há coisa mais simples do que deitar no colo de um pai e simplesmente desfrutar do afago nos cabelos? Consequentemente, também está na simplicidade do amor paterno. Saímos do chiqueiro, voltamos cabisbaixos para casa e lhe dizemos com o coração sincero que só queremos ser servos, absolutamente certos de que carregaremos para sempre a lama grudada em nossa alma. E Ele balança a cabeça ante nossa puerilidade e diz com carinho que não entendemos nada: o anel será posto em nosso dedo e o banquete estará na mesa.  É tão só isso que você fica paralisado, sem entender ou se ver digno de um amor tão simples, só deixando os lábios tremerem em silêncio enquanto as lágrimas descem por seu rosto. E você, perdoado, aprende a perdoar. Hoje entendo por que minha filha me beija e agarra meu pescoço após sair de um merecido castigo. Pois o amor de Deus é simples como o amor de uma criança. Quem complica somos nós, adultos bobos.

A simplicidade de Deus torna-se visível quando Ele não se apresenta como uma quimera de vinte tentáculos, dez olhos e fúria titânica, mas como o mais singelo dos animais: o manso Cordeiro. De balido baixo. Calmo. Pacífico. Não, não encontro mais Deus nos berros e barulhos, nos shows e nos gritos de êxtase. Tenho me encontrado com Ele nos momentos de penumbra, nos entardeceres na beira da praia,  nas manhãs de chuva em que – achamos – que não temos o que fazer, que o dia está monótono. Mas monotonia é simplicidade pedindo para ser explorada, é o Rei chamando para conversar. Pois Ele está conosco todos os dias, até a consumação do século, sejam dias de céu azul ou cinzentos. E saber isso basta. É simples. Não é complicado. Ele é e Ele está. Feliz é quem descobre isso a tempo. É no silêncio da oração sussurrada, na felicidade da lágrima de agonia, na alegria dos joelhos que doem contra o chão duro, na paz da vida destruída… que você olha Deus nos olhos. Jó olhou e viu. Pois nada mais ele tinha. Em meio a sua desgraça, só restou a Jó o monturo e o caco de telha. Sua vida, embora devastada, tornou-se simples. E, em meio à simplicidade, Jó vislumbrou a essência do Redentor e disse a Ele aquilo que todo cristão deveria dizer:

“Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia. Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 42.3-6)

Por muito tempo busquei Deus na complexidade e hoje vejo o quanto isso me afastou dele. Não desejo mais um Deus complexo, frio e distante. Agora que descobri a simplicidade do carpinteiro de Nazaré quero vivê-la em sua plenitude, pois foi nela que meus olhos o viram. Não quero perder nunca mais esse reflexo em minhas retinas. E que eu morra depois de viver uma vida da qual o meu Salvador possa se orgulhar –  amando a ele e ao próximo, sem devolver mal com mal, depositando meu tesouro no lugar certo e tratando das feridas de quem estiver caído à beira do caminho. É hora de viver essa simplicidade, para que a hora de morrer faça sentido. Simples assim.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari
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De uns tempos para cá, muito tem se falado sobre como pastores são desnecessários. Que com o sacerdócio universal dos santos o ministério pastoral tornou-se um desvio, um anacronismo descartável. Pastor de tempo integral? Não precisa, dizem. Basta ter um “irmão mais experiente na fé” que nos ajude na caminhada e está tudo certo. Entendo as causas desse fenômeno, típico do século 21, mas sou obrigado a discordar dele. A verdade é que escândalos públicos envolvendo pastores fizeram essa “categoria” cair em descrédito. Quem antes era reverendo hoje é suspeito até que se prove o contrário. E, para muitos, é melhor matar o corpo todo do que amputar um dedo gangrenado. Então, na dúvida, cortem a cabeça do ministério pastoral institucional. Só que isso é pecar pela generalização e descartar o que Deus não descartou.

Tomo como parâmetro meus três pastores. São homens tementes a Deus, comedidos com dinheiro, que tratam as ovelhas de modo extremamente amoroso – seja disciplinando, seja restaurando. São pessoas verdadeiramente vocacionadas, homens de Deus visivelmente preparados para desempenhar suas funções eclesiásticas. Sacerdotes que, mais do que julgar o erro alheio e punir pecadores, como verdadeiros cristãos que são se preocupam com o que Jesus de fato se preocupou: não condenar pessoas,  mas conduzi-las ao Céu.

Recentemente, enfrentei um processo pessoal muito difícil. E meu pastor foi essencial para que eu me mantivesse de pé. Testemunhei da primeira fila a diferença que alguém que exerce o ministério por um real chamado divino é capaz de fazer na vida de uma pessoa. Devido a esse processo tinha perdido o ânimo de escrever no APENAS, como já relatei aqui. Abandonei o blog, por crer ter pouco a oferecer e muito a aprender. Mas foi meu pastor quem me incentivou a prosseguir. Sei que vou escrever menos, pois, hoje, minhas atenções estão bem mais distantes da Internet. Mas voltar a escrever aqui  é a cereja do bolo daquilo que devo a meu pastor.

Nesse período da minha vida, vi amor em quem poderia adotar aquela postura carrasca que vemos em muitos pastores com mais notoriedade. Sim, meus pastores são anônimos, você possivelmente nunca ouviu falar deles. Mas, de dentro de seu anonimato, fizeram mais pela minha alma do que todos os pastores famosos juntos. Vi compaixão e um interesse legítimo de cuidar das ovelhas. Vi meu pastor ligar de outro país para saber como eu estava. Vi esperança para o tão criticado ministério pastoral. E que ninguém fale mal de meus pastores ou de sua atividade tão claramente estabelecida por Deus quando eu estiver por perto, pois serei sempre um defensor ferrenho. Por pura gratidão e por reconhecimento daquilo que é feito por tão visível chamado divino.

Esse processo pelo qual passei me fez repensar muitas, muitas coisas. Entre elas, notei, para minha surpresa, que me sinto mais tolerante. Percebi que não me chateio mais com quem critica a figura do “pastor institucional”. Depois de tudo o que enfrentei e de ter visto a diferença que um pastor de verdade faz em nossa vida espiritual, o que sinto por quem abdica do privilégio de ser pastoreado é, confesso, um pouco de pena – e espero que ninguém se ofenda com isso. Possivelmente o crítico é alguém que teve experiências ruins com maus pastores, que foi magoado por sacerdotes mal preparados, foi ferido ou ignorado por ministros do Evangelho sem entendimento do amor de Deus. Se é o seu caso, meu irmão, minha irmã, minha oração é que encontre bons pastores. Aqueles que deixam as 99 ovelhas no aprisco em busca da única perdida. Que cumprem com modéstia seu chamado. Que amam a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.  Efésios 4.11 menciona que “Deus deu uns para pastores”, logo, existem os verdadeiramente chamados para isso. E menosprezá-los seria culpar quem Deus não culpa.  Meus pastores, afirmo, não são “irmãos mais experientes na fé”. São PASTORES, no sentido mais estrito e bíblico da palavra.

Vivi na pele a importância de ter um bom pastor. Que, mais do que um juiz ou um déspota, é um pai. E, como tal, disciplina quem ama, se for o caso. Oferece o abraço, se for o caso. Dá orientações bíblicas e aponta caminhos, se for o caso. E – em todos os casos – tem sempre uma única preocupação em mente: conduzir cada ovelha que lhe foi confiada por desígnio divino no caminho do Céu.

Saiba que seu pastor é seu aliado. Se ele não é perfeito… e daí? Você é? Pastores têm o direito de errar, dê um desconto. São humanos. E não super-humanos. Pastores pecam tanto quanto você e são perdoados por Deus tanto quanto você. O que não faz deles menos pastores. Portanto, não menospreze um bom sacerdote. Se o seu não é “bom” e você não reconhece nele autoridade, busque outra igreja e outro pastor, isso não é pecado. O importante é você ter um homem vocacionado por Deus para zelar por sua alma.

Hoje, mais do que nunca, sei o quanto um pastor é importante em nossa vida. Se deixarmos de lado a puerilidade ou o senso de rebeldia característico da era pós-moderna e reconhecermos nos homens verdadeiramente chamados pelo Senhor para o sacerdócio pessoas confiáveis, teremos à disposição instrumentos maravilhosos de Deus para nos auxiliar em nossa pedregosa caminhada nesta terra.

Sou grato a Cristo pelos pastores que tenho. Homens que me abençoaram e me abençoam enormemente. E oro a Deus todos os dias por eles, em gratidão. Pois só o Senhor sabe como foram importantes nas minhas crises passadas, na minha vida hoje e no futuro da minha jornada. Muitas vezes sem que eles nem ao menos soubessem: por uma palavra, uma orientação em gabinete, uma visita ao hospital (no meu caso, mais de uma), uma pregação, longas conversas, um abraço dado no momento certo.

Ame o seu pastor. Pois o fato de você ter um pastor é uma das provas de que Deus te ama.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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Este post é diferente dos que  costumo escrever. Fiz no improviso e não traz em si uma reflexão teológica ou bíblica. Mas essa história me tocou tão profundamente, me fez sentir tão pequeno diante da gigante que você conhecerá abaixo que não consegui me furtar a compartilhar esse relato com você. A gigante a que me refiro é a pequena Ana Luiza, de 7 anos, atacada por um câncer agressivo. Nada menos que um tumor de 5 centímetros na base do crânio, com diversos outros tumores espalhados pelos dois pulmões, lesões cancerígenas em duas vértebras da coluna dorsal, mais um tumor no osso da perna e a infiltração do câncer na medula óssea.

Confesso que me senti um reclamão ingrato depois de ler o relato da luta de Ana. Tomei conhecimento dessa história pelo mano Carlos Alberto, editor do Jornal Sal da Terra, depois de ter sido divulgada pelo blog vidAnormal , que, pelo que entendi, foi criado pela mãe de Ana, Carolina Varella. Recomendo com ênfase que você leia o relato inteiro, clicando neste link. Não tenho muito o que falar, as imagens e o texto falam por si. Reproduzo abaixo apenas alguns trechos do que Carolina escreveu e, em seguida, posto as fotos do blog dela. E, diante delas, me silencio com vergonha. Com a palavra, Carolina Varella:

“É tão fácil reclamar da rotina. Eu que o diga. Depois de 1 mês de internação, não aguentava mais o cheiro do pão de queijo da lanchonete do hospital, minhas costas gritavam de dor por causa do sofá (que usava como cama) e a rotina desgastante do tratamento me impedia de dormir por mais de 3 horas ininterruptas. Durante a madrugada, toda hora entrava uma enfermeira no quarto, tinha um remédio pra dar, levá-la ao banheiro arrastando um suporte de soro, quantificar a urina…

Enquanto eu me lamentava, lá estava Ana Luiza… rindo! Enfrentou uma barra pesadíssima, passou por circunstâncias que você só imagina em filmes de terror e estava lá… rindo pela centésima vez do Robin Rotten, o vilão de Lazy Town. Se pra mim a rotina era ruim, pra ela deveria ser péssima, mas nada deveria nos impedir de sorrir. Que dizer, de dar gargalhada. Era exatamente isso que ela fazia.

A gente se sente muito pequeno perto de pessoas assim: que simplesmente sabem viver a vida. E nossos pequenos, sempre tem algo pra nos ensinar. Nós que somos péssimos alunos. E é ainda mais vergonhoso, quando a gente aprende as coisas, tendo que passar por circunstâncias difíceis.

(…) Durante o período de internação, em que a gente acaba ouvindo todo tipo de história e conhecendo todo tipo de gente, diversas vezes, ao afirmar que eu acreditava que Deus estava sendo muito bondoso conosco, era inevitável que algumas pessoas falassem: “Bondoso? Ele permitiu um câncer na sua filha e é bondoso!?!?”

Sinceramente, esse raciocínio é bem óbvio e é inevitável concordar! Afinal que tipo de deus, permite uma doença terrível dessas, em uma criança linda, amada e generosa como minha filha? É lógico que vendo dessa forma, Deus é um monstro.

Mas essa visão é simplista demais. É a mesma visão das pessoas que olham a vida em preto e branco. É a visão de pessoas que só enxergam as coisas que estão diante do nariz. O engraçado é que eu (ou até mesmo você que está lendo agora) poderia ser uma dessas pessoas há menos de um ano atrás.”

Agora veja as fotos desse exemplo de ser humano:


Jun 2010 – Vida normal

Jul 2010 – Niver de 7 anos (2 meses antes do diagnóstico)

20 Set 2010 – Dia do diagnóstico através da ressonância

Out 2010 – 1º Ciclo de Quimio

Out 2010 – 2º Ciclo de Quimio

Out 2010 – Saindo animada de uma consulta

Nov 2010 – 3º ciclo de Quimio

Nov 2010 – Aguardando alta hospitalar

16 Dez 2010 – Recuperando dos efeitos da quimio

29 Dez 2010 – Em BH

01 Jan 2011 – Ano Novo, Chapéu Novo

18 Jan 2011 – Aguardando na indução anestésica

18 Jan 2011 – Após a cirurgia, ficou apenas 12h na UTI

20 Jan 2011 – Tomando um sorvete de napolitano

jan 2011 – Em casa, após 5 dias da cirurgia.

Fev 2011 – Após implante de cateter central para coleta de células tronco

Fev – 2011 Cateter para coleta de células tronco

Fev 2011 – Alta após colocação do cateter

Fev 2011 – Coleta de Células Tronco

Fev 2011 – Aguardando para fazer a cintilografia óssea pré-transplante

Fev 2011 – Distraindo a cabeça enquanto faz quimio de altas doses

Fev 2011 – Fazendo graça com o coletor de vômitos na TMO

Março 2011 – Ida para UTI

Março 2011 – Força, Leucócito!

Março 2011 – Voltando a sorrir graças a Polvina =D

Março 2011 – Comendo um macarrão com molho de tomate na UTI

Mar 2011 – Feliz da vida, fora da UTI

Mar 2011 – Recebendo muitas visitas e ganhando muitos presentes.

Mar 2011 – Visita da Giulia e família

Mar 2011 – Planejamento da Radioterapia

Abr 2011 – Dia da alta após 47 dias de internação: Fabi e Ana Luiza, juntas na luta contra o câncer.

Abr 2011 – Primeiro dia no hotel

Abr 2011 – Muitas visitas e presentes no hotel

Abr 2011 – Escrevendo bilhetes enquanto recebia a medicação em casa

18 Abr 2011 – Primeiro dia de Radioterapia no crânio

Abr 2011 – Ana Luiza, Laura e Júlia

Abr 2011 – Jogo do Corínthians

Abr 2011 – Passeios e mais passeios! =)

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Não preciso escrever mais nada. Só posso dizer obrigado a Ana, por seu exemplo. E, depois, morrer de vergonha. Ah, sim, não poderia deixar de registrar:  Ana não sobreviveu, mas deixou um exemplo de força e persistência que é uma inspiração para cada um de nós e semeou amor e compaixão durante toda a sua longa luta.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio
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Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Pronto. Eis aí a essência de ser cristão. É o fruto do Espirito, que Paulo descreve em Gálatas 5.22,23a. Uma utopia na vida prática do crente em Jesus? Ou um alvo a ser perseguido mas jamais alcançado? Algo que brota automaticamente no ato da justificação ou virtudes a serem desenvolvidas com o passar dos anos? O quê, como, quando, onde, por quê… nada disso importa. O que importa é ter esse fruto em nós. Pois o fruto do Espírito é a assinatura da presença de Deus no cristão. Só que… olho para dentro de mim e vejo a falta de tantas dessas virtudes! Significa que não sou salvo? Mas… também olho em volta e não vejo um cristão sequer que tenha todas essas características. Significa que a Igreja é vazia de Deus? Ou que o fruto brota de modos que não entendemos? Vamos meditar sobre isso.

A Bíblia não fala da “árvore” do Espírito, mas do “fruto”, algo que brota porque corre seiva na árvore. Logo, não é causa, é consequência. Também frutas não nascem prontas: começam com um pontinho, que vai crescendo, crescendo, crescendo até alcançar a maturidade. E, nesse processo, enfrenta muitas intempéries. Tempestades. Vendavais. O calor escaldante do Sol. Mas já reparou que sem a água das tempestades o fruto morre? Que sem o ar dos vendavais não há a transformação de gás carbônico em oxigênio, algo que mantém viva a planta? E que o lado da maçã exposto ao sol sempre fica mais vermelho? Sim, é graças às intempéries que sofre ao longo de seu desenvolvimento que  o fruto torna-se viçoso, suculento, preparado, pronto, vivo.

Quando, no momento da justificação, o Espírito passa a habitar em nós creio que Ele semeia a boa semente do seu fruto. Não faz com que ele brote automaticamente, mas deposita a semente em nossa alma. Já a carregamos desde o dia em que Cristo estende a nós a Sua graça. Só que, se isso é assim, então por que há tantos cristãos sem amor, egoístas, abatidos, impacientes, odiosos ou sem autocontrole? Por que em tantos momentos não me reconheço? Se a seiva corre… por que o fruto não é visível?

Creio que faltaram as intempéries. Faltou o vendaval da vida. Faltaram as tempestades, com raios e trovoadas. Faltou o sol escaldante dos momentos de deserto. É nessas horas que vejo Deus trabalhar. Que vejo o fruto brotar. E, quando o momento chega, a forma como lidamos com as dificuldades vai nos tornar amargos ou melhores – temos a capacidade de decidir, de optar. Virtudes latentes em mim mas inexistentes só ganharam vida quando passei pelo vale da sombra da morte – o lugar com mais chuva, vento e sol causticante que existe.

Não amei de fato até que alguém me amou de um modo que eu não merecia. Não tive alegria real até que vivenciei profundas e esmagadoras tristezas. Não entendi a importância de pacificar até presenciar o  ódio. Não tive paciência até descobrir que há coisas que absolutamente não dependem de mim, que de nada adianta desesperar e só resta esperar a ação de Deus.  Não fui verdadeiramente amável até que em solidões profundas precisei desesperadamente de mãos estendidas e abraços honestos. Não fui bom até que eu sentisse na carne as consequências da maldade. Não fui fiel a Deus até que dependi totalmente do invisível. Não fui manso até que a ira mostrou suas garras. Não tive domínio próprio até que meus descontroles me tornaram o opróbrio da humanidade.

Tempestades. Vendavais. Sol fustigante. Pragas terríveis, bênçãos celestiais. Indesejáveis e bem-vindos. Quero distância como homem, mas preciso enquanto espírito. Se desejo ter em mim o fruto do Santo Espírito, preciso do que não quero. Não que busque , mas quando chega recebo de bom grado, sabendo que todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a Deus. E eu o amo. Ou, pelo menos, tenho me esforçado para amá-lo com o amor que brota do Espírito. Pois enquanto amei o Senhor com meu estúpido amor humano não fui capaz de amá-lo verdadeiramente.

Hoje creio que o Espírito Santo é um semeador. Põe no solo árido de nossa alma a semente de Suas virtudes e espera vir a chuva, o vento, o sol – a dor. E isso demora. Por vezes anos. Por vezes décadas. Muitos morrem sem que todo o fruto tenha amadurecido. A maioria de nós, aliás. Creio que eu também morrerei sem tê-los todos maduros. Hoje as dificuldades da jornada fizeram com que algumas sementes brotassem em mim. Certas virtudes estão verdes, outras mais maduras, algumas ainda inertes. Mas o que me consola é que sei que a semente foi plantada. Pois essa é a maior prova de que, a despeito de sermos o pó que somos, aprouve a Deus escrever nosso nome no livro da vida. Sua seiva corre em nós. O resto? Virá com o tempo, com a dor e com a graça do Salvador do mundo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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Ontem foi dia 11 de setembro. Há exatos 11 anos os famosos atentados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, fizeram enormes prédios virarem cinza, pó e ruínas num piscar de olhos. É uma data para refletir, repensar, chorar. Lembro que as igrejas, as sinagogas e demais templos religiosos da cidade tiveram um aumento significativo de frequência depois do que aconteceu. Pois em épocas de catástrofe é natural ao ser humano voltar-se para Deus. Refletir. Repensar. Chorar. Buscar o Senhor. E, depois, deixar que o Pai de amor aja em sua reconstrução.

Refletindo sobre a data acabei vendo que ela é emblemática. Pois apraz a Deus que muitos atravessem situações semelhantes. Passei por isso nos últimos meses. Por razões diversas, o Senhor – que está no controle de todas as coisas – quis que eu parasse, repensasse minha vida, minhas ideias, meus conceitos, o que vinha fazendo, o que não vinha fazendo. Foi um período de ouvir e não de falar. Ao fazer isso, você percebe que errou em muitas coisas. Acertou em outras tantas. Por paradoxal que soe, para ter clareza sobre nossa caminhada muitas vezes é preciso que venham os escombros, as nuvens escuras, a desolação. E, como consequência deles, a reflexão, a oração, a imersão nas Escrituras, a reconstrução. Tinha decidido parar de escrever no blog, faltava-me ânimo e vontade por uma série de motivos. Se volto a escrever aqui é principalmente por estímulo de meu pastor e de algumas outras pessoas.

Se você já atravessou momentos de grande sofrimento e fragilidade em sua vida sabe do que estou falando. É como se entrasse numa espécie de estado de choque, como se ficasse numa bolha e todo o ruído cessasse, sobrando apenas aquela voz dentro do peito. Como alguém imerso em silêncio dentro de uma piscina vazia, em que somente ouve-se ruídos vindos de dentro de si, a assolação traz a voz do Espírito Santo ao primeiro plano.

Hoje, no local onde ficava o World Trade Center existe um monumento. O chamado Marco Zero é uma lembrança da tragédia e uma prova da reconstrução. Pois sim, Deus usa as tragédias para reconstruir – e usa muito. Usou o Dilúvio. Usou a destruição de Jerusalém por Babilônia. Usou a depressão em que Paulo mergulhou após seu encontro com Jesus. Repare que as Torres Gêmeas não foram reerguidas. Algo diferente foi erigido em seu lugar. Aprendi que, quando somos postos abaixo, nada é reconstruído como antes. E, quando Deus permite a destruição, o que virá no lugar possivelmente será algo menor, porém com mais significado. Quem já foi reconstruído pelo Criador sabe do que estou falando.

Algo que a tragédia do 11 de setembro despertou enormemente foi a solidariedade. O afeto humano. O amor pelo próximo. O perdão. Que são o cerne do Evangelho, pois Jesus encarnou em solidariedade à humanidade caída para perdoar-nos por amor e nos reconciliar com Deus. Lembro de imagens de judeus ajudando cristãos, sikhs dando água a quem precisasse, muçulmanos chorando junto com católicos. Hoje creio que a renovação do coração é uma das principais causas da tragédia, uma oportunidade em que o Senhor nos propõe mudar ódio em amor. Podemos optar – e a Bíblia diz que seremos cobrados por isso (Rm 12.14-21). Na parábola do Senhor, o samaritano piedoso foi quem cuidou das feridas do judeu, alguém que normalmente nem olharia em sua cara. Hoje sei o que desejo fazer: amar o próximo, esquecer as diferenças, estender afeto ao diferente. Me concentrar no que realmente importa para o Reino de Deus. Pois, em épocas como essa, a consciência da transitoriedade da vida aumenta, o que parecia tão grave e nefasto no outro torna-se motivo de oração e graça e não de rancor. Depois que você atravessa o vale da sombra da morte, as diferenças não importam – importa o que você faz com relação ao próximo, em especial os que precisam de uma mão estendida. Muitos correram por suas próprias vidas quando as Torres caíram. Mas muitos ficaram para ajudar quem precisava, sem pensar no próprio bem-estar. Hoje peço a Deus que me dê uma força que não tenho em mim mesmo para ficar e ser alguém de quem Ele se orgulhe.

Lembro que em 1999 estive no topo do World Trade Center. Lembro que os helicópteros passavam abaixo de onde estava, tamanha era a altura. Lembro do que senti ali. E comparo com o que sinto hoje ao pensar naquele dia e no que aconteceria dois anos depois. São sentimentos diferentes. Juntos, formam em meu coração o legado daquele terrível evento.

Em nossa vida, é preciso lembrar dos momentos antes dos desastres e compará-los com os momentos posteriores. Fazer uma dialética e tentar entender quem somos. Se Deus permitiu que viessem desgraças sobre sua vida, meu irmão, minha irmã, haverá tempo para tudo. Virá o tempo de chorar, o de se prostrar, o de se cobrir de cinza e pó, o de se vestir de saco e o de se apavorar com o silêncio que vem com as ruínas. Mas depois virão períodos de grande diálogo com Ele, de aproximação, devoção, aprendizado. É quando Deus atende a oração que fazemos ao cantar “eu quero ser, Senhor amado, como um vaso na mão do oleiro. Pega a minha vida e a faça de novo. Eu quero ser, eu quero ser, Senhor, um vaso novo”. Que cântico terrível e extremamente necessário! Ele te refará. Reconstruirá. E nada será como antes.

Dos escombros brotará algo que nunca permitirá que você se esqueça da assolação. O que o Pai amoroso fará de você? Não tenho a mínima ideia. Mas Ele tem. E que seja algo melhor.

“Eu disse: Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua; guardarei a boca com um freio, enquanto o ímpio estiver diante de mim. Com o silêncio fiquei mudo; calava-me mesmo acerca do bem, e a minha dor se agravou. Esquentou-se-me o coração dentro de mim; enquanto eu meditava se acendeu um fogo; então falei com a minha língua: Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim, e a medida dos meus dias qual é, para que eu sinta quanto sou frágil. Eis que fizeste os meus dias como a palmos; o tempo da minha vida é como nada diante de ti; na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é totalmente vaidade. Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará. Agora, pois, Senhor, que espero eu? A minha esperança está em ti. Livra-me de todas as minhas transgressões; não me faças o opróbrio dos loucos. Emudeci; não abro a minha boca, porquanto tu o fizeste. Tira de sobre mim a tua praga; estou desfalecido pelo golpe da tua mão. Quando castigas o homem, com repreensões por causa da iniquidade, fazes com que a sua beleza se consuma como a traça; assim todo homem é vaidade. Ouve, Senhor, a minha oração, e inclina os teus ouvidos ao meu clamor; não te cales perante as minhas lágrimas, porque sou um estrangeiro contigo e peregrino, como todos os meus pais. Poupa-me, até que tome alento, antes que me vá, e não seja mais.”

“Antes que me vá, e não seja mais”: esse é o momento-chave de nossa caminhada, para onde tudo converge. Meditando neste 11 de setembro sobre as tragédias que ocorrem de um segundo para outro, nos levando à ruína e à reconstrução, me fixei nessas palavras do rei Davi, eternizadas no Salmo 39. Pensei nas vítimas dos atentados com um sentimento que em onze anos não sentira. E percebi que só sentir isso é uma prova de que algo Deus já mudou. O quê? Ainda não sei. O tempo dirá. Como meu amigo Pastor Marcos Filho me disse ontem pela manhã, “meus anos me ensinaram que bem-aventurado é o homem que recebe a graça de ser transformado naquilo que é necessário enquanto ainda é tempo”. Peça ao Senhor que você seja um desses bem-aventurados. Pode doer até seus dentes rangerem, pode ser fruto de ruína e assolação. Mas você agradecerá a Deus por toda a eternidade.

Dedico este texto a todas as pessoas que deram um passo à frente e entraram nos escombros para se deixar usar por Deus e ajudar a reconstruir. Vocês sabem quem são.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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