Arquivo de abril, 2012

Normalmente aqui no APENAS eu discuto as coisas de Deus e da nossa fé. Mas este post será um pouco diferente: quero hoje viver a fé e não debater sobre ela. Você já vai entender. Farei isso após ter vivido uma experiência que me mostrou uma vez mais que Deus é absurdamente imprevisível. Ocorre que fui convidado para dar uma palestra sobre três livros que escrevi para a editora Anno Domini, voltados para jovens e adolescentes, no Congresso Anual do Ministério Despera Débora, que conta com 80 mil mulheres em todo o mundo em oração por seus filhos. Nina Targino, uma das pessoas mais doces que já conheci, é a coordenadora nacional desse ministério e escreveu o prefácio do quarto livro da série, chamado O RITUAL, que será lançado ainda este ano. Fiquei muito lisonjeado quando ela, e louvo a Deus por isso, leu os quatro livros e mostrou-se encantada pela série (chamada Série Geração Ação), disse-me que esses livros eram resposta de oração e me convidou para palestrar para as cerca de 500 coordenadoras do Desperta Débora em todo o país. Sendo assim, saí do Rio rumo a Belo Horizonte certo de que estava indo para falar. Mas mal sabia eu que estava indo para ouvir.

Cheguei ao evento, fiz a palestra sobre a série e ainda sorteamos exemplares de O Enigma da Bíblia de Gutemberg (livro vencedor dos prêmios Areté de excelência em literatura cristã nas categorias “Melhor Livro de Ficção/Romance” e também “Autor Revelação do Ano”), 7 Enigmas e um Tesouro (finalista do Prêmio Areté na mesma categoria) e O Mistério de Cruz das Almas. Estava feliz, foi uma grande festa, aquela alegria tradicional que ocorre em sorteios. Terminada minha participação, sentei ao lado de Nina para escutar a próxima preletora, uma senhora chamada Ivanise Espiridião da Silva. Eu não a conhecia. Como meu voo só saía dali a algumas horas, resolvi permanecer e ouvir o que ela falaria. Eu não sabia, mas dentro de poucos minutos Ivanise tiraria o sorriso de meu rosto e me faria chorar copiosamente.

Ela é ninguém menos que a presidente do Movimento Mães da Sé. É um grupo formado por pais cujos filhos desapareceram. Sumiram do mapa. E simplesmente as autoridades fazem pouco ou nada para encontrá-los. Como me contaria depois – na carona que lhe dei ao aeroporto -, quando sua filha Fabiana, de 13 anos, desapareceu, Ivanise procurou uma delegacia. O delegado simplesmente virou-se para ela e disse que não procuraria a jovem pois “ela deve estar em algum motel com o namoradinho”. E não fez nada. Nisso se passaram 16 anos e Fabiana continua desaparecida. Não. Fabiana não estava em motel algum: ela incorporou-se às cerca de estimadas 200 mil pessoas que somem por ano no Brasil (como Ivanise me contou, existem estatísticas oficiais no país até sobre roubo de carros, mas nenhuma sobre o desaparecimento de seres humanos. O que há são especulações a partir de dados de 13 anos atrás).

Ivanise fez sua palestra. Ela escreveu o texto e o leu, em meio a pausas e lágrimas. Ao final eu estava tão tocado e comovido que pedi a ela se poderia me ceder o texto para que eu o publicasse aqui no APENAS. Serei muito direto: meu objetivo é que você seja tocado como eu fui, entre no website do Mães da Sé e invista minutos do seu dia para ver se você consegue ajudar a identificar algum dos desaparecidos, cujos pais estão em desespero. Ouça agora as palavras que foram lidas com voz embargada por Ivanise e que silenciaram todos os presentes. É uma pena que sem o tom usado na leitura perca-se a prosódia dessa mãe desesperada:

“Dizem que sou uma mulher forte e corajosa, porém me sinto muitas vezes fragilizada pelas peças que a vida me pregou. Mas sou uma mulher abençoada por Deus, afinal Ele me deu dois grandes tesouros, minhas filhas, Fabiana e Fagna – lindas, inteligentes, tudo o que um dia sempre desejei: ter uma família formada com marido e filhos, já que venho de uma família de 10 irmãos. Filha de agricultores, nasci numa cidade no interior de Alagoas, hoje com 30 mil habitantes.

Nunca tive nenhum privilégio, trabalhei na roça até os 18 anos, quando casei e fui morar em São Paulo, uma megalópole. Como meu esposo trabalhava e eu ficava sozinha, logo quis ter filhos. Primeiro nasceu a Fabiana e, 11 meses depois, veio a Fagna. Minhas filhas foram o maior presente que ganhei do Senhor Jesus. E na minha concepção de felicidade eu tinha uma família feliz.

Até que, em 23 de dezembro de 1995, minha filha Fabiana saiu de casa acompanhada de uma colega de escola para visitar uma amiga que fazia aniversário aquele dia. No retorno para casa, desapareceu a cerca de 120 metros de distância de onde morávamos. Fabiana estava com 13 anos. Hoje minha filha tem 30 anos.

A partir daí minha vida transformou-se em um pesadelo. Iniciei minha busca. Durante três meses procurei minha filha sozinha, visitando hospitais, IML, hospitais psiquiátricos, pelas ruas e viadutos, principalmente na região central de São Paulo. Essa busca foi me desgastando física e psicologicamente. Cheguei à beira da loucura. A vida não tinha mais sentido para mim sem minha filha. Até que, num dia de desespero e muita dor, pedi ao Senhor Jesus que me mostrasse uma forma de poder esperar até o momento em que Ele achasse que estava preparada para encontrar minha filha, viva ou morta. Por acaso, uma amiga da faculdade me passou o telefone de uma organização que havia no Rio de Janeiro, o Centro Brasileiro em Defesa da Criança e do Adolescente, onde cadastrei minha filha.

Algumas semanas depois fui convidada para participar de uma novela que juntou ficção e realidade e mostrou depoimentos de mães que tinham os filhos desaparecidos. Durante as gravações, conheci outras mães que estavam passando pelo mesmo drama que eu. Juntamente com outra mãe que foi comigo gravar a novela demos início ao Movimento Mães da Sé, que nasceu em 31 de março de 1996.

Transformei minha dor em uma luta constante, não só pela minha filha, mas para ajudar outras mães que vivem o mesmo drama. Tenho aprendido muito com essa família numerosa que Deus me deu. Somos irmanadas pelo mesmo objetivo, que é encontrar nossos filhos. Afinal, o Estado nos deve essa resposta. Nossa luta é uma luta isolada, sofremos o total abandono do poder público.

Aprendi a sobreviver e não desistir, pois como mãe não posso jamais desistir da busca do único bem mais precioso que Deus me deu. Tenho travado uma longa e triste batalha com a vida, mas aprendi também que não existe causa perdida, pois a única causa perdida é aquela que você abandona.

Ainda não encontrei a minha Fabiana, mas já devolvi a alegria a 2.657 casos localizados com vida e 211 óbitos. Se Deus me levar hoje, irei em paz. Pois minha filha vive em cada uma dessas crianças e adultos que ajudei a voltar para suas famílias.

Ao longo desses 16 anos de luta, aprendi que é enfrentando as dificuldades que me fortaleço, é superando meus limites que cresço como pessoa, é tentando resolver os problemas que amadureço, é desafiando o perigo que encontro coragem para enfrentá-lo e descubro o quanto cresço quando exigem de mim mais do que as minhas próprias forças – o que muitas vezes está além dos meus limites.

Aprendi a valorizar cada  minuto que a vida me dá, pois ele é único: sendo bom ou ruim, jamais haverá outro igual. Por isso nunca penso naquilo que acabou, mas sim naquilo que valeu a pena enquanto durou.

Lembrar os 16 anos do Movimento Mães da Sé é, acima de tudo, um ato de continuidade da busca por justiça, dignidade e verdade. A nossa luta não se perdeu no caminho, tampouco é em vão. De tudo fica um pouco, que será suficiente para tecer o fio da memória – que serve para alimentar a luta por justiça e contar a violência do Estado.

É tempo de lembrar. E fazer da lembrança dos nossos filhos o combustível para a luta que continua até encontrarmos uma resposta. O resultado desse esquecimento vemos hoje, quando execuções sumárias, torturas e desaparecimentos forçados continuam a ser praticados, em número muito maior e atingindo muito mais pessoas, por agentes estatais. Nos recusamos a mais um esquecimento nessa triste história.

Há 16 anos iniciamos, dando os primeiros passos onde muitas mães, pais, irmãos e amigos que nos seguiram – mostrando que não podemos mais esperar por justiça deixando tudo por conta do Estado.

A dor integra a natureza de nosso trabalho. É em meio a nossa dor e nosso sofrimento que buscamos e recolhemos a solidariedade e o alento de nossos parceiros em nosso trabalho, que não só alivia nossa caminhada como amplia nossas vitórias e impõe-nos o compromisso de com eles nos congratularmos, ainda perguntando: para onde estão indo nossas crianças? Mantemos acesa a chama da esperança de um reencontro único, mesmo sem saber o dia e a hora em que ele possa acontecer.”

Aqui acabou o testemunho de Ivanise. Seguiram-se alguns instantes de silêncio e ela completou, de improviso:

- E você pode estar se perguntando o que tem isso a ver com o Congresso do Desperta Débora e por que eu vim aqui. Eu vim buscar forças. Eu vim buscar colo.

Desnecessário dizer a enorme comoção que se seguiu a essas palavras.

Se você puder, meu irmão, minha irmã, entre no website do Mães da Sé. Quem sabe você não será o responsável por devolver um filho aos seus pais desesperados? Use bem seu tempo na web. E divulgue esse trabalho. Quanto mais pessoas olharem as fotos dos desaparecidos, mais chance há de eles serem encontrados.

Na nossa ida ao aeroporto perguntei a Ivanise (foto) qual era a melhor forma de ajudar. E ela respondeu que era olhando o site para, quem sabe, se lembrar de alguém que você tenha visto em algum lugar e cujos pais estão destruídos pela falta de informações.

Esse é o melhor colo que você pode oferecer. E, ao ouvir o testemunho de Ivanise, vi que hoje era dia de o APENAS não falar sobre o Evangelho, mas vivê-lo em sua plentiude: amando o próximo.

Ame o próximo. Acesse agora www.maesdase.org.br. Você pode salvar vidas e devolver a alegria a famílias destruídas. Para qualquer informação, o telefone da sede do Movimento é (11) 3337-3331.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Devemos nos chamar de “evangélicos” ou não? Dentro dos debates que tenho visto e vivido sobre se um cristão assumir a terminologia “evangélico” faz dele um religioso vazio e distante do Evangelho de Cristo, um mau fariseu (para não ser generalista e injusto com os bons fariseus, como Paulo e Gamaliel), um legalista etc, reproduzo abaixo um magnífico texto escrito pelo reverendo John Stott a esse respeito. Sugiro que você leia, reflita, dispa-se dos preconceitos e jargões e deleite-se nas reflexões desse que é considerado um dos maiores teólogos das últimas décadas – até seu falecimento recente. Segue o que o saudoso Pastor Stott falou sobre denominar-se ou não “evangélico”, a partir da perspectiva correta: a bíblica e histórica. É uma análise curta, porém magnífica, do significado desse conceito, sem a influência que nós, brasileiros, recebemos do mau exemplo de um punhado de maus líderes e igrejas que se chamam “evangélicas” mas que praticam e pregam barbaridades do ponto de vista bíblico. Ouçamos então essa voz que tanto edificou os cristãos dos séculos 20 e 21 com seu conhecimento sobre as coisas de Deus.

(Agradeço ao irmão João Paulo Silva, que me encaminhou o texto).

A Tradição Evangélica
John Stott

Gostaria de argumentar, embora corra o risco de simplificar em demasia e de ser acusado de arrogante, que a fé evangélica não é outra senão a fé cristã histórica. O cristão evangélico não é aquele que diverge, mas que busca ser leal em sua procura pela graça de Deus, a fim de ser fiel à revelação que Deus fez de si mesmo em Cristo e nas Escrituras.

A fé evangélica não é uma visão peculiar ou esotérica da fé cristã – ela é a fé cristã. Não é uma inovação recente. A fé evangélica é o cristianismo original, bíblico e apostólico. A marca dos evangélicos não é tanto um conjunto impecável de palavras quanto um espírito submisso, a saber, a resolução a priori de crer e de obedecer ao que quer que seja que as Escrituras ensinem.

Eles estão, de antemão, comprometidos com as Escrituras, independentemente do que se possa descobrir que elas digam. Eles afirmam não ter liberdade para lançar seus próprios termos para sua crença e comportamento. Percebem essa perspectiva de humildade e de obediência como uma implicação essencial do senhorio de Cristo sobre eles.

As tradições católica e liberal tendem a exaltar a inteligência e a bondade humana e, portanto, esperam que os seres humanos contribuam de alguma forma para a iluminação e salvação deles mesmos. Os evangélicos, de outro lado, embora afirmem veementemente a imagem divina que a nossa humanidade carrega, têm a tendência de enfatizar nossa finitude humana e queda e, portanto, de insistir que sem a revelação não podemos conhecer Deus e sem a redenção não podemos alcançá-lo.

Essa é a razão pela qual os aspectos essenciais do evangelho focam a Bíblia e a cruz, bem como a indispensabilidade delas, uma vez que foi por meio delas que a Palavra de Deus nos foi comunicada e que a obra de Deus em favor de nós foi realizada. Na verdade, sua graça apresenta a forma trinitária. Primeiro, Deus tomou a iniciativa em ambas as esferas, ensinando-nos o que não poderíamos saber de outra forma, bem como dando-nos o que não poderia nos ser dado de outra maneira. Segundo, em ambas as esferas o Filho desempenha um papel singular, como o único mediador por meio de quem a iniciativa do Pai foi tomada. Ele é a Palavra que se fez carne, por meio de quem a glória do Pai foi manifestada. Ele é o imaculado que se tornou pecado por nós para que o Pai pudesse nos reconciliar com ele mesmo.

Além disso, a Palavra de Deus falada por meio de Cristo e a obra de Deus realizada por intermédio de Cristo eram ambas hapax , completadas de uma vez por todas. Nada pode ser acrescentado a nenhuma delas, sem que com isso se deprecie a perfeição da palavra e da obra de Deus realizada por meio de Cristo. Depois, em terceiro lugar, tanto na revelação quanto na redenção, o ministério do Espírito Santo é essencial. É ele que ilumina nossa mente para compreender o que Deus revelou em Cristo, e é ele quem move nosso coração para receber o que Deus alcançou por meio de Cristo.

Assim, nessas duas esferas, o Pai agiu por meio do Filho e continua a agir por meio do Espírito Santo. Os evangélicos consideram essencial crer não apenas no evangelho revelado na Bíblia, mas também em toda a revelação da Bíblia; crer não apenas que “Cristo morreu por nós”, mas também que ele morreu “por nossos pecados” e, de forma que Deus, em amor santo, pode perdoar os crentes penitentes; crer não apenas que recebemos o Espírito, mas também que ele faz uma obra sobrenatural em nós, algo que, de variadas formas, foi retratado no Novo Testamento como “regeneração”, “ressurreição” e “recriação”.

Eis aqui três aspectos da iniciativa divina: Deus revelou-se em Cristo e no testemunho bíblico total sobre Cristo; Deus redimiu o mundo por meio de Cristo e tornou-se pecado e maldição por nós; e Deus transformou radicalmente os pecadores pela operação interna de seu Espírito.

A fé evangélica, assim afirmada, é o cristianismo histórico, maior e trinitário, e não um desvio excêntrico dele. Pois não vemos a nós mesmos oferecendo um novo cristianismo, mas chamando a Igreja ao cristianismo original.

Se “evangélico” descreve uma teologia, essa teologia é a teologia bíblica. Os evangélicos argumentam que são cristãos bíblicos plenos e que, para ser um cristão bíblico, é necessário ser cristão evangélico. Explicando dessa forma, isso pode soar como arrogância e exclusivismo, mas essa é uma crença sincera. Certamente, o desejo sincero dos evangélicos é não ser um cristão mais ou menos bíblico. A intenção deles não é ser sectário. Isto é, eles não se apegam a certos princípios apenas para manter a identidade deles como um “grupo”. Ao contrário, sempre expressaram sua prontidão para modificar, até mesmo abandonar, quaisquer das crenças que estimam, ou, se necessário, todas elas, se lhes for demonstrado que não são bíblicas.

Os evangélicos, portanto, consideram como a única possível via para a reunião das igrejas a via da reforma bíblica. De acordo com o ponto de vista deles, a única esperança firme para as igrejas que desejam se unir é a disposição comum para se sentarem juntas sob a autoridade da Palavra de Deus, a fim de serem julgadas por ela.

O significado da palavra “conservador” quando aplicada aos evangélicos, é que nos apegamos veementemente aos ensinos de Cristo e dos apóstolos, conforme apresentados no Novo Testamento, e que estamos determinados a “conservar” toda a fé bíblica. Isso foi o que o apóstolo determinou que Timóteo fizesse: “Guarde o que lhe foi confiado”, conserve isso, preserve isso, jamais abandone seu apego a isso, nem deixe que isso caia de suas mãos.

* * *

O Rev. John Stott , Ministro Anglicano e escritor, foi ex-Capelão da Rainha da Inglaterra e Reitor Emérito da Paróquia de All Souls, em Londres.  Fonte: “Cristianismo Autêntico – 968 Textos Selecionados da Obra de John Stott” , compilação pelo Bispo aposentado Anglicano Timothy Dudley-Smith (Autor dos dois volumes já publicados de sua Biografia Autorizada), Vida Acadêmica: São Paulo, 2006, http://www.editoravida.com.br , http://www.vidaacademica.net , pp.413-420.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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“Como eu sei os planos de Deus para minha vida? Como sei se estou cumprindo a vontade dEle para mim?”. No período seguinte à minha conversão, essas perguntas me assombraram. Eu era néscio, novo convertido, mal tinha pego um ou dois bons livros teológicos para ler (já tinha lido muita besteira teológica, como livros de pastores da TV e de editoras evangélicas ruins: bons livros, quase nada) e essa questão me intrigava. Todos diziam que eu tinha de seguir a vontade de Deus. Mas como fazer isso se o Altíssimo não aparecia para mim em meio a um raio de luz ou uma sarça ardente e dizia o que esperava para a minha vida? Era um mistério para um neocristão como eu. E eu vivia perguntando a Ele. Eu, um pentecostal sem instrução, aguardava uma revelação, uma profecia ou algo do gênero que viesse a me mostrar se deveria virar para a esquerda ou a direita. Até um anjo aparecer à noite em meu quarto servia. Mas nada. Nem uma resposta. Nenhum dom sobrenatural. Nenhuma aparição divina entre gelo seco. Só o silêncio.

A resposta veio. Mas não como eu esperava. Não por meio de um fenômeno sobrenatural. Não trazida pelo varão de branco numa bandeja de prata andando no meio da congregação enquanto a igreja cantava um corinho de fogo. E quando ela veio eu aprendi o que todo pentecostal – como eu sou até hoje – deve aprender: as respostas de Deus aos nossos questionamentos só numa minoria ínfima das vezes chegam por meio de “vasos” ou “varoas de fogo”. Elas vêm pela ministração da Palavra. Ou seja: pela pregação e a exposição da Bíblia.

Não é muito empolgante, eu sei, nos emocionamos, choramos e nos arrepiamos muito mais quando alguém dá um berro, põe a mão em nosso ombro e nos fulmina com aquela voz empostada que só um profeta dos mantos de fogo sabe fazer:”Eeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiissss que te diiiiiiiiiigo, servo meu!!!”. Ah! Quem não gosta? O Altíssimo em linha direta conosco! Coisa boa demais. Só que em 99,99% das vezes não será assim que você terá as respostas de Deus: será pelas Escrituras. Creio nos dons? Claro, são bíblicos. Creio que Deus fala por profecia ou pela palavra de conhecimento (a popular “revelação”)? Claro, é bíblico. Mas também creio que as maiores respostas Deus já deixou preparadas e embrulhadas para nós na Bíblia Sagrada. E o tempo que muitos perdem indo atrás de profetas e similares seria muito mais bem aplicado se dedicado à leitura estudada da Palavra revelada de Deus. Quando o Senhor quer falar por meio dos dons Ele fala. Nós não temos que correr atrás. Ele tomará a iniciativa. Ficar correndo atrás disso deixando a Bíblia na prateleira pegando poeira denuncia um cristão mal discipulado.

Mas voltemos ao meu questionamento de novo convertido. Entenda que saber para onde Deus queria que eu fosse, qual era sua vontade para minha vida, que rumo eu devia tomar, qual seu plano para mim era algo muito importante na minha concepção, algo que eu vivia me perguntando e perguntando a Deus. Eu queria saber o futuro! Queria saber os desígnios do Todo-Poderoso para os anos a seguir! Queria ser o dono do conhecimento. Afinal, conhecimento é poder e eu me sentia aflito por não deter o poder de saber o meu futuro. Que bobo eu era.

Como disse, a resposta veio. Mas quando, onde e da forma que eu menos esperava. E junto com uma bela lição. Jesus me converteu em 1996. Em 1999 viajei a Nova York num passeio de férias. Repare: foram três anos perguntando ao Senhor como saber a Sua vontade e os Seus planos para a minha vida, sem obter uma resposta. Ao chegar à cidade, fiquei hospedado na casa de um amigo. Meu sonho e objetivo de longa data era visitar as igrejas de negros do Harlem, onde queria ver o canto gospel de raízes, sentir o cheiro do povão, me mesclar com a celebração em templos onde as mulheres se vestem como Whoopi Goldberg no filme “Ghost” e os homens gritam “Hallellujahhhhhhhh!” e “Amennnnn!!!” (pronuncia-se “êi-mén”) com aquelas vozes poderosas de Ray Charles. Esse era meu sonho. Poder gritar “Oh, yes, Lord!!!” no meio deles. Sim, eu tinha sonhado muito com aquilo.

Estava de férias, desligado da questão de “Deus, para onde eu vou?”. Minha dúvida naquele momento era saber em que estação de metrô descer para chegar ao World Trade Center (sim, eu subi ao terraço-mirante de uma das Torres Gêmeas dois anos antes de elas desaparecerem). Estava prestando atenção apenas no meu passeio. Domingo se aproximou e perguntei ao meu amigo como fazia para encontrar uma boa igreja no Harlem onde pudesse experimentar o gospel de raízes. Ele me respondeu que não fazia ideia. Mas que havia uma igreja muito visitada no centro de Manhattan, a Times Square Church, e me deu as dicas de como chegar lá. Eu queria ir para o Harlem, mas, pela falta de informações, me conformei e acabei mesmo indo para aquele antigo teatro da Broadway, onde anos antes havia estreado o musical “Jesus Cristo Superstar” e que agora havia sido comprado, mal sabia eu, por ninguém menos que David Wilkerson, o celebrado pastor e autor do clássico “A Cruz e o Punhal”. Era a sua igreja.

Só descobri isso quando, chegando domingo de manhã ao santuário, vi aquele senhor de cabelos brancos atravessando a rua ao meu lado. “Caramba, é o David Wilkerson!”, me assustei. E fui em frente. Pensei com meus botões:”Se é essa celebridade quem vai pregar, de um famosão desses só pode vir uma palavra fogo puro! Ô Glória!”. Entrei naquele lindíssimo santuário, com membresia da alta sociedade novaiorquina, só gente muito bem vestida, as cortinas vermelhas fechadas. De repente elas se abriram e um belo coral trajando becas amarelas e roxas começou a cantar, as letras projetadas num vidro preso no alto do santuário. Eu só me impressionava pela grandiosidade do lugar, pela tecnologia, e derramava lágrimas ouvindo aqueles gringos cantando “Jesus, lover of my soul”. Não estava nem aí naquele momento para “saber quais são os planos de Deus para minha vida”. Estava deslumbrado com tudo ao redor e excitadíssimo por poder ouvir David Wilkerson pregar. Chegou enfim a hora da pregação e eis que sobe ao púlpito… quem?! Quem?! Quem?!

O pastor auxiliar.

Hm. Tá. Ok. É, né, fazer o quê. Afundei na cadeira.

Wilkerson sentado, eu decepcionado e o Pastor Carter Conlon (foto) ao microfone. E foi quando aconteceu. Aquele homem sem fama ou best-sellers escritos, no meio de minhas férias, a milhares de quilômetros dos profetas mais usados da minha igreja local, sem que eu estivesse nem aí no momento para os planos de Deus para minha vida… pregou a resposta à pergunta que eu vinha fazendo há 3 anos. Foi uma mensagem simples. Sem grandes argumentos. Sem muito brilhantismo. Puro feijão com arroz espiritual. Mas que saciou uma fome que durava cerca de mil dias. Não houve um grande coral de anjos cantando enquanto o Céu se abria, fogos espocavam e a grande revelação vinha direto do sétimo, oitavo ou nono Céu numa carruagem puxada por cavalos de fogo e escoltada por arcanjos e querubins. Nada disso. Em voz calma e baixa, Pastor Conlon simplesmente disse, como quem comenta um fato corriqueiro com um amigo:

- Você quer que os planos de Deus para tua vida se cumpram? Quer que a vontade dEle para você torne-se realidade? Saber é difícil, nós mesmos nunca saberemos. Mas Deus sabe. Não é uma questão de saber, mas de deixá-la se cumprir. Então, se você quer sair daqui e ir para o Brooklyn sem saber o caminho, o que você faz? Pega um ônibus que tenha ao volante um motorista com as informações sobre como chegar lá. Depois basta ficar ali, perto dele, até que chegue ao seu destino. Do mesmo modo, se você quer cumprir o plano de Deus para sua vida, tudo o que tem a fazer é ficar perto de quem sabe como te conduzir até seu destino. Fique sempre perto de Jesus e todos os planos dEle se cumprirão na sua vida. Você não precisa saber. Basta estar junto a Deus e esperar, pois, um dia após o outro, todas as coisas cooperarão para que a vontade dEle se cumpra em você.

Simples. Bíblico. Silencioso. Pura explanação eficiente e inteligente das verdades bíblicas. Naquele momento, eu congelei. Primeiro, porque percebi que Deus tinha respondido à minha pergunta. Segundo, porque foi de modo totalmente diferente de como eu esperava. Terceiro, porque mostrou-me que eu estava fazendo a pergunta errada: o importante não era “saber”, mas “o que fazer”. Fiquei estarrecido.

Fui embora da Times Square Church com um livro com pregações de David Wilkerson e uma fita k-7 com mensagens dele debaixo do braço, cortesia para os visitantes de primeira vez. Mas, mais importante do que isso, saí dali com uma autêntica experiência com Deus. Sim, Deus tinha falado. E me dado uma bronca ao mesmo tempo. Fiquei feliz por finalmente conhecer a resposta à minha pergunta: para cumprir o plano, a vontade de Deus em minha vida, tudo o que eu tinha de fazer era estar junto a Ele a cada dia. Mas saí humilhado por ver o tamanho da minha prepotência. Por achar que seria da minha forma que a resposta viria. E foi quando entendi algo que é indissociável da pessoa do Senhor: sua absoluta soberania sobre tudo o que ocorre no mundo, as coisas boas e as coisas más.

Saí dali sem ter realizado o sonho de ouvir o gospel dos negros do Harlem, pois a Times Square Church é uma igreja de brancos, com louvores para brancos ao estilo dos brancos. Mas dei de cara com uma estação do metrô. Parei. Pensei. E disse a Deus: “É com o Senhor”. Embarquei e fui para o Harlem, sem ter noção de onde ia e totalmente às cegas. Era hora do almoço, chance mínima de realizar meu sonho, de ouvir o autêntico canto gospel de raízes. Saí sozinho, no meio do bairro, e comecei a andar por suas ruas. Em pensamento, orei: “Senhor, não conheço nada ao meu redor. Não tenho ideia de onde ir. Mas estou contigo, conduze-me”. Foi quando dobrei uma esquina e dei de cara não com uma igreja, mas com um palco montado numa rua interditada, onde 20 igrejas haviam se reunido para um dia de louvor a Deus, com corais, grupos, duetos, quintetos, solistas e os mais variados tipos de autênticos músicos gospel negro de raízes se sucedendo na plataforma. Sentei quietinho e isolado numa cadeira, o único latino em meio a centenas de negros, e vivi ali em êxtase um dos dias mais inesquecíveis da minha vida, com todo tipo de louvor do Harlem sendo entoado ao longo de toda uma tarde. Gozo para minha alma e a realização de um sonho, multiplicado por 20.

Não precisei saber para onde ir. Mas Deus conhecia meu desejo e tinha seus planos para minha tarde: dar-me de presente muito mais do que eu tinha pedido. Deleitei-me no Senhor e ele concedeu o desejo do meu coração. Tudo o que precisei fazer foi estar junto a Ele, dar um passo após o outro e dizer: “Pai, eis-me aqui. Leva-me aonde Tu quiseres e cumpre em mim a Tua vontade”.

Desde então não busco saber o meu futuro, vivo um dia após o outro. E se hoje olho para trás e vejo como Deus conduziu minha vida nos últimos 13 anos, desde aquele dia de maio de 1999, sorrio e percebo claramente como os planos dEle para mim têm todos se cumprido. O que Ele reserva para meus próximos 13 anos? Sinceramente não sei. E sinceramente não faço questão de saber. Apenas entrego meu caminho ao Senhor, confio nEle e sei que o mais… Ele fará. Confie nisso também.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari

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Devemos nos denominar “evangélicos” ou não? Somos “evangélicos” ou só “cristãos”? Essas são as perguntas-chave deste post. São fruto de um texto que publiquei aqui no APENAS dias atrás que mostrava como legiões de irmãos vivem suas vidas de fé sem refletir ou se informar sobre o que falam e que, por isso, cometem enormes equívocos (o post original é ESTE, caso você queira se situar no contexto). Ocorre que no meio do raciocínio citei um exemplo que deu margem a montes de comentários. Penso que o assunto merece uma reflexão só para ele, para elaborarmos em cima da questão: afinal de contas, sou “evangélico” ou não? Até uns três ou quatro anos atrás, ninguém tinha problema de se apresentar como evangélico. Era o que éramos e acabou. Mas, de repente, com o advento do twitter, do Facebook e das redes sociais, foi um bum de rejeição desse termo. De repente, vimos multidões e mais multidões de… evangélicos… repudiarem ser chamados daquilo que eram. “Sou cristão, não sou evangélico”, passaram a bradar muitos evangélicos – bem mais preocupados com isso do que proclamar Cristo. Sou um defensor do uso desse termo e quero convidar você a refletir por quê não o devemos abandonar.

A causa desse fenômeno é simples: a vergonha perante o mundo.

E como surgiu essa vergonha? Até há pouquíssimo tempo, todo mundo sabia que “evangélico” é sinônimo de “cristão de tradição protestante”, ou ainda “pessoa que segue o cristianismo segundo definido pela Reforma Protestante”. Só que aí vieram os escândalos. Igrejas “evangélicas” neopentecostais espantando o país com todo tipo de prática espúria, Teologia da Prosperidade praticada por “evangélicos” sendo esfregada na cara do mundo, celebridades de vida mundana se apresentando como evangélicas, exorcismos praticados por “evangélicos” como shows, roubalheiras em nome de Jesus saindo na primeira página do jornal, “evangélicos” chutando imagens de santas, bancada “evangélica” no governo envolvida em mutretas e tramoias, artistas “evangélicos” usando o nome de Deus para enriquecer, eventos “evangélicos” infernizando o trãnsito e a paz das cidades, pastores-celebridades “evangélicos” atacando outros setores da sociedade em rede nacional de TV com agressividade… enfim, a lama voou para todo lado.

Os setores evangélicos sérios começaram a olhar isso tudo com espanto. De repente, o Evangelho passou a ser escândalo para o mundo não mais por sua mensagem contracultural, mas porque aqueles mais visíveis que se dizem seus porta-vozes passaram a praticar tudo às avessas do que se esperaria de um servo de Jesus. Hoje, basta qualquer não-evangélico ligar a TV sábado de manhã para ver “pastores evangélicos” vendendo unções em troca de R$ 900 – o que, é óbvio, é um tremendo absurdo e todos os  que não são minimamente ingênuos percebem isso. Um ateu hoje liga a TV e assiste a “pastores evangélicos” aos berros contra gays, ofendendo e atacando. Sem entrar pelo mérito, aos olhos da sociedade aquele indivíduo representa todos nós e, se ele é tão agressivo e estúpido na hora de falar, todos devemos ser. E quando nos apresentamos como evangélicos somos automaticamente associados a esses ensandecidos empresários da fé e… sentimos vergonha, lógico. Quem não sentiria?

O não-evangélico hoje liga na TV cuja dona é uma igreja “evangélica” e assiste a reportagens denunciando… outras igrejas “evangélicas”. Não é preciso ser um gênio para ver o que está por trás daquilo: dinheiro e poder. O não-evangélico liga a TV e assiste a um Festival de música “evangélica” onde os artistas são iguaizinhos aos artistas do mundo, fazem tudo igual. Mas em nome de Jesus, claro. E isso é escândaloso para quem tem o mínimo de senso crítico, pois fica estampado em verde e amarelo que aquilo ali é apenas uma jogada para venda de CDs da gravadora pertencente à mesma organização que a emissora de TV.

Para piorar, alguns pastores-celebridades que eram evangélicos sem problema algum tornaram-se revoltados contra a Igreja evangélica por razões as mais diversas. Uns porque adulteraram e não buscaram recompor seu casamento e, como a Igreja evangélica obviamente não concordou com isso porque vai contra a Bíblia, tornaram-se inimigos dos evangélicos. E forjaram esse discurso “antievangélico” para captar o nicho dos revoltados e dos feridos e assim manter-se em evidência. Outros tornaram-se antievangélicos porque começaram a inventar teologias notoriamente heréticas, que esvaziam Deus de sua soberania, e, como a Igreja evangélica obviamente não concordou com isso porque vai contra a Bíblia, tornaram-se inimigos dos evangélicos. E aí entra o fenômeno da celebridade em ação: como esse punhado de pouquíssimos pastores são vistos como a quarta pessoa da Trindade por milhares de pessoas, começaram a arrebanhar um povo que somou-se a eles nesse discurso que partiu de razões pessoais e tornou-se o evento social e antropológico que estamos analisando aqui.

Em resumo: alguns que se dizem “evangélicos” e estão mais visíveis aos olhos do mundo acabaram fazendo o mundo associar todos os evangélicos a eles. Ao que eles fazem. Ao jeito como falam. Aos seus interesses visivelmente interesseiros. A tudo de mais horrível, réprobo e pecaminoso que representam. Outros, que tomaram atitudes ou inventaram teologias que contrariam a Bíblia foram rejeitados pelos evangélicos que viram o absurdo que há no que praticam e pregam e arrastaram consigo montes e montes de fãs com seu discurso “antievangélico”. Hoje são figuras tristes, que chamam irmãos na fé de malditos ou se portam como moleques de rua ao chamar homens de Deus de “bundões” ou coisa pior.

E, adivinha só? O mundo vê tudo isso. Sabe para quem sobrou? Para mim e para você, meu irmão evangélico.

Porque, de repente, muitos passaram a sentir vergonha de ser associados a toda essa baixaria. E, ao ouvir essas vozes do movimento “sou cristão, não sou evangélico”, agarraram-se a essa ideia como a um bote salva-vidas de sua dignidade. Como ratos que abandonam um barco que mina água, começaram a abandonar aquilo que sempre foram. A se redefinir. A deixar o termo que a sociedade vê como algo negativo na mão dos negativos e tentar se metamorfosear em outra coisa.

Mas isso é um enorme erro.

Se um bandido tem o mesmo nome que você, requerer junto à justiça a mudança do seu nome não vai resolver absolutamente nada. Se dizer “cristão mas não evangélico” também não resolve absolutamente nada. É apenas uma atitude de pessoas envergonhada que acham que por não se definirem mais pelo termo estão se livrando dos olhares tortos da sociedade. E, ao fugir da vergonha, tornam-se vergonhosos. Pois estão abrindo mão de uma definição belíssima historicamente, que define não o que os canalhas da fé são, mas o que Jesus plantou e Lutero, Calvino e outros resgataram – e que transformou a História da Igreja.

Quando a Igreja Católica Romana tornou-se o que tornou-se no século 16, praticando absurdos como a venda de indulgências e outros desmandos, Lutero protestou afixando suas 95 teses na porta da igreja castelo em Wittenberg, Alemanha, a 31 de Outubro de 1517. Os católicos, para denegrir a imagem dos discordantes, cunharam o termo “protestante”, em especial devido à grande manifestação de alguns Estados e príncipes alemães, em 1529, que protestaram contra decisões de caráter religioso, mas de motivação também política. Em contrapartida, os que seguiam a proposta reformadora do excomungado Lutero e seus simpatizantes começaram a usar o termo “evangélico”, na época visto (veja você) como menos polêmico e que remetia a uma das características positivas de tudo o que a Reforma significou: o retorno à mensagem evangélica original. Lindo. O adjetivo “evangélico” é simplesmente lindo, pois nos define como aqueles que seguem o sagrado Evangelho de Jesus Cristo, as boas-novas do Deus encarnado, a graça do Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo. Eis a essência do evangélico: abraçar o Evangelho e vivê-lo custe o que custar.

Ser evangélico, então, é seguir o Evangelho de acordo com a doutrina fundamental resgatada por Lutero, Zwinglio e Calvino, que traz em si como pontos fundamentais a prioridade das Escrituras, a justificação pela fé e o sacerdócio universal dos cristãos. É o que eu sou. E vou brigar pelo direito de me definir pelo que sou.

Se há aqueles que usam o Evangelho de Jesus como fonte de lucro, trilhando um caminho de escândalos e de práticas antibíblicas, cabe a nós, que nos consideramos fiéis ao Evangelho e que renegamos essas práticas, deixar claro que eles saíram de nós mas não eram de nós. Denominar-se “cristão” resolve? Nada! Pois cada um desses que escandalizam também se dizem “cristãos”! Então daqui a pouco vamos abandonar essa definição também?! Muitos, para não se identificarem com os canalhas que se apresentam como “evangélicos” já desmerecem tudo o que tem a ver com os tais: não congregam em “igrejas” ou “denominações”, mas em “comunidades”. Não têm “hierarquia”, só “irmãos mais experientes na fé”. Não seguem “religião”, mas “graça”. E, agora, não são “evangélicos”, mas “cristãos”. Tudo pura semântica. Jogos de palavras e conceitos que não resolvem absolutamente nada. Apenas deixa os que assim o fazem mais felizes por poder se apresentar aos olhos da sociedade como algo diferente do que aquilo que os embaraça perante as pessoas.

Lutero quis reformar a casa de fé em que vivia por causa dos desmandos e da vergonha que tinha de fazer parte daquilo. Foi excomungado, expulso, expelido. Hoje, os cristãos antievangélicos não querem reformar nada: optam por pular fora para se sentir melhor aos olhos do mundo porque podem dizer “eles são evangélicos, eu não”. Desertam porque têm vergonha daquilo de que não fazem parte. Eles próprios se excomungam, se expulsam , se expelem. E com isso se tornam vergonhosos.

Não, não temos que sentir vergonha desse belíssimo termo histórico, que custou a vida de muitos mártires da Reforma e que nos remete à essência de nossa fé: o Evangelho da Salvação de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Tenho orgulho disso. Defendo o direito de usar o termo. Ele nos pertence. Os apóstatas já abandonaram o termo. Os deixemos ir, não fazem falta, com suas heresias relacionais e sua agressividade “bundona” (para usar suas próprias palavras, perdoem-me por replicar suas agressões).  Se querem passar por cima das mulheres e crianças, pisoteá-las e sair correndo do barco que mina água, que o façam e levem sua vergonha consigo. Mas acredito que um cristão deve ser corajoso, como os mártires foram e se entregaram aos leões, à fogueira e à tortura por amor ao Evangelho. E isso porque eram evangélicos: deram as suas vidas pelas boas-novas. Deram suas vidas pela mensagem da Cruz.

Não fujamos como covardes. Fiquemos e defendamos o que é nosso por herança espiritual. Somos sim evangélicos, como Jesus o foi, os apóstolos foram, os patriarcas dos primeiros séculos, os pré-reformadores, os próprios reformadores e os que andaram em seus passos nos 500 anos que se seguiram. Eu sou cristão. Eu sou evangélico. E sou grato a Deus por isso. Pois, ao admitir essa verdade, honro aqueles que vieram antes de mim e defenderam muitas vezes com seus bens e suas vidas o direito de eu sê-lo hoje. Não vou deixar meia-dúzia de falsos “evangélicos” estragar isso. Vamos denunciar seus erros e suas práticas apócrifas. Vamos denunciar seu comportamento e suas ideias como algo estranho ao nosso corpo. Vamos purgar o mal que está em nosso meio pela proclamação da verdade que denuncia a mentira. Mas escapulir pela porta dos fundos furtivamente não é a saída. Postar-se de queixo erguido na porta da frente, de peito aberto, e assumir quem somos e quem eles são e que não compartilhamos da mesma fé… essa sim é a resposta.

Meu nome é Maurício Zágari e honro meus pais, que me deram esse nome. Honro meus antepassados, que me deixaram esse sobrenome como legado. Não os mudo por nada. Do mesmo modo, honro a Cruz de Cristo. Honro o Evangelho de Cristo. Honro os que resgataram pela Reforma o Evangelho de Cristo. E honro o nome que me deixaram: evangélico.

Se você tem vergonha disso, vá. E junte-se aos vergonhosos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio
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Vamos fazer uma coisa chata para muitos cristãos que estão na Internet: ler a Bíblia. Não, claro que não estou falando de você, querido leitor, que sem sombra de dúvida tem momentos devocionais diários e que investe muito mais tempo na leitura da Palavra de Deus do que em outros prazeres, como Twitter, Facebook, televisão, shows gospel e entretenimentos do gênero. Ler a Bíblia não diverte, é apenas um privilégio que o Criador do universo concedeu àqueles que querem de fato conhecê-lo em intimidade, negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo. E, veja só, é exatamente sobre isso que tratam as três passagens das Escrituras que te convido a ler agora. As três contam o mesmo episódio, mas tirado de evangelhos diferentes:

Em Lucas 9.22-24, Jesus diz: “É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite. Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará“.

Já em Marcos 8.34-36, conta o evangelista: “Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?“.

Por fim, Mateus 16.24-27 afirma: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras“.

Todos nós conhecemos essas palavras de Jesus. Mas o que elas querem de fato dizer? O que significa “negar-se a si mesmo”? E… “tomar a cruz”? Coisa estranha, hoje em dia crucificação nem existe mais em nossa sociedade. O que então Jesus quis dizer com isso? Quais são suas implicações práticas? Bem, vamos devagar.

Em primeiro lugar é importante vermos a quem Jesus estava se dirigindo. Os textos deixam claro que havia uma multidão dos que o seguiam e… os discípulos. Ou seja, Jesus estava falando para crentes. Para mim e para você. E não foram palavras fáceis de se ouvir. Não foi um exposição sobre prosperidade material, “Vida Vitoriosa para Você”, sobre declarar a bênção ou “tomar posse” do carro do ano. Não, nenhuma dessas heresias foi o assunto de Jesus. Ele falou sobre algo duro. Algo que ninguém quer ouvir: abnegação.

“Abnegação”, como a análise da palavra mostra, tem a ver com ab-negação, ou seja, com negação do interior. Segundo o dicionário, é “renúncia  espontânea do interesse, da vontade, da conveniência própria”. É sobre isso que Jesus está tratando aqui: negar-se a si mesmo significa não lutar em favor do que lhe interessa, de dinheiro, de um bom marido, de facilidades, de benefícios. Significa, isso sim, abrir mão do que me interessa, do que me é conveniente, daquilo que tenho vontade de fazer”. Ok, mas e depois? Bem… depois a coisa piora.

Passo a passo: Jesus está dizendo para aqueles por quem tinha vindo à terra sofrer e morrer que teriam de abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades. Só que não para aí. O Mestre prossegue: “Dia a dia tome a sua cruz”. Coisa pesada, literalmente. Estima-se que uma cruz pesasse cerca de 80 a 90 quilos. Olha, não sei se você tem noção, mas isso é MUITO peso. Minha filha pesa cerca de 9 quilos e se a carrego no colo por pouco mais de dez minutos sinto dores nos braços, nas costas, em tudo o que é parte do corpo. Multiplique isso por dez. Me imagino carregando dez filhas e a imagem que vem a minha mente é uma dor de coluna incomensurável.

Mas não é só a um difícil, cansativo e doloroso ato físico que Jesus está se referindo. Repare o contexto no evangelho segundo Lucas. Antes de dizer o que era necessário para segui-lo, o Cristo profetiza a sua própria paixão e morte: “É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite”. Ou seja: Jesus antevia sua própria cruz. Que viria depois de “sofrer muitas coisas”, “ser rejeitado” e, enfim, causaria sua morte.

Eis o que Jesus propõe aos que desejam segui-lo: abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades, sofrer muitas coisas, ser rejeitado e até dispor-se a perder a vida por sua decisão. E isso “dia a dia”, ou seja: sempre. Nada fácil, hein?! Dá vontade de dizer “fala sério, Jesus, pega leve”.

“Mas então esse negócio de ser cristão é um péssimo negócio, Zágari”, muitos poderiam dizer. Bem, aparentemente só temos a perder ao ir após Jesus, ou seja, ao segui-lo. Mas calma. O texto ainda não terminou, ele não para por aí. “Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará”. Aqui já entra um elemento novo: Jesus empenha sua palavra numa promessa: que quem se submeter a tudo isso e abrir mão de sua vida por Cristo a terá salva. Uau, aqui o jogo vira. As nuvens negras começam a deixar passar um raio de sol. “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”, é a pergunta crucial do Mestre. Por quê?

Porque até agora parecia uma péssima ideia seguir Jesus. Abnegação, carregar uma cruz di-a-ri-a-men-te, perder a vida, sofrer… meu Deus, quem quer isso? Pra viver esse negócio é melhor esquecer essa ideia de igreja e ir à praia. Só que aí chega o Mestre com essa pergunta, que cria uma oposição reveladora: revela o preço da alma humana. Não sejamos hipócritas: quem não gostaria de ganhar o mundo inteiro? Espere. Acho que você não conseguiu visualizar ainda o significado dessa expressão: “mundo inteiro”.

Querido, querida, nós ficamos exultantes se encontramos uma nota de 100 reais no meio da rua. Por quê? Porque é algo de valor material que pode nos proporcionar benefícios, comprar uma roupa, um lanche, 6 exemplares do livro “A Verdadeira Vitória do Cristão”, 5 ingressos de cinema e por aí vai (sim, uma entrada no cinema custa mais caro do que meu mais recente livro rs). Agora, se 100 reais nos causam essa alegria, imagine o que não nos proporcionaria ganhar “o mundo inteiro”? Pense na riqueza dos sheiks do petróleo árabes, na cobertura de Donald Trump, nas mansões dos astros de Beverly Hills, nas jóias das lojas de Rodeo Drive, no montante de dinheiro movimentado todo dia na Bolsa de Valores de Nova Iorque, nas limusines que desfilam por Los Angeles, nas fortunas dos novos-ricos de Miami, nas joias da Coroa britânica que estão na Torre de Londres, em todos os bens acumulados por falsos pastores que compram fazendas de gado e jatos particulares com o dinheiro dos fieis… pense em tudo isso e em muito, muito, muito mais. Tesouros, fortunas, prédios, impérios… meu Deus, é muita, mas MUITA coisa. Segundo a revista “Galileu”, há no mundo atualmente US$ 170 trilhões em dinheiro circulando por todos os países (ou R$ 309 trilhões). Tentei calcular quantos exemplares de “A Verdadeira Vitória do Cristão” seria possível adquirir com esse valor mas minha calculadora não teve dígitos suficientes para fazer a conta, tão grande é esse montante.

E aí vem Jesus e diz que toda essa riqueza não vale uma única alma humana. Uau. Dá pra imaginar então quanto vale uma alma? No mínimo, no mínimo, 170 trilhões de dólares, para Jesus dizer isso. Hoje eu passei numa praça e havia uma mendiga, provavelmente esquizofrênica, falando sozinha sem parar coisas sobre Brigitte Bardot. Pois a alma daquele ser esquecido pelo mundo custa muito mais que 309 trilhões de reais. Assim, eu me atreveria a dizer que NADA paga uma alma humana.

Retornando à linha de raciocínio, abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades, sofrer muitas coisas, ser rejeitado e até dispor-se a perder a vida por sua decisão todos os dias entra em um prato da balança e a sua alma, que vale mais do que 309 trilhões de reais entra no outro. Para que lado pende a balança? Jesus responde: o peso de sua alma faz com que ela abaixe o prato da balança, enquanto o mundo inteiro vai lá para cima. É um peso bem desigual.

E, ao final, Jesus encerra, dizendo “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras”. Esse e o gran finale, o desfecho, o fechar das cortinas após o último ato. Nós sofremos, fomos abnegados, abrimos mão de nós mesmos, carregamos a cruz, passamos os maiores perrengues do mundo para seguir Cristo. E agora Ele diz de que serviu isso tudo: na volta de Jesus Ele virá em sua glória e majestade, ladeado pelos anjos, na companhia do Pai, e trará recompensa. Sim, meu irmão, minha irmã, compensará. Todo o sufoco, o sacrifício, a abnegação, o abrir mão  de seus desejos, interesses e vontades, o sofrer muitas coisas, ser rejeitado e até dispor-se a perder a vida dia a dia por causa de Cristo compensará. Pois o Senhor preservará viva por toda a eternidade a sua alma de valor incalculável e, além disso, ainda lhe dará aquilo descrito em 1 Coríntios 2.9: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”.

É isso, meu irmão, minha irmã. Aparentemente, a si mesmo se negar, tomar a sua cruz e seguir Jesus pode parecer um mau negócio, pois trará muita tribulação. Abrir mão do que se quer não é fácil.  Mas, no fim, a recompensa é vida eterna para nossa alma e ainda por cima maravilhas que permanecem um segredo, já que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetraram em coração humano. Não sei o que você pensa, mas no final das contas para mim me parece um ótimo negócio. O preço para manter minha alma viva pela eternidade é carregar minha cruz? É abrir mão de mim? É despir-me dos meus quereres humanos por amor a Jesus de Nazaré? Então, por favor, apenas me ajude a apoiar esses 90 quilos no ombro e comecemos a caminhada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

(Dedicado à irmã que me pediu que não revelasse seu nome, mas cuja dúvida gerou este post)


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