Fé, esperança e amor nos tempos do cólera

Publicado: 06/01/2012 em Amor, Espiritualidade, Literatura

Acabei de reler pela quarta ou quinta vez, não me lembro, uma obra de meu autor preferido, Gabriel Garcia Marquez, chamada “O amor dos tempos do cólera” – e pela primeira vez percebi paralelos entre ele e a Bíblia que nunca antes havia notado. Com essa releitura ganhei a convicção de que, quando se fala de fé, esperança e amor, esses são os dois livros definitivos sobre o assunto. Evidentemente, a Bíblia é o maior tratado sobre esses temas já escrito na História da humanidade. Mas ela é uma obra à parte, por sua origem divina. “O amor dos tempos do cólera”, por sua vez, é fruto da graça comum. Conta a história de um homem cuja esperanca de poder viver o amor pela mulher de sua vida faz com que aguarde 53 anos, quatro meses e 11 dias amando-a na alma sem conseguir concretizar seu sentimento, uma vez que padrões sociais a empurram a um casamento com outro homem – o que leva os dois apaixonados a viver afastados, sem ao menos se tocar, por mais de cinco décadas.

O que me chamou a atenção nesta releitura é o convite à fé, à esperança e à perseverança que ambos os livros propõem, tendo como base e ponto de partida o amor. Não são livros que nos impulsionem a fazer o mais fácil, o mais rápido ou o mais conveniente, mas a nadar contra a correnteza em nome dos objetivos que são importantes para nós.

A Bíblia diz que “A esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida” (Provérbios 13.12). Ou seja, biblicamente a espera por aquilo que se anela é algo que adoece, faz mal, boicota a felicidade, dói. Por outro lado, o desejo realizado – desde que dentro da ética de Deus – traz vida, gera frutos e beleza, flores, prefume… apenas coisas boas.

Isso se repete no livro de Gabriel Garcia Marquez. Para o protagonista, tempo é um detalhe insignificante. Ele não é escravo do tempo ou de qualquer outra coisa, pois sabe com exatidão o que  quer. Traça sua meta e, livre, espera o tempo que for necessário para alcançá-la, a despeito do que se espere dele. Sua mãe quer que ele se case. Mas ele não fraqueja e, em momento algum, se desvia do alvo: quem dita sua vida não são as circunstâncias, são justamente sua fé, sua esperança e seu amor. Na Bíblia, Jesus nos torna escravos da esperança de vida eterna e com isso nos torna livres. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36). Em “O amor dos tempos do cólera”, o protagonista é escravo apenas da liberdade. Da liberdade de ter fé, esperança e amor.

Na Biblia a história se repete e se repete. Romanos 8.24b mata essa questão. “Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos“. Bingo. A Biblia estabelece o padrão. Esperar pacientemente aquilo que não vemos: essa é a essência da esperança. Ou seja, biblicamente, se você não espera o que não vê, você é um ser desesperançado e, logo, vive na contramão daquilo que é mais importante no cristianismo: a fé. Pois a fé é exatamente isso: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hebreus 11.1).

Ou seja, basta unirmos Romanos 8 com Hebreus 11 e teremos a fórmula perfeita para saber se vamos optar por viver por fé ou por vista. E, logo, quem viverá com fé e esperança e quem terá uma vida ditada pelas circunstâncias.

Em “O amor nos tempos do cólera”, o protagonista está longe de ser um bom cristão. Mas no exercício da paciência ele dá um banho em legiões de crentes em Jesus Cristo, que preferem se agarrar ao que veem do que esperar com paciência, esperança e fé aquilo que não enxergam à frente mas de fato anelam. 1 Coríntios 13.13 resume tudo: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor“. Como essas três virtudes caminham de mãos dadas, possivelmente foi por isso que o personagem do livro de Gabriel Garcia Marquez demorou um tempo para muitos impensável, mas enfim conseguiu viver o amor pleno: pois ele teve fé e esperança. Que coisa linda! Que belo paralelo bíblico!

Essa releitura, junto com a percepção do paralelo que há entre a Bíblia e “O amor nos tempos do cólera”, firmou um desejo no meu coração: o de suplicar diariamente a Deus que nunca permita que eu abandone a fé, a esperança e o amor. Caso contrário, me tornarei um escravo da desesperança e da infelicidade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Comentários
  1. Paz seja contigo, mano =]

    Diga se não é a coisa mais ilógica do mundo, esperar firmado e consolidado “apenas” em uma promessa. Não é a toa que Paulo chegou naquele nível de loucura, parecia viver em outro planeta, longe do qual os homens vivem. Ter a certeza (com muita ousadia, diga-se de passagem) da Salvação é algo que, simplesmente, é injetado em nossos corações para que tenhamos um Norte, fixo e inabalável.

    Graças ao bom Amigo pela sua promessa, mano =] Sem a esperamos forças para aguentar o mal dos tempos, com a porção de cada dia no seu dia. A flecha (ança, sem a fé na Glória Excelsa, não tem como carregar a cruz; sem essa certeza que, em Deus, já está consumada, não terínós) segue retamente ao Alvo, e não paramos até alcançá-Lo em Glória.

    O Amor de ser humano para ser humano nada mais é (ou deveria ser, pelo menos) do que o reflexo do Amor de Deus para conosco, e o Senhor está sempre à espera (enquanto há tempo), ouvindo em tempo aceitável e socorrendo no dia da Salvação. Só em Deus mesmo pra viver essas coisas, né mano? (:

    Uma porção cada vez maior de Amor para todos vós, que estão, ou não, em Cristo.

    nEle, que me faz como louco para viver a mais perfeita sanidade.

  2. marcojuric disse:

    Bom dia Zágari!
    Até entendo a analogia que você nos coloca. Também percebi a colocação de que “o protagonista está longe de ser um bom cristão”.
    Mas nesse caso (não li o livro de Marquez, apenas me baseio no seu texto) não estaria o protagonista durante todos esses anos cobiçando a mulher do próximo?
    Como assim eu interpretei, acho que outras pessoas também podem interpretar.
    No meu caso posso tranquilamente absorver a analogia e reter o que é bom.
    Me preocupo com aqueles que, sem um firme fundamento, possam fazer uma interpretação equivocada; fora dos princípios da Bíblia.

    God bless you!

    Marco Tullio

    • Marco,
      .
      no livro, ele amava a mulher, mas durante o período em que foi casada ele nunca tomou nenhum atitude para tê-la. Respeitou a opção dela e só a teve após a morte do marido.
      Lembre-se que a Biblia diz que Jesus em tudo foi tentado, mas em nada pecou. Ter a tentação é uma coisa. Deixar o a tentção evoluir para pecado é outra bem diferente.
      A postura do personagem foi ética: embora amasse mante-ve se à distância, sem dar um passo sequer para o pecado. Só buscou o objeto do seu amor após ela estar livre dos laços conjugais.
      .
      Esclarecido?
      .
      Abraço forte, na paz do Mestre

  3. ivone disse:

    Bom dia Mauricio, esta verdade e tão eterna, e quando somos levados a refletir, pecebemos o imenso e infinito amor de Deus que nos move e sustenta.Graça e paz..

  4. Mauricio Zágari,

    Incrível como seus textos vem de encontro com meu dia-a-dia e para meu crescimento espiritual e de vida. Vivo em um lar em que só tem eu de cristão e confesso que às vezes perdia a esperança de que o Senhor Jesus Cristo pudesse mudar a vida do não-cristão por tamanhas blasfêmias ditas, sobre tantos julgamentos errados e tanta ignorância proferidos pelo não-cristão.

    “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem”. (Hebreus 11:1)

    Deus seja louvado!

  5. [ Corrigido ]

    Paz seja contigo, mano =]

    Diga se não é a coisa mais ilógica do mundo, esperar firmado e consolidado “apenas” em uma promessa. Não é a toa que Paulo chegou naquele nível de loucura, parecia viver em outro planeta, longe do qual os homens vivem. Ter a certeza (com muita ousadia, diga-se de passagem) da Salvação é algo que, simplesmente, é injetado em nossos corações para que tenhamos um Norte, fixo e inabalável.

    Graças ao bom Amigo pela sua promessa, mano =] Sem a esperança, não teríamos forças para aguentar o mal dos tempos, com a porção de cada dia no seu dia; sem a fé na Glória Excelsa, não tem como carregar a cruz; sem essa certeza que, em Deus, já está consumada, não teríamos forças pra esperar tanto pelo encontro com o Amor. A flecha (nós) segue retamente ao Alvo, e não paramos até alcançá-Lo em Glória.

    O Amor de ser humano para ser humano nada mais é (ou deveria ser, pelo menos) do que o reflexo do Amor de Deus para conosco, e o Senhor está sempre à espera (enquanto há tempo), ouvindo em tempo aceitável e socorrendo no dia da Salvação. Só em Deus mesmo pra viver essas coisas, né mano? (:

    Uma porção cada vez maior de Amor para todos vós, que estão, ou não, em Cristo.

    nEle, que me faz como louco para viver a mais perfeita sanidade.

  6. Lelê (Alessandra) disse:

    Maurício,

    Fantástica a relação entre o livro e a bíblia. É impressionante como a espera é dura, mas só para aqueles que ficam olhando para o calendário sem parar e sem fé no coração.

    Digo de cadeira, tem dias que a minha fé está inabalável, mas tem dias que não tenho nem um pouquinho dela! A incredulidade toma a minha vida de uma forma tão intensa que doi a alma! A dor vem tão forte que nada é capaz de aliviar!

    Mas o meu Deus sempre me sustenta e me dá um bálsamo de refrigério! Senhor, como preciso do seu mimo diário para me sustentar! A espera só é dura para aqueles que não crêem. As vezes sou forte como uma rocha e nada nesse mundo é capaz de me fazer cair…mas tem vezes, é melhor esquecer!

    Obrigada por mais este belo presente,

    Com admiração,
    Lelê

  7. Graça e paz Mauricio.
    A analogia que você faz é muito boa, parabéns. O seu texto me fez lembrar do que o apóstolo Paulo falou a respeito de Abraão quando disse que ele esperou contra a esperança (Rm 4.18), e esperar não é uma tarefa fácil. Mas quando temos uma promessa de Deus em nossas vidas nada nos faz esmorecer.
    Creio que depois da leitura do seu texto muita gente vai quere ler o livro Gabriel Garcia Marquez e me arrisco a dizer, se identificando com o personagem rs.
    Fique na Paz!
    Pr. Silas Figueira

  8. Jennifer Dias disse:

    Que lindo texto! Você ressaltou a importância da fé, do amor, da esperança de forma simples, obrigada. ;)

  9. Aline Avelar disse:

    Olá querido,
    Gostei muito do texto, me deu até vontade de comprar o livro.Quem sabe? (:
    Falando em livro, eu gostaria de te pedir um conselho.
    É que preciso dar um livro a um amigo que não conhece a Jesus, tem 19 anos como eu, e não tenho ideia de que livro dar. Queria um que despertasse Ele para a beleza do evangelho mas todos que tentei escolher não deram muito certo. Como não conheço muitos livros e os que conheço são para cristãos praticantes alguns termos contidos nos livros deixariam ele confuso.
    Imagino que você conheça muitos,
    espero que possa me ajudar.
    Muito obrigada,
    Deus abençoe sempre
    bjinhus

    • Aline,
      eu começaria com “Cristianismo puro e simples” , de C.S.Lewis. (http://www.livrariamartinseditora.com.br/descricao.asp?cod_livro=L11226)
      .
      E se vc me permite a ousadia, eu recomendaria um livro que escrevi e que fala metaforicamente sobre o sacrificio de Jesus, “O Enigma da Biblia de Gutemberg”. É um livro pra jovens, escrito para ser lido em 2 horas, com ensinamentos básicos sobre o que significou o sacrificio de Cristo – numa história de investigação e suspense. Ganhou este ano dois Prêmios Areté de “Melhor Livro de Ficção” e “Autor Revelação” e está sendo usado por muitas igrejas no discipulado de seus jovens e até para o evangelismo. Detalhe: não estou dizendo isso para ganhar dinheiro, eu doo todos os direitos autorais para o ministério literario que o publicou, a editora Anno Domini. Então, pode ser uma opção simpática, que não pareça ostensivamente evangelistica. Vc pode saber mais sobre o livro aqui: http://www.editoraannodomini.com.br/livraria/products.php?product=O-Enigma-da-B%EDblia-de-Gutemberg
      .
      Que Deus abençoe vc e sua amiga e qq duvida é só falar.

  10. Aline Avelar disse:

    Oi Maurício,
    muito obrigada pela sugestão.
    Eu já li partes do Cristianismo puro e simples,achei muito bom mesmo,esclarecedor,fantástico. Mas acho que ele não é aconselhável,não sei,acho ele um livro mais pra quem é cristão mesmo. Posso estar enganada,não sei.
    E sobre você ter indicado um livro de sua autoria, recebi muito bem a ideia. Na verdade, eu tinha conhecimento desse livro,até mesmo aqui pelo blog, mas um conhecimento supérfluo, não tinha muita ideia sobre do que exatamente o livro tratava.
    Eu gostei muito da sinopse, vi comentários no site da editora e comprei dois. Um pro meu amigo e outro pra mim também. (:
    Muito obrigada Maurício,depois passo aqui pra comentar o livro.
    E, se me permitir passarei seu blog pra esse meu amigo, caso ele tenha alguma dúvida a esclarecer,não sei.
    Acho que nunca tive a experiência de ler um livro de um autor que eu tenha certeza que posso me comunicar. Creio que será muito legal e edificante isso.
    Mais uma vez muito obrigada.
    Amém (:
    Deus continue abençoando.

    • Aline,
      .
      primeiro, sinto-me honrado com a confiança. Espero que meu livro venha a abençoar vc e a pessoa que vc está ajudando.
      Qq coisa ou duvida é só falar.
      .
      Aliás, se vc me permitir, estou montando um post com os 10 livros que mais indico para a leitura de um cristão e cito o mano que me deu a sugestão de fazer isso. Como vc tb tocou no assunto, posso mencionar seu nome no post?
      .
      Se vc acha que “Cristianismo puro e simples” é pesado para ela, eu partiria para “Cristianismo básico”, de John Stott (http://www.ultimato.com.br/loja/produtos/cristianismo-basico). Também é muito bom e é mais evangelistico.
      .
      Deus te abençoe!

      • Aline Avelar disse:

        Amém Maurício, voltarei aqui para compartilhar sobre minha leitura. Orarei para que Deus encontre no coração deste amigo um coração aberto.

        Pode sim,não tem problemas. Será um post muito edificante para mim também.

        Oks, ponderarei a respeito desse livro do John Stott, vou esperar a reação dele em relação ao primeiro,orarei a respeito.

        Amém, que Deus continue abençoando.

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