Arquivo de setembro, 2011

Igrejas são como zoológicos. Nelas há todo tipo de “animal”: ovelhas, bodes, serpentes, burros de carga, gorilas preguiçosos, muitos pavões  e outros espécimens interessantes da fauna humana. Em meio a essa confusa Arca de Noé, é possível encontrar também uma alva e ativa pomba branca, que sobrevoa constantemente todos os outros animais. Ela remove com seu bico carinhoso todo tipo de parasita, pulga, espinho, farpa, carrapato e outras cracas daqueles bichos que lhe pedem auxílio,  arrependidos por terem rolado na grama ou na lama e ali adquirido o que não deveriam.  Como em todo zoológico, nas igrejas há de tudo, inclusive coisas ruins, como cheiro de estrume, fossos mal-cuidados, jaulas enferrujadas, animais que tentam comer o alimento uns dos outros e uma série de outros problemas. Não deveria ser assim, mas é.

Convidando visitantes

A grande questão aqui é que aqueles que fazem parte da congregação adotaram o hábito de, na maior parte das vezes em que convidam um visitante, promover o zoológico e não a pomba que ajuda a remover todos os carrapatos dos que entram pelas suas portas. Aliás, perdoe-me, a culpa é minha por não ter falado isso ainda: a pomba é a principal atração do zoológico. Os outros animais estão ali apenas para serem limpos por ela e para a amarem.

O resultado de convidarmos um visitante para conhecer o zoológico em vez de conhecer a pombinha é obvio. Se você chama alguém prometendo a ele que o zoológico será um lugar de animais educadinhos, sem sujeiras, onde os bichinhos não se estapeiam se são postos na mesma jaula… O que aquele visitante terá é uma enorme decepção ao ver como a coisa é de verdade. Seu passo seguinte será fazer o que qualquer um de nós faria: sair correndo daquele zoológico cheio de jardins mal-cuidados, macacos que atiram fezes nos visitantes e onde cada animal acha que sua jaula deveria ter mais destaque que a dos demais.

O mais triste disso é que cada visitante que chegou porque lhe dissemos que “o meu zoológico é abençoado” ou “o zelador do zoológico é muito legal” foi até lá cheio de pulgas, carrapatos, farpas e outras cracas e acabou indo embora sem ter a chance de ser limpo pela pombinha branca.

Por isso temos que acabar com essa mania de evangelizar as pessoas oferecendo igrejas em vez de Cristo. “Venha ao culto, minha igreja tem um astral superlegal”; “Venha ao culto, meu pastor prega muito”; “Venha à igreja, os irmãos são abençoados”; “Venha à igreja, o clima lá é ótimo”; “Venha ao culto, você tem algo melhor o que fazer domingo à noite?”. E por aí vai. Só que qualquer um desses discursos é errado.

Quer convidar alguém para a sua igreja? Seja honesto. Diga-lhe isto: “Venha à igreja, é uma instituição imperfeita, formada por pessoas imperfeitas, mas ali você ouvirá a pregação do Evangelho e, mediante isso, Jesus pode resgatar você da sua vida de pecados e salvá-lo para passar consigo a eternidade. Você verá que o pastor e os irmãos cometem muitos erros, mas de qualquer maneira é ali que você poderá ouvir a pregação das verdades divinas, é ali que vão orar por você, é ali em que poderá celebrar a cerimônia máxima da nossa fé – a Ceia do Senhor – junto com os irmãos, é ali que, depois que você amadurecer no Evangelho, poderá ajudar aqueles que chegarem em busca desse mesmo Cristo que nos redime e nos dá a vida eterna“.

O Espírito Santo não precisa que você venda ao pecador aquilo que é imperfeito para que ele corra aos braços dAquele que é perfeito. Você só tem que proclamar. Só. Mais nada. Quem convence é Ele. Quem dá o dom da fé é Ele. Quem tem graça a oferecer é Ele. Pare com essa mania de tentar convencer o pecador a se converter. Pare de encher a paciência das pessoas para que elas conheçam a sua igreja. E, principalmente – pelo amor de Deus! – se na sua igreja fazem apelo ao final de cada pregação, não fique insistindo inconvenientemente  ao convidado para que ele vá à frente e levante a mão diante da congregação. Se Cristo o salvar mediante a fé, o perdido será desperto pela pregação da Palavra: seu visitante receberá o toque do Espirito ali no banco mesmo, sem que você tenha de fazer nada. E das duas uma: ou ele vai à frente sozinho ou ele cai de joelhos, às lagrimas, sob o peso da consciência do seu pecado. Aborrecer as pessoas que não foram tocadas pela graça é perda de tempo e é antibiblico. Lance a semente. O resto é com Deus. É ou não é Ele quem dá o crescimento?

Jesus nunca idealizou uma igreja perfeita

Entenda uma coisa que em geral todos pensam o contrário: a proposta de Deus sempre foi uma igreja imperfeita. Jesus falou que o joio cresceria com o trigo até a época da colheita. Então por que a surpresa? Por isso os desigrejados me entristecem, porque não tiveram a capacidade de compreender  a realidade da congregação dos santos, acharam que o zoológico fedorento seria um parque cheio de animaizinhos saltitantes e felizes. Então no primeiro coice que a zebra leva do camelo ela já quer pular fora.

Sim, somos um zoológico. Mas enquanto a pomba sem mácula  sobrevoar a imundície dos animais que se aglutinam ali embaixo e cuidar para que todos os dias eles fiquem limpinhos… Não existe nenhum outro lugar
do mundo em que eu prefira estar.

Eu preciso muito. Meus carrapatos, minhas farpas e minhas pulgas são feios e doem, machucam demais. E os seus? É por isso que, por mais que o zoológico seja muitas vezes um aglomerado de animais estranhos e com cheiros não muito agradáveis, é ali que eu estarei. Para que a pomba sem mácula pouse sobre mim diariamente e me livre das minhas sujeiras. Enquanto ela faz isso eu a acaricio e lhe agradeço eternamente, pois vejo na pontinha de suas asas e de suas patinhas furos provocados por cravos que dois mil anos atrás foram postos ali. E quando ela termina a limpeza do dia eu saio pelos portões do zoológico e vou anunciar ao mundo que só aquele lindo exemplar da fauna divina é capaz de resgatar todos aqueles que se entregarem a seus cuidados. Ela limpará todos esses de toda impureza, sujeira, parasitas e a dor que eles causam.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

.

Claro que não! Simples e objetivamente: um cristão não deve ouvir música do mundo. “Nossa, Zágari, agora você foi radical, pegou pesado!”, você poderia dizer. Calma. Antes de discordar do que escrevi e me crucificar, é importante que entenda exatamente o que estou querendo dizer. É que há um ponto nevrálgico nessa discussão: temos de compreender precisamente o que é “música do mundo” – que não necessariamente é o que se costuma chamar por aí de “música do mundo”. Pois música “secular” é uma coisa, música “do mundo” pode ser outra completamente diferente. E aí nós temos uma questão interessante a debater. Que, para solucionar, temos que pensar sempre dentro da Bíblia.

(Só um alerta, em amor: essa questão não se define em 3 ou 4 parágrafos. Por isso, este será um post longo e, se você estiver sem tempo de ler ou não tiver paciência de ler textos compridos, sugiro que nem vá adiante. Mas, se quiser prosseguir, vamos juntos, passo a passo.)

1. O que a Bíblia chama de “mundo”?

Primeiro temos que compreender o que a Biblia chama de “mundo”. No contexto das Escrituras, “mundo” (do grego kosmos) é todo um sistema de valores e práticas que se opõem ao Evangelho, ou seja, àquilo que Jesus ensinou. Ao Reino de Deus. Às boas-novas de salvação. Logo, tudo o que contraria os genuínos ensinamentos cristãos, a ética cristã, a moral cristã, os conceitos bíblicos é… do mundo. E, nesse sentido, não é “mundo” com significado de “universo” ou “planeta terra”, mas no sentido de tudo aquilo que, em resumo, levaria Jesus a fazer careta.

2. Os cristãos não devem se misturar com o que é do mundo

Tendo entendido o que é “mundo” segundo a Biblia, vamos ao segundo passo: provar biblicamente que Jesus e o que é do mundo não se misturam. E, logo, que o cristão e o que é do mundo não se misturam. Para isso, vamos à Palavra de Deus:

1  João 2:15 – “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele”.

João 1:10 – “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu”.

1  Jo 4.4,5 – “Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve”.

João 3:17 – “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”.

João 15:19 – “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia”.

Há muitas outras passagens, como a famosa Jo 3.16, mas, para não tornar este texto demasiadamente enfadonho, acredito que essas já são suficientes para demonstrar essa realidade: se você é cristão, se você é sal da terra e luz do… mundo… não deve se misturar ao que vai contra Cristo e aos ensinamentos de Cristo.

E tudo o que vai contra Cristo… É mundo.

Até aqui tudo bem? Ficou claro que, segundo a Biblia, o cristão não deve se misturar com valores anticristãos, ou seja, mundanos? Ok então, vamos adiante.

3. O que é música “do mundo”?

Seguimos para o terceiro e fundamental passo: dedinir o que exatamente é “música do mundo” – aquela que, pelo que já vimos pelos dois passos anteriores, tem de ser evitada pelo cristão. “Música do mundo” seria, então,  aquela que contraria o Evangelho, que se opõe aos ensinos de Jesus, que leva aos ouvidos (e, em seguida, ao cérebro e, como consequência, ao coração e à alma) mensagens que batem de frente com a ética de Cristo, com as boas-novas do Reino de Deus. Então, o conceito de “música do mundo” está ligado diretamente a aquilo que determinada canção diz: seus valores, sua filosofia, seus ensinamentos.

Portanto, biblicamente, uma música ser ou não do mundo não tem nada a ver com estilo musical, instrumentos utilizados, melodia, harmonia ou ritmo. Tem a ver com MENSAGEM. Com o que ela diz. Com o que ela defende. Com o que ela ensina.

Tendo compreendido isso, vamos falar a respeito de alguns mitos e algumas verdades sobre música “do mundo” e música “cristã”:

Fato 1) A Bíblia não determina cantarmos ou ouvirmos apenas músicas religiosas
Embora todos amemos e devamos louvar, elogiar o Senhor em canções e reconhecer quem Ele é e faz, a Bíblia não afirma diretamente em nenhuma passagem que o cristão só pode ouvir músicas que falem de Deus ou que sejam louvores. Pelo contrário, uma leitura atenta dos livros de Salmos, Cântico dos Canticos e até mesmo Jó, por exemplo, demonstram que a exaltação da criação de Deus, do amor, de sentimentos belos são algo lícito ao povo de Deus. O Salmo 150 infere que louvar deve ser uma explosão de amor pelo Criador. Mas não há proibição bíblica de cantar o amor de um homem pela mulher que ama, por exemplo. Assim, não é antibíblico (logo, não é pecado) eu escrever uma poesia de amor para minha amada ou mesmo uma que exalte as belezas da cidade onde vivo e em seguida musicar esses versos. Poderia, por exemplo, cantar…

.

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar

ou

Cidade maravilhosa,
Cheia de encantos mil!
Cidade maravilhosa,
Coração do meu Brasil!
Jardim florido de amor e saudade,
Terra que a todos seduz,
Que Deus te cubra de felicidade,
Ninho de sonho e de luz.

…e não estaria cometendo absolutamente nenhum pecado. Simplesmente porque nada do que a letra dessas músicas diz contraria o Evangelho, se opõe aos ensinos de Jesus, leva ao coração mensagens que batem de frente com a ética de Cristo, com as boas-novas do Reino de Deus. Então a conclusao lógica e bíblica é que músicas de amor, canções que exaltam belezas naturais ou até mesmo que, sei lá, contem uma história sobre dois capiaus em visita a uma fazenda – e muitos outros tipos de músicas seculares que não necessariamente são cantadas em igrejas, gravadas por cantores supostamente cristãos ou que sejam tocadas em rádios ditas “evangélicas” – são “música do mundo”. Simplesmente porque não se encaixam na definição bíblica de “mundo”. Não contrariam a Bíblia. Não se opõem a Cristo. Não ensinam nada diferente do que está nas Sagradas Escrituras.

São músicas seculares? Sim. São músicas que não necessariamente falam de Deus ou de seus feitos? São. Mas são músicas que contrariam Cristo ou o Evangelho? Não. Então, evidentemente não são louvores ou músicas sacras, mas também não são músicas “do mundo”, ou seja, músicas pecaminosas.

Fato 2) Muitas músicas seculares são sim “do mundo” e devemos evitá-las
Aí você pode estar pensando “Uhu! Então liberou geral! Posso ouvir o que quiser!”. Nananinanão. Não é bem assim. Biblicamente você pode ouvir uma música que não necessariamente fale de Deus, mas você SEMPRE tem que prestar atenção na letra das músicas, na MENSAGEM que elas transmitem. Se essas músicas apregoam valores antibíblicos, porque aí sim elas são músicas do mundo. E aqui vou dar exemplos práticos. Em pleno Rock in Rio, li no twitter uma cristã dizendo que estava triste porque não poderia assistir ao show dos Titãs. Por isso, decidi tomar esse grupo como exemplo. Bem, os Titãs têm músicas cujas mensagens são claramente antibíblicas. E, por definição, são “música do mundo”. Por exemplo, comecemos com a música mais óbvia, chamada Igreja. Leia com atenção a letra, com especial atenção ao que está em negrito:

Eu não gosto de padre
Eu não gosto de madre
Eu não gosto de frei.
Eu não gosto de bispo
Eu não gosto de Cristo
Eu não digo amém.
Eu não monto presépio
Eu não gosto do vigário
Nem da missa das seis.
Não! Não!
Eu não gosto do terço
Eu não gosto do berço
De Jesus de Belém.
Eu não gosto do papa
Eu não creio na graça
Do milagre de Deus.
Eu não gosto da igreja
Eu não entro na igreja
Não tenho religião.
Não!
Não! Não gosto! Eu não gosto!
Não! Não gosto! Eu não gosto!

Agora… você, que é cristão, me responda sinceramente: você cantaria essa música achando que “não tem nada a ver”? Se alegrando, sorrindo e pulando? Isso é algo que uma pessoa lavada e redimida pelo sangue daquele que foi à Cruz pelos pecadores sai cantando feliz da vida? Haveria anjos ao redor se alegrando? Você responda.

Vamos a outra: Homem Primata. Selecionei um trecho:

Eu aprendi
A vida é um jogo
Cada um por si
E Deus contra todos
Você vai morrer
E não vai pro céu
É bom aprender
A vida é cruel…

E aí, crente? Cantamos e nos alegramos cantando isso? “Deus contra todos”? Por favor, apenas pare um minuto para pensar no que você está cantando: “Deus contra todos“! Como assim?!

Para completar o pacote, só mais uma, da qual extraio um trecho: Epitáfio

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…

O acaso? Mas se a Bíblia diz que há um Deus que controla todas as coisas, como seria possível que “o acaso” protegesse alguém? Biblicamente, “acaso” é um conceito que não existe. Logo, Epitáfio traz uma mensagem antibíblica. E, logo, lamento informar, é música do mundo.

Usei os exemplos do Titãs porque é um grupo bem conhecido e você possivelmente já cantou essas canções (e outras que são tão chulas que nem me atrevo a escrever a letra aqui), como eu mesmo já cantei milhares de vezes antes de Jesus me converter, fui a shows, comprei os CDs. Só que aí somos salvos, o Espírito Santo passa a habitar em nós e começa a nos convencer do pecado, da justiça e do juízo. E você, que é salvo, sabe como essas coisas nos incomodam, não é? Aí você começa a ouvir as MENSAGENS que grupos como os Titãs passam em músicas como essas (e olha que só citei três, hein) e algo faz um clique no teu espírito sobre esse papo “careta”, “radical”, “ortodoxo” e “fundamentalista” de “não ouvir música do mundo”.

Mas, para não ficarmos falando somente de uma banda, deixe-me pegar apenas um outro exemplo de um universo de grupos e cantores que poderiam pegar: o conhecido Barão Vermelho. Seleciono uma música que tem um título bem sugestivo e que era a minha preferida deles antes de Jesus me justificar, chamada Nunca existiu pecado. Reproduzo as 3 primeiras estrofes:

A rapidez velha do tempo
Revive inquisições fatais
Um novo ciclo de revoltas
E preconceitos sexuais

Por mais liberdade que eu anseie
Esbarro em repressões fascistas
Mas tô a margem disso tudo
Desse mundo escuro e sujo

Não tenho medo de amar
Pra mim nunca existiu pecado
Essa vida é uma só
Nesse buraco negro eu não caio.

Ou seja, Barão Vermelho está defendendo por meio da mensagem dessa letra que:
1. Não existe pecado;
2. O Cristianismo é sexualmente preconceituoso;
3. A ética de Cristo é uma “repressão fascista” porque contraria aquilo que o pecador deseja fazer;
4. Quem afirma que existe pecado (obviamente nós, cristãos) representa um “mundo escuro e sujo”;
5. A defesa da ideia de que existe pecado é um “buraco negro”.
.
Agora me diga você: em sua opinião, a letra dessa música contraria o Evangelho, se opõe aos ensinos de Jesus, leva ao coração mensagens que batem de frente com a ética de Cristo, com as boas-novas do Reino de Deusou não? Se a sua resposta foi “sim”, então essa é uma música “do mundo”. Portanto, chegamos aqui à grande conclusão: segundo os padrões bíblicos, “música do mundo” NÃO é sinônimo de “música secular”. Logo, as músicas do mundo sim, devemos evitar. As seculares, não necessariamente.
.

Fato 3) Não existe um estilo musical chamado “música evangélica”
O que existe é música feita a partir de realidades bíblicas. E que podem ser feitas em diferentes estilos. “Vem com Josué lutar em Jericó…”, por exemplo, é rock. “Aquele que tem sede busca beber da agua que Cristo dá…” por sua vez, é axé. Cassiane em geral tem muito forró. E por aí vai. Logo, não existe nenhum estilo “maldito” ou, como diz um amigo meu, “não existe dó maior ungido e sol sustenido endemoninhado”. Se você for analisar com cuidado, verá que “música evangélica” no imaginário popular é:

● Música cantada em igreja;
● Música cantada por cantor que frequenta igreja (dito “cantor evangélico”);
● Música gravada por grupo de louvor de igreja;
● Música que toca em rádio “evangélica”;
● Música lançada por gravadora “evangélica”;
● Música que consta em algum hinário tradicional.

Só que, desses itens, alguns são muito duvidosos. Das músicas cantadas em igrejas, muitas carregam em si heresias e são músicas “do mundo” (calma, falaremos em detalhes sobre isso daqui a pouco). Eu conheço pessoalmente “cantores evangélicos” que vivem como pagãos, são pecadores, só estão atrás dos bens materiais que sua notoriedade pode lhes proporcionar. Conheço “grupos de louvor” que tocam pela fama e o dinheiro e não por um desejo real de louvar o Senhor. Sei que muitas “rádios evangélicas” só existem para gerar lucro e poder para seus donos, que por sua vez vivem vidas pecaminosas e totalmente fora do Evangelho. Conheço os bastidores de certas “gravadoras evangélicas” onde o ambiente é tão mundano que nenhum funcionário confia em sair pra almoçar e deixar a bolsa em cima da mesa, pois ocorrem furtos ali dentro. E entenda: eu conheço. Não ouvi falar. Sei o que estou dizendo.

Portanto, dizer que só podemos ouvir “música evangélica” (se por “música evangélica” entendermos o que mencionamos acima) é uma afirmação cheia de buracos.

.

Fato 4) Fazer versões de músicas seculares com letras cristãs não é pecado
Pelo contrário, é uma prática muito, mas muito mais usual em nossos hinários do que você imagina. Uma enorme quantidade das músicas contidas em hinários como a Harpa Cristã e o Cantor Cristão, por exemplo, originalmente eram canções entoadas em prostíbulos (não vou dizer quais para que da próxima vez que você for cantá-las não as considere indignas). Os músicos que tocavam nessas casas de pecado se convertiam, pegavam as melodias que conheciam (muitas das tinham letras originais que falavam sobre encher a cara de uísque e vinho, além de coisas similares), punham letras cristãs e passavam a cantá-las durante os cultos, nas igrejas. Isso é histórico, basta você estudar um pouco sobre isso que vai comprovar, não estou inventando nada disso.

E não só músicas de bordel. Músicas seculares de outras linhas também. O hino 185 da Harpa Cristã, por exemplo, é o Hino Nacional da Inglaterra com uma letra cristã: “Vem tu, ó Rei dos reis, buscar os teus fiéis…“. Já o conhecido hino “Os guerreiros se preparam para a batalha…” é o Hino Nacional das Ilhas Fiji, você sabia? O tradicionalíssimo hino “Vencendo vem Jesus” (Glória, glória. Aleluuuuuia!) é uma versão de uma música militar da época da guerra civil americana chamada “John Brown”s Body”, que exaltava os esforços de um homem na guerra. Um mulher cristã ouviu a melodia, gostou e pôs um letra cristã. E, a partir daí, começamos a cantar em nossas igrejas, Deus sempre foi louvado maravilhosamente por intermédio dessa canção, a entoamos ainda hoje e o religare do homem com o Criador ocorre perfeitamente – apesar da origem pagã da música. Ou você achava que essa música desceu do céu trazida por um anjo numa bandeja de prata? Não, muitas músicas que consideramos “hinos sagrados” (e são!!!) têm origem secular e são adaptações feitas para o canto religioso.

Mais recentemente há exemplos como o do cantor Marco Aurélio, que gravou “Caminhada” (“Eu vi Jesus, Jesus me viu, no mesmo instante me redimiu…“). Ela nada mais é do que a canção “My Way”, cantada por músicos como Frank Sinatra e Elvis Presley. E por aí vai. A pergunta é: essas versões deixam de ser válidas ou dignas de serem cantadas em cultos e igrejas como hinos congregacionais porque originalmente eram seculares? De jeito nenhum. Pois tornaram-se músicas com MENSAGENS cristãs.

Fato 5) Muita música dita “evangélica” é “do mundo”
E aqui chegamos ao ponto mais polêmico de todos. Só porque uma música foi composta ou é cantada por alguém que se apresenta como cristão isso não quer dizer que ela transmita valores biblicamente corretos. Há muitas e muitas músicas “evangélicas” que são “do mundo”. Exemplo: tem um conhecido grupo gospel (que inclusive saiu brigado de sua igreja) cujo vocalista (que agora já saiu da banda para seguir carreira solo) na “ministração” antes de começar uma de suas mais cantadas músicas em igrejas fala como se estivesse orando a seguinte frase (está registrada inclusive no CD):

- Nós queremos um romance contigo, Senhor.

Peraí. “Romance” com Deus? O Todo-Poderoso Criador dos Céus e da Terra agora virou o quê? Nosso namoradinho? Desculpem-me, mas isso é antibíblico e, logo, mundano.

Outro exemplo: um conhecido corinho cantado em muitos louvores, às lágrimas, por muitos de nós, diz a seguinte coisa:

Diante dEle se dobram os reis
E se prostram para O adorar
Nem os anjos que O cercam louvando
Se permitem sua face olhar

Só tem um detalhe: essa letra é antibíblica. Mateus 18.10 diz: “Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos! Pois eu lhes digo que os anjos deles nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai celeste”. Então temos que decidir se os anjos contemplam a face de Deus ou não. Eu fico com a Bíblia, que diz que sim, os anjos contemplam a face de Deus, ao contrário do corinho. E se o corinho diz algo que vai contra o que está na Bíblia, desculpem, é “música do mundo”. “Ah, Zágari, você está sendo radical, o resto da música é perfeito , afinal, é um louvor tão bonito…”, alguém poderia dizer. Bem, aí entram 1 Co 5.6 e Gl 5.9, que dizem que, biblicamente, um pouco de fermento leveda toda a massa. Nesse sentido sou radical sim: basta uma única e pequena heresia na letra de um “corinho”, de um “hino” ou de um “louvor” (como você preferir chamar) para o descartarmos dos nossos cultos.

Isso sem falar dos chamados “corinhos do fogo”, muito habituais nas igrejas pentecostais não-reformadas. Tem um que diz “O fogo santo está queimando, o Espírito Santo está batizando“, referindo-se ao que os pentecostais chamam de “batismo no Espírito Santo” e os tradicionais de “plenitude do Espírito”, seguindo a linha defendida por teólogos como John Stott. Fato é que, biblicamente, o responsável por esse fenômeno é Jesus, o Deus Filho, e não o Espírito Santo. Outro ensino antibíblico e, portanto, “do mundo”.

Fato é que toda letra de cânticos (congregacionais ou não) “evangélicos” deve ser submetida ao crivo bíblico. O certo não é o que a pessoa sente, se ela fica emocionada, arrepiada ou se chora: o certo é o que está de acordo com a Bíblia.  Como afirmou o Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho em palestra durante um Encontro de Músicos, na PIB de Manaus, “Raramente se fala de Jesus, e, quando se fala, dá para notar que Jesus é muito mais um conceito para dentro do qual as pessoas projetam seus sonhos de consumo ou de classe média do que o Redentor e Salvador. A linguagem é horrorosa: mergulhar nos teus rios, beber nos teus rios, voar nas asas do Espírito, estar apaixonado por Jesus, subir acima dos querubins… uma série de expressões que não fazem sentido algum”, afirmou Pr. Isaltino. E, convenhamos, com toda razão.

Cantamos na igreja sem saber o que estamos cantando, por ignorância teológica e porque determinada música toca na rádio, é de um grupo famoso, está na moda e o povo gosta.  Por exemplo, no “corinho” abaixo…

Quero subir ao Monte santo de Sião
E entoar o novo cântico ao meu Deus
Mais que palavras minha vida eu quero entregar
Purifica o meu coração para entrar em Tua presença
contemplar a Tua grandeza

…o que as pessoas não sabem por desconhecimento bíblico é que o “monte santo de Sião”, segundo Hebreus 12.22-24, é um símbolo do Evangelho, da Igreja de Deus. Consequentemente, todo cristão já está no “monte santo de Sião”. E, por isso, não há teologicamente, segundo o Novo Testamento, por que “subir” nele. Mais um equívoco bíblico. Também cantamos em nossas igrejas:

Eu só quero Te amar,
Eu só quero ver Tua face
Quero Tocar Seu coração
Eu só quero Te amar,
Eu só quero ver Tua face

O mesmo cantor tem outro corinho que diz:

Quero te ver, quero te ver
Eu quero te tocar,
eu quero te abraçar
Quero te ver

Detalhe: é importante repararmos que o cantor está dizendo que quer ver Deus e sua face EM VIDA e não no porvir. Só que se nós formos ler Êxodo 33.20, é claríssimo e inequívoco o que Deus diz a Moisés: “Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá”. Então o que estamos pedindo nesses corinhos é para ver a face de Deus e morrer? Algo está biblicamente errado e, se formos analisar, estamos fazendo pedidos mundanos a Deus. Como eu “quero te ver” se Ele diz na Biblia que “homem nenhum verá a minha face , e viverá”? Instinto suicida?

Em João 12.45 e João 14.9 Jesus afirma claramente a forma de ver o Pai: ver a Ele próprio, Jesus. “Quem me vê a mim vê o Pai”. Logo, é buscando Cristo e sua pessoa em espírito que temos acesso a Deus, não tem nada a ver com “eu só quero ver a tua face”. No discurso de Pedro no dia de Pentecostes em At 2.28, ele deixa claro que contemplar Deus face a face só ocorrerá na eternidade: “Com a tua face me encherás de júbilo”. A face de Deus é biblicamente inalcançável nesta vida. Logo, por que ficamos cantando pedindo para”ver sua face”, já que isso biblicamente não é possível – logo, é antibíblico? Pronto, não me odeie por dizer isso, mas a falta de canonicidade nessas afirmações de corinho tornam músicas como essas…músicas “do mundo”.

Conclusão

Falar sobe música “evangélica”, “do mundo”, “sacra”, “cristã” ou “secular” é um assunto muito sensível. Pois mexe com muitas ideias pré-concebidas, com muitas práticas que mutidões adotaram por décadas em sua vida de devoção, é contrariar crenças e práticas. Para um pastor, chegar à concusão de que um corinho que ele cantou por anos em sua igreja é música “do mundo” e, assim, removê-lo do rol de canções que são executadas no culto não é uma tarefa fácil. Exige oração, humildade e temor sincero a Deus. Para uma ovelha que anatemizou durante anos músicas seculares achando que “rock é coisa do diabo” e de repente descobrir que bandas de “rock gospel” como Oficina G3 têm letras e mensagens muito mais bíblicas do que certos hinos de 200 anos de idade exige quebrantamento.

Não estou falando aqui de estilo musical. Pois a Bíblia não fala de estilo. Logo, estilo é um assunto restrito aos gostos pessoais e não tem a ver com doutrinas e teologia. Se uma música deve ter bateria ou não, se ela pode ser acelerada ou não, se é rock, forró, bolero, valsa ou o que for, não importa. Simplesmente porque biblicamente não importa. O tal gênero “música evangélica” não existe. Cada “música evangélica” carrega um estilo próprio, seja esses que já mecionei, seja algum diferente, como black music, hip hop, blues, bossa nova, sertanejo, jazz, new wave, pop, reggae, samba, ska ou qual for. Dizer que “música tal não é do mundo porque é estilo evangélico e não rock” é uma inverdade. Pois há músicas evangélicas que são rock. E – repetindo – estilo musical só depende de uma única coisa: gosto pessoal. Não tem nada a ver com Bíblia. Se estou errado, por favor que alguém me prove nas Sagradas Escrituras.

Sendo assim, nós temos de nos voltar para o que interessa: a MENSAGEM. A pergunta que devo sempre me fazer é “o que essa música está dizendo contraria algo da Bíblia?“. Se a resposta for “não”, defendo que é uma música que pode ser ouvida por um cristão. Pois vai trazer alegria, paz, prazer. Sendo ela secular ou religiosa. Ouvir Mozart, Bach, Haendel, Mendelssohn ou uma boa ária de ópera, por exemplo, pode acalmar a alma de alguém em estresse e assim criar uma condição em seu coração que lhe permitirá orar a Deus com muito mais entrega. Eu já entrei muitas vezes na presença de Deus ouvindo o violinista judeu Itzhak Perlman executar ao violino o tema do filme “A Lista de Schindler”, por exemplo. Chorei. Me derramei. E fui muito mais sincero e entregue a Deus do que se tivesse posto para ouvir um desses CDs de pop brega evangélico.

A ao fazermos a pergunta “o que essa música está dizendo contraria algo da Bíblia?” temos de estar preparados para sofrer. Pois vamos perceber que muito do que cantamos em nossas igrejas é música “do mundo” pela simples razão de que afirma coisas que a Bíblia não diz.

Sei que o que aqui escrevi contraria a crença de muitos. Certa vez, ao ministrar numa Escola Dominical uma aluna ficou tão ofendida pela verdade que falei de que hinos da Harpa Cristã vinham de bordéis que se levantou e se retirou da sala. Sei que isso mexe com convicções e emoções. Mas não posso jamais fugir do que as Sagradas Escrituras dizem. Não podemos fugir da verdade. São as Escrituras que devem sempre nos nortear – e não aquilo que ficou estabelecido pela cultura popular (em especial a cultura popular evangélica) ao longo das décadas. E falo como evangélico, não sou desses pastores e teólogos revoltados que inventaram agora que ser “evangélico” é palavrão. Nada disso. Falo como filho da Reforma Protestante, herdeiro de Jesus e também de reformadores como Lutero e Calvino. Não renego minhas origens. Sou cristão, de tradição evangélica e me orgulho disso.

Para terminar, volto ao início de nosso texto, para a pergunta-título deste artigo. Se você me perguntar “um cristão deve ouvir música do mundo?”, eu vou voltar a afirmar: “Claro que não!”. Pois o cristão deve sempre caminhar de acordo com as Sagradas Escrituras. E se uma música, secular ou religiosa, traz em si ensinamentos antibíblicos… meu irmão, minha irmã, jogue o CD fora.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
.

Estava conversando despretensiosamente com o companheiro @valoresdoalto (editor do blog Valores do Alto)  pelo twitter e surgiu uma conversa engraçada – mas que tem sérias implicações. Eu ri, confesso, e achei a possibilidade tão sui generis que resolvi escrever um post sobre o assunto. Tudo começou quando uma apresentadora de TV da Globo criou um quadro em seu programa falando sobe médiuns, espíritas kardecistas e como eles vivem e fazem seu trabalho religioso. Bem, nem eu nem você que somos cristãos concordamos com o pressupostos doutrinários dessa religião, a começar porque eles não consideram Jesus como Deus. Só isso já bastaria. Mas temos de admitir: no que tange à questão de dinheiro, eles dão de dez em nós, cristãos evangélicos. A própria essência do espiritismo leva os médiuns a fazer o que fazem sem levar em conta as questões financeiras e a dispensar as riquezas obtidas por meio de suas “obras mediúnicas”.  Pelo contrário: levam a questão da caridade mil vezes mais a sério do que nós, o “dar mais do que receber” para eles é essencial, visto que acreditam que a caridade é o que há de mais importante para sua evolução espiritual. Então, por mais que consideremos o espiritismo uma doutrina de demônios, temos de admitir que os “grandes médiuns” (pelo menos até onde saibamos) não buscam a riqueza como finalidade de suas atividades.

Foi quando eu e @valoresdoalto especulamos como seria se os grandes pregadores da Teologia da Prosperidade se convertessem ao espiritismo. Para começar, programas de TV e até emissoras teriam de fechar ou mudar radicalmente seu conteúdo. Pois em vez de pedir, pedir, pedir, vender, vender, vender, esses tais começariam a dar. Meu Deus, que revolução isso provocaria na Igreja evangélica brasileira! Campanhas seriam lançadas para alimentar os pobres em vez de comprar jatinhos, livros inúteis de autoajuda gospel deixariam de ser publicados para a publicação de obras que falassem sobre “dar sem esperar nada em troca”. Seria surreal de ver. A cara da “igreja evangélica” mais visível na mídia mudaria radicalmente. Tá me entendendo, sim ou não?

Um pouco de conhecimento

Aliás, não sei se você sabe, mas na verdade a Teologia da Prosperidade teria tudo para ser muito mais ligada às religiões não-cristãs do que ao Cristianismo. Simplesmente porque suas raízes estão na Nova Era. Você sabe como surgiu a Teologia da Prosperidade que hoje em dia é tão divulgada por certas denominações, por telepastores, telemissionários e empresários da fé que se chamam de “pastores”? Vou te contar. Para tanto, uso como base estudo feito pelo respeitado Pastor Elinaldo Renovato de Lima, da Assembleia de Deus de Parnamirim e escritor de comentários e lições bíblicas – citando outros autores em seu artigo, publicado em detalhes AQUI, mas vou procurar resumir ao máximo.

Tudo começou com uma mulher chamada Mary Baker Eddy (foto à esquerda), fundadora do movimento herético de Nova Era chamado Ciência Cristã, que afirma que “a matéria e a doença não existem e que tudo depende da nossa mente”. Foi quando, nas décadas de 1930 e 1940, um pastor chamado Essek William Kenyon (foto à direita) passou a admirar os ensinamentos heréticos de Mary Baker Eddy, sabe-se lá por quê. Depois de pastorear igrejas batistas, metodistas e pentecostais, terminou sem ligar-se a qualquer igreja. Ele acabou fazendo uma grande salada religiosa, em que misturava as heresias de movimentos não-cristãos (como Ciência da Mente, Ciência Cristã e Novo Pensamento) com partes do Cristianismo, tornando-se assim pai do chamado “Movimento da Fé”.  Exatamente da mesma maneira que há pouco tempo o livro herético “O Segredo” ensinava, todas essas religiões afirmavam que, graças ao poder da mente, “tudo o que você pensar e disser se transformará em realidade”.

Até aí os pensamentos de Kenyon não passavam de uma grande inutilidade que não influenciava e atrapalhava quase ninguém e que seria imediatamente repudiado por qualquer cristão, até os que estivessem  em início de caminhada de fé – tamanhos os absurdos que propunha. Só que… é quando entra na história o homem que mudou isso: Kenneth Hagin.

Kenneth Hagin (foto à direita) conseguiu dar uma maquiagem cristã convincente às ideias satânicas de Kenyon. Discípulo dele, nasceu em 1918, nos Estados Unidos. Depois de ter sofrido com muitas doenças e de ter sido muito pobre, diz que se converteu “após ter ido três vezes ao inferno”. Aos 16 anos Kenneth Hagin afirmou ter recebido uma revelação de Mc 11.23,24, e aí descobriu “que tudo se pode obter de Deus, desde que confesse em voz alta, nunca duvidando da obtenção da resposta, mesmo que as evidências indiquem o contrário”.

Pronto. Com isso ele inventou a heresia da “Confissão Positiva” – aquela coisa de “eu declaro isso em nome de Jesus”, “eu tomo posse daquilo em nome de Jesus”, “eu decreto isso em nome de Jesus” etc que até hoje é um modismo disseminado como um câncer entre grande parte da Igreja.

O próximo ensinamento que Hagin herdou de Kenyon, que por sua vez herdou das religiões de Nova Era, é o das “promessas da doutrina da prosperidade”. Segundo essa doutrina, o cristão tem direito a saúde e riqueza, o que tornaria doença e pobreza “maldições da lei”.  Usando Gl 3.13,14, Kenneth Hagin diz que fomos libertos da maldição da lei, que seriam: pobreza, doença e morte espiritual. Ele tomou emprestadas as maldições de Dt 28 contra os israelitas que pecassem. Citando Pr. Elinaldo, “Hagin diz que os cristão sofrem doenças por causa da lei de Moisés”.

Depois que inventou seus absurdos, Hagin foi pastor de uma igreja batista, depois ligou-se à Assembleia de Deus, passou por várias igrejas pentecostais, e, como era de se esperar, fundou sua própria organização, o Instituto Bíblico Rhema. Uma curiosidade é que o inventor da Teologia da Prosperidade foi inclusive acusado de plágio, por ter escrito livros com total semelhança aos de seu mentor, Essek Kenyon. Sua explicação? “Não é plágio, recebi diretamente de Deus”. Tá me entendendo, sim ou não?

Pois é. Aí Kenneth Hagin começou a escrever um monte de livros, onde afirma, entre outras coisas, que “recebe revelações diretamente do Senhor” (Hagin, Compreendendo a Unção, p. 7).  E esse lixo teológico passou a ser devorado por legiões de pessoas de limitado conhecimento bíblico, que começaram a propagar a Teologia da Prosperidade. Como seus argumentos trazem soluções imediatas aos problemas da vida, foi fácil arrebanhar multidões. Mas, se você analisar bem, a Confissão Positiva e a Teologia da Prosperidade tentam com suas práticas fazer Deus de escravo – afinal, por esse pensamnto, se as pessoas “declaram pela fé”, “decretam em nome de Jesus” e coisa que o valha, o Onipotente e Soberano Criador do Universo não tem o que fazer a não ser obedecer suas criaturas como uma vaquinha de presépio.

Fim de papo

Bem, essa é a origem – de Nova Era, satânica, demoníaca, mentirosa, herética etc etc etc – da Teologia da Prosperidade. E, agora que você descobriu isso, caso já não soubesse, voltemos ao início do nosso texto. Imagine os teólogos da prosperidade se convertendo ao espiritismo, passando a acreditar em “dar é melhor que receber”, que é pela caridade que se evolui e outros pressupostos do kardecismo (e que fique claro que não estou defendendo essa religião, apenas constatando aquilo que ela advoga). As manhãs de sábado ficariam sem muitos programas de TV, emissoras de TV e rádio fechariam, do mesmo modo que milhares de igrejas que juram que você vai parar de sofrer se der ofertas em campanhas malucas… Tudo isso sumiria de repente. E, quem sabe, a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo sofreria assim uma purificação e voltaria a entender que o Reino de Jesus não é deste mundo e que riqueza material não quer dizer absolutamente nada com relação à eternidade.

Ou, outra coisa que poderia acontecer, é o que meu colega @valoresdoalto disse: “Se eles [os teólogos da prosperidade] se convertessem ao kardecismo rapidinho ia mudar a mentalidade deles [os espíritas]… kkk… iriam achar um desaforo um médium de Deus ser pobre”. É, é bem possível.

Oremos para que os teólogos da prosperidade não se convertam a qualquer outra religião que não seja o Cristianismo puro e simples. Não, queridos pastores que “decretam” e “declaram” e irmãos que “tomam posse pela fé” de carros, empregos, casamentos e outras coisas da esfera material, nós não queremos que vocês se tornem espíritas. Mas eu, pelo menos, ficaria muito feliz se vocês se convertessem de fato aos ensinamentos de Jesus de Nazaré. Tá me entendendo, sim ou não?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

.

Jesus nos ensinou a amar. A orar por quem nos faz mal. A abençoar quem nos amaldiçoa. A fazer o bem aos nossos inimigos. Jesus nunca ensinou a ofender pessoas. O Sermão do Monte é a epítome disso. Mas, por outro lado, Jesus sempre – desde os 12 anos de idade, quando no templo trocava ideias com os sacerdotes, até sua ascenção ao Céu – debateu ideias, conceitos sobre a fé, as formas de comunhão e muitas questões relativas ao Reino de Deus e sua Igreja. Seu objetivo sempre foi edificar. Ajudar. Melhorar. Pôr pra cima. Jesus nos ensinou com o bom samaritano que por mais que alguém seja diferente de nós em seus conceitos e preconceitos devemos tratá-lo bem, cuidar de suas feridas, gastar o que é nosso para ajudá-lo – no caso da parábola, dinheiro, no nosso caso… tempo? Paciência? Aconselhamento? Horas ao telefone? Um ombro amigo? Orar por DDD, se for o caso? O que for. É um exemplo que procuro seguir. Sou imperfeito, muitas vezes não consigo fazer, erro mais do que acerto, mas sigo tentando. E entendo que essa é uma meta para todos os cristãos. Mas, com base no que Cristo fez e ensinou, procuro, do meu modo falho, humano, pecador e capenga, atingir essa meta.

Infelizmente, muitos cristãos em nossos dias ignoram isso. Tendo como ídolos telepastores que são extremamente agressivos e atacam pessoas nominalmente, ou então pastores revoltados que em seus programas na internet destilam sua ira chamando outros pastores de “bundões”, ou ainda outros péssimos exemplos de liderança, legiões de cristãos por todo o Brasil começaram a achar que isso é o certo, o modelo, o exemplo, o padrão bíblico, o ensino de Jesus: ofender, xingar, ironizar, rotular, depreciar, agredir e atacar outros cristãos com frases-feitas ou termos ofensivos pelo simples motivo de que seus irmãos enxergam a fé e o modo de vivê-la de modo diferente do seu. E isso está errado. Biblicamente, muito errado. Pela razão que mencionei acima: vai na contramão do que Jesus ensinou. Basta ler Mateus 5-7 para saber disso.

Eu tenho opiniões e posições sobre a nossa fé, sobre a Igreja, sobre seus movimentos, sobre formas de culto, sobre milhões de coisas relativas a aquilo que se relaciona ao Alicerce da minha existência, que é a Videira Verdadeira, Jesus de Nazaré. Você também tem. Eu tenho direito a ter e você também. E, com toda certeza, a quase total maioria dos cristãos com quem você vai esbarrar ao longo da vida vai discordar de você sobre muitos aspectos da nossa fé. Provavelmente nenhum concordará 100% com o que você crê. Isso acontece e aconteceu entre milhões e milhões de cristãos, desde os apóstolos até os nossos dias. Sempre será assim. E, infelizmente, é até previsível que seja desse modo, pois eu e você somos humanos e temos visões particulares sobre a vida.

E qual é o problema?

Chegamos então ao problema (e é um problema grave): como lidar com isso? Bem, cada um lida de seu jeito, de acordo com sua maneira de ser, seu temperamento, a qualidade de sua intimidade com Cristo, sua educação e por aí vai. Eu tenho a minha maneira, que aprendi com o tempo, a maturidade, com ensinamentos de pessoas que me discipularam, que aprendi lendo a Biblia em vez de ficar vendo no Youtube pregações de pastores raivosos, que formulei tentando (tentando, afirmo!) imitar o modus operandi de Jesus: argumentar com ideias e conceitos, sem citar nomes. Sem ofender diretamente pessoas, mas questionando ideias que elas tenham e que sejam questionáveis. Já cometi esse erro no passado e é algo que espero não repetir.

Se eu e você somos cristãos, discordamos de algo e por isso faço uma crítica a você, você vai saber a que me refiro, mas não vou te expor. Posso e vou muitas vezes discordar abertamente, num post deste blog, por exemplo, se achar que essa discordância (anônima quanto a quem você é) pode vir a edificar vidas e levar irmãos na fé a uma reflexão que lhes fará bem espiritualmente. E aí você faz  o que quiser com minha crítica e minhas ideias: joga no lixo, empurra pro lado ou, quem sabe, aquilo que eu falar poderá levar você a pensar sobre possíveis desvios que esteja cometendo e o que digo te ajudará a ser um cristão melhor, mesmo que não te mude completamente. E vice-versa, pois não sou perfeito nem nunca serei. Mas é o que temos de fazer, simplesmente por ser o que a Biblia nos ensinou: exortar-nos em amor. Nosso debate (educado e sem ofensas, de preferência, como ensina a Bíblia) pode nos ajudar também a edificar melhor a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo em todas as suas centenas de facetas.

Coisas horrorosas

Mas, infelizmente, o que tem havido entre os cristãos (e aqui fujo de propósito de qualquer rótulo ou clichê a respeito do tipo de sua devoção, de sua denominação etc) é que suas ideias estão sendo defendidas com agressões. As mídias sociais (twitter, blogs, facebook etc) têm sido um show de ofensas entre irmãos em Cristo. Leio coisas horrorosas, que me fazem ter vergonha alheia.  Leio com uma frequência absurda frases, indiretas, desabafos ou ataques que me enojam e entristecem enquanto cristão: muitos, para combater ideias de irmãos em Cristo das quais discordam usam de uma verborragia que não carrega em si nenhuma graça ou espírito de comunhão. Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Seguem um caminho que da graça de Deus não tem nem o cheiro.

Pois o que fazem? Reproduzindo o péssimo exemplo desses pastores que ofendem homens de Deus dos quais discordam chamando-os de nomes como “bundões”, esses tais cristãos, quando veem outros cristãos (repare, ambos são cristãos! Membros do mesmo Corpo!) discordarem de suas visões sobre como a vida de fé deveria ser, começam com ofensas gratuitas. Chamam cristãos que devotam suas vidas à causa de Cristo de “fariseus”,  fazem distinções generalistas e ofensivas como “eles, os da religião; e nós, os da graça”, segregam-nos em guetos como sendo “os religiosos” (num sentido ruim, pois ser religioso não é mal algum),  e usam outros termos aos quais se apegam para se justificar. E que repetem, repetem e repetem em contextos e de formas altamente pejorativas.

Essa é uma velha e manjada estratégia que quem já estudou Lógica conhece bem, chamada ad hominem. Ela estabelece o seguinte: se você não tem argumentos sólidos contra as ideias de alguém que discorda de você, ataque a pessoa. E isso, meu irmão, minha irmã, não leva a nada. Quem se alegra com isso? Creio que Deus não. E assim esses irmãos em Cristo seguem em frente, agredindo e ofendendo os que não são da sua patota ideológica – de um modo que não vai levá-los a lugar nenhum e agarrando-se a semânticas totalmente questionáveis, como “não somos uma igreja, somos uma comunidade”. Como se isso significasse grande coisa e fizesse grande diferença.

Existem muitas expressões de Cristianismo e suas vertentes. Católicos, ortodoxos, anglicanos, evangélicos reformados, evangélicos pentecostais, evangélicos neopentecostais, evangélicos tradicionais, evangélicos antievangélicos e muitas outras. Dentro desses grupos, há outras subdivisões de crenças e modos de agir: missão integral, igreja emergente, protestantes ortodoxos, calvinistas, arminianos… é um arco-íris enorme, que contém muitas formas de expressar a mesma coisa: uma vida com Cristo. E, em vez de as críticas que surgem uns aos outros (e tenho certeza que, se as críticas partem de um Cristão com “C” maiúsculo, com o objetivo de edificar e não depreciar, é para o bem da Igreja, das ovelhas e do Reino) serem edificantres e feitas em amor, muitos partem para agressões, para rotulações, para ofensas. Chamam seus irmãos de “fariseus” e coisas parecidas. Um caminho triste, sombrio, feio. O título deste post é, por isso, “Show de ofensas entre cristãos”. Oo original era: “Você é dos cristãos que ofendem ou dos que edificam?” Creio que é uma pergunta válida.

Leio no twitter retuítes (pq eu não sigo os agressivos, se vejo que entraram por esse caminho podem ser o mais famosos que forem eu simplesmente dou unfollow) de uns que se posicionam petulantemente como “os da graça”, falando tantos absurdos contra a Igreja tradicional (institucional, evangélica ou seja lá o rótulo que queiram colar na nossa testa) que sou levado da tristeza à revolta. O Corpo de Cristo está dividido, está se agredindo, se auto-mutilando. Benefícios disso? Taí, boa pergunta, não vejo nenhum. Ofender, pelo que entendo, é inútil. E, enquanto isso, almas estão indo para o inferno.

Eu prefiro estar entre os cristãos que debatem ideias. Com argumentos. Com Biblia. Com História. Com fatos. Não vou chamar um irmão em Cristo por quem Jesus deu sua vida de “fariseu” ou de “religioso” (no sentido de alguém que vive uma religiosidade de rituais vazios e nenhuma intimidade com Cristo) justamente porque tenho muito temor ao Senhor. Mas se eu vir que esse irmão está seguindo num caminho que eu entendo biblicamente como sendo perigoso para sua própria vida espiritual e que ele pode influenciar mentes néscias, que não tiveram muita chance de estudar a Biblia nem têm intimidade com Jesus, eu vou sim me posicionar sobre suas ideias. E posso ser incisivo nesse posicionamento, sem faltar com a educação. Porque aí estarei defendendo o rebanho do Senhor. Eu amo Cristo. Amo a Igreja. Amo as almas. E estou combatendo o bom combate, mesmo que nesse caminho leve algumas pedradas e seja chamado de “fariseu”. Aceito isso em paz, pois isso me inclui entre os bem-aventurados de Mateus 5.

Uma reflexão final

É engraçado. O líder-mor no Brasil dos que se chamam de “os da graça” vive destilando em seus programas na internet acusações, defesas de si próprio, ofensas, iras, xingamentos, verborragias e ataques. Chamou já algumas vezes no ar, como eu já disse aqui, pastores sérios e homens de Deus que estão militando seriamente na causa de Cristo de “bundões”. Por sua vez, o meu líder, que é líder de uma igreja institucional, é litúrgico e ortodoxo, me ensina a não revidar ataques, a aguentar acusações, a andar a segunda milha, me exorta com carinho se sou agressivo demais em um post do APENAS, explica que esse não é o caminho, me adverte que a justiça pertence a Deus (imperfeito que sou, um dia eu chego lá). E aí eu me pergunto e estendo essa pergunta a você, querido leitor: quem tem mais graça nessa história? Quem é mais parecido com os fariseus? Quem parece viver uma religiosidade e um amor da boca pra fora? O líder cristão institucionalizado (que seria o terrível “o religioso”) ou o líder cristão da instituição anti-instituição (que seria o magnífico “o da graça”)?

Acredito que uma rápida reflexão responde essa pergunta.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

.

Li recentemente no twitter um post que dizia: “Eu cometi o pecado supremo dentro da igreja evangélica: eu pensei!”. Minha primeira reação foi um suspiro profundo. Parei alguns instantes em silêncio, pensando (pensando? hmmm… então eu pequei) sobre aquilo. Cogitei (cogito ergo sum… hmmm… novo pecado) simplesmente ignorar essa frase tão generalista e absurda, mas como a afirmação me provocou reflexões decidi escrever sobre o assunto. Não pelo que essa frase diz, o que é uma grande falácia, mas por ter ficado pensando (olha só! E não é que eu pensei de novo?! Meu Deus, quantos pecados…) nas razões que levam pessoas inteligentes, cultas, de bom coração e espirituais a dizerem coisas como essas. É nessas horas que me lembro do que Blaise Pascal disse: “A opinião é a rainha do mundo”.

A revolta contra a Igreja institucionalizada está na moda e não é nenhuma novidade. Já abordei o assunto em posts como Jesus X Igreja: tornei-me cristão quando saí da igrejaHippies, porcos e a Igreja institucional e Jesus nunca construiu templos. Como toda moda, vai passar. Qualquer pessoa que conheça História da Igreja sabe que esses movimentos vêm e vão e a Igreja permanece. Atualmente, a moda é a dos desigrejados, ou sem-igreja, aqueles que se revoltaram por mil razões diferentes contra a Igreja institucionalizada e buscam viver sua fé de modo alternativo (que inevitavelmente descambará para uma forma de institucionalismo, como recentemente o teólogo e pastor Augustus Nicodemus Lopes afirmou em entrevista ao programa de rádio Mosaico Cristão). Na verdade, isso já pode ser visto em diferentes movimentos de desigrejados, que, como no Movimento dos Sem Terra, já construíram diferentes assentamentos institucionais em que se reúnem – e muitos nem se dão conta de quão institucional é isso.

Entre as razões que levam as pessoas a abandonar a Igreja institucional há algumas legítimas e outras não. Em geral, a maioria dos que abandonam a Igreja evangélica o fazem por terem sido feridos por pastores ou membros. É compreensível que haja mágoa. Entende-se o afastamento. Lamenta-se pelos que causaram os danos (alguns muito sérios). Mas, em vez de permanecer e tentar erradicar os problemas, esses irmãos em Cristo abandonam o barco e tentam viver sua fé agarrados a botes salva-vidas, em vez de permanecer e colaborar para ajudar a consertar o que está errado. Mas é um direito que lhes cabe, apesar do que diz Hebreus 10.24,25: “E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia”.

O grande problema

O grande problema é que aí, em vez de simplesmente tentarem viver em paz com todos, muitos desses desigrejados, por razões ideológicas – ou mesmo financeiras, uma vez que muito desse falatório anti-igreja ocorre em websites patrocinados e que geram renda para seus donos, que estão usando o discurso anti-igreja institucional para faturar uns trocados institucionalmente – começam uma campanha verborrágica contra a Igreja de Jesus Cristo organizada de modo institucional (que, para usarmos os termos do tweet que inspirou este post, chamaremos a partir de agora de Igreja evangélica). Os argumentos utilizados muitas vezes são inacreditáveis. E, francamente, esse é um deles:  “Eu cometi o pecado supremo dentro da igreja evangélica: eu pensei!”. Ou seja, o que essa afirmação diz de forma maldosamente generalista é que todos os cristãos que congregam em igrejas evangélicas não pensam. Ou, se pensam, estão contrariando os princípios elementares da organização.

Bem, eu sou membro de uma Igreja evangélica. E, segundo essa afirmação, eu sou um imbecil acéfalo. Ou, se viesse a pensar, estaria contrariando os ditames da Igreja evangélica, essa “maligna” instituição que imporia aos seus 970 milhões de fiéis por todo o mundo a idiotice e a ignorância (confira os dados oficiais aqui). Desculpem, mas qualquer uma das duas possibilidades é inverídica e, francamente, ofensiva. Não carrega em si graça nem espírito cristão. Não é por aí. Muitas vezes criticar é fruto simplesmente de um hábito que se adquire. Pascal disse: “O hábito é uma segunda natureza que anula a primeira”.

Se os que abandonaram a Igreja evangélica quiserem criticá-la, para começar deveriam fazê-lo dentro dos níveis de educação e respeito que o Cristianismo propõe. Como disse Blaise Pascal, a violência de frases injustas como “Eu cometi o pecado supremo dentro da igreja evangélica: eu pensei!” me lembra o que esse pensador cristão jansenista disse: “Eloquência positiva é aquela que persuade com doçura, não com violência”. Não, o nível do debate nunca deve ser esse.

É pra rir?

Sem dizer que é uma inverdade de proporções bíblicas. Sugerir que sacerdotes, teólogos, mártires e estudiosos das Escrituras membros da Igreja evangélica, como John Stott, Billy Graham, Dallas Willard, Augustus Nicodemus, Richard Foster, Ariovaldo Ramos, Walter McAlister, Lutero, Calvino, John Piper, Dietrich Bonhoeffer, Karl Barth e tantos outros que compõem a nuvem de grandes pensadores do Cristianismo “não pensam” ou se pensaram cometeram o pecado supremo da Igreja evangélica é no mínimo risível, para não dizer resultado de uma ignorância sem limites acerca do mundo protestante.

O comentário também acaba respingando em instituições para-eclesiásticas ligadas à Igreja evangélica, como a Visão Mundial, a Sepal, a Missão Portas Abertas e tantos outros ministérios, joga tudo num mesmo saco e diz que esses heróis da dedicação ao próximo e à causa de Cristo… não pensam?! É para rir?

A crítica sempre fez parte da História da Igreja. Ela é válida e em muitos momentos da trajetória da Igreja nesses 2 mil anos ajudou a pôr estruturas equivocadas novamente nos trilhos. Mas há um detalhe: é preciso saber como fazer essa crítica. Quem lê a transcrição dos debates de Lutero contra os papistas na Dieta de Worms (pintura ao lado), no movimento que gerou a Reforma Protestante (e, com o perdão da má palavra, a Igreja evangélica), verá a inteligência do reformador ao argumentar, sempre com base bíblica. Ou ainda, os debates entre Wesley e Whitefield acerca da divergência calvinismo X arminianismo. Embora os debates fossem acalorados, os argumentos de ambos os lados eram muito bem fundamentados.

Em comparação, as afirmações dos atuais desigrejados (ou antievangélicos, talvez seja um termo mais adequado) são emotivas, eles usam frases feitas, argumentos generalistas, por vezes uma irreverência infantilóide, chamam pastores sérios de “bundões” e lançam mão de estratégias de guerrilha que, francamente, não colaboram em nada para a causa de Cristo e do Evangelho. Querem derrubar catedrais atirando balões de água contra elas. Ajuda a desabafar? Pode ser. É eficaz no combate aos abusos cometidos dentro da Igreja organizada? Nem um pouco. Então a pergunta óbvia é: querido amigo ou amiga desigrejado(a), será que esse é o caminho? Ficar tacando lama do lado de fora? Ou será que o óbvio não seria voltar às igrejas e tentar consertar o que vocês tanto criticam? Colaborar? Somar esforços? Arregaçar as mangas junto aos que vocês consideram doentes e cuidar de suas doenças em vez de ficar nesse nhenhenhem que não ajuda em absolutamente nada a causa de Jesus Cristo e do Reino de Deus?

É evidente que existem más igrejas. É evidente que existem maus pastores. É evidente que muitos abusos têm sido cometidos. É lógico! A Igreja é formada por pessoas pecadoras, que erram, ofendem e carecem do nosso perdão diariamente! Exatamente como eu e você, sejamos nós membros de uma igreja evangélica ou  antievangélicos! Seria ingenuidade supor o contrário. Porém, daí a dizer que “o pecado supremo dentro da Igreja evangélica é pensar” significa aglutinar 500 anos de protestantismo em uma frase que acusa grandes homens de Deus como os pietistas, os morávios, os puritanos, John Wesley, John Bunyan, William Cowper e David Brainerd de…não pensar. E isso é de uma irresponsabilidade atroz. Um pouco de estudo sobre teologia e História da Igreja não faria mal nessas horas. Frases feitas como essas me lembram de outra máxima de Blaise Pascal: “Todas as boas máximas se encontram no mundo: só falhamos ao aplicá-las.”

O pecado supremo

Do mesmo modo que os antigos sofistas gregos (como Protágoras e Górgias), os desigrejados pegam suas experiências pessoais desagradáveis com a igreja ou uma ou outra pessoa ligada a ela e usam essas experiências como dogmas para definir que a Igreja evangélica não presta, que os que nelas congregam não pensam ou outras sandices como essas. Esses irmãos machucados tomam-se como a medida de todas as coisas e empreendem cruzadas iconoclastas e quixotescas contra seus moinhos de vento. E, do modo que os antievangélicos as vêm promovendo, tornam-se cruzadas meramente ofensivas a 970 milhões de cristãos ao redor do planeta. E, sejamos francos? São cruzadas inúteis.

Se quiserem acusar certas igrejas neopentecostais com suas práticas antibíblicas de leviandade, eu apoio e faço coro. Se quiserem combater as heresias que surgem no seio de setores da Igreja evangélica (como a Teologia Relacional e o Liberalismo Teológico), assino embaixo. Se quiserem denunciar pastores que agem mais como empresários da fé do que como médicos de almas, contem comigo. Agora, dizer que pensar é o pecado supremo da Igreja evangélica é pegar a escória e pôr no mesmo patamar dos que lutam para levar o Evangelho de Cristo aos pecadores e discipulá-los de modo bíblico, sério, sólido e com temor sincero a Deus dentro dos quadros da Igreja evangélica. E, francamente, isso sim é um tremendo de um pecado.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

.

Existe um tipo de aranha, chamada viúva negra (foto ao lado), que tem um comportamento bem peculiar: de tamanho mais avantajado que o dos machos de sua espécie, ela depende deles para se reproduzir. Por isso, aceita a corte do macho, estende a ele sua sedução e topa ter um relacionamento. Mas basta o macho ter terminado de fecundá-la que a viúva negra o agarra e o devora lentamente, com ele ainda vivo, deixando apenas uma casca vazia e retorcida. Isso mesmo. Aquele que foi tão importante em certo momento de sua vida simplesmente se torna seu jantar. Imagino os olhinhos esbugalhados do surpreso e assustado aranha-macho ao ver aquela de quem ele tanto precisava, que tanto quis, que afinal acreditou ter vindo para resgatá-lo de uma vida de tristeza… ser sua ruína final.

Pois em nossa vida existe uma viúva negra que age de modo muito semelhante. Seu nome é solidão (ou, em outros dialetos, carência afetiva). Fato é que tenho visto tantos e tantos cristãos solitários e carentes! Tão desesperados por preencher com alguém as lacunas que existem em suas almas que acabam cometendo grandes erros, equívocos dos quais vão se arrepender pelo resto de suas vidas – exatamente como o aracnídeo macho.

O processo é relativamente semelhante na maioria dos casos. Começa com a pessoa sentindo-se solitária, carente, incapaz de viver uma vida que tenha sentido se nao houver alguém que preencha as lacunas que há em sua alma. A pessoa não se basta a si mesma. Precisa de outro. “Não sei viver só”, diz. A falta de um ente amado lhe é tão ensurdecedora que, na ausência de um amor verdadeiro, acaba convidando para habitar em sua vida afetiva alguma pessoa por quem nutre algum tipo de sentimento benigno, seja uma amizade, um carinho, até mesmo atração física. Mas que não é AMOR. Eis o início do erro fatal.

A corte se inicia. Os dois se aproximam. A pessoa vê naquele outro a oportunidade de completar suas lacunas, seu vazio, sua solidão, sua carência. Até mesmo enxerga nele a possibilidade de ser o pai (ou a mãe) dos filhos que sonha ter. E o convida para entrar. Então, motivada não pelo amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”, mas por um vazio de solidão e carência, começa um namoro. É até gostoso, no início. O outro te diz palavras bonitas, exalta suas qualidades, diz que seus defeitos não importam, te chama de apelidos carinhosos, faz você se sentir querido, acolhido,  abraçado, acompanhado. De repente, a sensação de vazio some, o outro  te faz companhia, serenatas, te chama de “meu amor”, preenche os  espaços da sua carência.

Mas o tempo, ah, o tempo…esse  é implacável. Ele passa. E a sociedade tem suas exigências! Ela cobra. Aquele que está ali ocupando uma carência e tampando as rachaduras da solidão não pode ficar assim para sempre e, mais cedo ou mais tarde, terá de ser guindado ao posto de noivo – e, em breve, ao de marido (ou esposa). E, num dia qualquer, como um inseto que foi se enroscando numa teia até não conseguir mais sair dela, você vai acordar e descobrir que dorme ao seu lado, de aliança no dedo, alguém que foi trazido a sua vida por um tempo para ser reboco de lacunas vazias, mas só que agora ele não é mais isso: é seu cônjuge pa-ra-o-res-to-da-vi-da. Alguém com quem você terá de dormir todas as noites, entregar a ele seu corpo e sua intimidade, devotar-se completamente, dividir as fotos de viagem, ver TV abraçado sob o edredom, andar de mãos dadas, conversar sobre os pensamentos profundos que ele tiver na cabeça, dar beijos longos e ardorosos. Estar junto na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de sua vida, até que a morte os separe. Ali estará o pai (ou a mãe) de teus filhos – que terão a cara dele (ou dela).

O dia chegará

Mas um dia (e esse dia chegará, meu amigo, minha amiga, já vi isso incontáveis vezes, em especial entre evangélicos), deitada no travesseiro da sua teia, você vai se virar para o lado e deixar lágrimas escorrerem. Pois vai descobrir que aquele alguém muito legal que serviu para aplacar a sua solidão num certo momento da vida… não dá sentido humano a ela. Simplesmente é incapaz de cumprir o papel de compleitude, pois o papel dele era provisório, tinha prazo de validade, funcionava por um tempo – e o que você acha que ele faria pelo resto de seus dias ele é incapaz de fazer: ser AMOR.

Para ser honesto e cruel, falando friamente não haveria razão lógica ou emocional para ele continuar ali. Mas você é um bom cristão, então divórcio está fora de cogitação. Fica então um oco. E para sua surpresa (hoje você não sabe disso, mas descobrirá) nem mesmo os filhos que ele te deu preenchem esse vácuo, pois o tipo de amor paterno/materno é absurdamente diferente do amor que precisamos dar e receber de um homem/uma mulher. Vocé percebe que há um enorme rasgo e um incomensurável vazio em suas entranhas. Elas foram devoradas e você nem percebeu. Você quis matar a solidão e de repente se vê imerso numa indissolúvel solidão a dois. Sim, Cazuza acertou nessa: solidão a dois existe. E muito. E nossas igrejas estão abarrotadas delas.

Isso é um fenômeno muito comum entre cristãos de diferentes faixas etárias. Somos adestrados a casar. Achamos que é no outro que encontraremos nossa felicidade, nossa compleitude. E, meu irmão, minha irmã… estamos errados. Pois se o que buscamos é fugir da solidão, qualquer coisa ou pessoa que acabe com nossa solidão serve. Se o objetivo é suprir carência, qualquer um que nos chame de “meu amor” recebe o nosso sim. Ou mesmo um filho que venha pelo meio do caminho achamos que suprirá nossa carência ou aplacará nossa solidão. Mas você, que é veterano e a essa altura já criou os filhos, percebe que eles foram embora cuidar de suas vidas, curtir seus amigos, viver seus amores, ter seus próprios filhos. E o que restou a você no ninho vazio foi aquela pessoa legal a quem tem que chamar todos os dias de “meu amor” e dormir ao seu lado na cama. Abraçado, se ainda sobrar algum sentimento nobre que te obrigue a fingir que ele é seu grande amor. Mas não é isso. Não é isso! Não é isso o que nos fará feliz, não é isso o que Deus deseja nem o que Ele planejou para os seus.

Ossos e carne

Deus criou homem e mulher para se completarem. Para serem, como diz Gn 2.23, “osso dos meus ossos e carne da minha carne”. Para não conseguirem viver um sem o outro. Se arrancarem os seus ossos veja se consegue seguir vivendo sem eles. Arranque-se sua carne e veja quanto tempo dura sem desfalecer. Deus criou homem e mulher que se unem em casamento para viverem como um e morrerem como um. Casamento é uma coisa muito séria.

Aliás, amor é uma coisa muito séria. Não é brincadeira. Não é coisinha de poeta. E muitos de nós, especialmente nas igrejas, temos vivido nossos amores como uma grande equação matemática. Algo frio: preciso casar, é o que esperam de mim, não sei viver só, é o que todos fazem, então pronto: subo ao cadafalso do altar, me entrego ao carrasco do pastor e deixo que me executem. Mas, querido, querida, amor é razão, mas também é emoção e ação. Amor é um milagre. Amor é uma força que derrubou impérios, motivou guerras, gerou as maiores obras de arte da história da humanidade. No amor há livros, no amor há pintura, há escultura, há beleza e lágrimas. O amor é tão fundamental que ele é a essência do Deus que é amor. Como tratar isso apenas matematicamente? Racionalmente? Tratar o amor somente pela lógica seria ilógico.

Existe amor verdadeiro. Existe amor que dura para sempre. É ou não é o que a Biblia diz em 1 Co 13.8: “O amor jamais acaba”? Existe um amor, além do de Cristo,  que dá razão a um relacionamento. A uma vida. E esse amor não será jamais ocupado por rolhas postas para vedar lacunas de solidão e carência: só será preenchido por alguém que faça sua vida brilhar. Que faça sua vida ser.

A notícia não muito agradável é que pode demorar anos para você encontrar esse amor. Pode demorar muito tempo para chegar a pessoa que preencherá não só suas lacunas, mas que se fundirá 100% à sua alma. E esse é o problema. Não queremos esperar. Não suportamos a pressão. Não suportamos a carência. Seu peso nos esmaga. Ela é mais forte do que nós. A viúva negra tem um tamanho bem maior que o do macho. E muitos se sentem impotentes diante dela. Por isso, sucumbem. E, mais à frente, terão suas entranhas devoradas. Mas… naquele momento… Ah, que importa? A viúva negra lhe chama de “meu amor”, acaricia seu ego e seus cabelos, faz a solidão desaparecer. Lhe faz companhia. Manda flores. Ela te seduz, te atrai, te enreda em sua teia.

Mas a viúva negra traz morte.

Meu irmão, minha irmã. Eu e você vivemos numa sociedade que nos empurra para a teia. Mas não importa quanto tempo demore para que você encontre o amor. Na verdade, isso é o que menos importa, em se tratando de amor. Veja o exemplo de Jacó, que sabia exatamente quem queria e esperou o tempo que fosse:  “Jacó trabalhou sete anos por Raquel, mas lhe pareceram poucos dias, pelo tanto que a amava” (Gn 29.20).  Isso é amor. Isso é verdade. Isso é tudo. Não troque o ouro puro do amor verdadeiro, aquele que em termos humanos dará sentido a tudo o que você viverá até chegar ao seu leito de morte, pelo latão enferrujado de uma solidão suprida. Pela pobreza de uma carência afetiva aparentemente resolvida. Por um nada travestido de alguma coisa.

Se estiver em dúvida, pergunte ao macho da viúva negra, de olhos esbugalhados e entranhas devoradas, se valeu a pena entrar naquela relação apenas para suprir sua solidão e sua carência. Lembre-se que o macho da viúva negra chegou à teia dela com um vazio na alma e com tristeza no coração. Mas inteiro. E, depois que aquela relação se consumou, tudo o que sobrou dele foi uma casca vazia, do que um dia foi alguém carente sim, mas cheio de possibilidades e de potencial para viver um grande amor. De viver uma VIDA. Nunca abra mão disso. Nunca.  Ou você estará se condenando voluntariamente à morte. A propósito, os filhos daquela relação entre a viúva negra e o macho seguiram seus rumos, foram viver suas vidas. A viúva negra também foi em frente, feliz que só. O macho? Acabou a vida oco, seco, triste e morto.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

.

Foi tudo muito rápido, nem me lembro direito do que aconteceu. Me disseram que um carro surgiu sei lá de onde e me pegou em cheio. Fui atirado no ar, caí no chão depois de voar uns metros, como um boneco de pano. Agora estou aqui em meu leito de morte. É isso mesmo. Os médicos disseram que não tem mais jeito, fizeram tudo o que podiam, mas a hemorragia interna foi massiva, alguns órgãos perfurados, muitos ossos esmigalhados. Só resta agora esperar o grande e inevitável momento em que Deus dirá “vem”. As dores são controladas por analgésicos, acho que morfina. Me deram este iPhone pra eu conseguir me comunicar digitando letra a letra no notepad, pois não consigo falar, minha mandíbula fraturou em oito pedaços, só consigo mexer uns dedos e até que dá para digitar este que talvez seja o último texto da minha vida.

Estou num CTI de hospital, aqui é solitário, sabe, só fico ouvindo o bip bip bip da máquina atrás de mim. O silêncio é ensurdecedor. Seria ótimo ter com quem conversar, mas, tirando meus pais, ninguém veio me visitar.  E falar tá impossivel, dói demais. Impressionante como a gente nao dá valor às coisas mais simples e corriqueiras da vida até que perde. Como poder falar. Andar. Coçar o nariz. Até respirar sozinho, sem precisar desses aparelhos.

Sabe, aqui no CTI não há muito o que fazer, então só resta pensar na vida, na morte e escrever com o dedo que me restou pra quem tiver paciência de ler.

Morte… é um momento crucial da nossa vida, sabe? Todos os 6,5 bilhões de habitantes do planeta sabem que esse dia vai chegar, mas ninguém quer pensar nele. Só que, ironicamente. agora eu não tenho muita escolha, afinal a morte está me encarando nos olhos, sinto seu hálito perto. É como se ela sentasse no meu peito, só esperando que Deus dê um sinal com o polegar.  Não sei quantas horas ainda tenho nesta terra, então vou tentar ser rápido em minhas reflexões.

Por incrível que pareça, mesmo estando a um passo do outro lado, o pensamento não se volta para a morte, mas para a vida. Tanta coisa passa pela cabeça! Não sou tão velho assim, sou jovem, poucos cabelos brancos na cabeça, então não me preparei para este momento como devia, confesso. Mas uma coisa já descobri: no momento em que a hora final está perto a gente olha muito mais pra vida do que pra morte. Curioso isso.

Vou te contar uma coisa que só quem está no leito de morte sabe: aqui nessa cama o pensamento nos leva a refletir basicamente sobre três coisas. Na verdade, em três tipos de relacionamento: com Deus, com as outras pessoas e com a gente mesmo. Curioso… minha casa, meu notebook, meu iPhone, meu Wii, meus sapatos, minhas roupas… nada disso ocupa muito os meus pensamentos. Não pensei nem um segundo em dinheiro, muito engraçado isso. Só agora, escrevendo aqui, me lembrei que dinheiro existe. Se aqueles pedaços de papel ajudassem a aliviar minha consciência pelas coisas erradas que fiz na vida acho que pensaria mais neles agora. Mas é muito estranho: não gastei um segundo desde o acidente pensando em dinheiro. Estranho mesmo, porque até ontem eram as coisas que mais ocupavam meus pensamentos. Ganhar grana. Trabalhar. Ralar. Conseguir cada vez mais e mais pra comprar um monte de coisas que neste minuto estou aqui pensando e vejo que não vão me servir de absolutamente nada. É irônico, sabe… Bem irônico. Sensação dolorosa de tempo perdido.

O que mais tem se passado na minha cabeça nessas ultimas horas são as coisas que fiz a Deus durante a minha vida. Ou melhor, as que não fiz. As vezes em que não o obedeci, em que não o amei o suficiente…  quanto tempo jogado no lixo! Gastei horas e mais horas me preocupando com coisas que, provavelmente, amanhã não terão mais importância nenhuma em vez de passar mais tempo com o meu Deus. Cara, como eu orei pouco! Como eu passei pouco tempo com Aquele que daqui a algumas horas estará me recebendo na Sua casa celestial, se eu tiver o privilegio de ir para lá. Tenho fé em Cristo, creio que estarei com ele. Porque eu fiz tudo direitinho: fui à frente na hora do apelo, frequentei os cultos de domingo, fui a muitas atividades da igreja. Até entreguei folheto! Isso faz de mim um salvo, não faz? Fico pensando nos frutos que produzi e vejo que foi tão pouca coisa! Eu poderia ter feito mais. Eu me interessei tão pouco pelo meu próximo, sabe? Mas esse é o segundo ponto, se eu tiver tempo falo sobre isso. Por enquanto deixa eu falar ainda um pouco mais sobre meu relacionamento com Deus.

Eu ia dizendo o quão pouco orei. Tinha tanta coisa mais divertida pra fazer! Internet, TV, cinema, festas, trabalhos… bem… que adianta a essa altura do campeonato eu mentir? A verdade é que eu tive muito tempo para orar. Tive tempo de sobra. Mas eu realmente não priorizei a  oração. A quem estou querendo enganar? Eu poderia ter orado mais sim, tive tempo pra isso. Eu só não estava a fim. Pronto, essa é a verdade. Às vezes eu achava chato. Tinha tanto pra fazer e nunca pus a oração entre o top ten das minhas prioridades. Por isso orei muito menos do que poderia. E por isso conheço muito menos o meu Deus do que gostaria agora, que estou prestes a estar cara a cara com Ele. E aqui, no leito de morte… olha, isso faz uma diferença! Pois não sinto que tenho tanta intimidade assim com Cristo quanto gostaria e precisaria ter agora. Sempre achei que ainda teria muito tempo para orar. Mas…

Pra não falar da leitura da Biblia. Nossa, essa então… me dava um sono tão grande ler a Biblia… sempre tinha um filme mais legal na TV ou um amigo pra bater papo no MSN. Não, eu conheço muito menos a Biblia do que deveria – por pura preguiça de ler (não sei o que acontece, em nosso leito de morte a gente fica mais honesto, sabe? Admite coisas que antes não admitiria. Vai explicar…). Mas a verdade é que eu não li a Biblia como deveria por preguiça mesmo, por sempre ter algo mais “importante” pra fazer. Mas acredite, no nosso leito de morte nada é mais importante do que saber o que nos espera do outro lado. E eu sei tão pouco… é… eu deveria ter lido mais a Biblia. Pena que agora não dá mais tempo.

(Desculpe, vou parar de escrever um pouco, deu uma vontade grande de chorar um pouquinho, essa coisa de estar no leito de morte deixa a gente meio sentimental, sabe? Já volto).

Oi, perdão. Voltei, puseram alguma coisa no meu soro que me acalmou  um pouco, parece. Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Como eu dizia, minha relação com Deus poderia ter sido dez mil vezes melhor do que foi. Mas é o que é e agora não adianta chorar o leite derramado. A dor do meu corpo quebrado tá demais e só me resta esperar a hora da minha morte – que os médicos disseram que não vai demorar (eles falaram baixinho pros meus pais, mas eu ouvi). Aliás, por falar em pais, outra coisa que a proximidade da morte faz é nos levar a pensar nas outras pessoas. Cara, como eu passei pouco tempo com aqueles que eu amo… quanto tempo perdido fazendo coisas inúteis enquanto eu poderia estar perto dos que se importam comigo. E quantas brigas desnecessárias. Picuinhas. Bobagens. Ah, se eu pudesse voltar atrás…

E, sabe, eu estava pensando aqui, tantas e tantas e tantas pessoas que eu poderia ter ajudado e não ajudei… eu vi tanta, mas tanta gente passando fome, doente, sozinha e… eu não dei a mínima. Essa é que é a verdade. Não dei a mínima. Eu sempre fingia que não via, que alguém ia fazer aquilo que eu poderia ter feito pelas outras pessoas e… agora, aqui no meu leito de morte, eu percebo que não fiz nada. Nada. Nada. Quase nunca visitei um doente, levei comida a um órfão, consolei uma viúva, investi tempo em trazer alento e alegria aos outros. Digo “quase” porque me lembro de uma vez em que saí de um restaurante e, como não aguentei mais de tão empanturrado de comida que estava, pedi pra levar o resto do almoço numa quentinha. Só que acabei dando pra um mendigo que ficou me pedindo. Sei lá, acho que foi pra ele parar de me chatear. Claro que quando eu é que estava mal queria toda a atenção do mundo, mas quando era pra amparar os outros… Pfff, fala sério.

(Espera um segundo só. Deu uma vontade louca de chorar mais um pouquinho…)

Desculpe, cara, é difícil olhar pra trás e ver que a nossa passagem pela terra não fez tanta diferença quanto poderia ter feito. Eu sinto a vida se esvaindo de mim. Sinto claramente. Mas, por mais que a dor seja intensa, não se compara a essa sensação de inutilidade – mais do que isso, de futilidade. Minha vida passou, eu me preocupei demais comigo mesmo, me preocupei demais com o que vou fazer amanhã, no fim de semana, nas férias, no ano que vem, em planejar a minha aposentadoria e… eu não vou passar desta noite, foi o que ouvi o médico dizer aos meus pais.  Quanto tempo perdido. Quanto tempo jogado fora. Quanto tempo desperdiçado…

Sinto que aos poucos meus dedos não estão me obedecendo mais. Tá começando a ficar bem complicado digitar. A visão está escurecendo. Tá difícil. Acho que vou parar por aqui. Eu não sei quem é você que está me lendo, peço desculpas. Não conheço seu nome. Não sei sua idade nem o que você faz. Que triste isso. Certamente teria sido muito bom ter conhecido você. Perdoe-me por não ter me preocupado com os seus problemas antes, preferindo você a mim em honra.  Sinto que, se não fiz tudo errado, errei muito. Se você tem tempo de fazer o que a Biblia diz, faça. Se você tem como priorizar sua relação com Cristo, priorize. Se você tem saúde para ajudar seu próximo, ajude. Se você tem a capacidade de valorizar mais as pessoas do que os bens materiais, valorize.

E, especialmente… se você tem tempo…. use-o com sabedoria. A Biblia nos ensina no livro de Jó que nossa vida… é como um sopro.

Deus está soprando. Desculpe, hora de eu partir. Você… ainda não. Aproveite cada segundo que Deus te dá.

Deus está soprando. Tenho que ir.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

.