Arquivo de abril, 2012

Normalmente aqui no APENAS eu discuto as coisas de Deus e da nossa fé. Mas este post será um pouco diferente: quero hoje viver a fé e não debater sobre ela. Você já vai entender. Farei isso após ter vivido uma experiência que me mostrou uma vez mais que Deus é absurdamente imprevisível. Ocorre que fui convidado para dar uma palestra sobre três livros que escrevi para a editora Anno Domini, voltados para jovens e adolescentes, no Congresso Anual do Ministério Despera Débora, que conta com 80 mil mulheres em todo o mundo em oração por seus filhos. Nina Targino, uma das pessoas mais doces que já conheci, é a coordenadora nacional desse ministério e escreveu o prefácio do quarto livro da série, chamado O RITUAL, que será lançado ainda este ano. Fiquei muito lisonjeado quando ela, e louvo a Deus por isso, leu os quatro livros e mostrou-se encantada pela série (chamada Série Geração Ação), disse-me que esses livros eram resposta de oração e me convidou para palestrar para as cerca de 500 coordenadoras do Desperta Débora em todo o país. Sendo assim, saí do Rio rumo a Belo Horizonte certo de que estava indo para falar. Mas mal sabia eu que estava indo para ouvir.

Cheguei ao evento, fiz a palestra sobre a série e ainda sorteamos exemplares de O Enigma da Bíblia de Gutemberg (livro vencedor dos prêmios Areté de excelência em literatura cristã nas categorias “Melhor Livro de Ficção/Romance” e também “Autor Revelação do Ano”), 7 Enigmas e um Tesouro (finalista do Prêmio Areté na mesma categoria) e O Mistério de Cruz das Almas. Estava feliz, foi uma grande festa, aquela alegria tradicional que ocorre em sorteios. Terminada minha participação, sentei ao lado de Nina para escutar a próxima preletora, uma senhora chamada Ivanise Espiridião da Silva. Eu não a conhecia. Como meu voo só saía dali a algumas horas, resolvi permanecer e ouvir o que ela falaria. Eu não sabia, mas dentro de poucos minutos Ivanise tiraria o sorriso de meu rosto e me faria chorar copiosamente.

Ela é ninguém menos que a presidente do Movimento Mães da Sé. É um grupo formado por pais cujos filhos desapareceram. Sumiram do mapa. E simplesmente as autoridades fazem pouco ou nada para encontrá-los. Como me contaria depois – na carona que lhe dei ao aeroporto -, quando sua filha Fabiana, de 13 anos, desapareceu, Ivanise procurou uma delegacia. O delegado simplesmente virou-se para ela e disse que não procuraria a jovem pois “ela deve estar em algum motel com o namoradinho”. E não fez nada. Nisso se passaram 16 anos e Fabiana continua desaparecida. Não. Fabiana não estava em motel algum: ela incorporou-se às cerca de estimadas 200 mil pessoas que somem por ano no Brasil (como Ivanise me contou, existem estatísticas oficiais no país até sobre roubo de carros, mas nenhuma sobre o desaparecimento de seres humanos. O que há são especulações a partir de dados de 13 anos atrás).

Ivanise fez sua palestra. Ela escreveu o texto e o leu, em meio a pausas e lágrimas. Ao final eu estava tão tocado e comovido que pedi a ela se poderia me ceder o texto para que eu o publicasse aqui no APENAS. Serei muito direto: meu objetivo é que você seja tocado como eu fui, entre no website do Mães da Sé e invista minutos do seu dia para ver se você consegue ajudar a identificar algum dos desaparecidos, cujos pais estão em desespero. Ouça agora as palavras que foram lidas com voz embargada por Ivanise e que silenciaram todos os presentes. É uma pena que sem o tom usado na leitura perca-se a prosódia dessa mãe desesperada:

“Dizem que sou uma mulher forte e corajosa, porém me sinto muitas vezes fragilizada pelas peças que a vida me pregou. Mas sou uma mulher abençoada por Deus, afinal Ele me deu dois grandes tesouros, minhas filhas, Fabiana e Fagna – lindas, inteligentes, tudo o que um dia sempre desejei: ter uma família formada com marido e filhos, já que venho de uma família de 10 irmãos. Filha de agricultores, nasci numa cidade no interior de Alagoas, hoje com 30 mil habitantes.

Nunca tive nenhum privilégio, trabalhei na roça até os 18 anos, quando casei e fui morar em São Paulo, uma megalópole. Como meu esposo trabalhava e eu ficava sozinha, logo quis ter filhos. Primeiro nasceu a Fabiana e, 11 meses depois, veio a Fagna. Minhas filhas foram o maior presente que ganhei do Senhor Jesus. E na minha concepção de felicidade eu tinha uma família feliz.

Até que, em 23 de dezembro de 1995, minha filha Fabiana saiu de casa acompanhada de uma colega de escola para visitar uma amiga que fazia aniversário aquele dia. No retorno para casa, desapareceu a cerca de 120 metros de distância de onde morávamos. Fabiana estava com 13 anos. Hoje minha filha tem 30 anos.

A partir daí minha vida transformou-se em um pesadelo. Iniciei minha busca. Durante três meses procurei minha filha sozinha, visitando hospitais, IML, hospitais psiquiátricos, pelas ruas e viadutos, principalmente na região central de São Paulo. Essa busca foi me desgastando física e psicologicamente. Cheguei à beira da loucura. A vida não tinha mais sentido para mim sem minha filha. Até que, num dia de desespero e muita dor, pedi ao Senhor Jesus que me mostrasse uma forma de poder esperar até o momento em que Ele achasse que estava preparada para encontrar minha filha, viva ou morta. Por acaso, uma amiga da faculdade me passou o telefone de uma organização que havia no Rio de Janeiro, o Centro Brasileiro em Defesa da Criança e do Adolescente, onde cadastrei minha filha.

Algumas semanas depois fui convidada para participar de uma novela que juntou ficção e realidade e mostrou depoimentos de mães que tinham os filhos desaparecidos. Durante as gravações, conheci outras mães que estavam passando pelo mesmo drama que eu. Juntamente com outra mãe que foi comigo gravar a novela demos início ao Movimento Mães da Sé, que nasceu em 31 de março de 1996.

Transformei minha dor em uma luta constante, não só pela minha filha, mas para ajudar outras mães que vivem o mesmo drama. Tenho aprendido muito com essa família numerosa que Deus me deu. Somos irmanadas pelo mesmo objetivo, que é encontrar nossos filhos. Afinal, o Estado nos deve essa resposta. Nossa luta é uma luta isolada, sofremos o total abandono do poder público.

Aprendi a sobreviver e não desistir, pois como mãe não posso jamais desistir da busca do único bem mais precioso que Deus me deu. Tenho travado uma longa e triste batalha com a vida, mas aprendi também que não existe causa perdida, pois a única causa perdida é aquela que você abandona.

Ainda não encontrei a minha Fabiana, mas já devolvi a alegria a 2.657 casos localizados com vida e 211 óbitos. Se Deus me levar hoje, irei em paz. Pois minha filha vive em cada uma dessas crianças e adultos que ajudei a voltar para suas famílias.

Ao longo desses 16 anos de luta, aprendi que é enfrentando as dificuldades que me fortaleço, é superando meus limites que cresço como pessoa, é tentando resolver os problemas que amadureço, é desafiando o perigo que encontro coragem para enfrentá-lo e descubro o quanto cresço quando exigem de mim mais do que as minhas próprias forças – o que muitas vezes está além dos meus limites.

Aprendi a valorizar cada  minuto que a vida me dá, pois ele é único: sendo bom ou ruim, jamais haverá outro igual. Por isso nunca penso naquilo que acabou, mas sim naquilo que valeu a pena enquanto durou.

Lembrar os 16 anos do Movimento Mães da Sé é, acima de tudo, um ato de continuidade da busca por justiça, dignidade e verdade. A nossa luta não se perdeu no caminho, tampouco é em vão. De tudo fica um pouco, que será suficiente para tecer o fio da memória – que serve para alimentar a luta por justiça e contar a violência do Estado.

É tempo de lembrar. E fazer da lembrança dos nossos filhos o combustível para a luta que continua até encontrarmos uma resposta. O resultado desse esquecimento vemos hoje, quando execuções sumárias, torturas e desaparecimentos forçados continuam a ser praticados, em número muito maior e atingindo muito mais pessoas, por agentes estatais. Nos recusamos a mais um esquecimento nessa triste história.

Há 16 anos iniciamos, dando os primeiros passos onde muitas mães, pais, irmãos e amigos que nos seguiram – mostrando que não podemos mais esperar por justiça deixando tudo por conta do Estado.

A dor integra a natureza de nosso trabalho. É em meio a nossa dor e nosso sofrimento que buscamos e recolhemos a solidariedade e o alento de nossos parceiros em nosso trabalho, que não só alivia nossa caminhada como amplia nossas vitórias e impõe-nos o compromisso de com eles nos congratularmos, ainda perguntando: para onde estão indo nossas crianças? Mantemos acesa a chama da esperança de um reencontro único, mesmo sem saber o dia e a hora em que ele possa acontecer.”

Aqui acabou o testemunho de Ivanise. Seguiram-se alguns instantes de silêncio e ela completou, de improviso:

- E você pode estar se perguntando o que tem isso a ver com o Congresso do Desperta Débora e por que eu vim aqui. Eu vim buscar forças. Eu vim buscar colo.

Desnecessário dizer a enorme comoção que se seguiu a essas palavras.

Se você puder, meu irmão, minha irmã, entre no website do Mães da Sé. Quem sabe você não será o responsável por devolver um filho aos seus pais desesperados? Use bem seu tempo na web. E divulgue esse trabalho. Quanto mais pessoas olharem as fotos dos desaparecidos, mais chance há de eles serem encontrados.

Na nossa ida ao aeroporto perguntei a Ivanise (foto) qual era a melhor forma de ajudar. E ela respondeu que era olhando o site para, quem sabe, se lembrar de alguém que você tenha visto em algum lugar e cujos pais estão destruídos pela falta de informações.

Esse é o melhor colo que você pode oferecer. E, ao ouvir o testemunho de Ivanise, vi que hoje era dia de o APENAS não falar sobre o Evangelho, mas vivê-lo em sua plentiude: amando o próximo.

Ame o próximo. Acesse agora www.maesdase.org.br. Você pode salvar vidas e devolver a alegria a famílias destruídas. Para qualquer informação, o telefone da sede do Movimento é (11) 3337-3331.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Devemos nos chamar de “evangélicos” ou não? Dentro dos debates que tenho visto e vivido sobre se um cristão assumir a terminologia “evangélico” faz dele um religioso vazio e distante do Evangelho de Cristo, um mau fariseu (para não ser generalista e injusto com os bons fariseus, como Paulo e Gamaliel), um legalista etc, reproduzo abaixo um magnífico texto escrito pelo reverendo John Stott a esse respeito. Sugiro que você leia, reflita, dispa-se dos preconceitos e jargões e deleite-se nas reflexões desse que é considerado um dos maiores teólogos das últimas décadas – até seu falecimento recente. Segue o que o saudoso Pastor Stott falou sobre denominar-se ou não “evangélico”, a partir da perspectiva correta: a bíblica e histórica. É uma análise curta, porém magnífica, do significado desse conceito, sem a influência que nós, brasileiros, recebemos do mau exemplo de um punhado de maus líderes e igrejas que se chamam “evangélicas” mas que praticam e pregam barbaridades do ponto de vista bíblico. Ouçamos então essa voz que tanto edificou os cristãos dos séculos 20 e 21 com seu conhecimento sobre as coisas de Deus.

(Agradeço ao irmão João Paulo Silva, que me encaminhou o texto).

A Tradição Evangélica
John Stott

Gostaria de argumentar, embora corra o risco de simplificar em demasia e de ser acusado de arrogante, que a fé evangélica não é outra senão a fé cristã histórica. O cristão evangélico não é aquele que diverge, mas que busca ser leal em sua procura pela graça de Deus, a fim de ser fiel à revelação que Deus fez de si mesmo em Cristo e nas Escrituras.

A fé evangélica não é uma visão peculiar ou esotérica da fé cristã – ela é a fé cristã. Não é uma inovação recente. A fé evangélica é o cristianismo original, bíblico e apostólico. A marca dos evangélicos não é tanto um conjunto impecável de palavras quanto um espírito submisso, a saber, a resolução a priori de crer e de obedecer ao que quer que seja que as Escrituras ensinem.

Eles estão, de antemão, comprometidos com as Escrituras, independentemente do que se possa descobrir que elas digam. Eles afirmam não ter liberdade para lançar seus próprios termos para sua crença e comportamento. Percebem essa perspectiva de humildade e de obediência como uma implicação essencial do senhorio de Cristo sobre eles.

As tradições católica e liberal tendem a exaltar a inteligência e a bondade humana e, portanto, esperam que os seres humanos contribuam de alguma forma para a iluminação e salvação deles mesmos. Os evangélicos, de outro lado, embora afirmem veementemente a imagem divina que a nossa humanidade carrega, têm a tendência de enfatizar nossa finitude humana e queda e, portanto, de insistir que sem a revelação não podemos conhecer Deus e sem a redenção não podemos alcançá-lo.

Essa é a razão pela qual os aspectos essenciais do evangelho focam a Bíblia e a cruz, bem como a indispensabilidade delas, uma vez que foi por meio delas que a Palavra de Deus nos foi comunicada e que a obra de Deus em favor de nós foi realizada. Na verdade, sua graça apresenta a forma trinitária. Primeiro, Deus tomou a iniciativa em ambas as esferas, ensinando-nos o que não poderíamos saber de outra forma, bem como dando-nos o que não poderia nos ser dado de outra maneira. Segundo, em ambas as esferas o Filho desempenha um papel singular, como o único mediador por meio de quem a iniciativa do Pai foi tomada. Ele é a Palavra que se fez carne, por meio de quem a glória do Pai foi manifestada. Ele é o imaculado que se tornou pecado por nós para que o Pai pudesse nos reconciliar com ele mesmo.

Além disso, a Palavra de Deus falada por meio de Cristo e a obra de Deus realizada por intermédio de Cristo eram ambas hapax , completadas de uma vez por todas. Nada pode ser acrescentado a nenhuma delas, sem que com isso se deprecie a perfeição da palavra e da obra de Deus realizada por meio de Cristo. Depois, em terceiro lugar, tanto na revelação quanto na redenção, o ministério do Espírito Santo é essencial. É ele que ilumina nossa mente para compreender o que Deus revelou em Cristo, e é ele quem move nosso coração para receber o que Deus alcançou por meio de Cristo.

Assim, nessas duas esferas, o Pai agiu por meio do Filho e continua a agir por meio do Espírito Santo. Os evangélicos consideram essencial crer não apenas no evangelho revelado na Bíblia, mas também em toda a revelação da Bíblia; crer não apenas que “Cristo morreu por nós”, mas também que ele morreu “por nossos pecados” e, de forma que Deus, em amor santo, pode perdoar os crentes penitentes; crer não apenas que recebemos o Espírito, mas também que ele faz uma obra sobrenatural em nós, algo que, de variadas formas, foi retratado no Novo Testamento como “regeneração”, “ressurreição” e “recriação”.

Eis aqui três aspectos da iniciativa divina: Deus revelou-se em Cristo e no testemunho bíblico total sobre Cristo; Deus redimiu o mundo por meio de Cristo e tornou-se pecado e maldição por nós; e Deus transformou radicalmente os pecadores pela operação interna de seu Espírito.

A fé evangélica, assim afirmada, é o cristianismo histórico, maior e trinitário, e não um desvio excêntrico dele. Pois não vemos a nós mesmos oferecendo um novo cristianismo, mas chamando a Igreja ao cristianismo original.

Se “evangélico” descreve uma teologia, essa teologia é a teologia bíblica. Os evangélicos argumentam que são cristãos bíblicos plenos e que, para ser um cristão bíblico, é necessário ser cristão evangélico. Explicando dessa forma, isso pode soar como arrogância e exclusivismo, mas essa é uma crença sincera. Certamente, o desejo sincero dos evangélicos é não ser um cristão mais ou menos bíblico. A intenção deles não é ser sectário. Isto é, eles não se apegam a certos princípios apenas para manter a identidade deles como um “grupo”. Ao contrário, sempre expressaram sua prontidão para modificar, até mesmo abandonar, quaisquer das crenças que estimam, ou, se necessário, todas elas, se lhes for demonstrado que não são bíblicas.

Os evangélicos, portanto, consideram como a única possível via para a reunião das igrejas a via da reforma bíblica. De acordo com o ponto de vista deles, a única esperança firme para as igrejas que desejam se unir é a disposição comum para se sentarem juntas sob a autoridade da Palavra de Deus, a fim de serem julgadas por ela.

O significado da palavra “conservador” quando aplicada aos evangélicos, é que nos apegamos veementemente aos ensinos de Cristo e dos apóstolos, conforme apresentados no Novo Testamento, e que estamos determinados a “conservar” toda a fé bíblica. Isso foi o que o apóstolo determinou que Timóteo fizesse: “Guarde o que lhe foi confiado”, conserve isso, preserve isso, jamais abandone seu apego a isso, nem deixe que isso caia de suas mãos.

* * *

O Rev. John Stott , Ministro Anglicano e escritor, foi ex-Capelão da Rainha da Inglaterra e Reitor Emérito da Paróquia de All Souls, em Londres.  Fonte: “Cristianismo Autêntico – 968 Textos Selecionados da Obra de John Stott” , compilação pelo Bispo aposentado Anglicano Timothy Dudley-Smith (Autor dos dois volumes já publicados de sua Biografia Autorizada), Vida Acadêmica: São Paulo, 2006, http://www.editoravida.com.br , http://www.vidaacademica.net , pp.413-420.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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“Como eu sei os planos de Deus para minha vida? Como sei se estou cumprindo a vontade dEle para mim?”. No período seguinte à minha conversão, essas perguntas me assombraram. Eu era néscio, novo convertido, mal tinha pego um ou dois bons livros teológicos para ler (já tinha lido muita besteira teológica, como livros de pastores da TV e de editoras evangélicas ruins: bons livros, quase nada) e essa questão me intrigava. Todos diziam que eu tinha de seguir a vontade de Deus. Mas como fazer isso se o Altíssimo não aparecia para mim em meio a um raio de luz ou uma sarça ardente e dizia o que esperava para a minha vida? Era um mistério para um neocristão como eu. E eu vivia perguntando a Ele. Eu, um pentecostal sem instrução, aguardava uma revelação, uma profecia ou algo do gênero que viesse a me mostrar se deveria virar para a esquerda ou a direita. Até um anjo aparecer à noite em meu quarto servia. Mas nada. Nem uma resposta. Nenhum dom sobrenatural. Nenhuma aparição divina entre gelo seco. Só o silêncio.

A resposta veio. Mas não como eu esperava. Não por meio de um fenômeno sobrenatural. Não trazida pelo varão de branco numa bandeja de prata andando no meio da congregação enquanto a igreja cantava um corinho de fogo. E quando ela veio eu aprendi o que todo pentecostal – como eu sou até hoje – deve aprender: as respostas de Deus aos nossos questionamentos só numa minoria ínfima das vezes chegam por meio de “vasos” ou “varoas de fogo”. Elas vêm pela ministração da Palavra. Ou seja: pela pregação e a exposição da Bíblia.

Não é muito empolgante, eu sei, nos emocionamos, choramos e nos arrepiamos muito mais quando alguém dá um berro, põe a mão em nosso ombro e nos fulmina com aquela voz empostada que só um profeta dos mantos de fogo sabe fazer:”Eeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiissss que te diiiiiiiiiigo, servo meu!!!”. Ah! Quem não gosta? O Altíssimo em linha direta conosco! Coisa boa demais. Só que em 99,99% das vezes não será assim que você terá as respostas de Deus: será pelas Escrituras. Creio nos dons? Claro, são bíblicos. Creio que Deus fala por profecia ou pela palavra de conhecimento (a popular “revelação”)? Claro, é bíblico. Mas também creio que as maiores respostas Deus já deixou preparadas e embrulhadas para nós na Bíblia Sagrada. E o tempo que muitos perdem indo atrás de profetas e similares seria muito mais bem aplicado se dedicado à leitura estudada da Palavra revelada de Deus. Quando o Senhor quer falar por meio dos dons Ele fala. Nós não temos que correr atrás. Ele tomará a iniciativa. Ficar correndo atrás disso deixando a Bíblia na prateleira pegando poeira denuncia um cristão mal discipulado.

Mas voltemos ao meu questionamento de novo convertido. Entenda que saber para onde Deus queria que eu fosse, qual era sua vontade para minha vida, que rumo eu devia tomar, qual seu plano para mim era algo muito importante na minha concepção, algo que eu vivia me perguntando e perguntando a Deus. Eu queria saber o futuro! Queria saber os desígnios do Todo-Poderoso para os anos a seguir! Queria ser o dono do conhecimento. Afinal, conhecimento é poder e eu me sentia aflito por não deter o poder de saber o meu futuro. Que bobo eu era.

Como disse, a resposta veio. Mas quando, onde e da forma que eu menos esperava. E junto com uma bela lição. Jesus me converteu em 1996. Em 1999 viajei a Nova York num passeio de férias. Repare: foram três anos perguntando ao Senhor como saber a Sua vontade e os Seus planos para a minha vida, sem obter uma resposta. Ao chegar à cidade, fiquei hospedado na casa de um amigo. Meu sonho e objetivo de longa data era visitar as igrejas de negros do Harlem, onde queria ver o canto gospel de raízes, sentir o cheiro do povão, me mesclar com a celebração em templos onde as mulheres se vestem como Whoopi Goldberg no filme “Ghost” e os homens gritam “Hallellujahhhhhhhh!” e “Amennnnn!!!” (pronuncia-se “êi-mén”) com aquelas vozes poderosas de Ray Charles. Esse era meu sonho. Poder gritar “Oh, yes, Lord!!!” no meio deles. Sim, eu tinha sonhado muito com aquilo.

Estava de férias, desligado da questão de “Deus, para onde eu vou?”. Minha dúvida naquele momento era saber em que estação de metrô descer para chegar ao World Trade Center (sim, eu subi ao terraço-mirante de uma das Torres Gêmeas dois anos antes de elas desaparecerem). Estava prestando atenção apenas no meu passeio. Domingo se aproximou e perguntei ao meu amigo como fazia para encontrar uma boa igreja no Harlem onde pudesse experimentar o gospel de raízes. Ele me respondeu que não fazia ideia. Mas que havia uma igreja muito visitada no centro de Manhattan, a Times Square Church, e me deu as dicas de como chegar lá. Eu queria ir para o Harlem, mas, pela falta de informações, me conformei e acabei mesmo indo para aquele antigo teatro da Broadway, onde anos antes havia estreado o musical “Jesus Cristo Superstar” e que agora havia sido comprado, mal sabia eu, por ninguém menos que David Wilkerson, o celebrado pastor e autor do clássico “A Cruz e o Punhal”. Era a sua igreja.

Só descobri isso quando, chegando domingo de manhã ao santuário, vi aquele senhor de cabelos brancos atravessando a rua ao meu lado. “Caramba, é o David Wilkerson!”, me assustei. E fui em frente. Pensei com meus botões:”Se é essa celebridade quem vai pregar, de um famosão desses só pode vir uma palavra fogo puro! Ô Glória!”. Entrei naquele lindíssimo santuário, com membresia da alta sociedade novaiorquina, só gente muito bem vestida, as cortinas vermelhas fechadas. De repente elas se abriram e um belo coral trajando becas amarelas e roxas começou a cantar, as letras projetadas num vidro preso no alto do santuário. Eu só me impressionava pela grandiosidade do lugar, pela tecnologia, e derramava lágrimas ouvindo aqueles gringos cantando “Jesus, lover of my soul”. Não estava nem aí naquele momento para “saber quais são os planos de Deus para minha vida”. Estava deslumbrado com tudo ao redor e excitadíssimo por poder ouvir David Wilkerson pregar. Chegou enfim a hora da pregação e eis que sobe ao púlpito… quem?! Quem?! Quem?!

O pastor auxiliar.

Hm. Tá. Ok. É, né, fazer o quê. Afundei na cadeira.

Wilkerson sentado, eu decepcionado e o Pastor Carter Conlon (foto) ao microfone. E foi quando aconteceu. Aquele homem sem fama ou best-sellers escritos, no meio de minhas férias, a milhares de quilômetros dos profetas mais usados da minha igreja local, sem que eu estivesse nem aí no momento para os planos de Deus para minha vida… pregou a resposta à pergunta que eu vinha fazendo há 3 anos. Foi uma mensagem simples. Sem grandes argumentos. Sem muito brilhantismo. Puro feijão com arroz espiritual. Mas que saciou uma fome que durava cerca de mil dias. Não houve um grande coral de anjos cantando enquanto o Céu se abria, fogos espocavam e a grande revelação vinha direto do sétimo, oitavo ou nono Céu numa carruagem puxada por cavalos de fogo e escoltada por arcanjos e querubins. Nada disso. Em voz calma e baixa, Pastor Conlon simplesmente disse, como quem comenta um fato corriqueiro com um amigo:

- Você quer que os planos de Deus para tua vida se cumpram? Quer que a vontade dEle para você torne-se realidade? Saber é difícil, nós mesmos nunca saberemos. Mas Deus sabe. Não é uma questão de saber, mas de deixá-la se cumprir. Então, se você quer sair daqui e ir para o Brooklyn sem saber o caminho, o que você faz? Pega um ônibus que tenha ao volante um motorista com as informações sobre como chegar lá. Depois basta ficar ali, perto dele, até que chegue ao seu destino. Do mesmo modo, se você quer cumprir o plano de Deus para sua vida, tudo o que tem a fazer é ficar perto de quem sabe como te conduzir até seu destino. Fique sempre perto de Jesus e todos os planos dEle se cumprirão na sua vida. Você não precisa saber. Basta estar junto a Deus e esperar, pois, um dia após o outro, todas as coisas cooperarão para que a vontade dEle se cumpra em você.

Simples. Bíblico. Silencioso. Pura explanação eficiente e inteligente das verdades bíblicas. Naquele momento, eu congelei. Primeiro, porque percebi que Deus tinha respondido à minha pergunta. Segundo, porque foi de modo totalmente diferente de como eu esperava. Terceiro, porque mostrou-me que eu estava fazendo a pergunta errada: o importante não era “saber”, mas “o que fazer”. Fiquei estarrecido.

Fui embora da Times Square Church com um livro com pregações de David Wilkerson e uma fita k-7 com mensagens dele debaixo do braço, cortesia para os visitantes de primeira vez. Mas, mais importante do que isso, saí dali com uma autêntica experiência com Deus. Sim, Deus tinha falado. E me dado uma bronca ao mesmo tempo. Fiquei feliz por finalmente conhecer a resposta à minha pergunta: para cumprir o plano, a vontade de Deus em minha vida, tudo o que eu tinha de fazer era estar junto a Ele a cada dia. Mas saí humilhado por ver o tamanho da minha prepotência. Por achar que seria da minha forma que a resposta viria. E foi quando entendi algo que é indissociável da pessoa do Senhor: sua absoluta soberania sobre tudo o que ocorre no mundo, as coisas boas e as coisas más.

Saí dali sem ter realizado o sonho de ouvir o gospel dos negros do Harlem, pois a Times Square Church é uma igreja de brancos, com louvores para brancos ao estilo dos brancos. Mas dei de cara com uma estação do metrô. Parei. Pensei. E disse a Deus: “É com o Senhor”. Embarquei e fui para o Harlem, sem ter noção de onde ia e totalmente às cegas. Era hora do almoço, chance mínima de realizar meu sonho, de ouvir o autêntico canto gospel de raízes. Saí sozinho, no meio do bairro, e comecei a andar por suas ruas. Em pensamento, orei: “Senhor, não conheço nada ao meu redor. Não tenho ideia de onde ir. Mas estou contigo, conduze-me”. Foi quando dobrei uma esquina e dei de cara não com uma igreja, mas com um palco montado numa rua interditada, onde 20 igrejas haviam se reunido para um dia de louvor a Deus, com corais, grupos, duetos, quintetos, solistas e os mais variados tipos de autênticos músicos gospel negro de raízes se sucedendo na plataforma. Sentei quietinho e isolado numa cadeira, o único latino em meio a centenas de negros, e vivi ali em êxtase um dos dias mais inesquecíveis da minha vida, com todo tipo de louvor do Harlem sendo entoado ao longo de toda uma tarde. Gozo para minha alma e a realização de um sonho, multiplicado por 20.

Não precisei saber para onde ir. Mas Deus conhecia meu desejo e tinha seus planos para minha tarde: dar-me de presente muito mais do que eu tinha pedido. Deleitei-me no Senhor e ele concedeu o desejo do meu coração. Tudo o que precisei fazer foi estar junto a Ele, dar um passo após o outro e dizer: “Pai, eis-me aqui. Leva-me aonde Tu quiseres e cumpre em mim a Tua vontade”.

Desde então não busco saber o meu futuro, vivo um dia após o outro. E se hoje olho para trás e vejo como Deus conduziu minha vida nos últimos 13 anos, desde aquele dia de maio de 1999, sorrio e percebo claramente como os planos dEle para mim têm todos se cumprido. O que Ele reserva para meus próximos 13 anos? Sinceramente não sei. E sinceramente não faço questão de saber. Apenas entrego meu caminho ao Senhor, confio nEle e sei que o mais… Ele fará. Confie nisso também.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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Devemos nos denominar “evangélicos” ou não? Somos “evangélicos” ou só “cristãos”? Essas são as perguntas-chave deste post. São fruto de um texto que publiquei aqui no APENAS dias atrás que mostrava como legiões de irmãos vivem suas vidas de fé sem refletir ou se informar sobre o que falam e que, por isso, cometem enormes equívocos (o post original é ESTE, caso você queira se situar no contexto). Ocorre que no meio do raciocínio citei um exemplo que deu margem a montes de comentários. Penso que o assunto merece uma reflexão só para ele, para elaborarmos em cima da questão: afinal de contas, sou “evangélico” ou não? Até uns três ou quatro anos atrás, ninguém tinha problema de se apresentar como evangélico. Era o que éramos e acabou. Mas, de repente, com o advento do twitter, do Facebook e das redes sociais, foi um bum de rejeição desse termo. De repente, vimos multidões e mais multidões de… evangélicos… repudiarem ser chamados daquilo que eram. “Sou cristão, não sou evangélico”, passaram a bradar muitos evangélicos – bem mais preocupados com isso do que proclamar Cristo. Sou um defensor do uso desse termo e quero convidar você a refletir por quê não o devemos abandonar.

A causa desse fenômeno é simples: a vergonha perante o mundo.

E como surgiu essa vergonha? Até há pouquíssimo tempo, todo mundo sabia que “evangélico” é sinônimo de “cristão de tradição protestante”, ou ainda “pessoa que segue o cristianismo segundo definido pela Reforma Protestante”. Só que aí vieram os escândalos. Igrejas “evangélicas” neopentecostais espantando o país com todo tipo de prática espúria, Teologia da Prosperidade praticada por “evangélicos” sendo esfregada na cara do mundo, celebridades de vida mundana se apresentando como evangélicas, exorcismos praticados por “evangélicos” como shows, roubalheiras em nome de Jesus saindo na primeira página do jornal, “evangélicos” chutando imagens de santas, bancada “evangélica” no governo envolvida em mutretas e tramoias, artistas “evangélicos” usando o nome de Deus para enriquecer, eventos “evangélicos” infernizando o trãnsito e a paz das cidades, pastores-celebridades “evangélicos” atacando outros setores da sociedade em rede nacional de TV com agressividade… enfim, a lama voou para todo lado.

Os setores evangélicos sérios começaram a olhar isso tudo com espanto. De repente, o Evangelho passou a ser escândalo para o mundo não mais por sua mensagem contracultural, mas porque aqueles mais visíveis que se dizem seus porta-vozes passaram a praticar tudo às avessas do que se esperaria de um servo de Jesus. Hoje, basta qualquer não-evangélico ligar a TV sábado de manhã para ver “pastores evangélicos” vendendo unções em troca de R$ 900 – o que, é óbvio, é um tremendo absurdo e todos os  que não são minimamente ingênuos percebem isso. Um ateu hoje liga a TV e assiste a “pastores evangélicos” aos berros contra gays, ofendendo e atacando. Sem entrar pelo mérito, aos olhos da sociedade aquele indivíduo representa todos nós e, se ele é tão agressivo e estúpido na hora de falar, todos devemos ser. E quando nos apresentamos como evangélicos somos automaticamente associados a esses ensandecidos empresários da fé e… sentimos vergonha, lógico. Quem não sentiria?

O não-evangélico hoje liga na TV cuja dona é uma igreja “evangélica” e assiste a reportagens denunciando… outras igrejas “evangélicas”. Não é preciso ser um gênio para ver o que está por trás daquilo: dinheiro e poder. O não-evangélico liga a TV e assiste a um Festival de música “evangélica” onde os artistas são iguaizinhos aos artistas do mundo, fazem tudo igual. Mas em nome de Jesus, claro. E isso é escândaloso para quem tem o mínimo de senso crítico, pois fica estampado em verde e amarelo que aquilo ali é apenas uma jogada para venda de CDs da gravadora pertencente à mesma organização que a emissora de TV.

Para piorar, alguns pastores-celebridades que eram evangélicos sem problema algum tornaram-se revoltados contra a Igreja evangélica por razões as mais diversas. Uns porque adulteraram e não buscaram recompor seu casamento e, como a Igreja evangélica obviamente não concordou com isso porque vai contra a Bíblia, tornaram-se inimigos dos evangélicos. E forjaram esse discurso “antievangélico” para captar o nicho dos revoltados e dos feridos e assim manter-se em evidência. Outros tornaram-se antievangélicos porque começaram a inventar teologias notoriamente heréticas, que esvaziam Deus de sua soberania, e, como a Igreja evangélica obviamente não concordou com isso porque vai contra a Bíblia, tornaram-se inimigos dos evangélicos. E aí entra o fenômeno da celebridade em ação: como esse punhado de pouquíssimos pastores são vistos como a quarta pessoa da Trindade por milhares de pessoas, começaram a arrebanhar um povo que somou-se a eles nesse discurso que partiu de razões pessoais e tornou-se o evento social e antropológico que estamos analisando aqui.

Em resumo: alguns que se dizem “evangélicos” e estão mais visíveis aos olhos do mundo acabaram fazendo o mundo associar todos os evangélicos a eles. Ao que eles fazem. Ao jeito como falam. Aos seus interesses visivelmente interesseiros. A tudo de mais horrível, réprobo e pecaminoso que representam. Outros, que tomaram atitudes ou inventaram teologias que contrariam a Bíblia foram rejeitados pelos evangélicos que viram o absurdo que há no que praticam e pregam e arrastaram consigo montes e montes de fãs com seu discurso “antievangélico”. Hoje são figuras tristes, que chamam irmãos na fé de malditos ou se portam como moleques de rua ao chamar homens de Deus de “bundões” ou coisa pior.

E, adivinha só? O mundo vê tudo isso. Sabe para quem sobrou? Para mim e para você, meu irmão evangélico.

Porque, de repente, muitos passaram a sentir vergonha de ser associados a toda essa baixaria. E, ao ouvir essas vozes do movimento “sou cristão, não sou evangélico”, agarraram-se a essa ideia como a um bote salva-vidas de sua dignidade. Como ratos que abandonam um barco que mina água, começaram a abandonar aquilo que sempre foram. A se redefinir. A deixar o termo que a sociedade vê como algo negativo na mão dos negativos e tentar se metamorfosear em outra coisa.

Mas isso é um enorme erro.

Se um bandido tem o mesmo nome que você, requerer junto à justiça a mudança do seu nome não vai resolver absolutamente nada. Se dizer “cristão mas não evangélico” também não resolve absolutamente nada. É apenas uma atitude de pessoas envergonhada que acham que por não se definirem mais pelo termo estão se livrando dos olhares tortos da sociedade. E, ao fugir da vergonha, tornam-se vergonhosos. Pois estão abrindo mão de uma definição belíssima historicamente, que define não o que os canalhas da fé são, mas o que Jesus plantou e Lutero, Calvino e outros resgataram – e que transformou a História da Igreja.

Quando a Igreja Católica Romana tornou-se o que tornou-se no século 16, praticando absurdos como a venda de indulgências e outros desmandos, Lutero protestou afixando suas 95 teses na porta da igreja castelo em Wittenberg, Alemanha, a 31 de Outubro de 1517. Os católicos, para denegrir a imagem dos discordantes, cunharam o termo “protestante”, em especial devido à grande manifestação de alguns Estados e príncipes alemães, em 1529, que protestaram contra decisões de caráter religioso, mas de motivação também política. Em contrapartida, os que seguiam a proposta reformadora do excomungado Lutero e seus simpatizantes começaram a usar o termo “evangélico”, na época visto (veja você) como menos polêmico e que remetia a uma das características positivas de tudo o que a Reforma significou: o retorno à mensagem evangélica original. Lindo. O adjetivo “evangélico” é simplesmente lindo, pois nos define como aqueles que seguem o sagrado Evangelho de Jesus Cristo, as boas-novas do Deus encarnado, a graça do Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo. Eis a essência do evangélico: abraçar o Evangelho e vivê-lo custe o que custar.

Ser evangélico, então, é seguir o Evangelho de acordo com a doutrina fundamental resgatada por Lutero, Zwinglio e Calvino, que traz em si como pontos fundamentais a prioridade das Escrituras, a justificação pela fé e o sacerdócio universal dos cristãos. É o que eu sou. E vou brigar pelo direito de me definir pelo que sou.

Se há aqueles que usam o Evangelho de Jesus como fonte de lucro, trilhando um caminho de escândalos e de práticas antibíblicas, cabe a nós, que nos consideramos fiéis ao Evangelho e que renegamos essas práticas, deixar claro que eles saíram de nós mas não eram de nós. Denominar-se “cristão” resolve? Nada! Pois cada um desses que escandalizam também se dizem “cristãos”! Então daqui a pouco vamos abandonar essa definição também?! Muitos, para não se identificarem com os canalhas que se apresentam como “evangélicos” já desmerecem tudo o que tem a ver com os tais: não congregam em “igrejas” ou “denominações”, mas em “comunidades”. Não têm “hierarquia”, só “irmãos mais experientes na fé”. Não seguem “religião”, mas “graça”. E, agora, não são “evangélicos”, mas “cristãos”. Tudo pura semântica. Jogos de palavras e conceitos que não resolvem absolutamente nada. Apenas deixa os que assim o fazem mais felizes por poder se apresentar aos olhos da sociedade como algo diferente do que aquilo que os embaraça perante as pessoas.

Lutero quis reformar a casa de fé em que vivia por causa dos desmandos e da vergonha que tinha de fazer parte daquilo. Foi excomungado, expulso, expelido. Hoje, os cristãos antievangélicos não querem reformar nada: optam por pular fora para se sentir melhor aos olhos do mundo porque podem dizer “eles são evangélicos, eu não”. Desertam porque têm vergonha daquilo de que não fazem parte. Eles próprios se excomungam, se expulsam , se expelem. E com isso se tornam vergonhosos.

Não, não temos que sentir vergonha desse belíssimo termo histórico, que custou a vida de muitos mártires da Reforma e que nos remete à essência de nossa fé: o Evangelho da Salvação de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Tenho orgulho disso. Defendo o direito de usar o termo. Ele nos pertence. Os apóstatas já abandonaram o termo. Os deixemos ir, não fazem falta, com suas heresias relacionais e sua agressividade “bundona” (para usar suas próprias palavras, perdoem-me por replicar suas agressões).  Se querem passar por cima das mulheres e crianças, pisoteá-las e sair correndo do barco que mina água, que o façam e levem sua vergonha consigo. Mas acredito que um cristão deve ser corajoso, como os mártires foram e se entregaram aos leões, à fogueira e à tortura por amor ao Evangelho. E isso porque eram evangélicos: deram as suas vidas pelas boas-novas. Deram suas vidas pela mensagem da Cruz.

Não fujamos como covardes. Fiquemos e defendamos o que é nosso por herança espiritual. Somos sim evangélicos, como Jesus o foi, os apóstolos foram, os patriarcas dos primeiros séculos, os pré-reformadores, os próprios reformadores e os que andaram em seus passos nos 500 anos que se seguiram. Eu sou cristão. Eu sou evangélico. E sou grato a Deus por isso. Pois, ao admitir essa verdade, honro aqueles que vieram antes de mim e defenderam muitas vezes com seus bens e suas vidas o direito de eu sê-lo hoje. Não vou deixar meia-dúzia de falsos “evangélicos” estragar isso. Vamos denunciar seus erros e suas práticas apócrifas. Vamos denunciar seu comportamento e suas ideias como algo estranho ao nosso corpo. Vamos purgar o mal que está em nosso meio pela proclamação da verdade que denuncia a mentira. Mas escapulir pela porta dos fundos furtivamente não é a saída. Postar-se de queixo erguido na porta da frente, de peito aberto, e assumir quem somos e quem eles são e que não compartilhamos da mesma fé… essa sim é a resposta.

Meu nome é Maurício Zágari e honro meus pais, que me deram esse nome. Honro meus antepassados, que me deixaram esse sobrenome como legado. Não os mudo por nada. Do mesmo modo, honro a Cruz de Cristo. Honro o Evangelho de Cristo. Honro os que resgataram pela Reforma o Evangelho de Cristo. E honro o nome que me deixaram: evangélico.

Se você tem vergonha disso, vá. E junte-se aos vergonhosos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio
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Vamos fazer uma coisa chata para muitos cristãos que estão na Internet: ler a Bíblia. Não, claro que não estou falando de você, querido leitor, que sem sombra de dúvida tem momentos devocionais diários e que investe muito mais tempo na leitura da Palavra de Deus do que em outros prazeres, como Twitter, Facebook, televisão, shows gospel e entretenimentos do gênero. Ler a Bíblia não diverte, é apenas um privilégio que o Criador do universo concedeu àqueles que querem de fato conhecê-lo em intimidade, negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo. E, veja só, é exatamente sobre isso que tratam as três passagens das Escrituras que te convido a ler agora. As três contam o mesmo episódio, mas tirado de evangelhos diferentes:

Em Lucas 9.22-24, Jesus diz: “É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite. Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará“.

Já em Marcos 8.34-36, conta o evangelista: “Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?“.

Por fim, Mateus 16.24-27 afirma: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras“.

Todos nós conhecemos essas palavras de Jesus. Mas o que elas querem de fato dizer? O que significa “negar-se a si mesmo”? E… “tomar a cruz”? Coisa estranha, hoje em dia crucificação nem existe mais em nossa sociedade. O que então Jesus quis dizer com isso? Quais são suas implicações práticas? Bem, vamos devagar.

Em primeiro lugar é importante vermos a quem Jesus estava se dirigindo. Os textos deixam claro que havia uma multidão dos que o seguiam e… os discípulos. Ou seja, Jesus estava falando para crentes. Para mim e para você. E não foram palavras fáceis de se ouvir. Não foi um exposição sobre prosperidade material, “Vida Vitoriosa para Você”, sobre declarar a bênção ou “tomar posse” do carro do ano. Não, nenhuma dessas heresias foi o assunto de Jesus. Ele falou sobre algo duro. Algo que ninguém quer ouvir: abnegação.

“Abnegação”, como a análise da palavra mostra, tem a ver com ab-negação, ou seja, com negação do interior. Segundo o dicionário, é “renúncia  espontânea do interesse, da vontade, da conveniência própria”. É sobre isso que Jesus está tratando aqui: negar-se a si mesmo significa não lutar em favor do que lhe interessa, de dinheiro, de um bom marido, de facilidades, de benefícios. Significa, isso sim, abrir mão do que me interessa, do que me é conveniente, daquilo que tenho vontade de fazer”. Ok, mas e depois? Bem… depois a coisa piora.

Passo a passo: Jesus está dizendo para aqueles por quem tinha vindo à terra sofrer e morrer que teriam de abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades. Só que não para aí. O Mestre prossegue: “Dia a dia tome a sua cruz”. Coisa pesada, literalmente. Estima-se que uma cruz pesasse cerca de 80 a 90 quilos. Olha, não sei se você tem noção, mas isso é MUITO peso. Minha filha pesa cerca de 9 quilos e se a carrego no colo por pouco mais de dez minutos sinto dores nos braços, nas costas, em tudo o que é parte do corpo. Multiplique isso por dez. Me imagino carregando dez filhas e a imagem que vem a minha mente é uma dor de coluna incomensurável.

Mas não é só a um difícil, cansativo e doloroso ato físico que Jesus está se referindo. Repare o contexto no evangelho segundo Lucas. Antes de dizer o que era necessário para segui-lo, o Cristo profetiza a sua própria paixão e morte: “É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite”. Ou seja: Jesus antevia sua própria cruz. Que viria depois de “sofrer muitas coisas”, “ser rejeitado” e, enfim, causaria sua morte.

Eis o que Jesus propõe aos que desejam segui-lo: abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades, sofrer muitas coisas, ser rejeitado e até dispor-se a perder a vida por sua decisão. E isso “dia a dia”, ou seja: sempre. Nada fácil, hein?! Dá vontade de dizer “fala sério, Jesus, pega leve”.

“Mas então esse negócio de ser cristão é um péssimo negócio, Zágari”, muitos poderiam dizer. Bem, aparentemente só temos a perder ao ir após Jesus, ou seja, ao segui-lo. Mas calma. O texto ainda não terminou, ele não para por aí. “Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará”. Aqui já entra um elemento novo: Jesus empenha sua palavra numa promessa: que quem se submeter a tudo isso e abrir mão de sua vida por Cristo a terá salva. Uau, aqui o jogo vira. As nuvens negras começam a deixar passar um raio de sol. “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”, é a pergunta crucial do Mestre. Por quê?

Porque até agora parecia uma péssima ideia seguir Jesus. Abnegação, carregar uma cruz di-a-ri-a-men-te, perder a vida, sofrer… meu Deus, quem quer isso? Pra viver esse negócio é melhor esquecer essa ideia de igreja e ir à praia. Só que aí chega o Mestre com essa pergunta, que cria uma oposição reveladora: revela o preço da alma humana. Não sejamos hipócritas: quem não gostaria de ganhar o mundo inteiro? Espere. Acho que você não conseguiu visualizar ainda o significado dessa expressão: “mundo inteiro”.

Querido, querida, nós ficamos exultantes se encontramos uma nota de 100 reais no meio da rua. Por quê? Porque é algo de valor material que pode nos proporcionar benefícios, comprar uma roupa, um lanche, 6 exemplares do livro “A Verdadeira Vitória do Cristão”, 5 ingressos de cinema e por aí vai (sim, uma entrada no cinema custa mais caro do que meu mais recente livro rs). Agora, se 100 reais nos causam essa alegria, imagine o que não nos proporcionaria ganhar “o mundo inteiro”? Pense na riqueza dos sheiks do petróleo árabes, na cobertura de Donald Trump, nas mansões dos astros de Beverly Hills, nas jóias das lojas de Rodeo Drive, no montante de dinheiro movimentado todo dia na Bolsa de Valores de Nova Iorque, nas limusines que desfilam por Los Angeles, nas fortunas dos novos-ricos de Miami, nas joias da Coroa britânica que estão na Torre de Londres, em todos os bens acumulados por falsos pastores que compram fazendas de gado e jatos particulares com o dinheiro dos fieis… pense em tudo isso e em muito, muito, muito mais. Tesouros, fortunas, prédios, impérios… meu Deus, é muita, mas MUITA coisa. Segundo a revista “Galileu”, há no mundo atualmente US$ 170 trilhões em dinheiro circulando por todos os países (ou R$ 309 trilhões). Tentei calcular quantos exemplares de “A Verdadeira Vitória do Cristão” seria possível adquirir com esse valor mas minha calculadora não teve dígitos suficientes para fazer a conta, tão grande é esse montante.

E aí vem Jesus e diz que toda essa riqueza não vale uma única alma humana. Uau. Dá pra imaginar então quanto vale uma alma? No mínimo, no mínimo, 170 trilhões de dólares, para Jesus dizer isso. Hoje eu passei numa praça e havia uma mendiga, provavelmente esquizofrênica, falando sozinha sem parar coisas sobre Brigitte Bardot. Pois a alma daquele ser esquecido pelo mundo custa muito mais que 309 trilhões de reais. Assim, eu me atreveria a dizer que NADA paga uma alma humana.

Retornando à linha de raciocínio, abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades, sofrer muitas coisas, ser rejeitado e até dispor-se a perder a vida por sua decisão todos os dias entra em um prato da balança e a sua alma, que vale mais do que 309 trilhões de reais entra no outro. Para que lado pende a balança? Jesus responde: o peso de sua alma faz com que ela abaixe o prato da balança, enquanto o mundo inteiro vai lá para cima. É um peso bem desigual.

E, ao final, Jesus encerra, dizendo “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras”. Esse e o gran finale, o desfecho, o fechar das cortinas após o último ato. Nós sofremos, fomos abnegados, abrimos mão de nós mesmos, carregamos a cruz, passamos os maiores perrengues do mundo para seguir Cristo. E agora Ele diz de que serviu isso tudo: na volta de Jesus Ele virá em sua glória e majestade, ladeado pelos anjos, na companhia do Pai, e trará recompensa. Sim, meu irmão, minha irmã, compensará. Todo o sufoco, o sacrifício, a abnegação, o abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades, o sofrer muitas coisas, ser rejeitado e até dispor-se a perder a vida dia a dia por causa de Cristo compensará. Pois o Senhor preservará viva por toda a eternidade a sua alma de valor incalculável e, além disso, ainda lhe dará aquilo descrito em 1 Coríntios 2.9: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”.

É isso, meu irmão, minha irmã. Aparentemente, a si mesmo se negar, tomar a sua cruz e seguir Jesus pode parecer um mau negócio, pois trará muita tribulação. Abrir mão do que se quer não é fácil.  Mas, no fim, a recompensa é vida eterna para nossa alma e ainda por cima maravilhas que permanecem um segredo, já que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetraram em coração humano. Não sei o que você pensa, mas no final das contas para mim me parece um ótimo negócio. O preço para manter minha alma viva pela eternidade é carregar minha cruz? É abrir mão de mim? É despir-me dos meus quereres humanos por amor a Jesus de Nazaré? Então, por favor, apenas me ajude a apoiar esses 90 quilos no ombro e comecemos a caminhada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

(Dedicado à irmã que me pediu que não revelasse seu nome, mas cuja dúvida gerou este post)


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Até o início de minha vida adulta eu ouvia falar de “católicos não praticantes”: em geral, indivíduos nascidos de pais católicos, batizados na igreja católica, que iam a uma missa aqui e outra ali, quando tinham de dizer sua religião se apresentavam como católicos… Mas que não faziam a menor ideia do que dizia a Bíblia, não sabiam nada de história da Igreja, não se comportavam segundo a ética cristã. Enfim, eram os “católicos nominais”. Hoje eu chego aos 40 anos de idade e sou obrigado a admitir que essa lepra contaminou os evangélicos. Sim, estamos cercados por todos os lados por evangélicos não praticantes, um fenômeno relativamente novo. “Os bíblias são pessoas sérias”, dizia-me meu avô, católico não praticante, quando eu era criança. Nos nossos dias eu temeria repetir as  palavras do velho João Zágari. Pois os evangélicos nominais estão se alastrando numa velocidade crítica. E as redes sociais estão esfregando isso na nossa cara de modo inequívoco.

A grande diferença entre o católico não praticante e o evangélico não praticante está na freqüência às reuniões religiosas semanais: enquanto o católico não praticante vai vez por outra à missa, o evangélico não praticante vai todo domingo à igreja. E as diferenças param por aí.  Pois o evangélico não praticante não lê a Bíblia. Simplesmente não lê! Passam-se sete dias na semana, ele pode ter 3 ou 4 bíblias de estudo em casa mas não toca nelas. E,  como não lê, não sabe o que ela diz. Não a estuda. Se lê alguma literatura cristã é de autores água com açúcar, como Max Lucado, Augusto Cury (ele é crente, né?) e meia-dúzia de escritores brasileiros da moda. E isso entre a leitura de “A Cabana” e “Crepúsculo”.

A fé do evangélico não praticante é por tabela: forma suas crenças com base no que outros pregaram, cantaram, falaram. Por isso, fica assustadíssimo quando dizemos que a frase “não cai uma folha da árvore se Deus não deixar” não está nas Escrituras. Mas, curiosamente, acha que entende à beça de Bíblia e entra em profundas discussões teológicas como um jogador de futebol discutindo física quântica. Peita grandes teólogos e líderes religiosos com mais de 30 anos de estrada como se fossem acéfalas peças de museu sem contato com o mundo real. A verdade pertence ao evangélico não praticante.

Esse é um verbo muito presente nos lábios de um evangélico não praticante: “Achar”. Você entra em uma argumentação com ele sobre um tema bíblico e a resposta contém quase sempre esse verbo: “Ah, mas eu não acho que seja assim não”, justifica-se, com sua teologia de corredor de igreja. E quando você embasa seus argumentos em cinco ou seis passagens, em normas de hermenêutica, em princípios da exegese, ele desconversa e sai com um “Ah, mas eu já ouvi o pastor fulano dizer no blog dele que…” vira as costas e vai embora. Sempre “achando”, claro. Não tem jeito: o evangélico não praticante é um analfabeto bíblico: não se interessa por ler a Bíblia e monta sua forma de agir e de ser em cima de um achismo cristão absoluto.

O evangélico não praticante também não sabe nada de história da Igreja. Não entende a cronologia do Antigo Testamento, ignora fatos da Igreja primitiva, fala enormes bobagens sobre a “maldita igreja institucional”, questiona pontos elementares, que os patriarcas dos cinco primeiros séculos já responderam. Aí você explica, diz o que foi debatido nos concílios, conta como se deu a sistematização de certas praticas e doutrinas e…”Ah, mas eu não acho que seja bem assim”.

O evangélico não praticante tem opiniões próprias sobre aquilo que Deus deixa claro nas Escrituras. Como não as conhece, tem conhecimento sobre algumas informações soltas a respeito do Altíssimo e a partir delas formula toda sua doutrina de fé. O argumento predileto: Deus é amor! Então não me venham dizer que Deus é contra o divórcio, o namoro em jugo desigual ou mesmo falar uns palavrõezinhos, pois Ele ama todos e por isso não ia querer a infelicidade de seus filhos nem fica cerceando nossa liberdade! É a graça! É o amor! No achismo do evangélico não praticante Deus libera tudo pois… Ele é amor e, afinal, vivemos na dispensação da graça! Quando você explica a ele que havia graça no Antigo Testamento e Lei no Novo ele fica revoltado e logo solta um “Ah, não acho isso não”.

Para o evangélico não praticante, ira de Deus, justiça de Deus, ciúmes de Deus e a possibilidade do inferno são coisas muito estranhas, pois… Deus é amor! Deus é graça! E como acha que Deus é uma espécie de homem grandão com superpoderes, não consegue assimilar o conceito de um Deus incompreensível e inalcalçável à mente humana, de uma natureza tão diferente da nossa, tão mais elevada, sublime e misteriosa, que não dá – como Romanos 9 deixa tão claro – para compreendê-lo tendo o homem e seus valores antropocêntricos como parâmetro.

O evangélico não praticante ora pouco. Ora sempre antes das refeições porque, ora bolas, é o que um evangélico faz! Mas não tira momentos para Deus. Não abre mão do seu programa de TV favorito para dedicar 15 minutos ao Pai. Para isso servem os cultos, não é? Se jejua não sabe explicar muito bem por que devemos jejuar, mas afinal o pastor disse que era para jejuar e os irmãos da igreja jejuam, então ele acha que jejuando fará parte da galera. Mas não sabe explicar a mecânica ou a teologia por trás do jejum. O evangélico não praticante acha que estudar teologia é besteira, o importante é amar! “Ah, eu sou de Cristooooo!”, estufa o peito.

O evangélico não praticante um dia morrerá e não irá para o Céu. E só de eu falar isso ele já se irou e pensou “quem é você para julgar os outros???”. Pois o evangélico não praticante acha que qualquer coisa que que contraria sua fé popular é “julgamento”. Mas eu digo isso por uma simples e óbvia razão: o evangélico não praticante… não pratica o Evangelho.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Sou jornalista e passei ao longo de minha carreira por três dos principais veículos de comunicação do país, sendo dois jornais e um a maior emissora de televisão brasileira. Há alguns anos decidi não ler mais jornal, cancelar minha assinatura da revista jornalística que eu consumia semanalmente e parar de assistir a TV, pois a quantidade de mentiras, notícias manipuladas e até inventadas de acordo com os interesses de alguns me fizeram um cético com relação à imprensa. Se eu fosse contar aqui tudo o que vi e vivi nos 13 anos em que trabalhei na grande imprensa você provavelmente também pararia de assistir a telejornais, por exemplo. Há mais verdade nos filmes B de zumbis, por exemplo, do que em muitas reportagens de programas aparentemente “jornalísticos”.

Lembro de um colega que, em sua primeira semana trabalhando como crítico de cinema num dos maiores jornais do país (e que ainda não conhecia as “regras do jogo”), escreveu uma critica ruim de um filme horrível estrelado por uma famosa apresentadora de programas infantis. Foi honesto. Só que ela é uma das estrelas das organizações das quais faz parte o jornal. Tadinho. Aos berros, foi obrigado pelo diretor de redação, na frente de todos, a mudar o texto e… elogiar o filme! Eu mesmo vivi situações assim. Lembro que saí muitas vezes para fazer reportagens com um fotógrafo veterano que é considerado um dos maiores do país (com livros publicados, que faz exposições etc) e o vi com meus próprios olhos simular fotos falsas para elas darem ibope e serem publicadas na primeira página (e foram), em situações completamente mentirosas. Ele arrumava o “cenário” e clicava. Sua cara-de-pau me deixava de queixo caído. Também vi repórteres consagrados inventarem depoimentos fictícios de pessoas que não existem para compor suas reportagens porque estava chegando a hora de fechar o jornal e eles ainda não tinham conseguido quem desse uma entrevista. Tenho amigos que pediram demissão da que é considerada a mais importante revista do país porque não aguentaram mais o tanto que seus textos originais foram distorcidos pela chefia por interesses políticos e econômicos: falas de entrevistados eram reinventadas e publicava-se o que pessoas não tinham dito. Isso entre milhões de episódios. Mas há um que eu mesmo vivenciei e considero emblemático sobre o jornalismo brasileiro.

Eu era um jovem e idealista estagiário que achava que o jornalismo era o grande fiscalizador da sociedade, a grande ferramenta para mudar o mundo. Trabalhava na editoria Internacional de um desses grandes jornais. Num plantão de fim de semana me escalaram para fazer uma matéria de esportes: jogo do Flamengo contra Corinthians no Maracanã. Minha pauta: o vestiário do Corinthians após a partida e uma coluna onde pegava o depoimento de alguém e transcrevia ao pé da letra (entre aspas) o que ele achou do jogo. Entrevistei Branco, o jogador que foi campeão do mundo na Copa de 1994 (na foto, à esq.). Gravei seu depoimento, fiz o que tinha de fazer e voltei à redação. Escrevi o texto do vestiário e transcrevi tudo (TUDO!) o que Branco dissera, para a tal coluna. Pronto. Dever cumprido. Estava só esperando minha hora de ir embora quando um redator (que hoje é bem conhecido e respeitado por participar dessas mesas redondas de domingo na TV) me chamou e disse que precisava crescer o depoimento de Branco porque um anúncio tinha sido cancelado na página e o espaço estava sobrando. Eu lhe disse que tudo o que o jogador dissera eu já tinha transcrito, que não havia mais nada a acrescentar. Ele sorriu e respondeu: “Ah, é?” e… começou a tirar de sua própria cabeça um monte de coisas, escrevendo como se Branco tivesse dito o que não disse! Cresceu umas oito linhas de texto. E deu enter no teclado, liberando a página para a gráfica. Lembro que eu olhava aquilo estarrecido. O redator, veterano, olhou para mim, viu meu espanto e disse rindo a frase de que nunca me esquecerei:

- Zágari, se o leitor soubesse como nós fazemos o jornal ele não leria.

Aquilo foi o embrião da minha grande decepção com o jornalismo. Mas também penso uma coisa. Vi muitos bons profissionais em ação. Repórteres competentes correndo atrás da verdade de fato (mesmo que depois de terem escrito suas matérias a chefia do jornal tenha mudado tudo conforme seus interesses). Gente do bem, que preferia dizer ao chefe “não tem matéria, o assunto morreu” do que inventar algo pela vaidade de ter seu nome assinado nas páginas no dia seguinte. Ou seja: não é porque vi péssimos profissionais fazendo o que há de pior dentro de seu péssimo jornalismo que vou achar que todo e qualquer jornalista é mentiroso, manipulador e canalha. Muitos são. Alguns não.

E por que estou falando tudo isso num blog que tem como meta refletir sobre as coisas de Deus? Porque há uma analogia bastante pertinente em nossos dias com um título eclesiástico: “bispo”. Muitos são os homens que assumiram para si o título de “bispo” dentro da Igreja evangélica porque… bem, simplesmente porque quiseram. Em grande parte, são homens (e mulheres) envolvidos com escândalos, com arrecadação indevida de dinheiro, com tudo o que há de mais réprobo na História atual do protestantismo no Brasil. Para mim, o que falam e praticam inclusive os desqualifica como evangélicos, muito mais como cristãos. O inferno certamente receberá alguns desses “bispos”.

A questão é que, por causa dessa banda podre, o título em si do bispo tem sido desqualificado como um todo. E os bons e autênticos bispos têm sido atacados porque… são bispos! Do mesmo modo que presenciei jornalistas calhordas em atividade calhorda debaixo do meu nariz, vejo “bispos” calhordas simularem um falso protestantismo calhorda sob o nariz da sociedade e com isso a lama salpica todos os evangélicos – e todos os bispos. Mesmo os autênticos.

E isso é uma injustiça histórica. Vejo nas redes sociais gente desinformada ou ignorante historicamente baixando o sarrafo no título (e aqui não quero tratar de quem se chama “apóstolo”, “patriarca”, “semideus” ou o que for – quero falar só sobre o episcopado). A questão é que o título “bispo” é legítimo. É bíblico. Pode ser usado. E se você nunca estudou nada sobre isso deixe-me te situar historicamente, para além dos escândalos da atualidade.

O cargo eclesiástico de “bispo” é encontrado já em passagens bíblicas. Como, por exemplo, 1 Timóteo 3.2 (“É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar) e Tito 1.7 (“Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância”). É importante ressaltar que, biblicamente, o que esse cargo especifica é a função de um certo irmão dentro da organização da igreja, e em nada o torna mais divino do que qualquer outro de sua família de fé – em razão do sacerdócio universal dos santos. Há sobre um autêntico bispo, como há sobre qualquer líder divinamente comissionado, uma capacitação especial do Senhor para dar direção ao rebanho. Mas Deus não deu a ele uma auréola, deu, isto sim, uma função de liderança, que exerce conforme foi vocacionado a fazer.

A palavra “bispo” vem do grego επίσκοπος e tem como significado original “inspetor”, “supervisor”. É um vocábulo que vem de antes do surgimento do Cristianismo, quando o título era usado para designar todo tipo de administrador. E isso nas esferas civil, financeira, militar e judiciária. Foi adotado por diferentes tradições cristãs, desde a Igreja primitiva até os nossos dias, e em cada uma tem seu conceito e suas atribuições específicas. Ou seja, não há uma definição única, absoluta e dogmática para o que é e o que faz um bispo: cada tradição designa suas especificidades.

No princípio do Cristianismo, no século I, os títulos já existentes “presbítero” e “bispo” foram adotados pela Igreja e passaram a ser usados para se referir aos servos de Deus que agiam como líderes da igreja local e eram submissos a um dos apóstolos. No fim do primeiro século, a alcunha “bispo” foi aplicada somente aos doze apóstolos. Até que aconteceu uma reviravolta no uso dos termos. No ano 96, Clemente de Roma, durante o período em que João, o evangelista e servo amado de Jesus , ainda estava vivo, afirmou em seus escritos que os  apóstolos deixaram “instruções no sentido de que, após a morte deles, outros homens comprovados lhes sucedessem em seu ministério”.

O mártir Inácio (ilustração acima), que foi bispo de Antioquia e conviveu com João, Paulo e Pedro, registrou a sucessão de bispos desde a época dos apóstolos, logo após a morte dos mesmos, em sua própria igreja e em Esmirna. No século II, o patriarca Irineu afirmou a validade de uma “linhagem” de bispos desde o tempo apostólico e os enumerou até seu contemporâneo Vítor. Também fizeram isso alguns dos principais teólogos e historiadores antigos, como Sexto Júlio Africano, Tertuliano, Eusébio e Jerônimo.

Assim, vemos claramente que a forma de governo episcopal é bíblica e historicamente correta. Mas aí surge a pergunta: quem de fato pode ser chamado legitimamente de bispo?  A resposta depende da tradição cristã que você siga. Na Igreja Católica Romana (foto), bispos são considerados sucessores dos apóstolos, responsáveis por santificar, ensinar e governar dentro de uma determinada região. O mesmo se aplica às Igrejas Ortodoxa Russa e Grega, sendo que o bispo recebe o nome de “eparca”. Já entre os anglicanos, o bispo é o pastor principal da Igreja e exerce sua atividade numa diocese, que seria uma menor expressão da Igreja. Sua missão seria a proclamação e o ensino, o provimento dos sacramentos e a  supervisão e liderança administrativa da Igreja, além de simbolizar unidade entre as comunidades de uma diocese e entre a diocese e toda a Igreja. Na Igreja luterana de alguns países há a figura do bispo, embora no Brasil não. Já a Igreja Metodista é episcopal, mas os bispos não são uma ordem especial ou diferente dos presbíteros, ele é apenas o primeiro entre seus iguais (“primus inter pares“) e seu cargo no nosso país não é vitalício.

Entre as igrejas pentecostais, a grande maioria não tem a figura do bispo. Algumas têm, como a Igreja Cristã Nova Vida, a primeira pentecostal do Brasil a adotar esse sistema de regência eclesiástica. Há um Bispo Primaz e um Colégio de 7 bispos (foto) que atuam como seus auxiliares e conselheiros. O Primaz nada mais é do que um pastor de pastores de igrejas independentes, que se submetem a sua autoridade voluntariamente. Outra é a Igreja do Evangelho Quadrangular, onde “bispo” é um cargo que um pastor recebe para reger uma ou mais regiões, e pode ser retirado do cargo. Vale ressaltar que até aqui só falamos de igrejas históricas, sérias, sem envolvimentos com escândalos ou absurdos – como a miscigenação com práticas espíritas ou coisas do gênero. E aí chegamos às neopentecostais. É quando começa o problema.

Algumas igrejas neopentecostais no Brasil adotam em sua hierarquia o sistema episcopal, sendo que em algumas dessas denominações o bispo é o representante máximo.  Em outras denominações, o bispo é um representante que administra uma região, com bispos que gerem as chamadas “regionais” – mas não são independentes, estão subordinados ao líder máximo, autointitulado “apóstolo”. Numa certa igreja há ainda a figura da “bispa”, um neologismo infeliz, uma vez que existe um feminino para bispo: episcopisa.

Se você for analisar, perceberá que é o grupo dos neopentecostais que vive nas manchetes e nas reportagens de TV. Em sua maioria, seguem a herética Teologia da Prosperidade (veja o post Demonologia da Prosperidade). São denominações em que seus líderes hipervalorizam o dinheiro e os bens materiais e que já protagonizaram episódios em que foram flagrados em contrabando de dinheiro, falsos exorcismos, uso de dinheiro de dízimos e ofertas em benefício próprio e outras falcatruas. É por causa desses “bispos” e dessas “bispas” que o título legítimo tem sido maldito por tantos.

Muitos dos tais “bispos” neopentecostais poderiam se virar para mim ou para você e dizer “Se o fiel soubesse como fazemos igreja ele não viria”. Só que o uso do título não tem nada a ver com isso. O líder desses grupos poderia se chamar “bispo”, “padre”, “epaminondas” ou “bilu-bilu”, a questão não é a legitimidade do nome. É o fruto que os tais geram – que qualquer um com discernimento espiritual ou pelo menos bom senso consegue ver que está podre. Se você é flagrado contrabandeando dinheiro na Bíblia (meu Deus…) ou ensinando a pedir oferta na base do “ou dá ou desce” isso em nada tem a ver com o nome que você ostenta. Poderia ser “Irmão Mais Velho na Fé Fulano” ou simplesmente “Missionário Beltrano”. Daria na mesma.

Chamar-se de “bispo” é apenas uma opção por um cargo que explica o tipo de governo eclesiástico que segue a sua igreja. É um título biblicamente e historicamente correto. Em cada denominação, ao longo dos séculos, o título “bispo” designou alguém que tinha certas atribuições, que variam de denominação a denominação. Mas que qualquer um tem o direito de usar… isso tem. Se eu quiser abrir uma igreja e me intitular “Príncipe Zágari”… bem, eu poderia. Mas não haveria antecedente histórico para o título numa convivência eclesiástica. Madre Teresa de Calcutá, uma pessoa do bem, usava o título de “Madre”, embora ela não fosse minha mãe e, apesar de seus gestos caridosos, crer – ao contrário de minha mãe de verdade – na mariolatria, na veneração de santos, na transubstanciação da Ceia e em montes de outras heresias. Nem por isso qualquer um de nós deixa de chamá-lá de “Madre”. Pois não passa de um título, ela não era mãe de ninguém. O mesmo se aplica a Joseph Ratzinger. Você alguma vez já o chamou de algo diferente de “Papa”? Sim, você, evangélico como eu, já chamou o ex-hitlerista Ratzinger de algum título diferente de (vamos traduzir) “Papai” Bento 16? Não. Todos nós o chamamos de “Papa”. Pois é apenas o nome do cargo, com raízes historicamente definidas.

Então, meu irmão, minha irmã, o importante nessa história é que essa perseguição que muitos de nós impomos ao título “bispo” que certos falsos cristãos adotam em suas igrejas é uma perda de tempo, uma bobagem e uma irrelevância. Eles têm, apesar de tudo o que eu e você sabemos, o direito de adotar o título. O que não podem é praticar o que praticam – ESTE SIM É O PROBLEMA. Paremos, assim, de criticar fulano ou beltrano só porque se chamam “bispo” e passemos a criticar suas ações nefastas. Porque, ao fazer isso, paramos de errar por desmerecer os bons bispos. Como os anglicanos, os metodistas, os da Igreja Cristã Nova Vida, os ortodoxos. Esses, sendo íntegros e homens de Deus, acabam sofrendo o bullying que impomos sobre o título por os colocarmos no mesmo saco que os canalhas. E aí erramos e pecamos por julgar e reprovar os que Jesus não julga ou reprova.

É como chamar alguém de “fariseu” como uma ofensa. Não podemos esquecer que o grande apóstolo Paulo foi  fariseu. Gamaliel foi fariseu. José de Arimateia era membro do Sinédrio, possivelmente um fariseu. Mas pomos todos os fariseus no mesmo saco, como se todos fossem “hipócritas”, “raça de víboras” ou “sepulcros caiados”. Calma. Como se pode ver, nem todos eram assim. Só Paulo e Gamaliel já desmontam essa tese. O mesmo se aplica aos bispos.

Eu quero um dia voltar a ler jornal e a assistir a noticiários na TV. Mas só quando tiver confiança de que aquilo não é uma obra de ficção, pois sei que muito do que ali está é balela e mentira. É teatro. Provavelmente isso nunca acontecerá.  E eu quero um dia voltar a ter confiança de que todo bispo é um homem de Deus,  irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar, não  arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância. Como Deus zela pela sua Igreja, creio que um dia os falsos líderes serão desmascarados e o rebanho se voltará para os realmente vocacionados e que esperam sua recompensa no Céu e não nas Ilhas Caymã.

E a você que vive bradando “chega de bispos!”, sugiro que mude o seu discurso. E comece a bradar, como eu, “chega de líderes que enganam o povo usando o nome de Jesus!”. Aí sim você estará começando a criticar o que de fato tem de ser criticado e não estará mais pecando por depositar joio e trigo no mesmo saco antes do tempo da colheita – algo que só compete a Deus. E, até onde eu sei, você não ostenta o título “Deus”, ostenta?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Tenho chorado. Literalmente. Leio comentários aqui no APENAS, no Facebook ou de pessoas que pedem meu e-mail e me escrevem contando suas histórias e pedindo conselhos – ou somente para desabafar. Alguns desses textos, confesso, me levam às lágrimas, simplesmente porque eu gostaria de responder uma coisa mas a Bíblia me diz que responda outra, que eu não quero responder. Mas é a frase de Atos dos Apóstolos: “Antes importa agradar a Deus do que aos homens”. Por isso, eu, como cristão, não posso aconselhar ninguém que não seja tomando por base as Sagradas Escrituras. E muitas vezes isso me dói ao ponto de a dor transbordar em lágrimas. “Mas, Zágari, do que você está falando?”. Querido irmão, querida irmã, estou falando de um assunto que tem lotado minha caixa de entrada de e-mails: cristãos infelizes no casamento. Cristãos que não amam seus cônjuges. Sim, isso existe e, pelo que tenho visto, numa proporção maior do que gostaríamos de admitir. Pressionados por suas igrejas, enganados por falsas profecias e “revelações”, acreditando que “construirão o amor com o tempo”, seduzidos pela ânsia de ter filhos, com medo de viverem sós, enfim, seja qual for a razão errada, milhares de milhares de servos sinceros de Deus estão entrando num matrimônio fadado à falência. Simplesmente porque se casam sem amor, o alicerce de um enlace matrimonial. Uma pessoa querida está vivendo esse problema e me pediu que escrevesse sobre isso. Mantenho tal pessoa no anonimato, mas aqui compartilho minha reflexão sobre pessoas que casam sem amor e o que fazer a partir daí.

Peço desculpas desde já pois este post é um pouco longo. Mas, pela seriedade do assunto, preciso abordar o tema com muito cuidado, tato, detalhamento e respeito às Escrituras. Pois muito do que será dito aqui pode entristecer pessoas e é fundamental que fique claro que estou baseando absolutamente tudo o que digo na Bíblia. Ou seja, se algo te entristecer, que não seja por achismos meus nem por uma má hermenêutica, mas pela compreensão de que a soberana e absoluta vontade de Deus corre muitas e muitas vezes o risco de contrariar o que seria mais cômodo para a minha e a sua vida. Respiremos fundo e vamos lá – tendo em mente o tempo inteiro as palavras do Cristo: “Então Jesus disse aos seus discípulos: ‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará’.”

Recentemente escrevi o post As razões de casamento e divórcio entre cristãos, com base numa enquete que mostrou que 19% dos cristãos que votaram não acham que o amor deve ser a causa principal de um matrimônio. Se você não o leu acesse o post e entenderá biblicamente por que o amor bíblico (de João 3.16) é a única razão que deve levar homem e mulher a firmar um compromisso de união pelo resto de suas vidas.  E, meu irmão, minha irmã, esse post fez chover testemunhos, inclusive um de uma pessoa próxima a mim, que amo e que não sabia que vivia esse problema. Assim, chorei.

Já tinha sentido o gosto do problema meses atrás, quando publiquei no APENAS um post chamado Solitários, carentes e infelizes, em que falo sobre as pessoas que se casam por N motivos errados e assim se condenam à infelicidade pelo resto de suas vidas, ao divórcio ou até mesmo a “soluções” mais drásticas. Na ocasião, a quantidade de depoimentos de pessoas que passam por isso e que vivem uma situação de solidão a dois me impressionou. Agora, com o novo texto do APENAS, a enxurrada só aumentou. Vou relatar alguns casos, mudando algumas informações, para preservar a identidade de quem me escreveu.

Recentemente, uma irmã entrou no espaço dos comentários e me pediu meu e-mail. Conversamos. E ela confessou que vivia tão infeliz no casamento que estava pensando seriamente em suicídio. Mãe, esposa, cristã e… suicida. Meu Deus… Tudo porque casou-se errado e hoje não suporta a mentira em que vive. Esse contato e o de tantas outras irmãs (geralmente quem escreve são mulheres, os homens simplesmente dão seu jeito e vão em frente) me fizeram voltar a refletir sobre o assunto e a escrever sobre ele. Pois praticamente todas(os) os que me escrevem terminam da mesma forma: “Estou miseravelmente infeliz. E o que faço agora?”

Vejamos um caso: “Eu não gostava tanto assim dele enquanto namorávamos, mas muitas pessoas da igreja me diziam que amor se constrói, que eu aprenderia a amá-lo. Afinal ele era um rapaz tão bom pra mim, espiritual, tinha um bom emprego, era um dos mais cobiçados da igreja”, contou uma das  irmãs. Curiosamente é uma coisa que tenho ouvido com alguma frequência: “Amor se constrói”. Não acredito nisso. Acredito que amor se mantém. Se preserva. Se alimenta. Mas… se constrói? Me soa muito estranho. Deus, que é amor, disse “Eu Sou”. O amor é. Ele não “pode vir a ser”. E todas as pessoas que entraram em roubadas matrimoniais acreditando que o tempo resolveria a falta de amor e que deixaram depoimentos nos comentários aqui do blog descobriram com o passar dos anos que o conto-de-fadas do amor que se constrói não passa de um conto da carochinha. Simplesmente porque não se pode construir algo do nada. Se não há amor no ponto de partida não haverá amor na linha de chegada. E a maratona será árdua.

Outra irmã desabafou: “Eu tive três filhos com ele ao longo de 15 anos de casamento. Olho para eles e, em vez de sorrir, eu choro, pois cada um deles tornou-se um memorial da minha infelicidade. Hoje em dia só de pensar em me deitar com meu marido me dá asco”, confessou-me com uma franqueza que me impactou e me entristeceu profundamente. Em vez de ter em seus filhos a lembrança de uma história de amor vê neles marcos de infelicidade e arrependimento. “Se fosse possível eu os empurraria de volta ao meu útero, só para não lembrar da minha tristeza que não passa e eu tenho que fingir para todos que não existe. Vivo um eterno teatro”, foi além essa mãe em seu desabafo. Detalhe: todas são palavras de uma cristã.

Outra pessoa querida, também serva de Deus, me confidenciou: “Não tive um ‘maurício’ para iluminar a mente e estou casada. E quando li o que você escreveu confirmei que meu casamento foi precipitado demais. Me sinto culpada e mal, já que tenho um filho que é meu amor. Casei sem amá-lo”, contou-me essa irmã. Mas ela prosseguiu em seu relato, que me cortou o coração: “Tudo errado, quero fugir! Achei que as qualidades dele fossem superar tudo e eu o amaria muito com o tempo. Exatamente como você escreveu, eu tinha medo de ficar sozinha… Tinha o sonho de ser mãe…”

E foi então que ela disparou a pergunta que eu não queria responder, e que todos os que estão vivendo essa situação fazem: “O que fazer agora??”. Ai. Vamos lá.

O que eu gostaria de responder? O que o mundo responderia: divorcie-se, vá buscar a sua felicidade. Mas não posso responder isso. Estou atado à Palavra revelada do Criador do universo. E tenho de responder conforme Ele nos ensina:

1. Deus odeia o divórcio. Isso está claro em Malaquias 2.16. Então o divórcio não é uma opção. Isso se confirma em Mateus 19: “Vieram a ele [Jesus] alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? [Observe que aqui eles perguntam QUALQUER MOTIVO]. Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio”.

Ou seja, Deus odeia o divórcio e, no principio, no estado perfeito das coisas, Deus não permitira o que o homem Moisés permitiu. Separação de um matrimônio é, portanto, algo antinatural aos olhos do Criador.

2. Um dos assuntos sobre os quais Jesus fala com mais clareza na Bíblia é sobre o divórcio. Simplesmente porque essa questão lhe foi perguntada diretamente. E a resposta dele é absolutamente clara, como consta em Mateus 19.9 em diante “Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério e o que casar com a repudiada comete adultério”. Ou seja, embora Deus odeie o divórcio, Jesus abre uma única exceção – e não me pergunte por quê, eu não sei: relações sexuais ilícitas, ou, no original grego, “porneia”. Isso incluiria adultério, prostituição, sexo com animais ou qualquer outro tipo de desvio sexual. É a única exceção que encontramos no Novo Testamento.

Marcos 10 reconta essa passagem: “E, aproximando-se alguns fariseus, o experimentaram, perguntando-lhe: É lícito ao marido repudiar sua mulher? Ele lhes respondeu: Que vos ordenou Moisés? Tornaram eles: Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar. Mas [observe o termo que a Bíblia usa: "Mas". Que significa "por outro lado", "todavia", "de forma diferente", "em oposição a", "em discordância a"] Jesus lhes disse: Por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento; porém desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe e unir-se-á a sua mulher, e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem [repare que a vontade do homem é nitidamente submissa à do Criador]. Em casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto. E ele lhes disse: Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquela. E, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério”.

É bíblica a separação de corpos e o celibato?

Creio que está claro que o divórcio não é uma opção. Outra teoria alega que, se há infelicidade no casamento, o casal poderia separar-se mas manter-se solitário, sem novos relacionamentos e preservar-se celibatário. A esse respeito, no Sermão do Monte, em Mateus 5.31, o Mestre reafirma a posição celestial: “Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério”.  Repare com muita atenção o que Ele diz: se alguém repudia o cônjuge exceto pela “porneia” o expõe a se tornar adúltero. Então é nítido que essa separação proposta de corpos é uma porta de entrada ao adultério e aquele que optou pelo afastamento expõe o outro a adulterar. Logo, a teoria antibíblica de um casal rompendo o padrão original moldado por Deus no início e vivendo afastado tentando o celibato também é repudiada por aquele que, segundo João 1, participou da criação de todas as coisas.

Nesse ponto o adepto da ideia de que é possível separar-se desde que se mantenha o celibato e a solidão alega que Jesus disse que é permitido “manter-se eunuco” (ou seja, sem ter relações sexuais). Ou seja, segundo essa linha de pensamento, bastaria permanecer sem se casar e sem fazer sexo e isso garantiria a aprovação de Deus do seu divórcio (o que contraria a ordem original da união de um casal). Só que, aí, vamos à Bíblia e lemos na sequência de Mateus 19: “Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita”. Sim, Jesus diz que os celibatários existem. A questão é: onde aqui o celibato é justificado por “infelicidade no casamento”? “Por causa do reino dos céus” seria a justificativa? Não, pois essa é uma péssima hermenêutica.  O caso aqui, ao se comparar ao celibato de Paulo, por exemplo, é de abster-se de ter uma família para se dedicar às coisas de Deus. Não tem absolutamente nada a ver com um casamento mal-sucedido e quem usa essa passagem para tal faz violência às Escrituras.

Paulo, a partir de 1 Coríntios 7.11,  levanta novamente a questão do afastamento: “Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido, (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher”.  Aqui alguém poderia vibrar: uma brecha em tudo o que a Bíblia disse até agora! Calma. Não é bem assim. Leia com atenção: o apóstolo diz que o Senhor ORDENA que o cônjuge não se separe do outro. Ponto. Incontestável e completamente de acordo com o resto das Escrituras. Mas… ele continua entre parênteses, ou seja, fazendo um adendo ao que é absoluto: “Se, porém, ela vier a separar-se”. Quando lemos que Deus ORDENA que não se separe mas em seguida vemos “se, porém, ela vier a separar-se”, o que fica claro para quem lê com olhos imparciais?

Desobediência.

Ou seja: se o cônjuge desobedece a ordem de Deus e persiste no seu intento de separar-se, vejamos o que é dito: “que não se case ou que se reconcilie com seu marido”. O que se entende disso? Que se a pessoa desobedeceu o Criador e fez o que Ele proibiu, que, no mínimo, para minimizar o estrago, não se case. Ou que faça o que Deus deseja: se reconcilie com o cônjuge. Tanto que Paulo orienta o repudiado a não se afastar de quem se afastou dele. E por que ele diria isso? Para que haja a reconciliação. Veja que essa passagem, usadíssima para justificar a separação de corpos e de vidas entre casais infelizes, mostra que Deus ordena (pense no peso dessa palavra) que não haja separação, mostra que os desobedientes não devem se casar e que o correto é a reconciliação, a ponto de dizer ao repudiado, parafraseando: “Se você foi abandonado, não parta para outra, permaneça perto de quem te abandonou, com vistas à reconciliação.

Resumo da ópera: se alguém peca (desobedece a ordem de Deus) e se afasta do cônjuge, mesmo “que não se case”, isso não deixa de constituir pecado. E a solução para esse pecado é voltar para casa. Divórcio, logo, Deus odeia e é pecado.

3. Jesus manda perdoar 70 vezes 7, ou seja, mesmo que haja relações sexuais ilícitas, o perdão do cônjuge e a tentativa de reconciliação devem ser sempre a primeira alternativa.

E aí? O que fazer?

Ou seja: em momento nenhum da Bíblia a “falta de amor” ou a “infelicidade” dão base para uma separação. Duro. Mas verdadeiro.  E aí retornamos à pergunta da irmã: “O que fazer agora??”. E é aqui que eu gostaria de sair correndo, de me esconder. Pois as respostas são difíceis de se ouvir. Mas lá vou eu encarar a Bíblia, correndo o risco de ser chamado de legalista, fariseu, biblicista ou de não ter graça no coração – como já me acusaram algumas vezes porque eu digo o que a Bíblia diz e não o que as pessoas querem ouvir.

Fato é que se a pessoa vive um casamento infeliz, o que ela deve fazer é pedir de Deus um milagre. Pela Bíblia, não há outra resposta.

A boa noticia é que Deus faz milagres. E, nesse caso, o milagre seria a paz de Cristo tomar conta do casal a ponto de conseguirem, se não em amor pleno, viver em harmonia, respeito, companheirismo e outras virtudes. Dois grandes amigos compartilhando uma vida. Eu sei, muitos vão discordar, que voem as pedras – afinal vivemos numa civilização hedonista, onde o prazer e a alegria são os fatores mais importantes do ser humano, superando em muito a obediência a Deus. Só que cumprir o querer de Deus deve ser o primordial em nossas vidas, antes de qualquer benefício pessoal – afinal, fomos criados para a Sua glória e não para o nosso bem-estar e prazer.

Não vejo absolutamente nenhuma base bíblica que mostre que Deus constrói amor onde ele não existe. Se houver, por favor me mostrem, pois revirei as Escrituras ao avesso, li sobre o assunto de diversas fontes e não encontrei. Nem que fosse um único versículo que diga que por fazer uma corrente de sete semanas você passará a amar subitamente o marido que não ama. Isso simplesmente não está na Bíblia. E, por favor, não cometa erros hermenêuticos como “tudo posso naquele que me fortalece”. Não tire textos do contexto para tentar justificar o injustificável. Por isso falei em milagre.

Deus abriu o mar? Abriu o Jordão? Parou o Sol? Curou cegos, leprosos e paralíticos? Então o soberano Deus pode fazer o que bem quiser. E, pela subversão da ordem natural das coisas (que chamamos “milagre”) é capaz de transformar água em vinho. Mas para isso é preciso que haja água. Para ressuscitar um morto é necessário que antes houvesse vida. Para fazer um casamento frutificar é preciso que antes tenha havido amor. Aí Deus entra, conserta as rachaduras, desempena as portas, costura as cortinas e o Sol volta a brilhar. Mas se o casamento ocorreu sem amor, por qualquer razão errada… Aí só um milagre. E milagres não acontecem todos os dias.

Essa, minha irmã, meu irmão, é a realidade. Deus nos permite escolher com quem casar. A escolha é SUA. Se escolher pelos motivos errados, biblicamente terá de colher o que plantou: falta de amor. Triste sim. Mas não posso mentir a você para deixá-la  mais sorridente. Perceba: se você, por decisão própria, um dia decepar uma de suas pernas, não espere que Deus vai fazer brotar outra nova no lugar. Ele poderia fazer esse  milagre? Poderia fazer surgir uma perna nova? Claro! Ele pode tudo! A pergunta é: quantas vezes você já viu ou ouviu falar que o Senhor fez isso? Eu não conheço nem nunca soube de nenhum caso concreto. Assim, com que frequência Deus faria o milagre de fazer brotar amor onde ele nunca houve? Pode acontecer? Sim. É provável? Aí já é discutível.

Preparado para ouvir a realidade? O que é bíblico? Então vamos lá: se você decepar sua perna, as chances são que você tenha de viver o resto da vida sem ela, suportando a situação, dependente de uma muleta ou de uma cadeira de rodas. É triste, é difícil, eu não gostaria de te dizer isso. De igual modo, se você casou sem amor, as chances são que você tenha de viver o resto da vida num casamento sem amor, suportando a situação, dependente da força de Deus e do fruto do Espírito. É triste, é difícil, eu não gostaria de te dizer isso.

Mas é a verdade.

Este sem dúvida é o post mais difícil que já escrevi. Pois sempre que escrevo, procuro encaixar o texto na tríade de funções da profecia: exortação, consolo ou edificação.  Mas não consigo encaixar este em nenhuma das três categorias. É um post sobre a soberania e a vontade de Deus (que é boa, perfeita e agradável), sempre sob a sombra da graça. Resta a todos os irmãos e as irmãs que estão enfrentando o deserto de um casamento sem amor olhar para Deus, Sua graça e Sua misericórdia e falar como Jó, que no momento de maior desespero e angustia adorou o Todo-Poderoso e disse: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!”. Isto é: seja feita a vontade do Altíssimo, assim na terra como no Céu. Romanos 9.14 afirma: “Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum!”. Bendito seja o nome do Senhor. E, como em tudo devemos dar graças, mesmo na tribulação o faremos.

Caminho para o fim deste difícil post com um peso sobre as costas, mas com mais uma passagem bíblica. Na sequência da explanação de Jesus sobre o porquê de Ele estar subvertendo o que Moisés estipulou humanamente, em Mateus 19, os discípulos mostram que a resposta do Mestre os deixou bem desconfortáveis, para não dizer revoltados. Como muitos leitores devem estar se sentindo. Pois os discípulos (e talvez você) certamente queriam que o Senhor viesse com alguma fórmula mágica que resolvesse os casamentos infelizes, que fosse tiro e queda, bate-pronto e, assim, desse um jeito de validar o divórcio e resolver num estalar de dedos os problemas de milhares de pessoas que vivem um matrimônio em que não gostariam de estar. Por isso, eles peitam Jesus, no versículo 10: “Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar”. E aí, perdoem-me os que consideram os argumentos aqui apresentados legalistas (detalhe: só expus argumentos do Novo Testamento), mas concluo não com a Lei, mas com as palavras do próprio Cristo  (que, acredito eu, não era legalista) no versículo 11. Palavras que não dão uma resposta fácil, rápida e pronta, mas sim a que conveio a Deus. Não me culpem, por favor. Apenas reproduzo o que o Criador do Universo disse: “Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado”.

Oro a Deus por cada irmão e irmã que vive um casamento infeliz. Oro com toda a minha alma, com dor no coração e cheio de solidariedade e carinho. E peço para esses um milagre. Peço consolo. Peço restauração e uma vida de abundância em Cristo. Peço graça. Que suas famílias sejam abençoadas. Também deixo um alerta aos solteiros: NÃO SE CASEM SEM AMOR. Não se casem sem o amor sacrificial de João 3.16. Para que não venham a sofrer no futuro. Aos que já sofrem, oro ao Deus do impossível que sare suas feridas. Que os faça felizes apesar dessa dificuldade. E que lhes traga a paz que excede todo o entendimento.

Paz. Como precisamos dela. Por isso desejo paz também a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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PS. Se você está enfrentando problemas no seu casamento, recomendo com ênfase a leitura do seguinte post: <Meu casamento não tem jeito, devo me divorciar?>
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