Arquivo de julho, 2012

Meu distanciamento da Internet tem me dado um tempo enorme para ler que eu esqueci que tinha. Decidi que minha prioridade neste momento é reler a Bíblia, antes de qualquer outro livro, pois tenho sentido uma necessidade premente de me aproximar mais de Deus e de me lembrar de verdades básicas da fé a que a distração, a priorização de outras atividades e minha própria natureza humana falível me levaram. E por mais que você já tenha lido a Bíblia inteira, nunca é demais reler: sempre Deus falará com você de modo diferente, por duas razões principais. Primeiro, Ele tem algo novo a nos dizer a cada dia. Segundo, somos seres em constante mutação e o que lemos ontem já terá um significado novo hoje e outro amanhã, pois vivemos experiências diferentes a cada momento e nos tornamos sempre pessoas distintas a cada nova manhã. Só que nas últimas semanas, estimulado por um livro maravilhoso chamado “Meditatio“, de Osmar Ludovico (pastor que  dirige cursos de espiritualidade, revisão de vida e seminários para casais, pastores e missionários), resolvi ler a Bíblia de um modo que nunca havia feito antes, que tem sido impactante na minha vida e que por isso quero recomendar: a chamada Lectio Divina.

Algum tempo atrás postei aqui no APENAS um texto sobre meu método habitual de oração (leia AQUI) e diversos irmãos comentaram que tinham dificuldade para orar e por isso o artigo os tinha ajudado. Por isso, compartilho um pouco sobre o método que estou usando atualmente para ler as Escrituras, na esperança que seja útil para quem tem dificuldade de ler a Bíblia ou para quem, como eu, tenha passado por um período de leitura superficial e deseja retomar com vigor esse hábito.

A Lectio Divina (e não se assuste por o nome ser em latim) é apenas um dos muitos métodos de absorção de verdades bíblicas. Não é o único nem necessariamente o melhor para você. Mas minha experiência das últimas semanas tem me feito crer que é um dos mais eficazes para que a letra sobre papel se transforme em vida e prática para nós. Consiste em quatro passos: Ler, Meditar, Orar e Contemplar. E calma, não se assuste com palavras como “meditar”, posso assegurar que não há nada de budista, hinduísta ou herético nisso.

“Lectio Divina” significa simplesmente “leitura divina”. Esse método existe desde antes do surgimento do Catolicismo Romano – que pela crença protestante na verdade não foi estabelecido pelo apóstolo Pedro nem pelo imperador Constantino, mas sim pelo bispo de Roma Gregório, a partir do ano 590. Os princípios dessa forma de se ler a Palavra de Deus foram expressos ainda na época da Igreja primitiva e perseguida, por volta do ano 220. Há registros de que tenha sido praticada por nomes importantes do cristianismo pré-católico, como o grande teólogo e bispo de Hipona Agostinho e um dos sistematizadores da doutrina da Trindade, Basílio de Cesareia.

A Lectio Divina pressupõe a leitura assídua das Escrituras, acompanhada da oração, que gera um diálogo íntimo em que, ao se ler, ouve-se Deus e, ao se orar, respondemos ao Senhor com o coração aberto. E não é uma forma rápida de orar, exige algum tempo diariamente dedicado a essa disciplina, para que de fato tenha efeitos transformadores e não apenas de absorção de conhecimento. Quem decide ler a Bíblia por esse método automaticamente começa com uma oração. Em seguida, com calma e atenção, recomenda-se ler o trecho escolhido quantas vezes forem necessárias. O importante é “mergulhar” no que é dito, tentando identificar os elementos importantes da passagem: o ambiente, os personagens, os diálogos, as imagens usadas, as ações. É importante identificar tudo com calma e atenção, como se estivesse vendo a cena. Quase como se estivesse assistindo a um filme. Se você não souber as circunstâncias em que a passagem foi escrita, uma boa Bíblia de estudos pode ajudar nisso (para mim têm sido muito úteis a de Genebra e a NVI).

Em seguida, é o momento da meditação. Como disse um certo sacerdote, “ela não se detém no exterior, não para na superfície, apóia o pé mais profundamente, penetra no interior, perscruta cada aspecto”. É o momento da reflexão. É não apenas ler, fechar a Bíblia e ir ver TV: é parar para pensar em tudo aquilo que se leu. Deixar as verdades aprendidas criarem raízes no teu coração, cada frase, cada ensinamento. Para os pentecostais, como eu, pode ser complicado de início, tão acostumados estamos ao barulho. Pode haver um pouco de distração no começo, o pensamento vagar um pouco. Mas esse é um momento de paz e reflexão e com a disciplina diária a distração desaparece. É na meditação em que o texto “faz sentido”, ganha vida e aplicação. Se você se pegar chorando nessa hora não estranhe, é comum emocionar-se ao perceber que Deus está falando com você por meio do texto sagrado. Mas prepare-se: as verdades absorvidas podem te trazer muita alegria mas também uma gigantesca contrição, caso perceba-se confrontado por seus pecados ou mesmo a realidade da sua pequenez ante a majestade do Altíssimo. Pode ser avassalador. Para mim foi extremamente doloroso. Então prepare-se.

Quando você vê que a reflexão perfurou seu coração e te confrontou, começa a terceira etapa, a da oração. O que é algo que ocorre com fluidez impressionante, pois toda boa meditação desemboca naturalmente na oração. Essa é a hora de responder a Deus após Ele ter falado. E você verá que, na hora em que Deus falar e Sua Palavra rasgar teu coração, a oração fluirá com uma facilidade absoluta, seja ela de adoração, louvor, pedido de perdão, necessidade de maior clareza, intercessão…  enfim, os momentos anteriores, se feitos com dedicação e atenção, vão direcionar essa oração – sob a iluminação do Espírito Santo, que te consola; te convence do pecado, da justiça e do juízo; te aconselha. É um momento especial.

Os relatos históricos e minha experiência mostram que é aí que nasce o compromisso de estar com Deus e fazer a sua vontade, pois sua alma enxerga que não pode por si mesma atingir os alvos: o sentimento de dependência do Senhor para tudo (“sem mim nada podeis fazer” – palavras de Jesus em Jo 15.5) e a clareza com que você vê sua natureza pecaminosa são esmagadores, humilhantes e transformadores. É nessa etapa que você ganha coragem para mudar na prática aquilo que precisa ser mudado – algo que uma leitura bíblica rápida e superficial e da qual se desliga logo para outras atividades não promove. Sei disso porque reconheço que passei os últimos meses lendo as Escrituras dessa forma superficial e pouco efeito tiveram sobre minha vida. Percebi que só ler não basta: é preciso fazer o que se leu ter consequência – e “Meditatio” me mostrou que a Lectio Divina poderia fazer isso. E fez.

Por fim, é a hora da chamada “contemplação” (e, novamente: calma, não tem nada a ver com budismo ou coisa do gênero). Os antigos patriarcas da Igreja primitiva diziam que “este é um momento que não pertence ao homem, mas a Deus e sua presença misteriosa”. É um período no qual se fica em silêncio diante do Senhor (novamente alerto os pentecostais como eu que vão achar isso de início muito estranho, para mim foi, mas creia: vale a pena). É um momento imprevisível, em que Deus pode conduzi-lo a refletir, a ter apenas a tranquilidade de instantes de paz e silêncio, a tomar a decisão de mudar atitudes ou simplesmente agradecer por tudo o que Ele é e por ter te escolhido para te conceder a graça imerecida sendo você um miserável pecador.

Eis a Lectio Divina. Sei que nós, protestantes, temos uma certa urticária ao falar de métodos pré-concebidos de oração ou leitura bíblica. Mas posso dizer por experiência que essa forma de absorção das verdades das Escrituras foi a que mais gerou impacto na minha vida, na minha alma e no meu relacionamento com Deus. Para mim foi transformador – e se ler a Bíblia não nos transforma, por que lê-la? Seria apenas mais um livro. Espero que, se você decidir experimentar a Lectio Divina, também sofra seus efeitos transformadores. Eu o escolhi porque na biografia dos antigos que o adotaram os resultados provocaram grande aproximação de Deus, como foi o caso de Teresa de Ávila.

Mas um detalhe importante: se você perceber que ao tentar aplicar a Lectio Divina na sua vida ela se torna uma prisão, algo como “tenho a obrigação de ler a Bíblia desse modo”, esqueça-a. E parta para uma forma que te conduza individualmente mais para perto de Cristo. Tem que ser uma experiência de vida e não uma chatice feita por forçar uma barra. Cada pessoa é diferente. Cada experiência de vida é diferente. Abracei esse modo porque li sobre o que ele fez por pessoas no passado e vi que precisava daquilo na minha vida. Sei o que fez por mim, como me levou e tem levado mais e mais para perto de Jesus e como tem me humilhado e mostrado como eu preciso desesperadamente desse Cristo e de sua graça, pelo tanto que sou inclinado em minha natureza pecaminosa a fazer o que a Bíblia manda não fazer.

Mas desfrute da liberdade no Espírito para alimentar-se da Palavra de Deus como for mais punjante e transformador para você. O importante é que a cada vez que você fechar o Livro Sagrado após ler você seja uma pessoa diferente e melhor do que quando o abriu. Mas isso só vai acontecer se você ler a Bíblia. Se não o fizer, nunca haverá mudança. E, acredite, não conheço ninguém que não precise mudar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Se você deseja aconselhamento, recomendo que procure seu pastor e não um blogueiro.

As reflexões expressas neste blog são pessoais e não representam necessariamente a posição oficial de nenhuma igreja, denominação ou grupo religioso.

Sim, é possível viver longe da Teologia da Prosperidade. Recebi de meu irmão de sangue, que mora na Espanha, uma informação publicada no website http://www.noticiacristiana.com. Não sei se já foi reproduzido em alguma mídia brasileira, mas considero o fato tão relevante que decidi repassar aqui a informação. E por essa simples razão: mostra que é possível a Igreja se unir para repudiar uma heresia. Ocorre que os evangélicos franceses concordaram em repudiar e se afastar da Teologia da Prosperidade. O Conselho Nacional de Evangélicos na França (CNEF), elaborou um documento para remover a Teologia da Prosperidade das igrejas francesas, praga que há cerca de cinco décadas nasceu nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. O CNEF funciona como um órgão interdenominacional cuja função é regular a doutrina do mundo evangélico no país.

Formada por teólogos de diferentes denominações (que vão de batistas a pentecostais), a organização emitiu um estatuto de 30 páginas em que conclui biblicamente que essa Teologia não é cristã e que o fiel que deseja seguir a Bíblia  deve abandoná-la. Mais do que isso: o Conselho incentiva essa atitude explicando aos membros das igrejas as razões pelas quais é necessário remover a Teologia da Prosperidade do meio cristão.

Pelo documento, o primeiro erro dessa heresia é estabelecer uma relação entre salvação e prosperidade física e material (saúde e riqueza). “A salvação está ligada ao coração”, explica o pastor batista e membro do CNEF Thierry Huser. “A salvação remete principalmente ao relacionamento do pecador com Deus e à reconciliação com Ele através de Cristo”, acrescenta.

Thierry também fala de outros erros teológicos dessa doutrina antibíblica, como a Confissão Positiva:  “A ênfase no poder da palavra declarada pode  levar à ‘fé na fé’ em vez de ‘fé em Deus’.”, explica. Em seu documento, o CNEF condena também o jugo imposto por igrejas adeptas da Teologia da Prosperidade sobre seus membros, ao afirmar aos fiéis que eles não recebem o que querem porque não têm fé. “Os profetas da prosperidade se protegem de todos os que questionam as suas promessas. Em vez disso, todo o peso de qualquer falha é atribuído aos fiéis que sipostamente não esperaram, não oraram, não doaram”, enfatiza o texto.

Outro ponto de destaque no documento é acerca dos muitos erros dessa linha de pensamento teológico:  Jesus jamais associou sucesso material à adoração e muito menos à salvação. Ao final, o Conselho Nacional de Evangélicos na França deixou claro que não enxerga base bíblica para a Teologia da Prosperidade, que a considera antibíblica, anticristã e, portanto, uma heresia.

Quem diria que a Igreja evangélica brasileira teria algo a aprender com a francesa… A grande lição? É possível combater heresias que aparentemente já se instalaram de forma cristã, argumentativa e bíblica, sem ofensas a pessoas, mas sim a ideias e conceitos. Temos muito a aprender.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Deus fala. E fala de diferentes maneiras. A principal delas é sem dúvida a Bíblia. Para os pentecostais, também pela profecia e a palavra de conhecimento. E Deus fala enormemente ao coração. E quando Deus fala, há transformação. É impossível o Espírito Santo falar ao coração de alguém e essa pessoa permanecer igual. Você experimentou isso na sua conversão. E provavelmente muitas vezes depois. Em geral, quando tudo está bem, Deus permanece em silêncio. Mas quando Deus fala, geralmente é porque algo está errado conosco, pois, como Jesus disse, ele não veio para os sãos: veio para os doentes. E Ele não fala porque nos quer mal, fala porque deseja que nos aprumemos, porque nos ama. Ele nos quebra, nos humilha, nos confronta com o espelho. E aí temos dois caminhos: ou o ouvimos, nos quebrantamos e nos pomos na posição que Ele deseja ou permanecemos no erro. Já aconteceu isso com você? Comigo sim.

Muitas vezes Deus fala nos sacolejando. Nos esbofeteando. Foi o caso de Davi, após seu adultério com Bateseba e o assassinato de Urias. Ele errou e errou feio. Mas Deus o amou a ponto de levar o profeta Natã até ele e chamá-lo à responsabilidade. E o mais emocionante foi que Davi reconheceu seu erro. Se humilhou. Pediu perdão. Foi perdoado. Restaurado. O mal que ele fez não havia como corrigir: Urias não voltaria à vida, algo que tenho certeza que o rei carregou na consciência até o fim de sua vida. Pois os pecados que cometemos não nos abandonam, tornam-se nossa sombra, por mais que sejamos perdoados por Deus. Os homens não perdoam. Mas Deus sim. Só que as cicatrizes ficam.

De pecados não saem coisas boas. O que fica é rancor, raiva, remorso, dor, tristeza. Urias teria perdoado Davi? Talvez não. Talvez sim. Não podemos dizer. Mas quando Deus fala para te dizer o quão pecador você é e você se arrepende, depois ele também fala para dizer que te perdoou. Não vai tirar de você as cicatrizes, para que as carregue até o fim da vida como memorial do teu erro, mas com um objetivo benéfico: que você não cometa mais o mesmo erro.

O Deus Filho falou com o ladrão da cruz. E um ladrão que chega a ser condenado à cruz não roubou uma, duas ou três vezes: provavelmente cometeu o pecado do roubo inúmeras vezes. E ainda assim, quando Jesus falou com ele, suas transgressões foram apagadas e ele ouviu: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Pois é isso o que importa ao cristão arrependido: o Céu. Quando Deus fala e te confronta com o Inferno, tuas pernas tremem. Os olhos se arregalam. Os teus erros passam como um filme na tua cabeça. O diabo grita de raiva, pois estava te enganando e nele você vinha acreditando. Mas quando você vê teus pés à beira do abismo do Inferno, a voz de Deus se faz audível a ouvidos que até então estavam surdos.

Não deveria ser assim, deveríamos nos aproximar de Deus por amor, em paz, sem ter de ser confrontados com a feiúra de nossos pecados ou ameaçados com o fogo que arde eternamente. Mas a realidade do Inferno serve para nos mostrar a realidade do Céu. A profundidade do vale é diretamente proporcional à altura da montanha. Feliz é o homem que ouve a voz de Deus apenas pelas palavras suaves de Cristo, sem ter de ser esbofeteado por seus pecados. Bom seria a Davi não ter de ouvir de Natã o que ouviu. Mas que bom que o Redentor mostrou o Inferno a Davi, pois pelo menos assim ele mudou seu caminho de morte eterna a tempo de se arrepender e, com isso, ser chamado de homem segundo o coração de Deus.

Já pequei muito. E no mais profundo vale dos meus pecados mais horríveis ouvi a voz de Deus. Fui confrontado com o Inferno. Fui abalado pelos meus erros. O chão se abriu sob meus pés e vi a perdição diante de mim. Tremi. Tremi e temi pelo destino eterno de minha alma. O processo de arrependimento é doloroso, dificil e desesperante, pois as escamas caem de nossos olhos e vemos quem somos, o que estamos fazendo e então nos tocamos: matamos Urias. Roubamos inúmeras vezes. É uma percepção avassaladora. Nos abate, nos deprime, nos humilha, nos derruba. Choramos e vemos que não há como Urias voltar à vida, não há como devolver o dinheiro que ficou conosco e que não nos pertence. Já o gastamos. Resta-nos a dor de uma culpa que nunca nos deixará, mas também um alento: a certeza de que o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo estendeu a nós a sua graça, o seu perdão. Nesse momento entendemos a exata razão de Cristo ter subido à Cruz por nós. E esse é o consolo que nos dá ânimo para ficar de pé e prosseguir, apesar de Urias nunca mais voltar à vida.

Sim, já pequei muito. Sim, ouvi a voz de Deus de dentro do lamaçal em que por minha culpa me enfiei. Sim, me arrependi. Oro a Deus que Ele me dê forças para nunca mais cometer os pecados que cometi. O mal que fiz a Urias não há como voltar atrás. Está feito. Só Deus sabe as lágrimas que derramei por ele. Mas me agarro à graça que me conduziu ao arrependimento, me agarro à Cruz e me agarro aos pés de Cristo. Sou grato a Ele por ter me estendido uma misericórdia que não entendo. Que os homens não exercem. Que só um Deus bom seria capaz de conceder.

A clareza de quão falho você é tem suas vantagens. A principal é que isso te torna mais entendedor do pecado do outro. Se você teve cúmplices na morte de Urias, enxerga-os com mais graça, pois você é tão culpado como eles. Antes você olhava assassinos e desejava o pior para eles, que fossem de trem expresso para a perdição eterna. Pedia a pena de morte, com gosto de sangue na boca. Mas quando a voz de Deus vem e mostra que você sim está no corredor da morte, apenas esperando o dia da execução, como resultado da tua humanidade e pecaminosidade… tudo muda. Você passa a olhar para o assassino com olhar de piedade. O desejo de mostrar-lhe o amor de Cristo aumenta. E assim você prossegue na caminhada, cheio das cicatrizes que te lembrarão eternamente dos males que você causou, mas com amor pelo pecador e a enorme vontade de tirá-los do caminho do Inferno. Pois Deus escancarou o Inferno diante de si e você não o deseja a ninguém.

Creio que é isso que deve nos impulsionar a pregar o Evangelho: a voz que ouvimos de Deus. Não uma obrigação ativista de evangelizar e discipular. Mas o desejo de tornar conhecido a pessoas que estão matando seus Urias a voz que fez você enxergar que você matou o seu. Mostrar a elas suas cicatrizes. Proclamar o amor que te alertou a tempo. E esperar que elas não sejam obrigadas a contemplar o Inferno para se desviarem de seus maus caminhos, pois você, que andou nesses caminhos, sabe o quanto isso dói. O quanto te humilha, quando você olha Jesus nos olhos.

Se você está matando Urias, eis meu testemunho, minha confissão, para que sirva de alerta a você. Quem escreve aqui é um pecador, falando para outro pecador. Há um Céu e há um Inferno. Há a beleza de Cristo e o horror do diabo e do pecado. Se você está trilhando o caminho que trilhei, de lama, enxofre e imundície, fique atento à voz de Jesus, o Cordeiro de Deus. Ele não veio à terra a passeio, veio por amor por mim e por você, pecadores, para que ouçamos a sua voz a tempo de deixar para trás as práticas malignas e caminhar com os olhos fixos na Cruz, sem se desviar dela para a esquerda nem para a direita. Minha humanidade me empurrou para fora dela muitas vezes. Mas pela graça permanecemos no caminho estreito. Se você está fora desse caminho, como eu andei, sugiro que pare de pecar. Não culpe ninguém, mesmo quem pecava com você. Não culpe nem mesmo o diabo: assuma seus erros e confesse seus pecados a Deus, em arrependimento sincero. Aproxime-se de um bom cristão, que torne-se seu confessor, que te ampare e te ajude a ficar de pé, apesar de o peso da lembrança dos pecados que cometeu vergar as suas costas. E não volte ao vômito.

Deus falou comigo. Me confrontou com meus pecados. Cada erro que cometi passou diante de meus olhos. Vi o cadáver de Urias. Eu o matei. Não posso ressuscitá-lo. Eu roubei. Não posso devolver o dinheiro que gastei. Mea culpa. Mea tão grande culpa. Clamei a Deus por perdão. Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor. Que o Deus que perscruta os corações veja o meu a cada nova manhã e, se ainda houver manchas, que o purifique. Se houver tentações, que livre-me delas. Que me faça ouvir sua voz todos os dias. Não esquecerei a face do Inferno. Esse eu já conheço. Mas quero ver o Céu. Hoje resta-me entregar-me às mãos de Cristo, contar com sua graça imerecida e esperar ouvir dele que estaremos juntos no Paraíso.

Encerro fazendo minhas as palavras de Davi no Salmo 51.1-17, escrito após ter percebido o horror do pecado que cometeu: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me.

Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe. Sei que desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. Faze-me ouvir de novo júbilo e alegria, e os ossos que esmagaste exultarão. Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades.

Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer.  Então ensinarei os teus caminhos aos transgressores, para que os pecadores se voltem para ti. Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará a tua justiça.  Ó Senhor, dá palavras aos meus lábios, e a minha boca anunciará o teu louvor. Não te deleitas em sacrifícios nem te agradas em holocaustos, se não eu os traria. Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás“.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Se você deseja aconselhamento, recomendo que procure seu pastor e não um blogueiro.

As reflexões expressas neste blog são pessoais e não representam necessariamente a posição oficial de nenhuma igreja, denominação ou grupo religioso.

Alguns irmãos queridos vieram me perguntar por que não divulguei meus últimos posts aqui do APENAS pelo twitter e pelo Facebook, como tenho feito nesses quase 14 meses de existência do blog. Senti que precisava dar uma satisfação a quem me acompanha e se identifica com o que escrevo. Fato é que abandonei as redes sociais. Mas, antes de chegar nessa questão específica e de menor importância, gostaria de refletir um pouco sobre algo bem mais relevante no que tange a esse assunto e que está relacionado a ele: aquilo que chamo de Religião Internet.  É inegável que o surgimento da rede mundial de computadores mudou muito a vida da Igreja, em especial no Brasil. A primeira vez que surfei (sim, usávamos esse termo no século passado em vez de “naveguei”) na web foi ainda num browser Netscape Beta, por volta de 1995. Para alguém de até uns 20 anos pode ser engraçado ler isso, já que deve pensar “como era possível viver sem Internet”? Pois acredite: era. E éramos felizes sem ela. Hoje achamos que a vida sem Internet é impossível. Só que não é. Sei que meu comentário vai na contramão do que muitos advogam, mas creio que a inclusão digital não é tudo isso que dizem – tanto que a humanidade viveu milênios antes que Bill Gates ou Steve Jobs existissem. E, no caso da Igreja, quando falamos de redes sociais torna-se ainda mais irrelevante e até problemática.

Como disse John Piper, “uma das maiores utilidades do twitter e do Facebook será provar no último dia que a falta de oração não era por falta de tempo”. O que é absolutamente irônico é que li essa frase no Facebook. E sou obrigado a concordar com Piper, simplesmente porque ele tem razão. Mas concordar com isso e compartilhar essa frase no Facebook… é a contradição das contradições! A verdade é que, se acredito nessa afirmação, não adianta compartilhar a fotinho ao lado: preciso agir com a coerência que essa frase me exige. E só Deus sabe o quanto eu preciso orar mais, buscar mais intimidade com o Pai, me santificar e ser um homem a quem Jesus diga naquele dia: “Bem-vindo, servo bom e fiel”. E as redes sociais não estão me ajudando em nada nesse sentido. Mas daqui a pouco falo mais sobre isso.

Entenda, não demonizo a web. Sei todas as coisas boas que ela pode proporcionar. Cá estou eu, por exemplo, sendo lido por você via Internet. Há muitas coisas positivas, quando o seu uso e seu propósito são benignos. No entanto, o que quero abordar hoje não são as inúmeras vantagens que a rede mundial de computadores trouxe para nós, mas os males que gerou para o Corpo de Cristo.

O maior deles é a ideia de que é possível substituir a igreja local e a comunhão dos santos por uma pseudoprática de fé via web. Multidões têm se protegido misantropicamente das decepções com pastores e membros se entrincheirando na segurança de seus notebooks. Formam “igrejas” (embora se recusem, irritados, que usemos essa palavra) com indivíduos reduzidos a avatares que acham que conhecem e com quem trocam meia dúzia de palavras pela rede. Talvez bate-papos via MSN, frases curtas via twitter ou alguns textinhos pelo Facebook. Formam seu aprendizado de fé assistindo a cultos on-line, acompanhando vlogs de 5 minutos de pregadores famosos, lendo blogs como o APENAS e ouvindo bate-papos em podcasts muitas vezes – me perdoem – teologicamente ridículos. Mas meu blog, por exemplo, não substitui a igreja. Meu blog não substitui uma pregação. Meu blog não substitui a adoração. Meu blog não substitui a oração de uns pelos outros. Meu blog não substitui o aconselhamento pastoral. E quando falo do APENAS, o estou usando como arquétipo de todas as mídias que mencionei acima – e muitas outras. A Internet é a cerejinha do bolo da fé, mas há muitos que estão pondo o bolo em cima da cereja.

Há também o problema da enorme mistura de teologias, doutrinas, ensinamentos e doideiras que o internauta que substitui a vida em comunidade pela Religião Internet absorve. Lembro quando dava aula em seminário teológico, passava trabalhos para os alunos e, em vez de uma pesquisa, recebia de volta páginas impressas da Wikipédia. Que, aliás, é uma bênção e uma desgraça ao mesmo tempo, visto que pode esclarecer muitas coisas mas qualquer um pode postar o que quiser ali – o que torna essa ferramenta altamente desconfiável. Mas damos mais atenção à Wikipédia e a sites correlatos do que a livros que exigiram pesquisa, revisão, o crivo dos editores e são, eles sim, fontes confiáveis. Mas nossa preguiça e nosso imediatismo tornam mais fácil escrever uma palavrinha no Google e ver o que a loteria da pesquisa vai jogar em nosso colo como primeiras opções do search. E é nelas que confiaremos – sem ter conhecimento sobre quem escreveu, que linha segue, que teologia ou crenças nortearam aquela fonte de dados. Como ouvi certa vez, não me recordo de quem, substituímos o saber pela informação. E informação não forma ninguém, conhecimento adquirido com muito estudo e suor sim.

A Bíblia Sagrada foi trocada por versículos tuitados e frasezinhas descontextualizadas de Spurgeon, Paul Washer e outros homens de Deus. Ou então de pregadores da moda – muitos deles hereges. Na vida de muitos, o texto bíblico foi substituído por citações de pessoas que ensinam doutrinas diabólicas, como a que afirma que o que você disser com fé vai acontecer, ou que a Bíblia é um livro de homens e não de Deus, ou que Deus não exerce sua soberania nas tragédias, ou que o cristão autêntico tem que ter prosperidade material. Tudo absurdos bíblicos – mas muitos não sabem discernir, pois valorizam mais a beleza poética do que é dito do que a correção bíblica. Sejamos francos e não vamos esconder o problema sob o tapete: se não têm intimidade com as Escrituras, como discernirão o erro? Cairão fácil nos engodos.

Conheço um “pastor” que escreve frases lindas no twitter. Poderia jurar que ele é um conservador, até, não fosse o corte de cabelo modernoso. Mas, quando você vai ao blog dele, descobre que é um esotérico que acha que Jesus é um extraterrestre e que vai voltar num disco voador. Não ria, isso não é piada, é um fato. Possivelmente você o segue, visto que ele tem mais de 5.600 seguidores. O lê, o retuita, acha lindo o que ele fala e nem ao menos sabe que seus ensinamentos são tresloucados. Ou o pastor garotão que fica falando sobre a “contextualização” do Evangelho, ensinando montes de mundanismos – e a turma adora. Ou o pastor herege que joga a Bíblia no lixo. Ou o professor de pós-graduação que ensina a demoníaca Teologia Liberal e fala que o Cristo do cristianismo clássico é invenção grega – mas como ele fala tão bonito e tem uma carinha tão simpática muitos o amam, sem saber o perigo que ele representa para milhares de almas humanas por ensinar um Jesus que não é o da Bíblia.

Muita gente já me deu #FF no twitter junto com algumas dessas pessoas. E quando vejo isso me pergunto como um irmão pode dar #FF no mesmo tuíte para alguém como eu, que crê no conservadorismo bíblico, e para alguém que prega o liberalismo teológico, crença extremamente oposta à minha e que considero uma heresia. Não consigo compreender tamanho contrassenso. Sim, a Religião Internet é um perigo. Quem substitui a sólida doutrina de suas igrejas pela babel da www corre sérios riscos de absorver ensinamentos terríveis mas que têm aparência de piedade.

E aí chegamos às redes sociais. Tinham tudo para ser uma incrível ferramenta a serviço do Reino de Deus. Mas do jeito que têm sido usadas se tornaram em esmagadora parte uma perda de tempo precioso que poderia ser investido numa devocionalidade real – e que, essa sim, nos tornaria pessoas mais próximas de Deus. Posso falar por mim: as redes sociais me afastaram muito de Cristo e dou a mão à palmatória quanto a isso. Analisemos friamente e sem olhar apaixonado: o Facebook é o universo da irrelevância. Se você peneirar ali o que realmente tem utilidade verá que se resume talvez a 1% do que entra na sua tela. O twitter, com seus 140 caracteres, já é, por sua vez, o universo da superficialidade. Como é possível achar que um complexo pensamento teológico pode ser destrinchado nesse microespaço? Impossível. O Orkut? Ah, é verdade, o Orkut morreu, graças a Deus.

É por tudo isso e outros fatores pessoais que decidi me retirar, pelo menos por um longo e indefinido período sabático, das redes sociais. Minhas poucas entradas serão por exigência de meu trabalho. Na web só continuarei escrevendo no APENAS e nas minhas colunas em sites e revistas – artigos que alguns acham enormes, tão viciada a Igreja está em textos minúsculos e tão desacostumada está de ler livros (e me pergunto se alguém que reclama do tamanho de meus textos leria os 28 capítulos do evangelho segundo Mateus ou os 50 de Gênesis…).

Fato é que as redes sociais não têm feito bem à minha vida espiritual, além de me tomarem um tempo precioso, que preciso dedicar mais à leitura, à oração, a relacionamentos com pessoas tridimensionais a quem eu possa aconselhar e que possam me aconselhar e ouvir a confissão de meus pecados, gente com quem eu possa comungar sem a falta de prosódia que relacionamentos virtuais geram. Pela tela do computador ninguém consegue enxugar minhas lágrimas, nem eu consigo estender o ombro a quem precisa. Quero me recolher a minha vida real e resgatar a devocionalidade que vivia antes de entrar nas redes sociais. Quero que a frase de John Piper ganhe consequência em minha vida. Tenho sentido a imperativa  necessidade de me aproximar mais de Deus e me afastar desse universo paralelo, que me conduz a pecados que passam pela ira, o rancor e muitos outros que a irrealidade virtual gera – o que tem atrapalhado minha saúde física (num momento em que me trato de estresse) e espiritual. Sem falar de tristezas, decepções, chateações e similares que pulam dentro de minha casa pela tela do notebook.

Já tem cerca de dois anos que praticamente parei de assistir a televisão. Não tem nada a ver com crer que TV seja pecado. Simplesmente perdi o interesse pelos telejornais mentirosos, os seriados que não edificam, os documentários falaciosos. Não serei hipócrita de dizer que aboli a TV da minha vida, eventualmente assisto a uma ou outra coisa que penso que será interessante. Mas talvez não chegue a 3 horas por semana, no total. E posso afirmar a monstruosa diferença que afastar-se do vício por TV faz. Não tenho absolutamente nenhuma vontade de voltar a consumir essa mídia como fazia antes, e por uma simples constatação: depois que você se desintoxica ela não faz a mínima falta.

Agora quero fazer a mesma coisa com as redes sociais. Quando as descobri achei que seriam edificantes. Experimentei. Hoje, fazendo um balanço, vejo que não foram, pois mais me afastaram de Deus do que me aproximaram. Tirei muitas coisas positivas delas, creio ter contribuído um pouco, mas chegou a hora de parar. Preciso respirar mais do ar puro da vida real e retornar a 1995, quando os amigos marcavam um café para se encontrar, nos telefonávamos, mandávamos cartões de Natal escritos a mão. Hoje as pessoas mandam scraps impessoais no Facebook nos aniversários, trocam farpas pelo twitter, vivem relacionamentos bidimensionais. Não tem me feito bem. Creio que eu também não tenha feito bem a muitos, reconheço as críticas, aceito as que são justas e prefiro esquecer as injustas – pois na minha luta para me aproximar de Cristo me esforço para não devolver mal com mal. Quero avançar para trás e viver a vida que existe fora das telas.

Por isso, desde o dia 29 de junho parei de usar minhas redes. Não entro, não olho, não escrevo nelas, salvo uma ou outra coisa feita por questões de trabalho. Vou deixá-las congeladas – possivelmente abandonadas – por período indeterminado. Usava-as muito para divulgar posts novos do blog, o que de fato foi proveitoso, pois o APENAS acabou de completar 350.000 acessos em pouco mais de 13 meses no ar. Se você tem interesse em continuar lendo as reflexões que aqui são postadas, pode juntar-se aos 1.027 irmãos e irmãs que até a data de hoje gentilmente assinaram o blog e recebem os posts novos por e-mail. Ou, se lembrar, dar uma passadinha por aqui de vez em quando ou nas colunas que escrevo em outros sites e revistas. Mas não vou mais divulgar as postagens novas pelo twitter ou o Facebook.

Sei que o número de acessos vai diminuir (percebi que sair das redes reduz em cerca de 250 acessos por dia, em média), mas,  honestamente, não me importo, pois minha oração a Deus hoje é que conduza até o APENAS somente aqueles que Ele entende que precisam ler as palavras de edificação, consolo e exortação que aqui são publicadas. A partir de agora, é o Espírito de Deus quem fará a divulgação de novos posts.

Quero agradecer a você que teve a paciência de me aturar esses cerca de dois anos em que estive no twitter e poucos meses no Facebook. Mas a Religião Internet tem, na verdade, me afastado de Deus. Quero retomar essa proximidade. E, como disse, para isso é fundamental retroceder. Lembrar-me de como era antes de entrar em redes sociais. Creio que será melhor para mim e, acredito, para muitos que não coadunam comigo. Que Deus abençoe você, meu irmão, minha irmã, e que possa viver a sua fé no mundo real, sem as ilusões que as redes sociais, com todos os benefícios que proporcionam, oferecem – e que ameaçam a intimidade com Deus, a santidade e a comunhão com os irmãos que nós, cristãos, precisamos ter. Deixo um beijo e um abraço aos manos e manas com quem me relacionei em edificação pelas redes.

Seguirei aqui pelo blog, este meu mosteiro virtual, onde vou me enclausurar para continuar compartilhando como vaso de barro que sou o tesouro do Evangelho em que creio, o poder da graça, a denúncia de heresias, o amor de Cristo e a promessa de restauração a todo aquele que se arrepende e vai viver a eternidade ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Pois redes sociais são irrealidade. Já o Céu e o Inferno são o que há de mais real.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Se você deseja aconselhamento, recomendo que procure seu pastor e não um blogueiro.

As reflexões expressas neste blog são pessoais e não representam necessariamente a posição oficial de nenhuma igreja, denominação ou grupo religioso.

Ultimamente tenho meditado muito sobre o amor de Deus. Tenho lido sobre sua graça e sobre seu perdão, que são frutos de seu amor. Um amor tão mal-compreendido, tão humanizado em nossos louvores e concepções.  Algo tão acima da capacidade humana – de compreender, aceitar, reproduzir. A maior e, provavelmente, única forma que o ser humano tem para se aproximar do amor de Deus é vivenciando, experimentando, sendo alvo desse amor. E quando conseguimos, quando sua suave presença nos alcança, sentimos o seu perdão sobre nossa multidão de pecados e a concepção que temos sobre Cristo e sobre seu relacionamento conosco muda totalmente: entramos numa nova dimensão na nossa caminhada de fé. E nos tornamos, creio eu, cristãos melhores.

As duas passagens principais que falam sobre o amor de Deus são as conhecidíssimas João 3.16 e 1 Coríntios 13. Tenho aplicado nos últimos tempos em minha vida o método de leitura da Bíblia de meditar por vezes uma semana um único trecho, estudar sobre ele em fontes diversas, deixar-me “engravidar” daquela passagem e das lições e virtudes ali contidas. Fiz isso em João 3.16, pois esse versículo é repetido tantas vezes nas igrejas que sua magnitude se banaliza e chega a passar despercebida por nós. Leia com atenção e vamos até além, ao normalmente ignorado versículo 17:  “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele“. Que extraordinário. Que sublime. Que humilhante.

Deus amou a mim e a você de tal forma que por isso abriu mão de sua glória celestial, de estar assentado no trono sendo louvado dia e noite pelos anjos, para vir à terra, sentir frio, calor, dor, desprezo, acusações, solidão, a coroa de espinhos, o açoite, a Cruz. E qual foi a única razão que o levou a isso? Dar a seres pecadores, desprezíveis, falhos, desobedientes, egoístas e rancorosos a vida eterna. Ou seja: Deus amou a mim e a você tanto que abriu mão de castigar-nos com o fogo que nunca se apaga, como seria justo, para exercer a misericórdia, sacrificar-se e, assim, conceder-nos vida eterna: o direito de passar os bilhões de anos que virão pela frente junto a Ele. Em outras palavras, o amor de Deus fez tudo isso para que nós pudéssemos estar juntos por toda a eternidade, glorificando seu santo nome.

O Filho, ao encarnar-se, sabia que viria por quem não o merecia. Eu não mereço o amor do Senhor. Pois pequei e destituído estou da glória de Deus. Não, não mereço. Mas mesmo assim Ele olhou para este saco de ossos, pele, defeitos, doenças, podridão que eu sou e… me amou. Quem entende? Só entende quem compreende a graça. Esqueça as frases feitas que você responde de bate-pronto: “O que é graça?”. “Favor imerecido”. Ok, sabemos disso. Mas vamos tentar parar e refletir mais profundamente sobre esse conceito.

Graça é Jesus, o Santíssimo, o Puríssimo, o Cordeiro sem mancha… fazendo-se como alguém nada santo, nada puro, cheio de manchas, justamente para trazê-lo para si e dizer: “Apesar de tudo isso, se te arrependeres, ainda assim terás o meu perdão, esquecerei teus erros, desafiarei como teu advogado junto ao Pai que atirem a primeira pedra e estaremos juntos no Paraíso”. Chegam a vir lágrimas nos olhos só de pensar nisso. O conceito de graça desafia nossa inteligência, nosso senso de justiça, tudo o que é humano. Pois somos ególatras, vingativos, rancorosos, imperdoáveis. Somos impiedosos. Literalmente: sem piedade. Somos o contrário exato de Cristo. O pecado que carregamos dentro de nós nos desfigurou a esse ponto. É por isso que dependemos tanto da soberania do Senhor: porque somos tão opostos que sem Ele nada podemos fazer.

O versículo 16 por si só já é magnífico, por revelar o caráter do Cordeiro. Um caráter traduzido em domínio próprio. Mansidão. Fé. Bondade. Amabilidade. Paciência. Paz. Alegria. E… amor. E no versículo seguinte vem a coroação: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele“. Isso me emociona. A humanidade é uma desgraça. Eu e você somos atoleiros de pecados. Somos o vômito do cão. Somos dignos do inferno. Quem discorda disso não entendeu o que o pecado fez com o gênero humano, como nos tornou totalmente depravados e como somos o avesso de Cristo. Merecíamos, todos nós, o veredicto: CULPADO. Não adianta, meu irmão, minha irmã, eu e você nascemos com esse veredicto escrito em nossas testas. Nossa sentença deveria ser a mesma do diabo: o lago de fogo e enxofre. Mas aí… entra em cena o amor de Deus.

E esse amor diz que Cristo não veio para dar esse veredicto. Que Ele não veio julgar. Não veio nos condenar. Jesus não veio à terra com prego e martelo nas mãos para nos executar – como merecemos – e nos crucificar. Ele veio com as mãos e os pés expostos em oferta para que eu e você fossemos salvos por ele. Meu Deus, que amor incompreensível! Nós não sabemos nem dar a outra face, nascemos com gosto de sangue e de rancor na boca, enquanto Ele estendeu seu amor, como se dissesse: “Não mate o culpado, mate a mim, o inocente, eu me dou no lugar dele. Eu o perdoo. Eu não o condeno. E, com isso, eu o salvo. E que creiam nisso, para que este meu gesto permita o que eu mais quero: estar a eternidade ao lado dele – desse grande pecador arrependido pela minha graça”.

Não tenho como descrever, definir ou explicar o amor de Deus. Sinto-o apenas em ação, no perdão que ele me estende. O que eu fiz para merecer isso? Absolutamente nada. Nem mesmo crer nele é mérito meu, visto que o arrependimento dos meus pecados é fruto da atividade daquele que convence do pecado, da justiça e do juízo. Deus me estende a graça. Deus me dá a fé. Deus me convence do pecado. Deus intercede por mim como advogado. Deus me regenera. Deus me justifica. Deus me põe de pé. Tudo vem de Deus. Tudo. A mim resta agradecer, louvar e adorar por esse amor. Do qual tenho absoluta certeza que não sou digno.

1 Coríntios 13 apenas corrobora tudo isso. Ao contrário do que muitos pensam, o amor ali descrito não é o humano, é o ágape, o amor de Deus. Usar 1 Coríntios 13 numa carta para sua namorada, por exemplo, é um erro de interpretação bíblica. Venha lendo desde o capítulo 12 e no contexto verá que está sendo falado sobre os dons de Deus. E esse capítulo descreve o amor de Deus. Nenhum, absolutamente nenhum humano ama ou é capaz de amar daquela maneira. Só Deus. Só Deus.

Que o Cordeiro seja glorificado por esse amor, traduzido na graça que nos permitirá passar a eternidade ao lado dele… amando. Como será a vida eterna após a morte para os salvos? Não sei com certeza. A Bíblia dá algumas pistas. Mas de uma coisa tenho certeza: os eleitos de Deus viverão pelos séculos dos séculos experimentando o amor mais inexplicável que existe e já existiu em todo o universo. Um amor que hoje tem forma de Cruz, mas na eternidade terá forma de um homem com mãos e pés furados e os braços abertos para os arrependidos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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